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domingo, 1 de janeiro de 2017

32. Mrs. Dalloway

O romance de Virgínia Woolf, publicado em 1925, retrata um dia na vida de Clarissa Dalloway, preparando a festa de seu aniversário. O tempo cronológico compreende o período em que ela sai de casa para comprar flores para enfeitar a casa, até o final da festa, no final da noite. O que movimenta o romance, entretanto, é o tempo interior dela e dos personagens que ela encontra pela rua, alguns deles participarão da festa, e de personagens que surgem à memória dela e deles evocados pelas situações cotidianas de cada um.

Clarissa Dalloway, ao sair de casa, pela manhã, está inebriada pelo gosto da vida, tudo ao seu redor evocam-lhe sensações doces, desde o movimento dos carros, o aroma dos parques com o canto dos pássaros, as cores da cidade, o céu incentivador de coisas boas. Mesmo as situações embaraçosas, como o encontro com Peter Walsh, que a amou na juventude e foi desprezado de forma deselegante por ela. Isso a faz pensar sobre a escolha de Richard Dalloway, o marido; depois Septimus, que ela vê na rua em situação de abandono, perturbado mentalmente em decorrência da Primeira Guerra; a lembrança de Sally Seton, por quem foi atraída e pensa, agora, que talvez pudesse ter sido amor; a chegada em casa e a notícia dada pela criada, de que o marido fora almoçar com uma amiga que não a convidou; o diálogo com a filha Elizabeth, que esboça o desejo de não querer participar da festa, nada disso pode querer fazer de Clarissa uma pessoa infeliz. Será?

A festa de Clarissa nessa noite é um lento sucesso. Nela comparece a maior parte dos personagens que ela encontrou durante o dia, incluindo pessoas do seu passado. Ela ouve falar na festa sobre o suicídio de Septimus, que havia sido internado naquela tarde em um hospital psiquiátrico,  e gradualmente passa a admirar esse ato alheio, que vê como uma tentativa de preservar a pureza da sua felicidade.

O romance tem dois focos narrativos envolvendo dois personagens diferentes: Clarissa Dalloway e Septimus Smith. Em cada narrativa há um determinado tempo e lugar do passado aos quais os personagens principais recorrem com frequência nas suas mentes. Virgínia Woolf mostra o pensamento de Clarissa, no uso de um tempo verbal onde aparentemente as coisas que se movem em um mesmo plano, avance  tão  lentamente, que provoque no leitor a impressão de estar sendo absorvido para o interior deste texto. Esse tempo lhe invade a mente durante todo o dia em Londres,  apresentando-se como a ser disputada por vários pretendentes em sua juventude. Para Septimus,  esse presente prolongado apresenta-se como o tempo em que era soldado durante a Primeira Guerra Mundial, principalmente na forma de Evans, seu companheiro falecido.


Há uma edição recente de Mrs. Dalloway, com tradução de Mário Quintana, pela Civilização Brasileira. A Cosac Naify tem uma tradução de Cláudio Marcondes, que você encontra em ebook ou nos sebos, o livro físico. A Abril Cultural apresenta o romance, junto com Orlando, edição esgotada encontrável nos sebos. Também há a tradução de Tomaz Tadeu, pela editora Autêntica.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Sábado

Henry Perowne é um neurocirurgião conceituado, especializado em operar tumores de cérebro com rara habilidade. Vive confortavelmente em  Londres, é feliz no casamento, tendo uma mulher advogada, uma filha poeta e um filho músico de blues. A vida para ele é quase milimetricamente traçada, tudo corre costumeiramente, sem maiores transtornos.

No sábado  de 15 de fevereiro de 2003, pela manhã, sai para jogar sua partida costumeira com um colega do hospital, para depois, à tarde visitar a mãe em uma clínica, vítima de Alzeimer, para depois retornar à casa para preparar um jantar para o sogro que vem visitar a família. No caminho, é parado no trânsito, devido a uma manifestação contra a invasão do Iraque pelos norte-americanos, em decorrência do atentado de 11 de setembro, pouco tempo atrás. Quando tenta escapar do tumulto através de uma manobra irregular, é atingido por um carro ocupado por três jovens de atitude suspeita. Todos descem dos carros, o jovem que estava à direção propõe uma indenização em dinheiro vivo e Henry recusa. O jovem torna-se violento e o agride. Percebendo que o jovem apresenta sintomas de descontrole muscular, usa de seus conhecimentos profissionais para minar os planos do agressor, dando-lhe o diagnóstico de que o rapaz apresenta suspeita da síndrome de Huntington (informe-se). Essa atitude, que mais tarde Henry classifica de antiprofissional, desconcerta o rapaz, que desiste do caso e vai embora, deixando Henry seguir seu caminho. Esse acontecimento interfere no pensamento de Henry várias vezes durante o dia, embora tente manter sua vida normal, apesar do incidente. À noite, durante o jantar, a casa é invadida pelo jovem perturbado, armado de uma faca. O fato trará consequências graves para o médico e sua família.

A interferência de alguém na vida de um personagem, causando-lhe danos é recorrente na obra de  Ian McEwan.  Em Reparação, uma menina constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou. Em Amor sem fim, um homem prepara um piquenique no campo para festejar a volta de sua mulher de uma viagem, quando um incidente com um balão põe em risco a vida de uma criança.  Um dos homens que o ajuda passa a alimentar por ele uma paixão tão instantânea quanto obsessiva, que chegará aos limites da perseguição e da loucura (leia matéria no blog).

A narrativa de Sábado contém um suspense que prende e incomoda o leitor até o final. O exemplar novo em edição de bolso custa em média R$ 26,00.

Tradução de Rubens Figueiredo.

            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Ian McEwan. Sábado. SP, Cia. das Letras, 2013, 304 pp.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Taça de Ouro

Londres, início do século XX.  A senhora Assingham, casada com um militar aposentado, recebe em sua casa a visita do príncipe italiano Amerigo, vindo a Londres para casar-se com Maggie, jovem aristocrata e rica. Durante o encontro, a senhora Assingham recebe também a visita inesperada da srta. Charlotte, que voltava de Nova Iorque. O que a jovem estaria fazendo ali, a poucos dias do casamento do príncipe com Maggie, amiga de Charlotte? Naquele momento, o príncipe, que se preparava para partir, decide ficar. Para a senhora  Assingham,  ele não estaria ficando para fazer uma pergunta grosseira (quanto tempo ela pretendia ficar hospedada na casa da senhora Assingham?). Havia um ar de suspense no semblante do príncipe, reflexo do medo que tinha da jovem. Será que ela se jogaria em seus braços ou, pelo contrário, seria maravilhosa? Ela veria o que ele iria fazer - foi o que  o estranho minuto de silêncio disse a ela. Mas o que ele poderia fazer, além de deixar claro que faria qualquer coisa, tudo, por ela, do mais honradamente possível? Mesmo que ela se jogasse em seus braços, ele tornaria isso fácil, isto é, desconsiderar, ignorar, não lembrar, e também lamentar. Na verdade não foi isso o que aconteceu, apesar de não ter sido com um simples toque, mas através das gradações mais delicadas, que a tensão dele diminuiu. Charlotte era um produto raro, especial. Sua especificidade, sua solidão, sua carência de posses, isso é, sua carência de ramificações e outras vantagens, contribuíam para enriquecê-la de algum modo com uma neutralidade estranha, preciosa, para constituir para ela, tão distanciada e ao mesmo tempo tão consciente, uma espécie de pequeno capital social.
O príncipe acaba indo embora e a senhora Assingham providencia as acomodações para Charlotte em sua casa. Mas uma dúvida lhe persiste, por que a jovem viera antes e não depois do casamento de Maggie? Tarde da noite, expondo ao marido o incômodo que a perturbava, ficamos sabendo que Charlotte e Amerigo haviam sido amantes na Itália, mas o relacionamento não fora adiante, talvez porque a Charlotte interessasse um homem de posses e o príncipe estava praticamente falido. Temendo que alguma coisa pudesse comprometer o casamento de Maggie, a senhora Assingham arma uma estratégia para casar Charlotte com um nobre inglês, bastante amigo do príncipe Amerigo.

A taça de ouro, obra-prima de Henry James,  um dos principais introdutores do fluxo de consciência na narrativa, é marcado pela dúvida, pelas impressões, pelas ações decorrentes disso por parte de quem imagina a partir daquilo que vê. Num primeiro momento é o olhar da senhora Assingham sobre Maggie, o príncipe e Charlotte. No segundo momento é o olhar de Maggie sobre o marido e Charlotte. História longa e envolvente, é indicado para quem gosta de literatura acima dos joelhos. Vale a pena!

Tradução de Alves Calado
                                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Henry James. A taça de ouro. Rio, Record/Best Bolso, 2009, 574 pp, R$ 25,00
 

 

 

domingo, 10 de março de 2013

Middlemarch, um estudo da vida provinciana


George Eliot (1819/1880) era mulher. Seu nome feminino era Mary Ann Evans. Feia, sem dote e sem posses, iniciou seus esforços no sentido de adquirir cultura de forma autodidata, pois a  mulheres do seu tempo só lhes restavam o ensino de boas maneiras, belas-artes, piano, religião e bordados. Tinha personalidade marcante. Fugiu com um homem casado, numa época em que tal atitude chocava a moral protestante. Chamava-se George Eliot e era escritor. Foi ele que a incentivou a escrever romances. Foi dele que Mary Evans adquiriu o pseudônimo com que se tornou conhecida, rica e famosa como escritora. Essa atitude não adviria de um ato de submissão ao marido, pelo contrário, teria sido uma forma de homenagear o grande amor de sua vida, que a incentivou a escrever.
Dorothea, a jovem heroína de Middlemarch, é cheia de bondade. O desejo de aprender e partilhar a cultura então exclusiva dos homens, faz com que se case com um senhor trinta anos mais velho que ela, rabugento, doentio, egoísta, mas supostamente culto. A autora nos mostra, nessa fase da vida de Dorothea, os equívocos do casamento como ilusão ou negócio, não como uma troca, retratando, assim, a sujeição degradante em que as mulheres viviam. Quando o marido morre, deixa-a muito rica. Deixa também um testamento que ordena a perda de seus bens, caso ela se case com um primo do marido, que lhe nutria um amor que não conseguia esconder.
Viúva, decide acordar da gaiola de luxo a que fora submetida, enfrenta a oposição da família, as opiniões da cidade e as convenções do mundo para realizar seu amor, mesmo tendo de perder a riqueza que não a fazia feliz. Há toques feministas no romance, embora as mulheres não sejam poupadas, quando a vida provinciana é exposta pelo que tem de mais fútil. Dividido em oito partes em suas quase novecentas páginas, Middlemarch tece outros eixos de vida na figura do médico Lydgate, que trouxe à cidade um método diferente de tratar os pacientes. Esse médico casa-se por amor, mas  sua vida é arruinada quando fica endividado para tentar ostentar uma vida burguesa fora de suas possibilidades. Vítima de um complô, perde tudo, mas mantém sua moral com a ajuda de Dorothea. Há também a vida de Garth e sua família, que vive uma vida de dificuldades, mas não abre mão de seus princípios morais.
Para dar credibilidade ao realismo de seu romance, George Eliot se muniu de dados meticulosos sobre o que acontecia no país por volta de 1830, ano da ação do romance. Enfoca o estado de certas áreas de atividade como a medicina, à qual faz críticas ferozes. Todo o mundo das profissões masculinas: uma sequência de figuras caricatas como um leiloeiro pedante, um espertalhão que vende cavalos, um juiz ardiloso, médicos retrógrados, um banqueiro que esconde as falcatruas do passado e a origem de sua grande fortuna sob o pretexto por obras de caridade e hipocrisia religiosa. É um mundo que parece brotar da falsidade e onde a gana por dinheiro silencia os princípios, cheio de teatralidade e astúcia, de palavras belas e vazias, 
Middlemarch, um estudo da vida provinciana é uma história que se lê sem pressa, de forma muito agradável. A tradução do poeta Leonardo Fróes é primorosa. É considerado pela crítica especializada um dos melhores romances do século XIX. A edição brasileira da Record encontra-se esgotada. Existe a edição portuguesa da Relógio d'Água por R$ 103,10 com praso de seis semanas para entrega. Você pode encontrar o romance editado pela Record em sebos virtuais em ótimo estado de conservação, por 40 reais. 

                                                                                              Paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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George Eliot. Middlemarch, um estudo da vida provinciana. Rio, Record, 1998, 884 pp. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Grandes esperanças

Lemos comumente textos divulgados em jornais e redes sociais, testemunhando que se aprende com os erros cometidos. No caso de Pip, o personagem central de Grandes Esperanças, de Charles Dickens, as virtudes são os acertos que ele faz durante sua trajetória no romance. Grandes esperanças é uma história de redenção moral. O protagonista é um órfão criado num lar humilde que herda uma grande fortuna e imediatamente rejeita os familiares e os amigos. Quando a fortuna desaparece por completo, é obrigado a assumir sua própria ingratidão. Uma das características interessantes de Pip, esse órfão, é que ele é sincero ao confessar seus defeitos, e isso acaba criando nele uma empatia que pode agradar ao leitor. Pip, apesar de ter vergonha de seus pares pobres, é capaz de efetuar boas ações durante a narrativa. É franco com seus sentimentos. Sua franqueza e suas boas ações serão a prova de sua redenção. Durante sua trajetória de altos e baixos, aprende que no encalço do desejo vem sempre a culpa, naquilo que gostaria de ser há aquilo que não pode deixar de ser. O tratamento rígido que recebe da irmã que o criara o faz ver que nada é percebido com tanta intensidade e sentido com tanta intensidade, quanto a injustiça. Isso foi a causa dele ter-se tornado tímido e sensível.
Um dia ele vê-se forçado a ajudar um criminoso em fuga. Sua bondade é reconhecida pelo bandido e isso é parte importantíssima no desenrolar da narrativa. Depois, ele é convidado a frequentar a residência de uma senhora muito rica para brincar com Estella, suposta filha. Ele se apaixona e a senhora lhe propõe mudar de vida, educar-se e ser alguém na sociedade para merecer a jovem. Então Pip passa a ter vergonha do lar e de Joe, seu padastro, um homem tosco, mas profundamente amoroso com Pip. É terrível ter vergonha do próprio lar,talvez seja a mais negra ingratidão. O lar nunca fora o lugar muito agradável para ele, devido ao temperamento de sua irmã. Antes, ele acreditava que o seu lar era o modelo correto de viver e conviver. Que a ferraria de Joe era o caminho da maturidade e independência. Um ano depois, entretanto, convivendo com Estella, tudo aquilo passa a ser-lhe grosseiro e vulgar. Passa a pensar ser vergonhoso se um de seus novos amigos um dia pudesse visitar sua casa humilde. A partir do momento em que Pip muda-se para Londres, muitas coisas acontecem. Seu espírito contraditório acaba levando-o à ruína, mas lhe traz a maturidade necessária para compreender que as grandes esperanças que tem em relação à vida incluem, no caminho, o reconhecimento do amor e da justiça.
O romance foi publicado originalmente em três volumes no ano de 1861, depois de ter sido publicado em folhetim um ano antes. Dickens, assim como Machado de Assis, José de Alencar e inúmeros escritores dessa época, publicavam seus romances em capítulos nos jornais. Por causa disso, sua técnica narrativa é muito bem amarrada. O final de cada capítulo leva o leitor a querer continuar a leitura do capítulo seguinte. Muito bem escrito, apresenta uma linguagem poética cativante.
Charles Dickens (1812-1870)nasceu na Inglaterra. Sua vida transcorre durante o período vitoriano, com a ascensão da Revolução Industrial, que trouxe progresso à nobreza e miséria à classe trabalhadora que surgia então. Sua obra transparece a crítica social a esse estilo de vida, que ele considerava injusto. Sua obra apresenta, assim, traços realistas. Seus romances apresentam, quase sempre, órfãos como heróis. Não raro, certo tom pessimista no futuro de seus personagens. É dos grandes da literatura universal.
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Charles Dickens. Grandes esperanças. SP, Penguin Companhia, 2012, 704 pp. R$ 37,00