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domingo, 19 de fevereiro de 2017

40. Ficções

O escritor argentino Jorge Luís Borges (1899/1986) cresceu entre duas línguas. Foi alfabetizado em inglês, por decisão do pai. O espanhol é ligado à linhagem materna. Tinha ascendência portuguesa por parte do bisavô paterno, que nascera em Portugal.  Ficou cego cedo, aos 58 anos. Mas continuou a produzir sempre, ditando seus textos a seus auxiliares, notadamente sua mãe e depois a esposa, Maria Kodama.
Borges foi primeiro poeta e ensaísta. Seu lado ficcional surgiu mais tarde. 

Viaja à Europa na adolescência, para tratamento da cegueira do pai, onde estuda, tem acesso e leitura em outras línguas, e retorna em 1922 à Argentina. Foi leitor voraz de enciclopédias. Isso faz ver a obra de Borges, estamos falando aqui dos contos, em duas vertentes: a mística, os arquétipos, os labirintos. De outro, o olhar para o pampa: o duplo, a violência, a solidão árida. O escritor sustentava que, por trás da sua escrita, há a leitura de um livro. Borges lia um livro e contava uma história do que lera. Isso é chave em sua literatura.

Ficções é um livro-chave para a literatura do século XX, que influencia toda a literatura que vem depois dele. Sua estética coloca a possibilidade de algo impensado.  É um relato autêntico que não propõe uma verdade fora do texto. Não é uma reprodução fiel do mundo. Mas o prazer da forma estética. Esses relatos oferecem ao leitor um prazer com a forma que assume o relato. O livro tem duas partes. A primeira, "O jardim dos caminhos que se bifurcam", contendo um prólogo, apresenta textos que foram, muitos deles, já editados em jornais e revistas. A segunda, também contendo um prólogo, "Artifícios", insiste na ideia de colocar em evidência o caráter experimental da estética do texto:

O jardim dos caminhos que se bifurcam: uma das mais importantes narrativas do autor no que se refere a falar de uma de suas metáforas preferidas: o labirinto. O protagonista do conto está sendo perseguido e foge para o lugar onde viveu seu descendente, um rei que disse que se ausentaria do mundo para construir um labirinto e escrever um livro. Contudo, o que o leitor não perde por esperar, é a relação dessa história com a do próprio protagonista.

A biblioteca de Babel: o autor fala do mundo como se este fosse uma biblioteca, tendo um dos mais impressionantes começos literários da história da literatura: “O universo (que outros chamam a  Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e  infinito, de galerias hexagonais, com vastos postos de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas".

Pierre Menard, autor do Quixote, a falsa resenha da obras de um escritor de ficção francês recentemente falecido, que se envolveu na tarefa complexa e fútil de reescrever Dom Quixote, de Cervantes. Não se trata de copiar o romance, mas de repetir o livro com o intuito de fazê-lo coincidir, palavra por palavra e linha por linha com o original. Trata-se da total aniquilação da personalidade. Se Menard tivesse conseguido reescrever o Dom Quixote, teria sacrificado sua individualidade artística à tarefa, ao mesmo tempo que teria roubado Cervantes de seu status de autor único do grande clássico; o sucesso de Menard equivaleria então à destruição da criação original, tornando a criação um conceito arbitrário, podendo, no futuro, qualquer obra ser escrita por qualquer autor.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius é uma paródia do idealismo filosófico do bispo Berkeley, na qual os membros de uma sociedade secreta dirigida por um milionário chamado Ezra Buckley inventam um planeta imaginário chamado Tlön, cujos habitantes carecem de qualquer senso nato da existência de uma realidade física externa a suas consciências. Numa série de brilhantes manobras cômicas, Borges esboça as consequências desse idealismo congênito para as línguas, as ciências, a matemática, a literatura e as religiões de Tlön. Nesse conto se reconhece várias estratégicas narrativas, uma delas, apagar os limites entre o verdadeiro e o imaginário. O leitor fica confuso se o que lê é invenção ou realidade. É a busca de um livro inexistente. Nesse livro, há um verbete que fala de Ukbar. Postula uma ideia de que o livro é um mundo e o mundo é o livro. O  mundo não é uma condição de possibilidades de um livro, mas o livro pode ser uma condição de possibilidade do mundo.

As ruínas circulares, o protagonista é um homem cinza que chega a um templo circular dedicado ao deus do fogo. O homem pede à divindade o poder de sonhar um filho e inseri-lo no mundo real. Seu desejo é concedido e ele sonhará um filho que todos tomarão como real, exceto o deus do fogo e o próprio sonhador, que saberão que sua criatura é, na verdade, um fantasma imune ao fogo. O homem cinza sente uma espécie de êxtase, uma vez que o propósito de sua vida parece ter se realizado. Pouco depois, porém, um incêndio destrói o templo, e o homem cinza descobre que não é afetado pelas chamas. Percebe, então, que ele, como seu filho é um fantasma: outra pessoa o está sonhando.
A loteria da Babilônia toma a ideia banal de que a vida é uma loteria e inventa uma situação em que é impossível dizer se as vidas dos babilônios são governadas pelo acaso ou pelos desígnios de uma companhia secreta.
Em A morte e a bússola, o detetive Erik Lönrot está investigando o homicídio de um judeu estudioso de Cabala. Um estranho conflito o impele a procurar o assassino por um processo de pura razão. Porém, Erik está, na verdade, sendo manipulado por seu arqui-inimigo, um criminoso judeu chamado Red Scharlach, que planeja secretamente atrair o detetive para a morte, aprisionando-o num labirinto de pistas enganosas.

O sul e O fim tratam do duplo, quando é preciso fazer uma escolha que contempla um deles. Em O Sul, o protagonista é Juan Dahlmann, um residente de Buenos Aires de origem mista germano-protestante e argentino-católica, que se sente profundamente argentino por ser neto de um herói da guerra da Independência. Embora as propriedades da família tenham se perdido há muito tempo e ele tenha um emprego público modesto na cidade, conseguiu salvar a sede de uma estância nos pampas ao sul de Buenos Aires. Na segunda parte da história, o encontramos tomando um trem para ir visitar a mansão, mas o trem para inesperadamente no meio do campo, e enquanto espera num armazém, recebe provocações de um grupo de peões. Sem saber como reagir, subitamente resolve enfrentar o desafio de um compadrito (equivalente ao nosso gaúcho a pé, banido do pampa) depois que um velho gaucho lhe joga uma adaga.

O fim descreve o final de Martín Fierro, relatando o duelo final entre o protagonista e El Moreno, o irmão de um gaucho negro que Fierro havia matado numa briga de bar na primeira parte do famoso poema. Dessa vez, porém, é Fierro que é morto, mas a morte do protagonista não oferece, no fim, uma resolução clara da ação: quando mata Fierro, o negro assume o destino de sua vítima e as identidades aparentemente contrárias de assassino e assassinado se dissolvem, abrindo a história para uma progressão potencialmente infinita. A ação é observada por um terceiro personagem, testemunha totalmente passiva, por causa de um derrame.

Tradução de Carlos Nejar
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Jorge Luís Borges. Ficções. Porto Alegre, Editora Globo, 1969, 158 pp.

domingo, 4 de maio de 2014

Todos os homens são mentirosos

O que é a verdade? Essa é a questão proposta pelo escritor argentino Alberto Manguel (1948) em seu romance Todos os homens são mentirosos. Quando Jean Luc Terradillos, um periodista francês, se interessa em investigar a queda e morte de  um genial escritor argentino, debate-se com a seguinte máxima: "o que é a verdade"? Há sempre coisas ocultas sob a verdade de um fato. Por isso, todos os homens são mentirosos, na medida em que transformam a visão particular de um fato como verdadeira.
Jean-Luc Terradillos foi encarregado de pesquisar e entrevistar a vida de Alejandro Bevilacqua, asilado político argentino refugiado em Madri. Uma novela supostamente de autoria de Bevilacqua, "Elogio da Mentira", ganha notoriedade nos países de língua espanhola e o autor acaba forçado a falar do processo de sua obra publicamente. Entretanto, numa dessas reuniões sociais, Bevilacqua cai da sacada e acaba morrendo. Paralelamente, uma investigação policial busca desvendar a origem de sua morte. Terradillos, ao relembrar a vida de Bevilacqua,  lembra de um homem esquálido , grisalho, fumando cigarro atrás de cigarro, cruzando e descruzando as pernas para logo por-se de pé e dar largas passadas pelo apartamento. Ao relembrar sua convivência com Alejandro, Terradillo tem a missão de contar, e por que não?, recriar a história alheia.

Terradillo confia mais na memória do que na imaginação e usa as confidências de Bevilacqua em sua personagem de ficção, que é o próprio Bevilacqua. As recordações de Belivacqua careciam de paixão, de colorido. Por isso, começou a agregar a sua história um pouco de fantasia, de humor. À precisão do escritor argentino, acrescentava uma glosa irônica, um comentário. Bevilacqua parecia estar inventando um passado a si mesmo, como para convencer Teradillo de sua existência. Terradillo nos diz que quando Bevilacqua dizia não ser escritor, tinha razão. Carecia desse impulso de invenção que a escrita de ficção exige,  essa falta de respeito perante o que é e a ansiedade ante o que poderia ser. Não imaginava, via e documentava,  que não é a mesma coisa.
Assim, a figura de Bevilacqua, quase inexistente, transita de hipóteses, conforme sua figura concorde com determinados dados e prejuízos. Vai mudando de aspecto como uma dessas estátuas de jardim que se transformam imperceptivelmente ao longo do dia, conforme muda a luz. Isso, como verdade, entretanto, é inaceitável.  Nem todos  os diversos Bevilacquas são os que o periodista persegue. Nem todas as facetas de uma realidade lhe interessam. Só uma, se é sincero, ou quem sabe nenhuma. Por isso, quem sabe, escreve. Para dá-la a conhecer desde um ponto de vista particular, privado. Agora pensa que foi o desejo o que fez que ele fosse periodista. Ver seu nome no rodapé de uma coluna impressa. Declarar-se responsável. Dizer o que sente, o que opina. Dar sua visão do mundo lhe regozija secretamente.

Alberto Manguel (1948) é argentino de Buenos Aires e mora no Canadá.

                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Alberto Manguel. Todos os homens são mentirosos. SP, Cia. das Letras, 2010, 184 pp. R$ 39,00

domingo, 3 de março de 2013

Don Segundo Sombra



Don Segundo Sombra, obra do escritor argentino Ricardo Güiraldes, trata da vida de um guri de nome Fabio, que sai da casa dos tios depois de ser abandonado pelo pai e conhece Don Segundo Sombra, pampeiro experiente que o ajuda e o ensina a trabalhar no campo, domando cavalos e trabalhando em todo o pampa argentino. Assim, Fabio vai criando uma identidade de “gaucho”, a figura solitária e campeira do pampa.
Don Segundo Sombra é um homem solitário, com muita experiência e sabedoria popular, além de exímio domador de cavalos. Com ele, o guri leva uma existência nômade, aprendendo a viver e a trabalhar no campo, guiado por esse gaúcho que se transforma em seu padrinho e mestre. Em cada povoado que passam, entre bailes, brigas de galo, organizando a boiada, mais as histórias que Don Segundo lhe conta, fazem dessa etapa a fase mais feliz da vida do piá.
Um certo dia, o jovem recebe uma carta que lhe revela, agora, ser um homem rico, pois fora reconhecido pelo pai, que lhe deixara toda sua fortuna. Esse acontecimento marca profundamente a vida de Fabio, que não gostaria de aceitar a mudança de vida. Incentivado por Don Segundo, assume suas terras, tornando-se estancieiro. Na estância, trava amizade com o filho do administrador, que lhe aponta os caminhos da cultura intelectual, infundindo-lhe o amor pelos livros e pela cultura.
Esta novela de Güiralde é a primeira obra de caráter universal da literatura gauchesca argentina. A obra transpõe as fronteiras do pampa para mostrar os valores do “gaucho”, que nós, gaúchos, herdamos a tradição. A literatura sul-rio-grandense possui bons romances que evidenciam a figura de nosso gaúcho pêlo duro, que identifica nossa identidade com o pampa. Contos gauchescos e Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto, o mais fiel e o mais popular dos regionalistas gaúchos, são obras-primas da literatura brasileira. Grande escritor, Lopes Neto revive a vida dos campos, o linguajar e os costumes gauchescos, as lendas regionais, sem se restringir ao mero pitoresco, mas vertendo em suas criaturas toda a força das paixões e caos humanos, dando a sua obra interesse permanente. O autor pelotense transpõe suas histórias na voz inconfundível do pampeiro Blau Nunes, índio velho e contador de causos na hora de folga dos galpões. Outros escritores de temática gauchesca imergiram a figura do gaúcho no panorama social e político do século XX, a partir de Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. Memórias do Coronel Falcão, de Aureliano de Figueiredo Pinto, é um romance de fronteira gaúcha escrito por um médico estancieiro, onde o mundo do campo, sua gente e suas transformações aparecem vistos de dentro para fora, numa época conturbada pelo borgismo. Cyro Martins nos coloca a figura do gaúcho a pé, o que perdeu sua pequena propriedade, o gado e o cavalo para os grandes pecuaristas com suas máquinas agrícolas, vindo a formar os bolsões de miséria das cidades grandes. Os livros Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova, compõem a chamada Trilogia do Gaúcho a pé.
Voltemos a Ricardo Güiraldes, para acrescentar que o escritor nasceu em Buenos Aires, em 1886, e morreu em Paris, em 1927. De origem aristocrática, cuja família tinha inúmeras propriedades rurais, com um ano de idade foi morar na Europa, retornando quatro anos depois à Argentina, vivendo sua infância e juventude nas estâncias de seu pai.

                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
                                                                                       
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Ricardo Güiraldes. Dom Segundo Sombra. Porto Alegre, Ardotempo, 2011, 334 pp., R$ 40,00

domingo, 12 de agosto de 2012

O último leitor

O argentino Ricardo Piglia (1940) nos mostra em seu excelente O último leitor, que a obra literária começa e termina nele, no leitor. É aquele que, mesmo lendo mal, mal interpretando, faz o sentido da literatura, é sua tábua de salvação. Um único leitor, o último leitor, chega a sustentar por um momento todo o peso da literatura sobre os ombros.
O primeiro ensaio, “O que é um leitor?”, nos fala de Jorge Luís Borges, um leitor voraz, obstinado por bibliotecas, que perdeu a vista lendo. Borges seria a primeira imagem do último leitor. Ele mesmo disse que “eu sou agora um leitor de páginas que meus olhos já não veem”. Borges foi o leitor perdido em uma biblioteca, que vai de um livro a outro, que lê uma série de livros e não um livro isoladamente. Um leitor disperso na fluidez e investigação de todos os volumes que tem a sua disposição. Depois de cego, Borges passou a escrever, ditando seus livros para a secretária. Aliás, as secretárias tiveram suma importância na vida de muitos escritores. O leitor não é somente o que lê um livro. É o que se perde numa rede de signos. Que lê e relê o mundo de acordo com seu interesse e sua necessidade. A ficção não depende de quem escreve somente, mas de quem lê. A ficção depende do intérprete.
O segundo ensaio, “Um relato sobre Kafka”, discorre sobre a correspondência que Kafka manteve com Felice Bauer, sua noiva, com quem quase se casou por duas vezes, como um grande acontecimento da literatura contemporânea. Nas cartas, escritas entre 1912 a 1917, Kafka narrava à noiva seu processo de escritura e toda sua angústia envolvendo esse processo. Contava, também, de sua vida durante a Primeira Grande Guerra. O interessante é que Kafka manteve sua relação amorosa com Felice através das cartas. Quase nunca se viam. Assim, Felice passava a ser a leitora de Kafka. O leitor mantinha, através da leitora obediente, um mecanismo de controle e sedução.
O terceiro ensaio, “Leitores imaginários”, apresenta-nos o maior representante de leitor da era moderna, o detetive privado das histórias policiais, Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe, aparecendo em três livros do autor: O assassinato da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada. A primeira cena de O assassinato da Rua Morgue se passa justamente numa livraria, onde o narrador conhece ocasionalmente o detetive Dupin, quando os dois estão ali em busca de um mesmo livro, raro e magnífico. Não sabemos qual é o livro, mas o que ele representa: aproximar os dois personagens. Desse encontro, surge a história policial.
O homem da era moderna relaciona-se com o mundo, através de um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção de um sentido para o leitor. Por exemplo, quando você era estudante universitário, qual era sua tendência política dentro da faculdade, que tipos de leitura você tinha acesso e que relação elas poderiam ter com sua atuação política? A indecisão de um intelectual pode ser sempre a incerteza da interpretação, das múltiplas possibilidades de leitura. Pode haver uma tensão entre o ato de ler e a ação política. O quarto ensaio, “Ernesto Guevara, rastros de leitura”, expõe ideias sobre a importância da leitura na formação intelectual do militante Che Guevara. Ricardo Piglia nos fala, por exemplo, de uma cena envolvendo Che Guevara ferido na luta em Cuba, pensando que iria morrer ali. Che recordou-se de um conto que havia lido, de Jack London, em que o protagonista, apoiado sobre uma árvore se dispõe a por fim a sua vida de maneira digna, ao saber-se condenado à morte. A literatura teve naquele momento, para Guevara, um sentido de reflexão existencial.
No quinto ensaio, “A lanterna mágica de Ana Karenina”, o ensaísta nos fala da relação da leitura com a formação do sentido, com a afetividade, com a tradição e com o desenvolvimento do romance de Tolstoi, Ana Karenina. É a época em que as mulheres são as grandes consumidoras da literatura. A partir da geração romântica, as mulheres passam a personificar a figura do leitor moderno. Os romances que se originaram dos folhetins, eram escritos em capítulos de jornal justamente para as mulheres. Ana Karenina lê seu romance num trem de Moscou a São Petersburgo. Nesse trem está o homem que ela vem a conhecer ali e que se tornará seu amante, levando-a à desgraça e ao suicídio. Ao ler seu romance, Ana Karenina identificava-se com a vida das personagens, tendo a ilusão de realidade que faltava a sua vida monótona com o marido. O protótipo da mulher como protagonista na literatura, era o de adúltera.
O último ensaio versa sobre “Como está construído o Ulysses”, uma das grandes obras-primas do romance moderno, que pouquíssimas pessoas leram, pelo alto grau de complexidade da obra. Eu tentei a tradução de Antonio Houaiss e parei na página 548, de 850, por ter perdido o fio da meada. Agora comprei a tradução de Caetano Galindo, pela Penguin Companhia, para nova tentativa. Parece ser mais acessível. Neste ensaio, Piglia nos diz que não existe o texto fechado e perfeito. O verdadeiro leitor lê com a certeza de que o livro não estará suficientemente terminado. Qual sua utilidade e seu valor? Joyce escreve a epopeia de Bloom em 24 horas, na cidade Londres, baseada na epopeia homérica de Ulisses. A obra literária tem sempre uma correlação com outra já existente, que se renova ou se transforma, no caso de Ulysses.
Aconselharia ao leitor dessa crônica que se aventurasse a um voo mais alto, buscando ler a O último leitor. Pode surgir uma dúvida ou outra, nada que o Google não resolva. É de leitura acessível e instigante.

Ricardo Piglia. O último leitor. SP, Cia. Das Letras, 2006, 192 pp. R$ 44,50

domingo, 24 de junho de 2012

Respiração artificial

Ricardo Piglia, nascido em 1940 na Província de Buenos Aires, é dos melhores da literatura argentina, com amplo reconhecimento internacional. Romancista e ensaísta, tem os romances Alvo noturno (seu último romance), Dinheiro queimado, Respiração Artificial, Nome falso e A invasão traduzidos para o português, além dos livros de ensaio Formas Breves, O laboratório do escritor e O último leitor. A Folha de São Paulo está lançando agora Respiração Artificial , dentro de sua coleção Literatura Ibero-americana. Seu primeiro romance é considerado um dos dez melhores da literatura argentina. A interrogação sobre o passado de um possível traidor, através de sua autobiografia, sustenta a intriga, num relato satírico onde a paródia se faz presente, criando uma nova forma de ficção. A história começa narrando a vida de Enrique Osório, exilado político do século XIX, que escreveu sua autobiografia, acompanhada de uma carta para alguém no futuro. O professor Marcelo Maggi encontra esses escritos por acaso e trata de elucidar o quebra-cabeças de Osório. Para isso, escreve a seu sobrinho, o escritor Emilio Renzi, solicitando um encontro num bar do interior país, fora das esferas do poder. O objetivo do professor é mostrar ao sobrinho fatos do passado que afetam sua vida. A narração oculta e revela mensagens, interroga sobre os sentidos do mundo, das ideias e do cotidiano, a partir de vários personagens. O romance move-se em estilos e registros diversos, até transformar-se numa grande metáfora desses tempos sombrios, em que os homens precisam de um ar artificial para poder sobreviver. A trama tem um viés filosófico forte, através do polaco Tardewski, que se diz discípulo de Wittgenstein, mostrando fatos originais, como o encontro de Hitler e Kafka num bar em Praga. Wittgenstein, filósofo austríaco naturalizado inglês, lançou o conceito da "filosofia da linguagem comum" que, mais ou menos, diz que os filósofos fazem confusão de suas ideias filosóficas, distorcendo ou desconsiderando o que as palavras realmente significam na linguagem cotidiana. A trama acontece em 1976, no período de grande repressão política na Argentina. Ricardo Piglia é dos grandes. Você não pode morrer sem ler um livro dele.
================================= Ricardo Piglia. Respiração Artificial. SP, Cia. de Bolso, 2010 200 pp. R$ 20,00

A edição da Folha de SP já está nas bancas, por R$ 18,70.




R$ 20,00

domingo, 10 de junho de 2012

Alvo Noturno


Quando foi perguntado ao escritor argentino Ricardo Piglia (1940) por que havia demorado tanto para publicar seu último romance Alvo Noturno, lançado no Brasil em 2011, já que sua última obra de ficção, Dinheiro queimado (Plata quemada), havia sido publicada em 1997, ele disse que mantém um método de trabalho que não recomenda a ninguém, que consiste em fazer uma primeira versão do romance e deixá-la de lado. Quando regressa à história, tem a sensação de que ela está mais nítida. Alvo noturno é uma trama policial, onde um crime ocorre no início e há um comissário de polícia que investiga o caso, vindo a ser, no decorrer da história, auxiliado por um jornalista. O romance transparece com clareza as relações entre corrupção e poder político. Croce, o comissário fora de moda em relação a seus métodos, é um ser marginalizado que tem um olhar lúcido, distanciado, que está sempre questionando a verdade. O comissário Croce é um cara meio louco, já não é tão racional e nem se aproxima da verdade por métodos mais práticos. Busca decifrar o crime através de suas percepções, que são inexplicáveis. No povoado onde vive e onde ocorre o crime, seu método é aceito, pois ele sempre desvenda os crimes. O homem assassinado no povoado que fica próximo a Buenos Aires é um negro porto-riquenho que veio para a Argentina, por causa de duas gêmeas de uma família rica da região. Ao contrário de outros países latino-americanos, a Argentina não teve lastros significativos com os africanos, muito embora haja um racismo muito forte. Mestiços de índios e negros, chamados de zambos, eram a classe mais baixa da escala social do Rio da Prata. Então, aparecer um mulato cheio de dinheiro, vindo do nada, envolvido com duas irmãs de uma família tradicional da sociedade local, pode tornar mais previsível o fato dele ser assassinado. A partir do crime, entretanto, a história cresce, mostrando o inferno das relações familiares: o falso culpado e o culpado verdadeiro, fraude, paixões e traição. Vale muito a pena a leitura.

Ricardo Piglia é escritor e professor de literatura latino-americana, considerado um dos melhores da literatura argentina na atualidade. Dizem que é o sucessor de Borges (não entendo por que Borges tenha de ter um seguidor ou por que não possa existir Borges e Piglia sem que este deva alguma coisa àquele). Seus romances Respiração Artificial, A Cidade Ausente, Dinheiro Queimado e Alvo Noturno já estão publicados no Brasil. É autor, também, de contos, ensaios sobre ficção e roteiros para cinema. É dele o roteiro do filme Coração Iluminado, dirigido por Héctor Babenco. Sua obra Dinheiro Queimado foi para o cinema com o título de Plata Quemada.
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Ricardo Piglia. Alvo Noturno. SP, Cia. das Letras, 2011, 256 pp. R$ 45,

domingo, 13 de maio de 2012

O livro de areia

O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) respirava livros. Depois de cego, tomou emprestado os olhos e as mãos de Maria Kodama, sua secretária, para ler e escrever suas histórias. A relação de Borges com Kodama foi vital para o escritor. A presença dela em sua vida dava-se de forma integral. Colaborou diretamente para alguns livros dele. Acabaram casando-se pouco antes da morte do escritor, para desgosto da família de Borges. Hoje, ela preside a Fundación Internacional Jorge Luis Borges, com sede en Buenos Aires.
O libro de areia, escrito em 1975, está composto de treze contos e um epílogo. No primeiro, O outro, um velho, em Genebra, senta-se num banco de uma praça deserta. Alguém vem e senta-se no mesmo banco e assobia uma canção que o velho pensa conhecer. Dirige-se à pessoa a seu lado, um jovem, e lhe pergunta se mora em rua tal, número qual. O jovem responde que sim. Pergunta-lhe também se seu nome é Jorge Luís Borges. Ele diz sim. O velho lhe diz, então, que também se chama Jorge Luís Borges. Faz referências a vários fatos da vida do jovem Borges, para provar-lhe que o conhecia bem. Começa, então, a contar ao novo Borges a vida que ele vai viver. Assim vai se desenrolando o conto. Borges trata, aí, do duplo, muito frequente em sua escritura.
No segundo relato, Ulrica, o personagem-narrador, um escritor colombiano, em um congresso na cidade inglesa de York, apaixona-se por uma mulher norueguesa bela, de pele clara e longos cabelos longos. O narrador, provavelmente, a relacionou a uma Valquíria, personagem mitológica do folclore nórdico. Os dois são apresentados, fazem um passeio pelo bosque e o escritor apaixona-se por ela, dando-lhe um beijo na boca. Ela diz a ele que terão um momento de amor definitivo num lugar próximo dali. Como ela tem dificuldade em dizer seu nome espanhol, pede para chamá-lo de Sigurd. Então ele diz que vai chamá-la de Brynhild. Esses dois personagens fazem parte de uma história de amor trágica da lenda das Valquírias. Os dois dirigem-se ao local do idílio, despem-se e o amor flui. Foi a primeira e última vez que possuiu a imagem de Ulrica. Outro dado interessante, na história de Borges, é que Ulrica é a heroína de diversas histórias de diversos autores. Borges traça, aí, a mescla da oralidade com a escritura.
Bom, os outros contos do livro são igualmentle fascinantes. Não vou comentá-los para que não perca, leitor, a graça da leitura. Nesses dias frios de outono, sirva uma taça de tannat ou malbec para refrescar as ideias, pegue O livro de areia e entregue-se à leitura de seus contos maravilhosos. Esqueça-se da vida e viva as vidas do livro. Depois interfira nesse mundo com sua realidade. A obra foi lançada em 15 de abril pela Folha de São Paulo, dentro de seu projeto de Literatura Ibero-americana, lançando um livro semanalmente. Você ainda pode encontrar o exemplar nas bancas, se preferir esse tipo de edição, por ser mais acessível. A qualidade de edição é boa.

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Jorges Luís Borges. O livro de areia. SP, Cia. das Letras, 2001, 101 pp. R$ 35,00

A edição da Folha, nas bancas, custa R$ 17,90

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sobre herois e tumbas

Sobre heróis e tumbas narra a história trágica de dois jovens, Martín e Alejandra, enquanto retrata um período histórico e social da Argentina da década de 1950. Paralelamente, conta a história da Seita Sagrada dos Cegos, uma seita maléfica espalhada pelo mundo. Esse foco ganha um capítulo que, por sua estrutura independente, já foi lançado como obra autônoma: Informe sobre cegos. Martín, 17 anos, filho de uma mãe que não o ama e de um pai fracassado que odeia, apaixona-se por Alejandra, 18 anos, filha de uma família burguesa decadente. Alejandra era frívola, cruel e alienada do mundo e de si mesma. Quem conta a história de Alejandra para Martín é Bruno, seu amigo conselheiro. O pai de Alejandra, Fernando, era capaz de qualquer coisa para obter o que quisesse, sem medir as consequências de seus atos. O mundo de Fernando era rodeado de certa loucura. Sustentava a teoria de que os cegos tinham uma seita secreta, que era una religião extremista que quería matá-lo.
No decorrer da trama, Alejandra pede a Martín que não a procure mais (foram várias tentativas de separação da parte dela). Durante a noite de 24/06/1955, Alejandra mata o pai e coloca fogo na casa, morrendo os dois queimados. Martín ficou com a alma em pedaços. Decide, então, retomar sua vida na Patagônia, para buscar esquecer seu passado e ter outra oportunidade em um lugar com pessoas desconhecidas.
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Abbadon, el exterminador é o terceiro volume da trilogia. Necessita da leitura dos dois romances anteriores, para ser compreendido. Além do mais, não tem tradução ainda em portugués, o que poderá dificultar sua leitura, posto que a novela não tem enredo linear, misturando ficção e realidade. Os vários assuntos transcorrem durante a década de 1970, quando a Argentina se encontrava em pleno regime militar repressor. Há a descrição de tortura de um preso político de arrepiar os cabelos.
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Ernesto Sabato. Sobre heróis e tumbas. Cia. das Letras, 2002, 624pp
__________ Sobre héroes y tumbas. 2ª ed. Bs. As., Booket, 2008, 552 pp
__________ Abbadon, el exterminador. Bs. As., Seix Barral, 2006, 432 pp

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O túnel

O argentino Ernesto Sabato, antes de ser escritor e artista plástico, envolveu-se com a ciência, a Física, tendo sido doutor em uma de suas áreas. Sua condição humana, entretanto, levou-o a abandonar os estudos científicos e a dedicar-se com firmeza na literatura.
Sabato sempre identificou-se com os fracos e oprimidos da Argentina e do mundo que considerava injusto. El túnel (O túnel), sua primeira novela, escrita em 1948, teve seu reconhecimento merecido pela crítica e público, graças, em parte, ao apoio que recebeu de Camus e intelectuais fora da Argentina, atingindo o sucesso inesperado ao autor que não acreditava muito na qualidade de seu trabalho.
O pintor Juan Pablo Castel está preso, por ter matado Maria Iribarne. Ele a conheceu em um de seus vernissages e percebeu que havia sido a única a compreender sua obra. Apaixonou-se perdidamente, queria manter controle sobre ela. Acontece que Maria é pessoa enigmática, é casada e Juan Pablo suspeita que seja amante de suposto primo. O ciúme dele vira doença.
A história se passa em Buenos Aires. Durante a narrativa são citados lugares como La Recoleta, Posadas e Plaza San Martin.
Ernesto Sábato nasceu em 1911 e morreu em 2011, em Buenos Aires.
El túnel faz da parte da trilogía que inclui as novelas Sobre héroes y tumbas e Abbadon el exterminador, a serem comentadas aquí.
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Ernesto Sabato. O túnel. Cia. das Letras, 2000, 152 pp
__________ El túnel. 9ª ed. Buenos Aires, Booket, 2010 144pp

A edição em português está esgotada, mas se encontra disponível nos sebos virtuais.