domingo, 16 de outubro de 2011

Meu lado professor

Fui professor durante 15 anos, trabalhando português, literatura e teatro. Larguei a profissão por um tempo, mas depois fiz novo concurso e lecionei literatura brasileira por mais três anos. Exerci a profissão com a de bancário sem problemas. Talvez por isso tenha saído do banco sem odiar a instituição. O serviço bancário era um serviço desgraçado, pois o que se produzia não era serviço criativo. Tinha a vantagem de ser um serviço coletivo, é verdade, mas o que se fazia me parecia ser produto de ninguém, um serviço sem cara. Depois que larguei o Estado de vez, tratei de exercer no banco a função didática, como educador da Oficina de Comunicação Administrativa, onde se tratava de simplificar o texto ao mínimo necessário, visando agilizar o fluxo de trabalho. Também era educador do BB Educar, dando cursos de 40 horas para formar alfabetizadores de jovens e adultos por esse Brasil afora. Agora aposentado, ainda permaneço ativo no quadro da FBB. Também atuei como alfabetizador em dois núcleos de alfabetização em Porto Alegre.
Como se pode ver, a educação está no meu sangue. Foi a profissão que escolhi como minha meta profissional. Ainda bem que consegui exercê-la paralelamente ao serviço bancário. O trabalho com literatura foi o que mais me cativou. Trabalhar com alunos de periferia era um desafio a cumprir, o que mais gostava de fazer. Você pode imaginar que alunos do segundo grau chegassem até ali sem terem lido um só livro de ficção? Eram muitos assim. Havia os que liam literatura espírita e Paulo Coelho. Era um começo. Busquei entrar em contato com esse material, lendo alguns livros, inclusive Paulo Coelho. Não se podia desvalorizar esse tipo de literatura, pois ela reforçava o gosto pela leitura. O que seu tinha que fazer era diversificar, trazendo textos com maior profundidade criativa, próximos a essa literatura consumida por eles. Era mais importante trabalhar o texto de um autor e a partir daí buscar as características de estilo que marcavam determinado período literário. Lecionar à noite era trabalhar com jovens e adultos na mesma sala de aula. Bater com pessoas que não compreendiam o que liam, já que não desenvolveram a capacidade de abstração em séries anteriores, justamente porque não liam.
O que eu costumava fazer: pegar o capítulo de um livro e digitá-lo no computar com uma letra maior, para que tivessem o conforto da leitura. Depois, ligar os acontecimentos dentro do contexto histórico em que a história era contada. Depois, a verossimilhança. Assim, a função social da literatura se fazia presente. Esta era minha linha de trabalho. Para levar esses polígrafos digitados em fonte maior, eu cometia um ato ilícito, os imprimia numa impressora do banco, usando o lado em branco de papéis já impressos. Aliás, agradeço aos colegas bancários que muitas vezes encontravam na impressora os impressos e não me entregavam à chefia. A chefia era camarada nesse ponto, também. Eu cometia uma infração que tinha um objetivo nobre. Estava buscando alimentar a cultura de gente trabalhadora que não teria acesso a material digno, se não fosse dessa forma.
Eu não era um professor bonzinho, entretanto. Tinha a “crueldade” de obrigar os alunos a lerem, no mínimo, um livro por ano. Para isso tinha minha biblioteca particular com romances e poesias da coleção LPM, que levava para a sala de aula e os deixava folheá-los e se interessar por um que pudessem ler. A tarefa deles não era fácil, eu fazia uma entrevista depois da leitura do livro. Alguns tentavam me enganar, pulando páginas, outros diziam que não conseguiam lembrar da história. Resultado, a nota não era dada até que lessem o livro todo. Claro que alguns não liam o livro todo, era necessário que eu me deixasse enganar. Mas a tentativa havia sido feita. Páginas, pelo menos, foram lidas. Eu puxava o couro dos alunos, mas nenhum deles era reprovado, pois todos buscavam um esforço de vencer dificuldades. Adquiriam a consciência de que havia uma defasagem em sua educação até o momento e que o esforço para alguma compensação, passava a fazer parte deles.
Um dia desses, no ônibus, uma jovem se aproximou e perguntou se eu era o professor Paulo. Ela havia sido minha aluna de teatro na oitava série da Escola Dom Diogo de Souza. Agradeceu-me pelas aulas de teatro e me disse que havia encontrado sua profissão dentro da área: havia feito a faculdade de Artes Cênicas e estava trabalhando numa peça infantil. No restaurante Marcos, uma noite, um garçom me perguntou se eu era o professor de literatura da Lomba do Pinheiro. Havia sido meu aluno (daqueles que me “enganavam” na leitura). Outro dia, uma cobradora do ônibus Santana me disse que eu havia sido professor dela, também. Todos eles me demonstraram afeto na abordagem, sinal de que meu lado “terrorista” não lhes trouxe grandes males. Ainda bem.

domingo, 9 de outubro de 2011

A escritora

Numa noite dessas um programa de tevê local entrevistou uma escritora famosa no mundo das letras. Dizia à entrevistadora que prezava muito a possibilidade do amor na terceira idade. Que as pessoas mais velhas, muitas vezes sozinhas depois de um longo amor em que construíram seu lar com filhos e uma casa acolhedora, tinham o direito de olhar para o lado. Que é possível a todos, sem nenhuma exceção, ser felizes novamente.
A escritora continuou a discorrer sobre seus pontos de vista em relação à vida e à vida em sua escritura, sempre olhando para a câmera, embora estivesse frente a frente com a entrevistadora. Eu não via a hora em que a entrevistadora, incomodada, pedisse que se dirigisse a ela e não à câmera para a conversa transcorrer em clima de certa intimidade disfarçada. Mas a escritora continuava olhando para a câmera, talvez para passar uma imagem mais verdadeira no batepapo.
O que a escritora achava das atrizes mais velhas esticarem o rosto: ridículo! As pessoas deveriam envelhecer valorizando o sinal dos tempos, já que o envelhecimento tem sua cota de beleza. Mas a senhora já fez plástica... Sim, minha filha, mas... pouca coisa! Alguns retoques para tirar as papas, nada que alterasse meu semblante. Não sei por que essa gente teima em ser outra pessoa...
A senhora valoriza o amor na terceira idade. Está amando um homem mais novo que a senhora? De fato, mas pouca coisa, também. Nem aparecem as discrepâncias. Essa história de que relacionamentos em que o “pai” procura a “filha” e a “mãe” procura o “filho”, isso é história de Nélson Rodrigues. Mas os médicos falam em testosteronas... Conversa pra boi dormir, minha filha. O amor maduro não é só sexo, écompartilhamento, é amizade. Amor maduro é amor de amigo, também.
Pois é, e o que a senhora pensa das críticas que vem recebendo, de que sua literatura é de auto-ajuda? Coisa de patrulhamento da esquerda festiva que vem infestando o país... Não dou bola pra crítica, nunca dei, não preciso dela para vender meus livros. Meu público é fiel e sabe o valor de minha obra...
Essa escritora passou a vender muito, desde que mudou seu rumo na escrita. Agora ela diz que escreve ensaios, na verdade um estilo de crônica meio longa, em que traça parâmetros de vida e opina daqui, opina dali. Parei de ler a escritora, depois de ler dois livros seus nessa linha. Essa coisa de comentar um fato e emitir um ponto de vista como verdade terapêutica me cheira sem graça.

domingo, 2 de outubro de 2011

Recortes




Decidi assistir ao filme “Tropa de Elite 2” na tevê a cabo, incentivado pela notícia de que representaria o Brasil na concorrência ao Oscar. Não consegui ver até o fim. O filme me aborreceu. Não sei se a platéia internacional conseguirá acompanhar o filme sem a base do primeiro. Tecnicamente pareceu bem feito, a ação ocorria em clima meio de jogos eletrônicos. As atuações eram boas, mas não me convenceu como história. Esse negócio do Brasil priorizar o cinema na linha “favela movie” para concorrer ao Oscar está ficando manjada demais.
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Ainda na televisão, assisti a flashes do Rock in Rio. Todas as cantoras absolutamente iguais em sua mediocridade. Pasmei quando vi um rapaz chorando na apresentação da cantora Rhiana. Não achei a menor graça nos figurinos iguais, todas elas de maiô ou shortinho, dançando do mesmo jeito, levantando pernas na testa e esfregando o cóccix no chão. As mesmas músicas. Berrando como só elas. Claudia Leitte busca seguir a fórmula global, parece competente no que faz, mas falta-lhe voz (ou técnica para aprimorar a voz).
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Decidi estudar espanhol no Instituto Cervantes. Há dois anos vinha estudando espanhol em casa e me saía bem nas provas da Ufrgs que baixava na internet. Senti necessidade, entretanto, de aprimorar a conversação, para evitar falar espanhol com a sintaxe do português. Pois numa das aulas, foi dado um exercício de ler um conto popular e fazer um resumo do texto. Busquei “O Patinho Feio”. Criada pelo dinamarquês Handersen, no romantismo (teria sido escrito em 1832), o conto reflete as tristezas e desventuras de um “patinho” que é visto diferente pelos demais e, por isso mesmo, rejeitado. Fazendo-se uma leitura nos tempos atuais, o conto reforça essa idéia que está, quiçá, mudando nos dias atuais, o preconceito aos diferentes, seja em gênero, raça e tipo físico. O patinho só consegue ser feliz quando vira cisne e passa a viver entre seus pares, numa sociedade que não queria ser inclusiva.
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Tenho acompanhado na internet crônicas de jornalistas e críticos, avacalhando com o último cd de Chico Buarque. Uns disseram que sua poesia perdeu força, outros que não conseguiram ouvir o disco e tamborilar como nas obras anteriores do artista. Houve quem dissesse que sua pouca voz andava debilitada. Creio que o uso de sua imagem ligada às campanhas do PT nas últimas eleições deva ter contribuído para esse tipo de crítica, de buscar demolir o mito. Não concordo com a opinião desses cronistas. O disco de Chico não é para se botar a tocar e sair para pôr a roupa na máquina ou cortar a cebola do molho da macarronada. Gostei muito do cd, que é obra para se ouvir uma e muitas vezes, pois requer atenção igual a que se tem quando se lê um livro. As canções são belíssimas, muito bem entrelaçadas às letras, que continuam brilhantes. Sei que você deve ter ouvido e não gostado... Pois, sente-se numa poltrona em silêncio, coloque o disco no aparelho, pegue o folhetos com as letras e preste atenção. É música das boas. Gostei, em especial, de “Se eu soubesse”, que ele canta com a namorada cantora.

domingo, 25 de setembro de 2011

Céu de primavera




Escrevi numa crônica anterior o meu gosto pelos dias de inverno frio e seco de Porto Alegre, quando se busca o calor, o aconchego, o sono aquecedor (os dedos das mãos e os pés gelados a gente esquece, tá?!). Agora, quero dizer do meu gosto particular pela Primavera, minha estação preferida. Quando se tem sol e céu limpo, tudo é mais cor. Um dia luminoso como o deste domingo (25/09) é encantador. Fica-se com o pé que é um leque para sair à rua. O dia como hoje deveria ser o Dia Mundial sem o Carro. Na primavera, as ruas parecem ter alma. Árvores divergem nas cores, flores aparecem em canteiros e jardins, crianças reaparecem a brincar, bermudas e camisetas expõem mais o corpo ao clima fresco que vai esquentando um pouquinho mais, com a presença do sol. O bric da Redenção, a caminhada na orla do Guaíba, é compartilhamento.
A primavera incentiva o senso da coletividade, onde o nós passa a ser importante. O relacionamento é uma de suas tônicas. As pessoas parecem mais bonitas e alegres. Vontade de tomar cerveja e vinho branco. O entardecer primaveril é muito gostoso, quando o anoitecer volta a refrescar e nos traz para casa com a alegria de ter podido reverenciar o spot luminoso do dia.
A primavera de Porto Alegre é a estação da cultura e das artes: mostra de teatro, bienal do Mercosul, Feira do Livro. Já o litoral gaúcho cria vida na primavera. As casas são abertas, o mofo cede lutar aos perfumes de limpeza, as caminhadas à beira do mar são compartilhadas. A primavera é um festival de preparação.
A primavera é especial para mim, porque começa com o signo de Libra, meu signo. Minha natureza se alimenta do tom primaveril. Meio démodê, adoro presentear com flores, curto perfumes e aromas naturais. Sou muito natureza.
Para despedir-me, trago-lhes um pedaço da letra de Ronaldo Bastos para a música Sol de Primavera, de Beto Guedes:
Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
(Juntos outra vez)
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar

Bons dias a todos!

domingo, 18 de setembro de 2011

A roda da Fortuna


Estou procurando sem sucesso o livro “A Velhice” de Simone Beauvoir. Muita gente deve estar fazendo o mesmo, já que a obra está esgotada na Editora Nova Fronteira, que tem publicado a obra de Simone, assim como a de Sartre. Na Estante Virtual também não encontrei a edição que busco ler, de 2003. Os poucos exemplares usados à disposição são da década de 70 e estão caros. Meu interesse pela obra vem do fato de que estou no alvorecer dos 58 anos e a hora de confrontar-me com o texto é agora, quando não me encontro com grandes problemas de saúde e tenho um distanciamento do que se coloca no livro, sob o ponto de vista existencialista. Simone de Beauvoir afirma que a sociedade de consumo trata os velhos como párias, condenados à miséria, à solidão e ao desespero. É exigido dos velhos a serenidade, o que evidencia o desinteresse pela infelicidade dos idosos.
Quando procurava “A Velhice” na Estante Virtual, verifiquei obras cujos títulos levam à compreensão da velhice na trilha parecida da auto-ajuda. Uma obra que me chamou a atenção foi “Rejuvenescer a velhice”. Segundo informação da contracapa, a terceira idade é entendida como a etapa mais rica e experiente da vida e, por isso mesmo, a mais propícia a aprofundar-se no autoconhecimento e na percepção da sociedade. Destas reflexões brotam as formas possíveis do idoso atuar e integrar-se no corpo social, debelando com sabedoria os rótulos e preconceitos que ainda atingem esse segmento da população. Acredito que alguns idosos saudáveis consigam essa integração social, mas o comportamento da sociedade com os velhos ainda é preocupante. Parece que se esquecem de que velhice é preocupação com a falta saúde. Outra é a solidão. Os velhos que podem “rejuvenescer” são os mais ricos, que dispõem de meios para embasar o cuidado que lhes é necessário.
Outra obra de título interessante que encontrei foi “Vencendo a velhice”, da Dra. Ana Aslan. Fiquemos na afirmação do título: você acha que é capaz de se vencer a velhice? Como se a velhice fosse uma doença de que se pudesse sarar. Outro é “Pondo Fim à Velhice”. Pronto, você acaba com ela, fica eternamente jovem. Aliás, quando vejo matérias na tevê mostrando idosos fazendo ginástica, teatro, brincadeiras infantilizadas, alguns depoimentos de idosos que se sentem como se tivessem 15 anos fazendo atividades físicas, tudo isso me deixa com a pulga atrás da orelha. Que se façam exercícios, que pratiquem atividades criativas, mas não tornem os velhos imbecis. Já repararam como há terapeutas da terceira idade falando aos velhos no diminutivo, como se fossem crianças?
Velhice pra mim é aceitação da condição humana. É confronto direto com a solidão. É finitude. É preparação para a morte que não consigo ainda aceitar. Velhice é amadurecimento, e eu preciso amadurecer para aceitar as coisas não muito boas que poderão vir por aí, espero que não muito cedo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Relato de viagem



A viagem a Rússia e Escandinávia estava sendo planejada desde que me aposentei em 2007. Como na ocasião eu adquiri uma polineuropatia inflamatória crônica desmilienizante, que comprometeu um pouquinho o movimento dos pés, fui deixando a coisa passar, até que agora o projeto aconteceu. A ida até Moscou foi muito demorada, oito horas de espera no aeroporto de Amsterdam para conexão a Moscou. Estando lá, dois dias cheios e não consegui ter uma visão mais abrangente da cidade. Será que Moscou seria somente o Kremlin e a Praça Vermelha? O passeio interessante que fizemos à noite pelos pontos turísticos da cidade, se oferecido durante o dia, daria uma visão mais diversificada da capital russa. Um dia a mais em Moscou teria sido perfeito, pois gosto muito de frequentar museus e não pude ver o de Gorki, grande escritor russo que tanto admiro. Como a fala e a escrita são enigmas, consegui decifrar muita coisa usando meu inglês que julgara enferrujado. Especialmente em restaurantes, a coisa foi meio complicada. Mas deu tudo certo.
São Petersburgo é uma cidade charmosa. Cortada pelo rio Neva, possui uma arquitetura meio barroca, em que o estilo austero dos soviéticos não pôde alterar. O palácio de verão de Catarina II, a Grande, é sensacional. Quase todo ele em estilo rococó, começou a ser construído em 1717. O salão de baile, todo decorado em ouro, bem como o Salão Âmbar, são deslumbrantes. A Rússia foi assim um pouco intenso de história. Muito dessa riqueza vem da aristocracia que os bolchevique tentaram apagar.
Da Rússia a Finlandia, a história cede lugar às belezas naturais. Helsinque, uma graça. Poderia ter ficado mais um dia. A cidade é pequena e agradável. Ao contrário do que eu sabia, a Finlândia não faz parte da Escandinávia, tem uma língua diversa das demais, uma das mais antigas do mundo, que se aproxima do tronco da língua romena. De lá, viagem de navio a Estocolmo. A travessia do Mar Báltico só fez sentido, porque o ônibus precisou ir junto. Foi um tempo precioso que se desperdiçou. Estocolmo, entretanto compensou o esforço. Cheia de canais, tem uma rua de pedestres imensa e colorida que leva aos pontos turísticos importantes da cidade. A visita aos salões da prefeitura, onde acontecem as cerimônias de entrega do Nobel foi muito bacana.


De Estocolmo a Oslo, o cansaço. Três dias cheios dentro do ônibus, paisagens belíssimas vistas da janela, pois as estradas estreitas não permitiam parar para sacar fotos. O que se via o tempo todo era uma paisagem rural com suas casinhas com telhado de grama (eles dizem que isso protege do frio) próximas a lagos e fiordes. O passeios pelos fiordes, que era o que mais me interessava, ficou com menos brilho por causa dessa trajetória cansativa. Oslo agradou não tanto quanto as demais visitadas. O passeio fechou com uma Copenhagen linda e sedutora. Lá, um dia a mais não faria nada mal a ninguém. Aproveitei a noite no “canal”, um local perto do porto, repleto de restaurantes, onde tomei vodca e cerveja “strong”. Kopenhagen prioriza a bicicleta ao pedestre. Há muita, mas muita bicicleta circulando em ciclovias que existem em todas as ruas que vi.
Quase não troquei dinheiro. Usei o cartão para tudo. Apesar dos 6,5%, achei que valeu a pena, porque não me enchi de moedinhas indesejáveis depois que se vai embora, e porque a conversão ao dólar comercial valeu a pena. Agora, em casa, estou curtindo a música erudita do músico norueguês Eduard Grieg e estou começando a leitura de “Noites Brancas”, de Dostoievski, cujo cenário é São Petersburgo. Para finalizar, quero dizer-lhes que é muito bom estar de volta ao lar.

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia do Pai

A lembrança de meu pai é de um homem velho. Quando nasci, ele tinha mais de 50. Aos dez anos, a imagem dele era de alguém que exercia sua autoridade sobre a família. Ele nunca foi de bater nos filhos, na maturidade, mas usava o sermão como arma infalível para consertar alguma coisa em meu comportamento arredio. Em minha adolescência, lá pelos 14, 15, 16, discutíamos muito, pois punha em prova sua maneira de pensar, antiga, ao comportamento novo da geração de 60. Mas não éramos de muita conversa um com o outro, não. Sempre fui um cara reservado, fazia as coisas em silêncio. Na minha infância, tinha três irmãs na casa. Menino não se podia meter na vida feminina. Por isso mesmo fazia minhas brincadeiras e fantasias no pátio, na rua, com a liberdade que me era designada. Um irmão me disse um dia desses, que meu pai era uma pessoa fora de série, pena que eu convivera já com a velhice dele, com algumas doenças e não pudera participar de seu estilo peculiar na educação dos filhos. Seu poder de força, com a idade avançada, não era a mesma que meu irmão vivenciara em sua juventude. Meu pai, para ele, era um herói. A única herança que ele dizia legar aos filhos, era a educação. Era necessário estudar. Mais que trabalhar. Sempre admirei a forma como meus irmãos mais velhos se relacionavam com ele, tendo como ponto de vista o respeito. Comigo e minha irmã mais nova, nossa convivência era mais aberta, havia respeito, mas podíamos divergir, discutir, brigar, pois esse era o caminho que ele escolhia sempre, permitir o diálogo.
Uma imagem que me dói de meu pai, era a de pessoa solitária. Minha mãe havia morrido. Minha irmã e eu trabalhávamos e ele cuidava da casa, rodeado de sua solidão e da lembrança de minha mãe, que partira há pouco. Seu sorriso já não era mais o mesmo, até quando algum tom alegre no ambiente o fazia sorrir. Quando não gostava de alguma coisa, limitava-se a resmungar e fechava a cara de poucos amigos. Às vezes eu implicava, perguntando-lhe o que era. Ele respondia nada. Certas dores no corpo, a pedra nos rins...
Percebia-se a mudança também no rosto. A boca que pronunciava palavras silenciosas, enquanto jogava cartas sozinho na sala, era uma boca de defunto. Os olhos castanhos acumulavam as marcas do tempo a seu redor e os poucos cabelos da parte lateral da cabeça não escondiam mais a mescla de grisalhos: era completamente branca.Quando se aproximava para me desejar bom dia, o braço que me tocava o ombro, completamente flácido, era leve e indeciso.
Quando me sentava na outra ponta da mesa para tomar o café da manhã, sentia sua respiração ofegante. Tossia de vez em quando. Ouvia o barulho da xícara raspando o pires e me sentia assim como ele, também diminuído, trancado na mesma saudade, parceiro de mesma solidão.
O silêncio enchia a sala. Quando essa triste lembrança da morte dela se tornasse saudade, talvez pudéssemos discutir futebol e política, sorrindo e brigando como amigos. Torcia para que o tempo fizesse surtir seu efeito.
Não foi possível. A saudade dela acabou tirando-lhe a vida alguns anos depois. A coisa de que mais sinto falta em relação a ele, é de poder lhe dar um abraço apertado.

domingo, 7 de agosto de 2011

A vulgarização do afeto

Você já esteve em uma rodinha de amigos, certamente, batendo papo, até que a roda se desfaz por motivo vário e cada um se despede, dá um abaninho e diz: “tchau, um beijo”. O beijo não é dado. É falado. As pessoas estão todas juntas, uma frente às outras, e o beijo sai falado. Entre homens é o afeto falado do “até mais, um abraço”. Puxa vida! Por que não dar um abraço corpo a corpo? Já repararam que muitos homens se abraçam colocando a mão no peito um do outro, para evitar o confronto corpo a corpo mais direto? É da cultura machista. Não tem jeito. Pois é, mas assim é a vida. Pode ser que as pessoas dessa rodinha não sejam grandes amigos a ponto dos lábios tocarem o rosto do outro. Então se usa a tal cortesia de demonstrar um afeto não tão próximo através do beijinho falado e não dado.
Certa vez, quando estava em Brasília montando um curso de linha na Gepes do Banco do Brasil, fui apresentado a uma educadora, dessas chefas com alto cargo inerente à competência de sua função. Muito cortês à primeira vista, chamava-me pelo nome toda a vez em que conversávamos no horário do lanche coletivo. Quando finalizou o lanche, ela desejou um bom final de tarde a todos e a todas (não sei por que dessa moda, pois o gênero “todos” inclui, quem exclui é o “todas”) e propôs que todos ali presentes se dessem um abraço de confraternização. No dia seguinte, cruzamos eu e ela em sentidos opostos no imenso corredor deserto da Gepes. Quando chegamos bem próximos, olho para ela, mas ela ignora minha presença, como se eu não existisse passando por ela naquele momento. Fiquei intrigado. No dia anterior ela propôs um abraço de confraternização. Abraço é coisa séria, gente! No dia seguinte, já propôs que fôssemos anônimos, fingindo desconhecer um ao outro. Essa característica, aliás, é típica de ambientes de trabalho em que há muita gente e não se pode ou não se quer estar “arreganhando os dentes” a toda hora e momento.
Ora, não se trata de arreganhar os dentes a toda hora e momento. Um olhar não tira pedaço de ninguém. Não é preciso nem falar, basta o esboço de um sorriso que a cordialidade está feita. Mas a vida é assim mesmo. Já me disseram que ninguém é obrigado a estar feliz o tempo todo. Eu penso, entretanto, que é possível a delicadeza e a gentileza sem grandes estardalhaços, que daí é exagero falso. Se fôssemos mais autênticos em nossa forma de demonstrar afeto a terceiros, poderíamos, quem sabe nessa tal rodinha, dar um adeus e “até a próxima”. Senão, dá um beijo, cara, não custa nada!

sábado, 30 de julho de 2011

Os males do fumo




Dias desses, desci para esperar o táxi na portaria. Lá, estava uma vizinha conversando com o porteiro. Senhora educada, nos seus cinquenta e poucos anos, pelo modo de se expressar me fez pensar numa professora universitária. Moradora solitária, sempre que passo pela portaria a vejo conversar com o porteiro. Já houve queixa ao síndico, de suas conversas com o empregado. Mas, que fazer, ela não dá importância e se detém na portaria, a contar de sua vida. Dessa vez em que desci a esperar o táxi, ela contava ao porteiro que fumava por prazer. Disse a ele que nunca fumou no trabalho. Sempre depois, no "happy hour", acompanhada de um chopinho. O porteiro lhe perguntou se ela alguma vez pensara em parar e ela lhe disse não. Gostava de fumar. Durante o fumo, ela punha a vida em devaneio e o tempo passava com prazer. Como visse que eu observava a conversa, virou-se para mim e disse:
_ Sabe, vizinho, adoro um traguinho. Mas não abuso não. Agora que estou envelhecendo, é só um cálice de vinho tinto. Faz bem ao coração. Mas sabe como são as coisas, a bebida sempre puxa um cigarrinho. Impossível beber sem fumar. No que me diz respeito, comecei a fumar em torno dos dezesseis anos e nunca parei. É verdade que só ocasionalmente fumei mais de vinte cigarros por dia. O que fumei? De tudo. Do cigarro sem filtro ao mentolado. Cigarrilha e charuto também. Gostava muito do Mistura Fina. Com ele me iniciei no fumo. Hoje fumo dos mais fracos, por causa de uma tossezinha seca.
O senhor sabe, ela me disse, aproximando-se, o fumo, que se casa admiravelmente com o álcool (se o álcool é a rainha, o fumo é o rei), é um companheiro caloroso de todos os acontecimentos de minha vida. É o grande companheiro dos dias bons e maus. Acende-se um cigarro para festejar uma alegria ou para disfarçar um amargor. Quando se está só, ou acompanhado.
Continou: o fumo é um prazer de todos os sentidos – da visão (que belo espetáculo, sob o papel prateado, esses crigarros brancos arrumados como para uma parada), do olfato, do tato. Se me vendassem os olhos e me colocassem um cigarro aceso na boca, me recusaria a fumá-lo. Gosto de tocar o maço em meu bolso, de abri-lo, de apreciar entre dois dedos a consistência de um cigarro, de sentir o papel em meus lábios, o gosto do tabaco em minha língua, de ver brilhar a chama, de aproximá-la, finalmente de encher-me de calor.
O senhor sabe, um homem que eu conhecia desde a universidade, da alta burguesia porto-alegrense, de centrodireita, engenheiro, morreu de um câncer no pulmão. Ia vê-lo no hospital, no bairro Menino Deus. Já faz um tempinho. Tinha tubos por todos os lados e uma máscara de oxigênio que retirava de quando em quando, para aspirar, muito rápido, às escondidas, uma baforada de cigarro. Fumou até as últimas horas de sua vida, fiel ao prazer que o matava.
Meio incomodado, fui me aproximando da porta, para esperar no jardim. Ela continou comigo. Assim sendo, se o senhor me permite, para encerrar essas considerações sobre o álcool e o fumo, pais das profundas amizades bem como dos devaneios fecundos, dar um duplo conselho: não beba e não fume. É perigoso para a saúde.
Quando me dirigia em direção ao táxi que chegara, ela veio atrás de mim e arrematou:
_ Acrescento que o álcool e o fumo acompanham agradavelmente o ato de amor, também. Geralmente o álcool se situa antes e o fumo depois. Mas o senhor me desculpe a intimdade inadequada. Não vá esperar de mim confidências extraordinárias. Essas particularidades, a gente não conta a ninguém. Até a próxima.
Abri o portão e saí desconcertado. Vou morrer e não vou conseguir ouvir tudo não, pensei. Entrei no táxi e me fui.Saudade de um filme surrealista de Luis Buñuel.
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Por falar em Buñuel, recomendo-lhes seu livro de memórias:

Luis Buñuel. Meu último suspiro. Rio, Nova Fronteira, 1982

domingo, 24 de julho de 2011

O ídolo pelo avesso


Os jornais noticiaram neste sábado a morte de Amy Winehouse. Os reporteres e fãs diziam que já sabiam que o destino dela seria esse, mas não pensavam que ia ser tão cedo. Suas atitudes e os escândalos noticiados pela mídia criaram a esteira para que afirmassem isso. A cantora necessitava do álcool e das drogas para sobreviver. Sabemos de personalidades que carregavam o enigma que não conseguimos depreender com isenção de partido: para eles, viver dói e dói muito. É possível não ter amor à vida e seu futuro de felicidade a ser conquistada. Os alcoolistas são assim. Os drogaditos também. Não é preciso ser famoso para sentir a mesma dor dos famosos que amamos, morrendo em desastre, na mais completa solidão. Quem consegue permanecer vivo, vive sempre o dia de hoje, pois a vida é uma batalha. Deprimida constantemente, Amy era mais famosa por seus pileques e atitudes agressivas do que por sua música. Esqueceu letras e caiu em shows no Brasil.
Quando tropeçou e caiu,a platéia aplaudiu, confortando-a do constrangimento. Muitos não gostaram de sua performance frígida. Foi gravada e fotografada no bar do hotel em que estava hospedada, no Rio, bebendo do conteúdo mortal que a alimentava viva.
A imprensa toda está explorando o 27 como um número cabalisto. Amy Winehouse, Janis Joplin, Jimy Hendrix, Kurt Cobain e Jimi Morrison morreram jovens, todos aos 27 anos, sozinhos e de uma forma trágica. Lutaram para se expressar e morreram reféns do vício. Todos deixaram sua marca na estrada da música. Janis Joplin seduzia pelo vozeirão e movimentos felinos. Cantava o blues como ninguém. Disse que trocaria todos os dias de amanhã por um dia do passado. Símbolo da contracultura, eternizou sua imagem cultuada até hoje. Jimi foi outro símbolo de uma mesma geração. Deus da guitarra, criava e experimentava sons antes deles serem misturados pela tecnologia dos dias atuais. Num show em Monterey, 1967, entrou em transe, queimou e destruiu uma guitarra sob o delírio da platéia. Morrison, do The Doors, culto e sexy, andou sempre em busca de novas sensações. Várias vezes saiu algemado do palco por bebedeira e atentado ao pudor. Cantou bêbado em vários shows, caindo e rolando no palco. Kurt Cobain, do Nirvana, cometeu suicídio em 1994. Viveu um turbilhão psicológico com a atriz Courtney Cox. Deprimido, mergulhou na heroína.
O escritor Rodrigo de Souza Leão escreveu que na vida às vezes a gente tem de escolher entre esmurrar a ponta de uma faca ou se deixar queimar no fogo. Gente famosa como Amy Winehouse e gente anônima que sofre da pulsão de morte carregam consigo o enigma do desgosto pela vida. Viver pode ser uma dor muito profunda que nós, que não a sentimos ou não a sentimos com essa intensidade, talvez não a consigamos compreender. Nem aceitar.

domingo, 17 de julho de 2011

Universo particular



A vida é bela se você colocar o mundo ao redor de seu umbigo. Você vai criar seu universo particular. Vai selecionar as coisas que lhe são necessárias para dizer que se considera feliz e o mundo é maravilhoso. Seu universo é uma bolha. Nela você coleciona os amigos que lhe interessam, faz seu fisiculturismo, trata de sua saúde com uma alimentação competente, bebe seus 10 copos de água por dia, trata bem de seu sono, seleciona criteriosamente as coisas a seu redor. E assim vai. E você é feliz, pois a vida é bela. Em seu universo particular não há lugar para a pobreza, pois ela é feia e você não se considera responsável por ela. Atitudes maldosas e interesseiras, será que você as tem? Fazem parte de seu universo particular? Não, você se considera justo e a moral é uma meta. É importante ser correto, tratar as pessoas com justiça e igualdade, mas isso não quer dizer que determinados iguais possam fazer parte de sua bio-bolha E assim vai e você é feliz e a vida é bela. Se você se olhar por dentro, também, e verificar que uma vontade muito grande de viver é mais importante que o viver alheio, porque você se considera um vencedor de si mesmo, a vida também é bela.
Agora, você tira o olho de seu umbigo e concorda que o cinismo combina com a castidade. Ou a alma humana não é a mesma em toda parte, talvez a vida não lhe seja bela. Se o bem tem importância menor que a do mal, o desconforto do outro desloca sua comodidade... A vida não é bela. Não pode ser bela a vida que é cumprida por obrigação e sem prazer. Quando você transa sem camisinha com o namorado que conheceu na semana passada e nem se lembrou disso, alguma coisa está fora da ordem. As coisas boas e ruins da vida ao mesmo tempo não constituem beleza. O amor do filho pelos pais não é o mesmo amor dos pais pelo filho. O amor filial da infância e juventude esmaece, fica pálido. Torna-se afeto por obrigação, quando não se precisa mais deles. Quando você comete pequenos deslizes e os justifica porque fazem parte da cultura, como atravessar a faixa de segurança no sinal vermelho, segurando uma criança pela mão: não vinha carro e você foi cuidadosa. Dar uma estacionada relâmpago em vaga de deficiente físico de um banco eletrônico não faz mal nenhum, era coisa rápida, se aparecesse o deficiente físico você daria o lugar a ele, sem problema. No trânsito congestionado, dar passagem a um carro que está saindo da garagem, nem pensar, você está com pressa, ainda mais se você for mulher. Galanteria é coisa de homem.
A vida é bela. A vida não é bela. O egoísmo, muitas vezes, faz-nos acreditar que estamos bem, contentes em nossa zona de conforto, libertos da ansiedade e do medo de morrer (há pessoas que têm medo de viver). Então acreditamos ser felizes. E somos, porque não. Estamos no tempo. E o tempo não para. E ninguém é cem por cento feliz para sempre. A vida não teria graça sem o sofrimento para nos recompor a felicidade. Viver é complicado. É triste. É belo. É paradoxo.

domingo, 10 de julho de 2011

O amor cortês

Você conhece, por acaso, alguém que seja espirituoso, educado, sensível e galanteador? Desses ou dessas que conquistam pela inteligência aliada à inspiração poética? Não precisa ser um poeta, mas demonstrar ações e gestos em de forma poética. Alguém que conquiste sem a premência da cama? Alguém que te surpreenda em coisas antigas, mas bacanas? Provavelmente esse alguém seja adepto do amor cortês.
O amor cortês não é objetivo. Tampouco é platônico, como referem alguns. Requer menos interpretação e mais sentimento. Amor cortês é namorar. É encantar. É seduzir sem outra contra-indicação que não seja a sedução. Quem não seduz não pratica o amor cortês. Atenção, porém, sedução não é sinônimo de amor cortês. O amor Cortês seduz com requinte. Idealiza. Ou melhor, busca por em prática a idealização de um tipo de pessoa amada, que partilhará de seu perfil ideal de amante. Jamais o praticante de um amor cortês será mal-educado. Muito pelo contrário. Uma pessoa que busca conquistar a outra, enviando-lhe flores, será adepta do amor cortês se essas flores chegarem ao ser amado de uma forma diferente, ainda que simples. Lidar com a simplicidade de forma esplendorosa, essa é uma característica do amor cortês. Não precisa ser uma dúzia de rosas, pode ser uma única dália. Mas a forma e a situação em que essa flor aparecer, será de um requinte e refinamento muito peculiar.
Librianos, por exemplo, costumam curtir o amor cortês. Toda pessoa de libra pensa muito no amor, mas não um amor tórrido e cheio de paixão como pensa um taurino ou escorpiano. Amor para libra é antes de tudo algo carregado de ideias e ideais românticos, aquilo que faz um relacionamento perfeito. Refinamento, requinte e classe são qualidades importantíssimas para Libra. Mas não se iluda, há librianos e librianos. De turrões o mundo está cheio. Geminianos costumam aparecer nesse grupo, ainda que a discrição não lhes seja um ponto forte. Escorpianos também, apesar das desconfianças. Arianos, taurinos e leoninos não curtem o amor cortês. Para os desses signos, o negócio é pão-pão queijo-queijo.
O amor cortês teve sua origem na poesia trovadoresca da Idade Média e na poesia provençal. Nesse tipo de expressão poética, o amor cortês tinha traços de submissão à mulher amada. Ou a amada era sempre distante. O estado amoroso, por transposição ao amor dos sentimentos e imaginário religioso, era uma espécie de estado de graça que enobrecia a quem o praticava. Tratava-se também, pasmem, muitas vezes de um amor adúltero! O galanteador cantava seu amor a uma mulher casada.
Hoje, o amor cortês pode ser considerado uma forma inadequada de expressar o interesse ao objeto de desejo. A característica de vida solitária de nossa sociedade denuncia carências que se resumem a um afeto acompanhado de uma bela transa sexual. Amor cortês com sexo quase concomitante, até pode ser! Mas esse amor caracterizado por uma conquista poética e falsamente platônica está em desuso. Mas é bonito!
Se você quiser curtir o amor cortês concebido na sua origem medieval, loque o filme Tristão e Isolda. Talvez goste.