Um povoado anônimo de uma cidade espanhola; um chileno com pretensões de escritor que havia exercido todo tipo de trabalhos eventuais; um mexicano também poeta e andarilho que sobrevive como vigilante noturno em um camping; um empreendedor catalão metido a político, capaz de tudo para chamar a atenção de uma bela patinadora. Deles se obtém três versões para um crime, que se vão entrelaçando por toda a novela em torno de uma pista de gelo construída ilegalmente em uma casa abandonada.
O chileno da história também se havia apaixonado pela patinadora. Um dia resolveu segui-la, até que ela entrou num bar. O catalão, que havia ido ao encontro dela, encontra-se com o chileno e saúda-o com uma mescla de ódio e desconfiança. Sente-se mal, quando pressente que entre a patinadora e o chileno pode existir mais que amizade. O chileno havia sido casado com a empregada desse catalão e destroçara sua vida pela desilusão e infelicidade. O catalão pensa que o sul-americano poderia fazer o mesmo com a patinadora, a quem amava muito. O outro elemento, o vigilante, gostava de entrar na casa abandonada para observar furtivamente a bela patinadora a fazer seus exercícios ao som da música clássica.
Às dez horas da manhã de um certo dia, cada um deles se dirige à pista de gelo. Lá, cada um vê de seu ângulo e individualmente, que no centro da pista há um vulto encolhido que não se pode ver direito de quem se trata. O sangue, originado de diversas partes do corpo, havia se espalhado em diversas direções, formando desenhos e figuras geométricas. O corpo pode ser da bela patinadora. Para investigar isso, caro leitor, você precisa ler o livro, para saber. Trata-se de uma história interessante, com muito suspense.
Roberto Bolaño constrói uma história com requinte policialesco, com amores destruídos e ilusões perdidas. Com seu estilo mordaz e seu humor feroz, prende o leitor desde a primeira página. Nascido no Chile em 1953, morto aos 50 anos, surgiu na década de 1990 e logo se tornou um dos mais importantes escritores sul-americano dos últimos tempos. O escritor estava fora do Chile, quando Pinochet tomara o poder. Tentou voltar para lutar contra o ditador, mas foi preso e teve de se exilar na Espanha. Seu romance Os detetives selvagens é considerado sua obra-prima.
================
Roberto Bolaño. A pista de gelo. SP, Cia. Das Letras, 2007, 200 pp. R$ 44,00
domingo, 19 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
O último leitor
O argentino Ricardo Piglia (1940) nos mostra em seu excelente O último leitor, que a obra literária começa e termina nele, no leitor. É aquele que, mesmo lendo mal, mal interpretando, faz o sentido da literatura, é sua tábua de salvação. Um único leitor, o último leitor, chega a sustentar por um momento todo o peso da literatura sobre os ombros.
O primeiro ensaio, “O que é um leitor?”, nos fala de Jorge Luís Borges, um leitor voraz, obstinado por bibliotecas, que perdeu a vista lendo. Borges seria a primeira imagem do último leitor. Ele mesmo disse que “eu sou agora um leitor de páginas que meus olhos já não veem”. Borges foi o leitor perdido em uma biblioteca, que vai de um livro a outro, que lê uma série de livros e não um livro isoladamente. Um leitor disperso na fluidez e investigação de todos os volumes que tem a sua disposição. Depois de cego, Borges passou a escrever, ditando seus livros para a secretária. Aliás, as secretárias tiveram suma importância na vida de muitos escritores. O leitor não é somente o que lê um livro. É o que se perde numa rede de signos. Que lê e relê o mundo de acordo com seu interesse e sua necessidade. A ficção não depende de quem escreve somente, mas de quem lê. A ficção depende do intérprete.
O segundo ensaio, “Um relato sobre Kafka”, discorre sobre a correspondência que Kafka manteve com Felice Bauer, sua noiva, com quem quase se casou por duas vezes, como um grande acontecimento da literatura contemporânea. Nas cartas, escritas entre 1912 a 1917, Kafka narrava à noiva seu processo de escritura e toda sua angústia envolvendo esse processo. Contava, também, de sua vida durante a Primeira Grande Guerra. O interessante é que Kafka manteve sua relação amorosa com Felice através das cartas. Quase nunca se viam. Assim, Felice passava a ser a leitora de Kafka. O leitor mantinha, através da leitora obediente, um mecanismo de controle e sedução.
O terceiro ensaio, “Leitores imaginários”, apresenta-nos o maior representante de leitor da era moderna, o detetive privado das histórias policiais, Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe, aparecendo em três livros do autor: O assassinato da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada. A primeira cena de O assassinato da Rua Morgue se passa justamente numa livraria, onde o narrador conhece ocasionalmente o detetive Dupin, quando os dois estão ali em busca de um mesmo livro, raro e magnífico. Não sabemos qual é o livro, mas o que ele representa: aproximar os dois personagens. Desse encontro, surge a história policial.
O homem da era moderna relaciona-se com o mundo, através de um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção de um sentido para o leitor. Por exemplo, quando você era estudante universitário, qual era sua tendência política dentro da faculdade, que tipos de leitura você tinha acesso e que relação elas poderiam ter com sua atuação política? A indecisão de um intelectual pode ser sempre a incerteza da interpretação, das múltiplas possibilidades de leitura. Pode haver uma tensão entre o ato de ler e a ação política. O quarto ensaio, “Ernesto Guevara, rastros de leitura”, expõe ideias sobre a importância da leitura na formação intelectual do militante Che Guevara. Ricardo Piglia nos fala, por exemplo, de uma cena envolvendo Che Guevara ferido na luta em Cuba, pensando que iria morrer ali. Che recordou-se de um conto que havia lido, de Jack London, em que o protagonista, apoiado sobre uma árvore se dispõe a por fim a sua vida de maneira digna, ao saber-se condenado à morte. A literatura teve naquele momento, para Guevara, um sentido de reflexão existencial.
No quinto ensaio, “A lanterna mágica de Ana Karenina”, o ensaísta nos fala da relação da leitura com a formação do sentido, com a afetividade, com a tradição e com o desenvolvimento do romance de Tolstoi, Ana Karenina. É a época em que as mulheres são as grandes consumidoras da literatura. A partir da geração romântica, as mulheres passam a personificar a figura do leitor moderno. Os romances que se originaram dos folhetins, eram escritos em capítulos de jornal justamente para as mulheres. Ana Karenina lê seu romance num trem de Moscou a São Petersburgo. Nesse trem está o homem que ela vem a conhecer ali e que se tornará seu amante, levando-a à desgraça e ao suicídio. Ao ler seu romance, Ana Karenina identificava-se com a vida das personagens, tendo a ilusão de realidade que faltava a sua vida monótona com o marido. O protótipo da mulher como protagonista na literatura, era o de adúltera.
O último ensaio versa sobre “Como está construído o Ulysses”, uma das grandes obras-primas do romance moderno, que pouquíssimas pessoas leram, pelo alto grau de complexidade da obra. Eu tentei a tradução de Antonio Houaiss e parei na página 548, de 850, por ter perdido o fio da meada. Agora comprei a tradução de Caetano Galindo, pela Penguin Companhia, para nova tentativa. Parece ser mais acessível. Neste ensaio, Piglia nos diz que não existe o texto fechado e perfeito. O verdadeiro leitor lê com a certeza de que o livro não estará suficientemente terminado. Qual sua utilidade e seu valor? Joyce escreve a epopeia de Bloom em 24 horas, na cidade Londres, baseada na epopeia homérica de Ulisses. A obra literária tem sempre uma correlação com outra já existente, que se renova ou se transforma, no caso de Ulysses.
Aconselharia ao leitor dessa crônica que se aventurasse a um voo mais alto, buscando ler a O último leitor. Pode surgir uma dúvida ou outra, nada que o Google não resolva. É de leitura acessível e instigante.
Ricardo Piglia. O último leitor. SP, Cia. Das Letras, 2006, 192 pp. R$ 44,50
O primeiro ensaio, “O que é um leitor?”, nos fala de Jorge Luís Borges, um leitor voraz, obstinado por bibliotecas, que perdeu a vista lendo. Borges seria a primeira imagem do último leitor. Ele mesmo disse que “eu sou agora um leitor de páginas que meus olhos já não veem”. Borges foi o leitor perdido em uma biblioteca, que vai de um livro a outro, que lê uma série de livros e não um livro isoladamente. Um leitor disperso na fluidez e investigação de todos os volumes que tem a sua disposição. Depois de cego, Borges passou a escrever, ditando seus livros para a secretária. Aliás, as secretárias tiveram suma importância na vida de muitos escritores. O leitor não é somente o que lê um livro. É o que se perde numa rede de signos. Que lê e relê o mundo de acordo com seu interesse e sua necessidade. A ficção não depende de quem escreve somente, mas de quem lê. A ficção depende do intérprete.
O segundo ensaio, “Um relato sobre Kafka”, discorre sobre a correspondência que Kafka manteve com Felice Bauer, sua noiva, com quem quase se casou por duas vezes, como um grande acontecimento da literatura contemporânea. Nas cartas, escritas entre 1912 a 1917, Kafka narrava à noiva seu processo de escritura e toda sua angústia envolvendo esse processo. Contava, também, de sua vida durante a Primeira Grande Guerra. O interessante é que Kafka manteve sua relação amorosa com Felice através das cartas. Quase nunca se viam. Assim, Felice passava a ser a leitora de Kafka. O leitor mantinha, através da leitora obediente, um mecanismo de controle e sedução.
O terceiro ensaio, “Leitores imaginários”, apresenta-nos o maior representante de leitor da era moderna, o detetive privado das histórias policiais, Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe, aparecendo em três livros do autor: O assassinato da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada. A primeira cena de O assassinato da Rua Morgue se passa justamente numa livraria, onde o narrador conhece ocasionalmente o detetive Dupin, quando os dois estão ali em busca de um mesmo livro, raro e magnífico. Não sabemos qual é o livro, mas o que ele representa: aproximar os dois personagens. Desse encontro, surge a história policial.
O homem da era moderna relaciona-se com o mundo, através de um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção de um sentido para o leitor. Por exemplo, quando você era estudante universitário, qual era sua tendência política dentro da faculdade, que tipos de leitura você tinha acesso e que relação elas poderiam ter com sua atuação política? A indecisão de um intelectual pode ser sempre a incerteza da interpretação, das múltiplas possibilidades de leitura. Pode haver uma tensão entre o ato de ler e a ação política. O quarto ensaio, “Ernesto Guevara, rastros de leitura”, expõe ideias sobre a importância da leitura na formação intelectual do militante Che Guevara. Ricardo Piglia nos fala, por exemplo, de uma cena envolvendo Che Guevara ferido na luta em Cuba, pensando que iria morrer ali. Che recordou-se de um conto que havia lido, de Jack London, em que o protagonista, apoiado sobre uma árvore se dispõe a por fim a sua vida de maneira digna, ao saber-se condenado à morte. A literatura teve naquele momento, para Guevara, um sentido de reflexão existencial.
No quinto ensaio, “A lanterna mágica de Ana Karenina”, o ensaísta nos fala da relação da leitura com a formação do sentido, com a afetividade, com a tradição e com o desenvolvimento do romance de Tolstoi, Ana Karenina. É a época em que as mulheres são as grandes consumidoras da literatura. A partir da geração romântica, as mulheres passam a personificar a figura do leitor moderno. Os romances que se originaram dos folhetins, eram escritos em capítulos de jornal justamente para as mulheres. Ana Karenina lê seu romance num trem de Moscou a São Petersburgo. Nesse trem está o homem que ela vem a conhecer ali e que se tornará seu amante, levando-a à desgraça e ao suicídio. Ao ler seu romance, Ana Karenina identificava-se com a vida das personagens, tendo a ilusão de realidade que faltava a sua vida monótona com o marido. O protótipo da mulher como protagonista na literatura, era o de adúltera.
O último ensaio versa sobre “Como está construído o Ulysses”, uma das grandes obras-primas do romance moderno, que pouquíssimas pessoas leram, pelo alto grau de complexidade da obra. Eu tentei a tradução de Antonio Houaiss e parei na página 548, de 850, por ter perdido o fio da meada. Agora comprei a tradução de Caetano Galindo, pela Penguin Companhia, para nova tentativa. Parece ser mais acessível. Neste ensaio, Piglia nos diz que não existe o texto fechado e perfeito. O verdadeiro leitor lê com a certeza de que o livro não estará suficientemente terminado. Qual sua utilidade e seu valor? Joyce escreve a epopeia de Bloom em 24 horas, na cidade Londres, baseada na epopeia homérica de Ulisses. A obra literária tem sempre uma correlação com outra já existente, que se renova ou se transforma, no caso de Ulysses.
Aconselharia ao leitor dessa crônica que se aventurasse a um voo mais alto, buscando ler a O último leitor. Pode surgir uma dúvida ou outra, nada que o Google não resolva. É de leitura acessível e instigante.
Ricardo Piglia. O último leitor. SP, Cia. Das Letras, 2006, 192 pp. R$ 44,50
domingo, 5 de agosto de 2012
Grandes esperanças
Lemos comumente textos divulgados em jornais e redes sociais, testemunhando que se aprende com os erros cometidos. No caso de Pip, o personagem central de Grandes Esperanças, de Charles Dickens, as virtudes são os acertos que ele faz durante sua trajetória no romance. Grandes esperanças é uma história de redenção moral. O protagonista é um órfão criado num lar humilde que herda uma grande fortuna e imediatamente rejeita os familiares e os amigos. Quando a fortuna desaparece por completo, é obrigado a assumir sua própria ingratidão. Uma das características interessantes de Pip, esse órfão, é que ele é sincero ao confessar seus defeitos, e isso acaba criando nele uma empatia que pode agradar ao leitor. Pip, apesar de ter vergonha de seus pares pobres, é capaz de efetuar boas ações durante a narrativa. É franco com seus sentimentos. Sua franqueza e suas boas ações serão a prova de sua redenção. Durante sua trajetória de altos e baixos, aprende que no encalço do desejo vem sempre a culpa, naquilo que gostaria de ser há aquilo que não pode deixar de ser. O tratamento rígido que recebe da irmã que o criara o faz ver que nada é percebido com tanta intensidade e sentido com tanta intensidade, quanto a injustiça. Isso foi a causa dele ter-se tornado tímido e sensível.
Um dia ele vê-se forçado a ajudar um criminoso em fuga. Sua bondade é reconhecida pelo bandido e isso é parte importantíssima no desenrolar da narrativa. Depois, ele é convidado a frequentar a residência de uma senhora muito rica para brincar com Estella, suposta filha. Ele se apaixona e a senhora lhe propõe mudar de vida, educar-se e ser alguém na sociedade para merecer a jovem. Então Pip passa a ter vergonha do lar e de Joe, seu padastro, um homem tosco, mas profundamente amoroso com Pip. É terrível ter vergonha do próprio lar,talvez seja a mais negra ingratidão. O lar nunca fora o lugar muito agradável para ele, devido ao temperamento de sua irmã. Antes, ele acreditava que o seu lar era o modelo correto de viver e conviver. Que a ferraria de Joe era o caminho da maturidade e independência. Um ano depois, entretanto, convivendo com Estella, tudo aquilo passa a ser-lhe grosseiro e vulgar. Passa a pensar ser vergonhoso se um de seus novos amigos um dia pudesse visitar sua casa humilde. A partir do momento em que Pip muda-se para Londres, muitas coisas acontecem. Seu espírito contraditório acaba levando-o à ruína, mas lhe traz a maturidade necessária para compreender que as grandes esperanças que tem em relação à vida incluem, no caminho, o reconhecimento do amor e da justiça.
O romance foi publicado originalmente em três volumes no ano de 1861, depois de ter sido publicado em folhetim um ano antes. Dickens, assim como Machado de Assis, José de Alencar e inúmeros escritores dessa época, publicavam seus romances em capítulos nos jornais. Por causa disso, sua técnica narrativa é muito bem amarrada. O final de cada capítulo leva o leitor a querer continuar a leitura do capítulo seguinte. Muito bem escrito, apresenta uma linguagem poética cativante.
Charles Dickens (1812-1870)nasceu na Inglaterra. Sua vida transcorre durante o período vitoriano, com a ascensão da Revolução Industrial, que trouxe progresso à nobreza e miséria à classe trabalhadora que surgia então. Sua obra transparece a crítica social a esse estilo de vida, que ele considerava injusto. Sua obra apresenta, assim, traços realistas. Seus romances apresentam, quase sempre, órfãos como heróis. Não raro, certo tom pessimista no futuro de seus personagens. É dos grandes da literatura universal.
==============
Charles Dickens. Grandes esperanças. SP, Penguin Companhia, 2012, 704 pp. R$ 37,00
Um dia ele vê-se forçado a ajudar um criminoso em fuga. Sua bondade é reconhecida pelo bandido e isso é parte importantíssima no desenrolar da narrativa. Depois, ele é convidado a frequentar a residência de uma senhora muito rica para brincar com Estella, suposta filha. Ele se apaixona e a senhora lhe propõe mudar de vida, educar-se e ser alguém na sociedade para merecer a jovem. Então Pip passa a ter vergonha do lar e de Joe, seu padastro, um homem tosco, mas profundamente amoroso com Pip. É terrível ter vergonha do próprio lar,talvez seja a mais negra ingratidão. O lar nunca fora o lugar muito agradável para ele, devido ao temperamento de sua irmã. Antes, ele acreditava que o seu lar era o modelo correto de viver e conviver. Que a ferraria de Joe era o caminho da maturidade e independência. Um ano depois, entretanto, convivendo com Estella, tudo aquilo passa a ser-lhe grosseiro e vulgar. Passa a pensar ser vergonhoso se um de seus novos amigos um dia pudesse visitar sua casa humilde. A partir do momento em que Pip muda-se para Londres, muitas coisas acontecem. Seu espírito contraditório acaba levando-o à ruína, mas lhe traz a maturidade necessária para compreender que as grandes esperanças que tem em relação à vida incluem, no caminho, o reconhecimento do amor e da justiça.
O romance foi publicado originalmente em três volumes no ano de 1861, depois de ter sido publicado em folhetim um ano antes. Dickens, assim como Machado de Assis, José de Alencar e inúmeros escritores dessa época, publicavam seus romances em capítulos nos jornais. Por causa disso, sua técnica narrativa é muito bem amarrada. O final de cada capítulo leva o leitor a querer continuar a leitura do capítulo seguinte. Muito bem escrito, apresenta uma linguagem poética cativante.
Charles Dickens (1812-1870)nasceu na Inglaterra. Sua vida transcorre durante o período vitoriano, com a ascensão da Revolução Industrial, que trouxe progresso à nobreza e miséria à classe trabalhadora que surgia então. Sua obra transparece a crítica social a esse estilo de vida, que ele considerava injusto. Sua obra apresenta, assim, traços realistas. Seus romances apresentam, quase sempre, órfãos como heróis. Não raro, certo tom pessimista no futuro de seus personagens. É dos grandes da literatura universal.
==============
Charles Dickens. Grandes esperanças. SP, Penguin Companhia, 2012, 704 pp. R$ 37,00
domingo, 29 de julho de 2012
Caderno de ruminações
Sergipe é um estado que muitos passam por cima, quando vão da Bahia para os outros estados do Nordeste. Uns dizem que é por causa da água escura do mar de Aracaju, parecida com a de nosso litoral gaúcho. Eu, que gosto de lá, conheço praias de águas claras calmas e agradáveis, como a Praia do Saco, coladinha à Mangue Seco. O cânion do São Francisco também fica em Sergipe, no município de Paulo Afonso. No plano da literatura, há sergipanos importantes e famosos, como Joel Silveira (1918-2007), jornalista e contista. Você deve lembrar do imbróglio que teve com Zelia Gattai, quando ela se candidatou à vaga deixada por Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras. Joel fez campanha contra, chegou a se candidatar para tentar impedi-la de ganhar o posto. Não adiantou. Foi eleita. Se você teve um bom professor de Literatura, deve-se lembrar de Tobias Barreto (1839-1889), filósofo, poeta, crítico e jurista brasileiro, nascido naquele estado. Sílvio Romero (1851-1914), famoso crítico literário que escreveu sua famosa Introdução à História da Literatura Brasileira.Atualmente, dois escritores de Sergipe têm se destacado nas letras nacionais, sendo publicados por editoras importantes como a Companhia das Letras e a Alfaguara. São eles Antonio Carlos Viana (1946), contista que obteve fama com seu livro O meio do mundo e Francisco J. C. Dantas (1941), romancista que se destacou com o romance já consagrado, Coivara da Memória. Esses dois autores são sangue novo à nova literatura do nordeste, que ficara estagnada em Graciliano Ramos e Jorge Amado, para citar alguns do cânone modernista.
Francisco J. C. Dantas lançou recentemente Caderno de Ruminações, narrando quatro dias que antecedem o casamento de Rochinha, o anti-herói da história. Médico proctologista, tinha pai humilde que vendeu suas poucas terras para custear a faculdade do filho. Rochinha, um cara íntegro, profissional idealista que pratica a saúde com escrúpulos e direiteza, acaba pagando um preço muito alto por isso. Tenta inúmeras vezes uma vaga na saúde pública, mas não tem o perfil de quem vá angariar votos para os políticos que comandam a rede de saúde. É forçado a exercer a medicina em lugares longínquos, de gente miserável, até que se dá conta de que, pra vencer na vida, precisa abdicar de alguns princípios que lhe passaram e trair o próprio juramento. Tem de arranjar um respaldo muito forte, cultivar boas relações com certos colegas, laboratórios, chefes, e separar direitinho a quem prestar favores ou fazer concessões.
O problema de Rochinha é que ele não consegue deixar de ser íntegro na sua profissão. Adquire fama e dinheiro com rapidez, mas seu dinheiro e seus bens são desgastados por sócios inescrupulosos e um primo que lhe tem inveja. A derrocada moral de Rochinha ocorre, quando se decide casar com uma prima rica e libertina.
Francisco J. C. Dantas começou a escrever na idade madura, aos 50 anos. Foi professor de Literatura Brasileira e Portuguesa na Universidade de Sergipe e na Universidade da Califórnia.
==============================
Francisco J. C. Dantas. Caderno de ruminações. Rio, Alfaguara/Objetiva, 2012 402 pp. R$ 49,90
domingo, 22 de julho de 2012
Patti & Mapplethorpe, Só Garotos
Patti Smith lançou recentemente seu disco de estúdio, Banga. Tem a sonoridade menos agressiva que seus discos anteriores. Para compensar, apresenta letras densas (Patti sempre foi poeta), algumas canções são poemas que a cantora diz enquanto a melodia toca. Nele tem This is the girl, homenageando Amy Winehouse; tem também Constantine’s Dream, poema longo de mais de seis minutos, onde a intérprete, ao acordar de um sonho apocalíptico, vai à igreja rezar e encontra lá a pintura que seu amor há tanto procurava. Todas as músicas são bacanas. Patti Smith fez parte do movimento punk, que efervesceu a partir da década de 70 do século passado. Cultuada como poetisa do rock, faz parte de um time seleto de roqueiros que incluem Bruce Springsteen e Bob Dylan, de quem já era fã antes de começar sua carreira como cantora. Se você não lembra dela, pode ter visto e ouvido a música que ela fez com Bruce Spreengsten e rola no You Tube, os dois junto com Bono, do U2: Because the night.
Banga serve de mote para comentar o livro que ela havia prometido escrever a seu grande amigo, o artista plástico e fotógrafo Robert Michael Mapplethorpe, pouco antes da morte dele, em 1989, para contar a história dos dois, em Só garotos. Ela e Robert nasceram em 1946, foram para Nova Iorque no mesmo ano – ela para ser poeta, ele para ganhar expressão como artista plástico. Os dois se conheceram em uma livraria onde ela trabalhava. Em dois toques tornaram-se amantes. A coisa não continuou, porque Robert era homossexual e decidiu seguir sua tendência. Tornaram-se amigos por toda a vida. Patti, muitas vezes, assumiu o papel de irmã mais velha do fotógrafo em suas crises existenciais. Robert, desde cedo, envolveu-se com LSD. Sujeito irreverente, teve o incentivo de Andy Wahrol para desenvolver sua fotografia como arte. Robert era bastante conhecido por suas fotos retratando o sadomasoquismo guei. Patti, por sua vez, era apaixonada por poesia. Rimbaud era dos seus autores favoritos. Tinha intenções de publicar um livro de poemas. Como já cantava e tocava, Robert a incentivou a enveredar pela música. Seu primeiro álbum, Horses, teve design gráfico e fotos dele. Enquanto viveram juntos, foram morar no Hotel Chelsea, que na época tinha residentes ilustres. Antes deles, Bob Dylan e Janis Joplin, por exemplo, haviam morado lá. Enquanto viveram no Chelsea, tiveram contato íntimo com a nata da intelectualidade cultural da época, seja na música, na literatura e nas artes plásticas. William Burroughs, escritor, foi outro que teve grande influência na vida dos dois. Separados, saíram do Chelsea. Patti partiu para sua carreira musical e Robert descobriu os prazeres da fotografia. A década de 80, efervescente em novas tendências artísticas, infelizmente trouxe o estigma da AIDS. Robert foi uma de suas vítimas, morrendo em consequência disso. Patti ficou próxima a ele até sua morte.
Só garotos é importantíssimo para retratar uma das épocas mais importantes do movimento pós-moderno, que já havia lançado raízes nas décadas passadas. As marcas do homem contemporâneo, individualista, autodestrutivo, enraizado na sociedade de consumo, evidenciando novos comportamentos sociais, têm suas marcas na rica história das mudanças de comportamento social que o livro de Patti Smith faz refletir na história de vida dela e na história de vida de Robert Mapplethorpe. Leia!
Se você é fã de Patti Smith e quer comprar seu disco, gaste um pouquinho mais e compre o disco importado, quem contém as letras e um diário. Se optar pela edicção nacional, terá de buscar as letras na internet.
========================
Patti Smith. Só garotos. SP,Cia. das Letras, 2010, 220 pp. R$ 39,00
Banga serve de mote para comentar o livro que ela havia prometido escrever a seu grande amigo, o artista plástico e fotógrafo Robert Michael Mapplethorpe, pouco antes da morte dele, em 1989, para contar a história dos dois, em Só garotos. Ela e Robert nasceram em 1946, foram para Nova Iorque no mesmo ano – ela para ser poeta, ele para ganhar expressão como artista plástico. Os dois se conheceram em uma livraria onde ela trabalhava. Em dois toques tornaram-se amantes. A coisa não continuou, porque Robert era homossexual e decidiu seguir sua tendência. Tornaram-se amigos por toda a vida. Patti, muitas vezes, assumiu o papel de irmã mais velha do fotógrafo em suas crises existenciais. Robert, desde cedo, envolveu-se com LSD. Sujeito irreverente, teve o incentivo de Andy Wahrol para desenvolver sua fotografia como arte. Robert era bastante conhecido por suas fotos retratando o sadomasoquismo guei. Patti, por sua vez, era apaixonada por poesia. Rimbaud era dos seus autores favoritos. Tinha intenções de publicar um livro de poemas. Como já cantava e tocava, Robert a incentivou a enveredar pela música. Seu primeiro álbum, Horses, teve design gráfico e fotos dele. Enquanto viveram juntos, foram morar no Hotel Chelsea, que na época tinha residentes ilustres. Antes deles, Bob Dylan e Janis Joplin, por exemplo, haviam morado lá. Enquanto viveram no Chelsea, tiveram contato íntimo com a nata da intelectualidade cultural da época, seja na música, na literatura e nas artes plásticas. William Burroughs, escritor, foi outro que teve grande influência na vida dos dois. Separados, saíram do Chelsea. Patti partiu para sua carreira musical e Robert descobriu os prazeres da fotografia. A década de 80, efervescente em novas tendências artísticas, infelizmente trouxe o estigma da AIDS. Robert foi uma de suas vítimas, morrendo em consequência disso. Patti ficou próxima a ele até sua morte.
Só garotos é importantíssimo para retratar uma das épocas mais importantes do movimento pós-moderno, que já havia lançado raízes nas décadas passadas. As marcas do homem contemporâneo, individualista, autodestrutivo, enraizado na sociedade de consumo, evidenciando novos comportamentos sociais, têm suas marcas na rica história das mudanças de comportamento social que o livro de Patti Smith faz refletir na história de vida dela e na história de vida de Robert Mapplethorpe. Leia!
Se você é fã de Patti Smith e quer comprar seu disco, gaste um pouquinho mais e compre o disco importado, quem contém as letras e um diário. Se optar pela edicção nacional, terá de buscar as letras na internet.
========================
Patti Smith. Só garotos. SP,Cia. das Letras, 2010, 220 pp. R$ 39,00
Marcadores:
banga,
movimento punk,
Patti Smith,
poetisa do rock,
Robert Mapplethorpe,
só garotos
domingo, 15 de julho de 2012
Gabriela Cravo e Canela
Jorge Amado era muito bom contador de histórias. Criou caricaturas da sociedade baiana, seja no período histórico do cacau: coronéis, políticos, damas da sociedade, seja nos romances urbanos: o político, o industrial, homens e mulheres da alta classe média de Salvador. Foi um dos poucos escritores com perfil para ganhar o Nobel de Literatura. Seus romances foram traduzidos em inúmeros idiomas, conseguindo sucesso de venda. Homem de esquerda por muito tempo, elegia pessoas do povo para heróis de suas histórias. Pessoas pobres, analfabetas ou quase analfabetas (Gabriela, por exemplo, não fez escola, nem certidão de nascimento tinha). Em Capitães de Areia eram os meninos de rua; em Teresa Batista, uma prostituta, em Jubiabá, um pai de santo. Não foi um romancista dos mais primorosos em relação a sua técnica narrativa. Muitas de suas histórias carecem de soluções melhor elaboradas. Alguns conflitos se resolvem de forma piegas e simplista. Entretanto, sua prosa é viva e saborosa. Com a regravação da novela Gabriela, resolvi relembrar a Gabriela do romance, relendo o livro cuja leitura havia sido feita há 37 anos, no curso de Letras.
Gabriela é mulata, “nada mais era que uma pobre moça, quase menina ainda”, “seria uma criança, não fossem as ancas largas”. A moça tem 21 anos. Aparece na história lá pela página 80, quando vem fugida da seca para Ilhéus. Quis o destino que ela encontrasse o sírio Nacib, que nesse mesmo tempo estava precisando urgentemente de uma cozinheira para seu bar, o Vesúvio. Depois de muito procurar, encontra Gabriela na praça central, no lugar onde antes ficavam os escravos à venda e onde agora estava ela, juntamente com outros retirantes, à espera de que alguém os empregasse. Além de bela, sensual e comunicativa, Gabriela era talentosa na cozinha. Logo conquistou a confiança e o amor de Nacib. Ele, entretanto, zela pela moral. Quer casar, Gabriela reluta, mas cede. O casamento oficial dura cinco meses. Nacib ama Gabriela, mas não se acha um diabo qualquer. É amigo de gente influente na política local. Quer introduzi-la na vida social, fazê-la conduzir-se como uma senhora da sociedade de Ilhéus. Obriga-a a usar sapatos, chama-lhe a atenção para não falar alto no cinema, não mostrar intimidade com as empregadas, não rir debochada para qualquer um, como fazia no bar, não usar mais rosa atrás da orelha, quando saem juntos. Afinal, comprara-lhe vestidos de seda, chapéus, até luvas. Dera-lhe anéis e colares. Queria-a tão bem vestida como a senhora mais rica, como se isso apagasse seu passado. Gabriela, com isso, encolhe-se, perdida. Moça sem instrução, gosta de andar de pés descalços, é comunicativa, simples, uma moça desencanada, capaz de deitar com um homem por vontade, sem preocupar-se com os conceitos morais que possam fazer dela. Acaba traindo Nacib. O casamento é anulado. Os dois voltam às boas, quando os preceitos morais ficam de lado e o amor renasce livre e verdadeiro.
O romance se dá em um período curto de tempo, no ano de 1925. A história de O romance divide-se em dois focos principais: Gabriela e disputa política. Sua vida com Nacib serve para costurar os acontecimentos sociais e políticos de Ilhéus, em pleno esplendor do cacau. Grandes proprietários de terras passam a ter casas na cidade. Progresso era a palavra que mais se ouvia em Ilhéus e Itabuna naquele tempo. Era assunto nas colunas de jornais, nos bares, nos cabarés. Novas ruas e centros comerciais eram criados. A cidade foi perdendo o ar de fazendeiros montados a cavalo, revólver na cintura, de jagunços que amedrontavam as ruas sem calçamento, de mascates que chegavam e expunham seus produtos nas calçadas. A cidade passa a expor mercadorias em vitrinas coloridas e variadas, multiplicam-se lojas e armazéns. Surgem bares, cabarés, cinemas e colégios. Naquele tempo, doutor não era doutor, capitão não era capitão, assim como coronéis não o eram. Os fazendeiros da lavoura de cacau adquiriam patentes de Coronel da Guarda Nacional. Ficara o costume. Donos de roças de mais de mil arrobas passam normalmente a usar e receber o título que ali não implicava em mando militar e, sim, no reconhecimento da riqueza. Com o crescimento da lavoura cacaueira, Mundinho Falcão, paulista, cuja família comercializava café, vê no cacau da Bahia um caminho novo para enriquecer por seus próprios métodos. De outro lado, o coronel Ramiro Bastos, que mandava na cidade por métodos antigos, vê em Mundinho Falcão um inimigo a ser declarado. A luta dos dois pelo poder político de Ilhéus é o mote da história.
As adaptações feitas do romance para a televisão e o cinema têm seu fundamento. A televisão e o cinema são outras linguagens. Podem alterar ou acrescentar fatos, até envelhecer Gabriela, desde que mantenham seu frescor de juventude e sua sensualidade nativa da Bahia.
=========================
Jorge Amado. Gabriela Cravo e Canela. SP, Cia. das Letras (edição
econômica), 2012, 336 pp. R$ 30,00
Gabriela é mulata, “nada mais era que uma pobre moça, quase menina ainda”, “seria uma criança, não fossem as ancas largas”. A moça tem 21 anos. Aparece na história lá pela página 80, quando vem fugida da seca para Ilhéus. Quis o destino que ela encontrasse o sírio Nacib, que nesse mesmo tempo estava precisando urgentemente de uma cozinheira para seu bar, o Vesúvio. Depois de muito procurar, encontra Gabriela na praça central, no lugar onde antes ficavam os escravos à venda e onde agora estava ela, juntamente com outros retirantes, à espera de que alguém os empregasse. Além de bela, sensual e comunicativa, Gabriela era talentosa na cozinha. Logo conquistou a confiança e o amor de Nacib. Ele, entretanto, zela pela moral. Quer casar, Gabriela reluta, mas cede. O casamento oficial dura cinco meses. Nacib ama Gabriela, mas não se acha um diabo qualquer. É amigo de gente influente na política local. Quer introduzi-la na vida social, fazê-la conduzir-se como uma senhora da sociedade de Ilhéus. Obriga-a a usar sapatos, chama-lhe a atenção para não falar alto no cinema, não mostrar intimidade com as empregadas, não rir debochada para qualquer um, como fazia no bar, não usar mais rosa atrás da orelha, quando saem juntos. Afinal, comprara-lhe vestidos de seda, chapéus, até luvas. Dera-lhe anéis e colares. Queria-a tão bem vestida como a senhora mais rica, como se isso apagasse seu passado. Gabriela, com isso, encolhe-se, perdida. Moça sem instrução, gosta de andar de pés descalços, é comunicativa, simples, uma moça desencanada, capaz de deitar com um homem por vontade, sem preocupar-se com os conceitos morais que possam fazer dela. Acaba traindo Nacib. O casamento é anulado. Os dois voltam às boas, quando os preceitos morais ficam de lado e o amor renasce livre e verdadeiro.
O romance se dá em um período curto de tempo, no ano de 1925. A história de O romance divide-se em dois focos principais: Gabriela e disputa política. Sua vida com Nacib serve para costurar os acontecimentos sociais e políticos de Ilhéus, em pleno esplendor do cacau. Grandes proprietários de terras passam a ter casas na cidade. Progresso era a palavra que mais se ouvia em Ilhéus e Itabuna naquele tempo. Era assunto nas colunas de jornais, nos bares, nos cabarés. Novas ruas e centros comerciais eram criados. A cidade foi perdendo o ar de fazendeiros montados a cavalo, revólver na cintura, de jagunços que amedrontavam as ruas sem calçamento, de mascates que chegavam e expunham seus produtos nas calçadas. A cidade passa a expor mercadorias em vitrinas coloridas e variadas, multiplicam-se lojas e armazéns. Surgem bares, cabarés, cinemas e colégios. Naquele tempo, doutor não era doutor, capitão não era capitão, assim como coronéis não o eram. Os fazendeiros da lavoura de cacau adquiriam patentes de Coronel da Guarda Nacional. Ficara o costume. Donos de roças de mais de mil arrobas passam normalmente a usar e receber o título que ali não implicava em mando militar e, sim, no reconhecimento da riqueza. Com o crescimento da lavoura cacaueira, Mundinho Falcão, paulista, cuja família comercializava café, vê no cacau da Bahia um caminho novo para enriquecer por seus próprios métodos. De outro lado, o coronel Ramiro Bastos, que mandava na cidade por métodos antigos, vê em Mundinho Falcão um inimigo a ser declarado. A luta dos dois pelo poder político de Ilhéus é o mote da história.
As adaptações feitas do romance para a televisão e o cinema têm seu fundamento. A televisão e o cinema são outras linguagens. Podem alterar ou acrescentar fatos, até envelhecer Gabriela, desde que mantenham seu frescor de juventude e sua sensualidade nativa da Bahia.
=========================
Jorge Amado. Gabriela Cravo e Canela. SP, Cia. das Letras (edição
econômica), 2012, 336 pp. R$ 30,00
domingo, 8 de julho de 2012
O expressionismo surrealista de Gombrowicz
Witold gombrowicz (1904-1969) nasceu na Polônia e morreu em Paris. Publicou seu primeiro romance, Ferdydurke (traduzido no Brasil pela Companhia das Letras), em 1937. Nesse romance, segundo a crítica, já se encontram as características que marcaram toda sua obra: a imaturidade, o paradoxo, a crise de identidade. Gombrowicz saiu da Polônia para a Argentina pouco antes da Segunda Guerra, vivendo em completa miséria. Quando retornou a Paris, na década de 60, teve seus romances traduzidos para o francês, atingindo, assim, seu reconhecimento como um dos melhores escritores polacos, embora sua obra tenha sido rejeitada em seu país até pouco tempo atrás. Neste espaço, traço algum comentário sobre seus romances A Pornografia (1960) e Cosmos (1965). Pornografia - A ação do romance se desenvolve na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial. Witold, o narrador-personagem, e seu amigo, Frederico, chegam à casa de campo de outro amigo. Esse outro amigo oculta um adolescente desertor, que pertence à resistência. Nesse cenário, surge uma jovem adolescente, amiga do jovem. Desenvolve-se nesse ambiente de guerra e violência um jogo voyerista de Witold e Frederico, misturado à intriga criminal envolvendo dois assassinatos. Uma das cenas emblemáticas da narrativa é quando se dá uma reunião para decidir o assassinato de um membro do grupo, suspeito de traição. Os participantes, todos adultos, sentem-se incapazes de cometer o assassinato. Sabem o peso que isso significará em suas vidas. Então, planejam uma maneira de fazer com que o crime aconteça pelas mãos dos adolescentes. Por serem jovens, feitos um para o outro, não se dariam conta do que estariam fazendo. Moral: a pornografia metaforizada acontece onde a gente quer vê-la. Por isso, é associada muitas vezes à perversão. Está presente nos outros, não em nós. A tradução da Companhia da Letras, que está disponível no mercado, não conheço. A pornografia que tenho é da Ed. Nova Fronteira, esgotada, mas acessível em sebos virtuais, com tradução de Tati de Moraes e revisada por Ian Michalski. Cosmos - O início da trama começa parecido com A Pornografia: Witold, o autor no papel de narrador-personagem, mais um amigo, os dois de meia idade, hospedam-se, nas férias de verão, numa pensão familiar do campo. Ali, conhecem uma mulher que tem uma boca horrível, devido a um acidente de carro, e outra mulher, com uma boca maravilhosa. As bocas da duas mulheres se embaralham na mente de Witold, convertendo-se em obsessão. Paralelamente, coisas inusitadas acontecem, como um pardal que é encontrado enforcado por um cordão. Depois, um gato aparece enforcado. Por último, uma pessoa. Quem é o assassino? Uma das personagens disparatadas na novela, o dono da pensão familiar, gosta de inventar palavras misteriosas, latiniza outras, cria provérbios. Situações não factíeis e surreais, assim como deformações do cenário e de pessoas, levando à caricatura, são características que aproximam Witold Gombrowicz do surrealismo e do expressionismo.
====================
Witold Gombrowicz. A pornografia. RJ, Nova Fronteira, 1986, 240 pp. R$ 15,00 _________________ Pornografia. SP, Cia. das Letras, 2009, 208 pp.R$ 47,00 _________________ Cosmos. SP, Cia. das Letras, 2007, 192 pp. R$ 45,50
====================
Witold Gombrowicz. A pornografia. RJ, Nova Fronteira, 1986, 240 pp. R$ 15,00 _________________ Pornografia. SP, Cia. das Letras, 2009, 208 pp.R$ 47,00 _________________ Cosmos. SP, Cia. das Letras, 2007, 192 pp. R$ 45,50
Marcadores:
A Pornografia,
Cosmos,
Gombrowicz,
romance expressionista,
romance polonês,
romance surrealista
domingo, 1 de julho de 2012
Uma viagem à Índia
Gonçalo M. Tavares, nascido em Angola em 1970, é um dos escritores mais produtivos da literatura portuguesa. Ganhador de inúmeros prêmios literários importantes, escreve compulsivamente, tendo já publicado cerca de 30 livros, entre ficção, teatro e poesia desde 2001, quando publicou seu primeiro livro. Seu romance Jerusalém está na lista da edição europeia dos 1001 livros que você deve ler antes de morrer. Seus quatro romances que compõem O Reino (Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica) serão lidos e depois comentados neste blog.
A epopeia Uma viagem à Índia circula por outra epopeia, Os Lusíadas. N’Os Lusíadas, Camões narrou os feitos de Vasco da Gama em sua viagem à India, para descobrir novos mundos e ampliar a comunicação entre outros povos. E também toma emprestado um personagem, Bloom, herói do romance Ulysses, de James Joyce, que por sua vez é uma epopeia moderna centrada em A Odisseia, de Homero. Bloom, em Ulysses, é o herói que vive mil peripécias fora de casa, em Dublin, durante um dia. Para que você não se assuste com as referências, é bom explicar que o livro de que falamos não é complicado. Ele segue, de forma não ortodoxa, a estrutura dos Lusiadas, estruturando a narrativa em dez Cantos, cada canto em média com 110 estrofes, em verso livre. O autor nos apresenta o personagem central Bloom , vindo de uma tragédia familiar. Sua amada, por razões não explicadas, havia sido assasinada pelo pai que ele tanto amava. Ele mata o pai, como gesto de vingança. A partir de então, decide fazer uma viagem à India, em busca de si mesmo. Bloom já havia conhecido os ingredientes absolutos da ação no mundo, a mistura estúpida da morte com o amor. Faltava-lhe, então, conhecer o que existe dentro do corpo e faz coisas. Por ser epopeia contemporânea, nosso herói troca o navio pelo avião. Viaja a Londres, onde não é bem recebido. De lá vai a Paris, onde conhece um francês que se torna seu amigo. Então, chega à Índia, onde encontra a pobreza, muita gente na rua, homens velhos que julgava eternos pelas riquezas de historias que contavam urinam em plena rua, em cima de lixo que os cachorros vasculham para encontrar comida. Respeito e nojo existem no mesmo homem. Durante sua viagem à Índia, Bloom se dá conta de que o passado ocupa pouco espaço em sua mala. O presente é que ocupa quase todo o espaço que o rodeia. Quem é Bloom, ele se questiona. Não sabe. Bloom se dá conta de que, quando se foge, quando se tem medo, a ética é nada.
A angústia de Bloom, é que ele quer sempre avançar, para esquecer o passado. Memória e esquecimento confirmam a intenção de sua aventura. O esquecimento se repete à medida que a viagem prossegue. Não olhar para trás é a condição para se seguir em frente. Viajar, então, significa mudar de ares e perder de vista o presente que incomoda. Uma viagem à Índia reflexiona, em termos mais amplos, o vazio em que se encontra o mundo contemporâneo, onde os valores do amor e da poesia sucumbem ao temor coletivo e ao capitalismo, onde o dinheiro impera em todas as relações. Gonçalo M. Tavares construiu um romance dos grandes da literatura. O livro foi publicado no Brasil pela Editora Leya, portuguesa, uma de algumas editoras que passam a publicar obras portuguesas no Brasil no português de Portugal.
=====================
Gonçalo. M. Tavares. Uma viagem à Índia. SP, Leya, 2010, 480 pp. R$ 44,90
A epopeia Uma viagem à Índia circula por outra epopeia, Os Lusíadas. N’Os Lusíadas, Camões narrou os feitos de Vasco da Gama em sua viagem à India, para descobrir novos mundos e ampliar a comunicação entre outros povos. E também toma emprestado um personagem, Bloom, herói do romance Ulysses, de James Joyce, que por sua vez é uma epopeia moderna centrada em A Odisseia, de Homero. Bloom, em Ulysses, é o herói que vive mil peripécias fora de casa, em Dublin, durante um dia. Para que você não se assuste com as referências, é bom explicar que o livro de que falamos não é complicado. Ele segue, de forma não ortodoxa, a estrutura dos Lusiadas, estruturando a narrativa em dez Cantos, cada canto em média com 110 estrofes, em verso livre. O autor nos apresenta o personagem central Bloom , vindo de uma tragédia familiar. Sua amada, por razões não explicadas, havia sido assasinada pelo pai que ele tanto amava. Ele mata o pai, como gesto de vingança. A partir de então, decide fazer uma viagem à India, em busca de si mesmo. Bloom já havia conhecido os ingredientes absolutos da ação no mundo, a mistura estúpida da morte com o amor. Faltava-lhe, então, conhecer o que existe dentro do corpo e faz coisas. Por ser epopeia contemporânea, nosso herói troca o navio pelo avião. Viaja a Londres, onde não é bem recebido. De lá vai a Paris, onde conhece um francês que se torna seu amigo. Então, chega à Índia, onde encontra a pobreza, muita gente na rua, homens velhos que julgava eternos pelas riquezas de historias que contavam urinam em plena rua, em cima de lixo que os cachorros vasculham para encontrar comida. Respeito e nojo existem no mesmo homem. Durante sua viagem à Índia, Bloom se dá conta de que o passado ocupa pouco espaço em sua mala. O presente é que ocupa quase todo o espaço que o rodeia. Quem é Bloom, ele se questiona. Não sabe. Bloom se dá conta de que, quando se foge, quando se tem medo, a ética é nada.
A angústia de Bloom, é que ele quer sempre avançar, para esquecer o passado. Memória e esquecimento confirmam a intenção de sua aventura. O esquecimento se repete à medida que a viagem prossegue. Não olhar para trás é a condição para se seguir em frente. Viajar, então, significa mudar de ares e perder de vista o presente que incomoda. Uma viagem à Índia reflexiona, em termos mais amplos, o vazio em que se encontra o mundo contemporâneo, onde os valores do amor e da poesia sucumbem ao temor coletivo e ao capitalismo, onde o dinheiro impera em todas as relações. Gonçalo M. Tavares construiu um romance dos grandes da literatura. O livro foi publicado no Brasil pela Editora Leya, portuguesa, uma de algumas editoras que passam a publicar obras portuguesas no Brasil no português de Portugal.
=====================
Gonçalo. M. Tavares. Uma viagem à Índia. SP, Leya, 2010, 480 pp. R$ 44,90
domingo, 24 de junho de 2012
Respiração artificial
Ricardo Piglia, nascido em 1940 na Província de Buenos Aires, é dos melhores da literatura argentina, com amplo reconhecimento internacional. Romancista e ensaísta, tem os romances Alvo noturno (seu último romance), Dinheiro queimado, Respiração Artificial, Nome falso e A invasão traduzidos para o português, além dos livros de ensaio Formas Breves, O laboratório do escritor e O último leitor. A Folha de São Paulo está lançando agora Respiração Artificial , dentro de sua coleção Literatura Ibero-americana. Seu primeiro romance é considerado um dos dez melhores da literatura argentina. A interrogação sobre o passado de um possível traidor, através de sua autobiografia, sustenta a intriga, num relato satírico onde a paródia se faz presente, criando uma nova forma de ficção. A história começa narrando a vida de Enrique Osório, exilado político do século XIX, que escreveu sua autobiografia, acompanhada de uma carta para alguém no futuro. O professor Marcelo Maggi encontra esses escritos por acaso e trata de elucidar o quebra-cabeças de Osório. Para isso, escreve a seu sobrinho, o escritor Emilio Renzi, solicitando um encontro num bar do interior país, fora das esferas do poder. O objetivo do professor é mostrar ao sobrinho fatos do passado que afetam sua vida. A narração oculta e revela mensagens, interroga sobre os sentidos do mundo, das ideias e do cotidiano, a partir de vários personagens. O romance move-se em estilos e registros diversos, até transformar-se numa grande metáfora desses tempos sombrios, em que os homens precisam de um ar artificial para poder sobreviver. A trama tem um viés filosófico forte, através do polaco Tardewski, que se diz discípulo de Wittgenstein, mostrando fatos originais, como o encontro de Hitler e Kafka num bar em Praga. Wittgenstein, filósofo austríaco naturalizado inglês, lançou o conceito da "filosofia da linguagem comum" que, mais ou menos, diz que os filósofos fazem confusão de suas ideias filosóficas, distorcendo ou desconsiderando o que as palavras realmente significam na linguagem cotidiana. A trama acontece em 1976, no período de grande repressão política na Argentina. Ricardo Piglia é dos grandes. Você não pode morrer sem ler um livro dele.
================================= Ricardo Piglia. Respiração Artificial. SP, Cia. de Bolso, 2010 200 pp. R$ 20,00
A edição da Folha de SP já está nas bancas, por R$ 18,70.
R$ 20,00
================================= Ricardo Piglia. Respiração Artificial. SP, Cia. de Bolso, 2010 200 pp. R$ 20,00
A edição da Folha de SP já está nas bancas, por R$ 18,70.
R$ 20,00
domingo, 17 de junho de 2012
A condição humana
A revolução russa de 1917 influenciou a criação do partido comunista chinês, que tinha entre seus líderes o ativista político Mao Tse-tung. O PCC começou a organizar massas de trabalhadores. Em 1927, organizou uma rebelião que tomou a cidade de Xangai. O objetivo da rebelião era tirar do poder o regime corrupto que até o momento dominava a China. Chiang Kai-Shek, militar e político, contou com o apoio dos comunistas para unificar a China. Após a tomada de Xangai, entretanto, tratou de eliminá-los. Grosso modo, esse é o mote histórico que serve de base à trama de A condição humana, de André Malraux, considerado o precursor do romance moderno. Aproveitando a realidade de uma guerra como cenário de sua história, o autor conseguiu exprimir a consciência ao mesmo tempo social e pessoal de toda uma época. Entretanto, a novela não tem conotações históricas e nem é panfleto de exaltação do partido comunista chinês. Trata-se de uma trama muito bem amarrada, com cenas rápidas e dinâmicas, mostrando personagens verossímeis agindo diante de uma situação de conflito. Há críticos que comparam a novela como um quase script cinematográfico, tal a objetividade com que o autor estrutura a história. Baseado em fatos reais, Malraux cria personagens cuja consciência no momento dos conflitos revolucionários, atuam enquanto a ação se desenrola. O essencial é o confronto trágico da vontade humana com as forças políticas. As duas primeiras partes estão localizados em Xangai, 21-23 de março de 1927. O romance começa abruptamente com um assassinato. Em seguida, aparece o clima de violência que permeia o livro e também a solidão do assassino que, desde o primeiro crime, vai se tornar um terrorista. Na terceira parte, vemos uma discussão política em que existem diferentes concepções da revolução. Os revolucionário tramam o assassinato de Chiang Kai-Shek, mas o plano é abortado. A cena dessa ação é descrita de forma a tirar o fôlego do leitor. Começa a perseguição implacável aos comunistas revolucionários. Muitos “terroristas” são presos, alguns se suicidam na prisão. O romance termina com um final cínico. Um francês que havia organizado a resistência contra os revolucionários, negocia em Paris com os representantes dos grandes bancos a exploração de uma China ainda capitalista. Quanto os revolucionários sobreviventes, fazem uma reflexão dos sobreviventes sobre a fidelidade à inssurreição de 1927 e a continuidade da luta.
André Malraux (1901-1976) participou ativamente de todas as batalhas ideológicas do século XX, desde o nacionalismo chinês até a guerra civil espanhola. Foi militante do partido comunista francês. Isso não o impediu de criticar severamente a postura de Stálin na União Soviética. Durante os acontecimentos de maio de 1968 foi solidário a De Gaule, causando a ira da esquerda intelectual da época.
A condição humana foi publicado em 1933, recebendo o Prêmio Goncourt. Há outra obra do autor traduzida em português, A Esperança, tendo como pano de fundo a guerra civil espanhola.
===========================
André Malraux. A condição humana. Rio, Bestbolso, 2009 350 pp R$ 18,00
André Malraux (1901-1976) participou ativamente de todas as batalhas ideológicas do século XX, desde o nacionalismo chinês até a guerra civil espanhola. Foi militante do partido comunista francês. Isso não o impediu de criticar severamente a postura de Stálin na União Soviética. Durante os acontecimentos de maio de 1968 foi solidário a De Gaule, causando a ira da esquerda intelectual da época.
A condição humana foi publicado em 1933, recebendo o Prêmio Goncourt. Há outra obra do autor traduzida em português, A Esperança, tendo como pano de fundo a guerra civil espanhola.
===========================
André Malraux. A condição humana. Rio, Bestbolso, 2009 350 pp R$ 18,00
domingo, 10 de junho de 2012
Alvo Noturno

Quando foi perguntado ao escritor argentino Ricardo Piglia (1940) por que havia demorado tanto para publicar seu último romance Alvo Noturno, lançado no Brasil em 2011, já que sua última obra de ficção, Dinheiro queimado (Plata quemada), havia sido publicada em 1997, ele disse que mantém um método de trabalho que não recomenda a ninguém, que consiste em fazer uma primeira versão do romance e deixá-la de lado. Quando regressa à história, tem a sensação de que ela está mais nítida. Alvo noturno é uma trama policial, onde um crime ocorre no início e há um comissário de polícia que investiga o caso, vindo a ser, no decorrer da história, auxiliado por um jornalista. O romance transparece com clareza as relações entre corrupção e poder político. Croce, o comissário fora de moda em relação a seus métodos, é um ser marginalizado que tem um olhar lúcido, distanciado, que está sempre questionando a verdade. O comissário Croce é um cara meio louco, já não é tão racional e nem se aproxima da verdade por métodos mais práticos. Busca decifrar o crime através de suas percepções, que são inexplicáveis. No povoado onde vive e onde ocorre o crime, seu método é aceito, pois ele sempre desvenda os crimes. O homem assassinado no povoado que fica próximo a Buenos Aires é um negro porto-riquenho que veio para a Argentina, por causa de duas gêmeas de uma família rica da região. Ao contrário de outros países latino-americanos, a Argentina não teve lastros significativos com os africanos, muito embora haja um racismo muito forte. Mestiços de índios e negros, chamados de zambos, eram a classe mais baixa da escala social do Rio da Prata. Então, aparecer um mulato cheio de dinheiro, vindo do nada, envolvido com duas irmãs de uma família tradicional da sociedade local, pode tornar mais previsível o fato dele ser assassinado. A partir do crime, entretanto, a história cresce, mostrando o inferno das relações familiares: o falso culpado e o culpado verdadeiro, fraude, paixões e traição. Vale muito a pena a leitura.
Ricardo Piglia é escritor e professor de literatura latino-americana, considerado um dos melhores da literatura argentina na atualidade. Dizem que é o sucessor de Borges (não entendo por que Borges tenha de ter um seguidor ou por que não possa existir Borges e Piglia sem que este deva alguma coisa àquele). Seus romances Respiração Artificial, A Cidade Ausente, Dinheiro Queimado e Alvo Noturno já estão publicados no Brasil. É autor, também, de contos, ensaios sobre ficção e roteiros para cinema. É dele o roteiro do filme Coração Iluminado, dirigido por Héctor Babenco. Sua obra Dinheiro Queimado foi para o cinema com o título de Plata Quemada.
=====================
Ricardo Piglia. Alvo Noturno. SP, Cia. das Letras, 2011, 256 pp. R$ 45,
domingo, 3 de junho de 2012
O caso da Chácara Chão
Você lembra a polêmica com o Prêmio Jabuti de Literatura do ano passado? O romance de Edney Silvestre, Se eu fechar meus olhos agora, ganhou o prêmio como melhor romance. Chico Buarque, com Leite Derramado ficou em segundo e Luís Fernando Veríssimo em terceiro, com Os espiões. A Câmara Brasileira do Livro, que organiza o prêmio, escolhia, ainda, entre todos os selecionados de todas as categoria (conto, poesia, romance, reportagem), o Livro do Ano. E aconteceu que o Leite Derramado, do Chico, ganhou, deixando Edney Silvestre e a editora Record, que lançou a obra, descontentes. Para eles, quem deveria ganhar seria Se eu fechar os olhos agora, que havia ficado na frente. Agora houve mudança nas regras, só o primeiro colocado de cada categoria concorre ao Livro do Ano. Aproveitando-se do imbróglio, Domingos Pellegrini Jr. escreveu uma carta aberta no jornal de literatura O rascunho, endereçada a Milton Hatoum, escritor manauara, reclamando do que vem acontecendo com seu livro O caso da Chácara Chão (da Ed. Record, a mesma do Se eu fechar meus olhos agora), vencedor do Prêmio Jabuti de 2001. O livro de Hatoum, Dois Irmãos, da Cia. das Letras (a mesma do livro do Chico Buarque) havia ficado em segundo lugar. Mas, Dois Irmãos ganhou repercussão maior que o vencedor do Jabuti, sendo confundido como o vencedor do prêmio. A CBL contribuiu para essa confusão, ao publicar, no seu site, não a relação dos vencedores por ordem de premiação, mas as relações dos três títulos finalistas em ordem alfabética, como faz na divulgação no período entre a revelação dos finalistas e a premiação. Talvez também tenha contribuído o fato de a Companhia das Letras, já em 2001, ter colocado tarja sobrecapando o livro, com a informação promocional “Vencedor do Prêmio Jabuti”. Resumo da história: foi uma briga política entre duas grandes editoras do mercado brasileiro. Eu havia lido Dois Irmãos e gostei muito. Não havia lido o livro de Pellegrini. Decidi comprá-lo e ler. De início, me incomodou o estilo infanto-juvenil. Os diálogos soavam artificiais. O autor é um dos expoentes da literatura para jovens, possui vários prêmios nessa categoria. Quando me dei conta, entretanto, estava envolvido na história e li o romance quase sem parar. A trama se sustenta em forma de suspense, prendendo a atenção até o final. O livro de Pellegrini tem uma trama policial. É também um painel social, onde as pessoas se debatem entre o crime e a decência, o isolamento e a comunidade, a covardia e a cidadania. O personagem central da história é um escritor de literatura juvenil que vive com a mulher, a filha pequena e o enteado adolescente em uma chácara nas imediações de Londrina. Uma noite, a família é assaltada por dois elementos, um branco de origem rica e um mulato de origem humilde, licenciado da PM por uso de drogas. Na briga, o escritor fere com facão o ladrão da PM. A dupla foge, roubando joias e dólares. A polícia é chamada, os bandidos presos, mas o escritor e sua mulher são vítimas de uma armadilha. As coisas fervem, a polícia e a opinião pública ficam do lado dos bandidos, os advogados sugerem a retirada da queixa e a busca para salvar a dignidade do casal segue adiante por outros meios. Paralelamente, próximo à chácara, constroem um enorme galpão para promover festas e shows, com o som a todo o volume. A comunidade local se mobiliza para coibir o estabelecimento de funcionar, inicialmente sem sucesso. No final do livro, as coisas se resolvem. O assaltante pobre é desmascarado e condenado e o assaltante rico consegue sair do país impune. Domingos Pellegrini Jr. baseou-se em fatos reais acontecidos com ele mesmo, quando foi assaltado em sua chácara, em situações semelhantes às do livro. Longe de ser um livro-cabeça, sua leitura prazerosa empolga.
=======================
Domingos Pellegrini Jr. O caso da Chácara Chão. 5ª ed., Rio, Ed. Record, 2007, 340 pp. R$ 39,90
=======================
Domingos Pellegrini Jr. O caso da Chácara Chão. 5ª ed., Rio, Ed. Record, 2007, 340 pp. R$ 39,90
Assinar:
Postagens (Atom)











