domingo, 18 de agosto de 2013

Baú de ossos


O mineiro Pedro Nava (1903/1984) foi médico famoso e filho de médico também famoso. Foi intelectual participante da vida literária brasileira, amigo de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e outros grandes do modernismo brasileiro. Foi pintor e poeta bissexto, tendo seus versos apreciados pela crítica especializada. Aos 65 anos, aposentado da medicina, decidiu empreender uma obra memorialista extensa, composta de seis grossos volumes, (dos quais li, por enquanto, Baú de Ossos) em que aponta aspectos de sua vida familiar desde a infância até próximo a sua morte. As memórias de Pedro Nava podem ser, em parte, as nossas memórias. O memorialista entrelaça de tal modo os fios de sua memória com os da vida brasileira, que se torna difícil estabelecer exatamente onde acaba esta e onde começam aquelas.

Baú de ossos (1972) reconstitui a genealogia dos antepassados e os primeiros anos da infância do autor. Nava realiza um panorama da sociedade e da cultura brasileiras no século XIX e no início do século XX. Suas memórias se iniciam com a descrição dos antecedentes genealógicos da família do autor, divididos entre Minas, o Nordeste e os burgos e castelos europeus onde viveram seus antepassados aristocráticos. Em seguida, sempre entremeando fatos históricos, observações pitorescas e anedotas familiares, o autor narra acontecimentos vividos até seus oito anos de idade, marcados pela traumática morte de seu pai. .A obra do médico Pedro Nava vem da oralidade. Da memória dos que envelhecem surge o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho. Só o velho pode suscitar de repente no menino que está escutando e vai prolongar por mais  sessenta anos a lembrança que lhe chega, não como coisa morta, mas como flor perfumada e colorida, límpida e nítida, como o mágico que abre a caixa dos mistérios na cor dos bigodes, no corte do paletó, na morrinha do fumo, no ranger das botinas de elástico, no andar, no pigarro, no jeito. E com o evocado vem o mistério das associações trazendo a rua, as casas antigas, outros jardins, outros homens, fatos pretéritos, toda a camada da vida de que o vizinho era presença inseparável e que também renasce quando ele revive – porque um  e outro são condições recíprocas. Costumes de avô, responsos de avó, receitas de comida, crenças, canções, superstições familiares duram e são passadas adiante nas palestras de depois do jantar, nas tardes de calor, nas varandas que escurecem; nos dias de batizado, de casamento, de velório.

A Baú de ossos seguiram-se, num intervalo de pouco mais de dez anos, Balão Cativo (1973), compreendendo o período entre o retorno para Minas Gerais após a morte do pai e o internato no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. O autor aborda os anos decisivos do final da infância e a adolescência. A descoberta do sexo e da literatura, a amizade marcante dos novos colegas e o dia a dia vibrante do Rio antigo; Chão de ferro (1976) aborda principalmente a vivência carioca do autor mineiro na primeira metade do século XX. O narrador se desloca de trem entre dois polos - no Rio está o colégio interno; em Minas, as férias com a família e, posteriormente, a faculdade em que ingressa em 1921. Não são polos meramente geográficos, mas dimensões existenciais, afetivas, intelectuais, sociais, culturais e civilizatórias distintas. Concentrando ações transcorridas entre 1916 e 1921, 'Chão de ferro' se abre e se fecha descrevendo aulas no tradicional e reputado colégio Pedro II e na Faculdade de Medicina;  Beira-mar (1978) retrata a vida em Belo Horizonte no período que vai de 1921 a 1926. Nava descreve seu curso na Faculdade de Medicina, a vida estudantil, que transcorria tranquila na então pacata capital mineira. Reconstitui também uma fase importante da vida literária em Minas, ao narrar com detalhes as conversas do grupo de 'A Revista', formado por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado, João Alphonsus, Emílio Moura, Milton Campos, Abgar Renault entre outros; Galo-das-trevas (1981) divide-se em duas partes. Na primeira, que chamou de 'Negro', ele faz um resumo de sua vida, com observações sobre o presente que o projetam frequentemente no passado. Na segunda parte, 'O Branco e o Marrom', conta o início de sua carreira, em 1928, quando, inexperiente ainda, teve de enfrentar as difíceis condições de vida de médico do interior, viajando em lombo de burro e improvisando para salvar vidas humanas. Depois, com a volta a Belo Horizonte, as lembranças se estendem até a revolução de 30; Círio perfeito (1983) abrange o período que se estende de 1930 a 1940. A revolução, a sua experiência no magistério, a saída de Minas e o encontro com o Rio de Janeiro; por último, Cera das almas, interrompido com a morte do autor em 1984, mas editado em 2006, mostra a passagem do autor pela Policlínica Geral do Rio de Janeiro, na década de setenta, além de revelar o método de criação do memorialista.
 
Ler Baú de ossos torna-se leitura interessante, se o leitor gostar do gênero memorialístico e das crônicas da vida familiar e social brasileira. O autor diferencia suas memórias do estilo tradicional, pela ironia com que descreve algumas pessoas e fatos. Os dois primeiros capítulos poderão parecer cansativos, devido à exaustiva enumeração e descrição de sua árvore genealógica paterna (primeiro capítulo) e materna (segundo capítulo). A partir daí, flui de forma agradável e interessante.

                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
 
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Pedro Nava. Baú de ossos. SP, Cia. das letras, 2012, 512 pp.  R$ 54,50

domingo, 11 de agosto de 2013

A ostra e o vento


Poderíamos dizer que Moacir Costa Lopes é o nosso Joseph Conrad, posto que os dois viveram ativamente o mar como marinheiros, e ambos escreveram seus romances tendo o mar como protagonista ou como pano de fundo. Se Conrad é considerado dos grandes da literatura universal, Moacir C. Lopes é pouco conhecido de nós, ainda que sua obra seja de qualidade inquestionável. Walter Lima Jr, ao levar para o cinema a história de A Ostra e o Vento, contribuiu positivamente para que o livro surtisse o interesse da editora Quartet, que o relançou lá pelos anos 2000.
A ostra e o vento passa-se na Ilha dos Afogados, onde há um farol. Lá vivem Daniel, ajudante de faroleiro, José, o faroleiro e pai de Marcela, adolescente que foi para a ilha aos nove anos de idade, permanecendo 10 anos lá. Depois, junta-se ao grupo Roberto, outro ajudante. Rodeando a ilha, o mar, o vento, o silêncio e a solidão.  

Sozinha na ilha e proibida de ir à cidade, Marcela inicia, sozinha, o processo de descoberta da própria sexualidade. Ela mantém um diário onde narra o relacionamento obscuro com Saulo, ser misterioso com quem tem um romance. No decorrer da narrativa, a presença de Saulo vai tomando conta da ilha e da vida de Marcela. Anos depois, Daniel retorna à ilha para averiguar os motivos por que o farol está apagado e a encontra deserta. Vasculhando o local onde moravam José e Marcela, descobre o diário, chegando à conclusão de que Saulo poderia, quem sabe, não ter existido.

Daniel começa a relembrar sua convivência com Marcela, a amizade que se formou entre os dois e o quanto a presença da adolescente mexeu em sua vida. Lembra de quando Marcela se entregava ao vento, acontecimento contado com lirismo e sensualidade por Moacir C. Lopes. Certa vez o pai de Marcela a surpreende nua na praia e a repreende severamente. A ostra pode representa a sexualidade de Marcela, cristalizada na pérola que valoriza seu descobrimento como alma feminina em contato com a natureza.

A ostra e o vento encontra-se esgotada. A última edição correu em 2000, pela Editora Quartet, que elaborou uma capa horrorosa. Trata-se de obra-prima da literatura brasileira. Você poderá encontrar um exemplar seminovo pelo preço médio de 20 reais nos sebos virtuais.

                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Moacir C. Lopes. A ostra e o vento. 7ª ed., Rio, Quartet, 2000, 160 pp

 

 

domingo, 4 de agosto de 2013

Os velhos marinheiros

Em 1961, Jorge Amado lança Os velhos marinheiros, constituído pelo romance O capitão de longo curso e da novela A morte e a morte de Quincas Berro d’Água. Posteriormente, as duas obras foram desmembradas: A morte e a morte de Quincas Berro d’Água e Os velhos marinheiros ou O capitão de longo curso. Essas duas obras iniciam a nova fase do autor baiano, que antes disso se preocupava com questões sociais e políticas, através de personagens engajados na luta contra a injustiça e a miséria social. A partir daí, o autor volta-se para as narrativas de personagens pitorescos, através da ironia e do humor, com forte crítica dos costumes sociais das épocas de suas histórias. A crítica especializada considera as duas narrativas como obras-primas do autor.
O comandante vasco Moscoso de Aragão, com apenas 1 mês morando em Periperi, era a personalidade mais importante, glória do lugar, opinando sobre os mais diversos assuntos. Opinião respeitada por todos. Essa lua-de-mel durou pouco. O velho Chico Pinheiro, ex-fiscal do consumo, morador do lugar há mais de 10 anos, não se agradou do comandante Moscoso, começou a falar mal de seu caráter. A duvidar de sua patente. Acontece que Vasco Moscoso de Aragão não entendia nada de marinha. Era dono de armarinho. Sentia-se inferior aos demais por não ter nenhum título de importância. Entretanto, tinha muitos amigos advogados, médicos e gente graduada na marinha. É aí que um amigo com alta patente arma um esquema para que Vasco Moscoso consiga entrar para o serviço naval como capitão de longo curso, através de um concurso fraudado. Um belo dia, um navio aporta em Salvador, sem o comandante e intimam o capitão Vasco Moscoso para comandar o barco até Belém do Pará. Paremos por aqui, para não desapontar o leitor que pretende ler o livro. A história é muito boa, engraçada, muito bem tramada. Das melhores coisas de Jorge Amado. O final é surpreendente.

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Jorge Amado. Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso. SP, Cia. das Letras, 2009, 296 pp. R$ 49,50

domingo, 28 de julho de 2013

O amor acaba


O lirismo na prosa, fácil de encontrar em mulheres escritoras, também permeia a alma masculina de Paulo Mendes Campos. Em O amor acaba, estão compiladas as melhores crônicas do autor mineiro, que também foi poeta, cujo tema é a divagação existencial da natureza humana. Ser cronista, para Paulo Mendes Campos, é frequentar os bares, habitar todos os lugares, promover misturas, enamorar-se do mundo. Ser cronista é dar à literatura as janelas sem as quais ela não teria vida. É adotar o ponto de vista dos cegos e dos bêbados. É adorar o impossível, reinstaurar a desordem, viver entre a beatitude e o horror. Ser cronista é esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto, é anunciar desolações, como fazem os profetas. É defender o homem contra seu destino obscuro. É amar “todos os serzinhos humanos” e ainda mais os passarinhos. Ser cronista não é apenas embalar o leitor com algumas doses de lirismo, ou diverti-lo com ditos espirituosos, mas atormentá-lo muitas vezes com desilusões, puxões de orelha e socos no estômago. Ser cronista é, a despeito de si mesmo, amar a vida – e escrever sobre seus dissabores, mesmo consciente de que “a vida não vale uma crônica”.

Na crônica que dá título ao livro recém-lançado pela Companhia das Letras, o cronista nos diz, O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
 
                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Paulo Mendes Campos. O amor acaba. SP, Cia. das Letras, 2013, 286 pp. R$ 39,00

domingo, 21 de julho de 2013

Pedras de Calcutá


Caio Fernando Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão (RS) em 1948 e faleceu em Porto Alegre em 1996. Estudou Letras e Artes Cênicas, mas não teria concluído nenhum dos dois cursos, preferindo transferir-se para São Paulo, onde atuou como jornalista em diversos jornais e revistas de grande circulação nacional. Notabilizou-se no conto, apesar de exercitar a crônica jornalística e ter escrito dois romances em sua curta vida: Limite branco e Onde andará Dulce Veiga?. Também foi dramaturgo. Se você era ativo culturalmente na década de oitenta em Porto Alegre, certamente curtia o teatro gaúcho e provavelmente assistiu a duas peças suas de sucesso: Pode ser que seja só o leiteiro lá fora e A maldição do vale negro, ambas montadas no Teatro do Clube de Cultura, na rua Ramiro Barcelos. Caio também fez traduções.
A geração de que Caio fez parte sofreu com a censura da ditadura militar. Geração que viveu uma espécie de apoteose criadora. Caracterizava-se pela ruptura da estrutura tradicional, especialmente do conto, apresentando uma narrativa preocupada em fotografar instantes, episódios ricos em sugestões e flashes reveladores de angústia, medo, solidão, através de uma prosa carregada de informalidade, muito mais chegada a Rita Lee e Cazuza do que ao estilo formal da Academia.
Leitor assíduo de Clarice Lispector, apresenta em sua escritura influências da escritora genial. Na década de 70, publicou dois livros de contos, O ovo apunhalado (1975) e Pedras de Calcutá (1977). Mas a fama  veio com os contos de Morangos Mofados, editado pela Brasiliense,   em 1982. A Brasiliense lançava no início dos anos 80 a coleção de bolso “Cantadas Literárias”, revelando autores que despontavam no cenário nacional como Caio Fernando Abreu, a poeta Ana Cristina César, Paulo Leminsky, Marcelo Rubens Paiva e Francisco Alvim, citando apenas alguns dos brasileiros da coleção.
Pedras de Calcutá é um livro formado por contos distribuídos em duas partes: Mergulho I (a vivência alucinatória da própria experiência física de forma atormentada, como se o corpo dos personagens suportassem a própria vida) e Mergulho II (indivíduos em busca de fatos capazes de oferecer soluções quase improváveis, resultando em ansiedade, tensão e expectativa quase desesperadora). Os contos exprimem o horror que pode existir entre pessoas que se descobrem perseguidas não tanto por uma ditadura, mas por si mesmas.
O gosto por ambientes urbanos, a escrita angustiada e a temática da solidão compõem o quadro das características literárias de Caio. Sua narrativa é uma sondagem da angústia e da solidão daqueles que vivem perdidos entre arranha-céus. Sua prosa introspectiva revela a pressão de se sentir sozinho, esmagado por uma realidade opressiva que não faz a menor questão de estimular alguém a permanecer vivo. Em seus textos, há também a presença de uma radiografia dos sentimentos e das relações amorosas, com especial apego aos deslizes e incertezas.
É bastante comum a literatura de qualidade produzida no Brasil encontrar-se esgotada. É o caso de Pedras de Calcutá. Você acha um exemplar seminovo nos sebos virtuais por um preço médio de 30 reais.

                                                                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Caio Fernando Abreu. Pedras de Calcutá. SP, Cia. Das Letras, 1996, 132 pp. 

domingo, 14 de julho de 2013

As meninas



Ana Clara, Lia e Lorena. Três jovens universitárias perdidas no mundo brasileiro contemporâneo da década de 70. As meninas de Lygia Fagundes Telles, entre os méritos que tem, é o de apresentar a narrativa inserida na história viva da ditadura militar (a obra foi escrita em 1983). As meninas é um documento ficcional vivo de um Brasil estilhaçado na insegurança e falta de perspectivas. As três estudam em São Paulo e moram num pensionato de freiras. Lia tem posicionamento contestador, escreve um livro que não consegue acabar. Lorena é a mais burguesa das três; insegura, quer arrimo em um casamento que a conforte. Ana Clara, a menos favorecida, é viciada, está sempre correndo atrás de dinheiro. Lia, esquerda militante, perdeu o ano por excesso de faltas, tem um namorado preso a ser trocado por um embaixador. Lorena gosta de latim, ouve música clássica o dia inteiro, à espera de um namorado que não telefona nunca. Ana, compradora compulsiva, seguidamente é internada para se desintoxicar das drogas. As três representam vidas que podem se perder a partir de si mesmas, vozes de uma geração violentada, colonizada e drogada, a partir do golpe de 64. 
As meninas configura uma posição de engajamento da escritora, que mostra personagens dominadas pelo discurso dominante. Lya, a comunista, é quem mais tenta lutar contra o esquema. O romance traça um retrato muito fiel do jovem desse momento no Brasil. Lygia Fagundes Telles é pioneira na ficção brasileira, ao inaugurar o fluxo de consciência da mulher na ficção, pois até então era inédito que uma mulher falasse de suas fantasias existenciais e eróticas, de forma tão humana e verdadeira.
Quando era aluno do curso de Letras da UFRGS, lá por 1976, assisti a  uma conferência em que ela participou juntamente com Nélida Piñon, Fernando Morais e Rubem Fonseca,. Lembro dela ter dito que o escritor escreve tentando, quem sabe, recompor um mundo perdido, buscando-se nos personagens e a si mesmo. A obra de Lygia Fagundes Telles apresenta um fio muito tênue entre memória e ficção. Ela mesma mistura as duas coisas, ao escrever. Quando criança, ouvia histórias das moças contratadas pela família para cuidar dela, enquanto trabalhavam. Essas histórias lhe despertaram o gosto pelo mistério, a invenção, a imaginação. Foi assim que se foi tornando escritora. Lygia nasceu em São Paulo em 1924, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985. Entre sua obra, toda ela constituída por uma prosa elegante e bem urdida, destacam-se também os romances Ciranda de pedra e As horas nuas. Excelente contista, também, com os livros Antes do baile verde e Cemitério dos ratos.
                                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
 
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Lygia Fagundes Telles. As meninas. SP, Cia. das Letras, 2009, 304 pp, R$ 41,00

domingo, 7 de julho de 2013

os limites do impossível


Pesquisas indicam que Carlos Gardel era uruguaio nascido em Tacuarembó,  na Estância de Santa Blanca, de propriedade de seu pai, o coronel Carlos Escayola, chefe político e de polícia do Departamento de Tacuarembó. As versões sobre a negação de Escayola para reconhecê-lo como filho surpreendeu a todos os pesquisadores. Aparentemente, o coronel tinha um amor secreto com a Sra. Juana Sghirla, argentina e esposa de Juan Oliva, cônsul italiano. Para estar perto de Juana, casou-se com as três filhas do cônsul e enviuvou de todas elas. Maria Lelia, a caçula, seria filha de Escayola com Juana. Dessa relação incestuosa, teria nascido Carlos Gardel, que foi enviado a Buenos Aires em segredo, com a francesa Berthe Gardés, que passou a ser sua “mãe verdadeira”, divulgando que Gardel havia nascido em Tolouse, na França. Quando perguntavam a Gardel se ele havia nascido em Tacuarembó, ele dizia que havia nascido em Buenos Aires com dois anos e meio de idade. Se um dia você for a Santana do Livramento para fazer compras em Rivera, faça um passeio agradável a Tacuarembó (115km) e visite o Museo Carlos Gardel. Lá há informações mais detalhadas sobre o famoso cantor de tangos.
O escritor gaúcho Aldyr Garcia Schlee (1934) exerce sua competência de escritor em Os limites do impossível, de forma a alcançar a realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. A figura masculina que costura todo o romance é a de Carlos Escayola (o pai de Gardel) e seu relacionamento com 12 mulheres, que nomeiam os 12 contos do livro. Apesar de classificado pela editora e pelo autor como livro de contos, as histórias individuais de cada mulher formam uma história completa. O leitor entrará em contato com Clara, filha de Juana, que era amante de Escayola. Para manter o idílio, ele casa-se com Clara, mas tem uma filha ilegítima com Juana, Maria Lélia, e assim vai a história.
Aldyr Garcia Schlee sabemuito bem descrever o cenário do pampa sem recorrer aos clichês da literatura campeira. A visão diferenciada da fronteira começa na própria experiência pessoal do jornalista e escritor nascido em 1934 no sul gaúcho. Jaguarão, sua cidade natal, localiza-se na divisa com o município uruguaio de Río Branco. Tirou dali as referências para construir o contexto de culturas irmanadas e a eterna tentativa de fundir os idiomas de um lado e outro do rio, tão presentes em sua obra.
É mestre no conto,  mudando o foco utilizado de considerar o castelhano sempre como o anti-herói. Schlee não dá espaço para heróis. Deixa vir à tona os marginais silenciados pela história,permitindo não somente que os pequenos, incapazes de grandes feitos físicos ou morais, venham à tona, como também sejam focalizados na condição de seres humanos, revelando sua universalidade, focando a representação do homem sul-rio-grandense, independentemente de situação financeira, nacionalidade ou mesmo  realização de grandes feitos. o que garante aos textos de Schlee uma leitura sempre atual, visto que a condição humana é intemporal. Leia Os limites do impossível, que você vai gostar.
                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Aldy Schlee. Os limites do impossível (contos gardelianos). Porto Alegre, Ardotempo, 209, 204 pp., R$ 30,00

sábado, 29 de junho de 2013

O primeiro e o segundo homem


Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo, RS, em 1952 e faleceu prematuramente em Porto Alegre, em 1996. Militante político desde jovem, era jornalista, trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura, em Porto Alegre e atuou efetivamente no mundo do nativismo. Passou a infância e a adolescência na região das Missões sul-riograndenses, terra marcada pela vida guarani, antes e depois dos jesuítas, por lutas de fronteira e grandes fazendas de gado, pelo plantio do soja na década de 60, que encolheu a economia das fazendas, forjando o gaúcho a pé, o peão sem emprego e sem cavalo, forçado a migrar para os centros urbanos sem especialização técnica para o trabalho na indústria; terra vizinha ao famoso rio Uruguai, donde na outra parte encontra-se o território argentino. É desse ambiente que brotam os seres e o universo dos contos de O primeiro e o segundo homem, o leitor irá encontrar histórias, a maioria delas trágicas, contadas em tom poético, do nascimento de Sepé Tiaraju, considerado santo popular, gerado de uma índia com o espírito santo; o êxodo de uma família de agricultores que se desfizeram do pouco que tinham para tentar a vida em Porto Alegre; lembranças do jogo de bolitas; um roubo de carga de soja e o emprego de tratorista foi o pretexto para um homem ser morto por vingança, para que o cargo de tratorista fosse dado a outro; o duelo de facão que resulta na morte de dois homens numa noite de lua cheia; um catador de lixo judia de uma cadela prenha o assunto acaba em morte; a morte de um taipeiro com o rosto deformado pelo ofício de foguista assemelha-se à caça de um tatu; a paixão de um menino pequeno pelo canto dos pássaros que inventava;
Luiz Sérgio publicou ainda a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto, o relato de uma viagem que fez a cavalo com três amigos por terras rio-grandenses em Terra Adentro e a novela considerada sua obra-prima: Assim na Terra.
                                                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Luiz Sérgio Metz. O primeiro e o segundo homem. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2001, 112 pp, R$ 26,00

sábado, 22 de junho de 2013

Vozes do deserto

O Califa de Bagdá, traumatizado com a traição da mulher com um escravo, a cada noite deitava-se com uma mulher diferente, que acabava matando, após o coito, como forma de vingança contra as mulheres e também como forma de não vir a se apaixonar novamente. Certa noite, uma das mulheres a ser condenada à morte decide salvar sua vida, contando ao califa uma história que se interrompe no clímax, para que na noite seguinte ele possa chamá-la novamente sob o pretexto de continuar a história. O nome dessa mulher: Scherezade. Esse é o mote para a monumental compilação de histórias árabes denominada Livro das mil e uma noite, com contos de origem síria e egípcia que todos conhecemos.

Nélida Piñon reconta a história de Scherezade de forma surpreendente, em Vozes do deserto, romance que lhe deu o Prêmio Jabuti de 2005. A moça do romance não teme a morte. Não acredita que o poder do mundo representado pelo Califa decrete por meio da morte o extermínio da sua imaginação. Quer ser a única capaz de interromper a sequência das mortes dadas às donzelas do reino. Não suporta ver o triunfo do mal que se estampa no rosto do Califa. Quer opor-se à desdita que atinge os lares de Bagdá e arredores, oferecendo-se ao soberano em sedicioso holocausto.

A dor do Califa, entretanto, não provém de um amor ofendido. Há muito deixara de querer a esposa que o traíra miseravelmente no passado. Nunca a amou de verdade. Por ter a liberdade de se relacionar com várias mulheres, habituara-se ao fulgor do desejo apenas. Ou de exercitar suas fantasias sexuais com a pretensão de atingir a cópula perfeita. A solidão do Califa persistia, a despeito do séquito das virgens que se sucediam em seu leito e que ia sacrificando a cada dia. E nunca tendo com quem dividir suas desventuras, ia guardando em segredo suas desilusões. Diferente dos demais mortais, protegia-se das intempéries enviando os súditos ao cadafalso.
Atento, ele registra como a jovem fomenta as emoções. Tarda em encomendar a morte de Scherezade. Inquieta-o que use as histórias da jovem como pretexto para mantê-la ao seu lado. Admite que a fantasia daquela contadora de histórias lhe azeita o corpo, e suas palavras, às vezes cultas, quase sempre de raiz popular, suspendem as noções que tivera até então de realidade. Para ela, era mister ao Califa vir a amar. Submeter-se à carne abandonada e abandonar por instantes o infortúnio alheio, presente em suas fantasias. Suspender o indomável instinto narrativo para transformar-se afinal em personagem do próprio destino. Nélida Piñon vê essa mulher que atravessou mil e uma noites contando histórias ao Califa, poupando a vida de mil e uma outras mulheres. Interiormente, mostra uma mulher forte e delicada, a mulher de quem a fabulosa criação oriental nos dera apenas o vulto escondido entre as dobras do véu muçulmano. A autora nos revela em sua história a natureza profunda de Scherezade. Desejosa de romper o sexo sem amor, obscenamente mecânico imposto a ela, que era possuída e não amada, com a sede da palavra. É esse desejo que salva a narradora e todas as mulheres pelos quais ela se sacrifica.
Quem tem ouvidos, ouça! Através dessa obra, Nélida Piñon reinventa o fascínio das Mil e Uma Noites. Este é mais um livro excelente e recente, que se encontra esgotado. Mas há em sebos virtuais com o preço médio de 15 reais um exemplar em bom estado
                                                                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Nélida Piñon. Vozes do deserto. Rio, Record, 2004. 354 pp

sábado, 15 de junho de 2013

Livro das horas

Livro das horas é a publicação mais recente de Nélida Piñon (1937). É um livro de memórias, carregadas de imagens poéticas. Prosa deliciosa que nos faz parar frequentemente para refletir sobre as colocações que a autora brasileira faz sobre o fato de existir.

Nélida Piñon é escritora desde o berço. Ao abrir os olhos, jurou ter fé nas palavras, com elas contar uma história. Este ofício lhe compromete com a fala poética, com o discurso do mistério, com o coração da língua. Mas, na condição de aprendiz, rastreia o transcurso literário dos antecessores, a fim de saber onde eles estiveram e ela não está. A quem eles amaram, ela não amou.
Não tem filhos, mas tem a nós, leitores capazes de defender a civilização contra o avanço da barbárie. A nós, nomeia sucessores de uma linhagem irrenunciável. E, embora duvide às vezes se vale defender alguns princípios hoje contestados, persiste em inscrever certas normas no código dos direitos humanos. Não nos conhece e nem sabe onde vivemos, mas pensa um dia convidar-nos a sermos parceiros, sócios, aliados das suas aventuras narrativas. A nos conhecer pessoalmente, trazendo debaixo do braço algum romance de Machado de Assis. E que vejamos como é a aparência de quem se habituou a registrar os enredos que também vivemos junto com nossas famílias. Instalados em sua sala da Lagoa, ela nos ofereceria um guaraná Antarctica, um cafezinho, e biscoitos de polvilho. Juntos, mergulharíamos nas águas barrentas das palavras, no redemoinho vertiginoso das emoções, nas trevas perturbadoras dos sentimentos ainda sem nome e definição precisa, sem que atropelemos a palavra do outro para impor a nossa. Para exercitarmo-nos a ouvir o que o outro tem a dizer.

Nélida Piñon nos conta que, a cada dia, aprende a perder as pequenas utopias e os ideais indomáveis. Não lamenta viver sem eles. Sente-se mais leve sem o fardo que representam. É impossível servir aos deuses e a ela mesma. Além do mais, perder bens que julgávamos eternos significa estarmos aptos a adquirir, no futuro, haveres que só a fantasia enxerga. É como destilar a solidão que é vida também. Enquanto escreve, ela se resigna em dissolver as ideias que nunca foram suas. Por que padecer pelo que não sabe contar? Ou desesperar-se pela narrativa que viceja alhures e aguardar que algum adorno estético da historia lhe transfigure de repente? Afinal, ela diz, o fracasso literário é didático, impõe a criação de um outro acervo constituído de experiências, lamúrias, segredos, reavaliações. Uma técnica com a qual a vida ensina a que se reabilite no futuro um livro previamente condenado. Acaso ocorre o mesmo com o amor e a morte, sempre iminentes? Devemos ler esse livro maravilhoso para respondermos.
                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Nélida Piñon. Livro das horas. 2ª Ed., SP, Cia. das Letras, 2012, 208 pp., R$ 39,90

domingo, 9 de junho de 2013

Tratado ontológico acerca das bolas do boi

 Otacílio leva muito a sério as comemorações do 20 de Setembro. Sente-se honrado em protagonizar a festa, em manter a tradição. Muitos não vão por falta de dinheiro pras pilchas ou pras cordas, ou, pior, por falta de cavalo. Sem estarem completos, têm vergonha de desfilar; não estando completos, têm vergonha de pedir emprestado o que lhes falta. No afã de conseguir um cavalo, Otacílio pensa em tudo, até em roubar um, se for o caso. Esse é o mote para a estória do gaúcho depois do gaúcho a pé, contada pelo alegretense José Carlos Queiroga em Tratado ontológico acerca das bolas do boi.

Não há nada no mundo igual ao pampa. Otacílio jamais ultrapassou os limites da Serra do Caverá (fica no município de Rosário do Sul,RS). Para ele, a juventude passou mais rápido como enterro de pobre, de à cavalo, correndo ao costado do touro e soltando o laço nas aspas, maneando o animal com as duas mãos, fazendo-o virar cambota na cancha. Hoje, destituído de cavalo, é peão de lavoura. Mora num barraco com a mulher e a filha pequena no interior do município e trabalha numa lavoura de arroz. Na época do trabalho duro, consegue ver a família uma vez só, a cada quinze dias, na entressafra. Otacílio, sem cavalo no mundo, sente um vazio de boi de canga, carregando o mundo nas costas, mas fora do aconchego do mundo que sempre foi o seu e agora lhe tomam:trabalha no arroz feito um pato dentro d’água; em casa, a mulher em mágoa pela carestia de tudo. Otacílio é um homem simples, analfabeto (mas não pras coisas do campo, que isso ele entende muito bem!), tem vida simples, sonhos simples, crenças simples, elementares. Se lhe dizem que o fogo aquele que “nunca acaba” nunca apagou desde 1835, ele acredita, sem qualquer fagulha de dúvida, porque é simples.  
Assim como todo mundo, Otacílio já ouvira falar do Movimento Sepé Tiaraju, e sempre mal. É ajuntamento de bandido, que se acolhera pra roubar a terra dos outros; que vão invadindo, cortando cerca. Um  fazendeiro lhe disse que os que mandam no movimento vão para as vilas e arrebanham só a ralé, os borrachos, os bandidos, e os levam de arrasto com promessa de virarem proprietários, patrões, pras beiras das estradas, esperando a hora de dar o bote. Otacílio, entretanto, se interessa pouco por isso, o que ele quer é conseguir um cavalo para poder desfilar no dia 20 de Setembro.
Tratado ontológico acerca das bolas do boi é um romance em retalhos. O périplo de Otacílio pelo pampa sem cavalo e sem terra é recortado por explicações filosóficas e históricas sobre as transformações que sofreram o campo gaúcho com o surgimento do agrobusiness, contadas de forma divertida, mas com fundamentação científica. O livro de Queiroga faz uma análise do movimento dos sem-terra, por exemplo, sedimentada numa ontologia histórica, para exemplificar o que acontece quando se modifica a ideia de que no pampa, as coisas são e pronto, de que desde que o mundo é mundo, o gaúcho vive no lombo do cavalo, que é de onde tira seu parco sustento, cuidando de gado alheio. O pobre Otacílio luta contra os tempos modernos para manter a tradição, numa batalha perdida, num mundo sem cavalo. Tirar-lhe o bicho é como capá-lo a bordizo, a torquês retorcendo o corte por dentro.
Trata-se de um livro diferente. Com um pouco de paciência o leitor desfrutará de uma leitura inteligente e divertida. A obra encontra-se esgotada. Você a encontrará nos sebos virtuais por um preço médio de R$ 30,00.

                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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José Carlos Queiroga. Tratado ontológico acerca das bolas do boi. Passo Fundo, Méritos, 2004, 528 pp

 

 

domingo, 2 de junho de 2013

Berlim Alexanderplatz

Após passar quatro anos na prisão pela morte da mulher que ele prostituiu e depois feriu mortalmente numa briga, Franz Biberkopf, homem rude, de aparência repulsiva, volta às ruas de Berlim. Jura a todo mundo e a si mesmo manter-se, a partir de então, um homem decente. Enquanto teve dinheiro, manteve-se assim. Quando o dinheiro acabou, entretanto, foi mostrando gradativamente o homem que realmente era. Biberkopf jurou ser um homem decente, mas isso foi uma trégua. A vida é um antro de miséria e passa-lhe rasteiras. Depois de ser traído por um amigo, passa a questionar a vida mesquinha e desgraçada, que contradiz todas as suas intenções. Atira-se à bebida. Esse tal amigo o havia atropelado e Biberkopf perdeu um braço. Mas, ele não desistiu. Há uma rápida recuperação, mas acaba envolvido à força em um crime e é obrigado a resguardar-se, para não voltar à cadeia. Apaixona-se sempre por prostitutas e torna-se gigolô das que o amam.  O amigo que o trai continua ligado a ele, pregando-lhe trapaças. As intenções desse amigo traidor são ambíguas.
Alfred Döblin, judeu alemão, escreveu sua obra monumental em 1928, período em que a Alemanha nazista estava tomando forma. Mas Berlim Alexdanderplatz não deve ser visto por esse viés que empobreceria a obra. O romance cria uma ilusão sobre a realidade, distorce-a, transgredindo a vida. De tons expressionistas, mostra um personagem que sofre um golpe atrás do outro e segue adiante, sem que consiga questionar como e por que é manipulado pelas pessoas. O cineasta Rainer Werner Fassbinder filmou uma série baseada no livro de Döblin, mantendo-lhe o tom expressionista e teatral. A obra gravada para a tevê está dividida em 13 capítulos e um epílogo. Foi restaurada pela Versátil e pode ser encontrada em locadoras (a Espaço Vídeo de Porto Alegre tem). Entretanto, a visão de Fassbinder sobre Berlim Alexanderplatz é uma outra ilusão sobre a vida, igualmente interessante.

A tradução brasileira é de Lya Luft pela Editora Rocco, mas encontra-se esgotada. Há uma edição da Martins Editora, que eu não conheço a tradução, por $66,90. Você consegue um exemplar novo da Rocco por 35 reais no sebo virtual.

                                                                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Alfred Doblin. Berlim Alexanderplatz. Rio, Rocco, 1995, 436 pp.