sábado, 12 de novembro de 2011
Carlos Fuentes y La región más transparente
La región más transparente romance do escritor mexicano Carlos Fuentes, é uma novela social. Tem como escopo a Revolução de 1910, no México, embora a ação da trama se desenrole na décadas de 40/50, quando uma burguesia oriunda das classes industrial e latifundiária se estabelece de forma desigual. Carlos Fuentes põe a descoberto a essência injusta dessa sociedade, assim como a frustração provocada pela negação dos valores de justiça social da Revolução de 1910. As classes populares estão impossibilitadas de se realizarem economicamente. As ânsias de poder e de corrupção da burguesia, a falsidade e superficialidade dos ambientes pseudo-intelectuais circulam todo o romance. La región más transparente é uma novela audaz, de denúncia e reflexão, de análise e busca, que logra tramar eficazmente diversas histórias, para brindar um extenso afresco do caótico e turbulento México contemporâneo.
Podemos dizer que a novela é a descrição geral de um só personagem: a cidade, em cuja ebulição se percebem os distintos discursos das distintas classes e castas sociais do México, os distintos tipos humanos (mestiços, criollos, indígenas, assim como estrangeiros assimilados e acomodados), distintas formas de ver o mundo e assimilar a então jovem e crescente modernidade industrial que é filtrada de uma nação que vive o processo de des-composição de uma revolução e o início de uma nova sociedade corrupta.
Das inúmeras personagens da história, cabe referirse à presença de Norma Larragoiti, que foi noiva de Rodrigo Pola, fiho de um revolucionário da Revolução de 1910, mas casou-se com Federico Robles, filho de camponeses de uma das fazendas da família De Ovando, soldado da revolução, advogado e banqueiro conselheiro de companhias estrangeiras. Norma é filha de mãe mestiça e de espanhol pobre, comerciante do norte do país. Seu irmão mora nos Estados Unidos e trabalha como pedreiro, ofício característico dos estratos mais pobres da sociedade. A origem de Norma, então, é visivelmente humilde. A partir de casamento com o banqueiro Federico Robles, tem a possibilidade de participar, de certo modo da elite mexicana. Entretanto, dentro desses grupos de classe alta, tanto Norma como seu marido são criticados por sua origem baixa e tolerados somente por seu dinheiro. Dessa forma, Norma tenta introjetar-se nessa classe social rica, ignorando e rechaçando sua própria origem.
Carlos Fuentes é um dos escritores mais importantes, sólidos e prolíficos da América Latina. Assim o atestam, entre outras, suas novelas La muerte de Artemio Cruz, Cristóbal Nonato, Los años com Laura Diaz e Terra Nostra, que serão comentados em sequencia nas colunas a seguir.
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Carlos Fuentes. La región más transparente. Alfaguara Argentina, 2008. 640 pp
sábado, 5 de novembro de 2011
Augusto Roa Bastos e sua trilogia do monoteísmo do poder
O paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005) foi um escritor brilhante, mas quase desconhecido no Brasil. Seu romance traduzido aqui, Eu, o Supremo, não teve boa tradução. Esse romance, assim como os demais da trilogía: Hijo de hombre e El fiscal, não são de leitura fácil, já que necesitam do leitor uma consciencia desperta da realidade latino-americana de início do século XX até o período turvo da ditadura latino-americana, de 1950 até finais da década de 1980.
Provenientes do Alto Paraná, das planícies do Chaco e Assunção, os vários personagens que povoam Hijo de hombre são testemunhas e vítimas da história do Paraguai: a passagem do cometa Halley em 1910 marca as primeiras páginas do romance para, em seguida, atravessar os anos de revoltas camponesas, suas repressões, fundindo-se, nos últimos capítulos, nas consequências da desoladora Guerra do Chaco (1930). Mas a ação também é baseada em um plano atemporal: o autor dá voz ao homem em rebelião, denuncia os abusos das oligarquias, retrata em uma imagem muito terrena o mártir crucificado, reivindicando o legado dos mortos e, portanto, seu passado: em determinada cidade do interior do Paraguai, uma imagem de Cristo, inicialmente no topo de um morro, passa de povoado em povoado para lembrar que o fiho de Deus é o filho do homem que, como os demais cidadãos, precisa ser vingado. Filho do Homem (1960) foi o primeiro romance publicado por Augusto Roa Bastos, uma cosmogonia audaciosa, onde se percebem as vozes ancestrais da herança guarani e espanhola do Paraguai, um projeto que redefine a função do escritor como alguém destinado a colher, conforme palavras de Roa Bastos, “um discurso oral ainda não transcrito, mas presente e marcante no ritmo da história.
Em Yo El Supremo, Augusto Roa Bastos retrata com certa complexidade histórica e simbólica o mundo irreal de José Gaspar Rodrigues de Francia, que governou com mão de ferro o Paraguai entre 1814 e 1840. Ele é a figura totêmica da novela, um homem dedicado à redação de um interminável documento púbico, a Circular Perpétua (na trama, suas memórias), que tem a participação de Patiño, seu nem sempre fiel secretario. A relação do dr. Francia com aduladores, intrigantes, súditos e governos vizinhos, frutifica em uma vereda oral e textual, que aspira a instituir-se, a Circular, como poder absoluto em voz única e irretocável. Com esta obra, publicada originalmente em 1974, temos um marco narrativo que remete a Don Quijote, já que fala sobre o poder e o indivíduo, a supremacía do discurso sobre a realidade, a História americana, a psicología do tirano e, o que é seu cerne, os limites da linguagem e a novela como estrutura narrativa. Em seu discurso quando do recebimento do Prêmio Cervantes na Espanha, relativo a Eu, o Supremo, em 1989, Roa Bastos nos disse que o núcleo gerador de sua novela com Dom Quixote, foi a de imaginar um dublé do Cavaleiro da Triste Figura metamorfoseado no Cavaleiro Andante do Absoluto, realizando esse mito do absoluto em realidade que ele trata de compilar em sua Circular, a simbiose da realidade real com a realidade simbólica, da tradição oral e da palavra escrita. El Supremo Ditador da República do Paraguai desejou apenas o poder absoluto e o teve em suas mãos sem deixar de ser, também, o homem mais pobre do mundo.
El Fiscal (O Fiscal), narra a tragetória de Félix Moral, um escritor paraguaio que teve de se exilar no interior da França, tendo inclusive de trocar de nome. Ele tem uma obsessão: assassinar o presidente ditador Alfredo Stroessner durante um congreso de escritores e intelectuais que se realizará em Asunción em 1987, idealizado pelo próprio Stroessner. Sua companheira de vida, Jimena, representa para Félix o baluarte da estabilidade afetiva. O escritor se debaterá entre a função messiânica do intelectual exilado e o sacrificio do herói (matar o ditador Stroessner), enquanto constrói um discurso elaborado, quase uma sentença jurídica sobre a lealdade e a traição, onde sua experiencia se funde com episódios trágicos da história paraguaia. O escritor, no final, acaba sendo reconhecido, torturado e morto. A novela termina com o relato dos últimos passos do escritor contados de forma escrita por Jimena à mãe de Félix Moral. Com essa obra, reescrita em 1993, Roa Bastos conclui sua trilogía sobre sobre o monoteísmo do poder. Sob meu ponto de vista, este é o melhor romance dos três. Apresenta uma linguagem contemporânea de fatos históricos ainda vivos em nossa memória. O livro foi reescrito por Roa Bastos em 1993.
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Augusto Roa Bastos. Hijo de hombre. Barcelona, Debolsillo, 2008
__________ Yo, El Supremo. Barcelona, Debolsillo, 2008. A ed. Paz e Terra apresenta uma edição em português. Por ser uma edição econômica, possui caracteres minúsculos, dificultuando sua leitora. Entretanto, é a única tradução desse autor que conheço, existente no Brasil.
__________ El Fiscal. Barcelona, Debolsillo, 2008
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Minha lista da Feira
Cemitério de pianos, José Luís Peixoto, Ed. Record
O português José Luís Peixoto nos apresenta, neste romance, uma família em decomposição. Utilizando constantes passagens de tempo e múltiplos pontos de vista, o autor conta as desventuras de uma numerosa família portuguesa, revela seus segredos e estranhas repetições de fatos, amores e desgostos de geração em geração.
Bili com limão verde na mão, Décio Pignatari, Cosac Naify
Bili é uma adolescente de quase treze anos que sai de sua casa desatando bile e atirando um limão nos animais que encontra no caminho. Não contava que eles, o limão e os animais, voltariam até ela, atingindo-a como um bumerangue. Cansada, depois de sua jornada, Bili tem um pesadelo e toma um banho purificador. Uma espécie de releitura de 'Alice no País das Maravilhas', de Lewis Carroll, a obra de Pignatari, traz situações nonsense e personagens esquisitos.
Confissões de uma máscara, Yukio Mishima, Companhia das Letras
Koo-chan vive um momento de conflito interior no Japão do entreguerras. No começo da adolescência, tem fantasias que combinam impulso sexual e violência sado-masoquista, desejo e morbidez. O rapaz chega a imaginar um 'teatro da morte', em que jovens lutadores se enfrentariam como gladiadores, exclusivamente para êxtase do próprio Koo-chan. À medida que avança na adolescência - e a Segunda Guerra Mundial se desenrola -, o rapaz tenta se interessar por mulheres. Por detrás da máscara de 'normalidade', porém, ele sabe que sua opção sexual não corresponde aos padrões convencionais. O protagonista empreende, aos poucos, uma viagem interior de descoberta e construção da própria identidade. 'Confissões de uma máscara' (1949) é um dos livros mais importantes de Mishima - pseudônimo de Hiraoka Kimitake (1925-1970). O autor foi grande admirador das tradições milenares da cultura de seu país. Em 1970, cometeu o suicídio ritual dos samurais - rasgando o ventre com uma espada.
Pastoral americana, Philip Roth, Companhia das Letras
'Pastoral americana' narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta, em vão, comunicar um legado moral à terceira geração da família Levov. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdida lhe confere um caráter ao mesmo tempo heróico e louco.
Servidão humana, Somerset Maugham, Globo
No centro da trama deste romance está Philip Carey, estudante de medicina que, por ser manco, é rejeitado pela sociedade. Ao lado dele surge a sedutora Mildred, que desafia o orgulho intelectual de Philip. Para conquistá-la, ele se sujeita à forma mais vil de escravidão - a renúncia à própria dignidade.
O mal estar da pos-modernidade, Zygmunt Bauman, Zahar
Neste livro, o sociólogo Zygmunt Bauman mostra que a marca da pós-modernidade - ou seu valor supremo - é a 'vontade de liberdade' que acompanha a velocidade das mudanças econômicas, tecnológicas, culturais e do cotidiano. Daí resulta um mundo vivido como incerto, incontrolável e assustador - bem diverso da segurança projetada em torno de uma vida social estável, ou em torno da ordem, como pensava Freud em 'O malestar na civilização'.
A invenção da solidão, Paul Auster, Companhia das Letras
Neste livro de memórias, o autor americano Paul Auster alia seus notáveis talentos de poeta, tradutor, ensaísta e ficcionista. As recordações da infância e dos primeiros anos como escritor se entremeiam com uma profunda reflexão sobre a paternidade, o acaso e a literatura.Paul Auster parte, primeiro, de sua experiência como filho e, depois, como pai, para indagar a fundo a natureza do legado que, sem escolher, herdamos e transmitimos, de geração a geração. Construído na forma de um mosaico poético de fragmentos, o livro alterna recordações pessoais com argutos comentários sobre literatura, pintura e filosofia.
A passagem tensa dos corpos, Carlos de Brito e Melo, Companhia das Letras
Este livro aborda o tema morte. O narrador-personagem não é visto nem percebido por ninguém. Sua principal ocupação é percorrer cidades e registrar as mortes que encontra pelo caminho. Numa dessas localidades, há um morto insepulto, cuja família não parece disposta a velar ou enterrar. Como se nada tivesse acontecido, o cadáver é mantido amarrado à cadeira na mesa da sala, enquanto a esposa e a filha se ocupam dos preparativos para o casamento da menina, e o filho do morto permanece trancado no quarto. Diante da situação testemunhada na casa, a personagem aos poucos se dá conta de que, para existir de fato, necessita, ele mesmo, se apropriar de um dos corpos que encontra.
Os subterrâneaos, Jack Kerouak, LPM
'Os subterrâneos' possui contornos autobiográficos. Leo Percepied é Kerouac e Mardou Fox é a moça pela qual o escritor se apaixona na Nova York dos anos 50. No livro, a pedido do editor, a história se transfere para São Francisco, mas o ambiente underground e boêmio é o mesmo. O texto de Kerouac é uma prosa de um só fôlego, com poucas pausas para novos parágrafos. Após concluir o livro, o próprio autor afirmou que a obra tinha adquirido um estilo quase jazzístico, ritmado, como o bebop que serve de trilha sonora para a história. 'Os subterrâneos' são um grupo de hipsters, aspirantes a artistas, outsiders, homens e mulheres que vivem de bar em bar pelas ruas da cidade. 'Os subterrâneos' é a história do encontro de duas almas perdidas. Mardou é uma moça metade cherokee metade negra, que cresceu em meio à pobreza. Passou a juventude pulando de amante em amante, até conhecer Leo. Ele, por sua vez, se apaixona verdadeiramente por Mardou, mas a forte ligação com a mãe e o preconceito racial fazem com que Percepied não consiga levar o romance adiante. Ao romper essa ligação, Leo/Kerouac se vê completamente perdido, atitude que é justificada pelas últimas linhas do texto - 'E vou para casa tendo perdido o amor dela. E escrevo esse livro.'
Histórias íntimas, Mary Del Priore, Planeta do Brasil
Quando o Brasil era a Terra de Santa Cruz, as mulheres tinham de se enfear e os homens precisavam dormir de lado, nunca de costas, porque 'a concentração de calor na região lombar' podia excitar os órgãos sexuais. E nos momentos a sós - geralmente no meio do mato, e não em casa, porque chave era artigo de luxo e não era possível fechar as portas aos olhares e ouvidos curiosos -, as mulheres levantavam as saias e os homens abaixavam as calças e ceroulas. Casos íntimos são narrados por Mary del Priore. Em 'Histórias Íntimas', ela procura mostrar como a sexualidade e a noção de intimidade foram mudando ao longo do tempo, influenciadas por questões políticas, econômicas e culturais, e passaram de um assunto a ser evitado a todo custo para um dos mais comentados no mundo contemporâneo.
Uma viagem à India, Gonçalo M. Tavares, Leya Brasil
Este livro pode ser considerado uma epopeia portuguesa do século XXI. Esta obra narra a história de um homem que faz uma viagem à Índia, tentando aprender e esquecer no mesmo movimento, traçando um itinerário de uma certa melancolia contemporânea.
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Agradecimentos à Livraria Cultura
domingo, 23 de outubro de 2011
El reino de este mundo
O reino deste mundo, escrita pelo cubano Alejo Carpentier, em 1949, é uma narrativa épica que apresenta como cenário um recorte história do Haiti, do dominio francês a sua libertação. A narrativa apresenta sua estrutura centrada no realismo mágico, ou real maravilhoso, que teve seu início justamente nesta obra de Carpentier. No prólogo da novela, o autor relata que, em 1943 visitou o Haiti e entrou em contato com as ruínas do tempo de Henri Christophe, escravo liberto que se tornou rei, lá pelo início do século XIX. Esse contato lhe suscitou uma realidade maravihosa, em que a cultura popular e seus mitos misturavam-se à realidade histórica. Alejo Carpentier nos diz que o maravilhoso começa a existir de maneira inequívoca, da alteração inesperada da realidade – o milagre, de uma revelação privilegiada da realidade, de uma iluminação inabitual que favorece a riqueza inesperada da realidade, ampliando-a com especial intensidade, em virtude de uma exaltação do espírito. A sensação do real maravilhoso pressupõe uma fé. E uma aceitação dessa fé como parte da cultura de um povo. Carpentier pisara uma terra onde milhares de homens ansiosos de liberdade acreditaram nos poderes sagrados de Mackandal, um escravo africano descrito em algumas resenhas históricas como sacerdote do vodu haitiano. Adepto da magia negra, Mackandal estaría preparando uma poção de magia negra, feita com ervas, para envenenar os senhores de escravos do Haiti. Capturado, foi queimado em praça pública, em 1788. A fé popular produziu a lenda de que, ao morrer queimado, Mackandal transformara-se em uma mariposa noturna que fugira voando, para proteger os seus.
Como se pode notar, o real maravihoso encontra-se a cada passo das vidas de homens que inscreveram na história latino-americana e deixaram marcas ainda presentes na cultura oral de um povo. Alejo Carpentier acreditava em uma práxis latino-americana. O escritor deveria ter uma consciencia nacional, que espelhasse sua obra. A literatura latino-americana, a partir de Carpentier, passou a valorizar o real maravilhoso, até a década de 70: hábitos, costumes, crenças, a cultura oral,de um povo que, desvalorizado pela história oficial, construiu a história de um país. Alejo Carpentier, em suma, acreditava no papel social do romancista. O narrador deveria compreender uma visão de mundo e dar-lhe uma visão ampliada, universal, compremetendo-se com ese mundo. O escritor das Américas latinas deveria buscar na cultura popular de seu país, do líder popular que teve sua voz cortada pelos donos do poder em todas as etapas da história de seu país. Esse líder transforma-se no herói épico da narrativa latino-americana. Através da narrativa épica, o popular particular passa a adquirir status de universalidade.
A novela O Reino deste mundo começa com Ti Noel, um joven escravo, escutando maravilhado os mitos de Mackandal, negro rebelado contra os brancos, com poderes sobrenaturais de curar e transformar-se em diversos animais. Queimado na fogueira, o mito do herói negro sobrevive na cultura oral. O dono de Ti Noel, proprietário de terras, depois da norte da esposa, decide vender suas terras e mudar-se dali, levando o escravo. Ele consegue, depois de um tempo, comprar sua alforria e volta ao lugar de origen, onde tem contato com uma nova etapa de opressão política, durante o regime de Henri Christophe, ex–escravo que se torna imperador do Haiti. Ti Noel, mais maduro, assiste, com novas esperanças, à rebelião de outro líder escravo, Bouckman, querendo a libertação da escravidão já nos moldes dos ideais da revolução francesa. O Haiti, diga-se de passagem, foi o primeiro país a abolir a escravidão, em 1804. Com a norte de Christophe, entretanto, uma nova aristocracia toma o poder, apoderando-se de antigas fazendas e restituindo o regime escravocrata. Ti Noel, assim, faz uma reflexão sobre o destino do homem que padece, espera e trabalha para pessoas que nunca conhecerá e nunca será feliz, posto queo homem ansia, sempre, por uma felicidade situada além do que lhe é outorgado.
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Obras de Alejo Carpentier usadas como pano de fundo:
O reino deste mundo. São Paulo, Martins Editora, 2010. 136pp
Literatura e consciência política na América Latina. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1975. 144pp
El siglo de las luces. Madrid, Austral, 2007. 351pp
domingo, 16 de outubro de 2011
Meu lado professor
Fui professor durante 15 anos, trabalhando português, literatura e teatro. Larguei a profissão por um tempo, mas depois fiz novo concurso e lecionei literatura brasileira por mais três anos. Exerci a profissão com a de bancário sem problemas. Talvez por isso tenha saído do banco sem odiar a instituição. O serviço bancário era um serviço desgraçado, pois o que se produzia não era serviço criativo. Tinha a vantagem de ser um serviço coletivo, é verdade, mas o que se fazia me parecia ser produto de ninguém, um serviço sem cara. Depois que larguei o Estado de vez, tratei de exercer no banco a função didática, como educador da Oficina de Comunicação Administrativa, onde se tratava de simplificar o texto ao mínimo necessário, visando agilizar o fluxo de trabalho. Também era educador do BB Educar, dando cursos de 40 horas para formar alfabetizadores de jovens e adultos por esse Brasil afora. Agora aposentado, ainda permaneço ativo no quadro da FBB. Também atuei como alfabetizador em dois núcleos de alfabetização em Porto Alegre.
Como se pode ver, a educação está no meu sangue. Foi a profissão que escolhi como minha meta profissional. Ainda bem que consegui exercê-la paralelamente ao serviço bancário. O trabalho com literatura foi o que mais me cativou. Trabalhar com alunos de periferia era um desafio a cumprir, o que mais gostava de fazer. Você pode imaginar que alunos do segundo grau chegassem até ali sem terem lido um só livro de ficção? Eram muitos assim. Havia os que liam literatura espírita e Paulo Coelho. Era um começo. Busquei entrar em contato com esse material, lendo alguns livros, inclusive Paulo Coelho. Não se podia desvalorizar esse tipo de literatura, pois ela reforçava o gosto pela leitura. O que seu tinha que fazer era diversificar, trazendo textos com maior profundidade criativa, próximos a essa literatura consumida por eles. Era mais importante trabalhar o texto de um autor e a partir daí buscar as características de estilo que marcavam determinado período literário. Lecionar à noite era trabalhar com jovens e adultos na mesma sala de aula. Bater com pessoas que não compreendiam o que liam, já que não desenvolveram a capacidade de abstração em séries anteriores, justamente porque não liam.
O que eu costumava fazer: pegar o capítulo de um livro e digitá-lo no computar com uma letra maior, para que tivessem o conforto da leitura. Depois, ligar os acontecimentos dentro do contexto histórico em que a história era contada. Depois, a verossimilhança. Assim, a função social da literatura se fazia presente. Esta era minha linha de trabalho. Para levar esses polígrafos digitados em fonte maior, eu cometia um ato ilícito, os imprimia numa impressora do banco, usando o lado em branco de papéis já impressos. Aliás, agradeço aos colegas bancários que muitas vezes encontravam na impressora os impressos e não me entregavam à chefia. A chefia era camarada nesse ponto, também. Eu cometia uma infração que tinha um objetivo nobre. Estava buscando alimentar a cultura de gente trabalhadora que não teria acesso a material digno, se não fosse dessa forma.
Eu não era um professor bonzinho, entretanto. Tinha a “crueldade” de obrigar os alunos a lerem, no mínimo, um livro por ano. Para isso tinha minha biblioteca particular com romances e poesias da coleção LPM, que levava para a sala de aula e os deixava folheá-los e se interessar por um que pudessem ler. A tarefa deles não era fácil, eu fazia uma entrevista depois da leitura do livro. Alguns tentavam me enganar, pulando páginas, outros diziam que não conseguiam lembrar da história. Resultado, a nota não era dada até que lessem o livro todo. Claro que alguns não liam o livro todo, era necessário que eu me deixasse enganar. Mas a tentativa havia sido feita. Páginas, pelo menos, foram lidas. Eu puxava o couro dos alunos, mas nenhum deles era reprovado, pois todos buscavam um esforço de vencer dificuldades. Adquiriam a consciência de que havia uma defasagem em sua educação até o momento e que o esforço para alguma compensação, passava a fazer parte deles.
Um dia desses, no ônibus, uma jovem se aproximou e perguntou se eu era o professor Paulo. Ela havia sido minha aluna de teatro na oitava série da Escola Dom Diogo de Souza. Agradeceu-me pelas aulas de teatro e me disse que havia encontrado sua profissão dentro da área: havia feito a faculdade de Artes Cênicas e estava trabalhando numa peça infantil. No restaurante Marcos, uma noite, um garçom me perguntou se eu era o professor de literatura da Lomba do Pinheiro. Havia sido meu aluno (daqueles que me “enganavam” na leitura). Outro dia, uma cobradora do ônibus Santana me disse que eu havia sido professor dela, também. Todos eles me demonstraram afeto na abordagem, sinal de que meu lado “terrorista” não lhes trouxe grandes males. Ainda bem.
Como se pode ver, a educação está no meu sangue. Foi a profissão que escolhi como minha meta profissional. Ainda bem que consegui exercê-la paralelamente ao serviço bancário. O trabalho com literatura foi o que mais me cativou. Trabalhar com alunos de periferia era um desafio a cumprir, o que mais gostava de fazer. Você pode imaginar que alunos do segundo grau chegassem até ali sem terem lido um só livro de ficção? Eram muitos assim. Havia os que liam literatura espírita e Paulo Coelho. Era um começo. Busquei entrar em contato com esse material, lendo alguns livros, inclusive Paulo Coelho. Não se podia desvalorizar esse tipo de literatura, pois ela reforçava o gosto pela leitura. O que seu tinha que fazer era diversificar, trazendo textos com maior profundidade criativa, próximos a essa literatura consumida por eles. Era mais importante trabalhar o texto de um autor e a partir daí buscar as características de estilo que marcavam determinado período literário. Lecionar à noite era trabalhar com jovens e adultos na mesma sala de aula. Bater com pessoas que não compreendiam o que liam, já que não desenvolveram a capacidade de abstração em séries anteriores, justamente porque não liam.
O que eu costumava fazer: pegar o capítulo de um livro e digitá-lo no computar com uma letra maior, para que tivessem o conforto da leitura. Depois, ligar os acontecimentos dentro do contexto histórico em que a história era contada. Depois, a verossimilhança. Assim, a função social da literatura se fazia presente. Esta era minha linha de trabalho. Para levar esses polígrafos digitados em fonte maior, eu cometia um ato ilícito, os imprimia numa impressora do banco, usando o lado em branco de papéis já impressos. Aliás, agradeço aos colegas bancários que muitas vezes encontravam na impressora os impressos e não me entregavam à chefia. A chefia era camarada nesse ponto, também. Eu cometia uma infração que tinha um objetivo nobre. Estava buscando alimentar a cultura de gente trabalhadora que não teria acesso a material digno, se não fosse dessa forma.
Eu não era um professor bonzinho, entretanto. Tinha a “crueldade” de obrigar os alunos a lerem, no mínimo, um livro por ano. Para isso tinha minha biblioteca particular com romances e poesias da coleção LPM, que levava para a sala de aula e os deixava folheá-los e se interessar por um que pudessem ler. A tarefa deles não era fácil, eu fazia uma entrevista depois da leitura do livro. Alguns tentavam me enganar, pulando páginas, outros diziam que não conseguiam lembrar da história. Resultado, a nota não era dada até que lessem o livro todo. Claro que alguns não liam o livro todo, era necessário que eu me deixasse enganar. Mas a tentativa havia sido feita. Páginas, pelo menos, foram lidas. Eu puxava o couro dos alunos, mas nenhum deles era reprovado, pois todos buscavam um esforço de vencer dificuldades. Adquiriam a consciência de que havia uma defasagem em sua educação até o momento e que o esforço para alguma compensação, passava a fazer parte deles.
Um dia desses, no ônibus, uma jovem se aproximou e perguntou se eu era o professor Paulo. Ela havia sido minha aluna de teatro na oitava série da Escola Dom Diogo de Souza. Agradeceu-me pelas aulas de teatro e me disse que havia encontrado sua profissão dentro da área: havia feito a faculdade de Artes Cênicas e estava trabalhando numa peça infantil. No restaurante Marcos, uma noite, um garçom me perguntou se eu era o professor de literatura da Lomba do Pinheiro. Havia sido meu aluno (daqueles que me “enganavam” na leitura). Outro dia, uma cobradora do ônibus Santana me disse que eu havia sido professor dela, também. Todos eles me demonstraram afeto na abordagem, sinal de que meu lado “terrorista” não lhes trouxe grandes males. Ainda bem.
domingo, 9 de outubro de 2011
A escritora
Numa noite dessas um programa de tevê local entrevistou uma escritora famosa no mundo das letras. Dizia à entrevistadora que prezava muito a possibilidade do amor na terceira idade. Que as pessoas mais velhas, muitas vezes sozinhas depois de um longo amor em que construíram seu lar com filhos e uma casa acolhedora, tinham o direito de olhar para o lado. Que é possível a todos, sem nenhuma exceção, ser felizes novamente.
A escritora continuou a discorrer sobre seus pontos de vista em relação à vida e à vida em sua escritura, sempre olhando para a câmera, embora estivesse frente a frente com a entrevistadora. Eu não via a hora em que a entrevistadora, incomodada, pedisse que se dirigisse a ela e não à câmera para a conversa transcorrer em clima de certa intimidade disfarçada. Mas a escritora continuava olhando para a câmera, talvez para passar uma imagem mais verdadeira no batepapo.
O que a escritora achava das atrizes mais velhas esticarem o rosto: ridículo! As pessoas deveriam envelhecer valorizando o sinal dos tempos, já que o envelhecimento tem sua cota de beleza. Mas a senhora já fez plástica... Sim, minha filha, mas... pouca coisa! Alguns retoques para tirar as papas, nada que alterasse meu semblante. Não sei por que essa gente teima em ser outra pessoa...
A senhora valoriza o amor na terceira idade. Está amando um homem mais novo que a senhora? De fato, mas pouca coisa, também. Nem aparecem as discrepâncias. Essa história de que relacionamentos em que o “pai” procura a “filha” e a “mãe” procura o “filho”, isso é história de Nélson Rodrigues. Mas os médicos falam em testosteronas... Conversa pra boi dormir, minha filha. O amor maduro não é só sexo, écompartilhamento, é amizade. Amor maduro é amor de amigo, também.
Pois é, e o que a senhora pensa das críticas que vem recebendo, de que sua literatura é de auto-ajuda? Coisa de patrulhamento da esquerda festiva que vem infestando o país... Não dou bola pra crítica, nunca dei, não preciso dela para vender meus livros. Meu público é fiel e sabe o valor de minha obra...
Essa escritora passou a vender muito, desde que mudou seu rumo na escrita. Agora ela diz que escreve ensaios, na verdade um estilo de crônica meio longa, em que traça parâmetros de vida e opina daqui, opina dali. Parei de ler a escritora, depois de ler dois livros seus nessa linha. Essa coisa de comentar um fato e emitir um ponto de vista como verdade terapêutica me cheira sem graça.
A escritora continuou a discorrer sobre seus pontos de vista em relação à vida e à vida em sua escritura, sempre olhando para a câmera, embora estivesse frente a frente com a entrevistadora. Eu não via a hora em que a entrevistadora, incomodada, pedisse que se dirigisse a ela e não à câmera para a conversa transcorrer em clima de certa intimidade disfarçada. Mas a escritora continuava olhando para a câmera, talvez para passar uma imagem mais verdadeira no batepapo.
O que a escritora achava das atrizes mais velhas esticarem o rosto: ridículo! As pessoas deveriam envelhecer valorizando o sinal dos tempos, já que o envelhecimento tem sua cota de beleza. Mas a senhora já fez plástica... Sim, minha filha, mas... pouca coisa! Alguns retoques para tirar as papas, nada que alterasse meu semblante. Não sei por que essa gente teima em ser outra pessoa...
A senhora valoriza o amor na terceira idade. Está amando um homem mais novo que a senhora? De fato, mas pouca coisa, também. Nem aparecem as discrepâncias. Essa história de que relacionamentos em que o “pai” procura a “filha” e a “mãe” procura o “filho”, isso é história de Nélson Rodrigues. Mas os médicos falam em testosteronas... Conversa pra boi dormir, minha filha. O amor maduro não é só sexo, écompartilhamento, é amizade. Amor maduro é amor de amigo, também.
Pois é, e o que a senhora pensa das críticas que vem recebendo, de que sua literatura é de auto-ajuda? Coisa de patrulhamento da esquerda festiva que vem infestando o país... Não dou bola pra crítica, nunca dei, não preciso dela para vender meus livros. Meu público é fiel e sabe o valor de minha obra...
Essa escritora passou a vender muito, desde que mudou seu rumo na escrita. Agora ela diz que escreve ensaios, na verdade um estilo de crônica meio longa, em que traça parâmetros de vida e opina daqui, opina dali. Parei de ler a escritora, depois de ler dois livros seus nessa linha. Essa coisa de comentar um fato e emitir um ponto de vista como verdade terapêutica me cheira sem graça.
domingo, 2 de outubro de 2011
Recortes
Decidi assistir ao filme “Tropa de Elite 2” na tevê a cabo, incentivado pela notícia de que representaria o Brasil na concorrência ao Oscar. Não consegui ver até o fim. O filme me aborreceu. Não sei se a platéia internacional conseguirá acompanhar o filme sem a base do primeiro. Tecnicamente pareceu bem feito, a ação ocorria em clima meio de jogos eletrônicos. As atuações eram boas, mas não me convenceu como história. Esse negócio do Brasil priorizar o cinema na linha “favela movie” para concorrer ao Oscar está ficando manjada demais.
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Ainda na televisão, assisti a flashes do Rock in Rio. Todas as cantoras absolutamente iguais em sua mediocridade. Pasmei quando vi um rapaz chorando na apresentação da cantora Rhiana. Não achei a menor graça nos figurinos iguais, todas elas de maiô ou shortinho, dançando do mesmo jeito, levantando pernas na testa e esfregando o cóccix no chão. As mesmas músicas. Berrando como só elas. Claudia Leitte busca seguir a fórmula global, parece competente no que faz, mas falta-lhe voz (ou técnica para aprimorar a voz).
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Decidi estudar espanhol no Instituto Cervantes. Há dois anos vinha estudando espanhol em casa e me saía bem nas provas da Ufrgs que baixava na internet. Senti necessidade, entretanto, de aprimorar a conversação, para evitar falar espanhol com a sintaxe do português. Pois numa das aulas, foi dado um exercício de ler um conto popular e fazer um resumo do texto. Busquei “O Patinho Feio”. Criada pelo dinamarquês Handersen, no romantismo (teria sido escrito em 1832), o conto reflete as tristezas e desventuras de um “patinho” que é visto diferente pelos demais e, por isso mesmo, rejeitado. Fazendo-se uma leitura nos tempos atuais, o conto reforça essa idéia que está, quiçá, mudando nos dias atuais, o preconceito aos diferentes, seja em gênero, raça e tipo físico. O patinho só consegue ser feliz quando vira cisne e passa a viver entre seus pares, numa sociedade que não queria ser inclusiva.
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Tenho acompanhado na internet crônicas de jornalistas e críticos, avacalhando com o último cd de Chico Buarque. Uns disseram que sua poesia perdeu força, outros que não conseguiram ouvir o disco e tamborilar como nas obras anteriores do artista. Houve quem dissesse que sua pouca voz andava debilitada. Creio que o uso de sua imagem ligada às campanhas do PT nas últimas eleições deva ter contribuído para esse tipo de crítica, de buscar demolir o mito. Não concordo com a opinião desses cronistas. O disco de Chico não é para se botar a tocar e sair para pôr a roupa na máquina ou cortar a cebola do molho da macarronada. Gostei muito do cd, que é obra para se ouvir uma e muitas vezes, pois requer atenção igual a que se tem quando se lê um livro. As canções são belíssimas, muito bem entrelaçadas às letras, que continuam brilhantes. Sei que você deve ter ouvido e não gostado... Pois, sente-se numa poltrona em silêncio, coloque o disco no aparelho, pegue o folhetos com as letras e preste atenção. É música das boas. Gostei, em especial, de “Se eu soubesse”, que ele canta com a namorada cantora.
domingo, 25 de setembro de 2011
Céu de primavera
Escrevi numa crônica anterior o meu gosto pelos dias de inverno frio e seco de Porto Alegre, quando se busca o calor, o aconchego, o sono aquecedor (os dedos das mãos e os pés gelados a gente esquece, tá?!). Agora, quero dizer do meu gosto particular pela Primavera, minha estação preferida. Quando se tem sol e céu limpo, tudo é mais cor. Um dia luminoso como o deste domingo (25/09) é encantador. Fica-se com o pé que é um leque para sair à rua. O dia como hoje deveria ser o Dia Mundial sem o Carro. Na primavera, as ruas parecem ter alma. Árvores divergem nas cores, flores aparecem em canteiros e jardins, crianças reaparecem a brincar, bermudas e camisetas expõem mais o corpo ao clima fresco que vai esquentando um pouquinho mais, com a presença do sol. O bric da Redenção, a caminhada na orla do Guaíba, é compartilhamento.
A primavera incentiva o senso da coletividade, onde o nós passa a ser importante. O relacionamento é uma de suas tônicas. As pessoas parecem mais bonitas e alegres. Vontade de tomar cerveja e vinho branco. O entardecer primaveril é muito gostoso, quando o anoitecer volta a refrescar e nos traz para casa com a alegria de ter podido reverenciar o spot luminoso do dia.
A primavera de Porto Alegre é a estação da cultura e das artes: mostra de teatro, bienal do Mercosul, Feira do Livro. Já o litoral gaúcho cria vida na primavera. As casas são abertas, o mofo cede lutar aos perfumes de limpeza, as caminhadas à beira do mar são compartilhadas. A primavera é um festival de preparação.
A primavera é especial para mim, porque começa com o signo de Libra, meu signo. Minha natureza se alimenta do tom primaveril. Meio démodê, adoro presentear com flores, curto perfumes e aromas naturais. Sou muito natureza.
Para despedir-me, trago-lhes um pedaço da letra de Ronaldo Bastos para a música Sol de Primavera, de Beto Guedes:
Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
(Juntos outra vez)
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar
Bons dias a todos!
domingo, 18 de setembro de 2011
A roda da Fortuna
Estou procurando sem sucesso o livro “A Velhice” de Simone Beauvoir. Muita gente deve estar fazendo o mesmo, já que a obra está esgotada na Editora Nova Fronteira, que tem publicado a obra de Simone, assim como a de Sartre. Na Estante Virtual também não encontrei a edição que busco ler, de 2003. Os poucos exemplares usados à disposição são da década de 70 e estão caros. Meu interesse pela obra vem do fato de que estou no alvorecer dos 58 anos e a hora de confrontar-me com o texto é agora, quando não me encontro com grandes problemas de saúde e tenho um distanciamento do que se coloca no livro, sob o ponto de vista existencialista. Simone de Beauvoir afirma que a sociedade de consumo trata os velhos como párias, condenados à miséria, à solidão e ao desespero. É exigido dos velhos a serenidade, o que evidencia o desinteresse pela infelicidade dos idosos.
Quando procurava “A Velhice” na Estante Virtual, verifiquei obras cujos títulos levam à compreensão da velhice na trilha parecida da auto-ajuda. Uma obra que me chamou a atenção foi “Rejuvenescer a velhice”. Segundo informação da contracapa, a terceira idade é entendida como a etapa mais rica e experiente da vida e, por isso mesmo, a mais propícia a aprofundar-se no autoconhecimento e na percepção da sociedade. Destas reflexões brotam as formas possíveis do idoso atuar e integrar-se no corpo social, debelando com sabedoria os rótulos e preconceitos que ainda atingem esse segmento da população. Acredito que alguns idosos saudáveis consigam essa integração social, mas o comportamento da sociedade com os velhos ainda é preocupante. Parece que se esquecem de que velhice é preocupação com a falta saúde. Outra é a solidão. Os velhos que podem “rejuvenescer” são os mais ricos, que dispõem de meios para embasar o cuidado que lhes é necessário.
Outra obra de título interessante que encontrei foi “Vencendo a velhice”, da Dra. Ana Aslan. Fiquemos na afirmação do título: você acha que é capaz de se vencer a velhice? Como se a velhice fosse uma doença de que se pudesse sarar. Outro é “Pondo Fim à Velhice”. Pronto, você acaba com ela, fica eternamente jovem. Aliás, quando vejo matérias na tevê mostrando idosos fazendo ginástica, teatro, brincadeiras infantilizadas, alguns depoimentos de idosos que se sentem como se tivessem 15 anos fazendo atividades físicas, tudo isso me deixa com a pulga atrás da orelha. Que se façam exercícios, que pratiquem atividades criativas, mas não tornem os velhos imbecis. Já repararam como há terapeutas da terceira idade falando aos velhos no diminutivo, como se fossem crianças?
Velhice pra mim é aceitação da condição humana. É confronto direto com a solidão. É finitude. É preparação para a morte que não consigo ainda aceitar. Velhice é amadurecimento, e eu preciso amadurecer para aceitar as coisas não muito boas que poderão vir por aí, espero que não muito cedo.
domingo, 11 de setembro de 2011
Relato de viagem
A viagem a Rússia e Escandinávia estava sendo planejada desde que me aposentei em 2007. Como na ocasião eu adquiri uma polineuropatia inflamatória crônica desmilienizante, que comprometeu um pouquinho o movimento dos pés, fui deixando a coisa passar, até que agora o projeto aconteceu. A ida até Moscou foi muito demorada, oito horas de espera no aeroporto de Amsterdam para conexão a Moscou. Estando lá, dois dias cheios e não consegui ter uma visão mais abrangente da cidade. Será que Moscou seria somente o Kremlin e a Praça Vermelha? O passeio interessante que fizemos à noite pelos pontos turísticos da cidade, se oferecido durante o dia, daria uma visão mais diversificada da capital russa. Um dia a mais em Moscou teria sido perfeito, pois gosto muito de frequentar museus e não pude ver o de Gorki, grande escritor russo que tanto admiro. Como a fala e a escrita são enigmas, consegui decifrar muita coisa usando meu inglês que julgara enferrujado. Especialmente em restaurantes, a coisa foi meio complicada. Mas deu tudo certo.
São Petersburgo é uma cidade charmosa. Cortada pelo rio Neva, possui uma arquitetura meio barroca, em que o estilo austero dos soviéticos não pôde alterar. O palácio de verão de Catarina II, a Grande, é sensacional. Quase todo ele em estilo rococó, começou a ser construído em 1717. O salão de baile, todo decorado em ouro, bem como o Salão Âmbar, são deslumbrantes. A Rússia foi assim um pouco intenso de história. Muito dessa riqueza vem da aristocracia que os bolchevique tentaram apagar.
Da Rússia a Finlandia, a história cede lugar às belezas naturais. Helsinque, uma graça. Poderia ter ficado mais um dia. A cidade é pequena e agradável. Ao contrário do que eu sabia, a Finlândia não faz parte da Escandinávia, tem uma língua diversa das demais, uma das mais antigas do mundo, que se aproxima do tronco da língua romena. De lá, viagem de navio a Estocolmo. A travessia do Mar Báltico só fez sentido, porque o ônibus precisou ir junto. Foi um tempo precioso que se desperdiçou. Estocolmo, entretanto compensou o esforço. Cheia de canais, tem uma rua de pedestres imensa e colorida que leva aos pontos turísticos importantes da cidade. A visita aos salões da prefeitura, onde acontecem as cerimônias de entrega do Nobel foi muito bacana.
De Estocolmo a Oslo, o cansaço. Três dias cheios dentro do ônibus, paisagens belíssimas vistas da janela, pois as estradas estreitas não permitiam parar para sacar fotos. O que se via o tempo todo era uma paisagem rural com suas casinhas com telhado de grama (eles dizem que isso protege do frio) próximas a lagos e fiordes. O passeios pelos fiordes, que era o que mais me interessava, ficou com menos brilho por causa dessa trajetória cansativa. Oslo agradou não tanto quanto as demais visitadas. O passeio fechou com uma Copenhagen linda e sedutora. Lá, um dia a mais não faria nada mal a ninguém. Aproveitei a noite no “canal”, um local perto do porto, repleto de restaurantes, onde tomei vodca e cerveja “strong”. Kopenhagen prioriza a bicicleta ao pedestre. Há muita, mas muita bicicleta circulando em ciclovias que existem em todas as ruas que vi.
Quase não troquei dinheiro. Usei o cartão para tudo. Apesar dos 6,5%, achei que valeu a pena, porque não me enchi de moedinhas indesejáveis depois que se vai embora, e porque a conversão ao dólar comercial valeu a pena. Agora, em casa, estou curtindo a música erudita do músico norueguês Eduard Grieg e estou começando a leitura de “Noites Brancas”, de Dostoievski, cujo cenário é São Petersburgo. Para finalizar, quero dizer-lhes que é muito bom estar de volta ao lar.
domingo, 14 de agosto de 2011
Dia do Pai
A lembrança de meu pai é de um homem velho. Quando nasci, ele tinha mais de 50. Aos dez anos, a imagem dele era de alguém que exercia sua autoridade sobre a família. Ele nunca foi de bater nos filhos, na maturidade, mas usava o sermão como arma infalível para consertar alguma coisa em meu comportamento arredio. Em minha adolescência, lá pelos 14, 15, 16, discutíamos muito, pois punha em prova sua maneira de pensar, antiga, ao comportamento novo da geração de 60. Mas não éramos de muita conversa um com o outro, não. Sempre fui um cara reservado, fazia as coisas em silêncio. Na minha infância, tinha três irmãs na casa. Menino não se podia meter na vida feminina. Por isso mesmo fazia minhas brincadeiras e fantasias no pátio, na rua, com a liberdade que me era designada. Um irmão me disse um dia desses, que meu pai era uma pessoa fora de série, pena que eu convivera já com a velhice dele, com algumas doenças e não pudera participar de seu estilo peculiar na educação dos filhos. Seu poder de força, com a idade avançada, não era a mesma que meu irmão vivenciara em sua juventude. Meu pai, para ele, era um herói. A única herança que ele dizia legar aos filhos, era a educação. Era necessário estudar. Mais que trabalhar. Sempre admirei a forma como meus irmãos mais velhos se relacionavam com ele, tendo como ponto de vista o respeito. Comigo e minha irmã mais nova, nossa convivência era mais aberta, havia respeito, mas podíamos divergir, discutir, brigar, pois esse era o caminho que ele escolhia sempre, permitir o diálogo.
Uma imagem que me dói de meu pai, era a de pessoa solitária. Minha mãe havia morrido. Minha irmã e eu trabalhávamos e ele cuidava da casa, rodeado de sua solidão e da lembrança de minha mãe, que partira há pouco. Seu sorriso já não era mais o mesmo, até quando algum tom alegre no ambiente o fazia sorrir. Quando não gostava de alguma coisa, limitava-se a resmungar e fechava a cara de poucos amigos. Às vezes eu implicava, perguntando-lhe o que era. Ele respondia nada. Certas dores no corpo, a pedra nos rins...
Percebia-se a mudança também no rosto. A boca que pronunciava palavras silenciosas, enquanto jogava cartas sozinho na sala, era uma boca de defunto. Os olhos castanhos acumulavam as marcas do tempo a seu redor e os poucos cabelos da parte lateral da cabeça não escondiam mais a mescla de grisalhos: era completamente branca.Quando se aproximava para me desejar bom dia, o braço que me tocava o ombro, completamente flácido, era leve e indeciso.
Quando me sentava na outra ponta da mesa para tomar o café da manhã, sentia sua respiração ofegante. Tossia de vez em quando. Ouvia o barulho da xícara raspando o pires e me sentia assim como ele, também diminuído, trancado na mesma saudade, parceiro de mesma solidão.
O silêncio enchia a sala. Quando essa triste lembrança da morte dela se tornasse saudade, talvez pudéssemos discutir futebol e política, sorrindo e brigando como amigos. Torcia para que o tempo fizesse surtir seu efeito.
Não foi possível. A saudade dela acabou tirando-lhe a vida alguns anos depois. A coisa de que mais sinto falta em relação a ele, é de poder lhe dar um abraço apertado.
Uma imagem que me dói de meu pai, era a de pessoa solitária. Minha mãe havia morrido. Minha irmã e eu trabalhávamos e ele cuidava da casa, rodeado de sua solidão e da lembrança de minha mãe, que partira há pouco. Seu sorriso já não era mais o mesmo, até quando algum tom alegre no ambiente o fazia sorrir. Quando não gostava de alguma coisa, limitava-se a resmungar e fechava a cara de poucos amigos. Às vezes eu implicava, perguntando-lhe o que era. Ele respondia nada. Certas dores no corpo, a pedra nos rins...
Percebia-se a mudança também no rosto. A boca que pronunciava palavras silenciosas, enquanto jogava cartas sozinho na sala, era uma boca de defunto. Os olhos castanhos acumulavam as marcas do tempo a seu redor e os poucos cabelos da parte lateral da cabeça não escondiam mais a mescla de grisalhos: era completamente branca.Quando se aproximava para me desejar bom dia, o braço que me tocava o ombro, completamente flácido, era leve e indeciso.
Quando me sentava na outra ponta da mesa para tomar o café da manhã, sentia sua respiração ofegante. Tossia de vez em quando. Ouvia o barulho da xícara raspando o pires e me sentia assim como ele, também diminuído, trancado na mesma saudade, parceiro de mesma solidão.
O silêncio enchia a sala. Quando essa triste lembrança da morte dela se tornasse saudade, talvez pudéssemos discutir futebol e política, sorrindo e brigando como amigos. Torcia para que o tempo fizesse surtir seu efeito.
Não foi possível. A saudade dela acabou tirando-lhe a vida alguns anos depois. A coisa de que mais sinto falta em relação a ele, é de poder lhe dar um abraço apertado.
domingo, 7 de agosto de 2011
A vulgarização do afeto
Você já esteve em uma rodinha de amigos, certamente, batendo papo, até que a roda se desfaz por motivo vário e cada um se despede, dá um abaninho e diz: “tchau, um beijo”. O beijo não é dado. É falado. As pessoas estão todas juntas, uma frente às outras, e o beijo sai falado. Entre homens é o afeto falado do “até mais, um abraço”. Puxa vida! Por que não dar um abraço corpo a corpo? Já repararam que muitos homens se abraçam colocando a mão no peito um do outro, para evitar o confronto corpo a corpo mais direto? É da cultura machista. Não tem jeito. Pois é, mas assim é a vida. Pode ser que as pessoas dessa rodinha não sejam grandes amigos a ponto dos lábios tocarem o rosto do outro. Então se usa a tal cortesia de demonstrar um afeto não tão próximo através do beijinho falado e não dado.
Certa vez, quando estava em Brasília montando um curso de linha na Gepes do Banco do Brasil, fui apresentado a uma educadora, dessas chefas com alto cargo inerente à competência de sua função. Muito cortês à primeira vista, chamava-me pelo nome toda a vez em que conversávamos no horário do lanche coletivo. Quando finalizou o lanche, ela desejou um bom final de tarde a todos e a todas (não sei por que dessa moda, pois o gênero “todos” inclui, quem exclui é o “todas”) e propôs que todos ali presentes se dessem um abraço de confraternização. No dia seguinte, cruzamos eu e ela em sentidos opostos no imenso corredor deserto da Gepes. Quando chegamos bem próximos, olho para ela, mas ela ignora minha presença, como se eu não existisse passando por ela naquele momento. Fiquei intrigado. No dia anterior ela propôs um abraço de confraternização. Abraço é coisa séria, gente! No dia seguinte, já propôs que fôssemos anônimos, fingindo desconhecer um ao outro. Essa característica, aliás, é típica de ambientes de trabalho em que há muita gente e não se pode ou não se quer estar “arreganhando os dentes” a toda hora e momento.
Ora, não se trata de arreganhar os dentes a toda hora e momento. Um olhar não tira pedaço de ninguém. Não é preciso nem falar, basta o esboço de um sorriso que a cordialidade está feita. Mas a vida é assim mesmo. Já me disseram que ninguém é obrigado a estar feliz o tempo todo. Eu penso, entretanto, que é possível a delicadeza e a gentileza sem grandes estardalhaços, que daí é exagero falso. Se fôssemos mais autênticos em nossa forma de demonstrar afeto a terceiros, poderíamos, quem sabe nessa tal rodinha, dar um adeus e “até a próxima”. Senão, dá um beijo, cara, não custa nada!
Certa vez, quando estava em Brasília montando um curso de linha na Gepes do Banco do Brasil, fui apresentado a uma educadora, dessas chefas com alto cargo inerente à competência de sua função. Muito cortês à primeira vista, chamava-me pelo nome toda a vez em que conversávamos no horário do lanche coletivo. Quando finalizou o lanche, ela desejou um bom final de tarde a todos e a todas (não sei por que dessa moda, pois o gênero “todos” inclui, quem exclui é o “todas”) e propôs que todos ali presentes se dessem um abraço de confraternização. No dia seguinte, cruzamos eu e ela em sentidos opostos no imenso corredor deserto da Gepes. Quando chegamos bem próximos, olho para ela, mas ela ignora minha presença, como se eu não existisse passando por ela naquele momento. Fiquei intrigado. No dia anterior ela propôs um abraço de confraternização. Abraço é coisa séria, gente! No dia seguinte, já propôs que fôssemos anônimos, fingindo desconhecer um ao outro. Essa característica, aliás, é típica de ambientes de trabalho em que há muita gente e não se pode ou não se quer estar “arreganhando os dentes” a toda hora e momento.
Ora, não se trata de arreganhar os dentes a toda hora e momento. Um olhar não tira pedaço de ninguém. Não é preciso nem falar, basta o esboço de um sorriso que a cordialidade está feita. Mas a vida é assim mesmo. Já me disseram que ninguém é obrigado a estar feliz o tempo todo. Eu penso, entretanto, que é possível a delicadeza e a gentileza sem grandes estardalhaços, que daí é exagero falso. Se fôssemos mais autênticos em nossa forma de demonstrar afeto a terceiros, poderíamos, quem sabe nessa tal rodinha, dar um adeus e “até a próxima”. Senão, dá um beijo, cara, não custa nada!
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