O texto da capa que divulga O jogo da amarelinha diz que se trata da história de Oliveira e Magda, os amigos do Club da Serpente, das caminhadas por Paris em busca do céu e do inferno. Em contrapartida, temos a aventura simétrica de Oliveira, Talita e Traveler numa Buenos Aires marcada pelas recordações.
O surgimento de O jogo da amarelinha em 1963 foi uma verdadeira revolução dentro da novelística em língua espanhola. Pela primeira vez levava-se às últimas conseqüências a vontade de transgredir a ordem tradicional da história e a linguagem para contá-la.
São no mínimo dois romances dentro do romance. Cortázar convida o leitor a escolher uma das duas possibilidade que o livro oferece: a primeira, ler a história de forma linear até o capítulo 56, quando termina o romance. A segunda, ler a partir do capítulo 73, seguindo a orientação indicada ao final de cada capítulo. A segunda possibilidade tem a ver com o jogo da amarelinha. Você avança, retrocede, avança novamente e assim sucessivamente. É um jogo de leitura deveras interessante.
O Jogo da Amarelinha é uma espécie de anti-romance, sem enredo convencional, sem suspense, sem comentários psicológicos, quase desprovida de uma descrição e cronologia, elementos que captam a descontinuidade e a desordem da vida. A jornada de Oliveira, o protagonista, começou em Paris, onde sua amante Magda e seu filho mais novo, conversam na sala que se torna o centro da reunião do grupo de amigos, artistas e intelectuais que, juntamente com Magda e Oliveira são os parceiros no diálogo que completa a maior parte do texto.
Em Buenos Aires, no decorrer da hstória, Oliveira trabalha com seus amigos, o casal Talita e Traveler, primeiro em um circo e em seguida num asilo, onde Oliveira é considerado, possivelmente, um louco suicida.
A novela termina de forma ambígua, mais hipotética que real. Faz os leitores mergulharem numa tentativa de encontrar outra maneira de enxergar o que seja nossa realidade.
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Julio Cortázar. O jogo da amarelinha. 6ª Ed. Civlização Brasileira, 1999, 640p.
__________ Rayuela. 2ª Ed., Buenos Aires, Punto de Lectura, 2008, 734 p.
domingo, 29 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
Duas vezes João Gilberto Noll
Harmada
Um homem com uma ferida na perna abandonado próximo a um matagal. Sabe-se que é ator de teatro. Está num momento conversando com um menino, depois aparece numa casa para tomar banho. Lá conhece um rapaz e já estão num bar. No bar conhece um sujeito manco que o leva a tomar banho no rio. De repente está sozinho no rio. Depois consegue um emprego, casa e não tem filhos: descobre que é estéril. De repente, perde a mulher e o emprego, indo parar num asilo de mendicância onde exerce a função de contador de estórias. Lá aparece uma adolescente, Cris, filha de Amanda, mulher com quem havia transado há 14 anos, quando Cris tinha meses de vida. Um suceder de acontecimentos e lugares surge ao longo da trama.
Críticos afirmam que Harmada apresenta uma escrita esquizofrênica. De fato, nele as palavras apresentam vários sentidos. Os relatos do personagem-narrador são delírios no contato com a realidade. É um ser não incluído no contexto social, um ser desqualificado à procura de algo indefinido, mas dotado da capacidade de transformação, em busca de uma provável identidade, que busca encontrar no país de Harmada.
Harmada é considerado um dos cem romances imprescindíveis da literatura brasileira. Se ainda não o leu, leia que é bem bom.
Afagos e acenos
O narrador-protagonista apresenta seu delírio existencial numa busca erótica compulsiva. Desde garoto já tinha se excitado com um garoto, mais adiante apaixona-se por um seminarista que larga a batina para se tornar engenheiro. É uma paixão louca e platônica. Depois está casado, com um filho adolescente. Em suas fantasias é sempre a presença masculina que movimenta seu desejo erótico. O personagem-narrador sacia seu desejo homoerótico fantasiando amores intensos, com juras de amor que se esmorecem assim que finda o encontro, que quase nunca se repete com a mesma pessoa. É um afago. E um aceno de adeus. O amor é anônimo, alguém surge e desaparece sem deixar lembranças. Após um programa com um massagista de boate guei, lembra-se do amante platônico, o tal engenheiro, que não consegue alcançar. Daí ele morre, e é ressuscitado pelo engenheiro, com um beijo na boca. Daí a história toma um rumo inusitado.
De leitura menos fácil que Harmada, Acenos e Agagos está envolto em humor refinado. Será uma bela experiência de leitura.
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João Gilberto noll. Harmada, SP, Francis, 2003, 104pp
__________ Acenos e afagos, 2ª ed, Rio, Record, 2008, 208pp
Um homem com uma ferida na perna abandonado próximo a um matagal. Sabe-se que é ator de teatro. Está num momento conversando com um menino, depois aparece numa casa para tomar banho. Lá conhece um rapaz e já estão num bar. No bar conhece um sujeito manco que o leva a tomar banho no rio. De repente está sozinho no rio. Depois consegue um emprego, casa e não tem filhos: descobre que é estéril. De repente, perde a mulher e o emprego, indo parar num asilo de mendicância onde exerce a função de contador de estórias. Lá aparece uma adolescente, Cris, filha de Amanda, mulher com quem havia transado há 14 anos, quando Cris tinha meses de vida. Um suceder de acontecimentos e lugares surge ao longo da trama.
Críticos afirmam que Harmada apresenta uma escrita esquizofrênica. De fato, nele as palavras apresentam vários sentidos. Os relatos do personagem-narrador são delírios no contato com a realidade. É um ser não incluído no contexto social, um ser desqualificado à procura de algo indefinido, mas dotado da capacidade de transformação, em busca de uma provável identidade, que busca encontrar no país de Harmada.
Harmada é considerado um dos cem romances imprescindíveis da literatura brasileira. Se ainda não o leu, leia que é bem bom.
Afagos e acenos
O narrador-protagonista apresenta seu delírio existencial numa busca erótica compulsiva. Desde garoto já tinha se excitado com um garoto, mais adiante apaixona-se por um seminarista que larga a batina para se tornar engenheiro. É uma paixão louca e platônica. Depois está casado, com um filho adolescente. Em suas fantasias é sempre a presença masculina que movimenta seu desejo erótico. O personagem-narrador sacia seu desejo homoerótico fantasiando amores intensos, com juras de amor que se esmorecem assim que finda o encontro, que quase nunca se repete com a mesma pessoa. É um afago. E um aceno de adeus. O amor é anônimo, alguém surge e desaparece sem deixar lembranças. Após um programa com um massagista de boate guei, lembra-se do amante platônico, o tal engenheiro, que não consegue alcançar. Daí ele morre, e é ressuscitado pelo engenheiro, com um beijo na boca. Daí a história toma um rumo inusitado.
De leitura menos fácil que Harmada, Acenos e Agagos está envolto em humor refinado. Será uma bela experiência de leitura.
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João Gilberto noll. Harmada, SP, Francis, 2003, 104pp
__________ Acenos e afagos, 2ª ed, Rio, Record, 2008, 208pp
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domingo, 15 de janeiro de 2012
Federico García Lorca
Em 1936, no início da guerra civil, a Espanha perdia um de seus maiores poetas, já convertido numa das primeiras vítimas da violência franquista brutal que iria se abater sobre o país. Morto aos 38 anos, quando estava pleno de vida e de projetos literários, García Lorca transformou-se em lenda. Em Federico García Lorca, uma biografia, de Ian Gibson, um dos mais completos biógrafos de Lorca, alguns mitos são quebrados e sua rica personalidade se ilumina e se ressalta.
Segundo o biógrafo, Lorca nasceu de uma família importante da aristocracia rural do interior de Granada, cercado de amor e carinho pelos pais, que sempre o incentivaram a seguir seu desejo de ser poeta, sustentando-o financeiramente até a idade adulta. A sensibilidade de Lorca se desenvolveu na poesia, dramaturgia e na música, pois era um pianista competente e um cantor razoável, que buscava sempre enaltecer a musicalidade do meio rural, trazendo à luz a musicalidade advinda da cultura oral de sua região.
García Lorca tinha uma personalidade sedutora, cativante e encantadora. De gênio extrovertido, sempre alegrava a seus pares, tocando sua música e declamando seus versos. Quem se aproximava dele ficava-lhe amigo para sempre. Foi contemporâneo de Dámaso Alonso, Salvador Dalí, Luís Buñuel, Miguel de Unamuno, Jorge Guillén e Rafael Albertí, entre outros. Todos esses tiveram contato direto com Lorca. A relação que mais lhe marcou, certamente, foi a com Salvador Dalí, pois foram amigos íntimos, com fortes rumores de terem sido amantes, pois García Lorca era homossexual não assumido.
Quando a veia de dramaturgo se manifestou de maneira irreversível em sua criação artística, sentiu necessidade de desenvolver um projeto, envolvendo a criação de um teatro universitário itinerante, para representar obras clássicas de Cervantes, Lope de Veja e Calderón de La Barca nas aldeias e vilas da zona rural da Espanha, tão privadas de vida cultural. Esse grupo, ficou conhecido a partir de então de A Barraca, sob o comando de Lorca. Durante o período republicano que antecedeu ao franquista, o grupo recebia incentivo financeiro do governo. Os direitistas logo passaram a questionar aquele empreendimento subsidiado pelo Estado, que consideravam pouco mais que um pretexto para a disseminação da propaganda marxista. Católico fervoroso, García Lorca sempre defendeu os pobres e injustiçados, mas nunca se considerou um marxista nem participou do partido comunista espanhol, onde alguns intelectuais amigos seus participavam. Mesmo assim, quando de sua prisão, esses acontecimentos foram propagandeados pelos fascistas para prender e assassinar García Lorca.
O fato de Lorca ter-se pronunciado publicamente contra o regime opressor protofascista e denunciar as injustiças sociais, além do ataque ao grupo teatral, talvez tivessem sido motivo para sua prisão e assassinato 1936. Lorca fora avisado por amigos para que não saísse de Madri, o que ele não fez, preferindo voltar a Granada para junto dos pais, em Granada. Margarita Xirgú, famosa atriz espanhola que representou algumas peças de Lorca com sucesso o incentivou a partir com ela para o México em turnê. Lorca relutou. Quando já estaria com a passagem de navio no bolso para partir, foi quando rebentou a guerra civil e ele feito prisioneiro. Muitos amigos e intelectuais importantes de Espanha (inclusive quem tinha alinhamento à direita política) intervieram a seu favor, em vão. Lorca foi fuzilado com outros presos num local deserto e enterrado em vala comum ali mesmo.
Quanto à dramaturgia de Lorca, tinham suas raízes na paisagem e no lugar de sua infância. A musicalidade de suas peças tinha a forte presença do cante jondo, centrado na cultura andaluza de cunho popular. Suas obras principais: Dona Rosita, a solteira, Bodas de Sangue (o maior sucesso de Lorca dentro e fora da Espanha), Yerma e A Casa de Bernarda Alba, entre outras. Em sua poesia destacam-se o Romancero Gitano e Ode a Walt Whitman.
Federico García Lorca, uma biografia, é de leitura fácil e agradável. Há certa obsessividade do biógrafo em buscar provas (não comprovadas) da sexualidade de Lorca e sua vida amorosa. Não há nenhuma carta, nenhum depoimento de amigos, que se refira ao desejo sexual escondido do poeta, embora sua homossexualidade fosse percebida e comentada no meio social de Lorca. Salvador Dalí, que tivera um relacionamento íntimo de amizade com Lorca, nunca se referiu ao provável romance dele com o poeta.
========================
Ian Gibson. Federico García Lorca, uma biografia. SP, Globo, 1989, 604 pp
A obra em questão está esgotada, mas pode ser adquirida em sebos da estante virtual: http://www.estantevirtual.com.br/
Segundo o biógrafo, Lorca nasceu de uma família importante da aristocracia rural do interior de Granada, cercado de amor e carinho pelos pais, que sempre o incentivaram a seguir seu desejo de ser poeta, sustentando-o financeiramente até a idade adulta. A sensibilidade de Lorca se desenvolveu na poesia, dramaturgia e na música, pois era um pianista competente e um cantor razoável, que buscava sempre enaltecer a musicalidade do meio rural, trazendo à luz a musicalidade advinda da cultura oral de sua região.
García Lorca tinha uma personalidade sedutora, cativante e encantadora. De gênio extrovertido, sempre alegrava a seus pares, tocando sua música e declamando seus versos. Quem se aproximava dele ficava-lhe amigo para sempre. Foi contemporâneo de Dámaso Alonso, Salvador Dalí, Luís Buñuel, Miguel de Unamuno, Jorge Guillén e Rafael Albertí, entre outros. Todos esses tiveram contato direto com Lorca. A relação que mais lhe marcou, certamente, foi a com Salvador Dalí, pois foram amigos íntimos, com fortes rumores de terem sido amantes, pois García Lorca era homossexual não assumido.
Quando a veia de dramaturgo se manifestou de maneira irreversível em sua criação artística, sentiu necessidade de desenvolver um projeto, envolvendo a criação de um teatro universitário itinerante, para representar obras clássicas de Cervantes, Lope de Veja e Calderón de La Barca nas aldeias e vilas da zona rural da Espanha, tão privadas de vida cultural. Esse grupo, ficou conhecido a partir de então de A Barraca, sob o comando de Lorca. Durante o período republicano que antecedeu ao franquista, o grupo recebia incentivo financeiro do governo. Os direitistas logo passaram a questionar aquele empreendimento subsidiado pelo Estado, que consideravam pouco mais que um pretexto para a disseminação da propaganda marxista. Católico fervoroso, García Lorca sempre defendeu os pobres e injustiçados, mas nunca se considerou um marxista nem participou do partido comunista espanhol, onde alguns intelectuais amigos seus participavam. Mesmo assim, quando de sua prisão, esses acontecimentos foram propagandeados pelos fascistas para prender e assassinar García Lorca.
O fato de Lorca ter-se pronunciado publicamente contra o regime opressor protofascista e denunciar as injustiças sociais, além do ataque ao grupo teatral, talvez tivessem sido motivo para sua prisão e assassinato 1936. Lorca fora avisado por amigos para que não saísse de Madri, o que ele não fez, preferindo voltar a Granada para junto dos pais, em Granada. Margarita Xirgú, famosa atriz espanhola que representou algumas peças de Lorca com sucesso o incentivou a partir com ela para o México em turnê. Lorca relutou. Quando já estaria com a passagem de navio no bolso para partir, foi quando rebentou a guerra civil e ele feito prisioneiro. Muitos amigos e intelectuais importantes de Espanha (inclusive quem tinha alinhamento à direita política) intervieram a seu favor, em vão. Lorca foi fuzilado com outros presos num local deserto e enterrado em vala comum ali mesmo.
Quanto à dramaturgia de Lorca, tinham suas raízes na paisagem e no lugar de sua infância. A musicalidade de suas peças tinha a forte presença do cante jondo, centrado na cultura andaluza de cunho popular. Suas obras principais: Dona Rosita, a solteira, Bodas de Sangue (o maior sucesso de Lorca dentro e fora da Espanha), Yerma e A Casa de Bernarda Alba, entre outras. Em sua poesia destacam-se o Romancero Gitano e Ode a Walt Whitman.
Federico García Lorca, uma biografia, é de leitura fácil e agradável. Há certa obsessividade do biógrafo em buscar provas (não comprovadas) da sexualidade de Lorca e sua vida amorosa. Não há nenhuma carta, nenhum depoimento de amigos, que se refira ao desejo sexual escondido do poeta, embora sua homossexualidade fosse percebida e comentada no meio social de Lorca. Salvador Dalí, que tivera um relacionamento íntimo de amizade com Lorca, nunca se referiu ao provável romance dele com o poeta.
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Ian Gibson. Federico García Lorca, uma biografia. SP, Globo, 1989, 604 pp
A obra em questão está esgotada, mas pode ser adquirida em sebos da estante virtual: http://www.estantevirtual.com.br/
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domingo, 8 de janeiro de 2012
A paixão segundo GH
A escrita é um ato de solidão. Ninguém pode fazer nada a ninguém, a não ser o escritor a si mesmo. A escrita literária é pura abstração poética. Uma das funções da linguagem poética é mostrar as coisas que não acontecem no convívio social. GH não tem memória empírica, é pura abstração. Está no quarto de empregada e logo mais num minarete no deserto. Sonha em se objetivar, mas é medrosa: “Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.” (p.8) Mesmo assim insiste, quer escrever sobre o que não tem controle, quer compartilhar sua individualidade. A paixão segundo GH não é um mergulho na loucura nem no inconsciente por si só. É a luta que deve ser a busca com o mundo. Está tentando dar uma forma à sua desorientação. GH quer a objetividade: “Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo?” (p.16) Ela precisa dizer, mas não sabe como. Ao entrar no quarto da empregada que se fora, para arrumá-lo, depara-se com uma barata no guarda-roupa. Num impulso prensa o inseto na porta do móvel. Pronto! Deu-se o fluxo do inconsciente. Esse é o ponto de partida para a narrativa introspectiva. A personagem, perdida no exercício da memória, esforça-se para reorganizar o seu discurso, solicitando a atenção do leitor como a mão que a apoiará nessa tentativa de reorganização caótica da memória. No romance quase não há ação externa. Ficamos sabendo que mora sozinha, é independente financeiramente, é escultora, fez um aborto e amou um homem, mas esses acontecimentos externos não são desenvolvidos, não adquirirem importância na obra. O que vale é seu labirinto interior.
A paixão segundo GH pode ser considerado um romance metafísico. Trata-se de um monólogo centrado na experiência da linguagem. O eu e a coisa. GH e a barata (que inicialmente é nojenta). O romance é uma narrativa poética, como já se disse. GH efetua uma busca existencial, própria da poesia. O tempo interior é o que predomina, com suas angústias e seus gestos.
“Viver não é coragem, saber que se vive é a coragem.” (p.20)
=======================
A paixão segundo GH. 6ª ed., Nova Fronteira, 1979, 176 pp
*** Esta crônica é dedicada a Rosa Ibaños, pelo incentivo
A paixão segundo GH pode ser considerado um romance metafísico. Trata-se de um monólogo centrado na experiência da linguagem. O eu e a coisa. GH e a barata (que inicialmente é nojenta). O romance é uma narrativa poética, como já se disse. GH efetua uma busca existencial, própria da poesia. O tempo interior é o que predomina, com suas angústias e seus gestos.
“Viver não é coragem, saber que se vive é a coragem.” (p.20)
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A paixão segundo GH. 6ª ed., Nova Fronteira, 1979, 176 pp
*** Esta crônica é dedicada a Rosa Ibaños, pelo incentivo
domingo, 1 de janeiro de 2012
Quatro histórias de Graciliano Ramos
A obra de Graciliano Ramos apresenta uma visão amarga e pessimista do mundo, através de seus personagens. Seu estilo primordial é o da precisão, da capacidade de transmitir sensações e impressões com um mínimo de metáforas, só com o jogo vocabular.
Com João Valério, em Caetés (1933), penetramos nesse terreno quase alucinatório que é o homem dentro de si mesmo. Através das reminiscências de sua vida, nos envolvemos no acontecimento central do romance: o adultério. Fazendeiro arruinado que vendera tudo e mudara para a cidade, uma noite dá dois beijos no pescoço de Luísa, mulher de Adrião, seu chefe no trabalho. Rejeitado por ela, sai de lá envergonhado e arrependido com a declaração de amor que fizera. Depois de tempos de insistência, tornam-se amantes. Uma carta anônima revela o idílio. Adrião acaba dando-se um tiro. Com a morte do marido, Luísa rechaça as intenções de João Valério. Paralelamente aos conflitos interiores de João Valério, conhecemos personagens arrogantes, outros de moral duvidosa, numa cidade pequena do interior alagoano. É o primeiro romance de Graciliano Ramos. Apresenta uma falha: quando da morte do marido de Luísa, o destino dela com João Valério sofre um corte, de forma indecisa. Mas isso não prejudica a leitura.
Em São Bernardo (1934), Paulo Honório, aos 50 anos, em completa solidão, decide escrever suas memórias, como se através delas pudesse recuperar algo que perdeu: Madalena, sua mulher já morta. Fazendeiro cruel, impiedoso e destituído de afeto, resolveu um dia casar-se e avistou em Madalena, pobre, solteira já quase chegando aos 30 anos, uma possibilidade que tratou de consolidar. A diferença entre eles era imensa: Madalena era culta, tinha idéias socialistas de amor ao próximo e à justiça social. Expunha atitudes humanas que ele reprimia. Paulo Honório era rude, exercia a posse às pessoas que dependiam financeiramente dele, como se fossem mercadorias. A vida dos dois era um inferno. Madalena lhe mostrava os defeitos e injustiças que cometia, ele as respondia com ofensas e humilhações. Após três anos de brigas e ofensas, Madalena se mata, deixando-lhe um filho que ele não ama. Paulo Honório criara um mundo que se curvava à sua vontade, menos Madalena. Abandonado por empregados próximos a ele, caiu em completa solidão, passou a se afastar das pessoas da cidade. Com a Revolução de 1930, cafeeiros e grandes latifundiários perderam poder. Sua fazenda perdeu prestígio e Paulo Honório perdeu dinheiro. Após três anos da morte de Madalena, numa noite de insônia, decidiu escrever um livro sobre sua vida, que é a história de São Bernardo. Paulo Honório fechou o livro escrevendo uma linha: “estraguei minha vida estupidamente”.
Angústia (1936), terceiro romance de Graciliano Ramos é a história de um crime. Foi publicado graças à ajuda de amigos, pois o escritor encontrava-se preso sob o comando do Estado Novo. O livro apresenta Luís da Silva, funcionário público de origem pobre, remoendo suas lembranças. É necessário chegar ao final do romance para compreender melhor as primeiras páginas do livro. Luís da Silva sai da doença e prostração após 30 dias de convalescença, por causa de um crime que acabara de cometer, motivado por ciúmes. Quando começa a história, portanto, esse fato já aconteceu. Assim como Paulo Honório de São Bernardo, Luís da Silva apresenta o sentimento de posse. Apaixona-se por Marina, moça simples, pobre e fútil. Numa passagem do romance, Luís afirma que construíra dentro dele uma Marina diferente da real, mas que se confundia com ela. Como não a possui, visto que o casamento entre os dois não se realiza, passa a cultivar-lhe um ciúme doentio.
Se Paulo Honório é vítima da arrogância e prepotência, Fabiano, de Vidas Secas, é vítima da seca e da miséria. Homem rude, introspectivo, interiormente mostra-se alguém revoltado com as injustiças que sofre dos mais fortes, ainda que exteriormente baixe a cabeça, sem reação. Ele e sua família vêem-se forçados a migrarem em busca de condições melhores de sobrevivência, já que estão passando fome. No primeiro capítulo, Fabiano, Vitória, sua mulher, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia são retirantes em busca de um novo pedaço de terra. Alojam-se numa fazenda como servidores. A chuva volta ao sertão, a vida melhora um pouquinho. Por fim, o lugar volta a sofrer a seca e Fabiano decide partir em busca de uma terra da promissão nunca atingida. Cada personagem ganha um capítulo, que é como um retrato de apresentação à história. Os capítulos, quase todos, apresentam uma estrutura independente dentro do universo da novela, atuando como módulos. Rico em monólogos interiores, através da técnica do discurso indireto livre, Vidas Secas mostra toda a maestria do escritor Graciliano Ramos. O capítulo O soldado amarelo é uma obra-prima.
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Graciliano Ramos. Caetés. 31ª ed., Record, 2006, 302 pp
____________ São Bernardo. 71ª ed., Record, 2001, 224 pp
____________ Angústia. 65ª ed., Record, 2011 336 pp
____________ Vidas secas. 85ª Ed. Record, 2002 160 pp
Com João Valério, em Caetés (1933), penetramos nesse terreno quase alucinatório que é o homem dentro de si mesmo. Através das reminiscências de sua vida, nos envolvemos no acontecimento central do romance: o adultério. Fazendeiro arruinado que vendera tudo e mudara para a cidade, uma noite dá dois beijos no pescoço de Luísa, mulher de Adrião, seu chefe no trabalho. Rejeitado por ela, sai de lá envergonhado e arrependido com a declaração de amor que fizera. Depois de tempos de insistência, tornam-se amantes. Uma carta anônima revela o idílio. Adrião acaba dando-se um tiro. Com a morte do marido, Luísa rechaça as intenções de João Valério. Paralelamente aos conflitos interiores de João Valério, conhecemos personagens arrogantes, outros de moral duvidosa, numa cidade pequena do interior alagoano. É o primeiro romance de Graciliano Ramos. Apresenta uma falha: quando da morte do marido de Luísa, o destino dela com João Valério sofre um corte, de forma indecisa. Mas isso não prejudica a leitura.
Em São Bernardo (1934), Paulo Honório, aos 50 anos, em completa solidão, decide escrever suas memórias, como se através delas pudesse recuperar algo que perdeu: Madalena, sua mulher já morta. Fazendeiro cruel, impiedoso e destituído de afeto, resolveu um dia casar-se e avistou em Madalena, pobre, solteira já quase chegando aos 30 anos, uma possibilidade que tratou de consolidar. A diferença entre eles era imensa: Madalena era culta, tinha idéias socialistas de amor ao próximo e à justiça social. Expunha atitudes humanas que ele reprimia. Paulo Honório era rude, exercia a posse às pessoas que dependiam financeiramente dele, como se fossem mercadorias. A vida dos dois era um inferno. Madalena lhe mostrava os defeitos e injustiças que cometia, ele as respondia com ofensas e humilhações. Após três anos de brigas e ofensas, Madalena se mata, deixando-lhe um filho que ele não ama. Paulo Honório criara um mundo que se curvava à sua vontade, menos Madalena. Abandonado por empregados próximos a ele, caiu em completa solidão, passou a se afastar das pessoas da cidade. Com a Revolução de 1930, cafeeiros e grandes latifundiários perderam poder. Sua fazenda perdeu prestígio e Paulo Honório perdeu dinheiro. Após três anos da morte de Madalena, numa noite de insônia, decidiu escrever um livro sobre sua vida, que é a história de São Bernardo. Paulo Honório fechou o livro escrevendo uma linha: “estraguei minha vida estupidamente”.
Angústia (1936), terceiro romance de Graciliano Ramos é a história de um crime. Foi publicado graças à ajuda de amigos, pois o escritor encontrava-se preso sob o comando do Estado Novo. O livro apresenta Luís da Silva, funcionário público de origem pobre, remoendo suas lembranças. É necessário chegar ao final do romance para compreender melhor as primeiras páginas do livro. Luís da Silva sai da doença e prostração após 30 dias de convalescença, por causa de um crime que acabara de cometer, motivado por ciúmes. Quando começa a história, portanto, esse fato já aconteceu. Assim como Paulo Honório de São Bernardo, Luís da Silva apresenta o sentimento de posse. Apaixona-se por Marina, moça simples, pobre e fútil. Numa passagem do romance, Luís afirma que construíra dentro dele uma Marina diferente da real, mas que se confundia com ela. Como não a possui, visto que o casamento entre os dois não se realiza, passa a cultivar-lhe um ciúme doentio.
Se Paulo Honório é vítima da arrogância e prepotência, Fabiano, de Vidas Secas, é vítima da seca e da miséria. Homem rude, introspectivo, interiormente mostra-se alguém revoltado com as injustiças que sofre dos mais fortes, ainda que exteriormente baixe a cabeça, sem reação. Ele e sua família vêem-se forçados a migrarem em busca de condições melhores de sobrevivência, já que estão passando fome. No primeiro capítulo, Fabiano, Vitória, sua mulher, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia são retirantes em busca de um novo pedaço de terra. Alojam-se numa fazenda como servidores. A chuva volta ao sertão, a vida melhora um pouquinho. Por fim, o lugar volta a sofrer a seca e Fabiano decide partir em busca de uma terra da promissão nunca atingida. Cada personagem ganha um capítulo, que é como um retrato de apresentação à história. Os capítulos, quase todos, apresentam uma estrutura independente dentro do universo da novela, atuando como módulos. Rico em monólogos interiores, através da técnica do discurso indireto livre, Vidas Secas mostra toda a maestria do escritor Graciliano Ramos. O capítulo O soldado amarelo é uma obra-prima.
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Graciliano Ramos. Caetés. 31ª ed., Record, 2006, 302 pp
____________ São Bernardo. 71ª ed., Record, 2001, 224 pp
____________ Angústia. 65ª ed., Record, 2011 336 pp
____________ Vidas secas. 85ª Ed. Record, 2002 160 pp
domingo, 25 de dezembro de 2011
A Camareira
Linda, 30 anos, solteira, solitária, parece não saber quem é. Diante do espelho nunca encontra a si mesma. Não sabe por que está viva. Um dia, conseguiu trabalho num hotel. De repente, acrescentou um passatempo a seus afazeres: visitar os quartos, mesmos os desocupados, examinando cada marca deixada pelos que se iam, dando vida às coisas imaginárias. A partir daí, passou a bisbilhotar os quartos dos hóspedes na ausência desses. Certa vez, enquanto mexia nas roupas de um hóspede, ele chegou. Subitamente, ela estava embaixo da cama. O medo de ser descoberta a fascinou. No dia seguinte, quando saiu do quarto, percebeu que havia encontrado um sentido na vida. Passou a fazer isso de forma cotidiana. Uma vez o homem recebeu uma prostituta. Linda se apaixonou pela voz de Chiara, seu nome, quis conhecer seu rosto. Durante a manhã, quando saía do apartamento, pegou o número do telefone que Chiara havia deixado sobre a mesa. Passaram-se uns dias e ela criou coragem para lhe telefonar. Marcaram um encontro. Acabaram transando. Quando a prostituta saiu, Linda sentiu curiosidade de saber como seria Chiara verdadeiramente. Como ela lhe havia dito que haveria outro encontro com aquele homem no mesmo quarto, nesse dia Linda chegou antes, como de costume, e pôs-se debaixo da cama à espera. O homem chegou e foi para o banho. Enquanto isso, Linda investigou sua bolsa e encontrou uma foto de um homem com uma mulher, provavelmente sua esposa? Na manhã seguinte, Linda seguiu o homem até sua casa no subúrbio. Dias depois, resolveu ir até lá, enquanto o homem estava com Chiara, para contar a verdade à mulher. Mas não conseguiu. Ao sair, desnorteada, quase é atropelada por um carro. O carro parou na casa da mulher. Seria seu amante? Um dia, Linda viu-se obrigada a tirar férias. Paremos aqui, para não estragar o final da história.
Markus Orths é um escritor alemão nascido em 1969. Todos os seus livros publicados receberam diversas distinções. No Brasil, a única obra traduzida até o momento é este A Camareira, que você vai devorar de uma sentada.
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Markus Orths. A Camareira. Porto Alegre, LPM, 2010, 136 p.
Markus Orths é um escritor alemão nascido em 1969. Todos os seus livros publicados receberam diversas distinções. No Brasil, a única obra traduzida até o momento é este A Camareira, que você vai devorar de uma sentada.
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Markus Orths. A Camareira. Porto Alegre, LPM, 2010, 136 p.
domingo, 18 de dezembro de 2011
O Ofício de Viver
O italiano Cesare Pavese (1908-1950), poeta e romancista, manteve uma atividade intelectual antifacista. Quando o regime fascista fechou a revista em que trabalhava como seu diretor, Pavese foi desterrado no sul da Calábria (1935-36), onde começou a escrever O Ofício de Viver, diário pessoal que acompanha os últimos quinze anos de sua vida. Entretanto, seu posicionamento político nunca apareceu em sua escritura. Nas páginas de seu diário, todo ele escrito na primeira pessoa, afloram tensões obscuras centradas na dificuldade das relações entre os sexos que explodem numa tragédia final, transmitindo um sentido desolado de inutilidade da vida.
Em suas páginas encontramos considerações sobre sua poética, leituras críticas de outros escritores, lado a lado com desabafos e lamentos inflamados sobre sua vida pessoal e suas desilusões amorosas, acompanhados de reflexões sobre a morte, intimamente associado à idéia de suicídio. Dado como encerrado pelo autor cerca de uma semana antes da morte, e por ele próprio assinalados pelos limites cronológicos 1935-1950, constitui, assim, a evidência da trágica decisão consciente e antecipadamente tomada, e que vem ganhando corpo ao longo dos anos, de pôr termo à vida. No diário não há descrições nem alusões ao lugar em que se encontra. Referências a acontecimentos políticos também não se registram. O que se acentua em suas páginas é o clima de solidão. É a sua vida interior e a imagem da sua profunda angústia de viver.
Sobre as mulheres, que são a fonte direta de seu sofrimento, nada revela, nenhum retrato faz delas. São impessoais, despidas de sentimentos e movidas apenas por interesses, quase desumanizadas. O seu destino de perdedor em relação às mulheres tem como marco um acontecimento de 1929, quando ele conhece Tina, comunista e professora e matemática. Ela tivera uma enlace amoroso com um intelectual de esquerda. Pavese, entretanto, apaixona-se por ela. Em maio de 1935 a polícia invade a casa dele e encontra as cartas desse intelectual endereçadas a Tina. Pavese, para agradá-la, aceitara que a correspondência fosse enviada a sua casa. Quando ele regressa do exílio da Calábria, Tina já estava casada. O choque foi muito forte para ele. Jamais conseguiu compreender a atitude dela. A partir de então, Pavese torna-se, como ele mesmo diz de si mesmo no diário, um misógino. As mulheres nunca transmitem uma idéia afetiva, antes de decepção. Passam a representar para ele apenas um objeto de que se desfruta por breves momentos.
Pavese cultivou a idéia do suicídio ao longo de toda a vida, associando-a constantemente ao tema do amor. A autodestruição identifica-se com uma vida que para ele parece de pouca importância, apesar da consolidação do seu sucesso na carreira editorial e na de escritor. A 18 de agosto de 1950, quando ingere os soníferos que o libertariam de viver, escreve as últimas palavras do seu diário: “Tudo isto é asqueroso. Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais.”
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Cesare Pavese. O Ofício de Viver. Lisboa, Relógio D’água, 2004. 404 pp
Além de O Ofício de Viver, Pavese tem os seguintes livros traduzidos para o português:
Diálogos de Leucó. Ed. Cosac Naify. Em 27 de agosto de 1950, quando foi Cesare Pavese encontrado morto em um quarto de hotel em Turim. Ao lado de seu corpo, havia apenas um livro, 'Diálogos com Leucó', no qual escreveu suas palavras de despedida. Escritos em sua maioria entre 1943 e 1946, estes 'Diálogos' entre seres da mitologia grega versam sobre o que Pavese considerava as questões fundamentais da existência humana - o destino, a violência, o amor, a morte, a poesia.
Trabalhar cansa. Ed. Cosac Naify. Poesia. Com um verso mais narrativo, aberto à prosa da vida cotidiana, o autor retratou as noites insones das cidades, as figuras de proletários, camponeses, prostitutas, bandidos, bêbados e mendigos vivendo seu drama diário.
A lua e as fogueiras. Ed. Berlendis & Vertecch. Publicado originalmente em 1950, 'A lua e as fogueiras' é o último e mais bonito romance de Cesare Pavese. Nele, o personagem central retorna rico à cidade de Santo Stefano Belbo, de onde partiu ainda jovem para "fazer a América", pretendendo usufruir uma vida abastada. Não é mais o rapaz obrigado a trabalhar nos campos, mas um homem maduro que agora pode ser um patrão. Numa paisagem em que, aparentemente, nada mudou, encontra tudo transformado. Não só pela passagem do tempo e pelas transformações históricas, mas, principalmente, porque ele próprio mudou. Outro tema típico de Pavese aqui se repete - o retorno com o pensamento à vida de jovem, mas sob a luz dos novos tempos, em busca da identidade do protagonista com um mundo que, obviamente, se transformou. Mas a narrativa demonstra que a busca da identidade não se resolve com o retorno do protagonista ao paese, à sua terra natal. Este se descobre ainda um expatriado, em uma contínua busca de contato com as suas raízes e com seu passado infantil, situação que, no plano biográfico, também era a de Pavese que, não por acaso, situa a história na mesma Santo Stefano em que nasceu.
...
Meu agradecimento especial à tradutora Margarida Periquito, pelas informações imprescindíveis.
Em suas páginas encontramos considerações sobre sua poética, leituras críticas de outros escritores, lado a lado com desabafos e lamentos inflamados sobre sua vida pessoal e suas desilusões amorosas, acompanhados de reflexões sobre a morte, intimamente associado à idéia de suicídio. Dado como encerrado pelo autor cerca de uma semana antes da morte, e por ele próprio assinalados pelos limites cronológicos 1935-1950, constitui, assim, a evidência da trágica decisão consciente e antecipadamente tomada, e que vem ganhando corpo ao longo dos anos, de pôr termo à vida. No diário não há descrições nem alusões ao lugar em que se encontra. Referências a acontecimentos políticos também não se registram. O que se acentua em suas páginas é o clima de solidão. É a sua vida interior e a imagem da sua profunda angústia de viver.
Sobre as mulheres, que são a fonte direta de seu sofrimento, nada revela, nenhum retrato faz delas. São impessoais, despidas de sentimentos e movidas apenas por interesses, quase desumanizadas. O seu destino de perdedor em relação às mulheres tem como marco um acontecimento de 1929, quando ele conhece Tina, comunista e professora e matemática. Ela tivera uma enlace amoroso com um intelectual de esquerda. Pavese, entretanto, apaixona-se por ela. Em maio de 1935 a polícia invade a casa dele e encontra as cartas desse intelectual endereçadas a Tina. Pavese, para agradá-la, aceitara que a correspondência fosse enviada a sua casa. Quando ele regressa do exílio da Calábria, Tina já estava casada. O choque foi muito forte para ele. Jamais conseguiu compreender a atitude dela. A partir de então, Pavese torna-se, como ele mesmo diz de si mesmo no diário, um misógino. As mulheres nunca transmitem uma idéia afetiva, antes de decepção. Passam a representar para ele apenas um objeto de que se desfruta por breves momentos.
Pavese cultivou a idéia do suicídio ao longo de toda a vida, associando-a constantemente ao tema do amor. A autodestruição identifica-se com uma vida que para ele parece de pouca importância, apesar da consolidação do seu sucesso na carreira editorial e na de escritor. A 18 de agosto de 1950, quando ingere os soníferos que o libertariam de viver, escreve as últimas palavras do seu diário: “Tudo isto é asqueroso. Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais.”
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Cesare Pavese. O Ofício de Viver. Lisboa, Relógio D’água, 2004. 404 pp
Além de O Ofício de Viver, Pavese tem os seguintes livros traduzidos para o português:
Diálogos de Leucó. Ed. Cosac Naify. Em 27 de agosto de 1950, quando foi Cesare Pavese encontrado morto em um quarto de hotel em Turim. Ao lado de seu corpo, havia apenas um livro, 'Diálogos com Leucó', no qual escreveu suas palavras de despedida. Escritos em sua maioria entre 1943 e 1946, estes 'Diálogos' entre seres da mitologia grega versam sobre o que Pavese considerava as questões fundamentais da existência humana - o destino, a violência, o amor, a morte, a poesia.
Trabalhar cansa. Ed. Cosac Naify. Poesia. Com um verso mais narrativo, aberto à prosa da vida cotidiana, o autor retratou as noites insones das cidades, as figuras de proletários, camponeses, prostitutas, bandidos, bêbados e mendigos vivendo seu drama diário.
A lua e as fogueiras. Ed. Berlendis & Vertecch. Publicado originalmente em 1950, 'A lua e as fogueiras' é o último e mais bonito romance de Cesare Pavese. Nele, o personagem central retorna rico à cidade de Santo Stefano Belbo, de onde partiu ainda jovem para "fazer a América", pretendendo usufruir uma vida abastada. Não é mais o rapaz obrigado a trabalhar nos campos, mas um homem maduro que agora pode ser um patrão. Numa paisagem em que, aparentemente, nada mudou, encontra tudo transformado. Não só pela passagem do tempo e pelas transformações históricas, mas, principalmente, porque ele próprio mudou. Outro tema típico de Pavese aqui se repete - o retorno com o pensamento à vida de jovem, mas sob a luz dos novos tempos, em busca da identidade do protagonista com um mundo que, obviamente, se transformou. Mas a narrativa demonstra que a busca da identidade não se resolve com o retorno do protagonista ao paese, à sua terra natal. Este se descobre ainda um expatriado, em uma contínua busca de contato com as suas raízes e com seu passado infantil, situação que, no plano biográfico, também era a de Pavese que, não por acaso, situa a história na mesma Santo Stefano em que nasceu.
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Meu agradecimento especial à tradutora Margarida Periquito, pelas informações imprescindíveis.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Do amor e outros demônios
Do amor e outros demônios foi escrito pelo escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez em 1994. Sierva Maria, filha de um casamento sem amor, é criada pelos escravos negros da propriedade onde vivia. Aos 12 anos é mordida por um cão raivoso e isso acaba trazendo preocupações a seu pai, que acreditava que a menina pudesse, então, estar possuída pelo demônio. A partir daí, aproxima-se mais da filha, busca ajuda de um médico ateu, do bispo da região, que lhe apresenta um padre exorcista que acaba, no decorrer da história, apaixonando-se pela menina. Sierva Maria é internada num convento, a pedido do bispo, onde passa a sofrer uma série de torturas. A novela tem um final trágico. Alguns personagens da história:
Sierva María – nasceu no dia 07 de dezembro, dia de Santo Ambrósio (o santo que, segundo a tradição, pregava a importância da virgindade e do culto à Virgem Maria). Nasceu de 7 meses, com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Quase morreu, mas foi salva por Dominga Del Adviento, uma escrava, que prometeu a seu santo de guarda que, se ela vivesse, seu cabelo não seria cortado até que se casasse. Por isso, tinha imensa cabeleira que caía-lhe aos pés. Herdou do pai a timidez e o isolamento. Seu modo de ser era tão sigiloso que parecia uma criatura invisível. Analfabeta até a adolescência, assimilou a cultura dos negros, com eles convivendo por quase todo o tempo, até que seu pai a trouxe para dentro de casa e tratou de civilizá-la. Era chamada entre os negros de Maria Mandinga. Ao ser mordida por um cão raivoso, surgiram suspeitas de que estaria possuída pelo demônio. Foi internada no convento das monjas “enterradas vivas”. Tinha acessos de fúria quando tentavam tirar seus colares de yorubá do pescoço. Algumas monjas, escondidas, aproximavam-se dela para pedir-lhe favores impossíveis, como se fosse uma santa.
Ygnacio – pai de Sierva Maria, era um homem débil desde a juventude. Custou a aprender a ler e escrever. Cresceu com certos sinais de retardo mental. Seu primeiro sintoma de vida fui quando se tomou de amores por Dulce Olívia. considerada louca. Foi a primeira paixão platônica de Ignacio. Correspondiam-se por bilhetes. Quando Ignácio decidiu casar-se com ela, o pai o desterrou em uma de suas fazendas. Mais tarde seu pai ameaçou-o com clausulas testamentarias, obrigando-o a casar-se com Olalla, uma mujer bela e com muitos talentos. Foi um casamento sem sexo. Olalla intentou vencer o obstáculo através da música, mas morreu fulminada por um raio sem consegui-lo. Mais tarde é obrigado a casar-se com Bernarda, mulher que odiou a vida inteira.
Bernarda – mestiça, seduziu Ignacio até fazer sexo com ele. Engravidou e a situação o obrigou a casar-se com ela. Foi um casamento cercado de ódio. Bernarda não amava a filha, antes tinha-lhe temor. Com um furor insasiável de sexo, comprou um negro, Judas, que se tornou seu amante, sem que Ignacio se opusesse. Quando soube que a filha havia sido internada no convento, abandonou o marido, levando o que pôde de riqueza desses 12 anos de má convivência.
Cayetano deLaura – padre exorcista chamado para exorcizar Sierva Maria, mas acaba apaixonando-se por ela. Dialogava muito sobre a menina com o bispo (havia fuxicos de que Cayetano seria seu filho ilegítimo) e com o médico Abrenúncio. Um dia disse ao médico que no seminário lhe haviam proibido um livro e ele ficara curioso de saber o nome da obra. O médico lhe diz que o livro era o Amadis de Gaula, que conta o relato dos amores furtivos entre um rei e uma infanta, que deram lugar a uma criança abandonada numa barca. A criança, Amadis, é criada pelo cavaleiro Gandales. Mais tarde, Amadis vai em busca das suas verdadeiras origens, o que o leva a meter-se em fantásticas aventuras, sempre protegido pela feiticeira Urganda e perseguido pelo mago Arcalaus, o encantador. Passa por todo o tipo de perigosas aventuras, pelo amor da sua amada Oriana. Nas versões iniciais, a união dos dois tem fins trágicos.
Médico Abrenúncio – solteiro, judeu, ateu. Quando Ignácio internara a filha no convento para o exorcismo, foi contra. Achava que as feitiçarias dos negros sacrificavam animais, enquanto a igreja sacrificava pessoas. Abrenúncio é importante na narrativa, porque em sua conversa com Delaura sobre a possessão de Sierva Maria, consegue fazer ver a Delaura, que este está apaixonado por ela. Sierva Maria, assim, é o demônio do amor que ele não precisaria exorcizar.
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Garcia Marquez. Do amor e outros demônios. 9ª ed, Record, 1996.
García Marquez. Del amor y otros demónios. 16ª ed., Debolsillo, 2009
domingo, 4 de dezembro de 2011
Terra nostra, de Carlos Fuentes
John Elliot, no prefácio à edição de Terra nostra pela editora Seix Barral, escreve que o romance está impregnado de um sentido de passado. A estória rica e complexa de Fuentes, tem como tema a História. O autor, como historiador, busca evocar o passado, ao mesmo tempo que o interpreta. A novela de Fuentes tem como intuito trazer a influência do passado no presente e interpretá-lo em relação ao futuro. O presente, igualmente, influencia na forma como se vê e se compreende o passado. O historiador, ou o narrador ou o cronista do enredo múltiplo (são várias historias que se misturam), é o guardião da memória. Aquele que escolhe recordar do passado o que sobrevive e dá forma a um futuro.
Terra nostra apresenta um México nativo do autor como uma nação resultante da contundente imposição da civilização espanhola do século XVI às civilizações astecas e maias. As civilizações hispânica e indígena têm pontos de vista diferentes sobre o tempo. Para os habitantes do México prévio à conquista, o tempo era cíclico; para os espanhóis da era do Renascimento e da Contrarreforma, o tempo era linear, culminando na grande apoteose do Juízo Final.
El Escorial, palácio mandado construir por Felipe II é central na história, porque dali a Espanha trata de impor sua visão de mundo a um México conquistado. A Espanha que subjuga e coloniza o México é a rígida e intolerante Espanha da Contra-Reforma.
A história de Terra nostra, a fábula, é o destino de três irmãos, filhos bastardo do Senhor (Felipe II), todos com uma cruz vermelha nas costas e seis dedos em cada um dos pés. Na primeira parte da obra, El viejo mundo, passa-se na Espanha, quando o rei discute com seu cronista os valores da existência. Fuentes incorpora no enredo figuras desse mundo, a partir de A Celestina, de Fernando de Rojas, Don Juan, de Tirso de Molina e Don Quijote, de Cervantes. A Celestina é obra de transição entre a Idade Média e o Renascimento. Nela são retratados os vícios e defeitos de uma sociedade moralista. A Celestina é uma alcoviteira e dona de prostíbulo, que amarra casamentos à base do dinheiro. Acaba, assim, juntando Calisto e Melibea, que representam a paixão descontrolada e destrutiva, alheios à razão. Don Juan, o burlador de Sevilla, apresenta o comportamento imoral de um homem que seduz as mulheres com falsas promessas de casamento, com a finalidade única de fazer sexo com elas e depois abandoná-las. Don Quijote é a história por demais conhecida, do cavaleiro da triste figura. Em Terra nostra, as personagens dessas três obras se misturam e passam a refletir a moral oficial deformada da Igreja e dos poderosos da época.
Na segunda parte do romance, El mundo nuevo, o cenário é o México da época do descobrimento da América pelos espanhóis, o confronto do tempo cíclico dos selvagens, com a realidade linear dos descobridores. Carlos Fuentes narra o mito de Quetzalcóatl, uma mistura de ave plumada com serpente, venerada pelos astecas e mais. Quetzalcoatl representa as energias telúricas e também a vida, a abundância da vegetação, o alimento físico e espiritual para o povo. Posteriormente passou a ser cultuado como deus, representante do planeta Vênus, correspondendo à noção de morte e ressurreiçao. Uma das representações desse deus, segundo fontes orais, seria a de um homem branco, barbudo e de olhos claros. Alguns historiadores acreditam que os astecas viram no explorador Hernán Cortés a figura de Quetzalcoatl, o que teria facilitado a subjugação espanhola sobre os povos nativos do México.
A terceira parte, El otro mundo, volta à Espanha da Contra-Reforma, mas dá saltos no tempo em relação ao passado, presente e futuro. Surge a história da formação da Itália e sua constituição política, surge o México dos caudilhos, Paris dos fugitivos políticos. Há uma passagem interessante de Ludovico, quando este regressa do Novo Mundo e conversa com o Senhor Felipe II e este lhe pergunta: “Então, triunfaste tu. O sonho foi realidade”, ao qual Ludovico responde: “Não, Felipe, triunfaste tu, o sonho foi pesadelo. A mesma ordem que quiseste para a Espanha foi trasladada à Nova Espanha, as mesmas hierarquias rígidas, vesticais, o mesmo estilo de governo. Para os poderosos, todos os tipos de direitos e nenhuma obrigação; para os fracos, nenhum direito e todas as obrigações. O novo mundo foi povoado por espanhóis enervados pelo luxo inesperado, o clima, a mestiçagem, as tentações de uma injustiça impune”. Eu li Terra nostra no original, mas há a tradução de Olga Savary pela Nova Fronteira, 1982, que se pode garimpar nos sebos. É um livro pesado, exige alguma pesquisa paralela à leitura, mas é de leitura enriquecedora, se tivermos um pouco de paciência.
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Carlos Fuentes. Terra nostra. Barcelona, Seix Barral, 2003. 796pp
Fernando de Rojas. A Celestina. Porto Alegre, LPM, 2008
Tirso de Molina. Don Juan, o burlador de Sevilha. Brasília, Círculo de Brasília, 2004
Cervantes. Dom Quixote. Porto Alegre, LPM, 2005 2vol.
domingo, 27 de novembro de 2011
Prólogos à Biblioteca de Babel
A pedido de seu editor e amigo italiano Franco Maria Ricci, Jorge Luís Borges escreveu uma série artigos sobre seus escritores favoritos para uma edição de contos relacionados à iteratura fantástica. A literatura fantástica de Borges relaciona-se à imaginação, esta sim, fantástica, dos contos árabes, da ficção científica, do absurdo kafkiano entre outras veredas.
Para falar dos ensaios introdutórios de Prólogos de La biblioteca de Babel, é preciso, antes, falar do conto A Biblioteca de Babel, que faz parte do livro traduzido em português, Ficcções. No conto, o mundo consta como uma enorme biblioteca com os mais variados assuntos, alguns de fácil decifração, outros de quase impossíveis decifrações. A biblioteca é constituídas por homens que se dizem bibliotecários. A biblioteca de Babel remete ao mundo da Mesopotâmia, a origem da civilização. O mundo, essa biblioteca, sugere igualmente o caos e o labirinto. Percorrê-lo e o desafio contra a crueldade divina.
Prólogos da Biblioteca de Babel contém 24 prólogos que Borges escreveu para a coleção La Biblioteca de Babel, publicada inicialmente em italiano e depois em espanhol. Selecionados por Borges, os livros que o interam revelam vastas e supreendentes leituras. Nos prólogos, analisa os contos de escritores diversos como Pedro Angonio Alarcon, Voltaire, Leopoldo Lugones, Leon Bloy, Giovanni Papini e P’u Sung-ling, junto a outros como Nathaniel Hawthorne, G. K. Chesterton, Robert Louis Stevenson, Herman Melville, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e H. G. Wells, todos seus autores preferidos. Alguns desses autores têm títulos em português pela LPM. São eles, Jack London (Antes de Adão), Mark Twain (As aventuras de Huckleberry Finn), Voltaire (Cândido ou O otimismo), William Beckford (Vathek), Stevenson (A ilha do tesouro) e Wells (Uma breve história do mundo).
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Jorge Luís Borges. Prólogos a la biblioteca de Babel. Barcelona, Alianza Editorial, 2002.
Para falar dos ensaios introdutórios de Prólogos de La biblioteca de Babel, é preciso, antes, falar do conto A Biblioteca de Babel, que faz parte do livro traduzido em português, Ficcções. No conto, o mundo consta como uma enorme biblioteca com os mais variados assuntos, alguns de fácil decifração, outros de quase impossíveis decifrações. A biblioteca é constituídas por homens que se dizem bibliotecários. A biblioteca de Babel remete ao mundo da Mesopotâmia, a origem da civilização. O mundo, essa biblioteca, sugere igualmente o caos e o labirinto. Percorrê-lo e o desafio contra a crueldade divina.
Prólogos da Biblioteca de Babel contém 24 prólogos que Borges escreveu para a coleção La Biblioteca de Babel, publicada inicialmente em italiano e depois em espanhol. Selecionados por Borges, os livros que o interam revelam vastas e supreendentes leituras. Nos prólogos, analisa os contos de escritores diversos como Pedro Angonio Alarcon, Voltaire, Leopoldo Lugones, Leon Bloy, Giovanni Papini e P’u Sung-ling, junto a outros como Nathaniel Hawthorne, G. K. Chesterton, Robert Louis Stevenson, Herman Melville, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e H. G. Wells, todos seus autores preferidos. Alguns desses autores têm títulos em português pela LPM. São eles, Jack London (Antes de Adão), Mark Twain (As aventuras de Huckleberry Finn), Voltaire (Cândido ou O otimismo), William Beckford (Vathek), Stevenson (A ilha do tesouro) e Wells (Uma breve história do mundo).
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Jorge Luís Borges. Prólogos a la biblioteca de Babel. Barcelona, Alianza Editorial, 2002.
domingo, 20 de novembro de 2011
A morte de Artêmio Cruz
Em A morte de Artêmio Cruz , Carlos Fuentes nos revela os processos mentais de um velho que já não é capaz de valer-se por si mesmo e que se acha prostrado ante a morte iminente e indigna. A técnica narrativa consiste em intercalar o passado, o presente e o futuro da personagem, tendo como pano de fundo a Revoução Mexicana de 1910. O presente narrativo se passa na década de 1950. O mesmo pretexto foi usado pelo autor em sua novela anterior, La región más transparente.Se lá a personagem central é a cidade do México, aqui é o homem que subiu na vida graças às engrenagens do mundo capitalista. Para isso, renunciou a seus preceitos revolucionários do passado.
A história começa quando Artêmio Cruz sofre um ataque.Em seu leito de morte, recusa a extremunção do cura, sabendo que há muito tempo havia deixado de lado a fé. Busca incessantemente prolongar um pouco mais seu martírio. Mãe e filha, à beira do leito do moribundo estão precocupadas com o testamento do velho, que até o momento não lhes havia dito nada sobre isso. Artêmio pensa na mulher a quem nunca amou, na filha que o despreza.
Enquanto essa e outras pessoas se movimentam ao redor de sua cama, seu cerebro se translada em indas e vindas entre o presente e o passado. Recorda dos sucessos que o levaram até onde se encontra nesse momento. Vê-se a si mesmo no ano de 1919, como um joven veterano da Revolução que chegou à fazenda dos Bernal, trazendo noticias à familia de que o filho Gustavo havia sido fuzilado por forças de Pancho Villa. A verdadeira intenção de Artêmio era ganhar a confiança do velho pai de Gonzalo e casar-se com a filha, Catalina, para assim apropriar-se das propriedades da familia. Catalina nunca conseguiu compreender esse amor insosso de Artêmio por ela. Por isso, culpa-se por toda vida pelo fato de não ter sido correspondida. Com a norte do filho, Catalina e Artêmio passam a ter uma vida aborrecida, até que ele se alista novamente para lutar na revolução espanhola e assim escapar de uma relção sem conserto.
Artêmio recorda-se também de outras relações mediocres que teve com outras mulheres, antes de Catalina. Recorda-se, também, dos assentatados da localidade de Perales, seus vizinhos, e de como se apoderou de suas terras. De como foi eleito pela primeira vez deputado, cargo que lhe valeu para todo o tipo de trapaças, subornos e chantagens. Das grandes festas que dava, em que seus convidados riam dele pelas costas.
Pouco antes de sua hora final, revela ao leitor dois epísódios que explicam por que foi o que foi. Num deles, conta como foi capturado pelas tropas de Villa e sentenciado à norte. Foi aí que ele decidiu passar informações ao inimigo e mudar seu objetivo de vida. No capítulo final, entendemos como tudo começou: Artêmio havia nascido num meio rural bem humilde. Durante seus primeiros anos, seu único amigo era o mestiço Lunero, que servia à avó e ao tio alcoólatra de Artêmio. Depois de matar seu tio por tiro acidental, ele foge para Veracruz. Ali, um professor se interessa por ele e o prepara para desempenhar o papel que o levou a lutar na Revolução, antes de perder seus ideais e eleger a traição que o levou a usar o poder, para corromper-se a si mesmo.
La muerte de Artemio Cruz apareceu em 1962. A personagem Artêmio Cruz representa, assim, os paradoxos da história moderna do México, no período da constituição de uma burguesía urbana. Há uma edição em portugués, pela Rocco, esgotada. É possível encontrá-la em sebos virtuais.
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Carlos Fuentes. La muerte de Artemio Cruz. Madrid, Punto de Lectura, 2001
sábado, 12 de novembro de 2011
Carlos Fuentes y La región más transparente
La región más transparente romance do escritor mexicano Carlos Fuentes, é uma novela social. Tem como escopo a Revolução de 1910, no México, embora a ação da trama se desenrole na décadas de 40/50, quando uma burguesia oriunda das classes industrial e latifundiária se estabelece de forma desigual. Carlos Fuentes põe a descoberto a essência injusta dessa sociedade, assim como a frustração provocada pela negação dos valores de justiça social da Revolução de 1910. As classes populares estão impossibilitadas de se realizarem economicamente. As ânsias de poder e de corrupção da burguesia, a falsidade e superficialidade dos ambientes pseudo-intelectuais circulam todo o romance. La región más transparente é uma novela audaz, de denúncia e reflexão, de análise e busca, que logra tramar eficazmente diversas histórias, para brindar um extenso afresco do caótico e turbulento México contemporâneo.
Podemos dizer que a novela é a descrição geral de um só personagem: a cidade, em cuja ebulição se percebem os distintos discursos das distintas classes e castas sociais do México, os distintos tipos humanos (mestiços, criollos, indígenas, assim como estrangeiros assimilados e acomodados), distintas formas de ver o mundo e assimilar a então jovem e crescente modernidade industrial que é filtrada de uma nação que vive o processo de des-composição de uma revolução e o início de uma nova sociedade corrupta.
Das inúmeras personagens da história, cabe referirse à presença de Norma Larragoiti, que foi noiva de Rodrigo Pola, fiho de um revolucionário da Revolução de 1910, mas casou-se com Federico Robles, filho de camponeses de uma das fazendas da família De Ovando, soldado da revolução, advogado e banqueiro conselheiro de companhias estrangeiras. Norma é filha de mãe mestiça e de espanhol pobre, comerciante do norte do país. Seu irmão mora nos Estados Unidos e trabalha como pedreiro, ofício característico dos estratos mais pobres da sociedade. A origem de Norma, então, é visivelmente humilde. A partir de casamento com o banqueiro Federico Robles, tem a possibilidade de participar, de certo modo da elite mexicana. Entretanto, dentro desses grupos de classe alta, tanto Norma como seu marido são criticados por sua origem baixa e tolerados somente por seu dinheiro. Dessa forma, Norma tenta introjetar-se nessa classe social rica, ignorando e rechaçando sua própria origem.
Carlos Fuentes é um dos escritores mais importantes, sólidos e prolíficos da América Latina. Assim o atestam, entre outras, suas novelas La muerte de Artemio Cruz, Cristóbal Nonato, Los años com Laura Diaz e Terra Nostra, que serão comentados em sequencia nas colunas a seguir.
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Carlos Fuentes. La región más transparente. Alfaguara Argentina, 2008. 640 pp
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