domingo, 21 de julho de 2013

Pedras de Calcutá


Caio Fernando Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão (RS) em 1948 e faleceu em Porto Alegre em 1996. Estudou Letras e Artes Cênicas, mas não teria concluído nenhum dos dois cursos, preferindo transferir-se para São Paulo, onde atuou como jornalista em diversos jornais e revistas de grande circulação nacional. Notabilizou-se no conto, apesar de exercitar a crônica jornalística e ter escrito dois romances em sua curta vida: Limite branco e Onde andará Dulce Veiga?. Também foi dramaturgo. Se você era ativo culturalmente na década de oitenta em Porto Alegre, certamente curtia o teatro gaúcho e provavelmente assistiu a duas peças suas de sucesso: Pode ser que seja só o leiteiro lá fora e A maldição do vale negro, ambas montadas no Teatro do Clube de Cultura, na rua Ramiro Barcelos. Caio também fez traduções.
A geração de que Caio fez parte sofreu com a censura da ditadura militar. Geração que viveu uma espécie de apoteose criadora. Caracterizava-se pela ruptura da estrutura tradicional, especialmente do conto, apresentando uma narrativa preocupada em fotografar instantes, episódios ricos em sugestões e flashes reveladores de angústia, medo, solidão, através de uma prosa carregada de informalidade, muito mais chegada a Rita Lee e Cazuza do que ao estilo formal da Academia.
Leitor assíduo de Clarice Lispector, apresenta em sua escritura influências da escritora genial. Na década de 70, publicou dois livros de contos, O ovo apunhalado (1975) e Pedras de Calcutá (1977). Mas a fama  veio com os contos de Morangos Mofados, editado pela Brasiliense,   em 1982. A Brasiliense lançava no início dos anos 80 a coleção de bolso “Cantadas Literárias”, revelando autores que despontavam no cenário nacional como Caio Fernando Abreu, a poeta Ana Cristina César, Paulo Leminsky, Marcelo Rubens Paiva e Francisco Alvim, citando apenas alguns dos brasileiros da coleção.
Pedras de Calcutá é um livro formado por contos distribuídos em duas partes: Mergulho I (a vivência alucinatória da própria experiência física de forma atormentada, como se o corpo dos personagens suportassem a própria vida) e Mergulho II (indivíduos em busca de fatos capazes de oferecer soluções quase improváveis, resultando em ansiedade, tensão e expectativa quase desesperadora). Os contos exprimem o horror que pode existir entre pessoas que se descobrem perseguidas não tanto por uma ditadura, mas por si mesmas.
O gosto por ambientes urbanos, a escrita angustiada e a temática da solidão compõem o quadro das características literárias de Caio. Sua narrativa é uma sondagem da angústia e da solidão daqueles que vivem perdidos entre arranha-céus. Sua prosa introspectiva revela a pressão de se sentir sozinho, esmagado por uma realidade opressiva que não faz a menor questão de estimular alguém a permanecer vivo. Em seus textos, há também a presença de uma radiografia dos sentimentos e das relações amorosas, com especial apego aos deslizes e incertezas.
É bastante comum a literatura de qualidade produzida no Brasil encontrar-se esgotada. É o caso de Pedras de Calcutá. Você acha um exemplar seminovo nos sebos virtuais por um preço médio de 30 reais.

                                                                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Caio Fernando Abreu. Pedras de Calcutá. SP, Cia. Das Letras, 1996, 132 pp. 

domingo, 14 de julho de 2013

As meninas



Ana Clara, Lia e Lorena. Três jovens universitárias perdidas no mundo brasileiro contemporâneo da década de 70. As meninas de Lygia Fagundes Telles, entre os méritos que tem, é o de apresentar a narrativa inserida na história viva da ditadura militar (a obra foi escrita em 1983). As meninas é um documento ficcional vivo de um Brasil estilhaçado na insegurança e falta de perspectivas. As três estudam em São Paulo e moram num pensionato de freiras. Lia tem posicionamento contestador, escreve um livro que não consegue acabar. Lorena é a mais burguesa das três; insegura, quer arrimo em um casamento que a conforte. Ana Clara, a menos favorecida, é viciada, está sempre correndo atrás de dinheiro. Lia, esquerda militante, perdeu o ano por excesso de faltas, tem um namorado preso a ser trocado por um embaixador. Lorena gosta de latim, ouve música clássica o dia inteiro, à espera de um namorado que não telefona nunca. Ana, compradora compulsiva, seguidamente é internada para se desintoxicar das drogas. As três representam vidas que podem se perder a partir de si mesmas, vozes de uma geração violentada, colonizada e drogada, a partir do golpe de 64. 
As meninas configura uma posição de engajamento da escritora, que mostra personagens dominadas pelo discurso dominante. Lya, a comunista, é quem mais tenta lutar contra o esquema. O romance traça um retrato muito fiel do jovem desse momento no Brasil. Lygia Fagundes Telles é pioneira na ficção brasileira, ao inaugurar o fluxo de consciência da mulher na ficção, pois até então era inédito que uma mulher falasse de suas fantasias existenciais e eróticas, de forma tão humana e verdadeira.
Quando era aluno do curso de Letras da UFRGS, lá por 1976, assisti a  uma conferência em que ela participou juntamente com Nélida Piñon, Fernando Morais e Rubem Fonseca,. Lembro dela ter dito que o escritor escreve tentando, quem sabe, recompor um mundo perdido, buscando-se nos personagens e a si mesmo. A obra de Lygia Fagundes Telles apresenta um fio muito tênue entre memória e ficção. Ela mesma mistura as duas coisas, ao escrever. Quando criança, ouvia histórias das moças contratadas pela família para cuidar dela, enquanto trabalhavam. Essas histórias lhe despertaram o gosto pelo mistério, a invenção, a imaginação. Foi assim que se foi tornando escritora. Lygia nasceu em São Paulo em 1924, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985. Entre sua obra, toda ela constituída por uma prosa elegante e bem urdida, destacam-se também os romances Ciranda de pedra e As horas nuas. Excelente contista, também, com os livros Antes do baile verde e Cemitério dos ratos.
                                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
 
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Lygia Fagundes Telles. As meninas. SP, Cia. das Letras, 2009, 304 pp, R$ 41,00

domingo, 7 de julho de 2013

os limites do impossível


Pesquisas indicam que Carlos Gardel era uruguaio nascido em Tacuarembó,  na Estância de Santa Blanca, de propriedade de seu pai, o coronel Carlos Escayola, chefe político e de polícia do Departamento de Tacuarembó. As versões sobre a negação de Escayola para reconhecê-lo como filho surpreendeu a todos os pesquisadores. Aparentemente, o coronel tinha um amor secreto com a Sra. Juana Sghirla, argentina e esposa de Juan Oliva, cônsul italiano. Para estar perto de Juana, casou-se com as três filhas do cônsul e enviuvou de todas elas. Maria Lelia, a caçula, seria filha de Escayola com Juana. Dessa relação incestuosa, teria nascido Carlos Gardel, que foi enviado a Buenos Aires em segredo, com a francesa Berthe Gardés, que passou a ser sua “mãe verdadeira”, divulgando que Gardel havia nascido em Tolouse, na França. Quando perguntavam a Gardel se ele havia nascido em Tacuarembó, ele dizia que havia nascido em Buenos Aires com dois anos e meio de idade. Se um dia você for a Santana do Livramento para fazer compras em Rivera, faça um passeio agradável a Tacuarembó (115km) e visite o Museo Carlos Gardel. Lá há informações mais detalhadas sobre o famoso cantor de tangos.
O escritor gaúcho Aldyr Garcia Schlee (1934) exerce sua competência de escritor em Os limites do impossível, de forma a alcançar a realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. A figura masculina que costura todo o romance é a de Carlos Escayola (o pai de Gardel) e seu relacionamento com 12 mulheres, que nomeiam os 12 contos do livro. Apesar de classificado pela editora e pelo autor como livro de contos, as histórias individuais de cada mulher formam uma história completa. O leitor entrará em contato com Clara, filha de Juana, que era amante de Escayola. Para manter o idílio, ele casa-se com Clara, mas tem uma filha ilegítima com Juana, Maria Lélia, e assim vai a história.
Aldyr Garcia Schlee sabemuito bem descrever o cenário do pampa sem recorrer aos clichês da literatura campeira. A visão diferenciada da fronteira começa na própria experiência pessoal do jornalista e escritor nascido em 1934 no sul gaúcho. Jaguarão, sua cidade natal, localiza-se na divisa com o município uruguaio de Río Branco. Tirou dali as referências para construir o contexto de culturas irmanadas e a eterna tentativa de fundir os idiomas de um lado e outro do rio, tão presentes em sua obra.
É mestre no conto,  mudando o foco utilizado de considerar o castelhano sempre como o anti-herói. Schlee não dá espaço para heróis. Deixa vir à tona os marginais silenciados pela história,permitindo não somente que os pequenos, incapazes de grandes feitos físicos ou morais, venham à tona, como também sejam focalizados na condição de seres humanos, revelando sua universalidade, focando a representação do homem sul-rio-grandense, independentemente de situação financeira, nacionalidade ou mesmo  realização de grandes feitos. o que garante aos textos de Schlee uma leitura sempre atual, visto que a condição humana é intemporal. Leia Os limites do impossível, que você vai gostar.
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Aldy Schlee. Os limites do impossível (contos gardelianos). Porto Alegre, Ardotempo, 209, 204 pp., R$ 30,00

sábado, 29 de junho de 2013

O primeiro e o segundo homem


Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo, RS, em 1952 e faleceu prematuramente em Porto Alegre, em 1996. Militante político desde jovem, era jornalista, trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura, em Porto Alegre e atuou efetivamente no mundo do nativismo. Passou a infância e a adolescência na região das Missões sul-riograndenses, terra marcada pela vida guarani, antes e depois dos jesuítas, por lutas de fronteira e grandes fazendas de gado, pelo plantio do soja na década de 60, que encolheu a economia das fazendas, forjando o gaúcho a pé, o peão sem emprego e sem cavalo, forçado a migrar para os centros urbanos sem especialização técnica para o trabalho na indústria; terra vizinha ao famoso rio Uruguai, donde na outra parte encontra-se o território argentino. É desse ambiente que brotam os seres e o universo dos contos de O primeiro e o segundo homem, o leitor irá encontrar histórias, a maioria delas trágicas, contadas em tom poético, do nascimento de Sepé Tiaraju, considerado santo popular, gerado de uma índia com o espírito santo; o êxodo de uma família de agricultores que se desfizeram do pouco que tinham para tentar a vida em Porto Alegre; lembranças do jogo de bolitas; um roubo de carga de soja e o emprego de tratorista foi o pretexto para um homem ser morto por vingança, para que o cargo de tratorista fosse dado a outro; o duelo de facão que resulta na morte de dois homens numa noite de lua cheia; um catador de lixo judia de uma cadela prenha o assunto acaba em morte; a morte de um taipeiro com o rosto deformado pelo ofício de foguista assemelha-se à caça de um tatu; a paixão de um menino pequeno pelo canto dos pássaros que inventava;
Luiz Sérgio publicou ainda a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto, o relato de uma viagem que fez a cavalo com três amigos por terras rio-grandenses em Terra Adentro e a novela considerada sua obra-prima: Assim na Terra.
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Luiz Sérgio Metz. O primeiro e o segundo homem. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2001, 112 pp, R$ 26,00

sábado, 22 de junho de 2013

Vozes do deserto

O Califa de Bagdá, traumatizado com a traição da mulher com um escravo, a cada noite deitava-se com uma mulher diferente, que acabava matando, após o coito, como forma de vingança contra as mulheres e também como forma de não vir a se apaixonar novamente. Certa noite, uma das mulheres a ser condenada à morte decide salvar sua vida, contando ao califa uma história que se interrompe no clímax, para que na noite seguinte ele possa chamá-la novamente sob o pretexto de continuar a história. O nome dessa mulher: Scherezade. Esse é o mote para a monumental compilação de histórias árabes denominada Livro das mil e uma noite, com contos de origem síria e egípcia que todos conhecemos.

Nélida Piñon reconta a história de Scherezade de forma surpreendente, em Vozes do deserto, romance que lhe deu o Prêmio Jabuti de 2005. A moça do romance não teme a morte. Não acredita que o poder do mundo representado pelo Califa decrete por meio da morte o extermínio da sua imaginação. Quer ser a única capaz de interromper a sequência das mortes dadas às donzelas do reino. Não suporta ver o triunfo do mal que se estampa no rosto do Califa. Quer opor-se à desdita que atinge os lares de Bagdá e arredores, oferecendo-se ao soberano em sedicioso holocausto.

A dor do Califa, entretanto, não provém de um amor ofendido. Há muito deixara de querer a esposa que o traíra miseravelmente no passado. Nunca a amou de verdade. Por ter a liberdade de se relacionar com várias mulheres, habituara-se ao fulgor do desejo apenas. Ou de exercitar suas fantasias sexuais com a pretensão de atingir a cópula perfeita. A solidão do Califa persistia, a despeito do séquito das virgens que se sucediam em seu leito e que ia sacrificando a cada dia. E nunca tendo com quem dividir suas desventuras, ia guardando em segredo suas desilusões. Diferente dos demais mortais, protegia-se das intempéries enviando os súditos ao cadafalso.
Atento, ele registra como a jovem fomenta as emoções. Tarda em encomendar a morte de Scherezade. Inquieta-o que use as histórias da jovem como pretexto para mantê-la ao seu lado. Admite que a fantasia daquela contadora de histórias lhe azeita o corpo, e suas palavras, às vezes cultas, quase sempre de raiz popular, suspendem as noções que tivera até então de realidade. Para ela, era mister ao Califa vir a amar. Submeter-se à carne abandonada e abandonar por instantes o infortúnio alheio, presente em suas fantasias. Suspender o indomável instinto narrativo para transformar-se afinal em personagem do próprio destino. Nélida Piñon vê essa mulher que atravessou mil e uma noites contando histórias ao Califa, poupando a vida de mil e uma outras mulheres. Interiormente, mostra uma mulher forte e delicada, a mulher de quem a fabulosa criação oriental nos dera apenas o vulto escondido entre as dobras do véu muçulmano. A autora nos revela em sua história a natureza profunda de Scherezade. Desejosa de romper o sexo sem amor, obscenamente mecânico imposto a ela, que era possuída e não amada, com a sede da palavra. É esse desejo que salva a narradora e todas as mulheres pelos quais ela se sacrifica.
Quem tem ouvidos, ouça! Através dessa obra, Nélida Piñon reinventa o fascínio das Mil e Uma Noites. Este é mais um livro excelente e recente, que se encontra esgotado. Mas há em sebos virtuais com o preço médio de 15 reais um exemplar em bom estado
                                                                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Nélida Piñon. Vozes do deserto. Rio, Record, 2004. 354 pp

sábado, 15 de junho de 2013

Livro das horas

Livro das horas é a publicação mais recente de Nélida Piñon (1937). É um livro de memórias, carregadas de imagens poéticas. Prosa deliciosa que nos faz parar frequentemente para refletir sobre as colocações que a autora brasileira faz sobre o fato de existir.

Nélida Piñon é escritora desde o berço. Ao abrir os olhos, jurou ter fé nas palavras, com elas contar uma história. Este ofício lhe compromete com a fala poética, com o discurso do mistério, com o coração da língua. Mas, na condição de aprendiz, rastreia o transcurso literário dos antecessores, a fim de saber onde eles estiveram e ela não está. A quem eles amaram, ela não amou.
Não tem filhos, mas tem a nós, leitores capazes de defender a civilização contra o avanço da barbárie. A nós, nomeia sucessores de uma linhagem irrenunciável. E, embora duvide às vezes se vale defender alguns princípios hoje contestados, persiste em inscrever certas normas no código dos direitos humanos. Não nos conhece e nem sabe onde vivemos, mas pensa um dia convidar-nos a sermos parceiros, sócios, aliados das suas aventuras narrativas. A nos conhecer pessoalmente, trazendo debaixo do braço algum romance de Machado de Assis. E que vejamos como é a aparência de quem se habituou a registrar os enredos que também vivemos junto com nossas famílias. Instalados em sua sala da Lagoa, ela nos ofereceria um guaraná Antarctica, um cafezinho, e biscoitos de polvilho. Juntos, mergulharíamos nas águas barrentas das palavras, no redemoinho vertiginoso das emoções, nas trevas perturbadoras dos sentimentos ainda sem nome e definição precisa, sem que atropelemos a palavra do outro para impor a nossa. Para exercitarmo-nos a ouvir o que o outro tem a dizer.

Nélida Piñon nos conta que, a cada dia, aprende a perder as pequenas utopias e os ideais indomáveis. Não lamenta viver sem eles. Sente-se mais leve sem o fardo que representam. É impossível servir aos deuses e a ela mesma. Além do mais, perder bens que julgávamos eternos significa estarmos aptos a adquirir, no futuro, haveres que só a fantasia enxerga. É como destilar a solidão que é vida também. Enquanto escreve, ela se resigna em dissolver as ideias que nunca foram suas. Por que padecer pelo que não sabe contar? Ou desesperar-se pela narrativa que viceja alhures e aguardar que algum adorno estético da historia lhe transfigure de repente? Afinal, ela diz, o fracasso literário é didático, impõe a criação de um outro acervo constituído de experiências, lamúrias, segredos, reavaliações. Uma técnica com a qual a vida ensina a que se reabilite no futuro um livro previamente condenado. Acaso ocorre o mesmo com o amor e a morte, sempre iminentes? Devemos ler esse livro maravilhoso para respondermos.
                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Nélida Piñon. Livro das horas. 2ª Ed., SP, Cia. das Letras, 2012, 208 pp., R$ 39,90

domingo, 9 de junho de 2013

Tratado ontológico acerca das bolas do boi

 Otacílio leva muito a sério as comemorações do 20 de Setembro. Sente-se honrado em protagonizar a festa, em manter a tradição. Muitos não vão por falta de dinheiro pras pilchas ou pras cordas, ou, pior, por falta de cavalo. Sem estarem completos, têm vergonha de desfilar; não estando completos, têm vergonha de pedir emprestado o que lhes falta. No afã de conseguir um cavalo, Otacílio pensa em tudo, até em roubar um, se for o caso. Esse é o mote para a estória do gaúcho depois do gaúcho a pé, contada pelo alegretense José Carlos Queiroga em Tratado ontológico acerca das bolas do boi.

Não há nada no mundo igual ao pampa. Otacílio jamais ultrapassou os limites da Serra do Caverá (fica no município de Rosário do Sul,RS). Para ele, a juventude passou mais rápido como enterro de pobre, de à cavalo, correndo ao costado do touro e soltando o laço nas aspas, maneando o animal com as duas mãos, fazendo-o virar cambota na cancha. Hoje, destituído de cavalo, é peão de lavoura. Mora num barraco com a mulher e a filha pequena no interior do município e trabalha numa lavoura de arroz. Na época do trabalho duro, consegue ver a família uma vez só, a cada quinze dias, na entressafra. Otacílio, sem cavalo no mundo, sente um vazio de boi de canga, carregando o mundo nas costas, mas fora do aconchego do mundo que sempre foi o seu e agora lhe tomam:trabalha no arroz feito um pato dentro d’água; em casa, a mulher em mágoa pela carestia de tudo. Otacílio é um homem simples, analfabeto (mas não pras coisas do campo, que isso ele entende muito bem!), tem vida simples, sonhos simples, crenças simples, elementares. Se lhe dizem que o fogo aquele que “nunca acaba” nunca apagou desde 1835, ele acredita, sem qualquer fagulha de dúvida, porque é simples.  
Assim como todo mundo, Otacílio já ouvira falar do Movimento Sepé Tiaraju, e sempre mal. É ajuntamento de bandido, que se acolhera pra roubar a terra dos outros; que vão invadindo, cortando cerca. Um  fazendeiro lhe disse que os que mandam no movimento vão para as vilas e arrebanham só a ralé, os borrachos, os bandidos, e os levam de arrasto com promessa de virarem proprietários, patrões, pras beiras das estradas, esperando a hora de dar o bote. Otacílio, entretanto, se interessa pouco por isso, o que ele quer é conseguir um cavalo para poder desfilar no dia 20 de Setembro.
Tratado ontológico acerca das bolas do boi é um romance em retalhos. O périplo de Otacílio pelo pampa sem cavalo e sem terra é recortado por explicações filosóficas e históricas sobre as transformações que sofreram o campo gaúcho com o surgimento do agrobusiness, contadas de forma divertida, mas com fundamentação científica. O livro de Queiroga faz uma análise do movimento dos sem-terra, por exemplo, sedimentada numa ontologia histórica, para exemplificar o que acontece quando se modifica a ideia de que no pampa, as coisas são e pronto, de que desde que o mundo é mundo, o gaúcho vive no lombo do cavalo, que é de onde tira seu parco sustento, cuidando de gado alheio. O pobre Otacílio luta contra os tempos modernos para manter a tradição, numa batalha perdida, num mundo sem cavalo. Tirar-lhe o bicho é como capá-lo a bordizo, a torquês retorcendo o corte por dentro.
Trata-se de um livro diferente. Com um pouco de paciência o leitor desfrutará de uma leitura inteligente e divertida. A obra encontra-se esgotada. Você a encontrará nos sebos virtuais por um preço médio de R$ 30,00.

                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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José Carlos Queiroga. Tratado ontológico acerca das bolas do boi. Passo Fundo, Méritos, 2004, 528 pp

 

 

domingo, 2 de junho de 2013

Berlim Alexanderplatz

Após passar quatro anos na prisão pela morte da mulher que ele prostituiu e depois feriu mortalmente numa briga, Franz Biberkopf, homem rude, de aparência repulsiva, volta às ruas de Berlim. Jura a todo mundo e a si mesmo manter-se, a partir de então, um homem decente. Enquanto teve dinheiro, manteve-se assim. Quando o dinheiro acabou, entretanto, foi mostrando gradativamente o homem que realmente era. Biberkopf jurou ser um homem decente, mas isso foi uma trégua. A vida é um antro de miséria e passa-lhe rasteiras. Depois de ser traído por um amigo, passa a questionar a vida mesquinha e desgraçada, que contradiz todas as suas intenções. Atira-se à bebida. Esse tal amigo o havia atropelado e Biberkopf perdeu um braço. Mas, ele não desistiu. Há uma rápida recuperação, mas acaba envolvido à força em um crime e é obrigado a resguardar-se, para não voltar à cadeia. Apaixona-se sempre por prostitutas e torna-se gigolô das que o amam.  O amigo que o trai continua ligado a ele, pregando-lhe trapaças. As intenções desse amigo traidor são ambíguas.
Alfred Döblin, judeu alemão, escreveu sua obra monumental em 1928, período em que a Alemanha nazista estava tomando forma. Mas Berlim Alexdanderplatz não deve ser visto por esse viés que empobreceria a obra. O romance cria uma ilusão sobre a realidade, distorce-a, transgredindo a vida. De tons expressionistas, mostra um personagem que sofre um golpe atrás do outro e segue adiante, sem que consiga questionar como e por que é manipulado pelas pessoas. O cineasta Rainer Werner Fassbinder filmou uma série baseada no livro de Döblin, mantendo-lhe o tom expressionista e teatral. A obra gravada para a tevê está dividida em 13 capítulos e um epílogo. Foi restaurada pela Versátil e pode ser encontrada em locadoras (a Espaço Vídeo de Porto Alegre tem). Entretanto, a visão de Fassbinder sobre Berlim Alexanderplatz é uma outra ilusão sobre a vida, igualmente interessante.

A tradução brasileira é de Lya Luft pela Editora Rocco, mas encontra-se esgotada. Há uma edição da Martins Editora, que eu não conheço a tradução, por $66,90. Você consegue um exemplar novo da Rocco por 35 reais no sebo virtual.

                                                                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Alfred Doblin. Berlim Alexanderplatz. Rio, Rocco, 1995, 436 pp.

domingo, 26 de maio de 2013

Viagem aos mares do sul

Em Viagem aos mares do sul, José Carlos Queiroga nos apresenta a mesma Nova Hereford que  descrevera em Tratado ontológico acerca das bolas do boi, romance árido e por vezes cansativo, devido às muitas digressões e citações acerca do pampa e da formação da propriedade privada que levou ao movimento dos sem-terras dos dias de hoje. Viagem aos mares do sul  é romance curto. Suas 168 páginas podem ser lidas numa tarde, se você for leitor contumaz.
Nova Hereford é uma cidade imaginária que se supõe ser Alegrete, terra natal do escritor. Trata-se de uma cidade rural decadente dos exilados das faculdades de Porto Alegre. Os filhos dos proprietários de hoje em dia não se interessam mais em levar adiante os negócios agropecuários da família e fogem para a cidade grande. Em Nova Hereford, ao lado de alguns grandes estancieiros, existem as vilas pobres dos trabalhadores rurais desempregados. Os gaúchos depois do gaúcho a pé, conforme diz o crítico literário Marcelo Backes, ao analisar a obra de Queiroga. Lá, todo mundo se conhece. Sirley, nosso protagonista, é um guri bundudo e balofo, com jeito de abobado. Segundo o povo do lugar, um vagabundo que não se forma nunca!  O pai de Sirley é um homem grosso e machista. Tratou as mulheres com quem viveu como bichos. O filho teve o azar de herdar as características sensíveis da mãe e sofre com o silêncio que nunca se rompe na comunicação com o pai. Não queria seguir Agronomia em Porto Alegre, mas segue estudando como forma de buscar uma possível aproximação com o pai. Tem uma namorada na cidade, mas ela parece estar interessada em outro rapaz que mora ali. Um dia vai com a namorada e a mãe dela, entrosada em uma entidade filantrópica, visitar os bairros distantes, onde reina a miséria. Sirley chega a comover-se com isso, mas sua vida desinteressante não lhe permite formar opinião a respeito. É um perdido que não consegue vislumbrar uma saída para sua vida.
Viagem aos mares do sul foi publicada pela saudosa editora Mercado Aberto, faliu lá pela década de 90. A obra encontra-se esgotada, mas você consegue um exemplar novo no Balaio Digital por cerca de 10 reais. Vale a pena a leitura.

                                                                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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José Carlos Queiroga. Viagem aos mares do sul. Poa, Mercado Aberto, 1999, 168 pp.

domingo, 19 de maio de 2013

Fluxo-floema

Fluxo-floema é o primeiro livro de ficção de Hilda Hilst. Publicado originalmente em 1970, pela editora Perspectiva, encontra-se reeditado pela editora Globo. Composto por cinco textos que não são romance nem ensaio e nem contos, carregam entre eles o fluxo de consciência da autora, que segundo Alcir Pécora, responsável pela organização e edição da obra de Hilda Hilst pela Globo, não se trata de um fluxo de consciência usual, em que o enunciado se apresenta como realista de pensamentos do autor. É, antes, surpreendentemente dialógico, e teatral. Em seu primeiro texto, Fluxo, temos Ruiska, querendo escrever sobre a angústia de dentro. Essa aflição que, surpreendentemente, não se consegue exprimir de forma racional, liberando o fluxo da consciência em discursos complexos e rítmicos, revelando essa angústia de dentro: Deus tira o bem, do mal que acontece. Falávamos dos seres extraterrestres, das civilizações longínquas, do espaço-tempo, dos seres que podem ser apenas luz, do desconhecido mais secreto dos homens, da vontade de subir e conhecer o espaço mais profundo.
Escrever um livro é como pegar uma enxada, e se você não tem uma excelente reserva de energia, você não consegue mais do que algumas páginas, isto é, mais do que dois ou três golpes de enxada. Por isso, nessa hora de escrever é preciso matar certas doçuras, é preciso matar também o desejo de contemplar, de alegrar-se com as próprias palavras, de alegrar o olhar. É preciso virilidade e compaixão. Sou um unicórnio fechado dentro de um apartamento na cidade.  

                                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br                                                                                    
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Hilda Hilst. Fluxo-floema. SP, Globo, 2003, 278 pp,  R$ 35,00

domingo, 12 de maio de 2013

Corpo presente

João Paulo Cuenca (1978) é músico e escritor. Atualmente participa da bancada do Estúdio I, nas tardes da Globonews, discutindo cultura. Já publicou o livro de crônicas A Última Madrugada, Leya ( 2012) e os romances Corpo presente, Planeta ( 2002), O dia Mastroianni, Agir ( 2007) e O único final feliz para uma história de amor é um acidente, Cia. das Letras ( 2010), além de participação em inúmeras antologias.
Corpo presente é seu primeiro romance. Na trama, Alberto, debruçado na janela do apartamento, no meio da noite, imagina por trás das cortinas, olhando o pedaço de céu delimitado pela área interna do edifício. Fuma um baseado, não sabe se vai ou não se masturbar. Seu computador está ligado, com a tela em branco, encarando seu fracasso. Toda que vez que senta para escrever, não consegue desenvolver nenhuma ideia, tudo é coisa passada, que já foi escrita. Parece uma criança que monta um quebra-cabeça milhares de vezes. Imagina todos os outros que já estiveram debruçados em sacadas, tomando decisões idiotas e sem perspectivas. O que tenta fazer incessantemente e sem sucesso, é escrever para sobreviver a si mesmo. Durante a narrativa de Cuenca, o protagonista busca obsessivamente sentimentos perdidos num mundo cínico, violento e sexualizado demais. Busca incessantemente o amor perdido e impossível por Carmen, não a da ópera ou ficção, mas a de Copacabana claustrofóbica, suja e sedutora. Alberto só não consegue desintegrar Carmen, única sobrevivente sem pudor, pisando seus pés pequenos sobre os mortos. Durante a noite, Alberto segue descobrindo Carmen pelas ruas, em cada janela fechada, por trás de esquinas, entre cada espelho quebrado, em cada noite perdida, esbarrando nos corpos sem vida.
Escritos em capítulos curtos e numerados, Corpo presente apresenta leitura instigante. A obra encontra-se esgotada, mas pode ser encontrada em sebos virtuais, como o http://www.balaiodigital.com/ por 20 reais um exemplar novo.
                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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João Paulo Cuenca. Corpo presente. SP, Planeta, 2003. 144 pp. 

domingo, 5 de maio de 2013

Caminhos da literdade

Sartre escreveu em O que é a literatura?, que um dos principais motivos da criação artística seria a necessidade do homem sentir-se essencial em relação ao mundo. O universo do escritor deveria mostrar em toda a sua profundidade o exame, a admiração, a indignação e o amor generoso como promessa de mudar o mundo para compactuar com a liberdade do leitor. Grosso modo, a obra de arte, de qualquer ângulo, é um ato de confiança na liberdade dos homens. Para isso, deve-lhe restituir a indignação e a opacidade do mundo como forma de reflexão.
Sartre teve suas atitudes políticas oscilando entre comunismo, anticomunismo e neutralismo, oscilações compreensíveis a um intelectual que pensava o mundo em toda sua amplitude, discutidas no âmbito filosófico e político. A supervalorização que teve esses aspectos, entretanto, injustiçou sua obra romanceada e dramatúrgica de valor apreciável. Sartre escreveu pelo menos um romance que perdura até hoje: A Náusea. E uma peça igualmente memorável: As Moscas.
A trilogia Os caminhos da liberdade, de 1945, compreende três romances, desenvolvendo estudos morais, de alcance social e político de importância documentária indiscutível, mas de mérito literário menor, conforme aponta Otto Maria Carpeaux em sua monumental História da Literatura Ocidental. Havia o planejamento de um quarto romance, que não chegou a ser escrito. 
A idade da razão, o primeiro, passa-se em Paris, 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Mathieu é um professor de filosofia que defende a ideia da liberdade individual, desprezando qualquer tipo de compromisso. A gravidez inesperada de sua namorada, entretanto, coloca em xeque seus conceitos e os dos que o rodeiam.  Mathieu propõe o aborto e a namorada em princípio aceita, sem convicção. Entretanto, Mathieu não tem dinheiro para fazer o serviço com segurança e busca conseguir o dinheiro emprestado com amigos, sem sucesso. Crenças que forjou na sua juventude são desafiadas. Deve tomar decisões que afetarão sua vida futura. Decide roubar o dinheiro de uma velha boêmia sovina. No final, assume que roubou o dinheiro, mas a namorada decide não interromper a gestação e os dois se separam. Sartre levanta nesse primeiro volume, a questão de que realmente seja a liberdade, o compromisso e o amor.

No segundo, Sursis, os acontecimentos nas vidas de diversas pessoas na Europa se entrecruzam, enquanto o continente se consome na angústia da inevitabilidade da guerra. Os personagens de “A Idade da Razão”, cada um vivendo as suas vidas, à espera de serem chamados como reservistas do exército francês, todos com a certeza de não poderem mais sonhar com a liberdade. A história transcorre em sete dias que antecedem o acordo da França e Inglaterra com a Alemanha, como tentativa de evitar a guerra. Para Mathieu, a iminência da guerra significaria que sua vida estaria morta. Considerava-se um homem pacífico e, naquele momento, o futuro se lhe apresentava como uma incógnita. Nesse romance, Sartre descreve a angústia de todos os estratos da população. Ele se utiliza desse contexto para pensar, através de um emaranhado de situações, sobre o que a liberdade representa de importante para o ser humano e a ameaça que isso representa, com o advento da guerra.

Com a morte na alma, terceiro volume da trilogia, conduz o leitor a uma viagem amarga dos mesmos personagens,  marcada por um mesmo acontecimento: a tomada de Paris pelos alemães em 1940. Entrelaçam-se reflexões de um grupo de soldados perplexos ante a derrota iminente, de indivíduos que tentam escapar, mas se encontram submersos na impotência e na presença avassaladora da morte. Mathieu encontra-se lutando pelo exército francês. Todos os heróis da saga chegam a um momento crucial de suas vidas. A guerra os obriga a fazer escolhas, cujas consequências podem ser vitais. Sartre descreve personagens sempre torturados por sua escolha excepcional nesse contexto da guerra. Trata-se da privação da liberdade.

Os caminhos da liberdade pode ser visto como datada, já que os acontecimentos e o pensamento de Sartre modificavam-se de acordo com os acontecimentos do século XX. Vale a pena ser lida pelos amantes de Sartre, como forma de tomar contato com as vertentes do existencialismo, do qual ele foi um dos propagadores mais eminentes.

                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Sartre. A idade da razão. Rio, Nova Fronteira, 2012, 372 pp. R$ 16,90 (Saraiva de bolso)
_____ Sursis. 4ª ed. Rio, Nova Fronteira, 2005, 440 pp. R$ 53,90
_____ Com a morte na alma. Rio, Nova Fronteira, 2012, 376 pp. R$ 14,40 (Saraiva de bolso)