domingo, 2 de fevereiro de 2014

O Voo da Madrugada

O voo da madrugada, de Sérgio Sant'Anna (1941), é um livro híbrido. Divide-se em três partes, a primeira e a terceira são contos e estão intercaladas pela novela O Gorila, também dividida em três partes. Os temas de quase todas as histórias são a solidão e a morte, tratadas algumas vezes com humor irônico, para abrandar a atmosfera sombria das narrativas.
O personagem do conto Invocações afirma que sempre pairou no mundo a pergunta se existe o Diabo. Talvez ele exista, se existir Deus. Mas, ainda que houvesse uma possibilidade apenas, entre milhões, de que o Diabo existisse e pudesse apossar-se da alma de alguém em troca de uma grande fortuna artística ou de outra ordem, não se atreveria a evocá-lo. Mesmo que a obra não passasse de um simples conto, e o contista um pequeníssimo Fausto.  O que não quer dizer que ele, o contista, quando em desespero, não possa apelar para outras invocações, como a morte, por exemplo. Pois a existência de um ser para além da morte é algo em que se pode acreditar ou não, mas que os textos que lhe vieram à cabeça, independentemente do esforço que lhe custou a escrita e do seu modesto valor, sofreram em tudo a interferência da própria invocação e estão com ela intimamente relacionados. Disso não há a menor dúvida, como se verá nos contos de O voo da madrugada, Prêmio Jabuti de 2004, na categoria contos.
Na viagem que inicia esses contos de Sérgio Sant'Anna, um homem embarca num voo noturno em companhia de alguns cadáveres e de pessoas enlutadas. O absurdo da situação , porém, deve-se mais às especulações íntimas do personagem que narra, misto de atração e repulsa pela morte. Seus fantasmas interiores desdobram-se em fantasia, memória, alucinação e desejo sexual, sempre de forma ambígua.

 A solidão que persegue os personagens do livro de forma desesperada leva-os, muitas vezes,a  pensar em dar cabo da existência. À obsessão pela morte, associa-se forte carga erótica e também a busca pela forma perfeita.  Sedução, volúpia, imaginação, fantasia, morte, nos textos que fecham o livro, retomam essas figuras femininas, defendendo uma arte ligada de forma íntima à vida. A composição da escrita de Sérgio Sant'Anna alimenta-se de forças artísticas criadoras e destrutivas, indissociáveis, que permitem alcançara a fusão perfeita - morte, mas também viagem e delírio, como um voo na madrugada.
O autor nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Ganhou três prêmios Jabuti.

                                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Sérgio Sant'Anna. O voo da madrugada. SP, Cia das Letras, 2003, 248 pp. R$ 39,50

domingo, 26 de janeiro de 2014

Trilogia Suja de Havana

Ninguém goza mais do que ela. Assim ficamos unidos por muito tempo. Quando tirei o pau, estava melado de merda e ela sentiu nojo. Eu não. Eu tinha o cínico alerta, não dormia nunca. O sexo não é para gente escrupulosa. O sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, saliva, hálito e aromas fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se for apenas ternura e espiritualidade etérea, não passa de uma paródia estéril do que poderia ser.  Nada. (...) Fome.  Claro, só tinha no estômago um chá, uma fatia de melão e um café. Em casa comi um pedaço de pão com outro chá. Já estava me acostumando com muitas coisas novas na minha vida. Estava me acostumando com a miséria. A encarar as coisas como elas são. Treinava para abandonar o rigor, porque senão não sobreviveria. Sempre vivi carente de alguma coisa. Inquieto, querendo tudo de uma vez, lutando rigorosamente por algo mais. Estava aprendendo a não ter tudo de uma vez. A viver quase sem nada. Caso contrário, continuaria com a minha visão trágica da vida. Por isso agora a miséria não me afetava tanto.

Assim vive o personagem de Trilogia suja de Havana, que tem o mesmo nome do autor, Pedro juan Gutierrez. O livro é composto de crônicas que se passam no centro de Havana, onde reside grande parte da população que vem do interior para a capital, sob a crise de alimentação e moradia que assolou Cuba, na década de 90 do século passado, quando a União Soviética foi extinta e Cuba teve de se virar pelo avesso. Foi a partir daí, por exemplo, que os cubanos passaram a investir no turismo como uma das formas de abrandar um pouco a forte crise econômica da ilha.
O Pedro juan do livro mora em um quarto no terraço, em Centro Havana. Um bom lugar. O problema lá são os vizinhos e o banheiro coletivo. Lá vivem negros, velhas decadentes, algumas putas jovens, outras já destruídas, que foram putas de luxo em outros tempos; velhos bêbados e um monte de gente de Guantánamo que emigra em bandos e ninguém sabe o que fazer para caber vinte num quarto.Em Guantánamo entravam para a polícia e logo depois conseguiam transferência para Havana e levavam junto a família inteira. E se viram para morar todos num quarto de quatro metros por quatro, não se sabe como. O banheiro é o mais nojento do mundo, a merda chega até ao teto. Nesse banheiro cagam, mijam, tomam banho diariamente nada menos que duzentas pessoas. Sempre há fila. Mesmo que alguém esteja se cagando, tem que entrar na fila. Alguns, para fugir da fila, cagam  num papel e jogam o pacote de merda no terraço do edifício ao lado, que é mais baixo. Ou na rua. Tanto faz. Um desastre! Mas, quem  está em baixa, tem que se acostumar.

 Pedro Juan Gutiérrez, o autor, acredita que a arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira pode nos mostrar a outra face do mundo, aquela que nunca vemos ou nunca queremos ver para não causar incômodos à nossa consciência. Em Havana tudo está contaminado. Em última instância, são todos mestiços. A agitação é subterrânea. Basta arranhar um pouco a superfície e tudo explode, com a mesma brutalidade. O autor nasceu em Cuba em 1950 e exerceu os mais diversos ofícios: vendedor de sorvetes e jornais, instrutor de caiaques , cortador de cana-de-açúcar, operário agrícola, soldado, locutor de rádio e jornalista. Trilogia suja de Havana ganhou projeção internacional em 1998. Depois disso, escreveu mais quatro livros do chama Ciclo do Centro de Havana: O rei de Havana, O insaciável homem-aranha, Animal tropical e Carne de cachorro. Todos os livros desse ciclo constituem o relato sobre a vida em Cuba nos anos 90.  Através de sua literatura, conhecemos uma Cuba contraditória, vibrante e sensual, mas ao mesmo tempo um país duro e perigoso.

Gutiérrez vive em um prédio velho no centro de Havana e se diz simpatizante do regime cubano (Trilogia suja de Havana não pôde ser publicado em Cuba, inicialmente, mas na Espanha) por isso nega-se a responder a perguntas sobre a repressão e a censura em seu país. Faz parte de uma elite cultural, artística e esportiva que divulga Cuba no exterior. Talvez pudesse ganhar bem melhor exilando-se em algum país de língua espanhola, mas certamente não seria Pedro Juan Gutiérrez de seus personagens alegres, irreverentes e patéticos diante das dificuldades de um país pobre.
                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Pedro Juan Gutiérrez. Trilogia suja de Havana. Rio, Objetiva, 2008, 382 pp. R$

 

domingo, 19 de janeiro de 2014

A fera na Selva

Ele a reencontra, anos depois, em uma reunião de amigos, quando ela questiona sobre uma declaração que ele lhe havia feito naquela vez:  "Você me contou que sempre teve, desde os primeiros tempos, como a coisa mais profunda dentro de você, a sensação de estar sendo poupado para algo raro e estranho, talvez prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.  Isso que você falou já aconteceu?" A partir dessa revelação, os dois passam o resto da vida aguardando com obstinada intensidade que aconteça essa coisa extraordinária, como uma fera emboscada na selva, pronta para saltar a qualquer momento. Enquanto envelhecem, vão tecendo, com sentimentos à flor da pele, um sutilíssimo embate de emoções, no jogo da relação afetiva entre dois seres a quem o amor uniu sem que eles saibam.
A lembrança desse esquecimento  acaba trazendo-o para a luz do dia. A sorte rara de haver outra vez esbarrado no lugar exato o tornou indiferente a tudo mais; sem dúvida dedicaria mais tempo ao seu esquisito lapso de memória, se não fosse levado a dedicar mais ao alívio, para o futuro que o próprio lapso ajudou a conservar. Nunca fizera parte de seus planos que alguém pudesse saber, principalmente pela simples razão de que não estava nele contar a ninguém. Isso teria sido impossível, pois não poderia esperar nada de impossível, pois não poderia esperar nada de um mundo indiferente, a não ser que se divertissem com aquilo. Desde que  o misterioso destino veio abrir em tempo a sua boca, considerou isto uma compensação da qual tiraria o maior proveito. A ideia de que a pessoa certa é que sabia amenizava a aspereza do seu segredo bem mais do que a timidez poderia deixá-lo imaginar. Ele se considerava a pessoa mais desinteressada do mundo, carregando sempre discretamente a sua pesada carga, jamais tocando no assunto, não mostrando aos demais sequer um lampejo dela, ou dos efeitos sobre sua vida, não pedindo a compreensão de ninguém e somente dando, por seu lado, aquela que lhe pediam. Deu-se conta, então, que o que acabou acontecendo é que ele passou a usar uma máscara pintada com o sorriso social, de cujas frestas emanava um olhar de uma expressão que nada tinha a ver com as suas feições. Era o que o mundo estúpido, mesmo depois de tantos anos, jamais descobriu senão em parte. Somente ela chegara a fazê-lo, e, com uma arte indescritível, realizava a façanha de encarar os olhos de frente e ao mesmo tampo - ou talvez fosse apenas alternadamente - intrometer sua própria visão, como por sobre o ombro dele, espiando também através das frestas da máscara.

O que incomoda positivamente o leitor nessa narrativa curta característica da narrativa de Henry James pelo uso de uma linguagem densa e intricada (que a tradução de Fernando Sabino procurou atenuar), é o complexo funcionamento da consciência humana. A fera na selva é a história de algo que não acontece. Ao desenrolar dos encontro dos dois durante, vai-se criando a sensação incômoda de que o que deve ser dito poderá não acontecer. Uma pulsão amorosa reprimida até a perda, pela covardia.

Há duas traduções para o português de A fera na selva. Recentemente a Cosac Naify lançou a obra com a tradução de José Geraldo Couto, com posfácio de Modesto Carone em edição esmerada, característica da Cosac (R$ 45,00). A tradução mais antiga é de Fernando Sabino, que traduziu a obra para a coleção que coordenou para a Editora Rocco sobre grandes novelas da literatura universal. Foi essa edição que eu li.
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henry james. A fera na selva.  Rio, Rocco, 2011, 96 pp, R$ 19,50

domingo, 12 de janeiro de 2014

Suttree


O narrador de Suttree com uma carta:
"Caro amigo, nas horas poeirentas e intemporais da cidade, agora que as ruas jazem negras e exalam nuvens de vapor na esteira dos camiões-cisterna e agora que os bêbedos e os sem-abrigo desaguaram nas vielas e nos terrenos baldios, abrigados junto aos muros, e os gatos vagueiam nas soturnas cercanias, esguios e de espáduas altaneiras, agora nestas galerias empedradas ou de tijolos enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fios eléctricos formam uma harpa espectral nas portas das caves, ninguém caminhará senão tu."

O narrador nos aponta um mundo distante e abandonado em  Knoxville (a terra em que Cormac McCarthy viveu durante o tempo em que seu pai lá trabalhou como advogado),  uma cidade pobre do sul dos Estados Unidos, na década de 1950. Há ruas sujas, com ossos fossilizados ocultos nas suas estrias, pessoas pobres caminhando e sujando os pés em ruelas arenosas onde repousam carros destroçados sobre muradas de tijolos, árvores magras e escuras, lâmpadas partidas à pedrada, casas desalinhadas onde crescem flores sujas, trilhos onde repousam vagões que se perdem nas trevas. Junto ao rio, há pedaços de caixotes apodrecidos, preservativos, cascas de frutas, latas enferrujadas, excrementos, lâmpadas estilhaçadas, formas nauseabundas de fetos tumefatos. Junto a esse cenário, o rio nos mostra pequenas plantações de milho e hortas para consumo próprio de homens e mulheres pobres, alguns bêbados,  vivendo em condições miseráveis. É nesse lugar nojento e até mesmo amedrontador que Cormac McCarthy dá voz aos marginais vivendo segundo cânones e regras que escapam à compreensão da maioria social economicamente estabelecida. O personagem central do romance, Cornelius Suttree, é um homem solitário que vive dentro de uma embarcação que usa para pescar peixes podres que vende na cidade para sobreviver. A narrativa abarca o período entre 1950/1955. Durante o desenrolar da história, ficamos sabendo que Sutree vive nesse mundo degradado como opção de vida. Filho de uma família com certas posses, tinha problemas de relacionamento com o pai, afastando-se de casa. Essa escolha é clara para Sutree, mas não deixa de lhe ser torturante. Ele passa todo o romance em busca de qualquer coisa que não sabe bem o que seja, embora compreenda perfeitamente que não poderá voltar atrás a essa escolha. Por isso, o personagem carrega consigo uma profunda e desoladora solidão. Também carrega consigo uma angústia imensa, uma incapacidade de se entregar aos outros de corpo e alma. Essa atmosfera trágica não deixa, entretanto, de apresentar situações burlescas, um humor escatológico, sim, mas com situações engraçadas que iluminam o âmago tenebroso da narrativa.
Suttree está merecendo uma boa tradução brasileira. Quem sabe a editora Objetiva, quem vem publicando suas obras no Brasil venha a fazer isso brevemente. Se você tiver curiosidade em conhecer essa obra-prima, terá de recorrer à edição portuguesa da Relógio D'Água, com tradução de Paulo Faria. Um exemplar novo leva em torno de 60 dias para chegar a suas mãos, ainda que você não pague imposto sobre livro estrangeiro. Mas valerá a pena. O romance é muito, mas muito bom!

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Cormac McCarthy. Suttree. Lisboa, Relógio D'Água, 2009, 496 pp, R$ 96,80

domingo, 5 de janeiro de 2014

Meridiano de Sangue

Mesmo que Deus exista, nada pode fazer por nós. Em Meridiano de sangue, Cormac McCarthy (1933) parece nos dizer que estamos abandonados e nosso único confronto é com nossa própria existência. A personagem principal, o Kid, órfão de mãe, foi esquecido pelo pai. Largado no mundo, leva um tiro nas costas aos quinze anos de idade. Envolve-se num bando de mercenários, mas logo se vê no meio de um ataque de apaches (por ironia, uma das cenas mais fortes da narrativa). Vai para a prisão e logo é contratado pelo capitão Glanton para ir com seu grupo caçar mais índios e um mexicano. Será ali que reencontrará um sujeito que sempre o acompanhou desde os tempos de infância, o juiz Holdem. Leia a cena do ataque dos apaches ao grupo:

Já se podia ver, por entre a poeira, pintados sobre o couro dos pôneis, asnas e mãos e sois nascentes e pássaros e peixes de todos os feitios como vestígios de trabalho antigo sob o selante de uma tela e agora também se podia ouvir acima do martelar dos cascos desferrados o sopro das quenas, flautas de ossos humanos, e alguns dentro da companhia começaram a olhar para trás em suas montarias e outros a se atropelar em confusão quando de um ponto além daqueles pôneis assomou uma horda fantástica de lanceiros e arqueiros a cavalo portando escudos adornados com pedaços de espelhos quebrados que lançavam mil sóis fragmentados contra os olhos de seus inimigos. Uma legião medonha, às centenas em números, seminus ou vestidos em trajes áticos ou bíblicos ou ataviados como num sonho febril com as peles de animais e ornatos de seda e peças de uniforme ainda marcadas pelo sangue de seus donos originais, capotes de dragoons trucidados, casacos de cavalaria com galões e alamares, um de cartola e outro com um guarda-chuva e mais outro com longas meias brancas de mulher e um véu de noiva manchado de sangue e alguns com cocares de penas de grou ou capacetes de couro cru ostentando chifres de touro ou búfalo e um metido em um fraque ao contrário e de resto nu e outro com a armadura de um conquistador espanhol, o peitoral e as espaldeiras com fundas mossas de antigos golpes de maça ou sabre feitos em outro país por homens cujos ossos eram agora pó e muitos ainda com suas tranças entrelaçadas ao pelo de outras feras a ponto de arrastar no chão e as orelhas e rabos de seus cavalos ornamentados com retalhos de tecidos coloridos brilhantes e um cujo animal tinha a cabeça inteira pintada de escarlate e os rostos de todos os cavaleiros lambuzados de tinta de um jeito espalhafatoso e grotesco como uma companhia de palhaços a cavalos, hilários mortais, todos ululando em uma língua bárbara e caindo sobre eles como uma horda de um inferno ainda mais horrível que o mundo sulfuroso do juízo cristão, guinchando e gritando e amortalhados em fumaça como esses seres vaporosos de regiões além da justa apreensão onde o olho erra e os lábios balbuciam e babam. (...) uma sonora revoada de flechas atravessou a companhia e homens cambalearam e tombaram de suas montarias. Cavalos empinavam e mergulhavam e as hordas mongólicas os envolveram pelos flancos e viraram e investiram à plena carga com suas lanças.= (59/60)

A violência, que parece fazer parte de quase toda a narrativa de McCarthy, transmite um problema moral repleto de ambiguidade, provando que, apesar de todo o caos, nele existe uma ordem que poucos têm a coragem de aceitar.  O autor usa de uma violência em prol de uma causa maior. Cria imagens poéticas da violência. A narrativa borbulha descrições poéticas e ações e situações que alimentam a vontade de ler o livro quase sem parar. O kid passa por um aprendizado da sua própria violência e a dos outros para depois, ao reencontrar o juiz no final romance, chegar à conclusão de que há algo além das carnificinas que testemunhou. As lições do mal de McCarthçy educam seus personagens. A observação detalhada e poética da natureza é como um espelho da alma do protagonista, um solitário arredio a uma sociedade que se moderniza sem nenhum respeito pela tradição que se despede. A solidão é o mote principal da condição humana. A noção pessimista quase mórbida do ser humano, em que um mal lógico é identificado como a origem de uma violência que, se provoca ainda mais desgraça, também pode regenerar o mundo; escolhas que ninguém sabe por que são feitas, para que ele sinta em cada um de seus ossos a solidão que permeia a vida dessas pessoas, a solidão que enfim os faz se aproximar cada vez mais da morte, seja de si mesmos ou do lugar onde moram, prontos a se tornarem lendas, mitos, pó.

O luiz Holden, albino, desprovido de pelos, enorme na altura e na largura, perito em armas brancas e de fogo, culto em várias línguas, um gentleman que encanta as mulheres com suas danças e, ao mesmo tempo, estupra criancinhas, escalpelas índios apaches sem nenhuma hesitação e anota minuciosamente todas as coisas ao seu redor em um livro de couro para despois apagá-las de sua existência, sem deixar nenhum rastro. A conversa definitiva que ele tem ao reencontrar o garoto, quase no final da narrativa, desconcerta:

Os homens nasceram para os jogos. Nada mais. Qualquer criança sabe que brincar é mais nobre que trabalhar. Sabe também que o valor ou mérito de um jogo não é inerente ao jogo em si, mas antes ao valor do que está em risco. Jogos de azar exigem uma aposta para significar alguma coisa. Jogos esportivos envolvem a habilidade e força dos oponentes e a humilhação da derrota e o orgulho da vitória são em si mesmos aposta suficiente pois estão indissociavelmente ligados ao valor dos envolvidos e os definem. Mas seja qual for a prova, se de sorte ou valor, todo jogo aspira à condição de guerra pois nesse caso o que se aposta suprime tudo, jogo, jogadores, tudo. (...) Imaginem dois homens jogando cartas sem outra coisa para apostar além de suas vidas. Quem já não ouviu falar de algo assim. A virada de uma carta. Para esse jogador o universo inteiro avançou laboriosamente em todo o seu fragor para chegar a esse momento que dirá se ele vai morrer na mão daquele homem ou se ele morrerá da sua. Que confirmação mais definitiva o valor de um homem pode ter que essa? Essa intensificação do jogo a sua condição suprema não admite qualquer discussão relativa a ideia de destino. A seleção de um homem em detrimento de outro é uma preferência absoluta e irrevogável. E é um estúpido genuíno aquele capaz de supor decisão assim tão profunda sem um agente ou significação, uma coisa ou outra. Em tais disputas em que está em jogo é a aniquilação do derrotado, as decisões são cristalinas. Esse homem, segurando esse arranjo particular de cartas em sua mão, é por isso removido da existência. Essa é a natureza da guerra cuja aposta é, ao mesmo tempo, o jogo, a autoridade e a significação. Vista dessa forma, a guerra é a forma mais legítima de divinação. Significa pôr à prova a vontade de um indivíduo e a vontade de outro no contexto dessa vontade mais ampla, que, ao ligar a deles é, por conseguinte, forçada a selecionar. A guerra é o jogo supremo, por que é, em última instância, um forçar da unidade da existência. A guerra é Deus. Não faz diferença o que o homem pensa da guerra, a guerra perdura, é a mesma coisa que perguntar o que o homem pensa da guerra. A guerra sempre vai existir. Antes do homem aparecer, a guerra estava a sua espera. A ocupação suprema, a espera, do praticante supremo. Assim foi e assim será. Assim e de mais nenhum outro jeito. (261)
Para o leitor que gosta ou quer conhecer melhor a obra de Cormac McCarthy, recomendo o ensaio esclarecedor de Martim Vasques da Cunha, no Jornal Rascunho: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-visao-do-abandono/

Meridiano de sangue é considerado obra-prima de Cormac McCarthy. Tem tradução de Cássio de Arantes Leite
                                    
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Cormac McCarthy. Meridiano de sangue. Rio, Objetiva, 2009, 352 pp, R$ 49,90

 

 
 

domingo, 29 de dezembro de 2013

O Jardim do Passado

O Jardim do Passado é o último romance da trilogia do Cairo. Estamos no ano de 1935. Faz 15 anos que a revolução para a independência do Egito começou, mas os ingleses ainda estão por toda parte. A velha tradição egípcia ainda apresenta sinais de vida. Para Ahmed Abd el-Gawwad, o patriarca da família, o tempo do esforço, da luta e dos prazeres estava acabado.  Agora,  ele se curva no canto da aposentadoria, dando adeus ao mundo do futuro para saudar o da velhice, da doença, da espera e do definhamento do coração  tão loucamente apaixonado pelo mundo e por seus prazeres, já que a fé era para ele apenas uma de suas alegrias, uma incitação a se recolher. Nunca, até então, conhecera a devoção austera que faz renunciar ao mundo e erguer os olhos para o além. Certamente, a loja não era mais "sua loja", mas como apagar a lembrança dela, que tinha sido o centro de sua atividade, o alvo dos olhares, o ponto de referência dos amigos e dos irmãos, a fonte de honra e prestígio? Só lhe restava, agora, o consolo. Casara suas filhas, educara seis filhos, vira nascer seus netos, que tem dinheiro bastante para sustentá-lo até a morte. Provara bastante o sumo da vida. Chega, agora, ao tempo de dizer obrigado. É um dever agradecer a Deus sem cessar, sem nostalgia.
 Kamal, o filho mais novo, agora com 30 anos, é o professor que sempre quisera ser. Transformara-se no vagabundo a explorar campos infinitos do pensamento, lendo, tomando notas que depois eram reunidas em seus artigos. Nisso, a sede de conhecimento, o amor à verdade, o espírito de aventura imaginário motivara seu esforço, como o desejo de se consolidar e se distrair do clima sinistro que o submergia, desse sentimento de solidão que jazia no seu âmago. Certa vez, encontrou Latif,  o amigo da adolescência, quando discutia política e conhecera Aída, que se casara com Hussein, outro amigo rico. No espaço de alguns anos, de 1924 a 1935, um novo Latif nascera, mas  permanecia, apesar de tudo, o velho e eterno amigo. Kamal pôs-se a olhar o amigo com uma curiosidade redobrada. Tinha diante de si um outro indivíduo, sem relação comum  com o Ismail Latif com quem convivera entre 1921 e 1927, esse período único de sua vida que ele vivera intensamente, do qual nem um minuto se passara sem alegria profunda, da verdadeira amizade encarnada em Hussein Sheddad, do puro amor cristalizado em Aída, do ardor impetuoso nutrindo à chama da revolução egípcia; o das experiências violentas em que o tinham lançado a dúvida e os caprichos da carne. Este mesmo Ismail Latif tinha sido o símbolo daquela época, o iniciador eminente. Mas tinha ele hoje a ver com aquilo? Talvez a lembrança viva de um passado fabuloso. Kamal pode-se orgulhar de que o passado não foi um sonho.

A narrativa segue, neste último volume da trilogia do Cairo, com os sobrinhos de Kamal, jovens e idealista. O Egito, no campo político, continua atrelado, ainda, à Inglaterra, apesar da independência. O mundo estava se preparando para enfrentar a Segunda Guerra Mundial.
                                                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Naguib Mahfouz. O jardim do passado. Rio, Record/Best bolso, 2008, 434 pp, R$ 22,00

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Palácio do Desejo


Nagib Mahfuz situa o segundo volume da trilogia do Cairo no período pós-independência do Egito, na terceira década do século XX. Em O Palácio do Desejo, Kamal, o filho mais do patriarca Ahmed Abd el-Gawwad, que no volume anterior (Entre dois palácios) tinha 10 anos, agora é um jovem belo, sensível e idealista, que busca seguir seu coração, optando por fazer a Escola Normal para ser professor, contrariando, assim, a vontade do pai, que o queria advogado ou médico. O pai lhe diz com desprezo que o trabalho de professor é um trabalho de miséria que não tem o respeito de ninguém. Diz que o filho é um fedelho, não sabe de nada . Ensinar é um ofício em que o pequeno burguês vestido à moda europeia se mistura sem distinção ao estudante piolhento dos subúrbio. Um ofício desprovido de qualquer grandeza, de qualquer glória. Entretanto,  Kamal mantém-se irredutível: o papel do professor é difundir o saber. Discordava do preconceito de que a riqueza ou a pobreza pudessem constituir critérios de apreciação do saber ou que este pudesse ter um valor extrínseco. Queria também ser professor para atingir uma meta maior, ser filósofo. A filosofia, para ele, é a disciplina que funde todas as questões relativas ao que seja Deus, ao que seja o homem, a alma, a matéria.  Na faculdade, torna-se amigo de dois jovens da aristocracia egípcia que estudam direito, para satisfazer o desejo das famílias. Inicialmente a amizade ocorre tranquila, até Kamal se apaixonar por Aída, que participava de vez em quando das discussões do grupo. Antes de declarar seu amor a ela, um dos amigos atrapalha suas intenções. É quando Kamal passa a sofrer o preconceito relativo a sua classe social. Aída casa-se com o amigo de Kamal. Mas o amor do rapaz pela moça permanece até o final da narrativa, transformando-o em um jovem sombrio e solitário.
As ruelas, as casas, os palácios, as mesquitas,  as pessoas e o cotidiano da família Gawwad continuam sendo retratadas de forma brilhante por Nagib Mahfuz neste segundo volume. O estilo severo e contraditório do pai dessa família fica abalado por diversos acontecimentos além dos ideais de Kamal. Yasine, o filho mais velho, divorcia-se, casa com a moça que havia sido a grande paixão de, o segundo filho, proibido de desposá-la. Depois volta a casar, dessa vez com  a concubina que era uma das amantes de seu pai. Amina, a mãe submissa, continua a desenvolver o afeto pelos filhos e o respeito ao pai.

O palácio do desejo vale muito a leitura! A bela tradução do francês foi feita por José Augusto de Carvalho
                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Nagib Mahfuz. O palácio do desejo. Rio, Bestbolso (Record), 2008, 644 pp, R$ 25,00

 

domingo, 15 de dezembro de 2013

A Grande Arte

Percor = abreviatura de perfurar e cortar. Arte de usar armas brancas com exímia habilidade, com o objetivo de defesa e/ou ataque.  O termo é utilizado por Rubem Fonseca (1925) como A Grande Arte, em seu romance homônimo. Hermes, um dos personagens do romance e mestre do percor, nos diz que um especialista na arte de matar uma pessoa busca suas artérias. A carótida é sempre fácil de atingir. Um corte de três centímetros de profundidade faz o indivíduo perder a consciência em alguns segundos. A veia favorita de Hermes é a subclávia. A perfuração tem que ser de seis centímetros, é uma artéria que não deve ser procurada numa luta com um adversário difícil, pois, para atingi-la usa-se necessariamente uma empunhadura de maneabilidade reduzida. Quando alcançada, o sangue irrompe num jato forte como uma mangueira de bombeiro, a consciência é perdida em dois segundos e a morte sobrevém no terceiro . O alvo ideal deve ser o  coração. A perda de consciência é instantânea e, se o aço penetrar os oito centímetros apropriados, a morte ocorrerá em dois segundos. O intestino não é um ponto vital. Entre os alvos secundários, o estômago será melhor, se a penetração for de doze ou treze centímetros.

Em A Grande Arte, um assassino conhecia todas as técnicas do uso da faca, era capaz de executar as manobras mais difíceis com inigualável habilidade, mas a usava para escrever a letra P. no rosto de algumas mulheres, quando deitavam a seu lado, falando banalidades. Não imaginava porque fazia aquilo. Talvez fosse por puro prazer, já que não se considerava um psicótico puritano querendo conjurar a congênita corrupção feminina. O detetive Mandrake é designado para desvendar esses assassinatos e prender o assassino. Durante essa trajetória, acaba descobrindo descendentes de famílias aristocráticas falidas envolvidos em forte esquema de corrupção, tráfico de drogas e outras atividades ilícitas.

Rubem Fonseca foi inspetor de policia antes de ser escritor, por isso mesmo sabe lidar muito bem com as situações enigmáticas que envolvem um crime. Dono de uma linguagem objetiva, traz para a literatura personagens pouco explorados , até então, com uma riqueza de detalhes e situações que beiram o insólito, sempre com uma ironia fina. O mestre do percor, que Mandrake se aconselha para aprender a grande arte com a finalidade de entender a personalidade do assassino, acaba sendo morto por um boliviano, Camilo Fuentes, um dos bandidos da história, de maneira imprevisível. Considero A Grande Arte o melhor livro de Rubem Fonseca, ao lado de A Coleira do Cão, livro de contos. O livro foi publicado pela editora Francisco Alves, em 1983. Depois pela Companhia das Letras e, recentemente, pela Editora Agir, detentora dos direitos autorais do romancista.
                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Rubem Fonseca. A Grande Arte. Rio, Agir, 2013, 528 pp, R$ 49,90

domingo, 8 de dezembro de 2013

Jaime Bunda, detetive particular

Jaime, um jovem negro angolano, é gordo, com uma bunda saliente. Daí seu apelido. Trabalha como aspirante a detetive numa delegacia onde é ridicularizado pelos colegas por causa do excesso de peso e por se movimentar pouco. Mas Jaime está longe de ser um parvo, pelo contrário, é muito inteligente e sagaz. Sua história começa quando é designado a descobrir o assassino de uma menina de 14 anos, morta brutalmente.  Jaime descobre um suspeito, através da descrição do carro por uma testemunha. Trata-se de um figurão. Junto a isso, descobre o envolvimento do suspeito com um casal de argelinos que ingressara em Angola clandestinamente num cartel criminoso.  Então, o autor da história de Jaime decide demitir o narrador, por estar conduzindo a história com monotonia. Introduz o segundo narrador, a mulher do argelino, revelando os detalhes do envolvimento dos árabes no mistério que Jaime Bunda busca desvendar. Entretanto, se o autor continuar com a narradora árabe, provavelmente vá deslocar a história pelos fabulosos haréns dos sultões e califas das Mil e Uma Noites, perdendo, assim, o espantoso Jaime Bunda e sua infatigável luta contra os horrendos crimes cometidos em Luanda, razão de seus propósitos (do narrador). E como todos devem ter uma segunda chance na vida e o sofrido tempo que vivemos é de proclamar paz e tolerância, dá novamente a palavra ao primeiro narrador, na esperança de que tenha aprendido com seus erros e críticas. Ficamos, assim, conhecendo o lado amoroso de Jaime e seu rolo com Florinda, mulher mais velha e casada com um militar, com quem Bunda mantém um romance um tanto conturbado. Tentativas de afastar o marido de Florinda levam Jaime a pagar um preço nada baixo pela proeza. Finalmente, entra em cena o quarto narrador, para finalizar a história. É quando ficamos sabendo que por trás do crime da adolescente e do envolvimento dos árabes há forte sistema de corrupção, ficamos também sabendo que em Angola, mesmo depois da Revolução que libertou o país, tudo continua igual. As novas figuras notáveis que ocupam a pirâmide social de Angola são iguais ou pior aos velhos.

Ganhei o livro de presente de dois amigos que andaram viajando por Portugual. Foi uma grata surpresa descobrir Pepetela. Jaime Bunda, agente secreto, é um livro de humor. Mas não pense tratar-se de um humor despretensioso calcado no besteirol. Pepetela usa do humor inteligente para nos fazer pensar. Pepetela (1941) é angolano descendente de uma família colonial portuguesa, seus pais também nasceram em Angola. Participou da luta pela libertação de Angola, com o  MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), por isso sua crítica tem fundamento prático, pois viveu a história de Angola.  É dono de vasta obra que começa a ser divulgada no Brasil.  Jaime Bunda, agente secreto pode ser encontra em e-book na Livraria Cultura. Um livro em excelente estado pode ser encontrado na Estante Virtual por 32 reais. Dá para comprar um exemplar novo em sítios portugueses, mas é preciso paciência para esperar 5 semanas para receber o livro. Livro importado não paga imposto. Quando esteve participando de uma mesa de debates em Porto Alegre, nesta última Feira do Livro, Pepetela nos deu a boa notícia de que sua obra começará a ser comercializada no Brasil brevemente.
                                              paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Pepetela. Jaime Bunda, agente secreto. 10ª ed, Editora Dom Quixote (Portugal), 2012, 336 pp

domingo, 1 de dezembro de 2013

A Sibila

Agustina Bessa-Luís (1923) é das grandes da literatura universal, mas o mercado brasileiro, por razões que a própria razão desconhece, quase não a publica aqui: as únicas exceções foram A Sibila, Sebastião José (ambos pela Nova Fronteira), Vale Abraão (Planeta) -os três esgotados- e os infantis Dentes de Rato e Sombra, Areia e Amoras Bravas (ambos pela Peirópolis). Agustina possui obra extensa, são aproximadamente 40 romances, além de obras teatrais, juvenis, biografias e crônicas. O cineasta português Manuel de Oliveira já encenou diversas obras dela. Considerada por muitos críticos literários superior a José Saramago e Lôbo Antunes, tem tido, por parte do mercado editorial, certa inibição em divulgar sua excelente obra aos brasileiros. As razões, segundo estudiosos da autora portuguesa, seriam talvez a falta de conhecimento da literatura portuguesa, o interesse dos editores de sempre querer vender o que pode render lucro fácil, e a linguagem refinada da escritora, que exigirá do leitor sensibilidade para compreender suas figuras humanas quiçá reduzidas a símbolos mitológicos, vivendo histórias fora do alcance humano.

Em A Sibila, acompanhamos a vida de Quina, uma das filhas de Francisco e Maria, desde o momento em que o pai desaparece e ela tem de tomar as rédeas da casa e dos bens rurais da família. Seu pai afastava-se frequentemente por motivo de trabalho e as mulheres permaneciam longo tempo sem a presença de homem. O desleixo do pai pelas terras, causou o desequilíbrio doméstico da família, falta de dinheiro para desenvolver o gado e a lavoura. A mãe de Quina sentia-se sobrecarregada com o fardo que sua vida inteira talvez não pudesse carregar. Os filhos homens eram omissos. Coube a Quina cuidar da família, com a morte do pai. 
Não parecia destinada ao casamento. Teve um antigo candidato que se havia casado com outra. Ele a visitava depois disso, para contar-lhe seus intrincados problemas financeiros. Quina habituara-se a vê-lo aparecer com uma imagem depreciada, melancólica. A razão sobrepôs-se ao sentimento e passou a ser a conselheira dele nas visitas frequentes que a compensava um pouco da solidão da sua vida sem conforto de um braço mais forte e até duma inteligência em que seria bom reconhecer superioridade. Os prazeres femininos, o amor e a passividade espiritual, as ninharias dum sentimento ou dum capricho que nascem dessa euforia tirânica que as mulheres gostam de exercer sobre aquele a quem sabem ter dominado pelos sentidos, isso lhe foi negado. Restava-lhe satisfazer a vaidade e atingir, por imposição da personalidade, tudo quanto teria dispensado, se tivesse sido uma mulher apenas de temperamento. Dedicou-se a evoluir, a enriquecer seu patrimônio, para manter-se independente. Aos poucos vai envelhecendo em contatos esparsos com os irmãos que a invejavam, mas mantinham-se como desocupados. Certa vez, decide acolher um jovem bruto, quase um parvo, que fora copeiro de uma condessa rica que morrera. A entrada desse jovem em sua vida vai estremecer sua relação com a família e os demais seres com quem convive.

História belíssima, contada com requinte que encanta ao mesmo tempo que desequilibra o leitor mais sensível. A Sibila pode ser encontrada em sebos por preços razoáveis. A Livraria Cultura tem em seu catálogo a edição portuguesa por R$ 81,20, mas leva dez semanas para chegar às mãos do leitor, por causa da burocracia na importação. Livros comprados fora do Brasil não somam  impostos de importação. Os problemas são o alto preço do frete e o tempo de envio.

                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Agustina Bessa-Luís. A Sibila. Lisboa, Guimarães Editores, 2009, 298 pp.

domingo, 24 de novembro de 2013

O Grande Mentecapto

Apesar da estrada, que ele já apanhou bastante mais movimentada e atraente, a infância de Geraldo Viramundo transcorreu como a de seus irmãos.Como seus irmãos ele comeu terra, botou lombrigas, arrebentou cupim para ver como era dentro, seguiu as formigas para ver aonde iam, misturou açúcar com sal no armazém, furtou garrafa de guaraná e depois mijou dentro botando no lugar para o pai não descobrir, brincou com fogo e mijou na cama, brincou de pegador, tic-tac carambola, este dentro e este fora, matou passarinho com bodoque, enterrou ovo choco e fez fogo em cima para ver se nascia pinto, foi mordido de marimbondo e ficou de cara inchada, amarrou lata vazia em rabo de gato, fez galinha dançar em cima de lata quente, contou com o ovo no rabo da galinha, enfiou o dedo no rabo dela, teve sarampo, catapora, caxumba e coqueluche, pegou sarna para se coçar, correu de boi bravo, botou cigarro na boca de sapo para ele fumar até rebentar, se
escondeu na cesta de roupa suja para ver a irmã mais velha tomar banho, quis pegar a irmã mais nova e depois teve remorso, perdeu a virgindade numa cabrita,fugiu de casa e apanhou e por isso tornou a fugir e por isso tornou a apanhar, construiu casinhas de barro, caiu da árvore e se machucou, comeu manga com leite e adoeceu, contou as estrelas do céu e ficou com berrugas, pegou carona em caminhão, aprendeu a ler na escola, fez do travesseiro o corpo da professora, teve medo do João Carangola que fugiu da prisão e gostava de menino, assobiou e chupou cana ao mesmo tempo, fumou cigarro de chuchu, fez coleção de favas, foi à missa aos domingos, assistiu fita de Tom Mix, Buck Jones e Carlitos no cineminha da cidade, apanhou bicho-de-pé, pisou em urina de cavalo e ficou com mijação, armou arapuca no mato, jogou futebol com bola de meia, teve dor de dente de noite, foi coroinha na igreja, contou quantas vezes fazia coisa feia para se lembrar na confissão, procurou não mastigar a hóstia para que não saísse sangue, fez flautinha de bambu, ficou preso pela piroca num gargalo de garrafa, molhou o pijama de noite e teve medo de estar doente, ficou com pedra na maminha e perguntou à mãe o que era, se apaixonou pela filha mais velha dos italianos do empório, tirou o cavalinho da chuva, pensou na morte da bezerra, chorou escondido, teve medo, descobriu que o céu era imenso, teve vontade de morrer, ficou acordado de madrugada ouvindo o galo cantar sem saber onde, sentiu dores nos culhões, comeu a negra Adelaide e virou homem.”

Numa tarde de sábado, o sino da igreja tinha acabado de bater, havia silêncio pairando sobre as árvores e as coisas ao redor e ele estava deitado debaixo de uma mangueira no quintal de sua casa. Então se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar meio para longe: centenas de vezes tinha estado ali, naquela mesma posição, era uma paisagem conhecida e tão familiar como o seu próprio modo de viver, que nela se completava. Mas naquele mesmo instante uma buzina de automóvel soou na estrada, um boi mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo lá longe na ponte, um vento leve começou a sacudir a ramagem das árvores. O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a que tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudade da infância - quando, minutos mais tarde, se ergueu e caminhou em direção à casa, percebendo que não era mais menino.

Foi levado por um padre para o seminário. Saiu do seminário e fez longa viagem de Mariana a Ouro Preto, onde conheceu a amada da vida inteira. Em Barbacena, colheu rosas e espinhos, acabando internado em um hospício. Foge de lá e se candidata a prefeito da cidade. Não ganha a eleição, mas passa por mirabolantes aventuras no Esquadrão de Cavalaria em Juiz de Fora, fazendo façanhas militares durante as manobras militares, que o leva a ser expulso do  Esquadrão. Depois, passa um tempo na prisão. Sai da prisão atravessando uma crise espiritual que o leva à desesperança em Congonhas do Campo. Passa por maus bocados em Uberaba, buscando cumprir seu destino, reverenciando a literatura mineira, passando a noite com um fantasma e quase morrendo por uma mulher. Finalmente, em Belo Horizonte, entre retirantes, mulheres, doidos e mendigos, cumpre seu destino.

Fernando Sabino escreveu O Grande Mentecapto seguindo a forma de romance picaresco, subgênero literário que descreve a vida de personagens supostamente  ardilosos e espertos (por serem sonhadores, passam por tolos) , vivendo  as peripécias da vida com o objetivo de alcançar seus ideais. Dom Quixote e Memórias de um Sargento de Milícias são romances  picarescos. No caso do mentecapto de Fernando Sabino, ele é colocado na luta pela vida por vontade dos outros. Essa trajetória, engraçada e trágica, o faz perceber que a alegria e a felicidade que se vive na infância, podem transformar-se em martírio e dor. Sabino começou a escrever a obra em 1946, interrompida em seu início e retomada em1979, quando o autor já estava amadurecido e seus méritos literários reconhecidos  como escritor. Vale a pena ler e reler. A obra encontra-se esgotada. Nos sebos virtuais é possível achar um exemplar em excelente estado de conservação por um preço entre 10 a 20 reais.

                                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Fernando Sabino. O Grande Mentecapto. 70ª ed., Rio, Record, 2007, 258

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Arthur Schnitzler

Com  De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, descobri e passei a gostar de Arthur Schnitzler (1862-1931). Médico de formação, era dramaturgo, romancista, contista e ensaísta. Foi contemporâneo e amigo de Sigmundo Freud. A película de Kubrick foi baseada em sua novela Breve romance do sonho. No filme, Bill Harford (Tom Cruise) é casado com a curadora de arte Alice (Nicole Kidman). Ambos vivem felizes, até que, logo após uma festa, Alice confessa que sentiu atração por outro homem no passado e que seria capaz de largar Bill e sua filha por ele. Bill fica desnorteado e  sai pelas ruas de Nova York, assombrado com a imagem da mulher nos braços de outro. Acaba infiltrando-se em uma reunião secreta numa mansão afastada. Lá, vive emoções fortes e perigosas, reconhecendo pessoas de seu convívio social, ainda que todos estivessem mascarados. A novela de Schnitzler passa-se em Viena, quando o casal Fridolin e Albertine conversam sobre o que aconteceu no baile de máscaras que acabaram de participar. A conversa envereda por pontos de sedução, ambos trocando confidências sobre seus desejos e fantasias sexuais, até que a infidelidade causa uma ruptura emocional em Fridolin. O ciúme é o ponto de apoio entre os dois. A sequência da história é uma aventura alucinante pela noite, culminando numa orgia assustadora. Schnitzler nos diz que, mesmo acordado, não se pode deixar de sonhar.

Em Doutor Gräsler: Médico das Termas (a obra foi reeditada pela Record com o nome de Médico das Termas, pelo mesmo tradutor),Schnitzler nos apresenta o médico Emil Gräsler, convidado a trabalhar nas termas de um balneário. No mundo local em que se relaciona, mostra-se gradativamente um homem sem disposição para firmar vínculos de qualquer natureza, seja na profissão, com as mulheres e os amigos. O autor desenvolve aqui um recurso literário de que foi um dos precursores na literatura: o monólogo interior ou fluxo de consciência. Através dessa estratégia, ficamos acompanhando o pensamento íntimo do personagem que pouco revela de si exteriormente. Os avanços e recuos nas tentativas de amar, o sentimento de um vazio imponderável são revelados na análise da alma do Doutor Gäsler. O personagem faz de tudo para que nós, leitores, não venhamos a gostar dele, já que nos perturba.

Aurora, sua obra-prima, passa-se no período anterior à Primeira Guerra Mundial, em Viena. O tenente Wilhelm Kasda, homem com forte complexo de inferioridade, decide ajudar um companheiro de caserna, que lhe pedira dinheiro emprestado para pagar uma dívida. O tenente Kasda, pensando em ajudá-lo, resolve sair à noite para jogar, sonhando que conseguirá ganhar o suficiente para poder emprestar o que lhe havia pedido. Kasda ganha algumas vezes, chega a juntar um monte considerável de dinheiro, que acaba perdendo de uma hora para outra. Sem dinheiro, não tem como recuperar o que perdera. Então, um cônsul lhe empresta uma quantia considerável, que o tenente perde. Empresta-lhe mais, até que Kasda fica devendo ao cônsul onze mil florins, um montão de dinheiro. O credor lhe dá pouquíssimo tempo para a restituição do montante, sem o quê dará parte ao exército da falta que cometera. O mundo de Kasda vira de cabeça para baixo, numa busca alucinada para conseguir um empréstimo. O final da novela surpreende.

Otto Maria Carpeaux (1900-1978), austríaco e brasileiro, nos informa em sua monumental História da Literatura Ocidental, que a obra de Schnitzler é o espelho de uma sociedade agonizante dividida entre operários socialistas e pequenos burgueses agitados, antissemitas que responsabilizavam a rica burguesia judia vienense pelos males do país. Acima dessa massa em ebulição havia a alta burocracia e o exército, comandando, gente sem nacionalidade definida, com títulos de nobreza alemães, mas de origens alemã, húngaras e eslavas. Foi dessa elite mesclada que surgiu a nova literatura austríaca, da qual Arthur Schnitzler é um representante dos mais importantes. A obra de Schnitzler é escrita com realismo sincero, cabe ao sexo o papel principal, sem esquecer, entretanto, a morte. O amor em todos os seus aspetos é quase o único assunto do autor. Há um pessimismo irônico misturado a uma poesia intensa.

Há mais obras de Arthur Schnitzler traduzidas para o português: Caminho para a liberdade, O retorno de Casanova, Crônica de uma vida de mulher, A senhora Beate e seu filho etc. A Editora Record vem editando as obras do autor, sob tradução de Marcelo Backes. Entretanto, algumas delas ainda se encontram esgotadas. Será preciso garimpá-las em sebos virtuais com preços acessíveis. Aurora você encontra em bom estado de conservação por um preço médio de 25 reais. Vale a pena ler as histórias desse autor que sabe cativar e incomodar o leitor com maestria.

                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Arthur Schnitzler. Breve romance do sonho. SP, Companhia de
     Bolso, 2008, 112 pp, tradução de Sérgio Tellaroli, R$ 16,50
_________________ Médico das termas. Rio, Record, 2011, 192 pp. Tradução de Marcelo Backes, R$ 33,90
_________________ Aurora. SP, Boitempo Editorial, 2001, 152 pp. Tradução de Marcelo Backes, esgotada