Nesta semana comprei um lote de CDs maravilhosos. Entre eles, o disco de Nélson Freire gravado em Londres em 2010: Chopin The Nocturnes. O som límpido e cristalino do piano fustigou meu sentimento e a vontade de ler a poesia de Cecília Meireles com fundo musical.
A poesia de Cecília Meireles me encanta especialmente pelo poder da metáfora, de criar imagens cristalinas da alma humana, na maioria das vezes sem um tom alentador, posto que o tema central de sua obra é a solidão. Na solidão de si mesmo, o eu-lírico (grosso modo, o eu-lírico seria o equivalente do narrador no romance. Não é o poeta que fala, mas um eu-lírico com o qual nos identificamos ou não) questiona a dimensão humana em várias de suas nuances. No livro Ou isto ou aquilo, com poesias infantis, alguém, uma criança?, questiona a dificuldade de se querer tudo o que se deseja ao mesmo tempo. Leia essa beleza de poema:
Ou isto ou aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Quando crianças, aprendemos a conhecer os limites que vão afunilar nossa existência até o final de nossos dias. Mas a criança não quer saber de limites, ela quer o todo que lhe pode pertencer, o direito a aproveitar a vida do jeito que gosta, fazendo o que lhe der na telha. Seria tão bom se as duas coisas boas pudessem ser curtidas? Entretanto, algo já a perturba metafisicamente: a obrigatoriedade de fazer uma escolha. Por que não se pode querer tudo do que se gosta ao mesmo tempo? À medida que crescemos, continuamos fazendo escolhas a contragosto, deixamos coisas boas de lado, também. Faz parte da vida.
No livro Viagem/Vaga música, temos o poema Canção, em que podemos nos deliciar com o brilho das metáforas. Leia e sinta o significado de sonho, navio, mar e naufrágio na vida de uma pessoa:
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
O que representaria a figura de um navio? Um deslocamento, uma distância vencida, a busca da realização de um sonho, o distanciamento, a separação, a própria representação do sonho,o que mais? O eu-lírico de que lhes falei constrói um sonho em forma de navio e o põe a navegar, para que naufrague. A figura da água aqui é interessante: pode significar a vida, a purificação, o êxito, Nossas emoções e intuições têm a ver com a água. Água é mãe. A água pode ser o que existe para ser vivido desde o momento em que nascemos, até nossa morte. Também é turbulência, violência, desestabilização, agito, confusão... Tanta coisa! O alto grau de pessimismo de quem canta: o sonho se constrói e não se realiza. Não há perspectiva de sucesso na realização das coisas. Tudo se perde. O sonho que morre sem nascer permanece vivo na lembrança como um trauma (minhas mãos ainda estão molhadas/do azul das ondas entreabertas). O naufragar do sonho se dá por uma atitude do eu-lírico, que abriu o mar com as próprias mãos para por tudo a perder. Em contraposição ao azul das ondas entreabertas, se opõem o vento que vem de longe, a noite que se curva de frio e do afogamento de parte importante da vida representada em sonho desacreditado, impossível de acontecer.
O terceiro poema compreende a terceira etapa da vida: a da aceitação. Compreende também a importância do canto (que pode ser entendido como o poema) como um ofício, o trabalho do poeta:
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
O tempo voa, o tempo passa, e a vida continua a ser cantada em poesia. Compreende também o fazer poesia, através de indagações e da investigação da criação poética. Inicialmente, evidencia-se a fugacidade do tempo e do instante como justificativa do canto para preencher a vida. O eu-lírico distancia o sentir do cantar (não sou alegre nem triste/sou poeta). As coisas lhe são fugidias, efêmeras, inconstantes. O que a imagem do vento representa a você, leitor, no poema?
O poema reflete ainda a dúvida diante da vida: não sei se fico ou passo. E encerra com o estado de plenitude. O poder de cantar, que para a poeta é o poder de fazer poesia, retrata o instante, para eternizá-lo. A poesia é a razão de viver de quem canta.
Assim, querido leitor convido você a dar suas impressões, suas interpretações sobre um ou todos os três poemas como comentário do blog. Vamos lá!
domingo, 26 de junho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
A caixa de Pandora
Acabei recentemente a leitura de Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, com tradução, introdução e comentários de Mary de Camargo Neves Lafer. Trata-se de um poema curto, onde o filósofo grego mostra-nos os fundamentos da própria condição humana e deixa transparente que o trabalho é a base da justiça entre os homens, abordando a organização do mundo dos mortais, sua origem, suas limitações, seus deveres. No poema, o relato central da narrativa é o mito de Prometeu e Pandora. Prometeu, um semideus, vivia em perfeita harmonia com Zeus, o deus dos deuses, até o dia em que o titã, num dos sacrifícios, engana Zeus, oferecendo-lhe ossos com gordura de um animal, em vez da carne. Revoltado, Zeus não concede mais o fogo aos mortais. Como Prometeu era astuto, rouba o fogo celeste e o oferece aos homens. Como resposta, Zeus dá-lhe de presente uma mulher, Pandora, o belo mal, o bem e a causa da desgraça para os homens (Prometeu rejeita o presente e sofre consequências trágicas, conforme abaixo). Com ela, instaura-se de forma definitiva a condição humana. Hesíodo situa o aparecimento da mulher com o surgimento de todos os males humanos. Pandora não é somente o mal em si, mas através dela surgem todos os males para os homens. Até então, os homens não precisavam trabalhar para viver. Com o rompimento entre deuses e homens e o surgimento da mulher mortal, acontece a separação entre deus e homens. Surge a sexualidade entre os mortais. Inicia-se a era da cultura. Lembremo-nos de que Prometeu era o criador pelo intelecto, ao contrário de Zeus, que era o criador pelo espírito.
Quem era Pandora? Uma mulher belíssima criada por Zeus com a ajuda de outros deuses, para presentear Prometeu, que astutamente a recusou. Como vingança, Zeus mandou acorrentá-lo a uma coluna na montanha, onde um abutre lhe devoraria o fígado durante o dia, ano após ano. Seu tormento seria eterno: todas as noites seu fígado se regeneraria para ser devorado no dia seguinte. O irmão de Prometeu, Epimeteu, alarmado com o castigo, casa-se com Pandora. E o que faz Pandora? Curiosa, acaba abrindo um jarro (algumas versões do mito mencionam uma caixa) que Prometeu havia dado ao irmão, com a advertência de não abri-lo, pois dentro dele estavam encerrados os males que podiam afetar a raça humana: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, o vício, a paixão. Apenas a esperança, que Prometeu havia capturado no vaso, não saiu. Não se tem uma idéia muito clara do porquê estar a esperança, entre os males enclausurados.
O tarô mitológico vê Pandora de uma forma reconfortante. Pandora é a estrela, a que simboliza a esperança. Representa o lado feminino da natureza humana: o instinto, o sentimento, a imaginação e a intuição que devem nortear as pessoas para a verdade. A esperança de que fala o tarô mitológico, está ligada a algo profundo dentro do ser humano, que muitas vezes chamamos de força para viver. Pandora, a esperança, oferece a fé. Na carta do tarô, o olhar de Pandora está fixo não na infelicidade da condição humana, mas na certeza irracional e inexplicável de que muito em breve uma nova luz brilhará.
Se me permitirem uma interpretação psicológica, o jarro, ou a caixa de Pandora, representam todas as coisas que nos incomodam e amedrontam e que guardamos dentro de nós. Quando liberadas, trazem a esperança de uma vida melhor. Pandora representa uma parte do ser humano que, a despeito das frustrações e desapontamentos, da depressão e das perdas, ainda tem forças para se agarrar ao sentido da vida e ao futuro que poderá superar a infelicidade do passado.
Voltando a Hesíodo, os gregos antigos foram malvados demais com as mulheres, não acham?
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Robert Graves. O grande livro dos mitos gregos. SP, Ediouro, 2008
Hesíodo. Os trabalhos e os dias. SP, Iluminuras, 2009
Sharman-Burke & Greene. O tarô mitológico. SP, Siciliano, 1988,15ª Ed.
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domingo, 12 de junho de 2011
Inverno
Eu adoro o inverno, com dias de céu azul e alguma elevação da temperatura pela tarde, que é quando a gente pode lagartear com casaco, manta, luvas, calça e meias de lã, comendo bergamota. Não uso gorro, me dá comichão na cabeça. Faço uso da manta para proteger as orelhas e o nariz. A manta serve também para filtrar o ar que respiro. O frio nos prende mais em casa. Isso é tão bom! Ficar deitado numa cama com um cobertor de lã e dois travesseiros embaixo da cabeça, ouvindo fone de ouvido ou lendo um livro. Vendo televisão com o split da sala ligado a 27 graus! Inverno também é tempo de receber pessoas, tomar chocolate quente, um vinho tinto com massa à bolonhesa, uma sopa de anholine ou um caldo de legumes com torradas. Inverno é movimento de poucas pessoas reunidas, para que o calor da conversa aqueça a todos e ninguém fique de fora. O inverno marca um traço do espírito do gaúcho. Essa proximidade que temos com Uruguai e Argentina tem muito a ver com o frio. Pena que pelos nossos pagos não possamos ter a mesma infra-estrutura dos castelhanos para enfrentar o frio, especialmente em relação à calefação de lugares públicos, como cafés e restaurantes, por exemplo.
Eu preciso ser egoísta para gostar do inverno. Não preciso enxergar que há pessoas que padecem de frio, com a falta de bens materiais para enfrentá-lo. Há os que ainda vivem com o banheiro fora de casa. Imagine tomar um banho de chuveiro elétrico em condições precárias, às 5h30 da manhã. Menos, imagine sair da cama às 5h30 com um frio de menos 10 graus. Ir para a parada de ônibus e esperar indefinidamente o ônibus para o trabalho. Há os que moram em casas de madeira, que não guardam o calor necessário para que se sintam bem. E os que moram na rua? Com sapatos furados e pés sem meias. Morrendo de frio. É penoso o inverno quando se pensa assim. Há também os que têm boas condições financeiras para enfrentar o frio, mas os pés e as mãos estão sempre gelados. Há os que se deprimem com o frio, ficam melancólicos.
Eu, que durmo até às dez da manhã, não preciso mais trabalhar, tenho condições de ter um chuveiro caudaloso a gás, split na sala e nos quartos, talvez pudesse me dar ao luxo de pensar no meu prazer com relação o frio, deixando os outros que resolvam seus percalços. Mas não é bem assim. Passei 35 anos acordando às seis da manhã, já tive banheiro fora de casa nos primórdios de minha vida de trabalhador. Hoje, tenho tudo ganho com o esforço de meu trabalho. Para usufruir desse conforto e ser feliz, deveria fechar os olhos aos que sofrem o frio rigoroso de uma madrugada gelada. Aos que não conseguem um emprego decente para enfrentar a temporada gerada da terra gaúcha. Aos que amam o calor e sofrem física e psicologicamente as agruras no meio do frio. Minha alma socialista não me faz sentir culpa, tracei esse caminho com muito suor, também. Me faz sentir solidário, ter senso crítico em relação às diferenças. Minha ajuda aos que padecem de frio vai além do mero ato assistencialista. Mas ainda não está suficiente para melhorar o geral. Isso não depende só de mim.
Eu preciso ser egoísta para gostar do inverno. Não preciso enxergar que há pessoas que padecem de frio, com a falta de bens materiais para enfrentá-lo. Há os que ainda vivem com o banheiro fora de casa. Imagine tomar um banho de chuveiro elétrico em condições precárias, às 5h30 da manhã. Menos, imagine sair da cama às 5h30 com um frio de menos 10 graus. Ir para a parada de ônibus e esperar indefinidamente o ônibus para o trabalho. Há os que moram em casas de madeira, que não guardam o calor necessário para que se sintam bem. E os que moram na rua? Com sapatos furados e pés sem meias. Morrendo de frio. É penoso o inverno quando se pensa assim. Há também os que têm boas condições financeiras para enfrentar o frio, mas os pés e as mãos estão sempre gelados. Há os que se deprimem com o frio, ficam melancólicos.
Eu, que durmo até às dez da manhã, não preciso mais trabalhar, tenho condições de ter um chuveiro caudaloso a gás, split na sala e nos quartos, talvez pudesse me dar ao luxo de pensar no meu prazer com relação o frio, deixando os outros que resolvam seus percalços. Mas não é bem assim. Passei 35 anos acordando às seis da manhã, já tive banheiro fora de casa nos primórdios de minha vida de trabalhador. Hoje, tenho tudo ganho com o esforço de meu trabalho. Para usufruir desse conforto e ser feliz, deveria fechar os olhos aos que sofrem o frio rigoroso de uma madrugada gelada. Aos que não conseguem um emprego decente para enfrentar a temporada gerada da terra gaúcha. Aos que amam o calor e sofrem física e psicologicamente as agruras no meio do frio. Minha alma socialista não me faz sentir culpa, tracei esse caminho com muito suor, também. Me faz sentir solidário, ter senso crítico em relação às diferenças. Minha ajuda aos que padecem de frio vai além do mero ato assistencialista. Mas ainda não está suficiente para melhorar o geral. Isso não depende só de mim.
sábado, 4 de junho de 2011
Júlia
O vento voa
a noite toda se atordoa,
a folha cai.
Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa mesma noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?
O poema de Cecilia Meireles remete à chegada da morte: vento, mistério, movimento, passagem da vida. Noite, escuridão, insegurança, medo. Folha, corpo, desprendimento. O eu-lírico se pergunta, existirá pensamento nesse exato momento em que as coisas acontecem e a vida se desprende do corpo? Experimentaremos esse desprendimento no momento exato em que se dá o fim? E depois do fim?
Imagino que a morte seja como o sono sem sonho. Aquele momento de horas em que a gente apaga e acorda com o sonho, na morte é o apagar total. Como a escuridão total. A gente desliga e não há memória, não há mais o tempo, não há mais o ciclo.
Tenho temor à morte. Isso que algumas pessoas dizem, de que gostariam de morrer dormindo, porque daí não sentiriam nada, não sentiriam dor, não saberiam que estariam morrendo... Não sei se esse ato derradeiro seria a melhor maneira de morrer. Nesse momento, talvez eu gostasse de estar vivo para sentir o momento exato: estou apagando. Fim. Tomara que, quando estiver bem velhinho para esse acontecimento, o medo da morte tenha diminuído. Teria aceitado a vida com todas suas conseqüência e limitações. No momento presente, ainda quero fazer mais, muito mais (mesmo que seja o prazer de não fazer nada!). Ainda não li todos os meus livros e quero reler muitos dos que já li. E tenho uma lista enorme de outros tantos para adquirir! Este é um exemplo de muitos outros. Sinal de que a vida vale a pena e não gostaria de deixá-la.
Será que a maturidade que a velhice trará vai me ajudar a resolver esse enigma do medo da morte? Talvez me traga dissabores que me farão modificar essa tendência? Quanto mais envelhecemos, mais “enferrujamos” nosso corpo. Mais doenças, depressões... Não sei. Sinceramente não penso que minha velhice maior será dessa forma. A maneira como me cuido hoje é um objetivo de eficácia para uma velhice menos rabujenta. Entretanto, sabe-se lá a forma como o vento voará no momento, como será a agitação da noite, o desprendimento dessa folha que se irá...
Sou atrapalhado para decifrar inteiramente esse enigma. Ainda é cedo pra isso? Sim, mas trata-se de um dos enigmas da vida. Tenho uma irmã muito querida que está nesse “atordoamento” da noite em relação ao vento, em relação à folha. Ela cuida com dignidade da folha, para que não se desprenda pelo vento. Já venceu muitas turbulências em relação a isso. Ganhou todas. Está segura ainda, e sempre. Já tive vontade de perguntar a ela como se lida com a presença da morte tão perto. Não tive coragem. Disse que ela enfrenta com dignidade e perseverança esse tempo, mas ela pode estar com medo, angustiada, inconformada e esconde isso no silêncio. É que nela não vejo o medo que eu penso que possa sentir num momento como esse. Nela, vejo não resignação (e até possa ser isso), mas a vontade de continuar. E ela avança. Está avançando. Que o vento voe e a folha permaneça presa ao caule mais, bem mais, muito mais. Sem sofrimento!
O poema Epigrama nr. 9 encontra-se no livro Viagem, de Cecília Meireles.
a noite toda se atordoa,
a folha cai.
Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa mesma noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?
O poema de Cecilia Meireles remete à chegada da morte: vento, mistério, movimento, passagem da vida. Noite, escuridão, insegurança, medo. Folha, corpo, desprendimento. O eu-lírico se pergunta, existirá pensamento nesse exato momento em que as coisas acontecem e a vida se desprende do corpo? Experimentaremos esse desprendimento no momento exato em que se dá o fim? E depois do fim?
Imagino que a morte seja como o sono sem sonho. Aquele momento de horas em que a gente apaga e acorda com o sonho, na morte é o apagar total. Como a escuridão total. A gente desliga e não há memória, não há mais o tempo, não há mais o ciclo.
Tenho temor à morte. Isso que algumas pessoas dizem, de que gostariam de morrer dormindo, porque daí não sentiriam nada, não sentiriam dor, não saberiam que estariam morrendo... Não sei se esse ato derradeiro seria a melhor maneira de morrer. Nesse momento, talvez eu gostasse de estar vivo para sentir o momento exato: estou apagando. Fim. Tomara que, quando estiver bem velhinho para esse acontecimento, o medo da morte tenha diminuído. Teria aceitado a vida com todas suas conseqüência e limitações. No momento presente, ainda quero fazer mais, muito mais (mesmo que seja o prazer de não fazer nada!). Ainda não li todos os meus livros e quero reler muitos dos que já li. E tenho uma lista enorme de outros tantos para adquirir! Este é um exemplo de muitos outros. Sinal de que a vida vale a pena e não gostaria de deixá-la.
Será que a maturidade que a velhice trará vai me ajudar a resolver esse enigma do medo da morte? Talvez me traga dissabores que me farão modificar essa tendência? Quanto mais envelhecemos, mais “enferrujamos” nosso corpo. Mais doenças, depressões... Não sei. Sinceramente não penso que minha velhice maior será dessa forma. A maneira como me cuido hoje é um objetivo de eficácia para uma velhice menos rabujenta. Entretanto, sabe-se lá a forma como o vento voará no momento, como será a agitação da noite, o desprendimento dessa folha que se irá...
Sou atrapalhado para decifrar inteiramente esse enigma. Ainda é cedo pra isso? Sim, mas trata-se de um dos enigmas da vida. Tenho uma irmã muito querida que está nesse “atordoamento” da noite em relação ao vento, em relação à folha. Ela cuida com dignidade da folha, para que não se desprenda pelo vento. Já venceu muitas turbulências em relação a isso. Ganhou todas. Está segura ainda, e sempre. Já tive vontade de perguntar a ela como se lida com a presença da morte tão perto. Não tive coragem. Disse que ela enfrenta com dignidade e perseverança esse tempo, mas ela pode estar com medo, angustiada, inconformada e esconde isso no silêncio. É que nela não vejo o medo que eu penso que possa sentir num momento como esse. Nela, vejo não resignação (e até possa ser isso), mas a vontade de continuar. E ela avança. Está avançando. Que o vento voe e a folha permaneça presa ao caule mais, bem mais, muito mais. Sem sofrimento!
O poema Epigrama nr. 9 encontra-se no livro Viagem, de Cecília Meireles.
domingo, 29 de maio de 2011
Mamãe Dilma, sai da toca!
Dilma Roussef mandou suspender a campanha do kit anti-homofobia, por um recuo político. O governo havia perdido na votação sobre o novo código florestal. Também anda enredado com o “caso” Palocci. Aproveitando-se da situação, as bancadas dos deputados católicos e evangélicos, que já estavam incomodadas com o chamado “kit anti-homofobia" que estava sendo distribuídos às escolas, resolveram chantagear. O kit são três vídeos e uma cartilha, para servir de discussão entre professor e alunos adolescentes, envolvendo o tema da sexualidade. Os tais parlamentares cristãos, católicos e evangélicos, questionavam o conteúdo do kit, que estaria fazendo propagando em favor da homossexualidade e isso poderia influenciar crianças e jovens a fazerem a opção sexual equivocada. Por isso, ameaçaram o governo Dilma, através do voto. E ela cedeu. Assumindo a carranca da mamãe braba, foi vista descendo a rampa de dedo em riste, afirmando que não caberia à escola envolver-se a situações que envolvessem costumes. Isso caberia à família.
O escola deve contribuir para o fim do preconceito homofóbico, sim! Há pouco material disponível para promover debates. A questão da identidade é muito complexa e muitos adolescentes enfrentam o problema num ambiente muitas vezes hostil a eles. A questão da educação é fundamental na questão da homofobia. A violência contra o homossexual não é só aquela mostrada nos jornais, de pessoas sendo agredidas na rua por grupos radicais. A violência psicológica intencional se dá na escola e dentro de casa, quando o agressor assume o poder do mais forte de maneira opressora.
Seria importante que as pessoas soubessem e aceitassem que a homoafetividade não é algo contagioso. Ninguém muda sua orientação sexual, pois a homossexualidade não é uma doença que se pega ao ser mostrada. Ser heterossexual é normal, mas ser homossexual também é normal. É isso que é preciso ser discutido, pois não é uma doença mental, é uma manifestação natural e positiva. É como nascer destro ou canhoto. A pessoa não vira guei, se é hetero. Quem é homossexual já nasce com o desejo sexual por pessoa do mesmo sexo, quando este se manidesta. Os moralistas confundem o adolescente com a criança indefesa diante de um comportamento que considera agressivo. Mais ou menos assim: o adolescente é um ser em crise, inseguro; se lhe for mostrada uma alternativa de prazer sexual, ele vai optar pelo que é doente, errado.
A meu ver, não existe opção sexual. A questão da identidade, numa sociedade heteronormativa, pode ser algo complicado. O preconceito não é racional. A homossexualidade não é uma escolha. É uma maneira de se expressar afetivamente. Por isso mesmo a escola teria como uma das funções, mostrar a homossexualidade como um espelho positivo. Numa sociedade livre de homofobia, o homossexual poderia exercer sua sexualidade de forma mais tranquila para si. Afinal, não se pode escolher o desejo.
Como as estatísticas apontam que há dez por cento da população mundial constituída por homossexuais, para o governo Dilma, perder dez por cento de votos é menos nocivo do que perder os votos da bancada religiosa que ameaça usar o voto para ajudar a arranhar ainda mais a imagem do amigo Palocci. E estamos feitos?
Viva Manuela D’Ávila!
O escola deve contribuir para o fim do preconceito homofóbico, sim! Há pouco material disponível para promover debates. A questão da identidade é muito complexa e muitos adolescentes enfrentam o problema num ambiente muitas vezes hostil a eles. A questão da educação é fundamental na questão da homofobia. A violência contra o homossexual não é só aquela mostrada nos jornais, de pessoas sendo agredidas na rua por grupos radicais. A violência psicológica intencional se dá na escola e dentro de casa, quando o agressor assume o poder do mais forte de maneira opressora.
Seria importante que as pessoas soubessem e aceitassem que a homoafetividade não é algo contagioso. Ninguém muda sua orientação sexual, pois a homossexualidade não é uma doença que se pega ao ser mostrada. Ser heterossexual é normal, mas ser homossexual também é normal. É isso que é preciso ser discutido, pois não é uma doença mental, é uma manifestação natural e positiva. É como nascer destro ou canhoto. A pessoa não vira guei, se é hetero. Quem é homossexual já nasce com o desejo sexual por pessoa do mesmo sexo, quando este se manidesta. Os moralistas confundem o adolescente com a criança indefesa diante de um comportamento que considera agressivo. Mais ou menos assim: o adolescente é um ser em crise, inseguro; se lhe for mostrada uma alternativa de prazer sexual, ele vai optar pelo que é doente, errado.
A meu ver, não existe opção sexual. A questão da identidade, numa sociedade heteronormativa, pode ser algo complicado. O preconceito não é racional. A homossexualidade não é uma escolha. É uma maneira de se expressar afetivamente. Por isso mesmo a escola teria como uma das funções, mostrar a homossexualidade como um espelho positivo. Numa sociedade livre de homofobia, o homossexual poderia exercer sua sexualidade de forma mais tranquila para si. Afinal, não se pode escolher o desejo.
Como as estatísticas apontam que há dez por cento da população mundial constituída por homossexuais, para o governo Dilma, perder dez por cento de votos é menos nocivo do que perder os votos da bancada religiosa que ameaça usar o voto para ajudar a arranhar ainda mais a imagem do amigo Palocci. E estamos feitos?
Viva Manuela D’Ávila!
domingo, 22 de maio de 2011
O dia em que Gêmeos beijou Virgem
Um dia desses uma moça me disse que tinha conhecido um cara e os dois ficaram meio a fim um do outro. O problema é, ela me disse, que não sei se ele é casado, não posso entrar numa fria. Mal se conheceram e já começaram as incertezas, falei a ela. Quando se está só e se busca alguém para preencher a solidão indesejada, a probabilidade de se engatar um namoro pode ter o significado de se pensar a probabilidade como uma realidade que precisa se concretizar. Não deveria ser assim, quando estamos na fase amadurecida da vida, em plena segunda idade. Mas o coração não envelhece. Amar alguém, ou melhor dizendo, desejar o amor de alguém nos torna adolescentes no que se refere a insegurança, ingenuidade, romantismo, conflito, exagero. Essas são as fontes da adrenalina que podem servir de combustão a um coração premente de paixão.
Agora, paixão é incômodo, é desarrumação do sentimento. Pode ser ansiedade. Daí ela continuou falando e me disse que não sabia nada dele, era tímido, cheio de charadinhas. Daí cortei, perguntando qual era o signo dele. Ela não sabia. Manda um torpedo pra ele e pergunta. E se ele estiver envolvido no trabalho? Ele responde depois, manda! Mandou. Mais tarde um pouco ela me telefonou dizendo: é Virgem. Ah, Virgo é foda, tem os pés no chão, não dá saltos rasantes com medo de se machucar. Gosta de esconder o jogo? Sim, falei, gosta de fazer mistério. Teu gato poderá ser discreto, mas crítico. Portanto, não te ofendas com ponderações que podem cheirar a um puxãozinho de orelhas. É que o virginiano gosta de enxergar no defeito uma forma de mudança. Portanto, analisa se a mudança poderá ser boa ou não. Precisarias fazê-lo entender que nem tudo pode ser mudado e que a perfeição não existe. Provavelmente ele seja um cara inteligente (cuidado com tua baixa estima, não vá te considerar "burra" que de burra não tens nada). Por prezar a inteligência e o pragmatismo, às vezes o virginiano se esquece de que tem coração. Por isso, terás de abrir essa vereda na pessoa dele.
A moça parou, pensou e disse: - não sabia que entendias de horóscopo. Não és ateu? Sou, mas adoro frescuras, até porque o horóscopo não aprofunda nada além do básico. Mas em se tratando de amor, saber o horóscopo e as combinações de signo é como um perfume que a gente põe para agradar. Mas não faz falta, embora seja gostoso seu odor. Teu signo qual é? Gêmeos, ela me diz.
Puxa vida! Gêmeos... Ao contrário do virginiano, o geminiano é muito amoroso (chega a ser chato e até pegajoso). Não vai te meter a fazer cobranças de que ele não seja romântico, ou até que seja frio e objetivo demais. A objetividade é uma arma do virginiano para esconder seus sentimentos. Trata de descobrir esse lado sensível dele e fazer disso uma arma de sedução tua. O virginiano odeia brigas e discussões, por isso mesmo trata de não bater boca com ele, pois ele é mestre em fugir de situações constrangedoras. Ah, outra coisa que deves saber lidar: muitas vezes ele poderá ser escorregadio, se o colocares na parede ou fizeres pressão ou chantagem para conseguires o que desejas. Ele poderá fingir que não entendeu teu recado e fugir discretamente pela porta dos fundos. Virginiano nunca faz o que não quer.
Tá, ela disse, e o geminiano? Faz sempre o que outro quer, eu disse, desde que ele esteja na tua. Ela ficou meio assim assim. Nos despedimos. Enquanto colocava o fone no gancho, pensava que bom seria se a ficção do horóscopo pudesse ter o poder de odorificar a relação dos dois. Se a moça pensasse somente no presente, deixando as dúvidas para daqui a pouco, poderia curtir bons momentos, resolver suas pendengas da encucação aos pouquinhos. Mas a vida não é assim. Eu, que adoro viver só, me basto comigo, só quero ter alguém como parceiro, não como complemento, não posso querer que todos sejam assim. Há os que acham muito bom estar acompanhados. Rita Lee já disse numa de suas canções: “Me recuso a ficar só/Antes mal acompanhada”. Cada qual com seu caminho, desde que seja o da felicidade.
Para os que curtiram o tema, recomendo dois livros muito legais: Secreta Mirada, de Lya Luft, sobre a busca do amor na maturidade. Outro é Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, de cujo conto “O dia que Urano Entrou em Escorpião” serviu de mote para esta crônica.
Agora, paixão é incômodo, é desarrumação do sentimento. Pode ser ansiedade. Daí ela continuou falando e me disse que não sabia nada dele, era tímido, cheio de charadinhas. Daí cortei, perguntando qual era o signo dele. Ela não sabia. Manda um torpedo pra ele e pergunta. E se ele estiver envolvido no trabalho? Ele responde depois, manda! Mandou. Mais tarde um pouco ela me telefonou dizendo: é Virgem. Ah, Virgo é foda, tem os pés no chão, não dá saltos rasantes com medo de se machucar. Gosta de esconder o jogo? Sim, falei, gosta de fazer mistério. Teu gato poderá ser discreto, mas crítico. Portanto, não te ofendas com ponderações que podem cheirar a um puxãozinho de orelhas. É que o virginiano gosta de enxergar no defeito uma forma de mudança. Portanto, analisa se a mudança poderá ser boa ou não. Precisarias fazê-lo entender que nem tudo pode ser mudado e que a perfeição não existe. Provavelmente ele seja um cara inteligente (cuidado com tua baixa estima, não vá te considerar "burra" que de burra não tens nada). Por prezar a inteligência e o pragmatismo, às vezes o virginiano se esquece de que tem coração. Por isso, terás de abrir essa vereda na pessoa dele.
A moça parou, pensou e disse: - não sabia que entendias de horóscopo. Não és ateu? Sou, mas adoro frescuras, até porque o horóscopo não aprofunda nada além do básico. Mas em se tratando de amor, saber o horóscopo e as combinações de signo é como um perfume que a gente põe para agradar. Mas não faz falta, embora seja gostoso seu odor. Teu signo qual é? Gêmeos, ela me diz.
Puxa vida! Gêmeos... Ao contrário do virginiano, o geminiano é muito amoroso (chega a ser chato e até pegajoso). Não vai te meter a fazer cobranças de que ele não seja romântico, ou até que seja frio e objetivo demais. A objetividade é uma arma do virginiano para esconder seus sentimentos. Trata de descobrir esse lado sensível dele e fazer disso uma arma de sedução tua. O virginiano odeia brigas e discussões, por isso mesmo trata de não bater boca com ele, pois ele é mestre em fugir de situações constrangedoras. Ah, outra coisa que deves saber lidar: muitas vezes ele poderá ser escorregadio, se o colocares na parede ou fizeres pressão ou chantagem para conseguires o que desejas. Ele poderá fingir que não entendeu teu recado e fugir discretamente pela porta dos fundos. Virginiano nunca faz o que não quer.
Tá, ela disse, e o geminiano? Faz sempre o que outro quer, eu disse, desde que ele esteja na tua. Ela ficou meio assim assim. Nos despedimos. Enquanto colocava o fone no gancho, pensava que bom seria se a ficção do horóscopo pudesse ter o poder de odorificar a relação dos dois. Se a moça pensasse somente no presente, deixando as dúvidas para daqui a pouco, poderia curtir bons momentos, resolver suas pendengas da encucação aos pouquinhos. Mas a vida não é assim. Eu, que adoro viver só, me basto comigo, só quero ter alguém como parceiro, não como complemento, não posso querer que todos sejam assim. Há os que acham muito bom estar acompanhados. Rita Lee já disse numa de suas canções: “Me recuso a ficar só/Antes mal acompanhada”. Cada qual com seu caminho, desde que seja o da felicidade.
Para os que curtiram o tema, recomendo dois livros muito legais: Secreta Mirada, de Lya Luft, sobre a busca do amor na maturidade. Outro é Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, de cujo conto “O dia que Urano Entrou em Escorpião” serviu de mote para esta crônica.
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domingo, 15 de maio de 2011
A fala e a escrita
No dia 13 de maio, o Jornal Nacional noticiou a polêmica que um livro didático recomendado pelo Mec para a EJA estaria causando por aí, a de afirmar que não existe o certo e errado na língua, mas o adequado e inadequado. A matéria exemplificou um trecho do livro que mostrava, através de um diálogo indireto, que se pode falar “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” , sem que isso possa ser visto como um erro. Sob o olhar da linguística, o “os” marcaria o sentido plural da idéia, não sendo necessário flexionar todas as demais palavras no plural(na frase, com exceção do verbo). É muito comum, na fala informal, expressões dessa natureza. Não é por burrice que se fala “os livro”, mas por economia de linguagem. No inglês isso é comum, faz parte da estrutura da língua. No português não é assim, existem as flexões, porque existem as concordâncias. Sem fugir ao fato de não ser erro, linguagem dessa natureza (e outras como “tu fez”, “tu mandou” – típico do linguajar gaúcho) não poderia ser considerada errada, já que a maioria (incluindo-se os intelectuais) falam dessa maneira, informalmente. Entretanto, se o Jornal Nacional tivesse publicado o restante do parágrafo de onde extraíram o trecho para criticar o Mec (o trecho integral do livro está transcrito no final da crônica), talvez não houvesse essa pendenga toda. Os autores não afirmam que se deve ensinar a falar errado na escola, como alguns âncoras de jornais da tevê mencionaram. Aliás, como se publicaram bobagens a respeito! Muitas pessoas que não tinham lido o livro, menos ainda as páginas do livro em que se baseou a reportagem, saíram vociferando a torto e a direito.
Deve-se aproveitar e valorizar a oralidade no aprendizado da língua escrita, sim. Assim como deve ser explicado que a fala existe, mas que há outra maneira de se dizer a mesma coisa, utilizando-se da língua culta padrão (o educador deve ter presente o aspecto político da questão, para não incorrer no erro de admitir que se fala certo ou errado). Quando se trata de didática, é importante ressaltar que a fala é uma coisa e a escrita é outra coisa. A escrita é a representação da fala, mas não é só isso. A escrita é mais complexa (e incompleta)que a fala.A gramática normativa ensinada na escola é um sistema de conservação da estrutura do português. O que acontece muitas vezes, é que variedades da linguagem oral passam a ser usadas por muita gente, passam a ser escritas por muita gente. E o que a norma culta padrão faz: a incorpora na linguagem escrita padrão como correta. Algo que poderia ser considerado errado noutros tempos, hoje não é. Lembram de o soja (que era o certo) e a soja (o errado). Hoje as duas estão certas, porque todos falaram tanto a soja e escreviam a palavra como feminina, que o termo virou substantivo e foi aprovado à norma padrão sem problemas. Atenção! Não estou querendo insinuar que os livro seria correto na linguagem escrita. Pelo menos por enquanto!
As pessoas entram na escola para aprender e ler e a escrever. Falar elas já sabem, formulam sua própria gramática e dela depreendemos razões coerentes para explicar determinados usos específicos de determinado grupo, que se constituem dialeto, linguagem falada e entendida por determinada comunidade. Na escola, as pessoas vão aprender que as coisas que se falam de uma maneira, podem ser escritas de outra. O erro, portanto, existiria na escrita, não na fala. Quanto mais as pessoas estudam a língua, vão aprendendo a falar a língua culta padrão, que é a língua ditada pelas regras gramaticais da escrita (que é a língua do poder, não nos esqueçamos disso). E a discernir que “os livro”, na sua comunidade falante, está adequado, mas que num texto escrito, ou numa linguagem formal, falada em determinada situação, poderá ser inadequado.
Ninguém fala errado, a menos que seja um profissional da fala, como certo jornalista famoso de uma rádio famosa aqui de Porto Alegre, que disse numa entrevista, “tu dissesses”; e outro repórter esportivo que disse num programa de tevê, “o jogador vai vim de Montevidéu na segunda-feira”. Esses estão falando errado, pois estudaram a gramática padrão, e usam o meio de comunicação para se expressar para o todo e não para sua comunidade restrita.
O que a imprensa talvez pudesse ter apontado, é a validade ou não de se tratar a dicotomia linguística e gramática num livro de Eja. O que será que ela queria com isso, hein?
========================
Agradeço a Tere e Amarildo, de São Leopoldo/RS, pelo empenho para que eu pudesse ter acesso aos livros da Eja.
A quem aprecia o tema da sociolingüística, recomendo dois livros saborosos de ler:
Luft, Celso. Língua e liberdade. Ática, 1998
Bagno, Marcos. Preconceito lingüístico. Loyola, 2009
O texto "A concordância entre as palavras", na íntegra:
A concordância entre as palavras é uma importante característica da linguagem escrita e oral. Ela é um dos princípios que ajudam na elaboração de orações com significado, porque mostra a relação existente entre as palavras.
Verifique como isso funciona:
Alguns insetos provocam doenças, às vezes, fatais à população ribeirinhas.
Insetos (masculino, plural) – alguns (masculino, plural)
Doenças (feminino, plural) – fatais (feminino, plural)
População (feminino, singular) – ribeirinha (feminino, singular)
As palavras centrais (insetos, doenças, população) são acompanhadas por outras que esclarecem algo sobre elas. As palavras acompanhantes são escritas no mesmo gênero (masculino/feminino) e no mesmo número (singular/plural) que as palavras centrais.
Essa relação ocorre na norma culta. Muitas vezes, na norma popular, a concordância acontece de maneira diferente. Veja:
Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.
Livro (masculino, singular) – os (masculino, plural) ilustrado(masculino, singular) interessante (masculino, singular) emprestado (masculino, singular)
Você acha que o autor dessa frase se refere a um livro ou a mais de um livro? Vejamos:
O fato de haver a palavra os (plural) indica que se trata de mais de um livro. Na variedade popular, basta que esse primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente. Reescrevendo a frase no padrão da norma culta, teremos:
Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados.
Você pode estar perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro’”?.
Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito lingüístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas lingüísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.
Existe outro tipo de concordância: a que envolve o verbo. Observe seu funcionamento:
O menino pegou o peixe. (menino, singular/pegou, singular)
Os meninos pegaram o peixe. (meninos, plural/pegaram, plural)
O menino pegou o peixe. (menino, 3ª pessoa/pegou, 3ª pessoa)
Eu peguei o peixe. (eu, 1ª pessoa/peguei, 1ª pessoa)
Na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo tempo, em número (singular/plural) e em pessoa (1ª/2ª/3ª) com o ser envolvido na ação que ele indica.
Na variedade popular, contudo, é comum a concordância funcionar de outra forma. Há ocorrências como:
Nós pega o peixe. (nós, 1ª pessoa, plural/pega, 3ª pessoa, singular)
Os menino pega o peixe. (menino, 3ª pessoa, idéia de plural – por causa do “os”/pega, 3ª pessoa, singular)
Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala.
Por uma vida melhor: Educação de jovens e adultos: segundo segumento do ensino fundamental, volume 2 – SP: Global: Ação Educativa, 2009 (Coleção viver, aprender). Vários autores, PP. 14 a 16)
Deve-se aproveitar e valorizar a oralidade no aprendizado da língua escrita, sim. Assim como deve ser explicado que a fala existe, mas que há outra maneira de se dizer a mesma coisa, utilizando-se da língua culta padrão (o educador deve ter presente o aspecto político da questão, para não incorrer no erro de admitir que se fala certo ou errado). Quando se trata de didática, é importante ressaltar que a fala é uma coisa e a escrita é outra coisa. A escrita é a representação da fala, mas não é só isso. A escrita é mais complexa (e incompleta)que a fala.A gramática normativa ensinada na escola é um sistema de conservação da estrutura do português. O que acontece muitas vezes, é que variedades da linguagem oral passam a ser usadas por muita gente, passam a ser escritas por muita gente. E o que a norma culta padrão faz: a incorpora na linguagem escrita padrão como correta. Algo que poderia ser considerado errado noutros tempos, hoje não é. Lembram de o soja (que era o certo) e a soja (o errado). Hoje as duas estão certas, porque todos falaram tanto a soja e escreviam a palavra como feminina, que o termo virou substantivo e foi aprovado à norma padrão sem problemas. Atenção! Não estou querendo insinuar que os livro seria correto na linguagem escrita. Pelo menos por enquanto!
As pessoas entram na escola para aprender e ler e a escrever. Falar elas já sabem, formulam sua própria gramática e dela depreendemos razões coerentes para explicar determinados usos específicos de determinado grupo, que se constituem dialeto, linguagem falada e entendida por determinada comunidade. Na escola, as pessoas vão aprender que as coisas que se falam de uma maneira, podem ser escritas de outra. O erro, portanto, existiria na escrita, não na fala. Quanto mais as pessoas estudam a língua, vão aprendendo a falar a língua culta padrão, que é a língua ditada pelas regras gramaticais da escrita (que é a língua do poder, não nos esqueçamos disso). E a discernir que “os livro”, na sua comunidade falante, está adequado, mas que num texto escrito, ou numa linguagem formal, falada em determinada situação, poderá ser inadequado.
Ninguém fala errado, a menos que seja um profissional da fala, como certo jornalista famoso de uma rádio famosa aqui de Porto Alegre, que disse numa entrevista, “tu dissesses”; e outro repórter esportivo que disse num programa de tevê, “o jogador vai vim de Montevidéu na segunda-feira”. Esses estão falando errado, pois estudaram a gramática padrão, e usam o meio de comunicação para se expressar para o todo e não para sua comunidade restrita.
O que a imprensa talvez pudesse ter apontado, é a validade ou não de se tratar a dicotomia linguística e gramática num livro de Eja. O que será que ela queria com isso, hein?
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Agradeço a Tere e Amarildo, de São Leopoldo/RS, pelo empenho para que eu pudesse ter acesso aos livros da Eja.
A quem aprecia o tema da sociolingüística, recomendo dois livros saborosos de ler:
Luft, Celso. Língua e liberdade. Ática, 1998
Bagno, Marcos. Preconceito lingüístico. Loyola, 2009
O texto "A concordância entre as palavras", na íntegra:
A concordância entre as palavras é uma importante característica da linguagem escrita e oral. Ela é um dos princípios que ajudam na elaboração de orações com significado, porque mostra a relação existente entre as palavras.
Verifique como isso funciona:
Alguns insetos provocam doenças, às vezes, fatais à população ribeirinhas.
Insetos (masculino, plural) – alguns (masculino, plural)
Doenças (feminino, plural) – fatais (feminino, plural)
População (feminino, singular) – ribeirinha (feminino, singular)
As palavras centrais (insetos, doenças, população) são acompanhadas por outras que esclarecem algo sobre elas. As palavras acompanhantes são escritas no mesmo gênero (masculino/feminino) e no mesmo número (singular/plural) que as palavras centrais.
Essa relação ocorre na norma culta. Muitas vezes, na norma popular, a concordância acontece de maneira diferente. Veja:
Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.
Livro (masculino, singular) – os (masculino, plural) ilustrado(masculino, singular) interessante (masculino, singular) emprestado (masculino, singular)
Você acha que o autor dessa frase se refere a um livro ou a mais de um livro? Vejamos:
O fato de haver a palavra os (plural) indica que se trata de mais de um livro. Na variedade popular, basta que esse primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente. Reescrevendo a frase no padrão da norma culta, teremos:
Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados.
Você pode estar perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro’”?.
Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito lingüístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas lingüísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.
Existe outro tipo de concordância: a que envolve o verbo. Observe seu funcionamento:
O menino pegou o peixe. (menino, singular/pegou, singular)
Os meninos pegaram o peixe. (meninos, plural/pegaram, plural)
O menino pegou o peixe. (menino, 3ª pessoa/pegou, 3ª pessoa)
Eu peguei o peixe. (eu, 1ª pessoa/peguei, 1ª pessoa)
Na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo tempo, em número (singular/plural) e em pessoa (1ª/2ª/3ª) com o ser envolvido na ação que ele indica.
Na variedade popular, contudo, é comum a concordância funcionar de outra forma. Há ocorrências como:
Nós pega o peixe. (nós, 1ª pessoa, plural/pega, 3ª pessoa, singular)
Os menino pega o peixe. (menino, 3ª pessoa, idéia de plural – por causa do “os”/pega, 3ª pessoa, singular)
Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala.
Por uma vida melhor: Educação de jovens e adultos: segundo segumento do ensino fundamental, volume 2 – SP: Global: Ação Educativa, 2009 (Coleção viver, aprender). Vários autores, PP. 14 a 16)
domingo, 8 de maio de 2011
Os sinais do tempo
Estou acabando a leitura de “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Jr. Um clássico da sociologia que nos ajuda a compreender o modelo brasileiro de hoje, a partir da organização colonial, no âmbito de seu povoamento, aspectos materiais e vida social. Das muitas idéias que me chamaram a atenção no texto, destaco uma: a organização da vida familiar. As mulheres eram casadas sem que tivessem escolha de pretendente. E havia a escravidão. Sabe-se que um dos papeis da escrava era a satisfação de seu senhor e dela originaram-se inúmeros filhos bastardos. Havia uma grande miséria social, rondando a nobreza de origem portuguesa, não necessariamente advinda do escravo. Muitos casamentos aconteciam sem o consentimento da Igreja e do Estado, pois essa população estava alijada do abraço do governo. Muitas das uniões livres aconteciam quando uma da parelha fosse de classe inferior. Sabe-se, também, que o machismo na Colônia era um pouquinho mais arraigado no modo de vida do brasileiro do que é hoje. Então, maridos casados com mulheres sem amor, arrumavam amantes de outra categoria social e com elas tinham filhos.
Saindo do livro de Prado Jr., sabemos que o tempo e as coisas mudaram na especificação do matrimônio. As gerações das décadas de 50 e 60 inovaram os padrões de conduta da mulher: a virgindade deixou de ser tabu e as uniões livres, independentemente da valorização de classes sociais, passaram a ser mais freqüente por opção pessoal. Crise do casamento? Penso que não.
Hoje em dia, o casamento na igreja, especialmente, está em alta entre as meninas da nova geração. A simbologia de que a noiva casava de branco, representando o corpo casto e que tem o veuzinho levantado pelo noivo na hora do beijo, selando o fim da virgindade, não faz parte da vida social da nova geração. Como não faz parte a simbologia do pai que entrega a filha, oficialmente perante Deus, para o marido que passa a cuidar dela pelo resto da vida. Lembram da questão do dote que o pai dava ao noivo, como forma de recompensa material? Hoje, não existe mais: há pais de noivas que recebem a ajuda dos pais do noivo, para realizar as bodas.
Qual a moral disso tudo? A velha idéia de casamento de contos de fadas, tipo príncipe William e Kate. A imagem do vestido de noiva inundou a cultura familiar das novas gerações. O vestido precisa ter muita cauda e a igreja uma bela escadaria, para que a noiva possa arrastar sua cauda por alguns metros, causando frisson nas futuras mocinhas casadoiras. Tive recentemente em meu ciclo familiar um caso interessante: duas parentas dessa década de 60, cada uma com seu parceiro, casaram-se somente no civil, não batizaram os filhos e esses nunca freqüentaram a missa. O que lhes aconteceu agora? Seus filhos converteram-se ao catolicismo, batizaram-se, para acalentar o sonho dourado feminino de casar vestidas de noiva. Influência da educação familiar? Nada disso. Essa onda vem de outras esferas da sociabilidade humana. Deus também não tem nada a ver com isso, pois os convertidos ao catolicismo continuam não freqüentando o culto religioso. O que tem a ver, mesmo, é o velho sonho burguês de cinderela vestida de noiva com o falso véu da castidade. Resta um consolo a quem lamenta um retrocesso no comportamento burguês: isso lhes traz felicidade. Que sejam felizes (enquanto dure)!
Além da obra de Caio Prado Jr., recomendo o romance “O Casamento”, de Nelson Rodrigues, em que a falsa moral puritana é demolida em plena década de 60, refletindo já a nova era da ilusória mudança dos costumes.
===========================
Prado Jr., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 23ª ed., SP, Brasiliense, 2008
Rodrigues, Nélson. O Casamento. RJ, Agir, 2006
Saindo do livro de Prado Jr., sabemos que o tempo e as coisas mudaram na especificação do matrimônio. As gerações das décadas de 50 e 60 inovaram os padrões de conduta da mulher: a virgindade deixou de ser tabu e as uniões livres, independentemente da valorização de classes sociais, passaram a ser mais freqüente por opção pessoal. Crise do casamento? Penso que não.
Hoje em dia, o casamento na igreja, especialmente, está em alta entre as meninas da nova geração. A simbologia de que a noiva casava de branco, representando o corpo casto e que tem o veuzinho levantado pelo noivo na hora do beijo, selando o fim da virgindade, não faz parte da vida social da nova geração. Como não faz parte a simbologia do pai que entrega a filha, oficialmente perante Deus, para o marido que passa a cuidar dela pelo resto da vida. Lembram da questão do dote que o pai dava ao noivo, como forma de recompensa material? Hoje, não existe mais: há pais de noivas que recebem a ajuda dos pais do noivo, para realizar as bodas.
Qual a moral disso tudo? A velha idéia de casamento de contos de fadas, tipo príncipe William e Kate. A imagem do vestido de noiva inundou a cultura familiar das novas gerações. O vestido precisa ter muita cauda e a igreja uma bela escadaria, para que a noiva possa arrastar sua cauda por alguns metros, causando frisson nas futuras mocinhas casadoiras. Tive recentemente em meu ciclo familiar um caso interessante: duas parentas dessa década de 60, cada uma com seu parceiro, casaram-se somente no civil, não batizaram os filhos e esses nunca freqüentaram a missa. O que lhes aconteceu agora? Seus filhos converteram-se ao catolicismo, batizaram-se, para acalentar o sonho dourado feminino de casar vestidas de noiva. Influência da educação familiar? Nada disso. Essa onda vem de outras esferas da sociabilidade humana. Deus também não tem nada a ver com isso, pois os convertidos ao catolicismo continuam não freqüentando o culto religioso. O que tem a ver, mesmo, é o velho sonho burguês de cinderela vestida de noiva com o falso véu da castidade. Resta um consolo a quem lamenta um retrocesso no comportamento burguês: isso lhes traz felicidade. Que sejam felizes (enquanto dure)!
Além da obra de Caio Prado Jr., recomendo o romance “O Casamento”, de Nelson Rodrigues, em que a falsa moral puritana é demolida em plena década de 60, refletindo já a nova era da ilusória mudança dos costumes.
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Prado Jr., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 23ª ed., SP, Brasiliense, 2008
Rodrigues, Nélson. O Casamento. RJ, Agir, 2006
domingo, 1 de maio de 2011
O novo de novo
Sou de uma geração que tinha um propósito no futuro. Batalhei desde cedo, a buscar um ideal distante que seria minha realidade depois de adulto. Hoje, os jovens não tem essa preocupação da mesma forma que eu tinha pelo futuro. Eles têm essa preocupação, mas não se cobram por isso como nos cobrávamos, os de minha geração. Notem que estou falando de jovens de classe média, os que podem estudar até a universidade sem precisar trabalhar. Os menos afortunados continuam buscando o trabalho desde a juventude, deixando o estudo para mais tarde. Nós, que trabalhávamos para poder estudar, demos o chão para que eles pudessem fazer seu rumo de outra forma, menos estressante, quem sabe. Mas então, hoje em dia é possível fazer vestibular quatro, cinco vezes, quem sabe passando em todos e trocando de cursos como se troca de pulôver no inverno. O jovem de hoje, me parece, amadurece mais devagar e sem cobranças. Os de minha geração não, o amadurecimento vinha na marra! Não se podia perder tempo. Nessa nossa meta equivocada, quantos jovens do passado não fizeram cursos divergentes de sua vontade, quantos não investiram em empregos e carreiras sem estímulo nenhum... Hoje os jovens estão perdidos sim, mas não se preocupam com isso. Nós também nos perdíamos, mas investíamos em um caminho que nos levasse a uma independência financeira que nos afastasse da casa dos pais. Nós achávamos que tínhamos que ajudar os pais. Hoje os pais continuam ajudando os filhos, mesmo quando se casam. Nossa geração tinha um posicionamento político, oriundo do contato com os grêmios estudantis da escola secundária e da universidade. Hoje não, hoje é outra época. A mim, pelo menos, me cabe buscar compreender e aceitar que o tempo é outro e eu sou de outra época. Mas que não estou alijado do presente. É necessário que me adapte aos tempos atuais, pois afinal de contas, ainda possuo a característica de saber onde ponho os pés e faço de tudo para não ficar muito pra trás nessa trilha do presente.
O que os jovens querem da vida? Essa pergunta nós, da minha geração, saberemos responder com hipóteses variadas. Mas será que os jovens de hoje sabem a resposta? Talvez nem lhes interesse esse assunto. Mas uma coisa é certa: precisamos acreditar neles, com todo esse caos que me parece evidente, mas que não é nenhuma tragédia. O mundo vai continuar a existir, eu e minha geração tiraremos nosso time de campo e vamos assistir ao jogo deles. Creio que eles saberão jogar da sua forma, com a criatividade inusitada que nossa mente da geração passada talvez não consiga aceitar, mas o tempo segue, o tempo não para. Lembremo-nos de que o chão que eles pisam nós ajudamos a construir.
O que os jovens querem da vida? Essa pergunta nós, da minha geração, saberemos responder com hipóteses variadas. Mas será que os jovens de hoje sabem a resposta? Talvez nem lhes interesse esse assunto. Mas uma coisa é certa: precisamos acreditar neles, com todo esse caos que me parece evidente, mas que não é nenhuma tragédia. O mundo vai continuar a existir, eu e minha geração tiraremos nosso time de campo e vamos assistir ao jogo deles. Creio que eles saberão jogar da sua forma, com a criatividade inusitada que nossa mente da geração passada talvez não consiga aceitar, mas o tempo segue, o tempo não para. Lembremo-nos de que o chão que eles pisam nós ajudamos a construir.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Meus dois comprimidos diários de citalopran
Um médico presta serviço humanitário em um dos muitos campos de refugiados africanos, vítimas da violência. Particularmente, está em crise conjugal, tem um filho que pouco vê, devido a seu trabalho no exterior. Esse filho sofre violência física e psicológica intencional de um grupo de colegas mais fortes do que ele, na escola. Um garoto novo, com certa fobia social e bastante agressivo se aproxima do filho desse médico, defendendo-o e envolvendo-o em atos de violência que têm fins trágicos. Esse médico, então, aproxima-se do filho e do amigo, ensinando-lhes que, para não se ter medo da violência, não é necessário revidá-la com atos violentos. Isso parece difícil de aceitar, mas é uma lição de vida. A violência física que oprime as pessoas física e psicológicamente poderia ser enfrentada com palavras e atos consistentes, levando a mudanças de comportamento sem fomentar a violência ainda maior. Não revidar à violência pode ser um ato de honra e de valor. Não significa covardia. Os refugiados do campo de concentração onde o médico atua fugiu da violência, mas tinha medo. Isso é fato positivo. Quando se tem medo do perigo,melhor correr. De outra forma, aprende-se que se pode enfrentar a violência física, enfrentando-a sem realizar atos violentos. Isso envolve o ato de amor ao próximo, sem restrições.
Eu mesmo, em meu universo pessoal, me violentei desde cedo, motivado por uma ansiedade doentia que me provocava raiva e ações indelicadas com as pessoas. Quantas vezes humihei, feri e desrespeitei aos amigos que me rodeavam, por uma violência provocada por sensações de perigo real ou imaginários que me causavam tensões e nervosismo desnecessários, que prejudicavam a mim e ao meu grupo. Essa sensação incômoda que me descrevo não tem a ver diretamente com a violência de causas políticas e econômicas ou de relacionamentos familiares desestruturados. Mas revelava a mesma sensação de enfrentamento e de poder. Essa insatisfação precisou ser trabalhada assim como o médico trabalhou a conscientização do controle do poder para não sufocar o outro.
Descoberta essa insatisfação como ansiedade, fui tratá-la com citalopran e conversar com terapeuta, para me conhecer melhor. Precisei de ajuda e aceitei-a. Assim como somos ajudamos, precisamos de ajuda. Esse trabalho humanitário dos Médicos sem Fronteiras e de outros grupos voluntários que saem à busca dos necessitados, é fantástico. Ajudar o próximo pode significar não apenas dar um pouco do que se tem ao outro, mas ajudar o outro a ter e conquistar o que é seu, sem se deixar espoliar.
O relato inicial desse texto é do filme dinamarquês "Por um mundo melhor". Vejam! Talvez ainda esteja em algum cinema próximo de sua casa.
Eu mesmo, em meu universo pessoal, me violentei desde cedo, motivado por uma ansiedade doentia que me provocava raiva e ações indelicadas com as pessoas. Quantas vezes humihei, feri e desrespeitei aos amigos que me rodeavam, por uma violência provocada por sensações de perigo real ou imaginários que me causavam tensões e nervosismo desnecessários, que prejudicavam a mim e ao meu grupo. Essa sensação incômoda que me descrevo não tem a ver diretamente com a violência de causas políticas e econômicas ou de relacionamentos familiares desestruturados. Mas revelava a mesma sensação de enfrentamento e de poder. Essa insatisfação precisou ser trabalhada assim como o médico trabalhou a conscientização do controle do poder para não sufocar o outro.
Descoberta essa insatisfação como ansiedade, fui tratá-la com citalopran e conversar com terapeuta, para me conhecer melhor. Precisei de ajuda e aceitei-a. Assim como somos ajudamos, precisamos de ajuda. Esse trabalho humanitário dos Médicos sem Fronteiras e de outros grupos voluntários que saem à busca dos necessitados, é fantástico. Ajudar o próximo pode significar não apenas dar um pouco do que se tem ao outro, mas ajudar o outro a ter e conquistar o que é seu, sem se deixar espoliar.
O relato inicial desse texto é do filme dinamarquês "Por um mundo melhor". Vejam! Talvez ainda esteja em algum cinema próximo de sua casa.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Diário de viagem.
Recentemente fiz uma vigem há tempo programada: conhecer as praias do litoral norte de São Paulo, mais Paraty e Angra. Seguimos direto ao Rio de Janeiro e seus passeios básicos: Pão de Açúcar, Jardim Botânico, Corcovado, Niterói e Paquetá. A noite na Lapa foi bacana, também, muita gente, música, chope gelado e bolinhos de bacalhau. Na mala colocamos um pedaço de nosso cotidiano básico para sobreviver: uma cueca, um par de meias e uma camiseta por dia. A bermuda e a calça jeans a gente repete sem vergonha, fazer o quê, né?
Dois dias em cada lugar. Do Rio fomos num carro que a pousada em Angra nos ofereceu. A baía de Angra é belíssima, cheia de ilhas com mansões e casas chiques, de gente famosa. Mas a natureza é melhor. A sujeira fica na cidade feia de Angra, onde moram os que servem os ricos. O chalé da pousada era legal, mas o estabelecimento nos apresentou um serviço precário. Ela estava pensando em fechar a pousada. O passeio a Ilha Grande e suas praias cristalinas valeram muito. A mala, ainda não desarrumada escondia as poucas roupas sujas em um saco plástico. Viajar tem dessas coisas, a gente adora sair em aventuras, mas o pouso é um descanso nervoso, sem identificação.
Em Angra alugamos um carro e fomos até Paraty – uma delícia! A Pousada Coxixo, que foi de Maria dela Costa ainda apresentava aquele charme famoso que as revistas anunciavam. Cama muito confortável, produtos Natura no banheiro, o casarão colonial restaurado apresentava um jardim interno e silencioso que nos fazia muito bem. Mas não se deve perder muito tempo em hotéis e lá nos fomos para curtir a maravilha do centro histórico e fazer um passeio de barco pela baía de Paraty, tão ou mais bonita que a de Angra. Foi possível nadar de snorkel e observar peixinhos coloridos em piscinas naturais. A mala, ainda mais limpa que suja. Acho desconfortável carregar a sujeira pessoal durante o trajeto, mas lavar cueca e meia em hotéis não tem nada a ver comigo.
De Paraty a Ubatuba as praias eram no continente. Conseguimos entrar de carro quase até a beira das praias visitadas. Bem próximo, era necessário percorrer uma trilha no meio da mata atlântica até curtir as águas tépidas e calmas das enseadas. Viajei com minha irmã e o cunhado, dividimos uma casa de dois quartos em Ubatuba. Casa estranha, triste, nunca poderia significar a minha casa, apesar de estar bem acolhido nela. Certamente se tivesse de morar naquela casa ela estaria repleta de livros e as janelas e portas estariam abertas, à procura da claridade do dia.
De Ubatuba até São Sebastião, destino final das praias, foi uma aventura épica. Foram 250 km de belas praias. Passamos direto por São Sebastião, em direção a uma de suas mais longínquas praias ao sul: Juréia. De lá fizemos as paradas necessárias. Depois de tanta beleza natural, ficamos exigentes em cada praia visitada. No final, todas eram muito parecidas. A diferença ficou para o dia seguinte. Depois de entregarmos o carro em São Sebastião, fomos para Ilhabela. Lá, pegamos um jipe para cruzar o monte que separa o lado habitado da ilha, em frente a São Sebastião, com a belíssima praia dos Castelhanos, do lado do oceano. Castelhanos é semisselvagem, não tem luz elétrica. O contato com a vila de Ilhabela se dá de barco ou jipe, que trafega por uma estrada barrenta e difícil montanha acima e abaixo. Para mim, Castelhanos foi a musa de todas as praias que visitei. Linda, linda.
A mala nessa hora estava dominada pelas roupas sujas, soltas na mala. A pouca roupa limpa estava agora no saquinho plástico.
Pegamos o ônibus em São Sebastião e fomos para a cidade de São Paulo, de onde pegaríamos o vôo de volta dois dias depois. Chegando no hotel, um imprevisto desagradável. Por um ato falho que nem Freud explicaria, havia esquecido de fazer as reservas no hotel. Eu jurava que as havia
Feito e o hotel não as tinha e a lotação estava completa, devido à virada cultural que acontecia na cidade naquele final de semana. Graças a uma sobrinha, filha de Adelaide, minha irmã, conseguimos ficar em seu apartamento até o dia da volta. Custei a aceitar a mancada, mas à noitinha eu já estava melhor. Assistimos a Pterodáctilos, com Marco Nanini. O teatro com 500 lugares estava lotado. A peça é uma tragicomédia, pesada pra burro, mas valeu a pena ter assistido a ela.
A volta para casa foi boa, mas fiquei meio perdido dentro do ambiente que mais gosto de estar. Lavar aquele montão de roupa, reorganizar as coisas pessoais no banheiro, retomar as leituras habituais de que tanto gosto, foi meio complicado. Viajar tem dessas coisas, me desestruturo, fico à mercê das novidades, da aventura. Quando volto ao lar, é necessário um bom tempo de reflexão para readquirir o doce hábito de viver bem acolhido em meu apartamento que adoro. Apesar de resisitir a essa “desestruturação momentânea”, ela é importante pra mim, me ajuda a amadurecer ainda mais e melhor.
Dois dias em cada lugar. Do Rio fomos num carro que a pousada em Angra nos ofereceu. A baía de Angra é belíssima, cheia de ilhas com mansões e casas chiques, de gente famosa. Mas a natureza é melhor. A sujeira fica na cidade feia de Angra, onde moram os que servem os ricos. O chalé da pousada era legal, mas o estabelecimento nos apresentou um serviço precário. Ela estava pensando em fechar a pousada. O passeio a Ilha Grande e suas praias cristalinas valeram muito. A mala, ainda não desarrumada escondia as poucas roupas sujas em um saco plástico. Viajar tem dessas coisas, a gente adora sair em aventuras, mas o pouso é um descanso nervoso, sem identificação.
Em Angra alugamos um carro e fomos até Paraty – uma delícia! A Pousada Coxixo, que foi de Maria dela Costa ainda apresentava aquele charme famoso que as revistas anunciavam. Cama muito confortável, produtos Natura no banheiro, o casarão colonial restaurado apresentava um jardim interno e silencioso que nos fazia muito bem. Mas não se deve perder muito tempo em hotéis e lá nos fomos para curtir a maravilha do centro histórico e fazer um passeio de barco pela baía de Paraty, tão ou mais bonita que a de Angra. Foi possível nadar de snorkel e observar peixinhos coloridos em piscinas naturais. A mala, ainda mais limpa que suja. Acho desconfortável carregar a sujeira pessoal durante o trajeto, mas lavar cueca e meia em hotéis não tem nada a ver comigo.
De Paraty a Ubatuba as praias eram no continente. Conseguimos entrar de carro quase até a beira das praias visitadas. Bem próximo, era necessário percorrer uma trilha no meio da mata atlântica até curtir as águas tépidas e calmas das enseadas. Viajei com minha irmã e o cunhado, dividimos uma casa de dois quartos em Ubatuba. Casa estranha, triste, nunca poderia significar a minha casa, apesar de estar bem acolhido nela. Certamente se tivesse de morar naquela casa ela estaria repleta de livros e as janelas e portas estariam abertas, à procura da claridade do dia.
De Ubatuba até São Sebastião, destino final das praias, foi uma aventura épica. Foram 250 km de belas praias. Passamos direto por São Sebastião, em direção a uma de suas mais longínquas praias ao sul: Juréia. De lá fizemos as paradas necessárias. Depois de tanta beleza natural, ficamos exigentes em cada praia visitada. No final, todas eram muito parecidas. A diferença ficou para o dia seguinte. Depois de entregarmos o carro em São Sebastião, fomos para Ilhabela. Lá, pegamos um jipe para cruzar o monte que separa o lado habitado da ilha, em frente a São Sebastião, com a belíssima praia dos Castelhanos, do lado do oceano. Castelhanos é semisselvagem, não tem luz elétrica. O contato com a vila de Ilhabela se dá de barco ou jipe, que trafega por uma estrada barrenta e difícil montanha acima e abaixo. Para mim, Castelhanos foi a musa de todas as praias que visitei. Linda, linda.
A mala nessa hora estava dominada pelas roupas sujas, soltas na mala. A pouca roupa limpa estava agora no saquinho plástico.
Pegamos o ônibus em São Sebastião e fomos para a cidade de São Paulo, de onde pegaríamos o vôo de volta dois dias depois. Chegando no hotel, um imprevisto desagradável. Por um ato falho que nem Freud explicaria, havia esquecido de fazer as reservas no hotel. Eu jurava que as havia
Feito e o hotel não as tinha e a lotação estava completa, devido à virada cultural que acontecia na cidade naquele final de semana. Graças a uma sobrinha, filha de Adelaide, minha irmã, conseguimos ficar em seu apartamento até o dia da volta. Custei a aceitar a mancada, mas à noitinha eu já estava melhor. Assistimos a Pterodáctilos, com Marco Nanini. O teatro com 500 lugares estava lotado. A peça é uma tragicomédia, pesada pra burro, mas valeu a pena ter assistido a ela.
A volta para casa foi boa, mas fiquei meio perdido dentro do ambiente que mais gosto de estar. Lavar aquele montão de roupa, reorganizar as coisas pessoais no banheiro, retomar as leituras habituais de que tanto gosto, foi meio complicado. Viajar tem dessas coisas, me desestruturo, fico à mercê das novidades, da aventura. Quando volto ao lar, é necessário um bom tempo de reflexão para readquirir o doce hábito de viver bem acolhido em meu apartamento que adoro. Apesar de resisitir a essa “desestruturação momentânea”, ela é importante pra mim, me ajuda a amadurecer ainda mais e melhor.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Dois pesos, duas medidas
Morreu o ex-vice-presidente José de Alencar. O Brasil ficou triste.O político vinha há anos lutando contra um câncer no intestino que o levava frequentemente aos hospitais para tratamento. Muitos admiravam sua capacidade de enfrentar a doença com otimismo e bom humor. Figura simpática, sempre fazendo piadas sobre a vida, conquistou a imprensa e, por tabela, o povo brasileiro. Numa de suas frases inusitadas ele disse pouco antes da morte, mais ou menos assim: "não tenho medo da morte, tenho medo é da desonra, a desonra desmerece o homem". Homem honrado, Alencar não quis passar pela desonra de reconhecer suposta filha, fruto de um relacionamento com uma enfermeira, nos tempos em que ele era pobre, na década de 50 na cidade de Caratinga, interior de Minas Gerais. Desde 2001, ela briga na Justiça pela paternidade do empresário. Em julho de 2010, a Justiça de Caratinga (MG) concedeu a Rosemary o direito de ser reconhecida como filha do empresário. José de Alencar havia admitido que a suposta paternidade poderia ser real. Segundo ele falou num programa do Jô, Rosemary seria fruto de uma noitada dele, na juventude, com uma prostituta.
Geralmente tido como uma figura discreta, Alencar soltou uma de suas piadinhas de ocasião, dizendo que "qualquer um que vá à zona, pode ser pai sem querer". E ele não quis mesmo! Alencar se recusou a fazer o teste de DNA, e sua defesa contestou a decisão. Em setembro do mesmo ano, o então vice-presidente obteve no Tribunal de Justiça de Minas uma liminar para impedir o uso do sobrenome e a mudança do registro de nascimento da professora. O recurso ainda será analisado pela corte. O que me causa espanto é o fato dele ser, além de pai de família exemplar, segundo a imprensa, adepto de uma religiosidade canônica: Alencar era evangélico. Mas esse lado menos limpo do político não arranhou nem um pouquinho sua imagem pública. A imprensa quase não falou disso. E o povo chorou a saudade de um político íntegro e coerente. Veja só!
Outro lance interessante (sob outro ponto de vista)de homem que resiste a assumir a paternidade é o de André, personagem representado por Lázaro Ramos numa das novelas da televisão. A personagem era bastante interessante inicialmente: tratava-se de um jovem ambicioso e valorizado em seu viés de trabalho, que quer a fama e o sucesso acima de tudo. Para tanto, não queria se envolver emocionalmente com nenhuma mulher, muito menos ter um filho. No mundo moderno, especialmente na Europa e EUA é assim, quem ambiciona subir na carreira e angariar a fama, descarta a presença do filho em suas vidas. Aliás, é muito comum por lá o hábito de adotação de filhos, quando a estabilidade financeira e as ambições já se encontram ancoradas. Acontece que, voltando a André, um dia ele transou com uma mulher que engravidou dele (esse é um furo imperdoável a um garanhão que traça todas:não usar preservativo). Ele luta para que ela faça o aborto, ela acaba não fazendo. Ele oferece dinheiro para o custeio do filho, desde que não apareça como pai. Ela acaba aceitando. Só que, como os escritores de novela gostam de criar personagens psicóticos, esse tal André, descobre-se, não é desse jeito por estilo de vida, mas porque psicologicamente é traumatizado pela presença de um pai cruel e ausente. Parece que ele está ficando bonzinho e, ao contrário de José de Alencar, vai querer o filho e se afeiçoar à criança quando ela nascer. Como se vê, dois pesos e duas medidas.
O tema sugere uma leitura interessante sobre a relação pai e filho, num clima denso e profundo, o romance de Mario Sabino: O dia em que matei meu pai. Ed. Record, R$ 30,00. Mesclando suspense, tragédia e uma profunda reflexão sobre a alma humana, o romance parte de uma trama aparentemente simples - a do narrador que conta à sua analista os motivos pelos quais matou o pai. O autor desenvolve uma obra na qual a psicanálise, a filosofia, a religião e a literatura se sobrepõem num discurso marcado pela dissimulação. Uma história de mistério em que o leitor deve descobrir não o crime ou o criminoso - explícitos desde o título - mas as motivações para o ato.
Geralmente tido como uma figura discreta, Alencar soltou uma de suas piadinhas de ocasião, dizendo que "qualquer um que vá à zona, pode ser pai sem querer". E ele não quis mesmo! Alencar se recusou a fazer o teste de DNA, e sua defesa contestou a decisão. Em setembro do mesmo ano, o então vice-presidente obteve no Tribunal de Justiça de Minas uma liminar para impedir o uso do sobrenome e a mudança do registro de nascimento da professora. O recurso ainda será analisado pela corte. O que me causa espanto é o fato dele ser, além de pai de família exemplar, segundo a imprensa, adepto de uma religiosidade canônica: Alencar era evangélico. Mas esse lado menos limpo do político não arranhou nem um pouquinho sua imagem pública. A imprensa quase não falou disso. E o povo chorou a saudade de um político íntegro e coerente. Veja só!
Outro lance interessante (sob outro ponto de vista)de homem que resiste a assumir a paternidade é o de André, personagem representado por Lázaro Ramos numa das novelas da televisão. A personagem era bastante interessante inicialmente: tratava-se de um jovem ambicioso e valorizado em seu viés de trabalho, que quer a fama e o sucesso acima de tudo. Para tanto, não queria se envolver emocionalmente com nenhuma mulher, muito menos ter um filho. No mundo moderno, especialmente na Europa e EUA é assim, quem ambiciona subir na carreira e angariar a fama, descarta a presença do filho em suas vidas. Aliás, é muito comum por lá o hábito de adotação de filhos, quando a estabilidade financeira e as ambições já se encontram ancoradas. Acontece que, voltando a André, um dia ele transou com uma mulher que engravidou dele (esse é um furo imperdoável a um garanhão que traça todas:não usar preservativo). Ele luta para que ela faça o aborto, ela acaba não fazendo. Ele oferece dinheiro para o custeio do filho, desde que não apareça como pai. Ela acaba aceitando. Só que, como os escritores de novela gostam de criar personagens psicóticos, esse tal André, descobre-se, não é desse jeito por estilo de vida, mas porque psicologicamente é traumatizado pela presença de um pai cruel e ausente. Parece que ele está ficando bonzinho e, ao contrário de José de Alencar, vai querer o filho e se afeiçoar à criança quando ela nascer. Como se vê, dois pesos e duas medidas.
O tema sugere uma leitura interessante sobre a relação pai e filho, num clima denso e profundo, o romance de Mario Sabino: O dia em que matei meu pai. Ed. Record, R$ 30,00. Mesclando suspense, tragédia e uma profunda reflexão sobre a alma humana, o romance parte de uma trama aparentemente simples - a do narrador que conta à sua analista os motivos pelos quais matou o pai. O autor desenvolve uma obra na qual a psicanálise, a filosofia, a religião e a literatura se sobrepõem num discurso marcado pela dissimulação. Uma história de mistério em que o leitor deve descobrir não o crime ou o criminoso - explícitos desde o título - mas as motivações para o ato.
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