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domingo, 22 de março de 2015

K. Relato de uma busca

Bernardo Kucinski (1937) esclarece o leitor em K. Relato de uma busca,  que "Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu". 

Um homem morou por tinta anos em uma casa e costumava receber de tempos em tempos  cartas de um banco com oferta de produtos financeiros  endereçadas a sua filha que nunca morou lá. De início, questionou como era possível enviar reiteradamente cartas a quem desaparecera há mais de três décadas. Sua filha tinha sido morta pelo regime militar e seu corpo nunca foi encontrado.  Por que teria ela dado esse endereço, se a casa havia sido comprada seis anos depois de seu desaparecimento? De fato, os fugitivos do exército que entravam para a clandestinidade não tinham lares fixos. Talvez ela tivesse dado aquele endereço ao banco como forma de se proteger.

Esse homem é K.,um imigrante judeu, professor emérito, escritor de livros em iídiche,língua que os judeus da Europa oriental falavam e  hoje é língua morta, substituída pelo hebraico após a criação do estado de Israel. Bernardo Kucinski descreve a agonia e a angústia desse um homem que vê a filha desaparecer subitamente, saber que casou no exílio como forma de se proteger ela e o marido em caso de fuga, sem que pudesse participar, bater em diversas delegacias e departamentos do exército e nunca ter uma resposta concreta de que a filha havia sido mesmo sequestrada, sem nunca saber se estaria viva ou morta.

Quem  acompanhou ou tem conhecimento do que foi o doloroso processo de perseguição aos presos políticos, vai reconhecer no livro personagens que remetem a figuras conhecidas do meio repressivo, a maior não nomeada, com exceção do delegado Fleury. Esses acontecimentos, entretanto, ganham fôlego maior pela força da ficção representada pelo personagem K.

O desaparecimento da irmã do escritor durante a ditadura militar serviu de mote para a construção dessa narrativa carregada se suspense, agonia e compaixão.
                                                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Bernardo Kucinski. K. Relato de uma busca. SP, Cosac Naify, 2014, 192 pp, R$ 29,90

domingo, 1 de março de 2015

O simples coronel Madureira


Domingo... O seu jornal predileto continuava, aberta ou indiretamente, metendo o malho na situação - o preço dos transportes ameaçavam vertical subida, o preço dos gêneros de primeira necessidade não se estabilizavam ao menos, a carne desaparecia dos açougues, o pão das padarias e os remédios das farmácias, organizações estudantis eram fechadas e universidades interditadas, presos políticos eram seviciados, numerosos asilados permaneciam em embaixadas com dificuldades nos passaportes e nos inquéritos instalados cometiam-se os mais criminosos abusos.

O fato é que Madureira, que adorava tomar seu chimarrão todas as manhãs antes de cuidar de seu jardim e de passear com a mulher, recebera o convite do Alto Comando Revolucionário do Exército, para ocupar um cargo importante no Serviço Geral de Abastecimento de Lubrificantes. Com isso, Marques Rebelo nos revela uma deliciosa novela curta de 126 páginas que lemos com prazer. O que mais queria o coronel Madureira, que se aposentara do exército com uma vida boa, mas simples, era gozar a vida. Mas seu trabalho burocrático no tal órgão do exército expõe a ele um trabalho monótono, uma burocracia recheada de cargos nomeados por interesse, até que um dia ele recebe um ofício do Alto Comando, instruindo-o a denunciar todos os funcionários que manifestassem opiniões contrárias ao regime de governo imposto pelos militares.

Não deixa de causar surpresa o fato de O simples coronel Madureira ter sido publicado sem sofrer censura. A obra foi lançada em 1967, quando Costa e Silva assumira o governo, sucedendo Castelo Branco, a poucos dias do Ato Institucional, que restringiu os direitos civis e promoveu o golpe dentro do golpe.
               
                                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Marques Rebelo. O simples coronel Madureira. Rio, José Olympio, 2013, 126 pp R$ 24,00