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domingo, 1 de março de 2015

O simples coronel Madureira


Domingo... O seu jornal predileto continuava, aberta ou indiretamente, metendo o malho na situação - o preço dos transportes ameaçavam vertical subida, o preço dos gêneros de primeira necessidade não se estabilizavam ao menos, a carne desaparecia dos açougues, o pão das padarias e os remédios das farmácias, organizações estudantis eram fechadas e universidades interditadas, presos políticos eram seviciados, numerosos asilados permaneciam em embaixadas com dificuldades nos passaportes e nos inquéritos instalados cometiam-se os mais criminosos abusos.

O fato é que Madureira, que adorava tomar seu chimarrão todas as manhãs antes de cuidar de seu jardim e de passear com a mulher, recebera o convite do Alto Comando Revolucionário do Exército, para ocupar um cargo importante no Serviço Geral de Abastecimento de Lubrificantes. Com isso, Marques Rebelo nos revela uma deliciosa novela curta de 126 páginas que lemos com prazer. O que mais queria o coronel Madureira, que se aposentara do exército com uma vida boa, mas simples, era gozar a vida. Mas seu trabalho burocrático no tal órgão do exército expõe a ele um trabalho monótono, uma burocracia recheada de cargos nomeados por interesse, até que um dia ele recebe um ofício do Alto Comando, instruindo-o a denunciar todos os funcionários que manifestassem opiniões contrárias ao regime de governo imposto pelos militares.

Não deixa de causar surpresa o fato de O simples coronel Madureira ter sido publicado sem sofrer censura. A obra foi lançada em 1967, quando Costa e Silva assumira o governo, sucedendo Castelo Branco, a poucos dias do Ato Institucional, que restringiu os direitos civis e promoveu o golpe dentro do golpe.
               
                                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Marques Rebelo. O simples coronel Madureira. Rio, José Olympio, 2013, 126 pp R$ 24,00

domingo, 3 de novembro de 2013

O encontro marcado

O encontro marcado é um a história de perdas. Narrado em terceira pessoa, o romance de Fernando Sabino (1923/2004) conta a vida do mineiro Eduardo, filho de classe média, da infância até a transferência para o Rio de Janeiro, para casar-se com Antônia, filha de um ministro do governo Getúlio Vargas.  Tem pendores para romancista, mas se submete a um emprego público arranjado pelo sogro, para manter o casamento.  É nesse ponto que Eduardo entra em crise existencial.  Já não é dono de si mesmo.  Já não sabe em que acredita, não tem tempo para pensar .  A vida de casado o  vai afastando dos amigos, distanciando-lhe o sonho de ser escritor. Não poderá responsabilizar a ninguém  o destino que se deu.  Agora está sozinho no mundo, com uma mulher. Terá de amá-la, sustentá-la, zelar por ela.  Há uma fresta em sua alma por onde a substância do que é está sempre se escapando. Eduardo tem crise de fé: a mão de Deus lhe parece pesada, não parece livrá-lo do pijama, para que possa ser livre, puro. De tudo o que pensa, a partir de então,  ficam três coisas: a certeza de que está sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que será interrompido antes de terminar. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro. O encontro marcado  com sua verdade.  O que pode ajudar Eduardo nessa empreitada  é o fato dele ter sido amado pelos pais na infância e, agora adulto, conseguir enfrentar o medo de si mesmo.
Encontro marcado tem traços autobiográficos de Fernando Sabino, mas é o romance de toda uma geração à procura, não de qualquer coisa, mas de qualquer sentido. No meio de tantas confusões na vida, procura-se um valor. História de adolescência e juventude, de prazeres fugidios, desespero, cinismo, desencanto, melancolia, tédio. Eduardo acumula perdas durante sua vida e  amadurece num mundo desorientado.
Fernando Sabino fez parte do grupo de intelectuais e escritores mineiros que fermentavam o mundo cultural de Belo Horizonte na primeira metade do século XX. Faziam parte do grupo Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos e Helio Peregrino. Mais tarde, todos eles migram para o Rio de Janeiro, juntando-se a Vinicius de Morais, Rubem Braga, Sergio Porto e Antonio Houaiss, só para falar dos escritores.
                                                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Fernando Sabino. O encontro marcado. 81ª ed, Rio, Record, 2006, 368 pp, R$ 34,90