Pastoral Americana (1997) é o vigésimo segundo livro de Philip Roth (1933), um dos escritores norte-americanos mais famosos e importantes da atualidade. Seus livros vendem como água, com o mérito de serem grandes romances, desses que balançam a estrutura do leitor. Este romance longo explora o curso da história americana a partir dos anos 1940, que o narrador de Roth e alter ego, Nathan Zuckerman, considera como um período de ouro para as convulsões sociais que marcaram a década de 1960 e início de 1970. O ponto central da história é um personagem judeu chamado sueco Levov, homem excepcional em todos os aspectos. Foi atleta brilhante, tendo sido ídolo da juventude na cidade onde morava. É empresário de sucesso, marido e pai dedicado, cujo único objetivo é viver uma vida tranquila em Rimrock, lugarejo rural de New Jersey . Sua vida torna-se um inferno, quando sua filha de dezesseis anos rebela-se, entrando em um grupo de protesto anti-Vietnã, plantando uma bomba na estação de correios local e matando uma pessoa. A vida de Levov é abalada para o resto de sua vida. A estrutura narrativa funciona em ziguezague no tempo. Esse “tumor” na vida de Levov vem à tona, quando ele procura Zuckermann, já escritor famoso, para que este conte a vida de seu pai, que fora fabricante de luvas para senhoras e passara a direção da empresa, já com ramificações no exterior, para Levov. Na verdade, o que Levov acaba fazendo, é contar sua própria vida, para tentar entender, sem sucesso, o que teria dado errado na educação da filha. Roth explora de forma contundente a transformação da vida americana do pós-segunda guerra. Aborda de forma crítica questões como a natureza da educação judaica, a relação impositiva entre pai e filho (o sueco largou a profissão de jogador famoso para administrar os negócios do pai, na marra), o contraste entre sua personalidade e a da filha. Aborda, ainda relações de lealdade e traição familiar, além do fanatismo político que tomou conta dos Estados Unidos no período da guerra do Vietnã, do movimento híppie, dos grupos guerrilheiros como os Panteras Negras, etc.
O escritor Zuckerman apareceu em outros romances de Philip Roth, como O Escritor Fantasma e O fantasma sai de cena. Se você foi, como eu, adolescente na década de 70/80, deve ter lido ou visto o filme baseado no livro Complexo de Portnoy, talvez o livro mais famoso de Roth, considerado um dos dez melhores romances americanos, pela crítica.
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Philip Roth. Pastoral Americana. SP, Cia das Letras, 1998, 478 pp. R$ 69,00
domingo, 14 de outubro de 2012
domingo, 7 de outubro de 2012
Livro do desassossego
Livro do desassossego é o livro de prosa de Fernando Pessoa (1988/1935) que mais se aproxima do romance. Nele, Pessoa nos apresenta o diário de Bernardo Soares, mais um heterônimo seu. Fernando Pessoa nos conta no prefácio do livro, que conhecera seu heterônimo Bernardo Soares num pequeno restaurante de sobreloja, frequentado por tipos curiosos, mas sem interesse. Todas as vezes que calhava dele jantar no local, encontrava sempre um indivíduo lá pelos seus trinta anos, magro, curvado exageradamente quando estava sentado, vestido com certo desleixo. No rosto pálido, havia um ar de quem sofrera muito na vida. Com o tempo, observando-o melhor, notou sob o abatimento aparente e a impressão de angústia que sempre carregava, um certo ar de inteligência que o animava. Soube, através de um criado do estabelecimento, que era empregado no comércio, numa casa ali perto.
Um dia houve uma cena de pugilato na rua em frente ao restaurante que acabou aproximando os dois. Ao se aproximar das janelas para olhar o ocorrido, Pessoa trocou com o homem obscuro uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom. Desde esse dia passaram a se cumprimentar, até que, uma vez, caminharam juntos. O homem, a certa altura perguntou a Pessoa se ele escrevia. Pessoa respondeu-lhe que sim, falou-lhe da Revista Orpheu, onde escrevia. O homem surpreendeu-se positivamente, pois conhecia a revista. Então, revelou ao poeta que escrevia também, durante a noite, para espantar a solidão. Bem, o homem acaba convidando Pessoa a visitar seu quarto humilde e lhe mostra seus escritos, que constituem o Livro do desassossego, com que o leitor vai se deliciar.
Bernardo Soares nos diz em seu diário, que nunca fizera nada a não ser sonhar. Era apenas esse o sentido de sua vida. Nunca tivera outra preocupação verdadeira a não ser sua vida interior. Ele nos afirma que nunca pretendeu ser outra coisa, que não um sonhador. Pertencera sempre “ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser”. Tudo que tivera de seu, por mais baixo que fosse, constituía-se de poesia para ele. Nunca amou senão coisa nenhuma. À vida, nunca pediu senão que passasse por ele sem que ele a sentisse. Do amor, exigiu apenas que nunca deixasse de ser um sonho distante. Para ele, não há saudade mais dolorosa do que as das coisas que nunca foram.
Livro do desassossego é um livro fragmentário, sempre em estudo pelos estudiosos do poeta. A cada edição, a obra sofre algum acréscimo ou decréscimo, já que Pessoa não era lá muito organizado com suas notas. Quase tudo que Fernando Pessoa produziu, foi publicado após sua morte. Na edição da obra que recomendo, a organizadora explica o processo de edição do texto.
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Fernando Pessoa. Livro do desassossego. SP, Cia. De Bolso, 2006, 560 pp. R$ 33,00
Um dia houve uma cena de pugilato na rua em frente ao restaurante que acabou aproximando os dois. Ao se aproximar das janelas para olhar o ocorrido, Pessoa trocou com o homem obscuro uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom. Desde esse dia passaram a se cumprimentar, até que, uma vez, caminharam juntos. O homem, a certa altura perguntou a Pessoa se ele escrevia. Pessoa respondeu-lhe que sim, falou-lhe da Revista Orpheu, onde escrevia. O homem surpreendeu-se positivamente, pois conhecia a revista. Então, revelou ao poeta que escrevia também, durante a noite, para espantar a solidão. Bem, o homem acaba convidando Pessoa a visitar seu quarto humilde e lhe mostra seus escritos, que constituem o Livro do desassossego, com que o leitor vai se deliciar.
Bernardo Soares nos diz em seu diário, que nunca fizera nada a não ser sonhar. Era apenas esse o sentido de sua vida. Nunca tivera outra preocupação verdadeira a não ser sua vida interior. Ele nos afirma que nunca pretendeu ser outra coisa, que não um sonhador. Pertencera sempre “ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser”. Tudo que tivera de seu, por mais baixo que fosse, constituía-se de poesia para ele. Nunca amou senão coisa nenhuma. À vida, nunca pediu senão que passasse por ele sem que ele a sentisse. Do amor, exigiu apenas que nunca deixasse de ser um sonho distante. Para ele, não há saudade mais dolorosa do que as das coisas que nunca foram.
Livro do desassossego é um livro fragmentário, sempre em estudo pelos estudiosos do poeta. A cada edição, a obra sofre algum acréscimo ou decréscimo, já que Pessoa não era lá muito organizado com suas notas. Quase tudo que Fernando Pessoa produziu, foi publicado após sua morte. Na edição da obra que recomendo, a organizadora explica o processo de edição do texto.
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Fernando Pessoa. Livro do desassossego. SP, Cia. De Bolso, 2006, 560 pp. R$ 33,00
domingo, 30 de setembro de 2012
A mulher que escreveu a bíblia
O gaúcho Moacyr Scliar (1937/2011), ao contrário de Michel Laub, cujo Diário da Queda comentamos já, foi um escritores de origem judaica que respeitou a tradição cultural de seu povo e fez disso o caldo principal de sua criação em mais de 70 livros em vários gêneros. De seus livros, gosto particularmente dos primeiros: Guerra no Bom Fim e O exército de um homem só, cuja temática, até então, era original. Com o passar do tempo, passou a se tornar repetitivo, ainda que sua prosa seja sempre agradável de se ler. A mulher que escreveu a bíblia, escrito em 1999, apresenta uma línguagem simples, com gírias ultrapassadas e uma trama ingênua que beira o simplório. Mas tem o mérito do humor, que o autor muito cultivou em sua obra.
A história começa no presente, quando um professor de História começa a ganhar notoriedade ao descobrir as extraordinárias possibilidades financeiras como terapeuta de vidas passadas. Seu método baseava-se no conhecimento que acumulara como professor de História. Seus pacientes voltavam ao passado. Enquanto tinham suas visões, o terapeuta ia explicando-lhes os lugares onde estavam, as personagens históricas presentes nas visões, quem eram os cortesãos de determinado rei. Em suma, fazia o papel de guia, conduzindo as pessoas pelos labirintos do tempo. Com a fama, teve de arrumar um lugar maior e mais confortável no centro da cidade. Um dia apareceu uma mulher que regredia no tempo até chegar ao palácio do rei Salomão. Lá, ela era uma de suas esposas e era apaixonada por ele. Só que essa paixão não era correspondida. O terapeuta descobriu, durante as sessões, que na verdade a paciente estava apaixonada por ele, o terapeuta. No começo tentou disfarçar, depois tornaram-se amantes, até que ela o abandonou por outro homem, deixando-lhe, de lembrança um relato: A mulher que escreveu a bíblia. A partir daí, começa a fábula propriamente dita, que se desenrola até o final do livro, tomando cerca de 150 páginas. Detalhe: a paciente do professor de História quanto à Mulher que escreveu a bíblia tinham duas característica comuns: ambas eram feias, mas sabiam ler e escrever.
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Moacyr Scliar. A mulher que escreveu a bíblia. SP, Cia. De Bolso, 2007, 168 pp. R$ 21,00
A Folha de São Paulo circulou nas bancas pelo preço de R$ 18,70
A história começa no presente, quando um professor de História começa a ganhar notoriedade ao descobrir as extraordinárias possibilidades financeiras como terapeuta de vidas passadas. Seu método baseava-se no conhecimento que acumulara como professor de História. Seus pacientes voltavam ao passado. Enquanto tinham suas visões, o terapeuta ia explicando-lhes os lugares onde estavam, as personagens históricas presentes nas visões, quem eram os cortesãos de determinado rei. Em suma, fazia o papel de guia, conduzindo as pessoas pelos labirintos do tempo. Com a fama, teve de arrumar um lugar maior e mais confortável no centro da cidade. Um dia apareceu uma mulher que regredia no tempo até chegar ao palácio do rei Salomão. Lá, ela era uma de suas esposas e era apaixonada por ele. Só que essa paixão não era correspondida. O terapeuta descobriu, durante as sessões, que na verdade a paciente estava apaixonada por ele, o terapeuta. No começo tentou disfarçar, depois tornaram-se amantes, até que ela o abandonou por outro homem, deixando-lhe, de lembrança um relato: A mulher que escreveu a bíblia. A partir daí, começa a fábula propriamente dita, que se desenrola até o final do livro, tomando cerca de 150 páginas. Detalhe: a paciente do professor de História quanto à Mulher que escreveu a bíblia tinham duas característica comuns: ambas eram feias, mas sabiam ler e escrever.
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Moacyr Scliar. A mulher que escreveu a bíblia. SP, Cia. De Bolso, 2007, 168 pp. R$ 21,00
A Folha de São Paulo circulou nas bancas pelo preço de R$ 18,70
domingo, 23 de setembro de 2012
A literatura dramática de Samuel Beckett
Uma peça de teatro, quando lida ou mesmo recitada, é literatura. Na literatura, é a palavra que constitui a personagem. Quando representada, passa a ser teatro. Se na literatura a palavra é fonte da personagem, no teatro é fonte da palavra, graças à interpretação do ator em personagem fictícia, de acordo com a presença viva do homem no palco, visando comunicar-se ao vivo com seu público. A literatura dramática é muito menos lida que as obras narrativas. Publicam-se muito poucos textos dramáticos. É pena. Ler uma peça de teatro é uma delícia! O tempo de leitura não excede muito o tempo que a peça teria, se montada. Recentemente li três textos fundamentais de Samuel Beckett: num, dois vagabundos maltrapilhos à sombra de uma árvore esquálida, sozinhos no meio do nada; noutro, um cego paralítico e seu criado coxo confinados num interior austero e cinzento; e noutro, uma mulher vaidosa na meia-idade, enterrada até a cintura numa colina seca, sob um sol escaldante.
Escrita em francês em 1949, no pós-guerra de Paris, Esperando Godot foi feita para ser encenada por quatro atores e um menino num palco quase vazio, não fosse por uma árvore quase seca e uma lua ocasional. Dois vagabundos, Vladimir e Estragon, perdidos em meio à paisagem deserta, querendo partir, mas presos a um compromisso tão impreciso quanto inarredável, a espera por Godot. Para matar o tempo, os dois decidem praticar uma conversação, ou representando a peça dentro da peça, com as presenças de Lucky e Pozzo. Realiza-se uma pantomima. Em determinado momento, Lucky entra em cena puxando Pozzo por uma corda. Pozzo carrega uma maleta de que não se desfaz nunca. Se o elemento essencial do texto teatral é a ação, o que se passa aqui é a ineficácia da ação, optando pela apatia melancólica como estratégia de sobrevivência, da espera infinita, da esperança vã sem objetivo definido. A peça de Beckett por isso é inovadora, obrigando a redefinir o que se entende por drama.
As personagens de Fim de partida estão às voltas com a tarefa de acabar de existir, em um cenário que é um abrigo feio e quase sem luz, em que seus quatro habitantes, Hamm, Clov, Nagg e Nell, vivem como se fossem os últimos sobreviventes de uma humanidade destruída. A proximidade enganosa do fim está não apenas na escassez de meios (tudo no abrigo está acabando: remédios, provisões, bicicletas), mas também na decrepitude física dos personagens: um cego paralítico, um coxo, dois mutilados presos a latas de lixo, e na rotina vazia que custa a preencher o tempo de espera, completamente desprovido de esperança. O girar falso do relógio sintetiza o tédio a que são submetidos os personagens, apegando-se a rituais e hábitos cuja única finalidade é matar o tempo. A relação entre o par central, Hamm e Clov, é a de opressor e oprimido. Para evidenciar o jogo que se estabelece entre eles, Beckett opta por padrões quase geométricos: aos cinco risos de Hamm na abertura da peça, correspondem cinco bocejos de Clov; se Hamm tem a cadeira de rodas, Clov tem a escada; enquanto Hamm se esconde atrás dos óculos, Clov espia sua vista através da luneta; ao apito que Hamm emprega para chamá-lo, Clov responde com o despertador. Hamm submete Nagg e Nell, seus pais, a viver dentro de latões de lixo, impingindo-lhes rotinas sádicas, com o fim de provocar-lhes dor e humilhação.
Composta em 1961, Dias Felizes retrata Winnie no primeiro ato enterrada até a cintura e no segundo ato até o pescoço, exercitando um monólogo, já que seu marido, presente em cena de forma discreta, é apenas seu ouvinte. A solidão é o tema da peça. Winnie está enterrada sob um céu escaldante, tendo consigo uma sombrinha para protegê-la sem sucesso do sol e uma bolsa onde traz seus objetos de higiene pessoal. A parte visível de Winnie mostra uma mulher bem vestida, maquilada e enfeitada, que faz sua toalete diária como se fosse algo comum diante dessa situação inusitada. A fala de Winnie mostra o contraste irônico entre o que se passa na realidade e o que ela diz. Implorando respostas do marido que não vêm, está só e abandonada, procurando preencher sua solidão com gestos de tirar e usar objetos de sua bolsa, e com palavras para distrair o silêncio. O texto nos faz pensar: seria Winnie otimista, já que ela começa sua fala dizendo, “mais um dia celestial! Jesus Cristo amém.”? Ao finalizar seu monólogo, ela diz: “Ah, que dia feliz, este terá sido mais um dia feliz!” Acho que Beckett não escolheria o caminho mais fácil para Winnie. Os personagens de Beckett estão presos numa armadilha, de um tipo ou de outro. Em Dias Felizes, o que cabe a Winnie é uma colina de terra crestada. Ela encarna os despojos de uma vida enterrada numa cova prematura. Enterrada na terra, comida por formigas, castigada pelo sol, pela falta de memória e pela indiferença do marido, se manteria ainda otimista?
Em Beckett, a dignidade do ser humano é desmascarada, revelando-lhe suas condições precárias. O guarda-chuva de Winnie, cuidadosamente elaborado para protegê-la do calor, incendeia-se pelo sol. Os vagabundos de Esperando Godot são andarilhos forçados, incapazes de comunicar-se com o restante da humanidade, são contemporâneos da ficção e drama desses anos de pós-segunda guerra mundial. O velhos de Fim de partida poderiam partir, mas preferem se manter presos. Portadores dos despojos da civilização, convertidos em trastes, passam e repassam sua existência vazia de significados. O efeito disso tudo é avassalador, cômico e inquietante a um só tempo.
Muito do que que digo aqui, referente ao “viés filosófico” da dramaturgia de Beckett, vem dos textos introdutórios de Fábio de Souza Andrade (Tradutor das três peças que li).
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Samuel Beckett. Esperando Godot. SP, Cosac Naify, 2005. 244 pp. R$ 69,00
Fim de partida. SP, Cosac Naify, 2010, 160 pp. R$ 59,00
Dias felizes. SP, Cosac Naify, 2010, 136 pp. R$ 59,00
Escrita em francês em 1949, no pós-guerra de Paris, Esperando Godot foi feita para ser encenada por quatro atores e um menino num palco quase vazio, não fosse por uma árvore quase seca e uma lua ocasional. Dois vagabundos, Vladimir e Estragon, perdidos em meio à paisagem deserta, querendo partir, mas presos a um compromisso tão impreciso quanto inarredável, a espera por Godot. Para matar o tempo, os dois decidem praticar uma conversação, ou representando a peça dentro da peça, com as presenças de Lucky e Pozzo. Realiza-se uma pantomima. Em determinado momento, Lucky entra em cena puxando Pozzo por uma corda. Pozzo carrega uma maleta de que não se desfaz nunca. Se o elemento essencial do texto teatral é a ação, o que se passa aqui é a ineficácia da ação, optando pela apatia melancólica como estratégia de sobrevivência, da espera infinita, da esperança vã sem objetivo definido. A peça de Beckett por isso é inovadora, obrigando a redefinir o que se entende por drama.
As personagens de Fim de partida estão às voltas com a tarefa de acabar de existir, em um cenário que é um abrigo feio e quase sem luz, em que seus quatro habitantes, Hamm, Clov, Nagg e Nell, vivem como se fossem os últimos sobreviventes de uma humanidade destruída. A proximidade enganosa do fim está não apenas na escassez de meios (tudo no abrigo está acabando: remédios, provisões, bicicletas), mas também na decrepitude física dos personagens: um cego paralítico, um coxo, dois mutilados presos a latas de lixo, e na rotina vazia que custa a preencher o tempo de espera, completamente desprovido de esperança. O girar falso do relógio sintetiza o tédio a que são submetidos os personagens, apegando-se a rituais e hábitos cuja única finalidade é matar o tempo. A relação entre o par central, Hamm e Clov, é a de opressor e oprimido. Para evidenciar o jogo que se estabelece entre eles, Beckett opta por padrões quase geométricos: aos cinco risos de Hamm na abertura da peça, correspondem cinco bocejos de Clov; se Hamm tem a cadeira de rodas, Clov tem a escada; enquanto Hamm se esconde atrás dos óculos, Clov espia sua vista através da luneta; ao apito que Hamm emprega para chamá-lo, Clov responde com o despertador. Hamm submete Nagg e Nell, seus pais, a viver dentro de latões de lixo, impingindo-lhes rotinas sádicas, com o fim de provocar-lhes dor e humilhação.
Composta em 1961, Dias Felizes retrata Winnie no primeiro ato enterrada até a cintura e no segundo ato até o pescoço, exercitando um monólogo, já que seu marido, presente em cena de forma discreta, é apenas seu ouvinte. A solidão é o tema da peça. Winnie está enterrada sob um céu escaldante, tendo consigo uma sombrinha para protegê-la sem sucesso do sol e uma bolsa onde traz seus objetos de higiene pessoal. A parte visível de Winnie mostra uma mulher bem vestida, maquilada e enfeitada, que faz sua toalete diária como se fosse algo comum diante dessa situação inusitada. A fala de Winnie mostra o contraste irônico entre o que se passa na realidade e o que ela diz. Implorando respostas do marido que não vêm, está só e abandonada, procurando preencher sua solidão com gestos de tirar e usar objetos de sua bolsa, e com palavras para distrair o silêncio. O texto nos faz pensar: seria Winnie otimista, já que ela começa sua fala dizendo, “mais um dia celestial! Jesus Cristo amém.”? Ao finalizar seu monólogo, ela diz: “Ah, que dia feliz, este terá sido mais um dia feliz!” Acho que Beckett não escolheria o caminho mais fácil para Winnie. Os personagens de Beckett estão presos numa armadilha, de um tipo ou de outro. Em Dias Felizes, o que cabe a Winnie é uma colina de terra crestada. Ela encarna os despojos de uma vida enterrada numa cova prematura. Enterrada na terra, comida por formigas, castigada pelo sol, pela falta de memória e pela indiferença do marido, se manteria ainda otimista?
Em Beckett, a dignidade do ser humano é desmascarada, revelando-lhe suas condições precárias. O guarda-chuva de Winnie, cuidadosamente elaborado para protegê-la do calor, incendeia-se pelo sol. Os vagabundos de Esperando Godot são andarilhos forçados, incapazes de comunicar-se com o restante da humanidade, são contemporâneos da ficção e drama desses anos de pós-segunda guerra mundial. O velhos de Fim de partida poderiam partir, mas preferem se manter presos. Portadores dos despojos da civilização, convertidos em trastes, passam e repassam sua existência vazia de significados. O efeito disso tudo é avassalador, cômico e inquietante a um só tempo.
Muito do que que digo aqui, referente ao “viés filosófico” da dramaturgia de Beckett, vem dos textos introdutórios de Fábio de Souza Andrade (Tradutor das três peças que li).
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Samuel Beckett. Esperando Godot. SP, Cosac Naify, 2005. 244 pp. R$ 69,00
Fim de partida. SP, Cosac Naify, 2010, 160 pp. R$ 59,00
Dias felizes. SP, Cosac Naify, 2010, 136 pp. R$ 59,00
domingo, 16 de setembro de 2012
Diário da queda
O escritor e jornalista gaúcho Michel Laub(1973)ganhou notoriedade como crítico literário da Revista Bravo há tempos atrás. Diário da queda, seu quinto romance, mescla a técnica narrativa entre ficção e memória. Esse procedimento é a tônica da maioria das narrativas lançadas atualmente. Michel Laub é judeu. Decidiu contar, com alguma crítica aos costumes judaicos, a vida de um personagem desde sua adolescência, quando estudava em um colégio judeu tradicional em Porto Alegre (o leitor deve saber o nome), até a reviravolta que o leva a se afastar da educação e dos costumes judaicos na vida adulta, quando se torna escritor.
Aos treze anos, morou numa casa com piscina. Nas férias de julho foi para a Disneylândia. Tinha um videocassete, uma estante cheia de livros e discos, uma guitarra, um skate, um soco-inglês e um canivete. Até então nunca tinha tido uma namorada. Aos treze anos fez o Bar Mitzvah. A tal escola judaica tinha, entre seus pares, um gói (não-judeu. O termo é também usado pejorativamente)que estudava com bolsa. Apesar do narrador nos dizer que nunca se lembrara de casos de discriminação de judeus em Porto Alegre, um fato marcante protagonizado por ele revela que os estudantes judeus discriminavam pessoas que não são da religião judaica. Durante a festividade de bar mitzvah, o grupo joga o pobre bolsista para cima, para ampará-lo numa cama de gato. Numa dessas, o personagem-narrador retira a mão e o jovem estatela-se no chão, sofrendo consequência graves que o faz usar colete ortopédico por muito tempo.
O narrador, então, passa a ter afeto pelo colega e tornam-se amigos. Não sabe dizer por que se tornara amigo da vítima. Isso não teria acontecido por pena de alguém, ou porque passara meses torturado com a hipótese de quase ter destruído aquela pessoa, embora isso possa ter sido o impulso no primeiro esforço de aproximação. Não fosse isso, não teria se oferecido para ajudá-lo com os estudos. Dessa reflexão fazem parte também as trajetórias de seu pai, com quem o protagonista tem uma relação difícil, e de seu avô, sobrevivente de Auschwitz que passou anos escrevendo um diário secreto e bizarro. São três gerações, cuja história parece ser uma só; são lembranças que se juntam de maneira fragmentada, como numa lista em que os fatos carregam em si tanto inocência quanto brutalidade. O narrador chega a questionar qual a diferença do massacre de judeus em Auschwitz com o massacre do colega em sua festa de aniversário. Michel Laub faz parte dos escritores de origem judaica que lutam contra ela. O autor interpreta a tradição no que tem de petrificado, pondo sua experiência de vida em questão, explorando a dimensão ética e política da memória.
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Michel Laub. Diário da queda. SP, Cia. das Letras, 2011, 152 pp. R$ 38,50
Aos treze anos, morou numa casa com piscina. Nas férias de julho foi para a Disneylândia. Tinha um videocassete, uma estante cheia de livros e discos, uma guitarra, um skate, um soco-inglês e um canivete. Até então nunca tinha tido uma namorada. Aos treze anos fez o Bar Mitzvah. A tal escola judaica tinha, entre seus pares, um gói (não-judeu. O termo é também usado pejorativamente)que estudava com bolsa. Apesar do narrador nos dizer que nunca se lembrara de casos de discriminação de judeus em Porto Alegre, um fato marcante protagonizado por ele revela que os estudantes judeus discriminavam pessoas que não são da religião judaica. Durante a festividade de bar mitzvah, o grupo joga o pobre bolsista para cima, para ampará-lo numa cama de gato. Numa dessas, o personagem-narrador retira a mão e o jovem estatela-se no chão, sofrendo consequência graves que o faz usar colete ortopédico por muito tempo.
O narrador, então, passa a ter afeto pelo colega e tornam-se amigos. Não sabe dizer por que se tornara amigo da vítima. Isso não teria acontecido por pena de alguém, ou porque passara meses torturado com a hipótese de quase ter destruído aquela pessoa, embora isso possa ter sido o impulso no primeiro esforço de aproximação. Não fosse isso, não teria se oferecido para ajudá-lo com os estudos. Dessa reflexão fazem parte também as trajetórias de seu pai, com quem o protagonista tem uma relação difícil, e de seu avô, sobrevivente de Auschwitz que passou anos escrevendo um diário secreto e bizarro. São três gerações, cuja história parece ser uma só; são lembranças que se juntam de maneira fragmentada, como numa lista em que os fatos carregam em si tanto inocência quanto brutalidade. O narrador chega a questionar qual a diferença do massacre de judeus em Auschwitz com o massacre do colega em sua festa de aniversário. Michel Laub faz parte dos escritores de origem judaica que lutam contra ela. O autor interpreta a tradição no que tem de petrificado, pondo sua experiência de vida em questão, explorando a dimensão ética e política da memória.
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Michel Laub. Diário da queda. SP, Cia. das Letras, 2011, 152 pp. R$ 38,50
domingo, 9 de setembro de 2012
Bel-ami
Guy de Maupassant (1850/1893) foi um escritor e poeta francês. Teve vida boêmia, contraiu sífilis e acabou internado como louco num manicômio, onde veio a falecer. Foi amigo de Gustave Flaubert (Madame Bovary), que o incentivou a escrever. Sua produção de peso foi a narrativa curta, mas enveredou também pelo caminho do romance. Bel-ami é um desses.
Em Bel-ami, George Duroy é um jovem belo, charmoso e fogoso. Bigodes e olhos azuis. De origem humilde, vive na Paris da belle époque do final do século XIX. Nesse período, a França lançava sua rede na África para conquistar colônias. Duroy é pobre, ganha um salário miserável para suas pretensões, mas graças a um amigo que havia lutado com ele na Argélia, consegue um emprego em um jornal. Como era medíocre na escrita, obtém ajuda da mulher desse amigo, para se firmar como jornalista. A partir de então, pensa em conquistar um lugar na aristocracia parisiense. Incentivado por essa mulher, é introduzido na sociedade aristocrática e passa a seduzir mulheres casadas. Desde então, planeja ludibriá-las astuciosamente para conseguir fama e reconhecimento, desrespeitando qualquer forma de sentimento. Maupassant conduz, assim, seu personagem, por uma trilha de blefes, chantagens, encontros amorosos às escondidas. Enquanto Duroy vai desvendando, com a ajuda de suas amantes, as trapaças do jornalismo e as ligações que seu novo ofício estabelecia com as altas esferas de poder, o leitor assiste à pintura impiedosa de uma outra Paris, oculta sob o glamour dos salões, onde o tráfico de influências impera e envolve imprensa, política e poder financeiro.
O filme Bel-ami, passado recentemente nos cinema, foi baseado no romance homônimo de Maupassant, mas com uma leitura equivocada do personagem Duroy. No filme, nosso anti-herói é um personagem romântico inseguro e com complexo de inferioridade, por ser pobre (e não tem bigote e tem o nariz torto). Sendo assim, busca vingar-se dos poderosos, seduzindo-lhes as esposas para galgar fama e dinheiro. O ambiente faustoso da belle époque do livro desaparece no filme, bastante pobre, aliás, em cenários, figurinos e tomadas externas. Acontece que Bel-ami é um romance realista e na trama escrita Duroy é um personagem de uma ignóbil ingenuidade, tão cretino quanto os demais. Um dândi inconsequente. Maupassant teve influência de Schopenhauer, filósofo alemão que viveu a mesma época de Maupassant. A visão de Schopenhauer sobre o amor é de que este pode ser meta de vida, mas não de felicidade. Daí o pessimismo nas relações humanas. O foco da vontade de Duroy é o impulso sexual. A encarnação do erotismo que enleia sobretudo mulheres e não conhece escrúpulos. Bel-ami não se trata de uma obra prima, mas sua história, ainda que superficial, é bem tramada e prazerosa de ler.
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Guy de Maupassant. Bel-Ami. SP, Estação Liberdade, 2010, 368 pp. R$ 51,00
Em Bel-ami, George Duroy é um jovem belo, charmoso e fogoso. Bigodes e olhos azuis. De origem humilde, vive na Paris da belle époque do final do século XIX. Nesse período, a França lançava sua rede na África para conquistar colônias. Duroy é pobre, ganha um salário miserável para suas pretensões, mas graças a um amigo que havia lutado com ele na Argélia, consegue um emprego em um jornal. Como era medíocre na escrita, obtém ajuda da mulher desse amigo, para se firmar como jornalista. A partir de então, pensa em conquistar um lugar na aristocracia parisiense. Incentivado por essa mulher, é introduzido na sociedade aristocrática e passa a seduzir mulheres casadas. Desde então, planeja ludibriá-las astuciosamente para conseguir fama e reconhecimento, desrespeitando qualquer forma de sentimento. Maupassant conduz, assim, seu personagem, por uma trilha de blefes, chantagens, encontros amorosos às escondidas. Enquanto Duroy vai desvendando, com a ajuda de suas amantes, as trapaças do jornalismo e as ligações que seu novo ofício estabelecia com as altas esferas de poder, o leitor assiste à pintura impiedosa de uma outra Paris, oculta sob o glamour dos salões, onde o tráfico de influências impera e envolve imprensa, política e poder financeiro.
O filme Bel-ami, passado recentemente nos cinema, foi baseado no romance homônimo de Maupassant, mas com uma leitura equivocada do personagem Duroy. No filme, nosso anti-herói é um personagem romântico inseguro e com complexo de inferioridade, por ser pobre (e não tem bigote e tem o nariz torto). Sendo assim, busca vingar-se dos poderosos, seduzindo-lhes as esposas para galgar fama e dinheiro. O ambiente faustoso da belle époque do livro desaparece no filme, bastante pobre, aliás, em cenários, figurinos e tomadas externas. Acontece que Bel-ami é um romance realista e na trama escrita Duroy é um personagem de uma ignóbil ingenuidade, tão cretino quanto os demais. Um dândi inconsequente. Maupassant teve influência de Schopenhauer, filósofo alemão que viveu a mesma época de Maupassant. A visão de Schopenhauer sobre o amor é de que este pode ser meta de vida, mas não de felicidade. Daí o pessimismo nas relações humanas. O foco da vontade de Duroy é o impulso sexual. A encarnação do erotismo que enleia sobretudo mulheres e não conhece escrúpulos. Bel-ami não se trata de uma obra prima, mas sua história, ainda que superficial, é bem tramada e prazerosa de ler.
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Guy de Maupassant. Bel-Ami. SP, Estação Liberdade, 2010, 368 pp. R$ 51,00
domingo, 2 de setembro de 2012
Lavoura arcaica
Você deve conhecer o conceito de novela. Há quem diga tratar-se de um gênero intermediário entre o conto e o romance, tomando como base a extensão da narrativa. A novela seria uma narrativa curta: 60, 80, 100 páginas. O assunto gira em torno de um único protagonista que carrega o argumento da trama do começo ao fim. Noite, de Érico Veríssimo, é novela; Os Ratos, de Dyonélio Machado, também. Na verdade, o termo novela é mais ou menos recente no estudo da literatura brasileira. Os norte-americanos usam o termo novela para qualquer narrativa, independentemente da densidade do argumento. Os espanhóis também. Novela, ou romance, tanto faz, não comete pecado quem classificar uma novela de romance.
Há duas novelas que são duas obras-primas da literatura brasileira, graças à extraordinária qualidade de sua linguagem e força poética da sua prosa, ambas escritas na década de 70 por Raduan Nassar. São elas, Lavoura arcaica e Um copo de cólera. São duas narrativas curtas. A trama das duas histórias é centrada num narrador-personagem, com suas crises existenciais. Em Lavoura arcaica temos André, o narrador-personagem, adolescente, não se enquadra nos padrões da vida rural do interior, cuja autoridade paterna rigorosa, através de sermões, o atormentava. Ana, sua irmã adolescente, desperta nele os primeiros impulsos sexuais, e isso o atormenta também. Ele resolve abandonar a família e viver sozinho, até que seu irmão mais velho, imbuído dos mesmos princípios paternos, vem buscá-lo para que se reintegre à família, satisfazendo, assim, a vontade do pai. Uma série de lembranças importantes, algumas marcantes, outras tristes, vêm à tona durante a conversa que André tem com seu irmão. O recado que o irmão traz de seu pai, é que o homem, quanto mais se protege, criando uma casca, mais se tortura com o peso da carapaça, pensa que está em segurança, mas o que sente é medo, escondendo-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos. Torna-se prisioneiro de si mesmo. Traz na mão a chave, mas esquece de abrir o peito, afligindo-se com problemas pessoais sem chegar à cura. O recado do pai também diz que o homem não deve se tornar individualista, mas fazer parte de uma unidade maior, que é a família. André, até então incapaz de partilhar da vida em família, sentindo-se distante e alheio ao pequeno mundo moralista de seu pai, não suportando-lhe os sermões, o abecedário judaíco-cristão repetido à exaustão junto à mesa, a pacata e macilenta convivência com os familiares, além de demonstrar uma clara incapacidade de crer e obedecer guiado apenas pela fé cega de que parecem partilhar o pai e o irmão mais velho, decide voltar para ter um diálogo definitivo com seu pai, diálogo que ocupa a segunda parte da história. Diferentes visões de fé, moral e costumes são confrontadas. O pai consegue ouvi-lo no que tem a dizer. Fazem, os dois, uma purgação do que é estranho à essência ou à natureza de cada um.
Um copo de cólera também apresenta um confronto existencial entre dois amantes. Ele, um homem bem sucedido na vida, dirige-se a seu sítio para ter um encontro amoroso com a mulher. O que acontece nesse encontro, depois um sexo brutalizado, é que ele ouve dela duras críticas sobre sua arrogância, prepotência, frieza de caráter, ausência de sentimentos. Esses ataques provocam cólera num e noutro, até chegar ao limite dele bater na mulher. Tanto Lavoura arcaica como Um copo de cólera foram vertidos para o cinema. Lavoura arcaica resultou num filme com quase quatro horas de duração, mantendo uma densidade dramática que prende o interesse até o final. Um copo de cólera resultou num filme pobre, parte devido ao parco orçamento que Júlia Lemmertz e Alexandre Borges tiveram para produzi-lo. Alguns atores (Marieta Severo foi uma) trabalharam afetivamente (de graça). Como o diálogo dos dois é muito denso, pesado, o filme não conseguiu captar a linguagem cinematográfica adequada às cenas, tornando-o parado e chato.
Raduan Nassar, filho de libaneses, nasceu em Pindorama, São Paulo, em 1935. Sempre foi apaixonado por bichos domésticos. Quando adulto, iniciou-se no curso de Direito e de Letras. Desistiu do segundo. Dois anos depois, começa Filosofia, que acaba largando. Não chega a concluir o curso de Direito. Viaja ao exterior. Na volta, reinicia o curso de Filosofia. Vai para a Alemanha, estudar o idioma. Nesse período, instala-se a ditadura militar no Brasil. Nassar decide voltar ao Brasil, para dedicar-se à literatura. Sua primeira obra, Lavoura arcaica, foi publicada por iniciativa de um irmão seu, que tirou cópia da novela, que acabou sendo publicada pela editora José Olympio em 1975, fazendo grande sucesso.
Por razões não suficientemente esclarecidas, Raduan Nassar, depois de conhecer o sucesso, inclusive internacional, dessas duas histórias, não produziu mais literatura. Um livro de contos que circula no mercado é uma compilação de contos que ele escreveu durante esse período da década de 70. O sucesso parece ter excedido em muito aquilo que o escritor esperava de si, e, ultrapassado pela própria obra, ele tomou a decisão de recuar. Voltou-se ao cuidado dos animais, embora tenha se mantido ativo, participando de palestras e entrevistas sobre sua criação literária.
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Raduan Nassar. Lavoura arcaica. SP, Cia. das Letras, 3ª ed., 1989, 200 pp. R$ 39,50
Um copo de cólera. SP, Cia. das Letras, 5ª ed., 2001, 88 pp. R$ 29,00
A Folha de São Paulo lançou nas bancas sua edição de Um copo de cólera, a R$ 18,70
Há duas novelas que são duas obras-primas da literatura brasileira, graças à extraordinária qualidade de sua linguagem e força poética da sua prosa, ambas escritas na década de 70 por Raduan Nassar. São elas, Lavoura arcaica e Um copo de cólera. São duas narrativas curtas. A trama das duas histórias é centrada num narrador-personagem, com suas crises existenciais. Em Lavoura arcaica temos André, o narrador-personagem, adolescente, não se enquadra nos padrões da vida rural do interior, cuja autoridade paterna rigorosa, através de sermões, o atormentava. Ana, sua irmã adolescente, desperta nele os primeiros impulsos sexuais, e isso o atormenta também. Ele resolve abandonar a família e viver sozinho, até que seu irmão mais velho, imbuído dos mesmos princípios paternos, vem buscá-lo para que se reintegre à família, satisfazendo, assim, a vontade do pai. Uma série de lembranças importantes, algumas marcantes, outras tristes, vêm à tona durante a conversa que André tem com seu irmão. O recado que o irmão traz de seu pai, é que o homem, quanto mais se protege, criando uma casca, mais se tortura com o peso da carapaça, pensa que está em segurança, mas o que sente é medo, escondendo-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos. Torna-se prisioneiro de si mesmo. Traz na mão a chave, mas esquece de abrir o peito, afligindo-se com problemas pessoais sem chegar à cura. O recado do pai também diz que o homem não deve se tornar individualista, mas fazer parte de uma unidade maior, que é a família. André, até então incapaz de partilhar da vida em família, sentindo-se distante e alheio ao pequeno mundo moralista de seu pai, não suportando-lhe os sermões, o abecedário judaíco-cristão repetido à exaustão junto à mesa, a pacata e macilenta convivência com os familiares, além de demonstrar uma clara incapacidade de crer e obedecer guiado apenas pela fé cega de que parecem partilhar o pai e o irmão mais velho, decide voltar para ter um diálogo definitivo com seu pai, diálogo que ocupa a segunda parte da história. Diferentes visões de fé, moral e costumes são confrontadas. O pai consegue ouvi-lo no que tem a dizer. Fazem, os dois, uma purgação do que é estranho à essência ou à natureza de cada um.
Um copo de cólera também apresenta um confronto existencial entre dois amantes. Ele, um homem bem sucedido na vida, dirige-se a seu sítio para ter um encontro amoroso com a mulher. O que acontece nesse encontro, depois um sexo brutalizado, é que ele ouve dela duras críticas sobre sua arrogância, prepotência, frieza de caráter, ausência de sentimentos. Esses ataques provocam cólera num e noutro, até chegar ao limite dele bater na mulher. Tanto Lavoura arcaica como Um copo de cólera foram vertidos para o cinema. Lavoura arcaica resultou num filme com quase quatro horas de duração, mantendo uma densidade dramática que prende o interesse até o final. Um copo de cólera resultou num filme pobre, parte devido ao parco orçamento que Júlia Lemmertz e Alexandre Borges tiveram para produzi-lo. Alguns atores (Marieta Severo foi uma) trabalharam afetivamente (de graça). Como o diálogo dos dois é muito denso, pesado, o filme não conseguiu captar a linguagem cinematográfica adequada às cenas, tornando-o parado e chato.
Raduan Nassar, filho de libaneses, nasceu em Pindorama, São Paulo, em 1935. Sempre foi apaixonado por bichos domésticos. Quando adulto, iniciou-se no curso de Direito e de Letras. Desistiu do segundo. Dois anos depois, começa Filosofia, que acaba largando. Não chega a concluir o curso de Direito. Viaja ao exterior. Na volta, reinicia o curso de Filosofia. Vai para a Alemanha, estudar o idioma. Nesse período, instala-se a ditadura militar no Brasil. Nassar decide voltar ao Brasil, para dedicar-se à literatura. Sua primeira obra, Lavoura arcaica, foi publicada por iniciativa de um irmão seu, que tirou cópia da novela, que acabou sendo publicada pela editora José Olympio em 1975, fazendo grande sucesso.
Por razões não suficientemente esclarecidas, Raduan Nassar, depois de conhecer o sucesso, inclusive internacional, dessas duas histórias, não produziu mais literatura. Um livro de contos que circula no mercado é uma compilação de contos que ele escreveu durante esse período da década de 70. O sucesso parece ter excedido em muito aquilo que o escritor esperava de si, e, ultrapassado pela própria obra, ele tomou a decisão de recuar. Voltou-se ao cuidado dos animais, embora tenha se mantido ativo, participando de palestras e entrevistas sobre sua criação literária.
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Raduan Nassar. Lavoura arcaica. SP, Cia. das Letras, 3ª ed., 1989, 200 pp. R$ 39,50
Um copo de cólera. SP, Cia. das Letras, 5ª ed., 2001, 88 pp. R$ 29,00
A Folha de São Paulo lançou nas bancas sua edição de Um copo de cólera, a R$ 18,70
domingo, 26 de agosto de 2012
As cartas de amor de Edith Piaf
As cartas de amor de Edith Piaf é um título enganoso, pois aborda apenas uma série de cartas da famosa cantora francesa a um de seus vários amantes, que até então, estivera obscurecido na biografia da artista, Louis Gérardin, o Totó, o belo e elegante herói do ciclismo francês. O motivo dessa correspondência ter sido mantida em sigilo, deveu-se, quem sabe, ao fato de Gérardin ter sido um homem casado que não conseguiu abandonar a esposa. Essas cartas surgiram em 2009, quando foram leiloadas em Paris. Parece que Gérardin havia superado o posto de grande amor de Piaf de Marcel Cerdan. Trata-se de uma correspondência composta de mais de cinquenta cartas manuscritas, escritas no período de novembro de 1951 a setembro de 1952, tempo de duração do romance dos dois. Quando se conheceram, Edith recém-recuperara-se da perda de seu grande amor, o pugilista Marcel Cerdan, morto em desastre de avião em 1949. Edith Piaf amava cada homem com quem se apaixonava, como se fosse o único e o último. De coração impetuoso, teve vários relacionamentos amorosos que duravam, em média, um ano, um ano e meio. Oficialmente foram 16 maridos.
As cartas de amor de Edith Piaf< estão organizadas em três partes: cartas e telegramas datados, cartas e telegramas não-datados e um texto pequeno de apresentação da cantora à imprensa norte-americana, quando de uma de suas apresentações naquele país. Sem valor literário, com vários erros ortográficos amenizados pela tradução para o português, a correspondência nos mostra uma mulher que valorizava os dotes físicos de seu amante, ao mesmo tempo que reclamava dele uma atenção mais próxima. A impressão que fica é de uma Piaf sufocante, chegava a escrever mais de uma carta por dia. Sonhava montar uma casa com Gérardin, mesmo ele não se desfazendo do casamento com a mulher legítima. Cantora dramática, era também dramática em sua vida pessoal. Ela diz em uma de suas cartas, "que gostaria de ser esmagada pelo teu corpo", noutras cobra-lhe: "Querido, diga-me se tem vontade de me ver (...) às vezes você me telefonava (assim que me deixava), que me amava (...) é que em certos momentos não sinto você em meu coração". De início, uma mulher enlouquecida de amor, que suportaria tudo pelo amante. Já mais para o final, uma certa resignação de que o está perdendo, até que chega, em uma das cartas, a lhe cobrar um dinheiro emprestado.
As cartas de amor de Edith Piaf só vale a leitura, se você for muito fâ da cantora.
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As cartas de amor de Edith Piaf. Barueri, SP, Amarilys, 2012, 156 pp. R$ 39,00
As cartas de amor de Edith Piaf< estão organizadas em três partes: cartas e telegramas datados, cartas e telegramas não-datados e um texto pequeno de apresentação da cantora à imprensa norte-americana, quando de uma de suas apresentações naquele país. Sem valor literário, com vários erros ortográficos amenizados pela tradução para o português, a correspondência nos mostra uma mulher que valorizava os dotes físicos de seu amante, ao mesmo tempo que reclamava dele uma atenção mais próxima. A impressão que fica é de uma Piaf sufocante, chegava a escrever mais de uma carta por dia. Sonhava montar uma casa com Gérardin, mesmo ele não se desfazendo do casamento com a mulher legítima. Cantora dramática, era também dramática em sua vida pessoal. Ela diz em uma de suas cartas, "que gostaria de ser esmagada pelo teu corpo", noutras cobra-lhe: "Querido, diga-me se tem vontade de me ver (...) às vezes você me telefonava (assim que me deixava), que me amava (...) é que em certos momentos não sinto você em meu coração". De início, uma mulher enlouquecida de amor, que suportaria tudo pelo amante. Já mais para o final, uma certa resignação de que o está perdendo, até que chega, em uma das cartas, a lhe cobrar um dinheiro emprestado.
As cartas de amor de Edith Piaf só vale a leitura, se você for muito fâ da cantora.
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As cartas de amor de Edith Piaf. Barueri, SP, Amarilys, 2012, 156 pp. R$ 39,00
domingo, 19 de agosto de 2012
A pista de gelo
Um povoado anônimo de uma cidade espanhola; um chileno com pretensões de escritor que havia exercido todo tipo de trabalhos eventuais; um mexicano também poeta e andarilho que sobrevive como vigilante noturno em um camping; um empreendedor catalão metido a político, capaz de tudo para chamar a atenção de uma bela patinadora. Deles se obtém três versões para um crime, que se vão entrelaçando por toda a novela em torno de uma pista de gelo construída ilegalmente em uma casa abandonada.
O chileno da história também se havia apaixonado pela patinadora. Um dia resolveu segui-la, até que ela entrou num bar. O catalão, que havia ido ao encontro dela, encontra-se com o chileno e saúda-o com uma mescla de ódio e desconfiança. Sente-se mal, quando pressente que entre a patinadora e o chileno pode existir mais que amizade. O chileno havia sido casado com a empregada desse catalão e destroçara sua vida pela desilusão e infelicidade. O catalão pensa que o sul-americano poderia fazer o mesmo com a patinadora, a quem amava muito. O outro elemento, o vigilante, gostava de entrar na casa abandonada para observar furtivamente a bela patinadora a fazer seus exercícios ao som da música clássica.
Às dez horas da manhã de um certo dia, cada um deles se dirige à pista de gelo. Lá, cada um vê de seu ângulo e individualmente, que no centro da pista há um vulto encolhido que não se pode ver direito de quem se trata. O sangue, originado de diversas partes do corpo, havia se espalhado em diversas direções, formando desenhos e figuras geométricas. O corpo pode ser da bela patinadora. Para investigar isso, caro leitor, você precisa ler o livro, para saber. Trata-se de uma história interessante, com muito suspense.
Roberto Bolaño constrói uma história com requinte policialesco, com amores destruídos e ilusões perdidas. Com seu estilo mordaz e seu humor feroz, prende o leitor desde a primeira página. Nascido no Chile em 1953, morto aos 50 anos, surgiu na década de 1990 e logo se tornou um dos mais importantes escritores sul-americano dos últimos tempos. O escritor estava fora do Chile, quando Pinochet tomara o poder. Tentou voltar para lutar contra o ditador, mas foi preso e teve de se exilar na Espanha. Seu romance Os detetives selvagens é considerado sua obra-prima.
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Roberto Bolaño. A pista de gelo. SP, Cia. Das Letras, 2007, 200 pp. R$ 44,00
O chileno da história também se havia apaixonado pela patinadora. Um dia resolveu segui-la, até que ela entrou num bar. O catalão, que havia ido ao encontro dela, encontra-se com o chileno e saúda-o com uma mescla de ódio e desconfiança. Sente-se mal, quando pressente que entre a patinadora e o chileno pode existir mais que amizade. O chileno havia sido casado com a empregada desse catalão e destroçara sua vida pela desilusão e infelicidade. O catalão pensa que o sul-americano poderia fazer o mesmo com a patinadora, a quem amava muito. O outro elemento, o vigilante, gostava de entrar na casa abandonada para observar furtivamente a bela patinadora a fazer seus exercícios ao som da música clássica.
Às dez horas da manhã de um certo dia, cada um deles se dirige à pista de gelo. Lá, cada um vê de seu ângulo e individualmente, que no centro da pista há um vulto encolhido que não se pode ver direito de quem se trata. O sangue, originado de diversas partes do corpo, havia se espalhado em diversas direções, formando desenhos e figuras geométricas. O corpo pode ser da bela patinadora. Para investigar isso, caro leitor, você precisa ler o livro, para saber. Trata-se de uma história interessante, com muito suspense.
Roberto Bolaño constrói uma história com requinte policialesco, com amores destruídos e ilusões perdidas. Com seu estilo mordaz e seu humor feroz, prende o leitor desde a primeira página. Nascido no Chile em 1953, morto aos 50 anos, surgiu na década de 1990 e logo se tornou um dos mais importantes escritores sul-americano dos últimos tempos. O escritor estava fora do Chile, quando Pinochet tomara o poder. Tentou voltar para lutar contra o ditador, mas foi preso e teve de se exilar na Espanha. Seu romance Os detetives selvagens é considerado sua obra-prima.
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Roberto Bolaño. A pista de gelo. SP, Cia. Das Letras, 2007, 200 pp. R$ 44,00
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domingo, 12 de agosto de 2012
O último leitor
O argentino Ricardo Piglia (1940) nos mostra em seu excelente O último leitor, que a obra literária começa e termina nele, no leitor. É aquele que, mesmo lendo mal, mal interpretando, faz o sentido da literatura, é sua tábua de salvação. Um único leitor, o último leitor, chega a sustentar por um momento todo o peso da literatura sobre os ombros.
O primeiro ensaio, “O que é um leitor?”, nos fala de Jorge Luís Borges, um leitor voraz, obstinado por bibliotecas, que perdeu a vista lendo. Borges seria a primeira imagem do último leitor. Ele mesmo disse que “eu sou agora um leitor de páginas que meus olhos já não veem”. Borges foi o leitor perdido em uma biblioteca, que vai de um livro a outro, que lê uma série de livros e não um livro isoladamente. Um leitor disperso na fluidez e investigação de todos os volumes que tem a sua disposição. Depois de cego, Borges passou a escrever, ditando seus livros para a secretária. Aliás, as secretárias tiveram suma importância na vida de muitos escritores. O leitor não é somente o que lê um livro. É o que se perde numa rede de signos. Que lê e relê o mundo de acordo com seu interesse e sua necessidade. A ficção não depende de quem escreve somente, mas de quem lê. A ficção depende do intérprete.
O segundo ensaio, “Um relato sobre Kafka”, discorre sobre a correspondência que Kafka manteve com Felice Bauer, sua noiva, com quem quase se casou por duas vezes, como um grande acontecimento da literatura contemporânea. Nas cartas, escritas entre 1912 a 1917, Kafka narrava à noiva seu processo de escritura e toda sua angústia envolvendo esse processo. Contava, também, de sua vida durante a Primeira Grande Guerra. O interessante é que Kafka manteve sua relação amorosa com Felice através das cartas. Quase nunca se viam. Assim, Felice passava a ser a leitora de Kafka. O leitor mantinha, através da leitora obediente, um mecanismo de controle e sedução.
O terceiro ensaio, “Leitores imaginários”, apresenta-nos o maior representante de leitor da era moderna, o detetive privado das histórias policiais, Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe, aparecendo em três livros do autor: O assassinato da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada. A primeira cena de O assassinato da Rua Morgue se passa justamente numa livraria, onde o narrador conhece ocasionalmente o detetive Dupin, quando os dois estão ali em busca de um mesmo livro, raro e magnífico. Não sabemos qual é o livro, mas o que ele representa: aproximar os dois personagens. Desse encontro, surge a história policial.
O homem da era moderna relaciona-se com o mundo, através de um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção de um sentido para o leitor. Por exemplo, quando você era estudante universitário, qual era sua tendência política dentro da faculdade, que tipos de leitura você tinha acesso e que relação elas poderiam ter com sua atuação política? A indecisão de um intelectual pode ser sempre a incerteza da interpretação, das múltiplas possibilidades de leitura. Pode haver uma tensão entre o ato de ler e a ação política. O quarto ensaio, “Ernesto Guevara, rastros de leitura”, expõe ideias sobre a importância da leitura na formação intelectual do militante Che Guevara. Ricardo Piglia nos fala, por exemplo, de uma cena envolvendo Che Guevara ferido na luta em Cuba, pensando que iria morrer ali. Che recordou-se de um conto que havia lido, de Jack London, em que o protagonista, apoiado sobre uma árvore se dispõe a por fim a sua vida de maneira digna, ao saber-se condenado à morte. A literatura teve naquele momento, para Guevara, um sentido de reflexão existencial.
No quinto ensaio, “A lanterna mágica de Ana Karenina”, o ensaísta nos fala da relação da leitura com a formação do sentido, com a afetividade, com a tradição e com o desenvolvimento do romance de Tolstoi, Ana Karenina. É a época em que as mulheres são as grandes consumidoras da literatura. A partir da geração romântica, as mulheres passam a personificar a figura do leitor moderno. Os romances que se originaram dos folhetins, eram escritos em capítulos de jornal justamente para as mulheres. Ana Karenina lê seu romance num trem de Moscou a São Petersburgo. Nesse trem está o homem que ela vem a conhecer ali e que se tornará seu amante, levando-a à desgraça e ao suicídio. Ao ler seu romance, Ana Karenina identificava-se com a vida das personagens, tendo a ilusão de realidade que faltava a sua vida monótona com o marido. O protótipo da mulher como protagonista na literatura, era o de adúltera.
O último ensaio versa sobre “Como está construído o Ulysses”, uma das grandes obras-primas do romance moderno, que pouquíssimas pessoas leram, pelo alto grau de complexidade da obra. Eu tentei a tradução de Antonio Houaiss e parei na página 548, de 850, por ter perdido o fio da meada. Agora comprei a tradução de Caetano Galindo, pela Penguin Companhia, para nova tentativa. Parece ser mais acessível. Neste ensaio, Piglia nos diz que não existe o texto fechado e perfeito. O verdadeiro leitor lê com a certeza de que o livro não estará suficientemente terminado. Qual sua utilidade e seu valor? Joyce escreve a epopeia de Bloom em 24 horas, na cidade Londres, baseada na epopeia homérica de Ulisses. A obra literária tem sempre uma correlação com outra já existente, que se renova ou se transforma, no caso de Ulysses.
Aconselharia ao leitor dessa crônica que se aventurasse a um voo mais alto, buscando ler a O último leitor. Pode surgir uma dúvida ou outra, nada que o Google não resolva. É de leitura acessível e instigante.
Ricardo Piglia. O último leitor. SP, Cia. Das Letras, 2006, 192 pp. R$ 44,50
O primeiro ensaio, “O que é um leitor?”, nos fala de Jorge Luís Borges, um leitor voraz, obstinado por bibliotecas, que perdeu a vista lendo. Borges seria a primeira imagem do último leitor. Ele mesmo disse que “eu sou agora um leitor de páginas que meus olhos já não veem”. Borges foi o leitor perdido em uma biblioteca, que vai de um livro a outro, que lê uma série de livros e não um livro isoladamente. Um leitor disperso na fluidez e investigação de todos os volumes que tem a sua disposição. Depois de cego, Borges passou a escrever, ditando seus livros para a secretária. Aliás, as secretárias tiveram suma importância na vida de muitos escritores. O leitor não é somente o que lê um livro. É o que se perde numa rede de signos. Que lê e relê o mundo de acordo com seu interesse e sua necessidade. A ficção não depende de quem escreve somente, mas de quem lê. A ficção depende do intérprete.
O segundo ensaio, “Um relato sobre Kafka”, discorre sobre a correspondência que Kafka manteve com Felice Bauer, sua noiva, com quem quase se casou por duas vezes, como um grande acontecimento da literatura contemporânea. Nas cartas, escritas entre 1912 a 1917, Kafka narrava à noiva seu processo de escritura e toda sua angústia envolvendo esse processo. Contava, também, de sua vida durante a Primeira Grande Guerra. O interessante é que Kafka manteve sua relação amorosa com Felice através das cartas. Quase nunca se viam. Assim, Felice passava a ser a leitora de Kafka. O leitor mantinha, através da leitora obediente, um mecanismo de controle e sedução.
O terceiro ensaio, “Leitores imaginários”, apresenta-nos o maior representante de leitor da era moderna, o detetive privado das histórias policiais, Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe, aparecendo em três livros do autor: O assassinato da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada. A primeira cena de O assassinato da Rua Morgue se passa justamente numa livraria, onde o narrador conhece ocasionalmente o detetive Dupin, quando os dois estão ali em busca de um mesmo livro, raro e magnífico. Não sabemos qual é o livro, mas o que ele representa: aproximar os dois personagens. Desse encontro, surge a história policial.
O homem da era moderna relaciona-se com o mundo, através de um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção de um sentido para o leitor. Por exemplo, quando você era estudante universitário, qual era sua tendência política dentro da faculdade, que tipos de leitura você tinha acesso e que relação elas poderiam ter com sua atuação política? A indecisão de um intelectual pode ser sempre a incerteza da interpretação, das múltiplas possibilidades de leitura. Pode haver uma tensão entre o ato de ler e a ação política. O quarto ensaio, “Ernesto Guevara, rastros de leitura”, expõe ideias sobre a importância da leitura na formação intelectual do militante Che Guevara. Ricardo Piglia nos fala, por exemplo, de uma cena envolvendo Che Guevara ferido na luta em Cuba, pensando que iria morrer ali. Che recordou-se de um conto que havia lido, de Jack London, em que o protagonista, apoiado sobre uma árvore se dispõe a por fim a sua vida de maneira digna, ao saber-se condenado à morte. A literatura teve naquele momento, para Guevara, um sentido de reflexão existencial.
No quinto ensaio, “A lanterna mágica de Ana Karenina”, o ensaísta nos fala da relação da leitura com a formação do sentido, com a afetividade, com a tradição e com o desenvolvimento do romance de Tolstoi, Ana Karenina. É a época em que as mulheres são as grandes consumidoras da literatura. A partir da geração romântica, as mulheres passam a personificar a figura do leitor moderno. Os romances que se originaram dos folhetins, eram escritos em capítulos de jornal justamente para as mulheres. Ana Karenina lê seu romance num trem de Moscou a São Petersburgo. Nesse trem está o homem que ela vem a conhecer ali e que se tornará seu amante, levando-a à desgraça e ao suicídio. Ao ler seu romance, Ana Karenina identificava-se com a vida das personagens, tendo a ilusão de realidade que faltava a sua vida monótona com o marido. O protótipo da mulher como protagonista na literatura, era o de adúltera.
O último ensaio versa sobre “Como está construído o Ulysses”, uma das grandes obras-primas do romance moderno, que pouquíssimas pessoas leram, pelo alto grau de complexidade da obra. Eu tentei a tradução de Antonio Houaiss e parei na página 548, de 850, por ter perdido o fio da meada. Agora comprei a tradução de Caetano Galindo, pela Penguin Companhia, para nova tentativa. Parece ser mais acessível. Neste ensaio, Piglia nos diz que não existe o texto fechado e perfeito. O verdadeiro leitor lê com a certeza de que o livro não estará suficientemente terminado. Qual sua utilidade e seu valor? Joyce escreve a epopeia de Bloom em 24 horas, na cidade Londres, baseada na epopeia homérica de Ulisses. A obra literária tem sempre uma correlação com outra já existente, que se renova ou se transforma, no caso de Ulysses.
Aconselharia ao leitor dessa crônica que se aventurasse a um voo mais alto, buscando ler a O último leitor. Pode surgir uma dúvida ou outra, nada que o Google não resolva. É de leitura acessível e instigante.
Ricardo Piglia. O último leitor. SP, Cia. Das Letras, 2006, 192 pp. R$ 44,50
domingo, 5 de agosto de 2012
Grandes esperanças
Lemos comumente textos divulgados em jornais e redes sociais, testemunhando que se aprende com os erros cometidos. No caso de Pip, o personagem central de Grandes Esperanças, de Charles Dickens, as virtudes são os acertos que ele faz durante sua trajetória no romance. Grandes esperanças é uma história de redenção moral. O protagonista é um órfão criado num lar humilde que herda uma grande fortuna e imediatamente rejeita os familiares e os amigos. Quando a fortuna desaparece por completo, é obrigado a assumir sua própria ingratidão. Uma das características interessantes de Pip, esse órfão, é que ele é sincero ao confessar seus defeitos, e isso acaba criando nele uma empatia que pode agradar ao leitor. Pip, apesar de ter vergonha de seus pares pobres, é capaz de efetuar boas ações durante a narrativa. É franco com seus sentimentos. Sua franqueza e suas boas ações serão a prova de sua redenção. Durante sua trajetória de altos e baixos, aprende que no encalço do desejo vem sempre a culpa, naquilo que gostaria de ser há aquilo que não pode deixar de ser. O tratamento rígido que recebe da irmã que o criara o faz ver que nada é percebido com tanta intensidade e sentido com tanta intensidade, quanto a injustiça. Isso foi a causa dele ter-se tornado tímido e sensível.
Um dia ele vê-se forçado a ajudar um criminoso em fuga. Sua bondade é reconhecida pelo bandido e isso é parte importantíssima no desenrolar da narrativa. Depois, ele é convidado a frequentar a residência de uma senhora muito rica para brincar com Estella, suposta filha. Ele se apaixona e a senhora lhe propõe mudar de vida, educar-se e ser alguém na sociedade para merecer a jovem. Então Pip passa a ter vergonha do lar e de Joe, seu padastro, um homem tosco, mas profundamente amoroso com Pip. É terrível ter vergonha do próprio lar,talvez seja a mais negra ingratidão. O lar nunca fora o lugar muito agradável para ele, devido ao temperamento de sua irmã. Antes, ele acreditava que o seu lar era o modelo correto de viver e conviver. Que a ferraria de Joe era o caminho da maturidade e independência. Um ano depois, entretanto, convivendo com Estella, tudo aquilo passa a ser-lhe grosseiro e vulgar. Passa a pensar ser vergonhoso se um de seus novos amigos um dia pudesse visitar sua casa humilde. A partir do momento em que Pip muda-se para Londres, muitas coisas acontecem. Seu espírito contraditório acaba levando-o à ruína, mas lhe traz a maturidade necessária para compreender que as grandes esperanças que tem em relação à vida incluem, no caminho, o reconhecimento do amor e da justiça.
O romance foi publicado originalmente em três volumes no ano de 1861, depois de ter sido publicado em folhetim um ano antes. Dickens, assim como Machado de Assis, José de Alencar e inúmeros escritores dessa época, publicavam seus romances em capítulos nos jornais. Por causa disso, sua técnica narrativa é muito bem amarrada. O final de cada capítulo leva o leitor a querer continuar a leitura do capítulo seguinte. Muito bem escrito, apresenta uma linguagem poética cativante.
Charles Dickens (1812-1870)nasceu na Inglaterra. Sua vida transcorre durante o período vitoriano, com a ascensão da Revolução Industrial, que trouxe progresso à nobreza e miséria à classe trabalhadora que surgia então. Sua obra transparece a crítica social a esse estilo de vida, que ele considerava injusto. Sua obra apresenta, assim, traços realistas. Seus romances apresentam, quase sempre, órfãos como heróis. Não raro, certo tom pessimista no futuro de seus personagens. É dos grandes da literatura universal.
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Charles Dickens. Grandes esperanças. SP, Penguin Companhia, 2012, 704 pp. R$ 37,00
Um dia ele vê-se forçado a ajudar um criminoso em fuga. Sua bondade é reconhecida pelo bandido e isso é parte importantíssima no desenrolar da narrativa. Depois, ele é convidado a frequentar a residência de uma senhora muito rica para brincar com Estella, suposta filha. Ele se apaixona e a senhora lhe propõe mudar de vida, educar-se e ser alguém na sociedade para merecer a jovem. Então Pip passa a ter vergonha do lar e de Joe, seu padastro, um homem tosco, mas profundamente amoroso com Pip. É terrível ter vergonha do próprio lar,talvez seja a mais negra ingratidão. O lar nunca fora o lugar muito agradável para ele, devido ao temperamento de sua irmã. Antes, ele acreditava que o seu lar era o modelo correto de viver e conviver. Que a ferraria de Joe era o caminho da maturidade e independência. Um ano depois, entretanto, convivendo com Estella, tudo aquilo passa a ser-lhe grosseiro e vulgar. Passa a pensar ser vergonhoso se um de seus novos amigos um dia pudesse visitar sua casa humilde. A partir do momento em que Pip muda-se para Londres, muitas coisas acontecem. Seu espírito contraditório acaba levando-o à ruína, mas lhe traz a maturidade necessária para compreender que as grandes esperanças que tem em relação à vida incluem, no caminho, o reconhecimento do amor e da justiça.
O romance foi publicado originalmente em três volumes no ano de 1861, depois de ter sido publicado em folhetim um ano antes. Dickens, assim como Machado de Assis, José de Alencar e inúmeros escritores dessa época, publicavam seus romances em capítulos nos jornais. Por causa disso, sua técnica narrativa é muito bem amarrada. O final de cada capítulo leva o leitor a querer continuar a leitura do capítulo seguinte. Muito bem escrito, apresenta uma linguagem poética cativante.
Charles Dickens (1812-1870)nasceu na Inglaterra. Sua vida transcorre durante o período vitoriano, com a ascensão da Revolução Industrial, que trouxe progresso à nobreza e miséria à classe trabalhadora que surgia então. Sua obra transparece a crítica social a esse estilo de vida, que ele considerava injusto. Sua obra apresenta, assim, traços realistas. Seus romances apresentam, quase sempre, órfãos como heróis. Não raro, certo tom pessimista no futuro de seus personagens. É dos grandes da literatura universal.
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Charles Dickens. Grandes esperanças. SP, Penguin Companhia, 2012, 704 pp. R$ 37,00
domingo, 29 de julho de 2012
Caderno de ruminações
Sergipe é um estado que muitos passam por cima, quando vão da Bahia para os outros estados do Nordeste. Uns dizem que é por causa da água escura do mar de Aracaju, parecida com a de nosso litoral gaúcho. Eu, que gosto de lá, conheço praias de águas claras calmas e agradáveis, como a Praia do Saco, coladinha à Mangue Seco. O cânion do São Francisco também fica em Sergipe, no município de Paulo Afonso. No plano da literatura, há sergipanos importantes e famosos, como Joel Silveira (1918-2007), jornalista e contista. Você deve lembrar do imbróglio que teve com Zelia Gattai, quando ela se candidatou à vaga deixada por Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras. Joel fez campanha contra, chegou a se candidatar para tentar impedi-la de ganhar o posto. Não adiantou. Foi eleita. Se você teve um bom professor de Literatura, deve-se lembrar de Tobias Barreto (1839-1889), filósofo, poeta, crítico e jurista brasileiro, nascido naquele estado. Sílvio Romero (1851-1914), famoso crítico literário que escreveu sua famosa Introdução à História da Literatura Brasileira.Atualmente, dois escritores de Sergipe têm se destacado nas letras nacionais, sendo publicados por editoras importantes como a Companhia das Letras e a Alfaguara. São eles Antonio Carlos Viana (1946), contista que obteve fama com seu livro O meio do mundo e Francisco J. C. Dantas (1941), romancista que se destacou com o romance já consagrado, Coivara da Memória. Esses dois autores são sangue novo à nova literatura do nordeste, que ficara estagnada em Graciliano Ramos e Jorge Amado, para citar alguns do cânone modernista.
Francisco J. C. Dantas lançou recentemente Caderno de Ruminações, narrando quatro dias que antecedem o casamento de Rochinha, o anti-herói da história. Médico proctologista, tinha pai humilde que vendeu suas poucas terras para custear a faculdade do filho. Rochinha, um cara íntegro, profissional idealista que pratica a saúde com escrúpulos e direiteza, acaba pagando um preço muito alto por isso. Tenta inúmeras vezes uma vaga na saúde pública, mas não tem o perfil de quem vá angariar votos para os políticos que comandam a rede de saúde. É forçado a exercer a medicina em lugares longínquos, de gente miserável, até que se dá conta de que, pra vencer na vida, precisa abdicar de alguns princípios que lhe passaram e trair o próprio juramento. Tem de arranjar um respaldo muito forte, cultivar boas relações com certos colegas, laboratórios, chefes, e separar direitinho a quem prestar favores ou fazer concessões.
O problema de Rochinha é que ele não consegue deixar de ser íntegro na sua profissão. Adquire fama e dinheiro com rapidez, mas seu dinheiro e seus bens são desgastados por sócios inescrupulosos e um primo que lhe tem inveja. A derrocada moral de Rochinha ocorre, quando se decide casar com uma prima rica e libertina.
Francisco J. C. Dantas começou a escrever na idade madura, aos 50 anos. Foi professor de Literatura Brasileira e Portuguesa na Universidade de Sergipe e na Universidade da Califórnia.
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Francisco J. C. Dantas. Caderno de ruminações. Rio, Alfaguara/Objetiva, 2012 402 pp. R$ 49,90
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