No calor insuportável do verão nos pampas, sob a pressão implícita do regime militar, os moradores da região de Santa Fé são assombrados por uma série de misteriosos assassinatos de cavalos. E a iminência desses crimes sanguinários, inexplicáveis e sem solução, uma verdadeira carnificina, vai produzindo uma tensão muda que faz da banalidade do cotidiano desses personagens uma experiência de nervos à flor da pele.
(texto da capa)
O enredo de Ninguém Nada Nunca se resume à tensão de uma espera, de um acontecimento sempre iminente. Esse é também o clima nervoso da história: a tensão de uma espera por um acontecimento que está velado por trás da morte trágica dos cavalos.Uma cidade pequena junto a um rio, calor pleno de fevereiro, aparentemente nada acontece, a não ser cavalos mortos de forma violenta por alguém que não se deixa conhecer. Gato e Elisa, moradores da margem do rio, bebem litros e litros de limonada ou vinho branco com bastante gelo. Quase não há diálogos entre eles, assim como não há quase diálogos em toda a história. Esse é um dos méritos da narrativa. Juan José Saer descreve ações de personagens em contato com a natureza.
A imaginação se esconde no vazio do pampa argentino, não há descrições psicológicas de interesse. A partir do momento em que tudo é físico, a descrição do plano geral é o detalhe intimista. Tudo é puxado para dentro da paisagem e da geografia movediça, vazia, onde a correnteza do rio e a gota de suor escorrendo pelo corpo são descritas no mesmo nível, numa narrativa física, que ressalta a unidade de todas as coisas, uma espécie de cosmos, de totalidade representada pela paisagem.
Juan José Saer (1937), nasceu em Santa Fé, Argentina. É filho de imigrante sírio Auto-exilou-se na França, a partir de 1968. saer começou a publicar em 1960. É autor de obras como A pesquisa, O enteado e A ocasião.
A obra em português está esgotada, mas encontra-se facilmente nos sebos.
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juan José Saer. Ninguém Nada Nunca. SP, Cia. das Letras, 1997, 232 pp
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domingo, 1 de abril de 2012
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Hombres de Maíz
O romance do guatemalteco Miguel Ángel Astúrias, prêmio Nobel em 1967, não tem tradução em português. Essa pode ser uma das dificuldades para o leitor. A outra é a linguagem. O romance pertence ao realismo mágico, que teve forte repercussão nas letras internacionais há décadas atrás. Escrito em 1949, documenta a oralidade do povo indígena (no final do romance há um glossário, traduzindo inúmeras palavras da fala popular), seus costumes e crenças fantásticas. Miguel Ángel Astúrias aborda a mitologia indígena maia, tomando como tema a lenda de Popol Vuh, um dos poucos livros que sobraram da cultura maia. A lenda aborda, pelo aspecto religioso, a criação do mundo. Os deuses criaram a terra, os animais e os homens, estes feitos inicialmente de barro. Como não resistiam por muito tempo, acabaram criando quatro homens, a partir de grãos de milho moídos e a partir de seus corpos criaram quatro mulheres que se multiplicaram e constituíram várias outras famílias. O milho, para o índio agricultor, mais que alimento, é a origem da raça. Paralelamente à lenda, há o aspecto político, também presente no realismo mágico. Os indígenas são submetidos ao jugo colonialista, destruindo a natureza. O milho fonte de sua essência de vida, passa a ter valor meramente comercial, com a destruição de suas terras para plantio em massa. A ação da novela Hombres de Maíz concentra a luta do cacique índio Gaspar Ilom, que se revolta contra a imposição dos que pretendem destruir os bosques e a terra destinada à plantação do milho, para fins comerciais. Gaspar é assassinado e o filho de seu algoz, Machojón, é queimado vivo, como castigo. Ha o venado de siete cabezas, curandeiro que revela a farmácia onde foi conseguido o veneno que matou Gaspar, para que seus proprietários sejam castigados, também. Outro personagem, Goyo tic quien, é um cego que foi abandonado por María Tecún, sua mulher, que fugira dele para não ter mais filhos para presentear-lhes sua miseria. Há também o Correo Coyote, que percorre toda a região para entrega e recolhimento de cartas.
Miguel Ángel Astúrias nasceu na cidade de Guatemala em 1899 e faleceu em Madri em 1974. Além de escritor, foi diplomata. O livro mais conhecido dele, El Señor Presidente, tem tradução em português, que não posso avaliar se é adequada ou não.
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Miguel Ángel Astúrias. Hombres de maíz. 12ª ed., Buenos Aires, Losada, 2004, 440 pp
Miguel Ángel Astúrias nasceu na cidade de Guatemala em 1899 e faleceu em Madri em 1974. Além de escritor, foi diplomata. O livro mais conhecido dele, El Señor Presidente, tem tradução em português, que não posso avaliar se é adequada ou não.
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Miguel Ángel Astúrias. Hombres de maíz. 12ª ed., Buenos Aires, Losada, 2004, 440 pp
domingo, 23 de outubro de 2011
El reino de este mundo
O reino deste mundo, escrita pelo cubano Alejo Carpentier, em 1949, é uma narrativa épica que apresenta como cenário um recorte história do Haiti, do dominio francês a sua libertação. A narrativa apresenta sua estrutura centrada no realismo mágico, ou real maravilhoso, que teve seu início justamente nesta obra de Carpentier. No prólogo da novela, o autor relata que, em 1943 visitou o Haiti e entrou em contato com as ruínas do tempo de Henri Christophe, escravo liberto que se tornou rei, lá pelo início do século XIX. Esse contato lhe suscitou uma realidade maravihosa, em que a cultura popular e seus mitos misturavam-se à realidade histórica. Alejo Carpentier nos diz que o maravilhoso começa a existir de maneira inequívoca, da alteração inesperada da realidade – o milagre, de uma revelação privilegiada da realidade, de uma iluminação inabitual que favorece a riqueza inesperada da realidade, ampliando-a com especial intensidade, em virtude de uma exaltação do espírito. A sensação do real maravilhoso pressupõe uma fé. E uma aceitação dessa fé como parte da cultura de um povo. Carpentier pisara uma terra onde milhares de homens ansiosos de liberdade acreditaram nos poderes sagrados de Mackandal, um escravo africano descrito em algumas resenhas históricas como sacerdote do vodu haitiano. Adepto da magia negra, Mackandal estaría preparando uma poção de magia negra, feita com ervas, para envenenar os senhores de escravos do Haiti. Capturado, foi queimado em praça pública, em 1788. A fé popular produziu a lenda de que, ao morrer queimado, Mackandal transformara-se em uma mariposa noturna que fugira voando, para proteger os seus.
Como se pode notar, o real maravihoso encontra-se a cada passo das vidas de homens que inscreveram na história latino-americana e deixaram marcas ainda presentes na cultura oral de um povo. Alejo Carpentier acreditava em uma práxis latino-americana. O escritor deveria ter uma consciencia nacional, que espelhasse sua obra. A literatura latino-americana, a partir de Carpentier, passou a valorizar o real maravilhoso, até a década de 70: hábitos, costumes, crenças, a cultura oral,de um povo que, desvalorizado pela história oficial, construiu a história de um país. Alejo Carpentier, em suma, acreditava no papel social do romancista. O narrador deveria compreender uma visão de mundo e dar-lhe uma visão ampliada, universal, compremetendo-se com ese mundo. O escritor das Américas latinas deveria buscar na cultura popular de seu país, do líder popular que teve sua voz cortada pelos donos do poder em todas as etapas da história de seu país. Esse líder transforma-se no herói épico da narrativa latino-americana. Através da narrativa épica, o popular particular passa a adquirir status de universalidade.
A novela O Reino deste mundo começa com Ti Noel, um joven escravo, escutando maravilhado os mitos de Mackandal, negro rebelado contra os brancos, com poderes sobrenaturais de curar e transformar-se em diversos animais. Queimado na fogueira, o mito do herói negro sobrevive na cultura oral. O dono de Ti Noel, proprietário de terras, depois da norte da esposa, decide vender suas terras e mudar-se dali, levando o escravo. Ele consegue, depois de um tempo, comprar sua alforria e volta ao lugar de origen, onde tem contato com uma nova etapa de opressão política, durante o regime de Henri Christophe, ex–escravo que se torna imperador do Haiti. Ti Noel, mais maduro, assiste, com novas esperanças, à rebelião de outro líder escravo, Bouckman, querendo a libertação da escravidão já nos moldes dos ideais da revolução francesa. O Haiti, diga-se de passagem, foi o primeiro país a abolir a escravidão, em 1804. Com a norte de Christophe, entretanto, uma nova aristocracia toma o poder, apoderando-se de antigas fazendas e restituindo o regime escravocrata. Ti Noel, assim, faz uma reflexão sobre o destino do homem que padece, espera e trabalha para pessoas que nunca conhecerá e nunca será feliz, posto queo homem ansia, sempre, por uma felicidade situada além do que lhe é outorgado.
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Obras de Alejo Carpentier usadas como pano de fundo:
O reino deste mundo. São Paulo, Martins Editora, 2010. 136pp
Literatura e consciência política na América Latina. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1975. 144pp
El siglo de las luces. Madrid, Austral, 2007. 351pp
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