domingo, 22 de julho de 2012

Patti & Mapplethorpe, Só Garotos

Patti Smith lançou recentemente seu disco de estúdio, Banga. Tem a sonoridade menos agressiva que seus discos anteriores. Para compensar, apresenta letras densas (Patti sempre foi poeta), algumas canções são poemas que a cantora diz enquanto a melodia toca. Nele tem This is the girl, homenageando Amy Winehouse; tem também Constantine’s Dream, poema longo de mais de seis minutos, onde a intérprete, ao acordar de um sonho apocalíptico, vai à igreja rezar e encontra lá a pintura que seu amor há tanto procurava. Todas as músicas são bacanas. Patti Smith fez parte do movimento punk, que efervesceu a partir da década de 70 do século passado. Cultuada como poetisa do rock, faz parte de um time seleto de roqueiros que incluem Bruce Springsteen e Bob Dylan, de quem já era fã antes de começar sua carreira como cantora. Se você não lembra dela, pode ter visto e ouvido a música que ela fez com Bruce Spreengsten e rola no You Tube, os dois junto com Bono, do U2: Because the night.
Banga serve de mote para comentar o livro que ela havia prometido escrever a seu grande amigo, o artista plástico e fotógrafo Robert Michael Mapplethorpe, pouco antes da morte dele, em 1989, para contar a história dos dois, em Só garotos. Ela e Robert nasceram em 1946, foram para Nova Iorque no mesmo ano – ela para ser poeta, ele para ganhar expressão como artista plástico. Os dois se conheceram em uma livraria onde ela trabalhava. Em dois toques tornaram-se amantes. A coisa não continuou, porque Robert era homossexual e decidiu seguir sua tendência. Tornaram-se amigos por toda a vida. Patti, muitas vezes, assumiu o papel de irmã mais velha do fotógrafo em suas crises existenciais. Robert, desde cedo, envolveu-se com LSD. Sujeito irreverente, teve o incentivo de Andy Wahrol para desenvolver sua fotografia como arte. Robert era bastante conhecido por suas fotos retratando o sadomasoquismo guei. Patti, por sua vez, era apaixonada por poesia. Rimbaud era dos seus autores favoritos. Tinha intenções de publicar um livro de poemas. Como já cantava e tocava, Robert a incentivou a enveredar pela música. Seu primeiro álbum, Horses, teve design gráfico e fotos dele. Enquanto viveram juntos, foram morar no Hotel Chelsea, que na época tinha residentes ilustres. Antes deles, Bob Dylan e Janis Joplin, por exemplo, haviam morado lá. Enquanto viveram no Chelsea, tiveram contato íntimo com a nata da intelectualidade cultural da época, seja na música, na literatura e nas artes plásticas. William Burroughs, escritor, foi outro que teve grande influência na vida dos dois. Separados, saíram do Chelsea. Patti partiu para sua carreira musical e Robert descobriu os prazeres da fotografia. A década de 80, efervescente em novas tendências artísticas, infelizmente trouxe o estigma da AIDS. Robert foi uma de suas vítimas, morrendo em consequência disso. Patti ficou próxima a ele até sua morte.
Só garotos é importantíssimo para retratar uma das épocas mais importantes do movimento pós-moderno, que já havia lançado raízes nas décadas passadas. As marcas do homem contemporâneo, individualista, autodestrutivo, enraizado na sociedade de consumo, evidenciando novos comportamentos sociais, têm suas marcas na rica história das mudanças de comportamento social que o livro de Patti Smith faz refletir na história de vida dela e na história de vida de Robert Mapplethorpe. Leia!
Se você é fã de Patti Smith e quer comprar seu disco, gaste um pouquinho mais e compre o disco importado, quem contém as letras e um diário. Se optar pela edicção nacional, terá de buscar as letras na internet.
========================
Patti Smith. Só garotos. SP,Cia. das Letras, 2010, 220 pp. R$ 39,00

domingo, 15 de julho de 2012

Gabriela Cravo e Canela

Jorge Amado era muito bom contador de histórias. Criou caricaturas da sociedade baiana, seja no período histórico do cacau: coronéis, políticos, damas da sociedade, seja nos romances urbanos: o político, o industrial, homens e mulheres da alta classe média de Salvador. Foi um dos poucos escritores com perfil para ganhar o Nobel de Literatura. Seus romances foram traduzidos em inúmeros idiomas, conseguindo sucesso de venda. Homem de esquerda por muito tempo, elegia pessoas do povo para heróis de suas histórias. Pessoas pobres, analfabetas ou quase analfabetas (Gabriela, por exemplo, não fez escola, nem certidão de nascimento tinha). Em Capitães de Areia eram os meninos de rua; em Teresa Batista, uma prostituta, em Jubiabá, um pai de santo. Não foi um romancista dos mais primorosos em relação a sua técnica narrativa. Muitas de suas histórias carecem de soluções melhor elaboradas. Alguns conflitos se resolvem de forma piegas e simplista. Entretanto, sua prosa é viva e saborosa. Com a regravação da novela Gabriela, resolvi relembrar a Gabriela do romance, relendo o livro cuja leitura havia sido feita há 37 anos, no curso de Letras.
Gabriela é mulata, “nada mais era que uma pobre moça, quase menina ainda”, “seria uma criança, não fossem as ancas largas”. A moça tem 21 anos. Aparece na história lá pela página 80, quando vem fugida da seca para Ilhéus. Quis o destino que ela encontrasse o sírio Nacib, que nesse mesmo tempo estava precisando urgentemente de uma cozinheira para seu bar, o Vesúvio. Depois de muito procurar, encontra Gabriela na praça central, no lugar onde antes ficavam os escravos à venda e onde agora estava ela, juntamente com outros retirantes, à espera de que alguém os empregasse. Além de bela, sensual e comunicativa, Gabriela era talentosa na cozinha. Logo conquistou a confiança e o amor de Nacib. Ele, entretanto, zela pela moral. Quer casar, Gabriela reluta, mas cede. O casamento oficial dura cinco meses. Nacib ama Gabriela, mas não se acha um diabo qualquer. É amigo de gente influente na política local. Quer introduzi-la na vida social, fazê-la conduzir-se como uma senhora da sociedade de Ilhéus. Obriga-a a usar sapatos, chama-lhe a atenção para não falar alto no cinema, não mostrar intimidade com as empregadas, não rir debochada para qualquer um, como fazia no bar, não usar mais rosa atrás da orelha, quando saem juntos. Afinal, comprara-lhe vestidos de seda, chapéus, até luvas. Dera-lhe anéis e colares. Queria-a tão bem vestida como a senhora mais rica, como se isso apagasse seu passado. Gabriela, com isso, encolhe-se, perdida. Moça sem instrução, gosta de andar de pés descalços, é comunicativa, simples, uma moça desencanada, capaz de deitar com um homem por vontade, sem preocupar-se com os conceitos morais que possam fazer dela. Acaba traindo Nacib. O casamento é anulado. Os dois voltam às boas, quando os preceitos morais ficam de lado e o amor renasce livre e verdadeiro.
O romance se dá em um período curto de tempo, no ano de 1925. A história de O romance divide-se em dois focos principais: Gabriela e disputa política. Sua vida com Nacib serve para costurar os acontecimentos sociais e políticos de Ilhéus, em pleno esplendor do cacau. Grandes proprietários de terras passam a ter casas na cidade. Progresso era a palavra que mais se ouvia em Ilhéus e Itabuna naquele tempo. Era assunto nas colunas de jornais, nos bares, nos cabarés. Novas ruas e centros comerciais eram criados. A cidade foi perdendo o ar de fazendeiros montados a cavalo, revólver na cintura, de jagunços que amedrontavam as ruas sem calçamento, de mascates que chegavam e expunham seus produtos nas calçadas. A cidade passa a expor mercadorias em vitrinas coloridas e variadas, multiplicam-se lojas e armazéns. Surgem bares, cabarés, cinemas e colégios. Naquele tempo, doutor não era doutor, capitão não era capitão, assim como coronéis não o eram. Os fazendeiros da lavoura de cacau adquiriam patentes de Coronel da Guarda Nacional. Ficara o costume. Donos de roças de mais de mil arrobas passam normalmente a usar e receber o título que ali não implicava em mando militar e, sim, no reconhecimento da riqueza. Com o crescimento da lavoura cacaueira, Mundinho Falcão, paulista, cuja família comercializava café, vê no cacau da Bahia um caminho novo para enriquecer por seus próprios métodos. De outro lado, o coronel Ramiro Bastos, que mandava na cidade por métodos antigos, vê em Mundinho Falcão um inimigo a ser declarado. A luta dos dois pelo poder político de Ilhéus é o mote da história.
As adaptações feitas do romance para a televisão e o cinema têm seu fundamento. A televisão e o cinema são outras linguagens. Podem alterar ou acrescentar fatos, até envelhecer Gabriela, desde que mantenham seu frescor de juventude e sua sensualidade nativa da Bahia.
=========================
Jorge Amado. Gabriela Cravo e Canela. SP, Cia. das Letras (edição
econômica), 2012, 336 pp. R$ 30,00

domingo, 8 de julho de 2012

O expressionismo surrealista de Gombrowicz

Witold gombrowicz (1904-1969) nasceu na Polônia e morreu em Paris. Publicou seu primeiro romance, Ferdydurke (traduzido no Brasil pela Companhia das Letras), em 1937. Nesse romance, segundo a crítica, já se encontram as características que marcaram toda sua obra: a imaturidade, o paradoxo, a crise de identidade. Gombrowicz saiu da Polônia para a Argentina pouco antes da Segunda Guerra, vivendo em completa miséria. Quando retornou a Paris, na década de 60, teve seus romances traduzidos para o francês, atingindo, assim, seu reconhecimento como um dos melhores escritores polacos, embora sua obra tenha sido rejeitada em seu país até pouco tempo atrás. Neste espaço, traço algum comentário sobre seus romances A Pornografia (1960) e Cosmos (1965).
Pornografia - A ação do romance se desenvolve na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial. Witold, o narrador-personagem, e seu amigo, Frederico, chegam à casa de campo de outro amigo. Esse outro amigo oculta um adolescente desertor, que pertence à resistência. Nesse cenário, surge uma jovem adolescente, amiga do jovem. Desenvolve-se nesse ambiente de guerra e violência um jogo voyerista de Witold e Frederico, misturado à intriga criminal envolvendo dois assassinatos. Uma das cenas emblemáticas da narrativa é quando se dá uma reunião para decidir o assassinato de um membro do grupo, suspeito de traição. Os participantes, todos adultos, sentem-se incapazes de cometer o assassinato. Sabem o peso que isso significará em suas vidas. Então, planejam uma maneira de fazer com que o crime aconteça pelas mãos dos adolescentes. Por serem jovens, feitos um para o outro, não se dariam conta do que estariam fazendo. Moral: a pornografia metaforizada acontece onde a gente quer vê-la. Por isso, é associada muitas vezes à perversão. Está presente nos outros, não em nós. A tradução da Companhia da Letras, que está disponível no mercado, não conheço. A pornografia que tenho é da Ed. Nova Fronteira, esgotada, mas acessível em sebos virtuais, com tradução de Tati de Moraes e revisada por Ian Michalski.
Cosmos - O início da trama começa parecido com A Pornografia: Witold, o autor no papel de narrador-personagem, mais um amigo, os dois de meia idade, hospedam-se, nas férias de verão, numa pensão familiar do campo. Ali, conhecem uma mulher que tem uma boca horrível, devido a um acidente de carro, e outra mulher, com uma boca maravilhosa. As bocas da duas mulheres se embaralham na mente de Witold, convertendo-se em obsessão. Paralelamente, coisas inusitadas acontecem, como um pardal que é encontrado enforcado por um cordão. Depois, um gato aparece enforcado. Por último, uma pessoa. Quem é o assassino? Uma das personagens disparatadas na novela, o dono da pensão familiar, gosta de inventar palavras misteriosas, latiniza outras, cria provérbios. Situações não factíeis e surreais, assim como deformações do cenário e de pessoas, levando à caricatura, são características que aproximam Witold Gombrowicz do surrealismo e do expressionismo.
====================
Witold Gombrowicz. A pornografia. RJ, Nova Fronteira, 1986, 240 pp. R$ 15,00 _________________ Pornografia. SP, Cia. das Letras, 2009, 208 pp.R$ 47,00 _________________ Cosmos. SP, Cia. das Letras, 2007, 192 pp. R$ 45,50

domingo, 1 de julho de 2012

Uma viagem à Índia

Gonçalo M. Tavares, nascido em Angola em 1970, é um dos escritores mais produtivos da literatura portuguesa. Ganhador de inúmeros prêmios literários importantes, escreve compulsivamente, tendo já publicado cerca de 30 livros, entre ficção, teatro e poesia desde 2001, quando publicou seu primeiro livro. Seu romance Jerusalém está na lista da edição europeia dos 1001 livros que você deve ler antes de morrer. Seus quatro romances que compõem O Reino (Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica) serão lidos e depois comentados neste blog.
A epopeia Uma viagem à Índia circula por outra epopeia, Os Lusíadas. N’Os Lusíadas, Camões narrou os feitos de Vasco da Gama em sua viagem à India, para descobrir novos mundos e ampliar a comunicação entre outros povos. E também toma emprestado um personagem, Bloom, herói do romance Ulysses, de James Joyce, que por sua vez é uma epopeia moderna centrada em A Odisseia, de Homero. Bloom, em Ulysses, é o herói que vive mil peripécias fora de casa, em Dublin, durante um dia. Para que você não se assuste com as referências, é bom explicar que o livro de que falamos não é complicado. Ele segue, de forma não ortodoxa, a estrutura dos Lusiadas, estruturando a narrativa em dez Cantos, cada canto em média com 110 estrofes, em verso livre. O autor nos apresenta o personagem central Bloom , vindo de uma tragédia familiar. Sua amada, por razões não explicadas, havia sido assasinada pelo pai que ele tanto amava. Ele mata o pai, como gesto de vingança. A partir de então, decide fazer uma viagem à India, em busca de si mesmo. Bloom já havia conhecido os ingredientes absolutos da ação no mundo, a mistura estúpida da morte com o amor. Faltava-lhe, então, conhecer o que existe dentro do corpo e faz coisas. Por ser epopeia contemporânea, nosso herói troca o navio pelo avião. Viaja a Londres, onde não é bem recebido. De lá vai a Paris, onde conhece um francês que se torna seu amigo. Então, chega à Índia, onde encontra a pobreza, muita gente na rua, homens velhos que julgava eternos pelas riquezas de historias que contavam urinam em plena rua, em cima de lixo que os cachorros vasculham para encontrar comida. Respeito e nojo existem no mesmo homem. Durante sua viagem à Índia, Bloom se dá conta de que o passado ocupa pouco espaço em sua mala. O presente é que ocupa quase todo o espaço que o rodeia. Quem é Bloom, ele se questiona. Não sabe. Bloom se dá conta de que, quando se foge, quando se tem medo, a ética é nada.
A angústia de Bloom, é que ele quer sempre avançar, para esquecer o passado. Memória e esquecimento confirmam a intenção de sua aventura. O esquecimento se repete à medida que a viagem prossegue. Não olhar para trás é a condição para se seguir em frente. Viajar, então, significa mudar de ares e perder de vista o presente que incomoda. Uma viagem à Índia reflexiona, em termos mais amplos, o vazio em que se encontra o mundo contemporâneo, onde os valores do amor e da poesia sucumbem ao temor coletivo e ao capitalismo, onde o dinheiro impera em todas as relações. Gonçalo M. Tavares construiu um romance dos grandes da literatura. O livro foi publicado no Brasil pela Editora Leya, portuguesa, uma de algumas editoras que passam a publicar obras portuguesas no Brasil no português de Portugal.
=====================
Gonçalo. M. Tavares. Uma viagem à Índia. SP, Leya, 2010, 480 pp. R$ 44,90

domingo, 24 de junho de 2012

Respiração artificial

Ricardo Piglia, nascido em 1940 na Província de Buenos Aires, é dos melhores da literatura argentina, com amplo reconhecimento internacional. Romancista e ensaísta, tem os romances Alvo noturno (seu último romance), Dinheiro queimado, Respiração Artificial, Nome falso e A invasão traduzidos para o português, além dos livros de ensaio Formas Breves, O laboratório do escritor e O último leitor. A Folha de São Paulo está lançando agora Respiração Artificial , dentro de sua coleção Literatura Ibero-americana. Seu primeiro romance é considerado um dos dez melhores da literatura argentina. A interrogação sobre o passado de um possível traidor, através de sua autobiografia, sustenta a intriga, num relato satírico onde a paródia se faz presente, criando uma nova forma de ficção. A história começa narrando a vida de Enrique Osório, exilado político do século XIX, que escreveu sua autobiografia, acompanhada de uma carta para alguém no futuro. O professor Marcelo Maggi encontra esses escritos por acaso e trata de elucidar o quebra-cabeças de Osório. Para isso, escreve a seu sobrinho, o escritor Emilio Renzi, solicitando um encontro num bar do interior país, fora das esferas do poder. O objetivo do professor é mostrar ao sobrinho fatos do passado que afetam sua vida. A narração oculta e revela mensagens, interroga sobre os sentidos do mundo, das ideias e do cotidiano, a partir de vários personagens. O romance move-se em estilos e registros diversos, até transformar-se numa grande metáfora desses tempos sombrios, em que os homens precisam de um ar artificial para poder sobreviver. A trama tem um viés filosófico forte, através do polaco Tardewski, que se diz discípulo de Wittgenstein, mostrando fatos originais, como o encontro de Hitler e Kafka num bar em Praga. Wittgenstein, filósofo austríaco naturalizado inglês, lançou o conceito da "filosofia da linguagem comum" que, mais ou menos, diz que os filósofos fazem confusão de suas ideias filosóficas, distorcendo ou desconsiderando o que as palavras realmente significam na linguagem cotidiana. A trama acontece em 1976, no período de grande repressão política na Argentina. Ricardo Piglia é dos grandes. Você não pode morrer sem ler um livro dele.
================================= Ricardo Piglia. Respiração Artificial. SP, Cia. de Bolso, 2010 200 pp. R$ 20,00

A edição da Folha de SP já está nas bancas, por R$ 18,70.




R$ 20,00

domingo, 17 de junho de 2012

A condição humana

A revolução russa de 1917 influenciou a criação do partido comunista chinês, que tinha entre seus líderes o ativista político Mao Tse-tung. O PCC começou a organizar massas de trabalhadores. Em 1927, organizou uma rebelião que tomou a cidade de Xangai. O objetivo da rebelião era tirar do poder o regime corrupto que até o momento dominava a China. Chiang Kai-Shek, militar e político, contou com o apoio dos comunistas para unificar a China. Após a tomada de Xangai, entretanto, tratou de eliminá-los. Grosso modo, esse é o mote histórico que serve de base à trama de A condição humana, de André Malraux, considerado o precursor do romance moderno. Aproveitando a realidade de uma guerra como cenário de sua história, o autor conseguiu exprimir a consciência ao mesmo tempo social e pessoal de toda uma época. Entretanto, a novela não tem conotações históricas e nem é panfleto de exaltação do partido comunista chinês. Trata-se de uma trama muito bem amarrada, com cenas rápidas e dinâmicas, mostrando personagens verossímeis agindo diante de uma situação de conflito. Há críticos que comparam a novela como um quase script cinematográfico, tal a objetividade com que o autor estrutura a história. Baseado em fatos reais, Malraux cria personagens cuja consciência no momento dos conflitos revolucionários, atuam enquanto a ação se desenrola. O essencial é o confronto trágico da vontade humana com as forças políticas. As duas primeiras partes estão localizados em Xangai, 21-23 de março de 1927. O romance começa abruptamente com um assassinato. Em seguida, aparece o clima de violência que permeia o livro e também a solidão do assassino que, desde o primeiro crime, vai se tornar um terrorista. Na terceira parte, vemos uma discussão política em que existem diferentes concepções da revolução. Os revolucionário tramam o assassinato de Chiang Kai-Shek, mas o plano é abortado. A cena dessa ação é descrita de forma a tirar o fôlego do leitor. Começa a perseguição implacável aos comunistas revolucionários. Muitos “terroristas” são presos, alguns se suicidam na prisão. O romance termina com um final cínico. Um francês que havia organizado a resistência contra os revolucionários, negocia em Paris com os representantes dos grandes bancos a exploração de uma China ainda capitalista. Quanto os revolucionários sobreviventes, fazem uma reflexão dos sobreviventes sobre a fidelidade à inssurreição de 1927 e a continuidade da luta.
André Malraux (1901-1976) participou ativamente de todas as batalhas ideológicas do século XX, desde o nacionalismo chinês até a guerra civil espanhola. Foi militante do partido comunista francês. Isso não o impediu de criticar severamente a postura de Stálin na União Soviética. Durante os acontecimentos de maio de 1968 foi solidário a De Gaule, causando a ira da esquerda intelectual da época.
A condição humana foi publicado em 1933, recebendo o Prêmio Goncourt. Há outra obra do autor traduzida em português, A Esperança, tendo como pano de fundo a guerra civil espanhola.
===========================
André Malraux. A condição humana. Rio, Bestbolso, 2009 350 pp R$ 18,00

domingo, 10 de junho de 2012

Alvo Noturno


Quando foi perguntado ao escritor argentino Ricardo Piglia (1940) por que havia demorado tanto para publicar seu último romance Alvo Noturno, lançado no Brasil em 2011, já que sua última obra de ficção, Dinheiro queimado (Plata quemada), havia sido publicada em 1997, ele disse que mantém um método de trabalho que não recomenda a ninguém, que consiste em fazer uma primeira versão do romance e deixá-la de lado. Quando regressa à história, tem a sensação de que ela está mais nítida. Alvo noturno é uma trama policial, onde um crime ocorre no início e há um comissário de polícia que investiga o caso, vindo a ser, no decorrer da história, auxiliado por um jornalista. O romance transparece com clareza as relações entre corrupção e poder político. Croce, o comissário fora de moda em relação a seus métodos, é um ser marginalizado que tem um olhar lúcido, distanciado, que está sempre questionando a verdade. O comissário Croce é um cara meio louco, já não é tão racional e nem se aproxima da verdade por métodos mais práticos. Busca decifrar o crime através de suas percepções, que são inexplicáveis. No povoado onde vive e onde ocorre o crime, seu método é aceito, pois ele sempre desvenda os crimes. O homem assassinado no povoado que fica próximo a Buenos Aires é um negro porto-riquenho que veio para a Argentina, por causa de duas gêmeas de uma família rica da região. Ao contrário de outros países latino-americanos, a Argentina não teve lastros significativos com os africanos, muito embora haja um racismo muito forte. Mestiços de índios e negros, chamados de zambos, eram a classe mais baixa da escala social do Rio da Prata. Então, aparecer um mulato cheio de dinheiro, vindo do nada, envolvido com duas irmãs de uma família tradicional da sociedade local, pode tornar mais previsível o fato dele ser assassinado. A partir do crime, entretanto, a história cresce, mostrando o inferno das relações familiares: o falso culpado e o culpado verdadeiro, fraude, paixões e traição. Vale muito a pena a leitura.

Ricardo Piglia é escritor e professor de literatura latino-americana, considerado um dos melhores da literatura argentina na atualidade. Dizem que é o sucessor de Borges (não entendo por que Borges tenha de ter um seguidor ou por que não possa existir Borges e Piglia sem que este deva alguma coisa àquele). Seus romances Respiração Artificial, A Cidade Ausente, Dinheiro Queimado e Alvo Noturno já estão publicados no Brasil. É autor, também, de contos, ensaios sobre ficção e roteiros para cinema. É dele o roteiro do filme Coração Iluminado, dirigido por Héctor Babenco. Sua obra Dinheiro Queimado foi para o cinema com o título de Plata Quemada.
=====================
Ricardo Piglia. Alvo Noturno. SP, Cia. das Letras, 2011, 256 pp. R$ 45,

domingo, 3 de junho de 2012

O caso da Chácara Chão

Você lembra a polêmica com o Prêmio Jabuti de Literatura do ano passado? O romance de Edney Silvestre, Se eu fechar meus olhos agora, ganhou o prêmio como melhor romance. Chico Buarque, com Leite Derramado ficou em segundo e Luís Fernando Veríssimo em terceiro, com Os espiões. A Câmara Brasileira do Livro, que organiza o prêmio, escolhia, ainda, entre todos os selecionados de todas as categoria (conto, poesia, romance, reportagem), o Livro do Ano. E aconteceu que o Leite Derramado, do Chico, ganhou, deixando Edney Silvestre e a editora Record, que lançou a obra, descontentes. Para eles, quem deveria ganhar seria Se eu fechar os olhos agora, que havia ficado na frente. Agora houve mudança nas regras, só o primeiro colocado de cada categoria concorre ao Livro do Ano. Aproveitando-se do imbróglio, Domingos Pellegrini Jr. escreveu uma carta aberta no jornal de literatura O rascunho, endereçada a Milton Hatoum, escritor manauara, reclamando do que vem acontecendo com seu livro O caso da Chácara Chão (da Ed. Record, a mesma do Se eu fechar meus olhos agora), vencedor do Prêmio Jabuti de 2001. O livro de Hatoum, Dois Irmãos, da Cia. das Letras (a mesma do livro do Chico Buarque) havia ficado em segundo lugar. Mas, Dois Irmãos ganhou repercussão maior que o vencedor do Jabuti, sendo confundido como o vencedor do prêmio. A CBL contribuiu para essa confusão, ao publicar, no seu site, não a relação dos vencedores por ordem de premiação, mas as relações dos três títulos finalistas em ordem alfabética, como faz na divulgação no período entre a revelação dos finalistas e a premiação. Talvez também tenha contribuído o fato de a Companhia das Letras, já em 2001, ter colocado tarja sobrecapando o livro, com a informação promocional “Vencedor do Prêmio Jabuti”. Resumo da história: foi uma briga política entre duas grandes editoras do mercado brasileiro. Eu havia lido Dois Irmãos e gostei muito. Não havia lido o livro de Pellegrini. Decidi comprá-lo e ler. De início, me incomodou o estilo infanto-juvenil. Os diálogos soavam artificiais. O autor é um dos expoentes da literatura para jovens, possui vários prêmios nessa categoria. Quando me dei conta, entretanto, estava envolvido na história e li o romance quase sem parar. A trama se sustenta em forma de suspense, prendendo a atenção até o final. O livro de Pellegrini tem uma trama policial. É também um painel social, onde as pessoas se debatem entre o crime e a decência, o isolamento e a comunidade, a covardia e a cidadania. O personagem central da história é um escritor de literatura juvenil que vive com a mulher, a filha pequena e o enteado adolescente em uma chácara nas imediações de Londrina. Uma noite, a família é assaltada por dois elementos, um branco de origem rica e um mulato de origem humilde, licenciado da PM por uso de drogas. Na briga, o escritor fere com facão o ladrão da PM. A dupla foge, roubando joias e dólares. A polícia é chamada, os bandidos presos, mas o escritor e sua mulher são vítimas de uma armadilha. As coisas fervem, a polícia e a opinião pública ficam do lado dos bandidos, os advogados sugerem a retirada da queixa e a busca para salvar a dignidade do casal segue adiante por outros meios. Paralelamente, próximo à chácara, constroem um enorme galpão para promover festas e shows, com o som a todo o volume. A comunidade local se mobiliza para coibir o estabelecimento de funcionar, inicialmente sem sucesso. No final do livro, as coisas se resolvem. O assaltante pobre é desmascarado e condenado e o assaltante rico consegue sair do país impune. Domingos Pellegrini Jr. baseou-se em fatos reais acontecidos com ele mesmo, quando foi assaltado em sua chácara, em situações semelhantes às do livro. Longe de ser um livro-cabeça, sua leitura prazerosa empolga.
=======================
Domingos Pellegrini Jr. O caso da Chácara Chão. 5ª ed., Rio, Ed. Record, 2007, 340 pp. R$ 39,90

domingo, 27 de maio de 2012

Tirano Banderas

Ramón Del Valle-Inclán (1866-1936), nascido em Galícia, Espanha, foi um romancista, poeta, ator e dramaturgo espanhol que muito contribuiu, com sua obra, para o modernismo na literatura hispano-americana. Visitou o México duas vezes, o que lhe serviu de incentivo para escrever sua obra mais importante, Tirano Banderas, retratando a vida de um ditador mexicano, que comandou o país até sua queda, em 1910, quando se deu a Revolução Mexicana, que instaurou a classe média no poder e apregoou o mito do herói para manter-se no poder até os dias de hoje. Sabe-se que a revolução de 1910 no México foi a primeira revolução de cunho popular na América Latina. Figuras populares lendárias como Pancho Villa e Emiliano Zapata lutaram nela, de 1910 até 1940. Tirano Banderas se estrutura de forma clara em sete partes que, por sua vez, se dividem em livros. A quarta parte (a central), em sete. As outras seis em três, num total de 26 livros. Apresenta ainda um prólogo e um epílogo. A ação da narrativa se passa em três dias. Da figura de Tirano Banderas sabe-se muito pouco. Ela serva de pretexto para o autor expor uma visão amarga da realidade sociopolítica do país. O país imaginário de Tirano Banderas serve ao escritor para criticar não somente uma ditadura concreta, mas um sistema político que degrada e rebaixa a condição humana. Valle-Inclán sintetizou a complexidade social hispano-americana nas figuras do índio, do criollo (o descendente de europeu nascido em solo americano. Mais especificamente, o latino-americano nascido de sangue espanhol com sangue índio) e do imigrante, que chega a esse país imaginário com intuito de enriquecimento. El generalito Banderas é o índio que pode alguma vez ser presidente, mas que vai se desumanizando aos poucos. Tirano Banderas se passa em uma república imaginária, Santa Fe de Tierra Firme, submetida à ditadura de um general, Santos Banderas, um homem obcecado pela paixão da autoridade, escondido sob o reflexo de uma justiça rudimentar e uma crueldade absurda, ingredientes que levam à degradação sumária do ser humano. Ao lado da personagem central, move-se uma pequena corte de aduladores servis, os medíocres estúpidos que aumentam a dimensão nociva do caudilho. Em oposição a essa casta, há as figuras de Don Roque Cepeda, de Filomeno Cuevas, Zacarias El Cruzado e do Coronelito Gándara, que organizam a oposição ao ditador. A narrativa faz uso da caricatura e do grotesco, como uma forma de deformar a realidade com o objetivo de denunciá-la ou criticá-la.
=====================
Valle-Inclán. Tirano Banderas. Madrid, Austral,2006, 252 pp. R$ 30,80 A edição em português encontra-se em sebos, pela Ed. Nova Fronteira ou pelo Círculo do Livro.

domingo, 20 de maio de 2012

A obscena senhora Hilda Hilst

Essa é escritora que você não pode deixar de ler antes de morrer. Pelo amor de Deus! Hilda Hilst (1930-2004) tem vasta obra entre poesia,prosa e teatro. Era bruxa. Viveu sua velhice solitária na Casa do Sol, sua chácara em Campinas, cercada de cães. Durante sua vida sempre foi preocupada com a sobrevivência da alma. Costumava deixar gravadores ligados pela chácara e afirmava ter captado vozes, fragmentos de frases de espíritos. Quase ninguém acreditava nela. Caio Fernando Abreu, escritor místico, era seu amigo e conviveu com ela um tempo na Casa do Sol. Pouco antes de sua morte, conheceu Zeca Baleiro, que musicou poemas seus, gravados no cd Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio com vozes de Bethânia, Ângela Ro Ro, Zélia Duncan, entre outras. Era admirada por Vinícius de Moraes, Lygia Fagundes Telles e Carlos Drummond de Andrade. Mulher de comportamento avançado, já na juventude, na década de 50 morava sozinha em São Paulo, onde costumava receber pessoas influentes da inteligência paulistana em suas festas. Em determinada fase de sua vida, passou a escrever “textos pornográficos”, sob alegação de que pouca gente, até então, lia suas obras. Trata-se de textos em prosa e poesia eróticas de excelente qualidade, como sempre. Pertencem a essa fase: O caderno rosa de Lory Lambi, Contos d’escárnio, Cartas de um sedutor e Bufólicas. A editora Globo vem relançando toda sua obra, para agrado de público e crítica, algumas já esgotadas.
Se você não leu nenhuma prosa dela, comece por A obscena senhora D. Com cerca de 90 páginas, a narrativa conta a história de uma senhora de sessenta anos que escolhe morar no vão da escada, depois que seu marido morreu. Dali, ela conversa com ele, com alguns moradores da vila onde mora. Também conversa com Deus, a quem chama de “Porco-menino”, “menino-louco”, “menino-precioso”. Em seus diálogos, a mulher quer encontrar respostas. A conversa dela com o marido é sempre o desencontro entre o desejo de ambos. A narradora-personagem acaba, no final das contas, narrando seu desamparo frente à espera de um Deus que a teria abandonado.
Tu não te moves de ti, escrito antes de A obscena senhora D, apresenta uma escritura mais complexa, desenvolvida em três novelas, Tadeu (da razão), Matamoros (da fantasia) e Axelrod (da proporção). Elas compõem entre si uma unidade, relacionada ao tema, onde os personagens se confundem, derramando-se um sobre o outro. O desejo de Tadeu se materializa como personagem na história de Matamoros, para depois, num processo lento de descontrole, perder-se em Axelrod. A autora cria em seus personagens um diálogo de interrogação, quase inquisitorial, chegando sempre a uma espécie de limite.
Se você preferir a poesia de Hilda Hilst, busque na internet que há poemas lindíssimos dela. Em setembro a Folha de São Paulo lançará, da autora, Exercícios, uma reunião de poemas esparsos e alguns inéditos, por R$ 16,90.
====================

Hilda Hilst. A obscena senhora D. SP, Globo, 2001, 112 pp. R$ 15,00 (nos sebos)
___________ Tu não te moves de ti. SP, Globo, 2004, 184 pp. R$ 20,00 (nos sebos)

domingo, 13 de maio de 2012

O livro de areia

O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) respirava livros. Depois de cego, tomou emprestado os olhos e as mãos de Maria Kodama, sua secretária, para ler e escrever suas histórias. A relação de Borges com Kodama foi vital para o escritor. A presença dela em sua vida dava-se de forma integral. Colaborou diretamente para alguns livros dele. Acabaram casando-se pouco antes da morte do escritor, para desgosto da família de Borges. Hoje, ela preside a Fundación Internacional Jorge Luis Borges, com sede en Buenos Aires.
O libro de areia, escrito em 1975, está composto de treze contos e um epílogo. No primeiro, O outro, um velho, em Genebra, senta-se num banco de uma praça deserta. Alguém vem e senta-se no mesmo banco e assobia uma canção que o velho pensa conhecer. Dirige-se à pessoa a seu lado, um jovem, e lhe pergunta se mora em rua tal, número qual. O jovem responde que sim. Pergunta-lhe também se seu nome é Jorge Luís Borges. Ele diz sim. O velho lhe diz, então, que também se chama Jorge Luís Borges. Faz referências a vários fatos da vida do jovem Borges, para provar-lhe que o conhecia bem. Começa, então, a contar ao novo Borges a vida que ele vai viver. Assim vai se desenrolando o conto. Borges trata, aí, do duplo, muito frequente em sua escritura.
No segundo relato, Ulrica, o personagem-narrador, um escritor colombiano, em um congresso na cidade inglesa de York, apaixona-se por uma mulher norueguesa bela, de pele clara e longos cabelos longos. O narrador, provavelmente, a relacionou a uma Valquíria, personagem mitológica do folclore nórdico. Os dois são apresentados, fazem um passeio pelo bosque e o escritor apaixona-se por ela, dando-lhe um beijo na boca. Ela diz a ele que terão um momento de amor definitivo num lugar próximo dali. Como ela tem dificuldade em dizer seu nome espanhol, pede para chamá-lo de Sigurd. Então ele diz que vai chamá-la de Brynhild. Esses dois personagens fazem parte de uma história de amor trágica da lenda das Valquírias. Os dois dirigem-se ao local do idílio, despem-se e o amor flui. Foi a primeira e última vez que possuiu a imagem de Ulrica. Outro dado interessante, na história de Borges, é que Ulrica é a heroína de diversas histórias de diversos autores. Borges traça, aí, a mescla da oralidade com a escritura.
Bom, os outros contos do livro são igualmentle fascinantes. Não vou comentá-los para que não perca, leitor, a graça da leitura. Nesses dias frios de outono, sirva uma taça de tannat ou malbec para refrescar as ideias, pegue O livro de areia e entregue-se à leitura de seus contos maravilhosos. Esqueça-se da vida e viva as vidas do livro. Depois interfira nesse mundo com sua realidade. A obra foi lançada em 15 de abril pela Folha de São Paulo, dentro de seu projeto de Literatura Ibero-americana, lançando um livro semanalmente. Você ainda pode encontrar o exemplar nas bancas, se preferir esse tipo de edição, por ser mais acessível. A qualidade de edição é boa.

============================
Jorges Luís Borges. O livro de areia. SP, Cia. das Letras, 2001, 101 pp. R$ 35,00

A edição da Folha, nas bancas, custa R$ 17,90

domingo, 6 de maio de 2012

Por que você lê best-sellers?

( ) porque você abre o sítio de qualquer livraria na internet e os
best- sellers estão anunciados em destaque na página inicial.

( ) porque quando entra em uma livraria fabulosa, como a Cultura, o que
está exposto em suas gôndolas são esses livros comerciais com forte apelo promocional. Você lê a contracapa, a resenha é convincente. Policial. Você volta para a capa e há uma foto com um ou mais artistas que encenaram o filme baseado no livro. Você viu o filme, gostou,comprou o livro.

( ) porque esses livros já foram testados em seus países de origem,
tiveram grande sucesso comercial. As editoras nacionais gostam de investir nesse tipo de obra, pelo alto recurso financeiro.

( ) porque você folheou uma Veja ou Isto É no consultório de seu médico e
na seção de cultura esses livros estavam mencionados e resenhados.Você foi incentivado à leitura.

( ) São best-sellers "O poderoso Chefão", "Harry Potter", "O melhor de
mim", "A menina que roubava livros", "O caçador de pipas", as sagas de
bruxas da Idade Média, toda a obra de Samanta Schweblin, toda a saga do Ripley, "O código Da Vinci", a obra de Paulo Coelho (por que ele você não lê?).

( ) por nenhuma das assertivas acima. Suas razões são outras. É válido.

Os livros que se tornam best-sellers são previamente planejados para venderem muito no mercado editorial. Não vejo problema nisso. É uma literatura que não apresenta grandes voos existenciais, é uma literatura prazerosa, de passatempo. Bate no joelho de sua perna. Não vai além disso. O best-seller pode servir de porta de entrada para se aprofundar o gosto por uma literatura sofisticada. Mas esse leitor, por si só, talvez não consiga chegar lá. Seria preciso que houvesse uma divulgação mais exposta dessa literatura melhor elaborada, melhor traduzida, mais densa. Mas, quem edita livros precisa ganhar dinheiro. Literatura sofisticada não vende. Então, o leitor mais atento precisa do auxílio para buscar na internet um livro que lhe interesse e o encomende, provavelmente na loja você não o encontrará.
A Folha de São Paulo está buscando fazer autores de literatura ibero-americana best-sellers, com uma diferença: vendendo livros bons e baratos, em bancas de jornais. Acho louvável a iniciativa. Boa literatura. À venda ali, na sua mão. Adquiri o livro do português António Lobo Antunes (1942), contemporâneo de José Saramago, com quem, em vida, teve suas rusgas. Antunes disse que Saramago havia jogado um livro seu no chão. Depois, um disse que nunca havia lido um livro sequer do outro. Frescuras... Assim como Saramago, exige que suas obras sejam editadas no Brasil no original. Como sabemos, Portugal escreve diferente do Brasil (mesmo com o novo acordo de unificação dos dois idiomas).
Memória de elefante mostra as divagações “paranoicas” de um psiquiatra profundamente deprimido, recém-separado da mulher e das duas filhas, numa Lisboa pós-Revolução do Cravos (1974) e pós-independência de Angola (1975). O livro foi escrito em 1979. O relato se passa em um dia e uma noite, mostrando um homem mergulhado em dúvidas existenciais. Esse homem consegue se lembrar de tudo relacionado à sua vida pessoal e coletiva. Daí a memória de elefante do título. O autor, Lobo Antunes, é psiquiatra na vida real, trabalhou em um hospital angolano durante a guerra naquele país. Por isso, e por outras, a obra é considerada autobiográfica. Apesar de suas poucas páginas, o livro é denso, exige atenção na leitura, pelo grande número de informações e pela forma rebuscada que o autor utiliza para desenvolver sua narrativa. Nada impossível, entretanto, a um leitor inteligente e antenado ao mundo globalizado que o rodeia. Vale a pena a leitura.

António Lobo Antunes. Memória de elefante. SP, Folha de São Paulo, 2012, 162 pp. R$ 16,80