domingo, 27 de outubro de 2013

A casa dos budas ditosos


O baiano João Ubaldo Ribeiro (1941 abre A casa dos budas ditosos, explicando ao leitor a encomenda da Companhia das Letras para escrever um romance sobre o pecado da luxúria, da Coleção Pequenos Pecados, que inclui como tema de cada livro um dos sete pecados capitais. Entretanto, (aí começa a ficção) os originais que constituem A casa dos Budas ditosos foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde João Ubaldo trabalhou, acompanhado de um bilhete assinado pelas iniciais CLB. Informava que se tratava de um relato verídico, no qual apenas a maior parte dos nomes das pessoas citadas foi mudada, e que sua autora era uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro. Autorizava que a obra fosse publicada em nome do João Ubaldo, embora preferisse que ele revelasse aos leitores a verdadeira origem, pois achava irresistível deixar as pessoas sem saber no que acreditar. E assim foi feito. O autor conta o pecado da luxúria através da boca de uma senhora (69 anos) experiente nas lidas da vida sexual. Ela nos diz, por exemplo, que seu texto é Sociohistoricoliteropornô, já que é fixada na fase oral canibalista, pois  adora qualquer tipo de ingestão. Antigamente ela já era fixadinha, mas só agora viu o comportamento com clareza. Afirma que não gosta de psicanálise. Em sua casa, bem antes de Freud achava-se obsceno ficar contando intimidades e fraquezas a estranhos, mas de vez em quando  usa uma frase que é jargão de psicanalista: "- isso é inevitável a sua geração".  Acha-se encaixada nessa situação de fixada na fase oral, não se arrepende de nada do que fez, mas afirma que não há bons tempos, só há tempos. Nada de saudosismo, que é uma espécie de masturbação sem verdadeiro prazer, uma inutilidade atravancadora, que no máximo pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente é perda de tempo mesmo.  Aqueles tempos tinham seu charme, mas eram duros também, cada tempo tem sua dureza. Tomar nas coxas, por exemplo, exige know-how, para ser desfrutado decentemente. A mulher tem que treinar a postura, para estar segura de que vai atingir um orgasmo.
Em uma linguagem obscenamente prazerosa, João Ubaldo conduz com talento e competência sua narrativa. Prova de que trabalho por encomenda pode render bons frutos. O livro é dedicado às mulheres, para que os homens também o leiam. Todos vão se divertir à beça.
Essa é mais uma obra importante que se encontra esgotada. Nos sebos virtuais é possível encontrar um exemplar em muito bom estado de conservação por um preço médio de R$ 15,00. Um exemplar novo, por um preço de R$ 35,00.
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João Ubaldo Ribeiro. A casa dos Budas ditodos. SP, Cia. Das Letras, 1999, 164 pp. 

domingo, 20 de outubro de 2013

O escorpião da sexta-feira

Antônio, ex-seminarista, saiu de Pau d’Arco (a Macondo de Charles Kiefer) para trabalhar na Cúria metropolitada de Porto Alegre. Uma tarde, sob a luz filtrada dos vitrais, viu a mulher que transformaria sua vida, que o arrastaria num turbilhão de desejo e paixão, e o desviaria definitivamente do destino que tentava traçar até então, com a fé inabalada em Deus. Luísa, ardilosa e irônica, inflexível e fria. Luísa o abandona e o trai. A partir daí, sente perder o controle sobre si mesmo, abandonado numa solidão doída. Volta a lembrar-se da paixão antiga por escorpiões. Encontra Luísa pela última vez e a mata. A partir de então, adquire um escorpião venenoso que usará toda a sexta-feira à noite para matar prostitutas e, com isso, vingar-se da mulher que amou. Para ele, a vida é um conjunto muito reduzido dos mesmos temas, das mesmas situações inúteis.

Fiquei com a impressão, ao ler O escorpião na sexta-feira, de que Charles Kiefer, intimidou-se diante do psicopata Antônio, tratando-o na superficialidade de suas ações, sem aprofundar suas contradições como indivíduo, reduzindo-o a um traço característico básico que o acompanha durante toda a história: a obsessão por Luísa. O romance ganharia muito, se apresentasse contradições, comportamentos imprevisíveis, enigmáticos, que vão sendo definidos no decorrer da narrativa, evoluindo e surpreendendo o leitor. Assim como está, fica tudo previsível.

Charles Kiefer não é um escritor qualquer. Tem três Prêmios Jabuti em seu currículo, além de outros prêmios. É professor universitário de Literatura e administra oficinas literárias. Tem mais de 30 livros publicados, entre romances e contos. Ganhou notoriedade nacional ao publicar sua primeira novela infanto-juvenil, Caminhando na Chuva, em 1984. Atualmente publica seus livros pela editora Record.

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Charles Kiefer. O escorpião da sexta-feira. Rio, Record, 2006, 112 pp R$ 27,90

domingo, 13 de outubro de 2013

Os sofrimentos do jovem Werther

Wherter, o jovem personagem criado por Goethe, ama desesperadamente a jovem Carlota, comprometida com Alberto, honesto e trabalhador. Torna-se amigo dos dois e passa a cortejar a jovem sem, entretanto, revelar-lhe seus sentimentos. Carlota e Alberto se casam. Wherter decide abandonar a cidade para tentar esquecê-la. Nesse novo lugar, é atraído por uma jovem. Um incidente numa festa, entretanto, faz com que Wherter abandone o emprego, retornando à cidade natal. A paixão por Carlota continua intensa e Wherter vai, gradativamente, enredando-se nas teias de um amor impossível. Acerca-se dela de forma intensa, causando comentários na cidade e desconfiança de Alberto, que pede à esposa que se afaste do jovem. Como isso não acontece, Carlota chama-lhe a atenção, pedindo que não a procure mais. Desesperado, deprime-se e comete o suicídio.

O argumento de Os sofrimentos do jovem Wherter teve, como substrato, acontecimentos semelhantes na vida de Goethe, mas sem o final trágico. Em suas memórias, o autor alemão conta que teve uma paixão não correspondida por uma jovem casada e narrava seus dissabores a um amigo, através de cartas. O casal era amigo de Goethe e comentou que algumas cenas e acontecimentos do Werther tinham realmente acontecido na vida deles. A cena do incidente, quando Werther parte para a Corte também foi verdadeira. Lá conheceu Wilhelm, pastor protestante. Goethe trabalhava na Corte, quando conheceu Wilhelm, dando-lhe acesso, assim, à aristocracia local. Wilhelm  apaixonara-se por uma jovem casada. Certa vez, o pastor protestante compareceu para um almoço na casa de um conde, sem ser convidado, para vê-la, mas é tratado com frieza. Para complicar ainda mais a situação, o conde pediu-lhe que se retirasse. Frustrado pela humilhação,  comete o suicídio. Goethe pôde, assim, extrair de sua experiência pessoal os elementos essenciais da primeira parte de sua obra, e emprestou a experiência trágica do amigo Wilhelm para a segunda parte.

Goethe escreveu Os desenganos do jovem Werther entre fevereiro e abril de 1774, aos 25 anos, portanto. O romance faz parte do contexto histórico e político do Sturm und Drang (tempestade e ímpeto), a época áurea do romantismo alemão. Esse movimento, juntamento com as influências românticas inglesas e francesas, influencou sobremaneira o romantismo brasileiro, especificamente a segunda geração romântica dos poetas Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, para citar os mais conhecidos. Para Werther (e os românticos), os sentimentos tornam-se mais importantes que a racionalidade. Acaba morrendo de amor. A natureza exerce fascínio ao jovem. Refugiava-se nela quando estava contente e também quando estava deprimido. Era a busca de encontrar-se a si mesmo, alargando sua sensibilidade. Goethe experimenta, ainda, outra característica do Romantismo, que é a liberdade artística. A história de Werther é apresentada através das cartas datadas de Werther a Wilhelm. A partir de determinado momento, quando Werther começa a perder a razão, surge outro narrador, na figura do editor das cartas de Werther. A história, então, foi contada a partir da morte de Werther.
Quando atingiu sua maturidade como escritor, Goethe foi influenciado pelo classicismo alemão, que sucedeu ao romantismo. É dessa fase sua derradeira obra-prima, o monumental Fausto, dividido em duas partes. Há uma edição bilíngue muito bem cuidada, da Editora 34, com tradução do original alemão de Jenny Klabin Segall.

Há duas traduções do Werther confiáveis, a de Marcelo Backes, pela LPM e de Marion Fleischer, pela Martins Fontes. Não é muito fácil de encontrar exemplares novos nas livrarias. Você consegue comprá-los no site da Livraria Martins Fontes por R$ 16,00 o da LPM e 43,57 o da Martins Fontes. Nos sebos virtuais é possível encontrá-los por preços mais acessíveis. Eu recomendaria a tradução da Martins Fontes, que apresenta o texto mais redondinho, contemplando a poeticidade da prosa de Goethe.
                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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J. W. Goethe. Os sofrimentos do jovem Werther. SP, Martins Fontes, 2007, 176 pp.

domingo, 6 de outubro de 2013

Diário de um ano ruim


O sul-africano J. M. Coetzee (1940) nos apresenta, em Diário de um ano ruim, um velho escritor solitário que se encontra com uma jovem na lavanderia do condomínio, onde moram. Fica Interessado. Busca informações da moça com o porteiro do prédio. No segundo encontro, em um parque, leva adiante seu plano de se aproximar. Descobre que trabalha como secretária para seu companheiro. Como já está seduzido, arma uma estratégia para trazê-la para si. Conta-lhe que está produzindo material para contribuir para um livro, ideia de um editor da Alemanha, cujo projeto é reunir seis colaboradores de seis países, dizendo o que quiserem sobre qualquer assunto que escolherem, pronunciando-se sobre o que está errado no mundo de hoje. Esse fato é verídico na ficção (na vida de Coetzee também). Faz o convite: como está com prazo apertado,  precisando urgentemente de uma secretária que o ajude a organizar o material, precisa dela para trabalhar com ele, oferece-lhe pagar muito bem. Ela aceita. Porém, o companheiro da jovem instala um spyware no computador do escritor e passa a monitorar os dois.

A história é contada em três planos: o diário que vai constituindo um ensaio sobre temas relevantes da atualidade. Esse plano aproxima o narrador do próprio Coetzee, que costuma dar palestras ao redor do mundo sobre esses temas (recentemente esteve em Porto Alegre, para falar sobre a censura na África do Sul). O segundo e o terceiro planos são contados como notas de rodapé: num, é o escritor narrando sua atração e relacionamento com a secretária; noutro, é a secretária que revela seu ponto de vista sobre o escritor.
O livro pode ser lido de várias formas. O leitor vai escolher a que lhe for mais cômoda. Coetzee, como sempre, se reinventa a cada romance. A tradução é de José Rubens Siqueira

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J. M. Coetzee. Diário de um ano ruim. SP, Cia. das Letras, 2008, 248 pp. R$ 39,50

domingo, 29 de setembro de 2013

o sonâmbulo amador

Jurandir trabalha em uma fábrica de tecelagens. Está próximo à aposentadoria. Então, recebe a tarefa de resolver um problema trabalhista com um empregado da empresa que sofreu queimaduras no local de trabalho. Ao sair com o carro da empresa para visitar o empregado enfermo comete um ato insano e é internado em uma clínica para doentes mentais.

Lá, sente que a loucura, paradoxalmente, revela a lucidez de que viver dói. Incentivado pelo médico da clínica, começa a escrever suas memórias e sonhos, que o ajudam a reconstituir sua vida e enfrentar acontecimentos traumáticos, como o acidente que o deixou manco e a perda do filho num acidente de moto.
O sonâmbulo amador é o segundo romance do escritor pernambucano José Luiz Passos (1971). Narrado em primeira pessoa, divide-se em quatro cadernos que narram a fala aparentemente confusa e desarrumada de Jurandir, revelando seus pensamentos interiores, cheios de mágoa. Jurandir busca clarear o escuro de sua alma, enfrentar fatos dramáticos para tentar definir-se como sujeito, tentar compreender os labirintos que sua consciência cria, trazendo-lhe tristeza. Tristeza que não chega a constituir uma tragédia, apesar da força dos fatos.. Memórias e sonhos  escondem-lhe mistérios, criam armadilhas que confundem o limite entre a imaginação e o acontecido. O autor soube equilibrar isso de forma harmônica.

Apesar de jovem, José Luiz Passos nos apresenta em O sonâmbulo amador uma prosa madura e segura. O escritor vive atualmente nos Estados Unidos, onde leciona literatura e escreve.

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José Luiz Passos. O sonâmbulo amador. RJ, Objetiva, 2012, 270 pp R$ 39,90

domingo, 22 de setembro de 2013

A verdade das mentiras


Dessa vez, vamos comentar um livro sobre os romances. A verdade das mentiras, de Mário Vargas Llosa, debruça-se sobre 36 romances do século XX, que ele selecionou e releu, muitos anos depois, para analisar aspectos dessas obras, diferentemente da intenção primeira que o autor teve, ao lê-las pela primeira vez, quando jovem. Lançado em 2002, contém  ensaios independentes selecionados arbitrariamente e ligados por um denominador comum: de que a missão do romance é mentir de forma persuasiva, passar por verdade as mentiras.
Vargas começa afirmando que, de fato, os romances mentem, pois não podem fazer outra coisa. Mentindo, expressam uma verdade curiosa que só pode se expressar escondida, disfarçada do que não é. Isso acontece porque os homens não estão contentes com seu destino rico ou pobre, medíocre ou genial, célebre ou obscuro: gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Por isso, nos diz Llosa, surgiu a ficção. Na ficção, os leitores podem ter as vidas que não se resignam a não ter. No embrião de todo o romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo satisfeito.

Mas, Vargas Llosa adverte: isso não significa que o romance é sinônimo de irrealidade. A verdade e a mentira no mundo da ficção estão semeados de armadilhas. Não se escrevem romances para contar a vida, mas para transformá-la, acrescentando-lhe algo. Todos os romances refazem a realidade, embelezando-a ou piorando-a. Nesses acréscimos sutis ou grosseiros à vida, nos quais o romancista materializa suas obsessões secretas, reside a originalidade da ficção.
Isto posto, ele nos fala de O coração das trevas (Conrad), Morte em Veneza (Mann), Dublinenses (Joyce), Mrs. Dalloway (Woolf), O grande Gatsby (Fitzgerald), O lobo da estepe (Hesse), O estrangeiro (Camus), A revolução dos bichos (Orwell), O velho e o mar (Hemmingway), Doutor Jivago (Pasternak), O tambor (Grass), Afirma Pereira (Tabucchi) e mais 24 obras que fizeram sucesso no século XX. Trata-se de ensaios curtos – média de 6 a 7 folhas, escritos de forma brilhante, numa linguagem acessível, discorrendo sobre o propósito da literatura, o futuro dos livros e o modo como a ficção transforma nossa experiência vital.

A tradução excelente é de Cordelia Magalhães. Lamentavelmente, estamos diante de mais uma obra de qualidade esgotada. Mas não desanime, nos sebos virtuais é possível encontrar um exemplar seminovo por um preço médio de 33 reais. Mas compre logo, porque são poucos disponíveis!
                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Mario Vargas Llosa. A verdade das mentiras. 3ª ed, SP, ARX, 2004, 368 pp.

 

 

domingo, 15 de setembro de 2013

O amor nos tempos do cólera


O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, é um romance que trata de um amor fora de moda. É a história de um homem que ama uma mulher profundamente e conserva seu amor intensamente por toda a vida.
O romance começou a ser escrito em 1984 em Cartagena de Indias, logo após o autor ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura. García Márquez se vale de alguns dados históricos da cidade, como a epidemia do cólera que assolou a cidade no final do século XIX, assim como o naufrágio do galeão espanhol San José, que carregava joias. Também aparecem hábitos, costumes e preconceitos da sociedade colombiana da primeira metade do século XX, o empobrecimento do país e as inúmeras guerras que assolaram a Colômbia nesse período.

A questão social também é um dado importante na narrativa. Trata-se de dois jovens de extratos sociais diferentes. Florentino Ariza vive com a mãe numa meia casa alugada, onde tinha uma loja de armarinho e também desfiava camisas e panos velhos que vendia como algodão para os feridos de guerra. Seu pai morre quando ele tinha 10 anos, sem reconhecê-lo. Cedo teve de largar os estudos para trabalhar. Um telegrafista interessa-se pelo jovem e lhe ensina o ofício, que mantém por bom tempo. Fermina Daza, a jovem, vinha de uma família que enriquecera de forma obscura. Seu pai tinha vínculo com contrabando e falsificações. Isso vem à tona quando o pai, falido, insiste para a filha casar-se com o médico rico e influente, Juvenal Urbino. Fermina, que inicialmente correspondia às investidas de Florentino, muda de ideia e casa-se com o médico, vivendo juntos por mais de 50 anos. Quando o médico morre vítima de uma queda absurda,  Florentino busca se reaproximar e declarar à velha senhora que continua amando-a com a mesma intensidade de sempre. Ela o rejeita de forma bruta. Mas ele não desiste.
Florentino coloca a esfera do sentimento como o sentido de sua vida. O amor que sente por Fermina é aquele que ninguém sentirá como ele sente. A guerra, o cólera ficam para segundo plano em função do amor de Florentino por Fermina. O sentimento dele  representa o sentido absoluto do amor. Recusado por ser pobre, busca enriquecer para que um dia possa conquistá-la.

García Márquez, como sempre, faz uso da memória e do tempo para contar sua história. O incentivo para o romance veio do amor de seus pais. Quando os dois se conheceram, o pai de García Márquez tinha uma vida simples, era telegrafista. O pai de sua mãe não permitia o casamento, até que de tanta insistência do noivo, os dois acabaram casando. As características dos personagens do romance, entretanto, seguem outras características psicológicas. O autor usa de recursos temporais para contar a história. Tudo começa na velhice, com a morte do médico, a seguir volta ao presente, para contar as coisas do princípio, do velório do médico à reaproximação de Florentino. A história é contada com o humor característico do escritor colombiano, embora a velhice seja mostrada com dureza, sem descambar para o grotesco.
A tradução da editora Record é de Antônio Callado.

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Gabriel García Márquez. O amor nos tempos do cólera. 27ª ed, Rio, Record, 2005, 434 pp. R$ 53,00          

domingo, 8 de setembro de 2013

Os dragões não conhecem o paraíso

Caio Fernando Abreu nos avisa em Os dragões não conhecem o paraíso, que os textos podem ser lidos como histórias autônomas. Também podem ser lidos, fazendo parte de um romance móbile, em que as partes se interligam formando um todo, de acordo com o gosto do autor.
Em Linda, o personagem narrador volta para morar com a velha mãe solitária, está com sintomas da AIDS na pele. Em O destino desfolhou, ele relembra a infância e adolescência, quando teve contato com a morte na presença de Beatriz, antigo amor que morreu de leucemia na adolescência, virando uma estrela. Em À beira do mar aberto, relata a paixão não revelada pelo outro. Em Semana, blues, as marcas da ausência de Ana em sua vida, sem que soubesse os motivos. Vodca, lágrimas e café; os ciclos da terapia, psicodramas,  sonhos junguianos, promessas a Santo Antônio; o mundo tornando-se, aos poucos, um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Em Saudade de Audrey Hepburn, um cara solitário caminha pela noite paulistana, como à procura de um outro que perdera numa véspera de São João. Nessa trajetória de lembranças, a presença das entidades do candomblé. Em O rapaz mais triste do mundo, um homem solitário no fundo de um bar guei observa um homem também solitário de 40 anos que pega uma cerveja e senta numa mesa onde há um rapaz de uns 20 anos. Os dois se evitam, não se olham, não se falam. Esse rapaz parece ser o rapaz mais triste do mundo. Ele é, com os outros e com o leitor, um único homem perdido na noite, cercado de álcool e muita solidão. Sapatinhos vermelhos é o fetiche de uma mulher de meia idade, curtindo a fossa de uma separação na madrugada de uma sexta-feira santa. Num quarto da cidade grande, sofrendo de tédio e com ideias de suicídio, lembra da praiazinha de areia bem clara, no meio da sanga, em Passo do Guanxuma (cidade ficcional presente na obra de Caio), onde teve um encontro com Dudu há sete anos atrás, que teria motivado, quiçá, sua ida para São Paulo. Para fugir à ideia do suicídio ela escreve uma carta a Dudu. Em A dama da noite, ela, numa boate, bêbada, espera aquele um que virá buscá-la de uma hora para outra. Ela aluga um jovem para despejar seus demônios, é a dama da noite que envenena, contamina o sangue com todos os vírus, é a dama infeliz que, a cada noite, naquele bar, se mata e contamina a si mesma com a solidão dos desamados. Em Mel e girassóis, um homem e uma mulher passam férias sozinhos num hotel à beira-mar. Casualmente, fazem contato e vão se aproximando até um aparente happy-end, posto que quando os dois se descobrem, é véspera de cada um voltar a suas origens. Em A outra voz, morte e esperança. No conto Pequeno monstro, sabemos da presença de um primo que vem passar férias na praia e desencadeia a descoberta da sexualidade em um adolescente. A solidão é o tema de Os dragões não conhecem o paraíso, porque não precisam ser aceitos. Fogem do paraíso banal que inventamos, porque detestam o mundo perfeito que inventamos, onde nada dói, numa eterna monotonia de falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia. Os homens precisam da ilusão do amor para não afundarem no poço da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Caio Fernando Abreu. Os dragões não conhecem o paraíso. Rio, Nova Fronteira, 2010, 192 pp. R$ 39,90

domingo, 1 de setembro de 2013

A natureza trágica de Adonias Filho

Carlos Nejar divulgou há pouco tempo no programa Globonews Literatura sua monumental História da Literatura Brasileira (da carta de Caminha aos contemporâneos). Durante a entrevista, referiu-se a Adonias Filho como o grande escritor que havia sido relegado a segundo plano pelos estudiosos da literatura brasileira, por questões ideológicas. Nejar não dá detalhes sobre a afirmação, mas se o fato ocorreu por causas ideológicas, poderia ter sido, talvez, porque o autor serviu ao governo militar, tendo sido membro do Conselho Federal de Cultura, de 1969 a 1973, período áureo da ditadura militar, e de 1977 a 1990, ano de sua morte. Hoje, entretanto, sua obra está sendo revalorizada e reeditada. Adonias Filho foi membro da Academia Brasileira de Letras.

A obra do baiano Adonias Filho (1915/1990) é carregada de imagens fortes, retratando o sentimento trágico da vida. Suas personagens, por vezes, vivem a dolorosa miragem gerada pela mata. Perto de Itajuípe, vizinha a Ilhéus, onde nasceu o escritor, acontece quase toda sua narrativa. A maior parte de suas  personagens são bugres, índios e pequenos agricultores arruinados, ao contrário de Jorge Amado que situou alguns romances no ciclo do cacau, com personagens negros ou mulatos. As personagens de Adonias Filho são seres embrutecidos pela paisagem hostil, em vales secos. As pedras, cobrindo a planície, rasgando o chão, são como dentes afiados, limados, cortantes, formando mandíbula fechando a passagem, constituindo a fronteira de outro universo. Aí caminha o homem, em conflito entre um corpo destrutível e uma alma sem governo, em agonia, numa região onde se permite o crime, o calor do ambiente sufocando o coração do homem que já não se considera humano. Carecem, então, de sentimento. A violência substitui o afeto, muitos são tratados como se fossem bichos.


Memórias de Lázaro, narra a vida de Alexandre, separado criança dos pais e sendo criado por um tio. Em sua vida não há lugar para afeto. Quando isso acontece, a natureza de seu destino muda e elementos trágicos mexem seu destino, que sempre lhe foi dura, num universo sem lei nem rumo, mantendo-o trancado em si mesmo, na busca de uma experiência qualquer para os mistérios do mundo e do ser.

Corpo Vivo, situado ainda nesse universo duro e cruel, narra a vida de Cajango, que teve toda a família morta por jagunços, quando tinha 11 anos de idade. Auxiliado pelo padrinho, é levado a viver com um tio, um bugre rude que lhe ensina a forjar o ódio para vingar a morte da família e restituir as terras que lhes foram roubadas. Entretanto, quando o afeto se faz presente em sua vida, quando se apaixona por Malva, seu destino é alterado e o sentimento trágico da vida e da morte passa a acompanhá-lo.
O Forte narra uma história de amor mal costurada entre Jairo, um médico, e Tibiti, a neta do negro Olegário, que matou o genro para salvar a filha e a neta. Olegário julgado e feito prisioneiro no forte que guarda trezentos anos da história da Bahia e de como Olegário e Jairo se conheceram. A destruição do forte representa um recomeço na vida de Jairo e Tibiti. O romance carece da carga dramática dos romances anteriores. Aqui, a violência humana está mais dosada.
Léguas da Promissão é um livro de novelas. Apresenta o mesmo universo hostil e trágico que o autor gosta de retratar. Desse universo destaca-se a novela Um anjo mau, narrativa muito bem construída e que me impressionou muitíssimo. Açucena, que teve sua vida destruída pela violência física e sexual, é vingada pelo homem de sua vida, para que assim possa esquecer o passado.  
As velhas deu o Prêmio Jabuti de melhor romance a Adonias Filho em 1975. O romance narra a história de quatro velhas cujos acontecimentos se entrelaçam. Tari Januária, índia pataxó, pede ao filho Tonho que lhe traga os ossos do pai, morto em emboscada, para ser enterrado junto à família. Zefa Cinco, a pistoleira que matou o pai de Tonho, propõe entregar-lhe os ossos do pai, em troca da neta que estava longe em péssimas condições de vida. Zonga, a rainha negra, de quase dois metros de altura, representa a trégua na vida de Tonho em sua trajetória. E Lina de Todos, a que se recusou a ser mulher de um homem só e teve inúmeros filhos que desbravam a selva do sul da Bahia para o plantio do cacau; ela ajuda Tonho a conseguir seu intento. Quatro velhas marcantes em sua autoridade, em suas lembranças, seus rancores e cegueira vingativa.
Luanda Beira Bahia, três lugares ligados pela etnia negra em contato com o colonizador. Sardento, marinheiro português, tem caso com uma negra de Ilhéus e nasce-lhe um filho, Caúla, que cresce sem pai, pois Sardento abandona a família para correr o mar. Esteve em Angola, onde teve uma filha em Luanda. Caúla cresce e segue os passos do pai, depois que sua mãe morre. Em Luanda conhece a irmã, mas não sabe de quem se trata. Depois vai a Moçambique, onde tem um caso com uma adolescente na Beira. O caso de amor não avança e Caúla retorna a Luanda, onde volta a ter contato com a irmã. Os dois se apaixonam e decidem voltar à Bahia, onde a casa em Ilhéus espera pelos dois. Quando chegam à casa, Sardento lá estava, de volta. Ao descobrir que os dois são seus filhos e estão casados, os mata. Luanda Beira Bahia não é um bom romance, falta-lhe profundidade, já que nas narrativas de Adonias Filho costumam ser curtas. Se o autor enveredasse pelo caminho de uma história de amor, sem supervalorizar o trágico, talvez o romance ganhasse consistência.
                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Adonias Filho. Memórias de Lázaro. 3ª ed, Bertrand Brasil, 1978,168 pp. R$ 33,00
               Corpo Vivo. 32ª ed, Bertrand Brasil, 2001, 134 pp. R$ 35,00
               O Forte. 10ª ed, Bertrand Brasil, 2002, 160 pp. R$ 33,00
               Léguas da Promissão. 4ª ed, Civ. Brasileira, 1975, 147 pp.
                                   Esgotado. Preço médio nos sebos de R$ 10,00  
               As Velhas. Bertrand Brasil, 2004, 160 pp. R$ 37,00
               Luanda Beira Bahia, 2ª ed, Civilização Brasileira, 1975, 144 pp.
                              Esgotado. Preço médio nos sebos R$ 10,00           

domingo, 25 de agosto de 2013

Clara dos Anjos

“O subúrbio é o refúgio dos infelizes”. Essa é a frase mais lembrada, quando se fala no romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881/1922). O subúrbio é o lugar dos que perderam o emprego, os bens; dos que faliram nos negócios. Lima Barreto sabia muito bem do que falava. Viveu sempre no subúrbio, em condições humildes de vida. Conheceu as dificuldades dos que tinham de se manter à periferia da cidade do Rio de Janeiro, devido ao crescimento e embelezamento da Corte. O prefeito Pereira Passos, no início do século XX, desapropriara a população que vivia no centro da cidade, próximo aos prédios públicos, para que ruas fossem criadas ou ampliadas e residências burguesas fossem erguidas para habitar os poderosos. Nos subúrbios passaram a habitar os trabalhadores humildes, entre eles os negros e mulatos recém libertos da escravidão. Por ser mulato, Lima Barreto sentiu na pele o peso do preconceito. Seria filho de escrava com o protetor de sua família, fato não comprovado suficientemente, ainda que Lima Barreto e sua família tivessem sido ajudados pela outra família até depois da morte do patriarca. Lima Barreto não aceitava o preconceito de cor e sempre lutou contra isso, através de seus romances e das crônicas diárias dos jornais em que trabalhou. Criticava duramente a sedução que os homens brancos exerciam sobre as mulatas, abandonando-as mães e solteiras. Esse, aliás, é o mote para Clara dos Anjos, romance irregular em sua estrutura narrativa, mas importante por revelar personagens marginais muito pouco expressivas nos romances que haviam sido produzidos até então na literatura brasileira.

O enredo é simples, Clara dos Anjos, uma pobre mulata ingênua e sonhadora, filha de um carteiro de subúrbio, é iludida, seduzida e desprezada por um rapaz branco de condição social inferior a sua. Não faltaram cuidados e avisos para que ela não caísse na lábia de tal malandro, já conhecido por desencaminhar outras moças ingênuas e virgens. Clara cede, apesar do zelo dos pais e do padrinho, na esperança de que ele fosse casar-se com ela, o que não ocorre, pois o rapaz foge, deixando-a grávida. A família tenta contato com a família do rapaz, mas nada pode ser feito, o rapaz é maior de idade. Cabe à família de Clara arcar com as consequências do ato, num final em que a filha diz ao pai: “Nós não somos nada nessa vida”.

Clara, aliás, aparece pouco na narrativa. É a personagem que fica à espera de seu destino infeliz. O autor tece um retrato fiel dos ambientes por onde circulam essa gente humilde, com personagens estruturadas sob a forma da caricatura. A personagem de Cassi Jones, o pilantra, é fartamente documentada oralmente pelos que conhecem sua pessoa e seu caráter. Só que a ingenuidade é o defeito que provoca o trágico na vida de Clara e de sua família.

A edição econômica da Penguin & Cia. das Letras é muito bem cuidada, incluindo textos de Beatriz Rezende, Lúcia Miguel Pereira e Sérgio Buarque de Holanda, elucidando diversos aspectos do texto de Lima Barreto. Apresenta também notas de rodapé de Lilia M. Schwarcz e Pedro Galdino da Silva Neto, esclarecendo e explicando metáforas, expressões, personagens, lugares e situações históricas presentes na vida social da época do romance: .

                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Lima Barreto. Clara dos Anjos. SP, Penguin Editora, 2012, 304 pp. R$ 26,00

domingo, 18 de agosto de 2013

Baú de ossos


O mineiro Pedro Nava (1903/1984) foi médico famoso e filho de médico também famoso. Foi intelectual participante da vida literária brasileira, amigo de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e outros grandes do modernismo brasileiro. Foi pintor e poeta bissexto, tendo seus versos apreciados pela crítica especializada. Aos 65 anos, aposentado da medicina, decidiu empreender uma obra memorialista extensa, composta de seis grossos volumes, (dos quais li, por enquanto, Baú de Ossos) em que aponta aspectos de sua vida familiar desde a infância até próximo a sua morte. As memórias de Pedro Nava podem ser, em parte, as nossas memórias. O memorialista entrelaça de tal modo os fios de sua memória com os da vida brasileira, que se torna difícil estabelecer exatamente onde acaba esta e onde começam aquelas.

Baú de ossos (1972) reconstitui a genealogia dos antepassados e os primeiros anos da infância do autor. Nava realiza um panorama da sociedade e da cultura brasileiras no século XIX e no início do século XX. Suas memórias se iniciam com a descrição dos antecedentes genealógicos da família do autor, divididos entre Minas, o Nordeste e os burgos e castelos europeus onde viveram seus antepassados aristocráticos. Em seguida, sempre entremeando fatos históricos, observações pitorescas e anedotas familiares, o autor narra acontecimentos vividos até seus oito anos de idade, marcados pela traumática morte de seu pai. .A obra do médico Pedro Nava vem da oralidade. Da memória dos que envelhecem surge o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho. Só o velho pode suscitar de repente no menino que está escutando e vai prolongar por mais  sessenta anos a lembrança que lhe chega, não como coisa morta, mas como flor perfumada e colorida, límpida e nítida, como o mágico que abre a caixa dos mistérios na cor dos bigodes, no corte do paletó, na morrinha do fumo, no ranger das botinas de elástico, no andar, no pigarro, no jeito. E com o evocado vem o mistério das associações trazendo a rua, as casas antigas, outros jardins, outros homens, fatos pretéritos, toda a camada da vida de que o vizinho era presença inseparável e que também renasce quando ele revive – porque um  e outro são condições recíprocas. Costumes de avô, responsos de avó, receitas de comida, crenças, canções, superstições familiares duram e são passadas adiante nas palestras de depois do jantar, nas tardes de calor, nas varandas que escurecem; nos dias de batizado, de casamento, de velório.

A Baú de ossos seguiram-se, num intervalo de pouco mais de dez anos, Balão Cativo (1973), compreendendo o período entre o retorno para Minas Gerais após a morte do pai e o internato no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. O autor aborda os anos decisivos do final da infância e a adolescência. A descoberta do sexo e da literatura, a amizade marcante dos novos colegas e o dia a dia vibrante do Rio antigo; Chão de ferro (1976) aborda principalmente a vivência carioca do autor mineiro na primeira metade do século XX. O narrador se desloca de trem entre dois polos - no Rio está o colégio interno; em Minas, as férias com a família e, posteriormente, a faculdade em que ingressa em 1921. Não são polos meramente geográficos, mas dimensões existenciais, afetivas, intelectuais, sociais, culturais e civilizatórias distintas. Concentrando ações transcorridas entre 1916 e 1921, 'Chão de ferro' se abre e se fecha descrevendo aulas no tradicional e reputado colégio Pedro II e na Faculdade de Medicina;  Beira-mar (1978) retrata a vida em Belo Horizonte no período que vai de 1921 a 1926. Nava descreve seu curso na Faculdade de Medicina, a vida estudantil, que transcorria tranquila na então pacata capital mineira. Reconstitui também uma fase importante da vida literária em Minas, ao narrar com detalhes as conversas do grupo de 'A Revista', formado por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado, João Alphonsus, Emílio Moura, Milton Campos, Abgar Renault entre outros; Galo-das-trevas (1981) divide-se em duas partes. Na primeira, que chamou de 'Negro', ele faz um resumo de sua vida, com observações sobre o presente que o projetam frequentemente no passado. Na segunda parte, 'O Branco e o Marrom', conta o início de sua carreira, em 1928, quando, inexperiente ainda, teve de enfrentar as difíceis condições de vida de médico do interior, viajando em lombo de burro e improvisando para salvar vidas humanas. Depois, com a volta a Belo Horizonte, as lembranças se estendem até a revolução de 30; Círio perfeito (1983) abrange o período que se estende de 1930 a 1940. A revolução, a sua experiência no magistério, a saída de Minas e o encontro com o Rio de Janeiro; por último, Cera das almas, interrompido com a morte do autor em 1984, mas editado em 2006, mostra a passagem do autor pela Policlínica Geral do Rio de Janeiro, na década de setenta, além de revelar o método de criação do memorialista.
 
Ler Baú de ossos torna-se leitura interessante, se o leitor gostar do gênero memorialístico e das crônicas da vida familiar e social brasileira. O autor diferencia suas memórias do estilo tradicional, pela ironia com que descreve algumas pessoas e fatos. Os dois primeiros capítulos poderão parecer cansativos, devido à exaustiva enumeração e descrição de sua árvore genealógica paterna (primeiro capítulo) e materna (segundo capítulo). A partir daí, flui de forma agradável e interessante.

                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
 
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Pedro Nava. Baú de ossos. SP, Cia. das letras, 2012, 512 pp.  R$ 54,50

domingo, 11 de agosto de 2013

A ostra e o vento


Poderíamos dizer que Moacir Costa Lopes é o nosso Joseph Conrad, posto que os dois viveram ativamente o mar como marinheiros, e ambos escreveram seus romances tendo o mar como protagonista ou como pano de fundo. Se Conrad é considerado dos grandes da literatura universal, Moacir C. Lopes é pouco conhecido de nós, ainda que sua obra seja de qualidade inquestionável. Walter Lima Jr, ao levar para o cinema a história de A Ostra e o Vento, contribuiu positivamente para que o livro surtisse o interesse da editora Quartet, que o relançou lá pelos anos 2000.
A ostra e o vento passa-se na Ilha dos Afogados, onde há um farol. Lá vivem Daniel, ajudante de faroleiro, José, o faroleiro e pai de Marcela, adolescente que foi para a ilha aos nove anos de idade, permanecendo 10 anos lá. Depois, junta-se ao grupo Roberto, outro ajudante. Rodeando a ilha, o mar, o vento, o silêncio e a solidão.  

Sozinha na ilha e proibida de ir à cidade, Marcela inicia, sozinha, o processo de descoberta da própria sexualidade. Ela mantém um diário onde narra o relacionamento obscuro com Saulo, ser misterioso com quem tem um romance. No decorrer da narrativa, a presença de Saulo vai tomando conta da ilha e da vida de Marcela. Anos depois, Daniel retorna à ilha para averiguar os motivos por que o farol está apagado e a encontra deserta. Vasculhando o local onde moravam José e Marcela, descobre o diário, chegando à conclusão de que Saulo poderia, quem sabe, não ter existido.

Daniel começa a relembrar sua convivência com Marcela, a amizade que se formou entre os dois e o quanto a presença da adolescente mexeu em sua vida. Lembra de quando Marcela se entregava ao vento, acontecimento contado com lirismo e sensualidade por Moacir C. Lopes. Certa vez o pai de Marcela a surpreende nua na praia e a repreende severamente. A ostra pode representa a sexualidade de Marcela, cristalizada na pérola que valoriza seu descobrimento como alma feminina em contato com a natureza.

A ostra e o vento encontra-se esgotada. A última edição correu em 2000, pela Editora Quartet, que elaborou uma capa horrorosa. Trata-se de obra-prima da literatura brasileira. Você poderá encontrar um exemplar seminovo pelo preço médio de 20 reais nos sebos virtuais.

                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Moacir C. Lopes. A ostra e o vento. 7ª ed., Rio, Quartet, 2000, 160 pp