terça-feira, 26 de outubro de 2010

Quincas Berro d'Água: o livro carrega o filme

Vocês conhecem alguém que tenha visto uma obra cinematográfica baseada em livro, melhor que o livro? Eu, não. Mas, devem existir, sim. Eu, particularmente, gosto muito de assistir a filmes adaptados de obras literárias, especialmente depois de lê-las. Gosto das películas que fazem uma leitura competente do livro, respeitando a obra, criando cenas muito próximas do que havia imaginado quando lia um livro.
Mas, há filmes que deixam muito a desejar em relação às obras ecritas em que foram baseadas. Quincas Berro D'Água é um deles. As coisas começam pelo fato de o filme ser da rede Globo. Explico: os cineastas enviam seus projetos para arrecadar fundos para a filmagem se utilizando, entre outras coisas, de atores globais, não sei se para puxar público para o cinema ou se para ganhar algum, divulgando o filme na própria Globo. É aquela história, o governo dá dinheiro para a Globo ( que direta ou indiretamente acaba usando o produto como se fosse dela mesma, já que o elenco é todo ele global).
Bem, voltemos ao livro versus filme.
A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água é uma novela de Jorge Amado, escrita em 1958, uma das melhores obras do autor. Joaquim Soares da Cunha, o Quincas, foi funcionário público, pai e marido exemplar até o dia em que jogou tudo para o alto, trocando família, respeitabilidade, conhecidos, amigos, tradição, pela convivência com as prostitutas, os bêbados, os marinheiros, os jogadores e pequenos meliantes e contraventores da ralé de Salvador. Sua sede era saciada com cachaça e seu descanso pelo corpo acolhedor da prostituta. Fez-se respeitado e admirado entre seus novos companheiros de infortúnio, sempre disposto a mais uma farra ou bebedeira. Sua opção pela bandalha representa o grito do homem dominado e cerceado por preconceitos, que um dia rompe as amarras e grita por liberdade. Morreu solitariamente sobre uma cama imunda e sua morte detonou todo o processo de reconhecimento e desconhecimento por parte da família real e da família adotada.
Os amigos durante o velório se embriagam e resolvem, bêbados, levar o defunto para um último "giro" pelo baixo-mundo que habitavam. O passeio passa pelos bordéis e botecos, terminando em um saveiro, onde há comida e mulheres. Vem uma tempestade e o corpo de Quincas cai ao mar.
É Esse o plot do filme. A ação centra-se nessa via crucis de Quincas, já morto, querendo a voz de sua alma que os amigos lhe façam o desejo de morrer em paz, do jeito "proletário" de viver. Os quatro atores que carregam a ação dramática são o melhor do filme e os que o salvam de um desastre. Com atuações cômicas, "clownescas", convincentes, esses quatro bêbados dão credibilidade à história, prendendo a atenção do espectador até o seu final. Os atores globais de maior nome como Paulo José, Mariana Ximenes e Marieta Severo têm atuações discretas. Marieta Severo encarna uma prostituta amante do Quincas, falando um castelhano muito mal estruturado. A sensação que tive de Marieta Severo, é que ela tirou a personagem da epiderme do braço esquerdo e ficou com preguiça de investir melhor seu talento, que é bom quando ela quer. Mariana Ximenes ensaia uma tentativa minúscula de sotaque baiano, que abandona na segunda fala e o que vemos é mais uma Clara da novela das nove, pasteurizada e sem gosto.
O problema do cinema brasileiro dessa safra atual, é que os filmes passam a sensação de serem feitos nas coxas, baseados em uma idéia interessante até, mas sem criativade e fôlego para uma produção decente. Quem vai a cinema seria para ver cinema e não seriado de televisão. O jeito em que as coisas andam na produção cinematográfica, fazem pensar num certo amadorismo descosturado na sétima arte nacional.
===============
A morte e a morte de Quincas Berro d'Água. Jorge Amado, Cia das Letras, 2008, R$ 25,00
Quincas Berro d'Água. Direção de Sérgio Machado. Elenco: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta. R$ 29,90

domingo, 17 de outubro de 2010

O último pingo vai sempre pra calça?

Já comentei uma vez aqui, acho uma pena que, pelo menos em minha geração (1953), os homens tenham sido educados diferentemente das mulheres. Digo-lhes isso para questionar por que os banheiros masculinos são nojentos e sujos. Será por que a mulher não ensinava o filho homem a sacudir o piupiu depois de urinar? Minha mãe nunca me ensinou. O que ela me ensinava era que eu devia entrar no banheiro, levantar a tábua do assento, urinar e puxar a descarga. Essa história de que tinha de sacudir, limpar com papel higiênico a cabeça do guri e guardá-lo com cuidado para que o último pingo não perpassasse a calça eu aprendi por conta própria, depois de alguns vexames.
Hoje já se percebem mudanças, pelo menos na classe média em que marido e mulher trabalham fora e parte da educação de seus filhos fica a cargo das creches. Sei de homens que trocam fraldas, buscam os filhos na escola, quando se separam lutam para ficar com a guarda dos filhos. Isso ainda não é comum, mas se encontram com frequencia homens que amam seus filhos de igual para igual. Mas, a situação da sujeira dos banheiros masculinos não mudou nada.
Em minhas andanças frequentes pelo Brasil de avião, tenho de fazer uso dos banheiros de aeroportos. São nojentos. Mesmo levando-se em conta que a limpeza deles sejam feitas algumas vezes por dia, mesmo assim, permanecem sujos: muitos pingos no chão ao redor dos mictórios. Pedaços de papeis entupindo a saída da água de muitos deles. Quanto aos vasos sanitários desses banheiros nada poderei argumentar, pois tenho toc (nojo de banheiros públicos) e jamais me vi na possibilidade de evacuar, sentando em um desses aparelhos.
Confesso que um pouco dessa sujeira no local dos mictórios deve-se ao fato da mira não muito segura da genitália masculina: às vezes a gente mira no lugar correto, mas o jato desvia para o lugar errado. Paciência. Mas esse erro estratégico não é o maior responsável pela nojeira dos banheiros públicos. Muito disso é falta de educação, mesmo! Mesmo que eu tenha criticado no início deste texto que a mulher não educava o menino igualmente à menina, depois de adultos devemos ter a consciência de que nos educamos através da vida e somos reponsáveis por essa educação e mudança de hábitos, quando se trata de cuidar da estética dos banheiros masculinos.

domingo, 29 de agosto de 2010

A felicidade consiste em quê?

Li num blog de cultura, recentemente, uma afirmação creditada ao escritor francês Romain Rolland, de que "a felicidade consiste em conhecer seus limites e amá-los". Uma afirmação importante dessas assim, pinçada ao acaso e fora do contexto em que o autor a citou, pode tornar-se inconsequente a qualquer comentário. Mas, vou puxá-la para um contexto subjetivo e fazer algumas considerações: Puxa vida! Como podemos conhecer nossos limites sem transcendê-los? Os semideuses da mitologia grega buscavam ultrapassar seus limites. Sua hybris (ousadia) suscitava a fúria dos deuses e eram castigados. Daí virem muitas das tragédias gregas que conhecemos: Prometeu foi um titã que criou os homens (com seu irmão Epimeteu) e também roubou o fogo dos deuses para presentear às suas criações. Isso tornou o homem superior aos animais. O fogo era exclusividade dos deuses. Por isso Zeus puniu Prometeu, acorrentando-ao topo de um monte, onde diariamente uma águia dilacerava seu fígado, que diariamente se regenerava. Imaginemos se Prometeu tivesse conhecido e respeitado seus limites, obedecendo sua "natureza"... teria tido uma vida feliz e livre dos castigos. Mas o homem não teria ganho o fogo, princípio de nosso progresso material.
Ícaro tentou fugir de Creta usando asas fabricadas pelo artesão Dédalo, seu pai. Ele deveria voar longe do sol para que a cera que sustentava suas asas não derretesse. Desobedeu a ordem aproximando-se do sol e foi castigado. Suas asas desmancharam e ele caiu no mar. Hoje voamos de forma segura (sem nos aproximarmos muito do sol, claro). Devemos, quem sabe, isso à ousadia de Ícaro, que buscou o desafio de fazer o homem voar como os pássaros.
Então, conhecer seus limites. Um desafio contrário ao dos semideuses. Conhecer a nós mesmos é uma tarefa ingrata, muitas vezes. Não vou dizer que isso é impossível, pois já ouvi muita gente falar que conhece seus defeitos e qualidades, que conhece seus limites e não infraciona a lei natural da existência. Mas eu, sinceramente, não sei dizer se conheço meus limites. Admito que tenho medo, até, de conhecê-los a fundo. Isso me assusta, embora possa ser o caminho da minha felicidade. Deve ser muito bonito conhecer suas limitações e respeitá-las. Mas a minha felicidade ainda não passou por isso. Tive e ainda tenho o ímpeto dos semideuses, de buscar conquistar aquilo que está longe de mim. Traço mil e uma estratégias. Me ferro na maioria delas. Mas as poucas vezes que consegui esse feito me senti feliz. Será que estava ultrapassando aquilo que julgava ser o meu limite, ou estava justamento trabalhando dentro das suas possibilidades... Boa pergunta pra mim: vou pensar a respeito.
================
Romain Rolland foi um biógrafo, novelista e músico francês nascido no século XIX e morto em 1944. Dizia, entre muitas coisas, que o pessismo da inteligência não deveria abalar o otimismo da vontade. E agora?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Ganhos

o que você vai fazer, quando se aposentar? Quero ficar um bom tempo sem fazer nada, depois decido alguma coisa. É bom pensar em algo para fazer, você ainda é novo, 53 anos, há planos, coisas a fazer...
Pois é, coisas a fazer. Mas, o quê? Não sinto vontade de fazer nada, minha vida de trabalhador sempre teve o pensamento e a fala: "não vejo a hora de parar de trabalhar e gozar a vida!" Gozar a vida, pra mim, sempre teve a intenção de não fazer nada. Entenda-se esse "nada" como todas as coisas proveitosas, agradáveis, prazerosas, que não podemos fazer porque estamos trabalhando por obrigação,para construir essa base para o "nada" do que estou falando.
Quando estava envolvido com o processo da aposentadoria do banco onde trabalhava, tive crise: tonturas, expectativas, indecisões. Conversei com Rozana, já fora do banco. Estava em Ibiraquera, morando na praia com seus cachorros e o marido. Feliz da vida. Quem não é feliz da vida perto do mar! Conversei com Gládis, recém-saída do trabalho: "não tenho tempo pra nada!", me disse ela. Quem já está aposentado entende o que ela disse. De fato a gente não tem tempo pra nada. Porque a noção de tempo de um aposentado que preza o "dolce far niente" é outro. Mais curto. O tempo passa depressa. A ruptura dos padrões desse bom pedaço da vida em que produzimos para sobreviver, que é o trabalho ativo, compromissado, de carteira assinada, é uma coisa muito boa. Eu penso assim. Sinto isso. Gostei muito.
Dias desses falei com Zuleide, que se retirou do batente na mesma época que eu. Está fazendo artesanato, reick, passa temporadas na praia quando quer, preferentemente fora da loucura do veraneio. Acompanha a trajetória da filha que corre o mundo, trabalhando numa ong humanitária. Está fazendo nada... que delícia!
Dias desses falei com Valdir, que se transferiu parcialmente para Chapecó. Está feliz com a mudança de ares. Tem vontade de investir num novo trabalho, ele precisa disso. Está perseguindo o que gostaria de fazer, com uma boa remuneração, sem neuras.
Dias desses almocei com Claudinha, Berê e Ricardo, colegas da ativa que ainda têm um caminho a percorrer. Junto estavam Hamilton e Ana, que estavam saindo para "o não fazer nada". Dúvidas? Claro! Mas tenho a certeza de que a liberdade é o melhor caminho para todas as escolhas, mesmo que seja para "nenhuma delas", como é o meu caso.
A aposentadoria incomoda porque acontece no momento em que estamos no alvorecer de nosso envelhecimento. Se envelhecer pode ser uma coisa boa, poderá também ser uma coisa complicada. Melhor dizendo, com algumas complicações, nada que não se possa resolver com nosso plano de saúde. Batalhem pela liberdade, meus amigos! Vale a pena.

sábado, 10 de julho de 2010

Perdas

Lidar com perdas não é tarefa das mais fáceis. Mas é inevitável. As perdas fazem parte de nossa vida, seja uma perda amorosa, a perda de um emprego, uma oportunidade, seja a perda de um ente querido. A dimensão dramática do que significa uma perda eu tive com a morte de minha mãe. A ausência dela mostrou um espaço irreparável que não poderia mais ser preenchido. Era tratar de reorganizar a vida, o que fiz buscando meu primeiro emprego, pois era adolescente, nessa época. Hoje, pensando sobre isso, sinto que a pessoa que mais sentiu e se modificou, a partir da ausência de minha mãe, foi meu pai.
Seu sorriso já não era mais o mesmo, até quando algum tom alegre no ambiente o fazia sorrir. Quando não gostava de alguma coisa, limitava-se a resmungar e fechava a cara de poucos amigos. Às vezes eu implicava, perguntando-lhe o que era. Ele respondia nada. Certas dores no corpo, a pedra nos rins...
Percebia-se a mudança também no rosto. A boca que pronunciava palavras silenciosas, enquanto jogava cartas sozinho na sala, não tinha mais cor. Era uma boca de defunto. Os olhos castanhos acumulavam as marcas do tempo a seu redor e os poucos cabelos da parte lateral da cabeça não escondem mais a mescla de grisalhos: era completamente branca.Quando me aproximava para lhe desejar bom-dia, o braço que me tocava o ombro estava completamente flácido.
Quando me sentava na outra ponta da mesa para tomar o café da manhã, sentia sua respiração ofegante. Tossia de vez em quando. Ouvia o barulho da xícara raspando o pires e me sentia assim como ele, também diminuído, gelado, trancado na mesma saudade, parceiro de mesma solidão.
O silêncio enchia a sala. Quando essa triste lembrança da morte dela se tornar saudade, talvez pudéssemos voltar a discutir futebol e política, sorrindo e brigando como velhos amigos. Torcia para que o tempo fizesse surtir seu efeito.
Não foi possível. A saudade dela acabou tirando-lhe a vida alguns anos depois.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Solidão que une

Ontem assisti a um filme perturbador em dvd: "Ander", filme falado em basco e espanhol, com legendas em espanhol. Ander era um homem de quarenta anos que dividia suas tarefas numa fábrica de bicicleta com a vida no campo. Morava com sua mãe velha, moralista e autoritária, que se negava a falar espanhol com quem não fosse basco. Havia também a irmã, que estava prestes a casar.
Um dia, Ander sofre um acidente e quebra uma das pernas. Foi preciso contratar um ajudante rapidamente. Encontraram um peruano, Juan, que estava na região à procura de trabalho. Ele é contratado, apesar da objeção da mãe, por ser estrangeiro.
Aí a história ganha interesse: os dois tornam-se amigos e Ander descobre sentimentos que até então desconhecia. Busca aproximar Juan da família, contra a vontade da mãe. Na festa de casamento da irmã, Juan leva Ander ao banheiro, para ajudá-lo a urinar; Juan demonstra-lhe fisicamente seu afeto. Fazem sexo - Juan penetra Ander, que se desestabiliza, a partir de então.
Logo em seguida sua mãe morre. Os dois passam a viver sozinhos no sítio. Juan passa a ser maltratado. Ander trata-o com desprezo, mas vai conseguindo observar a dedicação do empregado para com ele e as coisas da casa. Sente a crise, vê seu relacionamento com amigos e parentes se modificar, e precisa decidir se deseja realmente incluir Juan em sua vida.
O que me chamou a atenção no filme foi que a solidão de Ander, assim como a de Juan, pediam a presença um do outro. Viver solitariamente é uma arte difícil de se aplicar na vida de alguém. Viver junto é bacana, mas difícil. Viver sozinho também é bacana, se for mais que uma opção, uma filosofia de vida. Permitir a presença do outro em nossas vidas requer uma política de relacionamento muito bem articulada. O amor (e a amizade), para criar raízes, precisa ser administrado com razão e sentimento.
Ander, que vivia solitariamente em seu cotidiano, fazendo sexo evetualmente com uma prostituta, descobriu a necessidade do amor na figura suave de Juan, que demonstrava seu carinho na maneira discreta de ser e agir.
O filme carrega outras simbologias interessantes: a atração que Ander sente por Juan começa situada na dominação do forte pelo fraco. O relacionamento dele com a mãe, a rigidez da educação que quando se desfaz, com a morte dela, deixa Ander desorientado. A homofobia de Ander, o moralismo da cultura espanhola, em termos mais abertos, enfim, o filme é riquíssimo. Pena que dificilmente circule nas telas brasileiras, não é filme fácil de se ver. Na Espanha ele foi proibido. Circula em festivais gueis, onde já ganhou prêmios, mas a temátima homossexual não é a bandeira do filme. Vale a pena vê-lo!
------------------
Ander, Direção: Roberto Castón
Elenco: Joxean Bengoetxea, Christian Esquivel, Mamen Rivera

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O limite do viver

Neste final de semana o Domingo Espetacular mostrou a matéria de um casal de velhinhos - sessenta e tantos anos de casados, segundo a esposa - o marido saíra para caminhar e não voltara até à noite. Junto com ele, a cachorrinha que o seguia sempre. A velhinha, assustada, buscou ajuda dos vizinhos para achar o marido, mas não o encontraram. Pediram ajuda do corpo de bombeiros. Acabaram descobrindo o velhinho no meio de um canavial, durante a madrugada. Ao sentir barulho, a cachorrinha dera sinal e os bombeiros chegaram até ele, de barriga para baixo, ainda vivo.
Enquanto via a matéria, fiquei pensando no que poderia estar passando na cabeça do velhinho naquele momento. Não sou médico neurologista nem geriatra, o que me impressionou no assunto tratado levei para o campo da ficção. O velho não conseguira morrer. Não tivera forças para cavar sua própria cova? Estava vivo para alegria da esposa e para seu desapontamento. A fisionomia do velho era de tristeza, de decepção. O repórter perguntava coisas que ele não respondia. A esposa dizia que ele era tudo na vida dela. Precisava dele. Ele talvez já não precisasse de ninguém.Aquele velhinho personagem, que se perdera por não conceber mais o espaço real da vida, caminhara para o nada. Para o infinito. Saíra da casinha da vida, entrara no delírio do fim do mundo, mesmo. Será que não queria mais viver? O que será que pensa da vida ele, já que ainda está vivo? Já não pensa mais nada.
O velhinho da matéria da televisão me impressionou e incomodou meu lado velho, que está se aproximando cotidianamente e sempre. Como estarei eu com a idade daquele velhinho? Ele aparentava uns noventa anos... Fiquei incomodado porque tenho medo da morte. Gostaria de viver bastante ainda, e bem lúcido com a realidade. Mas ainda não cheguei aos sessenta e ele já está nos noventa. Já deve saber mais da morte que da vida. Já não domina mais essa vida que tanto aprecio querer viver. Seu domínio é o desejo pelo desconhecido. Quando saiu a caminhar e se perdeu, para ele isso não tinha sido uma perda (perder-se é um caminho), mas um desejo de viver a morte.
Remeto os leitores para dois livros muito bons que retratam o velho como personagem: "O albatroz azul", de João Ubaldo Ribeiro, que retrata a vida de um homem bastante velho, que apesar de muita sabedoria colhida durante a vida, ainda busca um sentido para viver. Outro é "Memória de mis putas tristes", de Gabriel Garcia Marquez. Nele, lemos um homem de noventa anos que programa passar a noite com uma adolescente, para provar a si mesmo e ao mundo, que está vivo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A 60 minutos por hora

Hoje pela manhã, quando voltava do supermercado pela segunda vez, me veio à cabeça a música “A 60 minutos por hora”, de Walter Franco (a música faz parte do ótimo cd de Leila Pinheiro, “Nos horizontes do mundo”, Biscoito Fino). A letra diz: “a 60 minutos por hora/sem pressa nem demora/a 60 minutos por hora pela vida afora/venha, não tenha pressa/pra chegar a lugar nenhum”. Por que me veio essa música na cabeça?
Sou um cara apressadinho por natureza. A pressa sempre fez parte de minha vida, mesmo não precisando dela. O que me motiva isso é a ansiedade. Sou um cara ansioso à beça. Seja o que for que eu faça, faço com uma tensão desnecessária, que já me prejudicou muitas vezes. Desde criança fui assim, apressadinho, fazendo tudo correndo, me livrando das tarefas obrigatórias para poder brincar em paz. Hoje, já na adolescência do envelhecer, aparentemente sou um sujeito calmo e tranquilo. Mas internamente...
A ansiedade faz parte da minha personalidade, paciência.Tenho de carregá-la da forma mais diplomática possível, evitando o estresse.
Voltando ao supermercado, eu tenho o hábito de entrar nele já de costas, fazendo tudo rapidamente, pois não gosto daquele ambiente, principalmente quando há muita gente se pechando (conhecem essa? Os rio-grandinos como eu conhecem essa gíria), filas no caixa, demora. Apesar de me trabalhar há alguns anos para lidar com essa bruta ansiedade, às vezes me atropelo, esqueço de comprar metade do que precisava, e acabo voltando para completar a tarefa. Foi na segunda volta do supermercado,hoje pela manhã, já resignado com minhas imperfeições, que me toquei cantando essa música que na aparência é engraçada, mas contém uma filosofia de vida: as coisas acontecem num tempo. Se você for apressadinho, vai multiplicar esse tempo por dois. Portanto, “a 60 minutos por hora/sem pressa e sem demora”. Grande Walter Franco!
Obs.: para quem não conhece ou não lembra de Walter Franco, ele ficou conhecido na década de 70 com a música “Cabeça”. Ela ganhou um festival internacional da canção, mas destituíram o júri, não reconheceram a música, e quem acabou ganhando o festival foi Jorge Ben Jor com “Fio Maravilha”. Chico Buarque gravou uma música de Walter Franco no disco Sinal Fechado (1974), chamada “Me deixe mudo” (“não me pergunte/não me responda/não me procure/e não se esconda/não diga nada/saiba de tudo/fique calada/me deixe mudo”). Era no tempo da ditadura e Chico Buarque, proibido de gravar suas próprias canções, lançou o disco com composições de outros autores.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Preconceito e razão

Li no sítio do jornal A Capa desta semana, que a torcida do São Paulo publicara um manifesto na internet, ofendendo o jogador Richarlyson, depois que circulou a notícia que o jogador havia sido visto numa boate gay paulistana. O texto que havia sido publicado pela torcida começava assim: "Não é de hoje que esse traste suja a imagem sagrada do São Paulo Futebol Clube com seu jeito afeminado. Dentro de campo, sequer justifica isso com um futebol decente. O fato é que Richarlyson é o antimarketing do clube, isso pode afetar inclusive o crescimento da torcida são-paulina. “ Após a repercussão do caso, a direção retirou a notícia do ar e se contradisse, afirmando que a torcida organizada são-paulina não era preconceituosa, só estava querendo cobrar do Richarlyson uma postura mais efetiva em campo, já que não estava mostrando bom jogo.
Ora, o que se viu acima é uma atitude preconceituosa, sim. As pessoas têm medo de conviver com a diferença, ainda mais quando essa diferença possa envolver a sexualidade de alguém.
Richarlyson nunca afirmou publicamente que fosse homossexual, pelo contrário. Bobo ele se, sendo, o dissesse. Com uma imprensa de quinta categoria, como a nossa, imagina o estrago que o craque faria em sua carreira, num esporte eminentemente machista.
Por que será que somos preconceituosos? Já notaram pessoas que contam piadas sobre viados justificando-se imediatamente, dizendo que não têm preconceito, que é apenas uma brincadeira? Com negros também se faz isso. Com índios (“fazer uma indiada”), com loiras, etc. O interessante nisso tudo é que quando a diferença é bi volt, o fato se abranda um pouquinho: o homossexual afetado é visto com o mesmo sarcasmo que o homossexual com comportamento semelhante ao heterossexual. A diferença é que o afetado, muitas vezes, acaba compactuando a visão machista da maioria heterossexual, submetendo-se ao preconceituoso.
Mas as coisas, parece, estão mudando. Por exemplo, minha visão da homossexualidade anda em crise. Já não ando mais acreditando em uma só homossexualidade, há homossexualidades. Existem os afetados porque se sentem bem assim, tanto quanto os gueis normais (com comportamento social hétero). A visão de bissexualidade está adquirindo um status de aceitação maior, visto que há tempos atrás, o bissexual era visto como o homossexual que não se assumia (ainda que os não-assumidos existam em número relevante).
Bem, conviver com a diferença, não é fácil. Envolve receio, medo, insegurança, inveja, um monte de coisas. É muito bom que os diferentes se mostrem, mesmo os que sejam héteros como Richarlyson se diz ser. Caetano Veloso escandalizou nas décadas de 60 e 70 e não é homossexual. Eu, que tenho minha homofobia presente, devido à educação, aos meus receios e inseguranças, procuro fazer o exercício de enxergar a diferença como normal e necessária, pois isso é saudável. Parabéns a Richarlyson por ser do jeito que gosta, porque se sente bem assim.
Para quem se interessa sobre o tema homossexualidade, tem um livrinho interessante que pode ser encontrado em sebos: O que é homossexualidade, de Peter Fry e Edward Macrae. Coleção Primeiros Passos, Ed. Brasiliense.

Campanha mundial contra a fome

A FAO, Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, está realizando uma campanha mundial contra a fome (1billionhungry) lançada no dia 11 de maio, que consiste na assinatura de uma petição globlal, on-line, pedindo que as pessoas não fiquem indiferentes ao fato de que cerca de um bilhão de pessoas no mundo viva com fome e, estimulando os governos a fazerem da erradicação da fome sua principal prioridade. Isso porque nos últimos 3 anos houve um aumento de 200 milhões de pessoas em insegurança alimentar

O objetivo é chamar atenção para o problema e pedir um basta à fome. !!!

O link para a petição é http://www.1billionhungry.org

Sua participação é muito importante para esse movimento. Assine e divulgue mais essa grande mobilização em prol de uma sociedade mais fraterna.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Meninos e meninas

Estou lendo a autobiografia de Sartre (As palavras, 6ª ed., RJ, Nova Fronteira, 2000. A obra pode ser encontrada em sebos da Estante Virtual). Nela, o escritor conta sua infância ao lado da mãe e do avô materno – seu pai morrera quando Jean-Paul era muito pequeno. Numa passagem do livro, ele narra a sensação de que sua mãe talvez quisesse tê-lo como menina, fazia-o usar cabelos compridos, além de outros mimos que ele sentia como características dadas às meninas. Um belo dia, o avô o leva ao barbeiro e acaba com os devaneios da mãe.

Isso despertou a lembrança de uma conversa que tive com minha mãe, quando eu era criança. Pedi para lavar a louça do almoço e ela não quis, disse que se eu aprendesse tarefas femininas, quando me casasse iria fazer as lidas domésticas que caberiam à minha mulher. Hoje moro sozinho, aprendi a lavar louça, cozinhar. Se minha mãe, além de me ter deixado lavar a louça, tivesse me ensinado a cozinhar, teria herdado muito de seu gostoso tempero caseiro.

Hoje em dia, apesar dos avanços de gênero, ainda percebo muito da forma de pensar de minha mãe na postura das mulheres. A clássica divisão das tarefas domésticas existe, apesar da ajuda masculina. Faz parte da cultura do ser humano em qualquer lugar. Nas separações de casais com filhos, ainda é comum a presença deles junto às mães.

Na educação, por que ainda se veem mulheres diversificando costumes que poderiam ser semelhantes entre os sexos? É da cultura? É do preconceito feminino contra si próprio, criando o menino diferentemente da menina? Será que espelham no filho o desejo do homem ideal? A igualdade ou diversificação de comportamento entre homens e mulheres ainda tem maior responsabilidade na presença da mãe? As mulher talvez possam responder melhor a esses questionamentos.

(Aproveito a oportunidade para divulgar o blog


www.familiaseparadapelaalienacaoparental.blogspot.com)

Palhaço

Um dia desses escrevi para meu amiço Ciço, em Aracaju, fazendo-lhe um elogio mais ou menos assim, de que ele era meu palhaço preferido. Cícero é dramaturgo, ator e diretor. Um excelente clown, mas ele não acredita em mim. Pois não é que logo depois do elogio tratei de lhe explicar o sentido que queria dar ao termo?! Bobagem minha. Preconceito. Ele entendeu e aceitou muito bem o elogio, pois tem a sensibilidade do ator e do homem sensível que compreende a mágica importância dos palhaços na vida das pessoas.


Sempre tive uma simpatia especial pelos palhaços. Eles fizeram parte de minha infância no interior de Pedro Osório, quando os circos passavam por lá. O palhaço Carequinha também me cativou. Conhecia sua arte através de seus discos de música infantil: "o bom menino não faz xixi na cama/o bom menino não faz malcriação"... Mais tarde passei a acompanhá-lo na televisão.

Não gosto quando as pessoas ofendem alguém usando o termo plhaço pejorativamente. Eles estão equivocados. Não se dão conta do uso errado do termo, pois o palhaço é um profissional digno, que trabalha para nos fazer rir. O palhaço permite que a gente dê gargalhadas, fazendo-nos pensar que as palhaçadas que ele faz são dele, quando na verdade rimos de nós mesmos; as situações engraçadas que ele aponta já vivenciamos de uma forma ou de outra.

Dizem que rir da gente mesmo faz bem. Concordo. O riso é uma alternativa para o trágico. Nos aponta para o fato de que nem tudo está perdido, ou o que de ruim acontece pode ser passageiro, faz parte da vida. Daqui a pouco nosso personagem atrapalhado, nosso clown, nos fará rir, como rimos do palhaço.

Aproveito para sugerir a crônica de Cecília Meireles, sobre o tema, intitulada Programa de circo (do livro Escolha seu sonho, 26ª ed, RJ, Record, 2005). A escritora tem várias crôonicas abordando a importância do circo na vida das pessoas.