sábado, 10 de novembro de 2012

Alice no País das Maravilhas

Nicolau Sevcenko, o tradutor da belíssima edição de Alice no País das maravilhas pela Editora Cosac Nayfi , conta-nos que Lewis Carroll(1832/1898) não gostava da forma organizada como a sociedade britânica estava submetida durante a era vitoriana, período em que viveu o autor. Para ele, nada de rotinas mecânicas, da disciplina que fazia as crianças repetir hábitos que as transformavam, mais tarde, em seres mecanizados preocupados com o trabalho e atividades condicionantes. Carroll queria ver crianças barulhentas, arteiras. Por causa disso, criou em Alice no País das Maravilhas, uma menina que via a realidade de forma diferente. Ao perseguir um coelho num jardim, cai, através de um buraco, num mundo repleto de fantasias, onde os animais falam, há rainhas más e duquesas boas. Alice diminui e cresce de tamanho algumas vezes, para participar de forma integral nesse mundo subterrâneo mágico, que é o mundo de sua imaginação. Alice não deixa de ser uma menina rebelde, que enfrenta com indignação as criaturas presunçosas, mal-humoradas e autoritárias do País das Maravilhas. Carroll, assim, subverte o moralismo cultural e a moral puritana de sua época, que não tolerava desvios de comportamento. Para mudar esse cenário, o autor de Alice focou suas histórias no território encantado, imaginativo e lúcido das crianças, satirizando o mundo dos adultos, suas maneiras afetadas, sua seriedade aborrecida, seus preconceitos e sua arrogância autoritária e indolente.
Alice no País das Maravilhas é um livro maravilhoso e divertido. Acompanham a história as belíssimas ilustrações de Luiz Zerbini, que fazem suas criaturas criar aderência, a partir de cartas de baralho, tomando vida. É um livro para crianças especiais, aquelas cujos pais lhes propiciam o aconchego silencioso necessário para emocionar-se com a leitura de Alice. Alice é livro que os adultos devem ler e reler, pois trata-se de obra-prima.
O filme de Tim Burton misturou as personagens de Alice no País das Maravilhas com as de Alice através do espelho, colocando Alice como uma jovem de 19 anos que se recusa a casar-se sem amor. O filme não tem a magia que o livro proporciona.
Há outras traduções de Alice em outras editoras, com preços menores. Esse da Cosac Naify, entretanto, vale o preço. É obra de arte.
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Lewis Carroll. Alice no País das Maravilhas. SP, Cosac Naify, 2009, 168pp. R$ 49,00

sábado, 3 de novembro de 2012

Bili com limão verde na mão


Bili com limão verde na mão, de Décio Pignatari (1927), oferece a possibilidade de várias leituras. Tem ilustrações maravilhosas do premiado ilustrador Daniel Bueno e apresenta o primor estético que caracteriza o estilo concretista do poeta Décio Pignatari. O poema sugere através de palavras, muitas delas aparentemente soltas, imagens carregadas de sons e sensações. Belisa é Bili, Bélica, Bárbara, Bipolar, Biruta, Biônica, Biotônica, à Beça. No degrau mais alto da escada do alpendre, pernas abertas, mão no queixo, Bili, leve e levada abre a boca e diz: “por tudo aquilo que eu sei e que eu não sei, com quase treze anos, a minha vida não está legal”. E ela põe as pernas pra-que-te-quero, saindo de casa, passando pela cidade, cruzando por figuras pitorescas que as crianças de hoje talvez venham a conhecer só no mundo da imaginação (ainda que nós, adultos, a tenhamos vivenciado em nossa infância), dirige-se ao sítio do avô. Chegando, um limão verde cai do nada a seus pés. Este é o ponto de partida para a belíssima história do poeta Décio Pignatari, que mescla prosa poética e poesia, valorizando a palavra no espaço da folha do livro de forma variada e criativa.
Tenho acompanhado meio de perto a presença do livro na vida das crianças e percebo que essas têm liberdade para ler o que querem, do jeito que querem. O estilo individualista da sociedade contemporânea me parece que afastou os pais de participar com o diálogo formador na escolha dos livros de leitura infantil. Essa maravilha que é Bili com limão verde na mão dificilmente cairá nas mãos das crianças, se os pais não lhe facilitarem a oportunidade para que isso aconteça. Hoje o foco da criança na escolha da leitura está nas histórias de terror, muito em voga devido à influência dos videogames e do audiovisual que a mídia trata de fomentar na tevê e nos cinemas para atender ao público infantil . É bacana  a criança ter o poder de escolha do que quer ler, mas é importante a mediação dos pais para trabalhar naquela zona de inteligência entre o que a criança já sabe e o que ela ainda não conhece, mas tem condições de saber, através da aproximação de bom conteúdo de leitura que os pais, como educadores, podem e devem prover a seus filhos. É importante, aos que presenteiam livros infantis, buscar conhecer seus autores, a qualidade editorial da obra, o texto apresentado, para poder dialogar com a criança. Os pais devem, no meu ponto de vista, assumir a responsabilidade pela qualidade da leitura de seus filhos. Isso não traumatiza.
Décio Pignatari, Augusto de campos e Haroldo de campos iniciaram, a partir de 1952, a articulação da chamada poesia concretista, como reação à poesia rigorosamente formal e intelectualizada da geração de 45. Com isso, filiaram-se às experiências mais ousadas das vanguardas europeias do século XX. A poesia concretista desses autores tem como característica a valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica) que se fragmenta e recompõe na página; o espaço gráfico como agente estrutural do poema; a utilização de recursos tipográficos.
Veja esse poema de Décio Pignatari, onde a linguagem sintética está associada ao dinamismo da sociedade industrial, de que o poema faz uma crítica ácida:

beba coca cola
babe          cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
          C l o a c a

Bili com limão verde na mão tem edição luxuosa da Cosac Naify, especializada em livros de arte. Seu filho merece ganhá-lo. Mas acho que você vai gostar demais do livro, também. O meu, comprei para dá-lo de presente, mas fiquei com ele pra mim.

                                                                            paulinhopoa2003@hotmail.com.br

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Décio Pignatari. Bili com limão verde na mão. SP, Cosac Naify, 2008, 80 pp. R$ 49,90

domingo, 28 de outubro de 2012

Os embaixadores

Henry James (1843/1916) nasceu em Nova Iorque e morreu em Londres, tendo, inclusive, adquirido naturalidade inglesa. Foi um virtuose do estilo literário, usando-se de imagens poéticas e sintaxe primorosa. Escreveu inúmeros romances, além de peças de teatro. Entre os romances, destacam-se, em português, A taça de ouro, Retrato de uma Senhora e A volta do Parafuso. Seus prefácios aos principais romances, que foram reeditados em edição de luxo antes de sua morte, tornaram-se famosos, influenciando profundamente parte da crítica literária internacional.
Lewis Lambert Strether, o protagonista de Os Embaixadores, tem 55 anos. Perdeu a mulher e o filho há anos e sente, até o momento, a culpa pela morte deles. Está envolvido com a Sra. Newsome, viúva rica que financia a revista que ele edita. Essa senhora resolve enviá-lo a Paris, para encontrar o filho dela, Chad, que estaria se desencaminhando na cidade-luz, e trazê-lo de volta para Massachusetts. Se isso fosse feito, a sra. Newsome casar-se-ia com Strether. Ela escolhera Strether como embaixador, não só porque era velho amigo de confiança da família, mas também para testar a sua lealdade. Por outro lado, Strether, casando-se com a viúva, herdaria uma grande fortuna, garantindo seu status na classe alta de sua comunidade. Ao estabelecer-se temporariamente em Paris, entretanto, começa a perceber a vida pacata e entrincheirada em que vivia e começa a expandir seus horizontes. Constata, ainda, que Chad não está perdido como sua mãe supunha, ainda que esteja se relacionando com uma senhora mais velha e casada. Strether resolve, então, incentivar o jovem Chad a viver a vida em toda sua plenitude, gozando todas suas oportunidades. A delicada inteligência crítica de Strether é acompanhada por uma generosidade moral em favor dos outros, juntando-se a isso um senso obsessivo sobre seus conflitos pessoais. Em Paris, torna-se amigo da jovem Maria Gostrey, com quem tem diálogos profundos sobre as incertezas e a beleza da vida. No final do romance ele retorna à cidade de origem, mas sente que já não é o mesmo de antes. Há esperança.
Romance muito bem escrito e incessantemente retrabalhado por Henry James, foi considerado pelo próprio escritor como sua melhor obra. Nele se desenvolve uma técnica narrativa chamada de fluxo de consciência, em que o escritor apresenta o ponto de vista de Strether, através do exame profundo de seus processos mentais, diluindo as distinções entre consciente e inconsciente, realidade e desejo, as lembranças da personagem e a situação presentemente narrada, etc. Clarice Lispector, Dostoievski, Tolstoi, Beckett, Faulkner, Virgínia Woolf, além de Joyce, usavam e abusavam desse estilo tão característico do romance moderno.

                                                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Henry James. Os embaixadores. SP, Cosac Naify, 2010, 608 pp. R$ 110,00

domingo, 21 de outubro de 2012

Fantasma sai de cena

Nathan Zuckermann, fantasma do escritor Philip Roth (1933) reaparece mais uma vez em Fantasma sai de cena. O narrador judeu, que já protagonizara O escritor fantasma e Pastoral Americana (já comentado neste blog recentemente), além de outros romances, sai de seu isolamento, nas montanhas, para Nova Iorque, que não visitava há quase quinze anos, para tentar resolver seu problema de incontinência urinária, decorrente de um câncer que o fizera retirar a próstata. A época da ida de Zuckermann gira em torno do atentado de 11 de setembro de 2011. Uma noite, ao retornar ao hotel, lendo o jornal ele avista o anúncio de um casal de escritores que lhe interessa: o casal procura um sítio nas montanhas em local isolado, em troca do apartamento deles em Nova Iorque, por um ano. Zuckermann andava um tanto abalado pela previsão de uma intervenção cirúrgica para tentar conter a incontinência urinária, outro tanto enfastiado da solidão a que se submetera, já que morava sozinho havia onze anos numa casinha que ficava numa estrada de terra numa região bem rural, tendo tomado a decisão de levar uma vida isolada cerca de dois anos antes de lhe ter surgido o câncer. Tinha pouco contato com pessoas, não ia a jantares nem a cinema, não via televisão, escrevia durante a maior parte do dia e com frequência à noite. Lia, principalmente, os primeiros livros que descobrira quando era estudante. Aquele anúncio subitamente despertara nele um desejo inexplicável de mudar de ares por um tempo, para quebrar, quem sabe, a sua vida pacata de ouvir música, fazer caminhadas no mato no verão ou nadar na lagoa próxima à casa. Sem saber bem o que estava fazendo, pega o telefona e digita o número que consta no anúncio.
Enquanto se desenrolam as tratativas para a assinatura de permuta temporária, Zuckermann vê-se assediado por um jovem jornalista inescrupuloso, candidato a escritor, que busca incessantemente obter informações sobre um escritor famoso, já morto, que havia ajudado Zuckermann a dar os primeiros passos em sua carreira de escritor. Esse escritor falecido teria um segredo que não interessava à família que fosse revelado. A partir de então, a vida de Zuckerman acaba se tornando um inferno.
Não se pode dizer que Philip Roth vá retirar de cena definitivamente seu alter ego. O que se sabe é que, mais uma vez, em Fantasma sai de cena, Roth consegue amarrar muito bem sua história, criando interesse do início ao fim da narrativa.

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Philip Roth. Fantasma sai de cena. SP, Cia das Letras, 2008, 288 pp. R$ 46,50

domingo, 14 de outubro de 2012

Pastoral americana

Pastoral Americana (1997) é o vigésimo segundo livro de Philip Roth (1933), um dos escritores norte-americanos mais famosos e importantes da atualidade. Seus livros vendem como água, com o mérito de serem grandes romances, desses que balançam a estrutura do leitor. Este romance longo explora o curso da história americana a partir dos anos 1940, que o narrador de Roth e alter ego, Nathan Zuckerman, considera como um período de ouro para as convulsões sociais que marcaram a década de 1960 e início de 1970. O ponto central da história é um personagem judeu chamado sueco Levov, homem excepcional em todos os aspectos. Foi atleta brilhante, tendo sido ídolo da juventude na cidade onde morava. É empresário de sucesso, marido e pai dedicado, cujo único objetivo é viver uma vida tranquila em Rimrock, lugarejo rural de New Jersey . Sua vida torna-se um inferno, quando sua filha de dezesseis anos rebela-se, entrando em um grupo de protesto anti-Vietnã, plantando uma bomba na estação de correios local e matando uma pessoa. A vida de Levov é abalada para o resto de sua vida. A estrutura narrativa funciona em ziguezague no tempo. Esse “tumor” na vida de Levov vem à tona, quando ele procura Zuckermann, já escritor famoso, para que este conte a vida de seu pai, que fora fabricante de luvas para senhoras e passara a direção da empresa, já com ramificações no exterior, para Levov. Na verdade, o que Levov acaba fazendo, é contar sua própria vida, para tentar entender, sem sucesso, o que teria dado errado na educação da filha. Roth explora de forma contundente a transformação da vida americana do pós-segunda guerra. Aborda de forma crítica questões como a natureza da educação judaica, a relação impositiva entre pai e filho (o sueco largou a profissão de jogador famoso para administrar os negócios do pai, na marra), o contraste entre sua personalidade e a da filha. Aborda, ainda relações de lealdade e traição familiar, além do fanatismo político que tomou conta dos Estados Unidos no período da guerra do Vietnã, do movimento híppie, dos grupos guerrilheiros como os Panteras Negras, etc.
O escritor Zuckerman apareceu em outros romances de Philip Roth, como O Escritor Fantasma e O fantasma sai de cena. Se você foi, como eu, adolescente na década de 70/80, deve ter lido ou visto o filme baseado no livro Complexo de Portnoy, talvez o livro mais famoso de Roth, considerado um dos dez melhores romances americanos, pela crítica.
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Philip Roth. Pastoral Americana. SP, Cia das Letras, 1998, 478 pp. R$ 69,00

domingo, 7 de outubro de 2012

Livro do desassossego

Livro do desassossego é o livro de prosa de Fernando Pessoa (1988/1935) que mais se aproxima do romance. Nele, Pessoa nos apresenta o diário de Bernardo Soares, mais um heterônimo seu. Fernando Pessoa nos conta no prefácio do livro, que conhecera seu heterônimo Bernardo Soares num pequeno restaurante de sobreloja, frequentado por tipos curiosos, mas sem interesse. Todas as vezes que calhava dele jantar no local, encontrava sempre um indivíduo lá pelos seus trinta anos, magro, curvado exageradamente quando estava sentado, vestido com certo desleixo. No rosto pálido, havia um ar de quem sofrera muito na vida. Com o tempo, observando-o melhor, notou sob o abatimento aparente e a impressão de angústia que sempre carregava, um certo ar de inteligência que o animava. Soube, através de um criado do estabelecimento, que era empregado no comércio, numa casa ali perto.
Um dia houve uma cena de pugilato na rua em frente ao restaurante que acabou aproximando os dois. Ao se aproximar das janelas para olhar o ocorrido, Pessoa trocou com o homem obscuro uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom. Desde esse dia passaram a se cumprimentar, até que, uma vez, caminharam juntos. O homem, a certa altura perguntou a Pessoa se ele escrevia. Pessoa respondeu-lhe que sim, falou-lhe da Revista Orpheu, onde escrevia. O homem surpreendeu-se positivamente, pois conhecia a revista. Então, revelou ao poeta que escrevia também, durante a noite, para espantar a solidão. Bem, o homem acaba convidando Pessoa a visitar seu quarto humilde e lhe mostra seus escritos, que constituem o Livro do desassossego, com que o leitor vai se deliciar.
Bernardo Soares nos diz em seu diário, que nunca fizera nada a não ser sonhar. Era apenas esse o sentido de sua vida. Nunca tivera outra preocupação verdadeira a não ser sua vida interior. Ele nos afirma que nunca pretendeu ser outra coisa, que não um sonhador. Pertencera sempre “ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser”. Tudo que tivera de seu, por mais baixo que fosse, constituía-se de poesia para ele. Nunca amou senão coisa nenhuma. À vida, nunca pediu senão que passasse por ele sem que ele a sentisse. Do amor, exigiu apenas que nunca deixasse de ser um sonho distante. Para ele, não há saudade mais dolorosa do que as das coisas que nunca foram.
Livro do desassossego é um livro fragmentário, sempre em estudo pelos estudiosos do poeta. A cada edição, a obra sofre algum acréscimo ou decréscimo, já que Pessoa não era lá muito organizado com suas notas. Quase tudo que Fernando Pessoa produziu, foi publicado após sua morte. Na edição da obra que recomendo, a organizadora explica o processo de edição do texto.

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Fernando Pessoa. Livro do desassossego. SP, Cia. De Bolso, 2006, 560 pp. R$ 33,00

domingo, 30 de setembro de 2012

A mulher que escreveu a bíblia

O gaúcho Moacyr Scliar (1937/2011), ao contrário de Michel Laub, cujo Diário da Queda comentamos já, foi um escritores de origem judaica que respeitou a tradição cultural de seu povo e fez disso o caldo principal de sua criação em mais de 70 livros em vários gêneros. De seus livros, gosto particularmente dos primeiros: Guerra no Bom Fim e O exército de um homem só, cuja temática, até então, era original. Com o passar do tempo, passou a se tornar repetitivo, ainda que sua prosa seja sempre agradável de se ler. A mulher que escreveu a bíblia, escrito em 1999, apresenta uma línguagem simples, com gírias ultrapassadas e uma trama ingênua que beira o simplório. Mas tem o mérito do humor, que o autor muito cultivou em sua obra.
A história começa no presente, quando um professor de História começa a ganhar notoriedade ao descobrir as extraordinárias possibilidades financeiras como terapeuta de vidas passadas. Seu método baseava-se no conhecimento que acumulara como professor de História. Seus pacientes voltavam ao passado. Enquanto tinham suas visões, o terapeuta ia explicando-lhes os lugares onde estavam, as personagens históricas presentes nas visões, quem eram os cortesãos de determinado rei. Em suma, fazia o papel de guia, conduzindo as pessoas pelos labirintos do tempo. Com a fama, teve de arrumar um lugar maior e mais confortável no centro da cidade. Um dia apareceu uma mulher que regredia no tempo até chegar ao palácio do rei Salomão. Lá, ela era uma de suas esposas e era apaixonada por ele. Só que essa paixão não era correspondida. O terapeuta descobriu, durante as sessões, que na verdade a paciente estava apaixonada por ele, o terapeuta. No começo tentou disfarçar, depois tornaram-se amantes, até que ela o abandonou por outro homem, deixando-lhe, de lembrança um relato: A mulher que escreveu a bíblia. A partir daí, começa a fábula propriamente dita, que se desenrola até o final do livro, tomando cerca de 150 páginas. Detalhe: a paciente do professor de História quanto à Mulher que escreveu a bíblia tinham duas característica comuns: ambas eram feias, mas sabiam ler e escrever.

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Moacyr Scliar. A mulher que escreveu a bíblia. SP, Cia. De Bolso, 2007, 168 pp. R$ 21,00
A Folha de São Paulo circulou nas bancas pelo preço de R$ 18,70

domingo, 23 de setembro de 2012

A literatura dramática de Samuel Beckett

Uma peça de teatro, quando lida ou mesmo recitada, é literatura. Na literatura, é a palavra que constitui a personagem. Quando representada, passa a ser teatro. Se na literatura a palavra é fonte da personagem, no teatro é fonte da palavra, graças à interpretação do ator em personagem fictícia, de acordo com a presença viva do homem no palco, visando comunicar-se ao vivo com seu público. A literatura dramática é muito menos lida que as obras narrativas. Publicam-se muito poucos textos dramáticos. É pena. Ler uma peça de teatro é uma delícia! O tempo de leitura não excede muito o tempo que a peça teria, se montada. Recentemente li três textos fundamentais de Samuel Beckett: num, dois vagabundos maltrapilhos à sombra de uma árvore esquálida, sozinhos no meio do nada; noutro, um cego paralítico e seu criado coxo confinados num interior austero e cinzento; e noutro, uma mulher vaidosa na meia-idade, enterrada até a cintura numa colina seca, sob um sol escaldante.

Escrita em francês em 1949, no pós-guerra de Paris, Esperando Godot foi feita para ser encenada por quatro atores e um menino num palco quase vazio, não fosse por uma árvore quase seca e uma lua ocasional. Dois vagabundos, Vladimir e Estragon, perdidos em meio à paisagem deserta, querendo partir, mas presos a um compromisso tão impreciso quanto inarredável, a espera por Godot. Para matar o tempo, os dois decidem praticar uma conversação, ou representando a peça dentro da peça, com as presenças de Lucky e Pozzo. Realiza-se uma pantomima. Em determinado momento, Lucky entra em cena puxando Pozzo por uma corda. Pozzo carrega uma maleta de que não se desfaz nunca. Se o elemento essencial do texto teatral é a ação, o que se passa aqui é a ineficácia da ação, optando pela apatia melancólica como estratégia de sobrevivência, da espera infinita, da esperança vã sem objetivo definido. A peça de Beckett por isso é inovadora, obrigando a redefinir o que se entende por drama.

As personagens de Fim de partida estão às voltas com a tarefa de acabar de existir, em um cenário que é um abrigo feio e quase sem luz, em que seus quatro habitantes, Hamm, Clov, Nagg e Nell, vivem como se fossem os últimos sobreviventes de uma humanidade destruída. A proximidade enganosa do fim está não apenas na escassez de meios (tudo no abrigo está acabando: remédios, provisões, bicicletas), mas também na decrepitude física dos personagens: um cego paralítico, um coxo, dois mutilados presos a latas de lixo, e na rotina vazia que custa a preencher o tempo de espera, completamente desprovido de esperança. O girar falso do relógio sintetiza o tédio a que são submetidos os personagens, apegando-se a rituais e hábitos cuja única finalidade é matar o tempo. A relação entre o par central, Hamm e Clov, é a de opressor e oprimido. Para evidenciar o jogo que se estabelece entre eles, Beckett opta por padrões quase geométricos: aos cinco risos de Hamm na abertura da peça, correspondem cinco bocejos de Clov; se Hamm tem a cadeira de rodas, Clov tem a escada; enquanto Hamm se esconde atrás dos óculos, Clov espia sua vista através da luneta; ao apito que Hamm emprega para chamá-lo, Clov responde com o despertador. Hamm submete Nagg e Nell, seus pais, a viver dentro de latões de lixo, impingindo-lhes rotinas sádicas, com o fim de provocar-lhes dor e humilhação.

Composta em 1961, Dias Felizes retrata Winnie no primeiro ato enterrada até a cintura e no segundo ato até o pescoço, exercitando um monólogo, já que seu marido, presente em cena de forma discreta, é apenas seu ouvinte. A solidão é o tema da peça. Winnie está enterrada sob um céu escaldante, tendo consigo uma sombrinha para protegê-la sem sucesso do sol e uma bolsa onde traz seus objetos de higiene pessoal. A parte visível de Winnie mostra uma mulher bem vestida, maquilada e enfeitada, que faz sua toalete diária como se fosse algo comum diante dessa situação inusitada. A fala de Winnie mostra o contraste irônico entre o que se passa na realidade e o que ela diz. Implorando respostas do marido que não vêm, está só e abandonada, procurando preencher sua solidão com gestos de tirar e usar objetos de sua bolsa, e com palavras para distrair o silêncio. O texto nos faz pensar: seria Winnie otimista, já que ela começa sua fala dizendo, “mais um dia celestial! Jesus Cristo amém.”? Ao finalizar seu monólogo, ela diz: “Ah, que dia feliz, este terá sido mais um dia feliz!” Acho que Beckett não escolheria o caminho mais fácil para Winnie. Os personagens de Beckett estão presos numa armadilha, de um tipo ou de outro. Em Dias Felizes, o que cabe a Winnie é uma colina de terra crestada. Ela encarna os despojos de uma vida enterrada numa cova prematura. Enterrada na terra, comida por formigas, castigada pelo sol, pela falta de memória e pela indiferença do marido, se manteria ainda otimista?
Em Beckett, a dignidade do ser humano é desmascarada, revelando-lhe suas condições precárias. O guarda-chuva de Winnie, cuidadosamente elaborado para protegê-la do calor, incendeia-se pelo sol. Os vagabundos de Esperando Godot são andarilhos forçados, incapazes de comunicar-se com o restante da humanidade, são contemporâneos da ficção e drama desses anos de pós-segunda guerra mundial. O velhos de Fim de partida poderiam partir, mas preferem se manter presos. Portadores dos despojos da civilização, convertidos em trastes, passam e repassam sua existência vazia de significados. O efeito disso tudo é avassalador, cômico e inquietante a um só tempo.

Muito do que que digo aqui, referente ao “viés filosófico” da dramaturgia de Beckett, vem dos textos introdutórios de Fábio de Souza Andrade (Tradutor das três peças que li).
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Samuel Beckett. Esperando Godot. SP, Cosac Naify, 2005. 244 pp. R$ 69,00
Fim de partida. SP, Cosac Naify, 2010, 160 pp. R$ 59,00
Dias felizes. SP, Cosac Naify, 2010, 136 pp. R$ 59,00

domingo, 16 de setembro de 2012

Diário da queda

O escritor e jornalista gaúcho Michel Laub(1973)ganhou notoriedade como crítico literário da Revista Bravo há tempos atrás. Diário da queda, seu quinto romance, mescla a técnica narrativa entre ficção e memória. Esse procedimento é a tônica da maioria das narrativas lançadas atualmente. Michel Laub é judeu. Decidiu contar, com alguma crítica aos costumes judaicos, a vida de um personagem desde sua adolescência, quando estudava em um colégio judeu tradicional em Porto Alegre (o leitor deve saber o nome), até a reviravolta que o leva a se afastar da educação e dos costumes judaicos na vida adulta, quando se torna escritor.
Aos treze anos, morou numa casa com piscina. Nas férias de julho foi para a Disneylândia. Tinha um videocassete, uma estante cheia de livros e discos, uma guitarra, um skate, um soco-inglês e um canivete. Até então nunca tinha tido uma namorada. Aos treze anos fez o Bar Mitzvah. A tal escola judaica tinha, entre seus pares, um gói (não-judeu. O termo é também usado pejorativamente)que estudava com bolsa. Apesar do narrador nos dizer que nunca se lembrara de casos de discriminação de judeus em Porto Alegre, um fato marcante protagonizado por ele revela que os estudantes judeus discriminavam pessoas que não são da religião judaica. Durante a festividade de bar mitzvah, o grupo joga o pobre bolsista para cima, para ampará-lo numa cama de gato. Numa dessas, o personagem-narrador retira a mão e o jovem estatela-se no chão, sofrendo consequência graves que o faz usar colete ortopédico por muito tempo.
O narrador, então, passa a ter afeto pelo colega e tornam-se amigos. Não sabe dizer por que se tornara amigo da vítima. Isso não teria acontecido por pena de alguém, ou porque passara meses torturado com a hipótese de quase ter destruído aquela pessoa, embora isso possa ter sido o impulso no primeiro esforço de aproximação. Não fosse isso, não teria se oferecido para ajudá-lo com os estudos. Dessa reflexão fazem parte também as trajetórias de seu pai, com quem o protagonista tem uma relação difícil, e de seu avô, sobrevivente de Auschwitz que passou anos escrevendo um diário secreto e bizarro. São três gerações, cuja história parece ser uma só; são lembranças que se juntam de maneira fragmentada, como numa lista em que os fatos carregam em si tanto inocência quanto brutalidade. O narrador chega a questionar qual a diferença do massacre de judeus em Auschwitz com o massacre do colega em sua festa de aniversário. Michel Laub faz parte dos escritores de origem judaica que lutam contra ela. O autor interpreta a tradição no que tem de petrificado, pondo sua experiência de vida em questão, explorando a dimensão ética e política da memória.
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Michel Laub. Diário da queda. SP, Cia. das Letras, 2011, 152 pp. R$ 38,50

domingo, 9 de setembro de 2012

Bel-ami

Guy de Maupassant (1850/1893) foi um escritor e poeta francês. Teve vida boêmia, contraiu sífilis e acabou internado como louco num manicômio, onde veio a falecer. Foi amigo de Gustave Flaubert (Madame Bovary), que o incentivou a escrever. Sua produção de peso foi a narrativa curta, mas enveredou também pelo caminho do romance. Bel-ami é um desses.
Em Bel-ami, George Duroy é um jovem belo, charmoso e fogoso. Bigodes e olhos azuis. De origem humilde, vive na Paris da belle époque do final do século XIX. Nesse período, a França lançava sua rede na África para conquistar colônias. Duroy é pobre, ganha um salário miserável para suas pretensões, mas graças a um amigo que havia lutado com ele na Argélia, consegue um emprego em um jornal. Como era medíocre na escrita, obtém ajuda da mulher desse amigo, para se firmar como jornalista. A partir de então, pensa em conquistar um lugar na aristocracia parisiense. Incentivado por essa mulher, é introduzido na sociedade aristocrática e passa a seduzir mulheres casadas. Desde então, planeja ludibriá-las astuciosamente para conseguir fama e reconhecimento, desrespeitando qualquer forma de sentimento. Maupassant conduz, assim, seu personagem, por uma trilha de blefes, chantagens, encontros amorosos às escondidas. Enquanto Duroy vai desvendando, com a ajuda de suas amantes, as trapaças do jornalismo e as ligações que seu novo ofício estabelecia com as altas esferas de poder, o leitor assiste à pintura impiedosa de uma outra Paris, oculta sob o glamour dos salões, onde o tráfico de influências impera e envolve imprensa, política e poder financeiro.
O filme Bel-ami, passado recentemente nos cinema, foi baseado no romance homônimo de Maupassant, mas com uma leitura equivocada do personagem Duroy. No filme, nosso anti-herói é um personagem romântico inseguro e com complexo de inferioridade, por ser pobre (e não tem bigote e tem o nariz torto). Sendo assim, busca vingar-se dos poderosos, seduzindo-lhes as esposas para galgar fama e dinheiro. O ambiente faustoso da belle époque do livro desaparece no filme, bastante pobre, aliás, em cenários, figurinos e tomadas externas. Acontece que Bel-ami é um romance realista e na trama escrita Duroy é um personagem de uma ignóbil ingenuidade, tão cretino quanto os demais. Um dândi inconsequente. Maupassant teve influência de Schopenhauer, filósofo alemão que viveu a mesma época de Maupassant. A visão de Schopenhauer sobre o amor é de que este pode ser meta de vida, mas não de felicidade. Daí o pessimismo nas relações humanas. O foco da vontade de Duroy é o impulso sexual. A encarnação do erotismo que enleia sobretudo mulheres e não conhece escrúpulos. Bel-ami não se trata de uma obra prima, mas sua história, ainda que superficial, é bem tramada e prazerosa de ler.

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Guy de Maupassant. Bel-Ami. SP, Estação Liberdade, 2010, 368 pp. R$ 51,00

domingo, 2 de setembro de 2012

Lavoura arcaica

Você deve conhecer o conceito de novela. Há quem diga tratar-se de um gênero intermediário entre o conto e o romance, tomando como base a extensão da narrativa. A novela seria uma narrativa curta: 60, 80, 100 páginas. O assunto gira em torno de um único protagonista que carrega o argumento da trama do começo ao fim. Noite, de Érico Veríssimo, é novela; Os Ratos, de Dyonélio Machado, também. Na verdade, o termo novela é mais ou menos recente no estudo da literatura brasileira. Os norte-americanos usam o termo novela para qualquer narrativa, independentemente da densidade do argumento. Os espanhóis também. Novela, ou romance, tanto faz, não comete pecado quem classificar uma novela de romance.
Há duas novelas que são duas obras-primas da literatura brasileira, graças à extraordinária qualidade de sua linguagem e força poética da sua prosa, ambas escritas na década de 70 por Raduan Nassar. São elas, Lavoura arcaica e Um copo de cólera. São duas narrativas curtas. A trama das duas histórias é centrada num narrador-personagem, com suas crises existenciais. Em Lavoura arcaica temos André, o narrador-personagem, adolescente, não se enquadra nos padrões da vida rural do interior, cuja autoridade paterna rigorosa, através de sermões, o atormentava. Ana, sua irmã adolescente, desperta nele os primeiros impulsos sexuais, e isso o atormenta também. Ele resolve abandonar a família e viver sozinho, até que seu irmão mais velho, imbuído dos mesmos princípios paternos, vem buscá-lo para que se reintegre à família, satisfazendo, assim, a vontade do pai. Uma série de lembranças importantes, algumas marcantes, outras tristes, vêm à tona durante a conversa que André tem com seu irmão. O recado que o irmão traz de seu pai, é que o homem, quanto mais se protege, criando uma casca, mais se tortura com o peso da carapaça, pensa que está em segurança, mas o que sente é medo, escondendo-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos. Torna-se prisioneiro de si mesmo. Traz na mão a chave, mas esquece de abrir o peito, afligindo-se com problemas pessoais sem chegar à cura. O recado do pai também diz que o homem não deve se tornar individualista, mas fazer parte de uma unidade maior, que é a família. André, até então incapaz de partilhar da vida em família, sentindo-se distante e alheio ao pequeno mundo moralista de seu pai, não suportando-lhe os sermões, o abecedário judaíco-cristão repetido à exaustão junto à mesa, a pacata e macilenta convivência com os familiares, além de demonstrar uma clara incapacidade de crer e obedecer guiado apenas pela fé cega de que parecem partilhar o pai e o irmão mais velho, decide voltar para ter um diálogo definitivo com seu pai, diálogo que ocupa a segunda parte da história. Diferentes visões de fé, moral e costumes são confrontadas. O pai consegue ouvi-lo no que tem a dizer. Fazem, os dois, uma purgação do que é estranho à essência ou à natureza de cada um.
Um copo de cólera também apresenta um confronto existencial entre dois amantes. Ele, um homem bem sucedido na vida, dirige-se a seu sítio para ter um encontro amoroso com a mulher. O que acontece nesse encontro, depois um sexo brutalizado, é que ele ouve dela duras críticas sobre sua arrogância, prepotência, frieza de caráter, ausência de sentimentos. Esses ataques provocam cólera num e noutro, até chegar ao limite dele bater na mulher. Tanto Lavoura arcaica como Um copo de cólera foram vertidos para o cinema. Lavoura arcaica resultou num filme com quase quatro horas de duração, mantendo uma densidade dramática que prende o interesse até o final. Um copo de cólera resultou num filme pobre, parte devido ao parco orçamento que Júlia Lemmertz e Alexandre Borges tiveram para produzi-lo. Alguns atores (Marieta Severo foi uma) trabalharam afetivamente (de graça). Como o diálogo dos dois é muito denso, pesado, o filme não conseguiu captar a linguagem cinematográfica adequada às cenas, tornando-o parado e chato.
Raduan Nassar, filho de libaneses, nasceu em Pindorama, São Paulo, em 1935. Sempre foi apaixonado por bichos domésticos. Quando adulto, iniciou-se no curso de Direito e de Letras. Desistiu do segundo. Dois anos depois, começa Filosofia, que acaba largando. Não chega a concluir o curso de Direito. Viaja ao exterior. Na volta, reinicia o curso de Filosofia. Vai para a Alemanha, estudar o idioma. Nesse período, instala-se a ditadura militar no Brasil. Nassar decide voltar ao Brasil, para dedicar-se à literatura. Sua primeira obra, Lavoura arcaica, foi publicada por iniciativa de um irmão seu, que tirou cópia da novela, que acabou sendo publicada pela editora José Olympio em 1975, fazendo grande sucesso.
Por razões não suficientemente esclarecidas, Raduan Nassar, depois de conhecer o sucesso, inclusive internacional, dessas duas histórias, não produziu mais literatura. Um livro de contos que circula no mercado é uma compilação de contos que ele escreveu durante esse período da década de 70. O sucesso parece ter excedido em muito aquilo que o escritor esperava de si, e, ultrapassado pela própria obra, ele tomou a decisão de recuar. Voltou-se ao cuidado dos animais, embora tenha se mantido ativo, participando de palestras e entrevistas sobre sua criação literária.
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Raduan Nassar. Lavoura arcaica. SP, Cia. das Letras, 3ª ed., 1989, 200 pp. R$ 39,50
Um copo de cólera. SP, Cia. das Letras, 5ª ed., 2001, 88 pp. R$ 29,00

A Folha de São Paulo lançou nas bancas sua edição de Um copo de cólera, a R$ 18,70




domingo, 26 de agosto de 2012

As cartas de amor de Edith Piaf

As cartas de amor de Edith Piaf é um título enganoso, pois aborda apenas uma série de cartas da famosa cantora francesa a um de seus vários amantes, que até então, estivera obscurecido na biografia da artista, Louis Gérardin, o Totó, o belo e elegante herói do ciclismo francês. O motivo dessa correspondência ter sido mantida em sigilo, deveu-se, quem sabe, ao fato de Gérardin ter sido um homem casado que não conseguiu abandonar a esposa. Essas cartas surgiram em 2009, quando foram leiloadas em Paris. Parece que Gérardin havia superado o posto de grande amor de Piaf de Marcel Cerdan. Trata-se de uma correspondência composta de mais de cinquenta cartas manuscritas, escritas no período de novembro de 1951 a setembro de 1952, tempo de duração do romance dos dois. Quando se conheceram, Edith recém-recuperara-se da perda de seu grande amor, o pugilista Marcel Cerdan, morto em desastre de avião em 1949. Edith Piaf amava cada homem com quem se apaixonava, como se fosse o único e o último. De coração impetuoso, teve vários relacionamentos amorosos que duravam, em média, um ano, um ano e meio. Oficialmente foram 16 maridos.
As cartas de amor de Edith Piaf< estão organizadas em três partes: cartas e telegramas datados, cartas e telegramas não-datados e um texto pequeno de apresentação da cantora à imprensa norte-americana, quando de uma de suas apresentações naquele país. Sem valor literário, com vários erros ortográficos amenizados pela tradução para o português, a correspondência nos mostra uma mulher que valorizava os dotes físicos de seu amante, ao mesmo tempo que reclamava dele uma atenção mais próxima. A impressão que fica é de uma Piaf sufocante, chegava a escrever mais de uma carta por dia. Sonhava montar uma casa com Gérardin, mesmo ele não se desfazendo do casamento com a mulher legítima. Cantora dramática, era também dramática em sua vida pessoal. Ela diz em uma de suas cartas, "que gostaria de ser esmagada pelo teu corpo", noutras cobra-lhe: "Querido, diga-me se tem vontade de me ver (...) às vezes você me telefonava (assim que me deixava), que me amava (...) é que em certos momentos não sinto você em meu coração". De início, uma mulher enlouquecida de amor, que suportaria tudo pelo amante. Já mais para o final, uma certa resignação de que o está perdendo, até que chega, em uma das cartas, a lhe cobrar um dinheiro emprestado.
As cartas de amor de Edith Piaf só vale a leitura, se você for muito fâ da cantora.
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As cartas de amor de Edith Piaf. Barueri, SP, Amarilys, 2012, 156 pp. R$ 39,00