Mostrando postagens com marcador literatura latino-americana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura latino-americana. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Primavera num Espelho Partido

O pano de fundo do romance é o período da ditadura uruguaia imposta ao país de 1973 a 1985. A história gira em torno de Santiago, preso político, e Graciela, sua mulher. Graciela é forçada a pedir asilo na Argentina com a filha pequena, mais o pai de Santiago, para tentar refazer sua vida. Em cinco anos de prisão, comunicam-se apenas por cartas esporádicas. Santiago vive um tempo estático, onde nada de novo acontece. Passa e repassa as lembranças familiares como forma de se manter livre. A escolha dele, de lutar contra a opressão, e a dela, de sair do país, levam suas vidas a um rumo imprevisível. Graciela, ao contrário,  precisa seguir em frente, procurando recompor sua vida com a filha. Cai em uma rotina  de mudanças constantes, em que até o amor pelo marido será afetada, já que Graciela começa a nutrir sentimentos pelo melhor amigo de Santiago. O romance é contado em várias vozes, inclusive a de Mario Benedetti, que relata seu drama de exilado político em várias partes do mundo. Don Rafael, o pai de Santiago, é uma dessas vozes. Sua fala revela a preocupação de o filho enlouquecer na prisão. É nos torturadores que reside a loucura. São loucos por vocação e livre escolha, que é a forma mais ignóbil de loucura. Ganharam aulas de tortura dos norte-americanos para se diplomarem dementes. Mas isso não acontece. Ao receber uma carta do filho, sente que sua descida ao inferno não o incinerou. Está são. Pensa o pai que, mais do que se entregar a uma esperança, o que conta para o filho é se agarrar à sanidade. E seu filho continua sensato. Está dosando seus ódios com prudência e sagacidade, o que é decisivo. O pai sabe que é difícil ter bom senso quando se passou pela humilhação e pelo mutismo obstinado e pelo asco à morte e pelo alerta sem trégua e pelo pavor solitário e pelo martírio em cotas incômodas. Depois de tudo isso, agarrar-se à sensatez pode ser uma forma de delírio. Só isso pode explicar essa ferrenha lealdade ao equilíbrio. Isso explica o respeito a si mesmo, fidelidade aos demais e sobretudo muita tenacidade, muita obstinação e uma desmistificação progressiva da morte.
Primavera num espelho partido é uma história sobre as contradições humanas, a busca de sentido na vida. Benedetti compõe um mosaico de impressões e sentimentos, numa história marcante sobre a permanência do amor em tempos sombrios.

A tradução é de Eliana Aguiar
                                                                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==============================
Mario Benedetti. Primavera num espelho partido. Rio, Objetiva, 2009, 218 pp, R$ 42,90

domingo, 26 de janeiro de 2014

Trilogia Suja de Havana

Ninguém goza mais do que ela. Assim ficamos unidos por muito tempo. Quando tirei o pau, estava melado de merda e ela sentiu nojo. Eu não. Eu tinha o cínico alerta, não dormia nunca. O sexo não é para gente escrupulosa. O sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, saliva, hálito e aromas fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se for apenas ternura e espiritualidade etérea, não passa de uma paródia estéril do que poderia ser.  Nada. (...) Fome.  Claro, só tinha no estômago um chá, uma fatia de melão e um café. Em casa comi um pedaço de pão com outro chá. Já estava me acostumando com muitas coisas novas na minha vida. Estava me acostumando com a miséria. A encarar as coisas como elas são. Treinava para abandonar o rigor, porque senão não sobreviveria. Sempre vivi carente de alguma coisa. Inquieto, querendo tudo de uma vez, lutando rigorosamente por algo mais. Estava aprendendo a não ter tudo de uma vez. A viver quase sem nada. Caso contrário, continuaria com a minha visão trágica da vida. Por isso agora a miséria não me afetava tanto.

Assim vive o personagem de Trilogia suja de Havana, que tem o mesmo nome do autor, Pedro juan Gutierrez. O livro é composto de crônicas que se passam no centro de Havana, onde reside grande parte da população que vem do interior para a capital, sob a crise de alimentação e moradia que assolou Cuba, na década de 90 do século passado, quando a União Soviética foi extinta e Cuba teve de se virar pelo avesso. Foi a partir daí, por exemplo, que os cubanos passaram a investir no turismo como uma das formas de abrandar um pouco a forte crise econômica da ilha.
O Pedro juan do livro mora em um quarto no terraço, em Centro Havana. Um bom lugar. O problema lá são os vizinhos e o banheiro coletivo. Lá vivem negros, velhas decadentes, algumas putas jovens, outras já destruídas, que foram putas de luxo em outros tempos; velhos bêbados e um monte de gente de Guantánamo que emigra em bandos e ninguém sabe o que fazer para caber vinte num quarto.Em Guantánamo entravam para a polícia e logo depois conseguiam transferência para Havana e levavam junto a família inteira. E se viram para morar todos num quarto de quatro metros por quatro, não se sabe como. O banheiro é o mais nojento do mundo, a merda chega até ao teto. Nesse banheiro cagam, mijam, tomam banho diariamente nada menos que duzentas pessoas. Sempre há fila. Mesmo que alguém esteja se cagando, tem que entrar na fila. Alguns, para fugir da fila, cagam  num papel e jogam o pacote de merda no terraço do edifício ao lado, que é mais baixo. Ou na rua. Tanto faz. Um desastre! Mas, quem  está em baixa, tem que se acostumar.

 Pedro Juan Gutiérrez, o autor, acredita que a arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira pode nos mostrar a outra face do mundo, aquela que nunca vemos ou nunca queremos ver para não causar incômodos à nossa consciência. Em Havana tudo está contaminado. Em última instância, são todos mestiços. A agitação é subterrânea. Basta arranhar um pouco a superfície e tudo explode, com a mesma brutalidade. O autor nasceu em Cuba em 1950 e exerceu os mais diversos ofícios: vendedor de sorvetes e jornais, instrutor de caiaques , cortador de cana-de-açúcar, operário agrícola, soldado, locutor de rádio e jornalista. Trilogia suja de Havana ganhou projeção internacional em 1998. Depois disso, escreveu mais quatro livros do chama Ciclo do Centro de Havana: O rei de Havana, O insaciável homem-aranha, Animal tropical e Carne de cachorro. Todos os livros desse ciclo constituem o relato sobre a vida em Cuba nos anos 90.  Através de sua literatura, conhecemos uma Cuba contraditória, vibrante e sensual, mas ao mesmo tempo um país duro e perigoso.

Gutiérrez vive em um prédio velho no centro de Havana e se diz simpatizante do regime cubano (Trilogia suja de Havana não pôde ser publicado em Cuba, inicialmente, mas na Espanha) por isso nega-se a responder a perguntas sobre a repressão e a censura em seu país. Faz parte de uma elite cultural, artística e esportiva que divulga Cuba no exterior. Talvez pudesse ganhar bem melhor exilando-se em algum país de língua espanhola, mas certamente não seria Pedro Juan Gutiérrez de seus personagens alegres, irreverentes e patéticos diante das dificuldades de um país pobre.
                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=============================
Pedro Juan Gutiérrez. Trilogia suja de Havana. Rio, Objetiva, 2008, 382 pp. R$

 

domingo, 10 de junho de 2012

Alvo Noturno


Quando foi perguntado ao escritor argentino Ricardo Piglia (1940) por que havia demorado tanto para publicar seu último romance Alvo Noturno, lançado no Brasil em 2011, já que sua última obra de ficção, Dinheiro queimado (Plata quemada), havia sido publicada em 1997, ele disse que mantém um método de trabalho que não recomenda a ninguém, que consiste em fazer uma primeira versão do romance e deixá-la de lado. Quando regressa à história, tem a sensação de que ela está mais nítida. Alvo noturno é uma trama policial, onde um crime ocorre no início e há um comissário de polícia que investiga o caso, vindo a ser, no decorrer da história, auxiliado por um jornalista. O romance transparece com clareza as relações entre corrupção e poder político. Croce, o comissário fora de moda em relação a seus métodos, é um ser marginalizado que tem um olhar lúcido, distanciado, que está sempre questionando a verdade. O comissário Croce é um cara meio louco, já não é tão racional e nem se aproxima da verdade por métodos mais práticos. Busca decifrar o crime através de suas percepções, que são inexplicáveis. No povoado onde vive e onde ocorre o crime, seu método é aceito, pois ele sempre desvenda os crimes. O homem assassinado no povoado que fica próximo a Buenos Aires é um negro porto-riquenho que veio para a Argentina, por causa de duas gêmeas de uma família rica da região. Ao contrário de outros países latino-americanos, a Argentina não teve lastros significativos com os africanos, muito embora haja um racismo muito forte. Mestiços de índios e negros, chamados de zambos, eram a classe mais baixa da escala social do Rio da Prata. Então, aparecer um mulato cheio de dinheiro, vindo do nada, envolvido com duas irmãs de uma família tradicional da sociedade local, pode tornar mais previsível o fato dele ser assassinado. A partir do crime, entretanto, a história cresce, mostrando o inferno das relações familiares: o falso culpado e o culpado verdadeiro, fraude, paixões e traição. Vale muito a pena a leitura.

Ricardo Piglia é escritor e professor de literatura latino-americana, considerado um dos melhores da literatura argentina na atualidade. Dizem que é o sucessor de Borges (não entendo por que Borges tenha de ter um seguidor ou por que não possa existir Borges e Piglia sem que este deva alguma coisa àquele). Seus romances Respiração Artificial, A Cidade Ausente, Dinheiro Queimado e Alvo Noturno já estão publicados no Brasil. É autor, também, de contos, ensaios sobre ficção e roteiros para cinema. É dele o roteiro do filme Coração Iluminado, dirigido por Héctor Babenco. Sua obra Dinheiro Queimado foi para o cinema com o título de Plata Quemada.
=====================
Ricardo Piglia. Alvo Noturno. SP, Cia. das Letras, 2011, 256 pp. R$ 45,

domingo, 22 de abril de 2012

Tia Júlia e o Escrivinhador

O escritor iniciante Mário Vargas, o Varguitas, toma-se de amores por sua tia Júlia, boliviana, divorciada e mais velha que ele. Sua paixão é correspondida, mas encontra resistência especialmente na família, por parte do pai, que tenta impedi-lo de casar-se, de todas as formas possíveis. Varguitas tem 18 anos e, pela lei peruana, não pode contrair núpcias sem a autorização paterna. Ele e a tia, com ajuda de amigos e de uma prima, tentam realizar o casório de todas as formas, incluindo alguns subornos. Quando finalmente conseguem oficializar a união, seu pai o ameaça, prometendo acusar a tia como corruptora de menor. No final, o amor vence e as coisas se resolvem. Romance com fortes traços autobiográficos, seja porque o narrador tem o mesmo nome do autor e acabe ganhando notoriedade como escritor fora do Peru, como Vargas Llosa, seja porque o escritor casou-se na vida real os 19 anos, com Julia Urquidi, irmã da mulher de seu tio materno, passando a ter vários empregos para sobreviver, até ganhar uma bolsa para a Espanha e solidificar sua carreira intelectual e política.
Os capítulos são entremeados com a história de Mario e Julia e as histórias de periódicos de Pedro Camacho, escritor que nunca abdicou de textos de gosto popular, pois eram lidos na rádio local. Os periódicos apresentam um humor salpicado por por estereótipos do gênero, como os infortúnios, os senhores de cinquenta anos "na flor da vida", o incesto , amor não correspondido e impossível, a religião. Esse é um grande mérito do autor, fornecer vozes narrativas diferentes para essas duas partes.
O final do livro, em paralelo com a degradação mental de Pedro Camacho, beira o absurdo e ridículo, misturando personagens de séries anteriores, ou repetindo os nomes das diferentes personagens, criando histórias verdadeiramente hilariantes e absurdas.
A história de Julia também é interessante, parece-me quase autobiográfica, e bastante próximo em seus propósitos para um drama de rádio de Pedro Camacho. Nele, o autor aproveita a oportunidade para falar sobre as classes burguesas e superior de Lima nos anos cinquenta, e seus costumes.
A ironia e a graciosidade da prosa nos leva com facilidade através da história, embora seja um livro longo que, em algumas partes, se mostra repetitivo.
A Folha de São Paulo está lançando neste domingo a Tia Júlia e o escrivinhador, cuja tradução não me foi possível, ainda, avaliar. ======================================
Tia Júlia e o Escrivinhador. Alfaguara Brasil, 2009, 360 pp, E$ 50,00
Tia Júlia e o Escrivinhador. Ponto de Leitura, 2010. 464 pp, R$ 24,00
La tía Júlia y el escribidor. 2ª ed., Buenos Aires, Alfaguara, 2010, 474 pp, R$ 66,740

domingo, 29 de janeiro de 2012

O jogo da amarelinha

O texto da capa que divulga O jogo da amarelinha diz que se trata da história de Oliveira e Magda, os amigos do Club da Serpente, das caminhadas por Paris em busca do céu e do inferno. Em contrapartida, temos a aventura simétrica de Oliveira, Talita e Traveler numa Buenos Aires marcada pelas recordações.
O surgimento de O jogo da amarelinha em 1963 foi uma verdadeira revolução dentro da novelística em língua espanhola. Pela primeira vez levava-se às últimas conseqüências a vontade de transgredir a ordem tradicional da história e a linguagem para contá-la.
São no mínimo dois romances dentro do romance. Cortázar convida o leitor a escolher uma das duas possibilidade que o livro oferece: a primeira, ler a história de forma linear até o capítulo 56, quando termina o romance. A segunda, ler a partir do capítulo 73, seguindo a orientação indicada ao final de cada capítulo. A segunda possibilidade tem a ver com o jogo da amarelinha. Você avança, retrocede, avança novamente e assim sucessivamente. É um jogo de leitura deveras interessante.
O Jogo da Amarelinha é uma espécie de anti-romance, sem enredo convencional, sem suspense, sem comentários psicológicos, quase desprovida de uma descrição e cronologia, elementos que captam a descontinuidade e a desordem da vida. A jornada de Oliveira, o protagonista, começou em Paris, onde sua amante Magda e seu filho mais novo, conversam na sala que se torna o centro da reunião do grupo de amigos, artistas e intelectuais que, juntamente com Magda e Oliveira são os parceiros no diálogo que completa a maior parte do texto.
Em Buenos Aires, no decorrer da hstória, Oliveira trabalha com seus amigos, o casal Talita e Traveler, primeiro em um circo e em seguida num asilo, onde Oliveira é considerado, possivelmente, um louco suicida.
A novela termina de forma ambígua, mais hipotética que real. Faz os leitores mergulharem numa tentativa de encontrar outra maneira de enxergar o que seja nossa realidade.
===================
Julio Cortázar. O jogo da amarelinha. 6ª Ed. Civlização Brasileira, 1999, 640p.
__________ Rayuela. 2ª Ed., Buenos Aires, Punto de Lectura, 2008, 734 p.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Terra nostra, de Carlos Fuentes



John Elliot, no prefácio à edição de Terra nostra pela editora Seix Barral, escreve que o romance está impregnado de um sentido de passado. A estória rica e complexa de Fuentes, tem como tema a História. O autor, como historiador, busca evocar o passado, ao mesmo tempo que o interpreta. A novela de Fuentes tem como intuito trazer a influência do passado no presente e interpretá-lo em relação ao futuro. O presente, igualmente, influencia na forma como se vê e se compreende o passado. O historiador, ou o narrador ou o cronista do enredo múltiplo (são várias historias que se misturam), é o guardião da memória. Aquele que escolhe recordar do passado o que sobrevive e dá forma a um futuro.
Terra nostra apresenta um México nativo do autor como uma nação resultante da contundente imposição da civilização espanhola do século XVI às civilizações astecas e maias. As civilizações hispânica e indígena têm pontos de vista diferentes sobre o tempo. Para os habitantes do México prévio à conquista, o tempo era cíclico; para os espanhóis da era do Renascimento e da Contrarreforma, o tempo era linear, culminando na grande apoteose do Juízo Final.
El Escorial, palácio mandado construir por Felipe II é central na história, porque dali a Espanha trata de impor sua visão de mundo a um México conquistado. A Espanha que subjuga e coloniza o México é a rígida e intolerante Espanha da Contra-Reforma.
A história de Terra nostra, a fábula, é o destino de três irmãos, filhos bastardo do Senhor (Felipe II), todos com uma cruz vermelha nas costas e seis dedos em cada um dos pés. Na primeira parte da obra, El viejo mundo, passa-se na Espanha, quando o rei discute com seu cronista os valores da existência. Fuentes incorpora no enredo figuras desse mundo, a partir de A Celestina, de Fernando de Rojas, Don Juan, de Tirso de Molina e Don Quijote, de Cervantes. A Celestina é obra de transição entre a Idade Média e o Renascimento. Nela são retratados os vícios e defeitos de uma sociedade moralista. A Celestina é uma alcoviteira e dona de prostíbulo, que amarra casamentos à base do dinheiro. Acaba, assim, juntando Calisto e Melibea, que representam a paixão descontrolada e destrutiva, alheios à razão. Don Juan, o burlador de Sevilla, apresenta o comportamento imoral de um homem que seduz as mulheres com falsas promessas de casamento, com a finalidade única de fazer sexo com elas e depois abandoná-las. Don Quijote é a história por demais conhecida, do cavaleiro da triste figura. Em Terra nostra, as personagens dessas três obras se misturam e passam a refletir a moral oficial deformada da Igreja e dos poderosos da época.
Na segunda parte do romance, El mundo nuevo, o cenário é o México da época do descobrimento da América pelos espanhóis, o confronto do tempo cíclico dos selvagens, com a realidade linear dos descobridores. Carlos Fuentes narra o mito de Quetzalcóatl, uma mistura de ave plumada com serpente, venerada pelos astecas e mais. Quetzalcoatl representa as energias telúricas e também a vida, a abundância da vegetação, o alimento físico e espiritual para o povo. Posteriormente passou a ser cultuado como deus, representante do planeta Vênus, correspondendo à noção de morte e ressurreiçao. Uma das representações desse deus, segundo fontes orais, seria a de um homem branco, barbudo e de olhos claros. Alguns historiadores acreditam que os astecas viram no explorador Hernán Cortés a figura de Quetzalcoatl, o que teria facilitado a subjugação espanhola sobre os povos nativos do México.
A terceira parte, El otro mundo, volta à Espanha da Contra-Reforma, mas dá saltos no tempo em relação ao passado, presente e futuro. Surge a história da formação da Itália e sua constituição política, surge o México dos caudilhos, Paris dos fugitivos políticos. Há uma passagem interessante de Ludovico, quando este regressa do Novo Mundo e conversa com o Senhor Felipe II e este lhe pergunta: “Então, triunfaste tu. O sonho foi realidade”, ao qual Ludovico responde: “Não, Felipe, triunfaste tu, o sonho foi pesadelo. A mesma ordem que quiseste para a Espanha foi trasladada à Nova Espanha, as mesmas hierarquias rígidas, vesticais, o mesmo estilo de governo. Para os poderosos, todos os tipos de direitos e nenhuma obrigação; para os fracos, nenhum direito e todas as obrigações. O novo mundo foi povoado por espanhóis enervados pelo luxo inesperado, o clima, a mestiçagem, as tentações de uma injustiça impune”.  Eu li Terra nostra no original, mas há a tradução de Olga Savary pela Nova Fronteira, 1982, que se pode garimpar nos sebos. É um livro pesado, exige alguma pesquisa paralela à leitura, mas é de leitura enriquecedora, se tivermos um pouco de paciência.
===========================
Carlos Fuentes. Terra nostra. Barcelona, Seix Barral, 2003. 796pp

Fernando de Rojas. A Celestina. Porto Alegre, LPM, 2008
Tirso de Molina. Don Juan, o burlador de Sevilha. Brasília, Círculo de Brasília, 2004
Cervantes. Dom Quixote. Porto Alegre, LPM, 2005 2vol.

domingo, 20 de novembro de 2011

A morte de Artêmio Cruz



Em A morte de Artêmio Cruz , Carlos Fuentes nos revela os processos mentais de um velho que já não é capaz de valer-se por si mesmo e que se acha prostrado ante a morte iminente e indigna. A técnica narrativa consiste em intercalar o passado, o presente e o futuro da personagem, tendo como pano de fundo a Revoução Mexicana de 1910. O presente narrativo se passa na década de 1950. O mesmo pretexto foi usado pelo autor em sua novela anterior, La región más transparente.Se lá a personagem central é a cidade do México, aqui é o homem que subiu na vida graças às engrenagens do mundo capitalista. Para isso, renunciou a seus preceitos revolucionários do passado.
A história começa quando Artêmio Cruz sofre um ataque.Em seu leito de morte, recusa a extremunção do cura, sabendo que há muito tempo havia deixado de lado a fé. Busca incessantemente prolongar um pouco mais seu martírio. Mãe e filha, à beira do leito do moribundo estão precocupadas com o testamento do velho, que até o momento não lhes havia dito nada sobre isso. Artêmio pensa na mulher a quem nunca amou, na filha que o despreza.
Enquanto essa e outras pessoas se movimentam ao redor de sua cama, seu cerebro se translada em indas e vindas entre o presente e o passado. Recorda dos sucessos que o levaram até onde se encontra nesse momento. Vê-se a si mesmo no ano de 1919, como um joven veterano da Revolução que chegou à fazenda dos Bernal, trazendo noticias à familia de que o filho Gustavo havia sido fuzilado por forças de Pancho Villa. A verdadeira intenção de Artêmio era ganhar a confiança do velho pai de Gonzalo e casar-se com a filha, Catalina, para assim apropriar-se das propriedades da familia. Catalina nunca conseguiu compreender esse amor insosso de Artêmio por ela. Por isso, culpa-se por toda vida pelo fato de não ter sido correspondida. Com a norte do filho, Catalina e Artêmio passam a ter uma vida aborrecida, até que ele se alista novamente para lutar na revolução espanhola e assim escapar de uma relção sem conserto.
Artêmio recorda-se também de outras relações mediocres que teve com outras mulheres, antes de Catalina. Recorda-se, também, dos assentatados da localidade de Perales, seus vizinhos, e de como se apoderou de suas terras. De como foi eleito pela primeira vez deputado, cargo que lhe valeu para todo o tipo de trapaças, subornos e chantagens. Das grandes festas que dava, em que seus convidados riam dele pelas costas.
Pouco antes de sua hora final, revela ao leitor dois epísódios que explicam por que foi o que foi. Num deles, conta como foi capturado pelas tropas de Villa e sentenciado à norte. Foi aí que ele decidiu passar informações ao inimigo e mudar seu objetivo de vida. No capítulo final, entendemos como tudo começou: Artêmio havia nascido num meio rural bem humilde. Durante seus primeiros anos, seu único amigo era o mestiço Lunero, que servia à avó e ao tio alcoólatra de Artêmio. Depois de matar seu tio por tiro acidental, ele foge para Veracruz. Ali, um professor se interessa por ele e o prepara para desempenhar o papel que o levou a lutar na Revolução, antes de perder seus ideais e eleger a traição que o levou a usar o poder, para corromper-se a si mesmo.
La muerte de Artemio Cruz apareceu em 1962. A personagem Artêmio Cruz representa, assim, os paradoxos da história moderna do México, no período da constituição de uma burguesía urbana. Há uma edição em portugués, pela Rocco, esgotada. É possível encontrá-la em sebos virtuais.
=======================
Carlos Fuentes. La muerte de Artemio Cruz. Madrid, Punto de Lectura, 2001

sábado, 12 de novembro de 2011

Carlos Fuentes y La región más transparente



La región más transparente romance do escritor mexicano Carlos Fuentes, é uma novela social. Tem como escopo a Revolução de 1910, no México, embora a ação da trama se desenrole na décadas de 40/50, quando uma burguesia oriunda das classes industrial e latifundiária se estabelece de forma desigual. Carlos Fuentes põe a descoberto a essência injusta dessa sociedade, assim como a frustração provocada pela negação dos valores de justiça social da Revolução de 1910. As classes populares estão impossibilitadas de se realizarem economicamente. As ânsias de poder e de corrupção da burguesia, a falsidade e superficialidade dos ambientes pseudo-intelectuais circulam todo o romance. La región más transparente é uma novela audaz, de denúncia e reflexão, de análise e busca, que logra tramar eficazmente diversas histórias, para brindar um extenso afresco do caótico e turbulento México contemporâneo.
Podemos dizer que a novela é a descrição geral de um só personagem: a cidade, em cuja ebulição se percebem os distintos discursos das distintas classes e castas sociais do México, os distintos tipos humanos (mestiços, criollos, indígenas, assim como estrangeiros assimilados e acomodados), distintas formas de ver o mundo e assimilar a então jovem e crescente modernidade industrial que é filtrada de uma nação que vive o processo de des-composição de uma revolução e o início de uma nova sociedade corrupta.
Das inúmeras personagens da história, cabe referirse à presença de Norma Larragoiti, que foi noiva de Rodrigo Pola, fiho de um revolucionário da Revolução de 1910, mas casou-se com Federico Robles, filho de camponeses de uma das fazendas da família De Ovando, soldado da revolução, advogado e banqueiro conselheiro de companhias estrangeiras. Norma é filha de mãe mestiça e de espanhol pobre, comerciante do norte do país. Seu irmão mora nos Estados Unidos e trabalha como pedreiro, ofício característico dos estratos mais pobres da sociedade. A origem de Norma, então, é visivelmente humilde. A partir de casamento com o banqueiro Federico Robles, tem a possibilidade de participar, de certo modo da elite mexicana. Entretanto, dentro desses grupos de classe alta, tanto Norma como seu marido são criticados por sua origem baixa e tolerados somente por seu dinheiro. Dessa forma, Norma tenta introjetar-se nessa classe social rica, ignorando e rechaçando sua própria origem.
Carlos Fuentes é um dos escritores mais importantes, sólidos e prolíficos da América Latina. Assim o atestam, entre outras, suas novelas La muerte de Artemio Cruz, Cristóbal Nonato, Los años com Laura Diaz e Terra Nostra, que serão comentados em sequencia nas colunas a seguir.
===========================
Carlos Fuentes. La región más transparente. Alfaguara Argentina, 2008. 640 pp

sábado, 5 de novembro de 2011

Augusto Roa Bastos e sua trilogia do monoteísmo do poder



O paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005) foi um escritor brilhante, mas quase desconhecido no Brasil. Seu romance traduzido aqui, Eu, o Supremo, não teve boa tradução. Esse romance, assim como os demais da trilogía: Hijo de hombre e El fiscal, não são de leitura fácil, já que necesitam do leitor uma consciencia desperta da realidade latino-americana de início do século XX até o período turvo da ditadura latino-americana, de 1950 até finais da década de 1980.

Provenientes do Alto Paraná, das planícies do Chaco e Assunção, os vários personagens que povoam Hijo de hombre são testemunhas e vítimas da história do Paraguai: a passagem do cometa Halley em 1910 marca as primeiras páginas do romance para, em seguida, atravessar os anos de revoltas camponesas, suas repressões, fundindo-se, nos últimos capítulos, nas consequências da desoladora Guerra do Chaco (1930). Mas a ação também é baseada em um plano atemporal: o autor dá voz ao homem em rebelião, denuncia os abusos das oligarquias, retrata em uma imagem muito terrena o mártir crucificado, reivindicando o legado dos mortos e, portanto, seu passado: em determinada cidade do interior do Paraguai, uma imagem de Cristo, inicialmente no topo de um morro, passa de povoado em povoado para lembrar que o fiho de Deus é o filho do homem que, como os demais cidadãos, precisa ser vingado. Filho do Homem (1960) foi o primeiro romance publicado por Augusto Roa Bastos, uma cosmogonia audaciosa, onde se percebem as vozes ancestrais da herança guarani e espanhola do Paraguai, um projeto que redefine a função do escritor como alguém destinado a colher, conforme palavras de Roa Bastos, “um discurso oral ainda não transcrito, mas presente e marcante no ritmo da história.

Em Yo El Supremo, Augusto Roa Bastos retrata com certa complexidade histórica e simbólica o mundo irreal de José Gaspar Rodrigues de Francia, que governou com mão de ferro o Paraguai entre 1814 e 1840. Ele é a figura totêmica da novela, um homem dedicado à redação de um interminável documento púbico, a Circular Perpétua (na trama, suas memórias), que tem a participação de Patiño, seu nem sempre fiel secretario. A relação do dr. Francia com aduladores, intrigantes, súditos e governos vizinhos, frutifica em uma vereda oral e textual, que aspira a instituir-se, a Circular, como poder absoluto em voz única e irretocável. Com esta obra, publicada originalmente em 1974, temos um marco narrativo que remete a Don Quijote, já que fala sobre o poder e o indivíduo, a supremacía do discurso sobre a realidade, a História americana, a psicología do tirano e, o que é seu cerne, os limites da linguagem e a novela como estrutura narrativa. Em seu discurso quando do recebimento do Prêmio Cervantes na Espanha, relativo a Eu, o Supremo, em 1989, Roa Bastos nos disse que o núcleo gerador de sua novela com Dom Quixote, foi a de imaginar um dublé do Cavaleiro da Triste Figura metamorfoseado no Cavaleiro Andante do Absoluto, realizando esse mito do absoluto em realidade que ele trata de compilar em sua Circular, a simbiose da realidade real com a realidade simbólica, da tradição oral e da palavra escrita. El Supremo Ditador da República do Paraguai desejou apenas o poder absoluto e o teve em suas mãos sem deixar de ser, também, o homem mais pobre do mundo.

El Fiscal (O Fiscal), narra a tragetória de Félix Moral, um escritor paraguaio que teve de se exilar no interior da França, tendo inclusive de trocar de nome. Ele tem uma obsessão: assassinar o presidente ditador Alfredo Stroessner durante um congreso de escritores e intelectuais que se realizará em Asunción em 1987, idealizado pelo próprio Stroessner. Sua companheira de vida, Jimena, representa para Félix o baluarte da estabilidade afetiva. O escritor se debaterá entre a função messiânica do intelectual exilado e o sacrificio do herói (matar o ditador Stroessner), enquanto constrói um discurso elaborado, quase uma sentença jurídica sobre a lealdade e a traição, onde sua experiencia se funde com episódios trágicos da história paraguaia. O escritor, no final, acaba sendo reconhecido, torturado e morto. A novela termina com o relato dos últimos passos do escritor contados de forma escrita por Jimena à mãe de Félix Moral. Com essa obra, reescrita em 1993, Roa Bastos conclui sua trilogía sobre sobre o monoteísmo do poder. Sob meu ponto de vista, este é o melhor romance dos três. Apresenta uma linguagem contemporânea de fatos históricos ainda vivos em nossa memória. O livro foi reescrito por Roa Bastos em 1993.
=================
Augusto Roa Bastos. Hijo de hombre. Barcelona, Debolsillo, 2008
__________ Yo, El Supremo. Barcelona, Debolsillo, 2008. A ed. Paz e Terra apresenta uma edição em português. Por ser uma edição econômica, possui caracteres minúsculos, dificultuando sua leitora. Entretanto, é a única tradução desse autor que conheço, existente no Brasil.
__________ El Fiscal. Barcelona, Debolsillo, 2008

domingo, 23 de outubro de 2011

El reino de este mundo



O reino deste mundo, escrita pelo cubano Alejo Carpentier, em 1949, é uma narrativa épica que apresenta como cenário um recorte história do Haiti, do dominio francês a sua libertação. A narrativa apresenta sua estrutura centrada no realismo mágico, ou real maravilhoso, que teve seu início justamente nesta obra de Carpentier. No prólogo da novela, o autor relata que, em 1943 visitou o Haiti e entrou em contato com as ruínas do tempo de Henri Christophe, escravo liberto que se tornou rei, lá pelo início do século XIX. Esse contato lhe suscitou uma realidade maravihosa, em que a cultura popular e seus mitos misturavam-se à realidade histórica. Alejo Carpentier nos diz que o maravilhoso começa a existir de maneira inequívoca, da alteração inesperada da realidade – o milagre, de uma revelação privilegiada da realidade, de uma iluminação inabitual que favorece a riqueza inesperada da realidade, ampliando-a com especial intensidade, em virtude de uma exaltação do espírito. A sensação do real maravilhoso pressupõe uma fé. E uma aceitação dessa fé como parte da cultura de um povo. Carpentier pisara uma terra onde milhares de homens ansiosos de liberdade acreditaram nos poderes sagrados de Mackandal, um escravo africano descrito em algumas resenhas históricas como sacerdote do vodu haitiano. Adepto da magia negra, Mackandal estaría preparando uma poção de magia negra, feita com ervas, para envenenar os senhores de escravos do Haiti. Capturado, foi queimado em praça pública, em 1788. A fé popular produziu a lenda de que, ao morrer queimado, Mackandal transformara-se em uma mariposa noturna que fugira voando, para proteger os seus.
Como se pode notar, o real maravihoso encontra-se a cada passo das vidas de homens que inscreveram na história latino-americana e deixaram marcas ainda presentes na cultura oral de um povo. Alejo Carpentier acreditava em uma práxis latino-americana. O escritor deveria ter uma consciencia nacional, que espelhasse sua obra. A literatura latino-americana, a partir de Carpentier, passou a valorizar o real maravilhoso, até a década de 70: hábitos, costumes, crenças, a cultura oral,de um povo que, desvalorizado pela história oficial, construiu a história de um país. Alejo Carpentier, em suma, acreditava no papel social do romancista. O narrador deveria compreender uma visão de mundo e dar-lhe uma visão ampliada, universal, compremetendo-se com ese mundo. O escritor das Américas latinas deveria buscar na cultura popular de seu país, do líder popular que teve sua voz cortada pelos donos do poder em todas as etapas da história de seu país. Esse líder transforma-se no herói épico da narrativa latino-americana. Através da narrativa épica, o popular particular passa a adquirir status de universalidade.
A novela O Reino deste mundo começa com Ti Noel, um joven escravo, escutando maravilhado os mitos de Mackandal, negro rebelado contra os brancos, com poderes sobrenaturais de curar e transformar-se em diversos animais. Queimado na fogueira, o mito do herói negro sobrevive na cultura oral. O dono de Ti Noel, proprietário de terras, depois da norte da esposa, decide vender suas terras e mudar-se dali, levando o escravo. Ele consegue, depois de um tempo, comprar sua alforria e volta ao lugar de origen, onde tem contato com uma nova etapa de opressão política, durante o regime de Henri Christophe, ex–escravo que se torna imperador do Haiti. Ti Noel, mais maduro, assiste, com novas esperanças, à rebelião de outro líder escravo, Bouckman, querendo a libertação da escravidão já nos moldes dos ideais da revolução francesa. O Haiti, diga-se de passagem, foi o primeiro país a abolir a escravidão, em 1804. Com a norte de Christophe, entretanto, uma nova aristocracia toma o poder, apoderando-se de antigas fazendas e restituindo o regime escravocrata. Ti Noel, assim, faz uma reflexão sobre o destino do homem que padece, espera e trabalha para pessoas que nunca conhecerá e nunca será feliz, posto queo homem ansia, sempre, por uma felicidade situada além do que lhe é outorgado.
=========================
Obras de Alejo Carpentier usadas como pano de fundo:

O reino deste mundo. São Paulo, Martins Editora, 2010. 136pp
Literatura e consciência política na América Latina. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1975. 144pp
El siglo de las luces. Madrid, Austral, 2007. 351pp