domingo, 18 de setembro de 2011

A roda da Fortuna


Estou procurando sem sucesso o livro “A Velhice” de Simone Beauvoir. Muita gente deve estar fazendo o mesmo, já que a obra está esgotada na Editora Nova Fronteira, que tem publicado a obra de Simone, assim como a de Sartre. Na Estante Virtual também não encontrei a edição que busco ler, de 2003. Os poucos exemplares usados à disposição são da década de 70 e estão caros. Meu interesse pela obra vem do fato de que estou no alvorecer dos 58 anos e a hora de confrontar-me com o texto é agora, quando não me encontro com grandes problemas de saúde e tenho um distanciamento do que se coloca no livro, sob o ponto de vista existencialista. Simone de Beauvoir afirma que a sociedade de consumo trata os velhos como párias, condenados à miséria, à solidão e ao desespero. É exigido dos velhos a serenidade, o que evidencia o desinteresse pela infelicidade dos idosos.
Quando procurava “A Velhice” na Estante Virtual, verifiquei obras cujos títulos levam à compreensão da velhice na trilha parecida da auto-ajuda. Uma obra que me chamou a atenção foi “Rejuvenescer a velhice”. Segundo informação da contracapa, a terceira idade é entendida como a etapa mais rica e experiente da vida e, por isso mesmo, a mais propícia a aprofundar-se no autoconhecimento e na percepção da sociedade. Destas reflexões brotam as formas possíveis do idoso atuar e integrar-se no corpo social, debelando com sabedoria os rótulos e preconceitos que ainda atingem esse segmento da população. Acredito que alguns idosos saudáveis consigam essa integração social, mas o comportamento da sociedade com os velhos ainda é preocupante. Parece que se esquecem de que velhice é preocupação com a falta saúde. Outra é a solidão. Os velhos que podem “rejuvenescer” são os mais ricos, que dispõem de meios para embasar o cuidado que lhes é necessário.
Outra obra de título interessante que encontrei foi “Vencendo a velhice”, da Dra. Ana Aslan. Fiquemos na afirmação do título: você acha que é capaz de se vencer a velhice? Como se a velhice fosse uma doença de que se pudesse sarar. Outro é “Pondo Fim à Velhice”. Pronto, você acaba com ela, fica eternamente jovem. Aliás, quando vejo matérias na tevê mostrando idosos fazendo ginástica, teatro, brincadeiras infantilizadas, alguns depoimentos de idosos que se sentem como se tivessem 15 anos fazendo atividades físicas, tudo isso me deixa com a pulga atrás da orelha. Que se façam exercícios, que pratiquem atividades criativas, mas não tornem os velhos imbecis. Já repararam como há terapeutas da terceira idade falando aos velhos no diminutivo, como se fossem crianças?
Velhice pra mim é aceitação da condição humana. É confronto direto com a solidão. É finitude. É preparação para a morte que não consigo ainda aceitar. Velhice é amadurecimento, e eu preciso amadurecer para aceitar as coisas não muito boas que poderão vir por aí, espero que não muito cedo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Relato de viagem



A viagem a Rússia e Escandinávia estava sendo planejada desde que me aposentei em 2007. Como na ocasião eu adquiri uma polineuropatia inflamatória crônica desmilienizante, que comprometeu um pouquinho o movimento dos pés, fui deixando a coisa passar, até que agora o projeto aconteceu. A ida até Moscou foi muito demorada, oito horas de espera no aeroporto de Amsterdam para conexão a Moscou. Estando lá, dois dias cheios e não consegui ter uma visão mais abrangente da cidade. Será que Moscou seria somente o Kremlin e a Praça Vermelha? O passeio interessante que fizemos à noite pelos pontos turísticos da cidade, se oferecido durante o dia, daria uma visão mais diversificada da capital russa. Um dia a mais em Moscou teria sido perfeito, pois gosto muito de frequentar museus e não pude ver o de Gorki, grande escritor russo que tanto admiro. Como a fala e a escrita são enigmas, consegui decifrar muita coisa usando meu inglês que julgara enferrujado. Especialmente em restaurantes, a coisa foi meio complicada. Mas deu tudo certo.
São Petersburgo é uma cidade charmosa. Cortada pelo rio Neva, possui uma arquitetura meio barroca, em que o estilo austero dos soviéticos não pôde alterar. O palácio de verão de Catarina II, a Grande, é sensacional. Quase todo ele em estilo rococó, começou a ser construído em 1717. O salão de baile, todo decorado em ouro, bem como o Salão Âmbar, são deslumbrantes. A Rússia foi assim um pouco intenso de história. Muito dessa riqueza vem da aristocracia que os bolchevique tentaram apagar.
Da Rússia a Finlandia, a história cede lugar às belezas naturais. Helsinque, uma graça. Poderia ter ficado mais um dia. A cidade é pequena e agradável. Ao contrário do que eu sabia, a Finlândia não faz parte da Escandinávia, tem uma língua diversa das demais, uma das mais antigas do mundo, que se aproxima do tronco da língua romena. De lá, viagem de navio a Estocolmo. A travessia do Mar Báltico só fez sentido, porque o ônibus precisou ir junto. Foi um tempo precioso que se desperdiçou. Estocolmo, entretanto compensou o esforço. Cheia de canais, tem uma rua de pedestres imensa e colorida que leva aos pontos turísticos importantes da cidade. A visita aos salões da prefeitura, onde acontecem as cerimônias de entrega do Nobel foi muito bacana.


De Estocolmo a Oslo, o cansaço. Três dias cheios dentro do ônibus, paisagens belíssimas vistas da janela, pois as estradas estreitas não permitiam parar para sacar fotos. O que se via o tempo todo era uma paisagem rural com suas casinhas com telhado de grama (eles dizem que isso protege do frio) próximas a lagos e fiordes. O passeios pelos fiordes, que era o que mais me interessava, ficou com menos brilho por causa dessa trajetória cansativa. Oslo agradou não tanto quanto as demais visitadas. O passeio fechou com uma Copenhagen linda e sedutora. Lá, um dia a mais não faria nada mal a ninguém. Aproveitei a noite no “canal”, um local perto do porto, repleto de restaurantes, onde tomei vodca e cerveja “strong”. Kopenhagen prioriza a bicicleta ao pedestre. Há muita, mas muita bicicleta circulando em ciclovias que existem em todas as ruas que vi.
Quase não troquei dinheiro. Usei o cartão para tudo. Apesar dos 6,5%, achei que valeu a pena, porque não me enchi de moedinhas indesejáveis depois que se vai embora, e porque a conversão ao dólar comercial valeu a pena. Agora, em casa, estou curtindo a música erudita do músico norueguês Eduard Grieg e estou começando a leitura de “Noites Brancas”, de Dostoievski, cujo cenário é São Petersburgo. Para finalizar, quero dizer-lhes que é muito bom estar de volta ao lar.

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia do Pai

A lembrança de meu pai é de um homem velho. Quando nasci, ele tinha mais de 50. Aos dez anos, a imagem dele era de alguém que exercia sua autoridade sobre a família. Ele nunca foi de bater nos filhos, na maturidade, mas usava o sermão como arma infalível para consertar alguma coisa em meu comportamento arredio. Em minha adolescência, lá pelos 14, 15, 16, discutíamos muito, pois punha em prova sua maneira de pensar, antiga, ao comportamento novo da geração de 60. Mas não éramos de muita conversa um com o outro, não. Sempre fui um cara reservado, fazia as coisas em silêncio. Na minha infância, tinha três irmãs na casa. Menino não se podia meter na vida feminina. Por isso mesmo fazia minhas brincadeiras e fantasias no pátio, na rua, com a liberdade que me era designada. Um irmão me disse um dia desses, que meu pai era uma pessoa fora de série, pena que eu convivera já com a velhice dele, com algumas doenças e não pudera participar de seu estilo peculiar na educação dos filhos. Seu poder de força, com a idade avançada, não era a mesma que meu irmão vivenciara em sua juventude. Meu pai, para ele, era um herói. A única herança que ele dizia legar aos filhos, era a educação. Era necessário estudar. Mais que trabalhar. Sempre admirei a forma como meus irmãos mais velhos se relacionavam com ele, tendo como ponto de vista o respeito. Comigo e minha irmã mais nova, nossa convivência era mais aberta, havia respeito, mas podíamos divergir, discutir, brigar, pois esse era o caminho que ele escolhia sempre, permitir o diálogo.
Uma imagem que me dói de meu pai, era a de pessoa solitária. Minha mãe havia morrido. Minha irmã e eu trabalhávamos e ele cuidava da casa, rodeado de sua solidão e da lembrança de minha mãe, que partira há pouco. Seu sorriso já não era mais o mesmo, até quando algum tom alegre no ambiente o fazia sorrir. Quando não gostava de alguma coisa, limitava-se a resmungar e fechava a cara de poucos amigos. Às vezes eu implicava, perguntando-lhe o que era. Ele respondia nada. Certas dores no corpo, a pedra nos rins...
Percebia-se a mudança também no rosto. A boca que pronunciava palavras silenciosas, enquanto jogava cartas sozinho na sala, era uma boca de defunto. Os olhos castanhos acumulavam as marcas do tempo a seu redor e os poucos cabelos da parte lateral da cabeça não escondiam mais a mescla de grisalhos: era completamente branca.Quando se aproximava para me desejar bom dia, o braço que me tocava o ombro, completamente flácido, era leve e indeciso.
Quando me sentava na outra ponta da mesa para tomar o café da manhã, sentia sua respiração ofegante. Tossia de vez em quando. Ouvia o barulho da xícara raspando o pires e me sentia assim como ele, também diminuído, trancado na mesma saudade, parceiro de mesma solidão.
O silêncio enchia a sala. Quando essa triste lembrança da morte dela se tornasse saudade, talvez pudéssemos discutir futebol e política, sorrindo e brigando como amigos. Torcia para que o tempo fizesse surtir seu efeito.
Não foi possível. A saudade dela acabou tirando-lhe a vida alguns anos depois. A coisa de que mais sinto falta em relação a ele, é de poder lhe dar um abraço apertado.

domingo, 7 de agosto de 2011

A vulgarização do afeto

Você já esteve em uma rodinha de amigos, certamente, batendo papo, até que a roda se desfaz por motivo vário e cada um se despede, dá um abaninho e diz: “tchau, um beijo”. O beijo não é dado. É falado. As pessoas estão todas juntas, uma frente às outras, e o beijo sai falado. Entre homens é o afeto falado do “até mais, um abraço”. Puxa vida! Por que não dar um abraço corpo a corpo? Já repararam que muitos homens se abraçam colocando a mão no peito um do outro, para evitar o confronto corpo a corpo mais direto? É da cultura machista. Não tem jeito. Pois é, mas assim é a vida. Pode ser que as pessoas dessa rodinha não sejam grandes amigos a ponto dos lábios tocarem o rosto do outro. Então se usa a tal cortesia de demonstrar um afeto não tão próximo através do beijinho falado e não dado.
Certa vez, quando estava em Brasília montando um curso de linha na Gepes do Banco do Brasil, fui apresentado a uma educadora, dessas chefas com alto cargo inerente à competência de sua função. Muito cortês à primeira vista, chamava-me pelo nome toda a vez em que conversávamos no horário do lanche coletivo. Quando finalizou o lanche, ela desejou um bom final de tarde a todos e a todas (não sei por que dessa moda, pois o gênero “todos” inclui, quem exclui é o “todas”) e propôs que todos ali presentes se dessem um abraço de confraternização. No dia seguinte, cruzamos eu e ela em sentidos opostos no imenso corredor deserto da Gepes. Quando chegamos bem próximos, olho para ela, mas ela ignora minha presença, como se eu não existisse passando por ela naquele momento. Fiquei intrigado. No dia anterior ela propôs um abraço de confraternização. Abraço é coisa séria, gente! No dia seguinte, já propôs que fôssemos anônimos, fingindo desconhecer um ao outro. Essa característica, aliás, é típica de ambientes de trabalho em que há muita gente e não se pode ou não se quer estar “arreganhando os dentes” a toda hora e momento.
Ora, não se trata de arreganhar os dentes a toda hora e momento. Um olhar não tira pedaço de ninguém. Não é preciso nem falar, basta o esboço de um sorriso que a cordialidade está feita. Mas a vida é assim mesmo. Já me disseram que ninguém é obrigado a estar feliz o tempo todo. Eu penso, entretanto, que é possível a delicadeza e a gentileza sem grandes estardalhaços, que daí é exagero falso. Se fôssemos mais autênticos em nossa forma de demonstrar afeto a terceiros, poderíamos, quem sabe nessa tal rodinha, dar um adeus e “até a próxima”. Senão, dá um beijo, cara, não custa nada!

sábado, 30 de julho de 2011

Os males do fumo




Dias desses, desci para esperar o táxi na portaria. Lá, estava uma vizinha conversando com o porteiro. Senhora educada, nos seus cinquenta e poucos anos, pelo modo de se expressar me fez pensar numa professora universitária. Moradora solitária, sempre que passo pela portaria a vejo conversar com o porteiro. Já houve queixa ao síndico, de suas conversas com o empregado. Mas, que fazer, ela não dá importância e se detém na portaria, a contar de sua vida. Dessa vez em que desci a esperar o táxi, ela contava ao porteiro que fumava por prazer. Disse a ele que nunca fumou no trabalho. Sempre depois, no "happy hour", acompanhada de um chopinho. O porteiro lhe perguntou se ela alguma vez pensara em parar e ela lhe disse não. Gostava de fumar. Durante o fumo, ela punha a vida em devaneio e o tempo passava com prazer. Como visse que eu observava a conversa, virou-se para mim e disse:
_ Sabe, vizinho, adoro um traguinho. Mas não abuso não. Agora que estou envelhecendo, é só um cálice de vinho tinto. Faz bem ao coração. Mas sabe como são as coisas, a bebida sempre puxa um cigarrinho. Impossível beber sem fumar. No que me diz respeito, comecei a fumar em torno dos dezesseis anos e nunca parei. É verdade que só ocasionalmente fumei mais de vinte cigarros por dia. O que fumei? De tudo. Do cigarro sem filtro ao mentolado. Cigarrilha e charuto também. Gostava muito do Mistura Fina. Com ele me iniciei no fumo. Hoje fumo dos mais fracos, por causa de uma tossezinha seca.
O senhor sabe, ela me disse, aproximando-se, o fumo, que se casa admiravelmente com o álcool (se o álcool é a rainha, o fumo é o rei), é um companheiro caloroso de todos os acontecimentos de minha vida. É o grande companheiro dos dias bons e maus. Acende-se um cigarro para festejar uma alegria ou para disfarçar um amargor. Quando se está só, ou acompanhado.
Continou: o fumo é um prazer de todos os sentidos – da visão (que belo espetáculo, sob o papel prateado, esses crigarros brancos arrumados como para uma parada), do olfato, do tato. Se me vendassem os olhos e me colocassem um cigarro aceso na boca, me recusaria a fumá-lo. Gosto de tocar o maço em meu bolso, de abri-lo, de apreciar entre dois dedos a consistência de um cigarro, de sentir o papel em meus lábios, o gosto do tabaco em minha língua, de ver brilhar a chama, de aproximá-la, finalmente de encher-me de calor.
O senhor sabe, um homem que eu conhecia desde a universidade, da alta burguesia porto-alegrense, de centrodireita, engenheiro, morreu de um câncer no pulmão. Ia vê-lo no hospital, no bairro Menino Deus. Já faz um tempinho. Tinha tubos por todos os lados e uma máscara de oxigênio que retirava de quando em quando, para aspirar, muito rápido, às escondidas, uma baforada de cigarro. Fumou até as últimas horas de sua vida, fiel ao prazer que o matava.
Meio incomodado, fui me aproximando da porta, para esperar no jardim. Ela continou comigo. Assim sendo, se o senhor me permite, para encerrar essas considerações sobre o álcool e o fumo, pais das profundas amizades bem como dos devaneios fecundos, dar um duplo conselho: não beba e não fume. É perigoso para a saúde.
Quando me dirigia em direção ao táxi que chegara, ela veio atrás de mim e arrematou:
_ Acrescento que o álcool e o fumo acompanham agradavelmente o ato de amor, também. Geralmente o álcool se situa antes e o fumo depois. Mas o senhor me desculpe a intimdade inadequada. Não vá esperar de mim confidências extraordinárias. Essas particularidades, a gente não conta a ninguém. Até a próxima.
Abri o portão e saí desconcertado. Vou morrer e não vou conseguir ouvir tudo não, pensei. Entrei no táxi e me fui.Saudade de um filme surrealista de Luis Buñuel.
===============================
Por falar em Buñuel, recomendo-lhes seu livro de memórias:

Luis Buñuel. Meu último suspiro. Rio, Nova Fronteira, 1982

domingo, 24 de julho de 2011

O ídolo pelo avesso


Os jornais noticiaram neste sábado a morte de Amy Winehouse. Os reporteres e fãs diziam que já sabiam que o destino dela seria esse, mas não pensavam que ia ser tão cedo. Suas atitudes e os escândalos noticiados pela mídia criaram a esteira para que afirmassem isso. A cantora necessitava do álcool e das drogas para sobreviver. Sabemos de personalidades que carregavam o enigma que não conseguimos depreender com isenção de partido: para eles, viver dói e dói muito. É possível não ter amor à vida e seu futuro de felicidade a ser conquistada. Os alcoolistas são assim. Os drogaditos também. Não é preciso ser famoso para sentir a mesma dor dos famosos que amamos, morrendo em desastre, na mais completa solidão. Quem consegue permanecer vivo, vive sempre o dia de hoje, pois a vida é uma batalha. Deprimida constantemente, Amy era mais famosa por seus pileques e atitudes agressivas do que por sua música. Esqueceu letras e caiu em shows no Brasil.
Quando tropeçou e caiu,a platéia aplaudiu, confortando-a do constrangimento. Muitos não gostaram de sua performance frígida. Foi gravada e fotografada no bar do hotel em que estava hospedada, no Rio, bebendo do conteúdo mortal que a alimentava viva.
A imprensa toda está explorando o 27 como um número cabalisto. Amy Winehouse, Janis Joplin, Jimy Hendrix, Kurt Cobain e Jimi Morrison morreram jovens, todos aos 27 anos, sozinhos e de uma forma trágica. Lutaram para se expressar e morreram reféns do vício. Todos deixaram sua marca na estrada da música. Janis Joplin seduzia pelo vozeirão e movimentos felinos. Cantava o blues como ninguém. Disse que trocaria todos os dias de amanhã por um dia do passado. Símbolo da contracultura, eternizou sua imagem cultuada até hoje. Jimi foi outro símbolo de uma mesma geração. Deus da guitarra, criava e experimentava sons antes deles serem misturados pela tecnologia dos dias atuais. Num show em Monterey, 1967, entrou em transe, queimou e destruiu uma guitarra sob o delírio da platéia. Morrison, do The Doors, culto e sexy, andou sempre em busca de novas sensações. Várias vezes saiu algemado do palco por bebedeira e atentado ao pudor. Cantou bêbado em vários shows, caindo e rolando no palco. Kurt Cobain, do Nirvana, cometeu suicídio em 1994. Viveu um turbilhão psicológico com a atriz Courtney Cox. Deprimido, mergulhou na heroína.
O escritor Rodrigo de Souza Leão escreveu que na vida às vezes a gente tem de escolher entre esmurrar a ponta de uma faca ou se deixar queimar no fogo. Gente famosa como Amy Winehouse e gente anônima que sofre da pulsão de morte carregam consigo o enigma do desgosto pela vida. Viver pode ser uma dor muito profunda que nós, que não a sentimos ou não a sentimos com essa intensidade, talvez não a consigamos compreender. Nem aceitar.

domingo, 17 de julho de 2011

Universo particular



A vida é bela se você colocar o mundo ao redor de seu umbigo. Você vai criar seu universo particular. Vai selecionar as coisas que lhe são necessárias para dizer que se considera feliz e o mundo é maravilhoso. Seu universo é uma bolha. Nela você coleciona os amigos que lhe interessam, faz seu fisiculturismo, trata de sua saúde com uma alimentação competente, bebe seus 10 copos de água por dia, trata bem de seu sono, seleciona criteriosamente as coisas a seu redor. E assim vai. E você é feliz, pois a vida é bela. Em seu universo particular não há lugar para a pobreza, pois ela é feia e você não se considera responsável por ela. Atitudes maldosas e interesseiras, será que você as tem? Fazem parte de seu universo particular? Não, você se considera justo e a moral é uma meta. É importante ser correto, tratar as pessoas com justiça e igualdade, mas isso não quer dizer que determinados iguais possam fazer parte de sua bio-bolha E assim vai e você é feliz e a vida é bela. Se você se olhar por dentro, também, e verificar que uma vontade muito grande de viver é mais importante que o viver alheio, porque você se considera um vencedor de si mesmo, a vida também é bela.
Agora, você tira o olho de seu umbigo e concorda que o cinismo combina com a castidade. Ou a alma humana não é a mesma em toda parte, talvez a vida não lhe seja bela. Se o bem tem importância menor que a do mal, o desconforto do outro desloca sua comodidade... A vida não é bela. Não pode ser bela a vida que é cumprida por obrigação e sem prazer. Quando você transa sem camisinha com o namorado que conheceu na semana passada e nem se lembrou disso, alguma coisa está fora da ordem. As coisas boas e ruins da vida ao mesmo tempo não constituem beleza. O amor do filho pelos pais não é o mesmo amor dos pais pelo filho. O amor filial da infância e juventude esmaece, fica pálido. Torna-se afeto por obrigação, quando não se precisa mais deles. Quando você comete pequenos deslizes e os justifica porque fazem parte da cultura, como atravessar a faixa de segurança no sinal vermelho, segurando uma criança pela mão: não vinha carro e você foi cuidadosa. Dar uma estacionada relâmpago em vaga de deficiente físico de um banco eletrônico não faz mal nenhum, era coisa rápida, se aparecesse o deficiente físico você daria o lugar a ele, sem problema. No trânsito congestionado, dar passagem a um carro que está saindo da garagem, nem pensar, você está com pressa, ainda mais se você for mulher. Galanteria é coisa de homem.
A vida é bela. A vida não é bela. O egoísmo, muitas vezes, faz-nos acreditar que estamos bem, contentes em nossa zona de conforto, libertos da ansiedade e do medo de morrer (há pessoas que têm medo de viver). Então acreditamos ser felizes. E somos, porque não. Estamos no tempo. E o tempo não para. E ninguém é cem por cento feliz para sempre. A vida não teria graça sem o sofrimento para nos recompor a felicidade. Viver é complicado. É triste. É belo. É paradoxo.

domingo, 10 de julho de 2011

O amor cortês

Você conhece, por acaso, alguém que seja espirituoso, educado, sensível e galanteador? Desses ou dessas que conquistam pela inteligência aliada à inspiração poética? Não precisa ser um poeta, mas demonstrar ações e gestos em de forma poética. Alguém que conquiste sem a premência da cama? Alguém que te surpreenda em coisas antigas, mas bacanas? Provavelmente esse alguém seja adepto do amor cortês.
O amor cortês não é objetivo. Tampouco é platônico, como referem alguns. Requer menos interpretação e mais sentimento. Amor cortês é namorar. É encantar. É seduzir sem outra contra-indicação que não seja a sedução. Quem não seduz não pratica o amor cortês. Atenção, porém, sedução não é sinônimo de amor cortês. O amor Cortês seduz com requinte. Idealiza. Ou melhor, busca por em prática a idealização de um tipo de pessoa amada, que partilhará de seu perfil ideal de amante. Jamais o praticante de um amor cortês será mal-educado. Muito pelo contrário. Uma pessoa que busca conquistar a outra, enviando-lhe flores, será adepta do amor cortês se essas flores chegarem ao ser amado de uma forma diferente, ainda que simples. Lidar com a simplicidade de forma esplendorosa, essa é uma característica do amor cortês. Não precisa ser uma dúzia de rosas, pode ser uma única dália. Mas a forma e a situação em que essa flor aparecer, será de um requinte e refinamento muito peculiar.
Librianos, por exemplo, costumam curtir o amor cortês. Toda pessoa de libra pensa muito no amor, mas não um amor tórrido e cheio de paixão como pensa um taurino ou escorpiano. Amor para libra é antes de tudo algo carregado de ideias e ideais românticos, aquilo que faz um relacionamento perfeito. Refinamento, requinte e classe são qualidades importantíssimas para Libra. Mas não se iluda, há librianos e librianos. De turrões o mundo está cheio. Geminianos costumam aparecer nesse grupo, ainda que a discrição não lhes seja um ponto forte. Escorpianos também, apesar das desconfianças. Arianos, taurinos e leoninos não curtem o amor cortês. Para os desses signos, o negócio é pão-pão queijo-queijo.
O amor cortês teve sua origem na poesia trovadoresca da Idade Média e na poesia provençal. Nesse tipo de expressão poética, o amor cortês tinha traços de submissão à mulher amada. Ou a amada era sempre distante. O estado amoroso, por transposição ao amor dos sentimentos e imaginário religioso, era uma espécie de estado de graça que enobrecia a quem o praticava. Tratava-se também, pasmem, muitas vezes de um amor adúltero! O galanteador cantava seu amor a uma mulher casada.
Hoje, o amor cortês pode ser considerado uma forma inadequada de expressar o interesse ao objeto de desejo. A característica de vida solitária de nossa sociedade denuncia carências que se resumem a um afeto acompanhado de uma bela transa sexual. Amor cortês com sexo quase concomitante, até pode ser! Mas esse amor caracterizado por uma conquista poética e falsamente platônica está em desuso. Mas é bonito!
Se você quiser curtir o amor cortês concebido na sua origem medieval, loque o filme Tristão e Isolda. Talvez goste.

domingo, 3 de julho de 2011

Os palhaços

A palavra palhaço tem duas conotações básicas. Uma, mais usada frequentemente, tem aparecido com frequência nas notícias da televisão, é a depreciativa. A figura do palhaço é associada a um tipo de trabalhador que é feito de trouxa, desqualificado, bobalhão, ignorante. Com esse palhaço a classe trabalhadora não quer se identificar. Recentemente, assisti a uma matéria jornalística onde professores e demais servidores públicos protestavam contra medidas do governo gaúcho, visando ao aumento na percentagem descontada nos salários para prover o fundo de previdência do estado. Muitos desses manifestantes protestavam com a cara pintada e o tradicional nariz de palhaço. O protesto ameaçava com greves que prejudicariam alunos e a população que usa o serviço da rede pública.
Outra manifestação – menos recente – em que esse palhaço rejeitado apareceu, foi na dos médicos residentes do Hospital de Clínicas, protestando por aumento no valor da bolsa que recebiam para que se especializassem em um dos ramos da medicina. Lá estavam os médicos iniciantes com o narizinho de palhaço fazendo barulho do lado de fora do hospital, enquanto dentro estavam pessoas doentes sem atendimento médico.
Bem, o que essas duas entidades exemplificadas querem dizer a seus “patrões” é que os estão fazendo de bobos e suas atividades não são bobas, não são ridículas como a do palhaço, um profissional que ganha muito pouco, vive quase na miséria. São de outra natureza mais nobre e devem ser melhor qualificadas com salários mais justos. Eu discordo do uso da figura do palhaço,um trabalhador do riso, como depreciativa. O palhaço é uma profissão nobre, tem técnica, tem esforço, dedicação. Mas não é essa vereda que quero percorrer aqui. Quero enaltecer a figura de outro palhaço, positivo, criativo, emocionante. Que tem relação com o ridículo, mas a cobertura desse ridículo é o sublime. O palhaço é um personagem atrapalhado que nos mostra as fraquezas com as quais nos identificamos, mas temos vergonha de assumir. E agradecemos ao palhaço por fazer isso por nós. Quando o palhaço nos faz rir de suas imperfeições nos faz pensar que também somos assim, esse palhaço atrapalhado e lírico, que mostra suas fraquezas com uma perspectiva positiva. O palhaço, o clown, é visto no cinema com Woody Allen, que nos faz rir das neuroses que são compatíveis com a realidade de muitas pessoas. Damos risadas delas quando as reconhecemos e isso nos dá algo de liberador, de grandeza. Nos dá prazer sem negar a realidade. Kassia Kiss está apresentando na novela das sete um clown interessantíssimo: por trás da figura patética da personagem, meio sonsa, meio lenta em demasia, encontra-se o protótipo de um ser humano com conteúdo ético interessante.
Assim sendo, leitor, o palhaço é um bobo com quem muitos não querem se identificar, recusam o estigma de ridicularizados, de bobos levados ao ridículos. Também é um ser poético, atrapalhado e trapalhão, que busca através da arte nos fazer rir das coisas menos nobres da vida com nobreza. Faz-nos o favor de deixar que riamos de seus desajustes, livrando a nossa cara. Como sugestão de leitura, mais uma vez Cecília Meireles, que em muitas de suas crônicas enalteceu a importância do circo e do palhaço em sua infância. Recomendo "Escolha seu sonho", especialmente a crônica "Programa de circo".
===============================
Cecília Meireles. Escolha seu sonho. RJ, Record, 2005, 26ª ed.

domingo, 26 de junho de 2011

Três poemas de Cecília Meireles

Nesta semana comprei um lote de CDs maravilhosos. Entre eles, o disco de Nélson Freire gravado em Londres em 2010: Chopin The Nocturnes. O som límpido e cristalino do piano fustigou meu sentimento e a vontade de ler a poesia de Cecília Meireles com fundo musical.
A poesia de Cecília Meireles me encanta especialmente pelo poder da metáfora, de criar imagens cristalinas da alma humana, na maioria das vezes sem um tom alentador, posto que o tema central de sua obra é a solidão. Na solidão de si mesmo, o eu-lírico (grosso modo, o eu-lírico seria o equivalente do narrador no romance. Não é o poeta que fala, mas um eu-lírico com o qual nos identificamos ou não) questiona a dimensão humana em várias de suas nuances. No livro Ou isto ou aquilo, com poesias infantis, alguém, uma criança?, questiona a dificuldade de se querer tudo o que se deseja ao mesmo tempo. Leia essa beleza de poema:

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Quando crianças, aprendemos a conhecer os limites que vão afunilar nossa existência até o final de nossos dias. Mas a criança não quer saber de limites, ela quer o todo que lhe pode pertencer, o direito a aproveitar a vida do jeito que gosta, fazendo o que lhe der na telha. Seria tão bom se as duas coisas boas pudessem ser curtidas? Entretanto, algo já a perturba metafisicamente: a obrigatoriedade de fazer uma escolha. Por que não se pode querer tudo do que se gosta ao mesmo tempo? À medida que crescemos, continuamos fazendo escolhas a contragosto, deixamos coisas boas de lado, também. Faz parte da vida.

No livro Viagem/Vaga música, temos o poema Canção, em que podemos nos deliciar com o brilho das metáforas. Leia e sinta o significado de sonho, navio, mar e naufrágio na vida de uma pessoa:

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

O que representaria a figura de um navio? Um deslocamento, uma distância vencida, a busca da realização de um sonho, o distanciamento, a separação, a própria representação do sonho,o que mais? O eu-lírico de que lhes falei constrói um sonho em forma de navio e o põe a navegar, para que naufrague. A figura da água aqui é interessante: pode significar a vida, a purificação, o êxito, Nossas emoções e intuições têm a ver com a água. Água é mãe. A água pode ser o que existe para ser vivido desde o momento em que nascemos, até nossa morte. Também é turbulência, violência, desestabilização, agito, confusão... Tanta coisa! O alto grau de pessimismo de quem canta: o sonho se constrói e não se realiza. Não há perspectiva de sucesso na realização das coisas. Tudo se perde. O sonho que morre sem nascer permanece vivo na lembrança como um trauma (minhas mãos ainda estão molhadas/do azul das ondas entreabertas). O naufragar do sonho se dá por uma atitude do eu-lírico, que abriu o mar com as próprias mãos para por tudo a perder. Em contraposição ao azul das ondas entreabertas, se opõem o vento que vem de longe, a noite que se curva de frio e do afogamento de parte importante da vida representada em sonho desacreditado, impossível de acontecer.

O terceiro poema compreende a terceira etapa da vida: a da aceitação. Compreende também a importância do canto (que pode ser entendido como o poema) como um ofício, o trabalho do poeta:

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

O tempo voa, o tempo passa, e a vida continua a ser cantada em poesia. Compreende também o fazer poesia, através de indagações e da investigação da criação poética. Inicialmente, evidencia-se a fugacidade do tempo e do instante como justificativa do canto para preencher a vida. O eu-lírico distancia o sentir do cantar (não sou alegre nem triste/sou poeta). As coisas lhe são fugidias, efêmeras, inconstantes. O que a imagem do vento representa a você, leitor, no poema?
O poema reflete ainda a dúvida diante da vida: não sei se fico ou passo. E encerra com o estado de plenitude. O poder de cantar, que para a poeta é o poder de fazer poesia, retrata o instante, para eternizá-lo. A poesia é a razão de viver de quem canta.
Assim, querido leitor convido você a dar suas impressões, suas interpretações sobre um ou todos os três poemas como comentário do blog. Vamos lá!

domingo, 19 de junho de 2011

A caixa de Pandora


Acabei recentemente a leitura de Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, com tradução, introdução e comentários de Mary de Camargo Neves Lafer. Trata-se de um poema curto, onde o filósofo grego mostra-nos os fundamentos da própria condição humana e deixa transparente que o trabalho é a base da justiça entre os homens, abordando a organização do mundo dos mortais, sua origem, suas limitações, seus deveres. No poema, o relato central da narrativa é o mito de Prometeu e Pandora. Prometeu, um semideus, vivia em perfeita harmonia com Zeus, o deus dos deuses, até o dia em que o titã, num dos sacrifícios, engana Zeus, oferecendo-lhe ossos com gordura de um animal, em vez da carne. Revoltado, Zeus não concede mais o fogo aos mortais. Como Prometeu era astuto, rouba o fogo celeste e o oferece aos homens. Como resposta, Zeus dá-lhe de presente uma mulher, Pandora, o belo mal, o bem e a causa da desgraça para os homens (Prometeu rejeita o presente e sofre consequências trágicas, conforme abaixo). Com ela, instaura-se de forma definitiva a condição humana. Hesíodo situa o aparecimento da mulher com o surgimento de todos os males humanos. Pandora não é somente o mal em si, mas através dela surgem todos os males para os homens. Até então, os homens não precisavam trabalhar para viver. Com o rompimento entre deuses e homens e o surgimento da mulher mortal, acontece a separação entre deus e homens. Surge a sexualidade entre os mortais. Inicia-se a era da cultura. Lembremo-nos de que Prometeu era o criador pelo intelecto, ao contrário de Zeus, que era o criador pelo espírito.
Quem era Pandora? Uma mulher belíssima criada por Zeus com a ajuda de outros deuses, para presentear Prometeu, que astutamente a recusou. Como vingança, Zeus mandou acorrentá-lo a uma coluna na montanha, onde um abutre lhe devoraria o fígado durante o dia, ano após ano. Seu tormento seria eterno: todas as noites seu fígado se regeneraria para ser devorado no dia seguinte. O irmão de Prometeu, Epimeteu, alarmado com o castigo, casa-se com Pandora. E o que faz Pandora? Curiosa, acaba abrindo um jarro (algumas versões do mito mencionam uma caixa) que Prometeu havia dado ao irmão, com a advertência de não abri-lo, pois dentro dele estavam encerrados os males que podiam afetar a raça humana: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, o vício, a paixão. Apenas a esperança, que Prometeu havia capturado no vaso, não saiu. Não se tem uma idéia muito clara do porquê estar a esperança, entre os males enclausurados.
O tarô mitológico vê Pandora de uma forma reconfortante. Pandora é a estrela, a que simboliza a esperança. Representa o lado feminino da natureza humana: o instinto, o sentimento, a imaginação e a intuição que devem nortear as pessoas para a verdade. A esperança de que fala o tarô mitológico, está ligada a algo profundo dentro do ser humano, que muitas vezes chamamos de força para viver. Pandora, a esperança, oferece a fé. Na carta do tarô, o olhar de Pandora está fixo não na infelicidade da condição humana, mas na certeza irracional e inexplicável de que muito em breve uma nova luz brilhará.
Se me permitirem uma interpretação psicológica, o jarro, ou a caixa de Pandora, representam todas as coisas que nos incomodam e amedrontam e que guardamos dentro de nós. Quando liberadas, trazem a esperança de uma vida melhor. Pandora representa uma parte do ser humano que, a despeito das frustrações e desapontamentos, da depressão e das perdas, ainda tem forças para se agarrar ao sentido da vida e ao futuro que poderá superar a infelicidade do passado.
Voltando a Hesíodo, os gregos antigos foram malvados demais com as mulheres, não acham?
=======================
Robert Graves. O grande livro dos mitos gregos. SP, Ediouro, 2008
Hesíodo. Os trabalhos e os dias. SP, Iluminuras, 2009
Sharman-Burke & Greene. O tarô mitológico. SP, Siciliano, 1988,15ª Ed.

domingo, 12 de junho de 2011

Inverno

Eu adoro o inverno, com dias de céu azul e alguma elevação da temperatura pela tarde, que é quando a gente pode lagartear com casaco, manta, luvas, calça e meias de lã, comendo bergamota. Não uso gorro, me dá comichão na cabeça. Faço uso da manta para proteger as orelhas e o nariz. A manta serve também para filtrar o ar que respiro. O frio nos prende mais em casa. Isso é tão bom! Ficar deitado numa cama com um cobertor de lã e dois travesseiros embaixo da cabeça, ouvindo fone de ouvido ou lendo um livro. Vendo televisão com o split da sala ligado a 27 graus! Inverno também é tempo de receber pessoas, tomar chocolate quente, um vinho tinto com massa à bolonhesa, uma sopa de anholine ou um caldo de legumes com torradas. Inverno é movimento de poucas pessoas reunidas, para que o calor da conversa aqueça a todos e ninguém fique de fora. O inverno marca um traço do espírito do gaúcho. Essa proximidade que temos com Uruguai e Argentina tem muito a ver com o frio. Pena que pelos nossos pagos não possamos ter a mesma infra-estrutura dos castelhanos para enfrentar o frio, especialmente em relação à calefação de lugares públicos, como cafés e restaurantes, por exemplo.

Eu preciso ser egoísta para gostar do inverno. Não preciso enxergar que há pessoas que padecem de frio, com a falta de bens materiais para enfrentá-lo. Há os que ainda vivem com o banheiro fora de casa. Imagine tomar um banho de chuveiro elétrico em condições precárias, às 5h30 da manhã. Menos, imagine sair da cama às 5h30 com um frio de menos 10 graus. Ir para a parada de ônibus e esperar indefinidamente o ônibus para o trabalho. Há os que moram em casas de madeira, que não guardam o calor necessário para que se sintam bem. E os que moram na rua? Com sapatos furados e pés sem meias. Morrendo de frio. É penoso o inverno quando se pensa assim. Há também os que têm boas condições financeiras para enfrentar o frio, mas os pés e as mãos estão sempre gelados. Há os que se deprimem com o frio, ficam melancólicos.

Eu, que durmo até às dez da manhã, não preciso mais trabalhar, tenho condições de ter um chuveiro caudaloso a gás, split na sala e nos quartos, talvez pudesse me dar ao luxo de pensar no meu prazer com relação o frio, deixando os outros que resolvam seus percalços. Mas não é bem assim. Passei 35 anos acordando às seis da manhã, já tive banheiro fora de casa nos primórdios de minha vida de trabalhador. Hoje, tenho tudo ganho com o esforço de meu trabalho. Para usufruir desse conforto e ser feliz, deveria fechar os olhos aos que sofrem o frio rigoroso de uma madrugada gelada. Aos que não conseguem um emprego decente para enfrentar a temporada gerada da terra gaúcha. Aos que amam o calor e sofrem física e psicologicamente as agruras no meio do frio. Minha alma socialista não me faz sentir culpa, tracei esse caminho com muito suor, também. Me faz sentir solidário, ter senso crítico em relação às diferenças. Minha ajuda aos que padecem de frio vai além do mero ato assistencialista. Mas ainda não está suficiente para melhorar o geral. Isso não depende só de mim.