domingo, 22 de setembro de 2013

A verdade das mentiras


Dessa vez, vamos comentar um livro sobre os romances. A verdade das mentiras, de Mário Vargas Llosa, debruça-se sobre 36 romances do século XX, que ele selecionou e releu, muitos anos depois, para analisar aspectos dessas obras, diferentemente da intenção primeira que o autor teve, ao lê-las pela primeira vez, quando jovem. Lançado em 2002, contém  ensaios independentes selecionados arbitrariamente e ligados por um denominador comum: de que a missão do romance é mentir de forma persuasiva, passar por verdade as mentiras.
Vargas começa afirmando que, de fato, os romances mentem, pois não podem fazer outra coisa. Mentindo, expressam uma verdade curiosa que só pode se expressar escondida, disfarçada do que não é. Isso acontece porque os homens não estão contentes com seu destino rico ou pobre, medíocre ou genial, célebre ou obscuro: gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Por isso, nos diz Llosa, surgiu a ficção. Na ficção, os leitores podem ter as vidas que não se resignam a não ter. No embrião de todo o romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo satisfeito.

Mas, Vargas Llosa adverte: isso não significa que o romance é sinônimo de irrealidade. A verdade e a mentira no mundo da ficção estão semeados de armadilhas. Não se escrevem romances para contar a vida, mas para transformá-la, acrescentando-lhe algo. Todos os romances refazem a realidade, embelezando-a ou piorando-a. Nesses acréscimos sutis ou grosseiros à vida, nos quais o romancista materializa suas obsessões secretas, reside a originalidade da ficção.
Isto posto, ele nos fala de O coração das trevas (Conrad), Morte em Veneza (Mann), Dublinenses (Joyce), Mrs. Dalloway (Woolf), O grande Gatsby (Fitzgerald), O lobo da estepe (Hesse), O estrangeiro (Camus), A revolução dos bichos (Orwell), O velho e o mar (Hemmingway), Doutor Jivago (Pasternak), O tambor (Grass), Afirma Pereira (Tabucchi) e mais 24 obras que fizeram sucesso no século XX. Trata-se de ensaios curtos – média de 6 a 7 folhas, escritos de forma brilhante, numa linguagem acessível, discorrendo sobre o propósito da literatura, o futuro dos livros e o modo como a ficção transforma nossa experiência vital.

A tradução excelente é de Cordelia Magalhães. Lamentavelmente, estamos diante de mais uma obra de qualidade esgotada. Mas não desanime, nos sebos virtuais é possível encontrar um exemplar seminovo por um preço médio de 33 reais. Mas compre logo, porque são poucos disponíveis!
                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Mario Vargas Llosa. A verdade das mentiras. 3ª ed, SP, ARX, 2004, 368 pp.

 

 

domingo, 15 de setembro de 2013

O amor nos tempos do cólera


O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, é um romance que trata de um amor fora de moda. É a história de um homem que ama uma mulher profundamente e conserva seu amor intensamente por toda a vida.
O romance começou a ser escrito em 1984 em Cartagena de Indias, logo após o autor ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura. García Márquez se vale de alguns dados históricos da cidade, como a epidemia do cólera que assolou a cidade no final do século XIX, assim como o naufrágio do galeão espanhol San José, que carregava joias. Também aparecem hábitos, costumes e preconceitos da sociedade colombiana da primeira metade do século XX, o empobrecimento do país e as inúmeras guerras que assolaram a Colômbia nesse período.

A questão social também é um dado importante na narrativa. Trata-se de dois jovens de extratos sociais diferentes. Florentino Ariza vive com a mãe numa meia casa alugada, onde tinha uma loja de armarinho e também desfiava camisas e panos velhos que vendia como algodão para os feridos de guerra. Seu pai morre quando ele tinha 10 anos, sem reconhecê-lo. Cedo teve de largar os estudos para trabalhar. Um telegrafista interessa-se pelo jovem e lhe ensina o ofício, que mantém por bom tempo. Fermina Daza, a jovem, vinha de uma família que enriquecera de forma obscura. Seu pai tinha vínculo com contrabando e falsificações. Isso vem à tona quando o pai, falido, insiste para a filha casar-se com o médico rico e influente, Juvenal Urbino. Fermina, que inicialmente correspondia às investidas de Florentino, muda de ideia e casa-se com o médico, vivendo juntos por mais de 50 anos. Quando o médico morre vítima de uma queda absurda,  Florentino busca se reaproximar e declarar à velha senhora que continua amando-a com a mesma intensidade de sempre. Ela o rejeita de forma bruta. Mas ele não desiste.
Florentino coloca a esfera do sentimento como o sentido de sua vida. O amor que sente por Fermina é aquele que ninguém sentirá como ele sente. A guerra, o cólera ficam para segundo plano em função do amor de Florentino por Fermina. O sentimento dele  representa o sentido absoluto do amor. Recusado por ser pobre, busca enriquecer para que um dia possa conquistá-la.

García Márquez, como sempre, faz uso da memória e do tempo para contar sua história. O incentivo para o romance veio do amor de seus pais. Quando os dois se conheceram, o pai de García Márquez tinha uma vida simples, era telegrafista. O pai de sua mãe não permitia o casamento, até que de tanta insistência do noivo, os dois acabaram casando. As características dos personagens do romance, entretanto, seguem outras características psicológicas. O autor usa de recursos temporais para contar a história. Tudo começa na velhice, com a morte do médico, a seguir volta ao presente, para contar as coisas do princípio, do velório do médico à reaproximação de Florentino. A história é contada com o humor característico do escritor colombiano, embora a velhice seja mostrada com dureza, sem descambar para o grotesco.
A tradução da editora Record é de Antônio Callado.

                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Gabriel García Márquez. O amor nos tempos do cólera. 27ª ed, Rio, Record, 2005, 434 pp. R$ 53,00          

domingo, 8 de setembro de 2013

Os dragões não conhecem o paraíso

Caio Fernando Abreu nos avisa em Os dragões não conhecem o paraíso, que os textos podem ser lidos como histórias autônomas. Também podem ser lidos, fazendo parte de um romance móbile, em que as partes se interligam formando um todo, de acordo com o gosto do autor.
Em Linda, o personagem narrador volta para morar com a velha mãe solitária, está com sintomas da AIDS na pele. Em O destino desfolhou, ele relembra a infância e adolescência, quando teve contato com a morte na presença de Beatriz, antigo amor que morreu de leucemia na adolescência, virando uma estrela. Em À beira do mar aberto, relata a paixão não revelada pelo outro. Em Semana, blues, as marcas da ausência de Ana em sua vida, sem que soubesse os motivos. Vodca, lágrimas e café; os ciclos da terapia, psicodramas,  sonhos junguianos, promessas a Santo Antônio; o mundo tornando-se, aos poucos, um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Em Saudade de Audrey Hepburn, um cara solitário caminha pela noite paulistana, como à procura de um outro que perdera numa véspera de São João. Nessa trajetória de lembranças, a presença das entidades do candomblé. Em O rapaz mais triste do mundo, um homem solitário no fundo de um bar guei observa um homem também solitário de 40 anos que pega uma cerveja e senta numa mesa onde há um rapaz de uns 20 anos. Os dois se evitam, não se olham, não se falam. Esse rapaz parece ser o rapaz mais triste do mundo. Ele é, com os outros e com o leitor, um único homem perdido na noite, cercado de álcool e muita solidão. Sapatinhos vermelhos é o fetiche de uma mulher de meia idade, curtindo a fossa de uma separação na madrugada de uma sexta-feira santa. Num quarto da cidade grande, sofrendo de tédio e com ideias de suicídio, lembra da praiazinha de areia bem clara, no meio da sanga, em Passo do Guanxuma (cidade ficcional presente na obra de Caio), onde teve um encontro com Dudu há sete anos atrás, que teria motivado, quiçá, sua ida para São Paulo. Para fugir à ideia do suicídio ela escreve uma carta a Dudu. Em A dama da noite, ela, numa boate, bêbada, espera aquele um que virá buscá-la de uma hora para outra. Ela aluga um jovem para despejar seus demônios, é a dama da noite que envenena, contamina o sangue com todos os vírus, é a dama infeliz que, a cada noite, naquele bar, se mata e contamina a si mesma com a solidão dos desamados. Em Mel e girassóis, um homem e uma mulher passam férias sozinhos num hotel à beira-mar. Casualmente, fazem contato e vão se aproximando até um aparente happy-end, posto que quando os dois se descobrem, é véspera de cada um voltar a suas origens. Em A outra voz, morte e esperança. No conto Pequeno monstro, sabemos da presença de um primo que vem passar férias na praia e desencadeia a descoberta da sexualidade em um adolescente. A solidão é o tema de Os dragões não conhecem o paraíso, porque não precisam ser aceitos. Fogem do paraíso banal que inventamos, porque detestam o mundo perfeito que inventamos, onde nada dói, numa eterna monotonia de falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia. Os homens precisam da ilusão do amor para não afundarem no poço da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Caio Fernando Abreu. Os dragões não conhecem o paraíso. Rio, Nova Fronteira, 2010, 192 pp. R$ 39,90

domingo, 1 de setembro de 2013

A natureza trágica de Adonias Filho

Carlos Nejar divulgou há pouco tempo no programa Globonews Literatura sua monumental História da Literatura Brasileira (da carta de Caminha aos contemporâneos). Durante a entrevista, referiu-se a Adonias Filho como o grande escritor que havia sido relegado a segundo plano pelos estudiosos da literatura brasileira, por questões ideológicas. Nejar não dá detalhes sobre a afirmação, mas se o fato ocorreu por causas ideológicas, poderia ter sido, talvez, porque o autor serviu ao governo militar, tendo sido membro do Conselho Federal de Cultura, de 1969 a 1973, período áureo da ditadura militar, e de 1977 a 1990, ano de sua morte. Hoje, entretanto, sua obra está sendo revalorizada e reeditada. Adonias Filho foi membro da Academia Brasileira de Letras.

A obra do baiano Adonias Filho (1915/1990) é carregada de imagens fortes, retratando o sentimento trágico da vida. Suas personagens, por vezes, vivem a dolorosa miragem gerada pela mata. Perto de Itajuípe, vizinha a Ilhéus, onde nasceu o escritor, acontece quase toda sua narrativa. A maior parte de suas  personagens são bugres, índios e pequenos agricultores arruinados, ao contrário de Jorge Amado que situou alguns romances no ciclo do cacau, com personagens negros ou mulatos. As personagens de Adonias Filho são seres embrutecidos pela paisagem hostil, em vales secos. As pedras, cobrindo a planície, rasgando o chão, são como dentes afiados, limados, cortantes, formando mandíbula fechando a passagem, constituindo a fronteira de outro universo. Aí caminha o homem, em conflito entre um corpo destrutível e uma alma sem governo, em agonia, numa região onde se permite o crime, o calor do ambiente sufocando o coração do homem que já não se considera humano. Carecem, então, de sentimento. A violência substitui o afeto, muitos são tratados como se fossem bichos.


Memórias de Lázaro, narra a vida de Alexandre, separado criança dos pais e sendo criado por um tio. Em sua vida não há lugar para afeto. Quando isso acontece, a natureza de seu destino muda e elementos trágicos mexem seu destino, que sempre lhe foi dura, num universo sem lei nem rumo, mantendo-o trancado em si mesmo, na busca de uma experiência qualquer para os mistérios do mundo e do ser.

Corpo Vivo, situado ainda nesse universo duro e cruel, narra a vida de Cajango, que teve toda a família morta por jagunços, quando tinha 11 anos de idade. Auxiliado pelo padrinho, é levado a viver com um tio, um bugre rude que lhe ensina a forjar o ódio para vingar a morte da família e restituir as terras que lhes foram roubadas. Entretanto, quando o afeto se faz presente em sua vida, quando se apaixona por Malva, seu destino é alterado e o sentimento trágico da vida e da morte passa a acompanhá-lo.
O Forte narra uma história de amor mal costurada entre Jairo, um médico, e Tibiti, a neta do negro Olegário, que matou o genro para salvar a filha e a neta. Olegário julgado e feito prisioneiro no forte que guarda trezentos anos da história da Bahia e de como Olegário e Jairo se conheceram. A destruição do forte representa um recomeço na vida de Jairo e Tibiti. O romance carece da carga dramática dos romances anteriores. Aqui, a violência humana está mais dosada.
Léguas da Promissão é um livro de novelas. Apresenta o mesmo universo hostil e trágico que o autor gosta de retratar. Desse universo destaca-se a novela Um anjo mau, narrativa muito bem construída e que me impressionou muitíssimo. Açucena, que teve sua vida destruída pela violência física e sexual, é vingada pelo homem de sua vida, para que assim possa esquecer o passado.  
As velhas deu o Prêmio Jabuti de melhor romance a Adonias Filho em 1975. O romance narra a história de quatro velhas cujos acontecimentos se entrelaçam. Tari Januária, índia pataxó, pede ao filho Tonho que lhe traga os ossos do pai, morto em emboscada, para ser enterrado junto à família. Zefa Cinco, a pistoleira que matou o pai de Tonho, propõe entregar-lhe os ossos do pai, em troca da neta que estava longe em péssimas condições de vida. Zonga, a rainha negra, de quase dois metros de altura, representa a trégua na vida de Tonho em sua trajetória. E Lina de Todos, a que se recusou a ser mulher de um homem só e teve inúmeros filhos que desbravam a selva do sul da Bahia para o plantio do cacau; ela ajuda Tonho a conseguir seu intento. Quatro velhas marcantes em sua autoridade, em suas lembranças, seus rancores e cegueira vingativa.
Luanda Beira Bahia, três lugares ligados pela etnia negra em contato com o colonizador. Sardento, marinheiro português, tem caso com uma negra de Ilhéus e nasce-lhe um filho, Caúla, que cresce sem pai, pois Sardento abandona a família para correr o mar. Esteve em Angola, onde teve uma filha em Luanda. Caúla cresce e segue os passos do pai, depois que sua mãe morre. Em Luanda conhece a irmã, mas não sabe de quem se trata. Depois vai a Moçambique, onde tem um caso com uma adolescente na Beira. O caso de amor não avança e Caúla retorna a Luanda, onde volta a ter contato com a irmã. Os dois se apaixonam e decidem voltar à Bahia, onde a casa em Ilhéus espera pelos dois. Quando chegam à casa, Sardento lá estava, de volta. Ao descobrir que os dois são seus filhos e estão casados, os mata. Luanda Beira Bahia não é um bom romance, falta-lhe profundidade, já que nas narrativas de Adonias Filho costumam ser curtas. Se o autor enveredasse pelo caminho de uma história de amor, sem supervalorizar o trágico, talvez o romance ganhasse consistência.
                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Adonias Filho. Memórias de Lázaro. 3ª ed, Bertrand Brasil, 1978,168 pp. R$ 33,00
               Corpo Vivo. 32ª ed, Bertrand Brasil, 2001, 134 pp. R$ 35,00
               O Forte. 10ª ed, Bertrand Brasil, 2002, 160 pp. R$ 33,00
               Léguas da Promissão. 4ª ed, Civ. Brasileira, 1975, 147 pp.
                                   Esgotado. Preço médio nos sebos de R$ 10,00  
               As Velhas. Bertrand Brasil, 2004, 160 pp. R$ 37,00
               Luanda Beira Bahia, 2ª ed, Civilização Brasileira, 1975, 144 pp.
                              Esgotado. Preço médio nos sebos R$ 10,00           

domingo, 25 de agosto de 2013

Clara dos Anjos

“O subúrbio é o refúgio dos infelizes”. Essa é a frase mais lembrada, quando se fala no romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881/1922). O subúrbio é o lugar dos que perderam o emprego, os bens; dos que faliram nos negócios. Lima Barreto sabia muito bem do que falava. Viveu sempre no subúrbio, em condições humildes de vida. Conheceu as dificuldades dos que tinham de se manter à periferia da cidade do Rio de Janeiro, devido ao crescimento e embelezamento da Corte. O prefeito Pereira Passos, no início do século XX, desapropriara a população que vivia no centro da cidade, próximo aos prédios públicos, para que ruas fossem criadas ou ampliadas e residências burguesas fossem erguidas para habitar os poderosos. Nos subúrbios passaram a habitar os trabalhadores humildes, entre eles os negros e mulatos recém libertos da escravidão. Por ser mulato, Lima Barreto sentiu na pele o peso do preconceito. Seria filho de escrava com o protetor de sua família, fato não comprovado suficientemente, ainda que Lima Barreto e sua família tivessem sido ajudados pela outra família até depois da morte do patriarca. Lima Barreto não aceitava o preconceito de cor e sempre lutou contra isso, através de seus romances e das crônicas diárias dos jornais em que trabalhou. Criticava duramente a sedução que os homens brancos exerciam sobre as mulatas, abandonando-as mães e solteiras. Esse, aliás, é o mote para Clara dos Anjos, romance irregular em sua estrutura narrativa, mas importante por revelar personagens marginais muito pouco expressivas nos romances que haviam sido produzidos até então na literatura brasileira.

O enredo é simples, Clara dos Anjos, uma pobre mulata ingênua e sonhadora, filha de um carteiro de subúrbio, é iludida, seduzida e desprezada por um rapaz branco de condição social inferior a sua. Não faltaram cuidados e avisos para que ela não caísse na lábia de tal malandro, já conhecido por desencaminhar outras moças ingênuas e virgens. Clara cede, apesar do zelo dos pais e do padrinho, na esperança de que ele fosse casar-se com ela, o que não ocorre, pois o rapaz foge, deixando-a grávida. A família tenta contato com a família do rapaz, mas nada pode ser feito, o rapaz é maior de idade. Cabe à família de Clara arcar com as consequências do ato, num final em que a filha diz ao pai: “Nós não somos nada nessa vida”.

Clara, aliás, aparece pouco na narrativa. É a personagem que fica à espera de seu destino infeliz. O autor tece um retrato fiel dos ambientes por onde circulam essa gente humilde, com personagens estruturadas sob a forma da caricatura. A personagem de Cassi Jones, o pilantra, é fartamente documentada oralmente pelos que conhecem sua pessoa e seu caráter. Só que a ingenuidade é o defeito que provoca o trágico na vida de Clara e de sua família.

A edição econômica da Penguin & Cia. das Letras é muito bem cuidada, incluindo textos de Beatriz Rezende, Lúcia Miguel Pereira e Sérgio Buarque de Holanda, elucidando diversos aspectos do texto de Lima Barreto. Apresenta também notas de rodapé de Lilia M. Schwarcz e Pedro Galdino da Silva Neto, esclarecendo e explicando metáforas, expressões, personagens, lugares e situações históricas presentes na vida social da época do romance: .

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Lima Barreto. Clara dos Anjos. SP, Penguin Editora, 2012, 304 pp. R$ 26,00

domingo, 18 de agosto de 2013

Baú de ossos


O mineiro Pedro Nava (1903/1984) foi médico famoso e filho de médico também famoso. Foi intelectual participante da vida literária brasileira, amigo de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e outros grandes do modernismo brasileiro. Foi pintor e poeta bissexto, tendo seus versos apreciados pela crítica especializada. Aos 65 anos, aposentado da medicina, decidiu empreender uma obra memorialista extensa, composta de seis grossos volumes, (dos quais li, por enquanto, Baú de Ossos) em que aponta aspectos de sua vida familiar desde a infância até próximo a sua morte. As memórias de Pedro Nava podem ser, em parte, as nossas memórias. O memorialista entrelaça de tal modo os fios de sua memória com os da vida brasileira, que se torna difícil estabelecer exatamente onde acaba esta e onde começam aquelas.

Baú de ossos (1972) reconstitui a genealogia dos antepassados e os primeiros anos da infância do autor. Nava realiza um panorama da sociedade e da cultura brasileiras no século XIX e no início do século XX. Suas memórias se iniciam com a descrição dos antecedentes genealógicos da família do autor, divididos entre Minas, o Nordeste e os burgos e castelos europeus onde viveram seus antepassados aristocráticos. Em seguida, sempre entremeando fatos históricos, observações pitorescas e anedotas familiares, o autor narra acontecimentos vividos até seus oito anos de idade, marcados pela traumática morte de seu pai. .A obra do médico Pedro Nava vem da oralidade. Da memória dos que envelhecem surge o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho. Só o velho pode suscitar de repente no menino que está escutando e vai prolongar por mais  sessenta anos a lembrança que lhe chega, não como coisa morta, mas como flor perfumada e colorida, límpida e nítida, como o mágico que abre a caixa dos mistérios na cor dos bigodes, no corte do paletó, na morrinha do fumo, no ranger das botinas de elástico, no andar, no pigarro, no jeito. E com o evocado vem o mistério das associações trazendo a rua, as casas antigas, outros jardins, outros homens, fatos pretéritos, toda a camada da vida de que o vizinho era presença inseparável e que também renasce quando ele revive – porque um  e outro são condições recíprocas. Costumes de avô, responsos de avó, receitas de comida, crenças, canções, superstições familiares duram e são passadas adiante nas palestras de depois do jantar, nas tardes de calor, nas varandas que escurecem; nos dias de batizado, de casamento, de velório.

A Baú de ossos seguiram-se, num intervalo de pouco mais de dez anos, Balão Cativo (1973), compreendendo o período entre o retorno para Minas Gerais após a morte do pai e o internato no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. O autor aborda os anos decisivos do final da infância e a adolescência. A descoberta do sexo e da literatura, a amizade marcante dos novos colegas e o dia a dia vibrante do Rio antigo; Chão de ferro (1976) aborda principalmente a vivência carioca do autor mineiro na primeira metade do século XX. O narrador se desloca de trem entre dois polos - no Rio está o colégio interno; em Minas, as férias com a família e, posteriormente, a faculdade em que ingressa em 1921. Não são polos meramente geográficos, mas dimensões existenciais, afetivas, intelectuais, sociais, culturais e civilizatórias distintas. Concentrando ações transcorridas entre 1916 e 1921, 'Chão de ferro' se abre e se fecha descrevendo aulas no tradicional e reputado colégio Pedro II e na Faculdade de Medicina;  Beira-mar (1978) retrata a vida em Belo Horizonte no período que vai de 1921 a 1926. Nava descreve seu curso na Faculdade de Medicina, a vida estudantil, que transcorria tranquila na então pacata capital mineira. Reconstitui também uma fase importante da vida literária em Minas, ao narrar com detalhes as conversas do grupo de 'A Revista', formado por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado, João Alphonsus, Emílio Moura, Milton Campos, Abgar Renault entre outros; Galo-das-trevas (1981) divide-se em duas partes. Na primeira, que chamou de 'Negro', ele faz um resumo de sua vida, com observações sobre o presente que o projetam frequentemente no passado. Na segunda parte, 'O Branco e o Marrom', conta o início de sua carreira, em 1928, quando, inexperiente ainda, teve de enfrentar as difíceis condições de vida de médico do interior, viajando em lombo de burro e improvisando para salvar vidas humanas. Depois, com a volta a Belo Horizonte, as lembranças se estendem até a revolução de 30; Círio perfeito (1983) abrange o período que se estende de 1930 a 1940. A revolução, a sua experiência no magistério, a saída de Minas e o encontro com o Rio de Janeiro; por último, Cera das almas, interrompido com a morte do autor em 1984, mas editado em 2006, mostra a passagem do autor pela Policlínica Geral do Rio de Janeiro, na década de setenta, além de revelar o método de criação do memorialista.
 
Ler Baú de ossos torna-se leitura interessante, se o leitor gostar do gênero memorialístico e das crônicas da vida familiar e social brasileira. O autor diferencia suas memórias do estilo tradicional, pela ironia com que descreve algumas pessoas e fatos. Os dois primeiros capítulos poderão parecer cansativos, devido à exaustiva enumeração e descrição de sua árvore genealógica paterna (primeiro capítulo) e materna (segundo capítulo). A partir daí, flui de forma agradável e interessante.

                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
 
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Pedro Nava. Baú de ossos. SP, Cia. das letras, 2012, 512 pp.  R$ 54,50

domingo, 11 de agosto de 2013

A ostra e o vento


Poderíamos dizer que Moacir Costa Lopes é o nosso Joseph Conrad, posto que os dois viveram ativamente o mar como marinheiros, e ambos escreveram seus romances tendo o mar como protagonista ou como pano de fundo. Se Conrad é considerado dos grandes da literatura universal, Moacir C. Lopes é pouco conhecido de nós, ainda que sua obra seja de qualidade inquestionável. Walter Lima Jr, ao levar para o cinema a história de A Ostra e o Vento, contribuiu positivamente para que o livro surtisse o interesse da editora Quartet, que o relançou lá pelos anos 2000.
A ostra e o vento passa-se na Ilha dos Afogados, onde há um farol. Lá vivem Daniel, ajudante de faroleiro, José, o faroleiro e pai de Marcela, adolescente que foi para a ilha aos nove anos de idade, permanecendo 10 anos lá. Depois, junta-se ao grupo Roberto, outro ajudante. Rodeando a ilha, o mar, o vento, o silêncio e a solidão.  

Sozinha na ilha e proibida de ir à cidade, Marcela inicia, sozinha, o processo de descoberta da própria sexualidade. Ela mantém um diário onde narra o relacionamento obscuro com Saulo, ser misterioso com quem tem um romance. No decorrer da narrativa, a presença de Saulo vai tomando conta da ilha e da vida de Marcela. Anos depois, Daniel retorna à ilha para averiguar os motivos por que o farol está apagado e a encontra deserta. Vasculhando o local onde moravam José e Marcela, descobre o diário, chegando à conclusão de que Saulo poderia, quem sabe, não ter existido.

Daniel começa a relembrar sua convivência com Marcela, a amizade que se formou entre os dois e o quanto a presença da adolescente mexeu em sua vida. Lembra de quando Marcela se entregava ao vento, acontecimento contado com lirismo e sensualidade por Moacir C. Lopes. Certa vez o pai de Marcela a surpreende nua na praia e a repreende severamente. A ostra pode representa a sexualidade de Marcela, cristalizada na pérola que valoriza seu descobrimento como alma feminina em contato com a natureza.

A ostra e o vento encontra-se esgotada. A última edição correu em 2000, pela Editora Quartet, que elaborou uma capa horrorosa. Trata-se de obra-prima da literatura brasileira. Você poderá encontrar um exemplar seminovo pelo preço médio de 20 reais nos sebos virtuais.

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Moacir C. Lopes. A ostra e o vento. 7ª ed., Rio, Quartet, 2000, 160 pp

 

 

domingo, 4 de agosto de 2013

Os velhos marinheiros

Em 1961, Jorge Amado lança Os velhos marinheiros, constituído pelo romance O capitão de longo curso e da novela A morte e a morte de Quincas Berro d’Água. Posteriormente, as duas obras foram desmembradas: A morte e a morte de Quincas Berro d’Água e Os velhos marinheiros ou O capitão de longo curso. Essas duas obras iniciam a nova fase do autor baiano, que antes disso se preocupava com questões sociais e políticas, através de personagens engajados na luta contra a injustiça e a miséria social. A partir daí, o autor volta-se para as narrativas de personagens pitorescos, através da ironia e do humor, com forte crítica dos costumes sociais das épocas de suas histórias. A crítica especializada considera as duas narrativas como obras-primas do autor.
O comandante vasco Moscoso de Aragão, com apenas 1 mês morando em Periperi, era a personalidade mais importante, glória do lugar, opinando sobre os mais diversos assuntos. Opinião respeitada por todos. Essa lua-de-mel durou pouco. O velho Chico Pinheiro, ex-fiscal do consumo, morador do lugar há mais de 10 anos, não se agradou do comandante Moscoso, começou a falar mal de seu caráter. A duvidar de sua patente. Acontece que Vasco Moscoso de Aragão não entendia nada de marinha. Era dono de armarinho. Sentia-se inferior aos demais por não ter nenhum título de importância. Entretanto, tinha muitos amigos advogados, médicos e gente graduada na marinha. É aí que um amigo com alta patente arma um esquema para que Vasco Moscoso consiga entrar para o serviço naval como capitão de longo curso, através de um concurso fraudado. Um belo dia, um navio aporta em Salvador, sem o comandante e intimam o capitão Vasco Moscoso para comandar o barco até Belém do Pará. Paremos por aqui, para não desapontar o leitor que pretende ler o livro. A história é muito boa, engraçada, muito bem tramada. Das melhores coisas de Jorge Amado. O final é surpreendente.

                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Jorge Amado. Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso. SP, Cia. das Letras, 2009, 296 pp. R$ 49,50

domingo, 28 de julho de 2013

O amor acaba


O lirismo na prosa, fácil de encontrar em mulheres escritoras, também permeia a alma masculina de Paulo Mendes Campos. Em O amor acaba, estão compiladas as melhores crônicas do autor mineiro, que também foi poeta, cujo tema é a divagação existencial da natureza humana. Ser cronista, para Paulo Mendes Campos, é frequentar os bares, habitar todos os lugares, promover misturas, enamorar-se do mundo. Ser cronista é dar à literatura as janelas sem as quais ela não teria vida. É adotar o ponto de vista dos cegos e dos bêbados. É adorar o impossível, reinstaurar a desordem, viver entre a beatitude e o horror. Ser cronista é esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto, é anunciar desolações, como fazem os profetas. É defender o homem contra seu destino obscuro. É amar “todos os serzinhos humanos” e ainda mais os passarinhos. Ser cronista não é apenas embalar o leitor com algumas doses de lirismo, ou diverti-lo com ditos espirituosos, mas atormentá-lo muitas vezes com desilusões, puxões de orelha e socos no estômago. Ser cronista é, a despeito de si mesmo, amar a vida – e escrever sobre seus dissabores, mesmo consciente de que “a vida não vale uma crônica”.

Na crônica que dá título ao livro recém-lançado pela Companhia das Letras, o cronista nos diz, O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
 
                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Paulo Mendes Campos. O amor acaba. SP, Cia. das Letras, 2013, 286 pp. R$ 39,00

domingo, 21 de julho de 2013

Pedras de Calcutá


Caio Fernando Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão (RS) em 1948 e faleceu em Porto Alegre em 1996. Estudou Letras e Artes Cênicas, mas não teria concluído nenhum dos dois cursos, preferindo transferir-se para São Paulo, onde atuou como jornalista em diversos jornais e revistas de grande circulação nacional. Notabilizou-se no conto, apesar de exercitar a crônica jornalística e ter escrito dois romances em sua curta vida: Limite branco e Onde andará Dulce Veiga?. Também foi dramaturgo. Se você era ativo culturalmente na década de oitenta em Porto Alegre, certamente curtia o teatro gaúcho e provavelmente assistiu a duas peças suas de sucesso: Pode ser que seja só o leiteiro lá fora e A maldição do vale negro, ambas montadas no Teatro do Clube de Cultura, na rua Ramiro Barcelos. Caio também fez traduções.
A geração de que Caio fez parte sofreu com a censura da ditadura militar. Geração que viveu uma espécie de apoteose criadora. Caracterizava-se pela ruptura da estrutura tradicional, especialmente do conto, apresentando uma narrativa preocupada em fotografar instantes, episódios ricos em sugestões e flashes reveladores de angústia, medo, solidão, através de uma prosa carregada de informalidade, muito mais chegada a Rita Lee e Cazuza do que ao estilo formal da Academia.
Leitor assíduo de Clarice Lispector, apresenta em sua escritura influências da escritora genial. Na década de 70, publicou dois livros de contos, O ovo apunhalado (1975) e Pedras de Calcutá (1977). Mas a fama  veio com os contos de Morangos Mofados, editado pela Brasiliense,   em 1982. A Brasiliense lançava no início dos anos 80 a coleção de bolso “Cantadas Literárias”, revelando autores que despontavam no cenário nacional como Caio Fernando Abreu, a poeta Ana Cristina César, Paulo Leminsky, Marcelo Rubens Paiva e Francisco Alvim, citando apenas alguns dos brasileiros da coleção.
Pedras de Calcutá é um livro formado por contos distribuídos em duas partes: Mergulho I (a vivência alucinatória da própria experiência física de forma atormentada, como se o corpo dos personagens suportassem a própria vida) e Mergulho II (indivíduos em busca de fatos capazes de oferecer soluções quase improváveis, resultando em ansiedade, tensão e expectativa quase desesperadora). Os contos exprimem o horror que pode existir entre pessoas que se descobrem perseguidas não tanto por uma ditadura, mas por si mesmas.
O gosto por ambientes urbanos, a escrita angustiada e a temática da solidão compõem o quadro das características literárias de Caio. Sua narrativa é uma sondagem da angústia e da solidão daqueles que vivem perdidos entre arranha-céus. Sua prosa introspectiva revela a pressão de se sentir sozinho, esmagado por uma realidade opressiva que não faz a menor questão de estimular alguém a permanecer vivo. Em seus textos, há também a presença de uma radiografia dos sentimentos e das relações amorosas, com especial apego aos deslizes e incertezas.
É bastante comum a literatura de qualidade produzida no Brasil encontrar-se esgotada. É o caso de Pedras de Calcutá. Você acha um exemplar seminovo nos sebos virtuais por um preço médio de 30 reais.

                                                                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Caio Fernando Abreu. Pedras de Calcutá. SP, Cia. Das Letras, 1996, 132 pp. 

domingo, 14 de julho de 2013

As meninas



Ana Clara, Lia e Lorena. Três jovens universitárias perdidas no mundo brasileiro contemporâneo da década de 70. As meninas de Lygia Fagundes Telles, entre os méritos que tem, é o de apresentar a narrativa inserida na história viva da ditadura militar (a obra foi escrita em 1983). As meninas é um documento ficcional vivo de um Brasil estilhaçado na insegurança e falta de perspectivas. As três estudam em São Paulo e moram num pensionato de freiras. Lia tem posicionamento contestador, escreve um livro que não consegue acabar. Lorena é a mais burguesa das três; insegura, quer arrimo em um casamento que a conforte. Ana Clara, a menos favorecida, é viciada, está sempre correndo atrás de dinheiro. Lia, esquerda militante, perdeu o ano por excesso de faltas, tem um namorado preso a ser trocado por um embaixador. Lorena gosta de latim, ouve música clássica o dia inteiro, à espera de um namorado que não telefona nunca. Ana, compradora compulsiva, seguidamente é internada para se desintoxicar das drogas. As três representam vidas que podem se perder a partir de si mesmas, vozes de uma geração violentada, colonizada e drogada, a partir do golpe de 64. 
As meninas configura uma posição de engajamento da escritora, que mostra personagens dominadas pelo discurso dominante. Lya, a comunista, é quem mais tenta lutar contra o esquema. O romance traça um retrato muito fiel do jovem desse momento no Brasil. Lygia Fagundes Telles é pioneira na ficção brasileira, ao inaugurar o fluxo de consciência da mulher na ficção, pois até então era inédito que uma mulher falasse de suas fantasias existenciais e eróticas, de forma tão humana e verdadeira.
Quando era aluno do curso de Letras da UFRGS, lá por 1976, assisti a  uma conferência em que ela participou juntamente com Nélida Piñon, Fernando Morais e Rubem Fonseca,. Lembro dela ter dito que o escritor escreve tentando, quem sabe, recompor um mundo perdido, buscando-se nos personagens e a si mesmo. A obra de Lygia Fagundes Telles apresenta um fio muito tênue entre memória e ficção. Ela mesma mistura as duas coisas, ao escrever. Quando criança, ouvia histórias das moças contratadas pela família para cuidar dela, enquanto trabalhavam. Essas histórias lhe despertaram o gosto pelo mistério, a invenção, a imaginação. Foi assim que se foi tornando escritora. Lygia nasceu em São Paulo em 1924, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985. Entre sua obra, toda ela constituída por uma prosa elegante e bem urdida, destacam-se também os romances Ciranda de pedra e As horas nuas. Excelente contista, também, com os livros Antes do baile verde e Cemitério dos ratos.
                                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
 
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Lygia Fagundes Telles. As meninas. SP, Cia. das Letras, 2009, 304 pp, R$ 41,00

domingo, 7 de julho de 2013

os limites do impossível


Pesquisas indicam que Carlos Gardel era uruguaio nascido em Tacuarembó,  na Estância de Santa Blanca, de propriedade de seu pai, o coronel Carlos Escayola, chefe político e de polícia do Departamento de Tacuarembó. As versões sobre a negação de Escayola para reconhecê-lo como filho surpreendeu a todos os pesquisadores. Aparentemente, o coronel tinha um amor secreto com a Sra. Juana Sghirla, argentina e esposa de Juan Oliva, cônsul italiano. Para estar perto de Juana, casou-se com as três filhas do cônsul e enviuvou de todas elas. Maria Lelia, a caçula, seria filha de Escayola com Juana. Dessa relação incestuosa, teria nascido Carlos Gardel, que foi enviado a Buenos Aires em segredo, com a francesa Berthe Gardés, que passou a ser sua “mãe verdadeira”, divulgando que Gardel havia nascido em Tolouse, na França. Quando perguntavam a Gardel se ele havia nascido em Tacuarembó, ele dizia que havia nascido em Buenos Aires com dois anos e meio de idade. Se um dia você for a Santana do Livramento para fazer compras em Rivera, faça um passeio agradável a Tacuarembó (115km) e visite o Museo Carlos Gardel. Lá há informações mais detalhadas sobre o famoso cantor de tangos.
O escritor gaúcho Aldyr Garcia Schlee (1934) exerce sua competência de escritor em Os limites do impossível, de forma a alcançar a realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. A figura masculina que costura todo o romance é a de Carlos Escayola (o pai de Gardel) e seu relacionamento com 12 mulheres, que nomeiam os 12 contos do livro. Apesar de classificado pela editora e pelo autor como livro de contos, as histórias individuais de cada mulher formam uma história completa. O leitor entrará em contato com Clara, filha de Juana, que era amante de Escayola. Para manter o idílio, ele casa-se com Clara, mas tem uma filha ilegítima com Juana, Maria Lélia, e assim vai a história.
Aldyr Garcia Schlee sabemuito bem descrever o cenário do pampa sem recorrer aos clichês da literatura campeira. A visão diferenciada da fronteira começa na própria experiência pessoal do jornalista e escritor nascido em 1934 no sul gaúcho. Jaguarão, sua cidade natal, localiza-se na divisa com o município uruguaio de Río Branco. Tirou dali as referências para construir o contexto de culturas irmanadas e a eterna tentativa de fundir os idiomas de um lado e outro do rio, tão presentes em sua obra.
É mestre no conto,  mudando o foco utilizado de considerar o castelhano sempre como o anti-herói. Schlee não dá espaço para heróis. Deixa vir à tona os marginais silenciados pela história,permitindo não somente que os pequenos, incapazes de grandes feitos físicos ou morais, venham à tona, como também sejam focalizados na condição de seres humanos, revelando sua universalidade, focando a representação do homem sul-rio-grandense, independentemente de situação financeira, nacionalidade ou mesmo  realização de grandes feitos. o que garante aos textos de Schlee uma leitura sempre atual, visto que a condição humana é intemporal. Leia Os limites do impossível, que você vai gostar.
                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Aldy Schlee. Os limites do impossível (contos gardelianos). Porto Alegre, Ardotempo, 209, 204 pp., R$ 30,00