domingo, 15 de junho de 2014

Ilíada

Um caso de adultério motivou a Guerra de Tróia. O troiano Páris visita o grego Menelau, apaixona-se por Helena, sua esposa, raptando-a. Mas o tema de Ilíada, longo poema narrativo de Homero, é a fúria de Aquiles. Após os gregos saquearem uma cidade aliada aos troianos, duas jovens belíssimas, Criseida e Briseida, são dadas a Agamênon e Aquiles, como escravas concubinas. Crises, o velho sacerdote, pai de Criseida, chega ao acampamento dos aqueus para resgatar a filha, em troca de incontáveis riquezas. Agamenon rejeita violentamente o resgate e Crises reza a Apolo, pedindo-lhe que castigue os aqueus (gregos). O exército é assolado por uma peste, fazendo com que os conselheiros de Agamenon se reúnam em assembléia, sugerindo-lhe que devolva Criseida ao pai. Aquiles defende essa proposta. Agamenon, apesar de ser o soberano máximo, sente uma inveja ressabiada de Aquiles, que é o herói em campo de batalha. Agamenon decide devolver Criseida. Porém, rouba Briseida de Aquiles. Surge então a ira de Aquiles, que se sente desonrado e abandona o campo de luta, ainda que não abandone o acampamento dos aqueus. A falta de Aquiles faz com que Agamenon mande Ulisses e Ájax à tenda de Aquiles com a incumbência de lhe prometer mundos e fundos se ele reconsiderar sua posição. Trata-se do Canto IX, o mais famoso canto da Ilíada, considerado estruturalmente perfeito. O esforço não dá certo. O herói divino deixa de acreditar na guerra, na glória, no heroísmo. Só um motivo pessoal e íntimo fará Aquiles mudar sua decisão e pegar em armas: a dor perante a morte de Pátroclo, seu amigo íntimo. 

A originalidade de Homero consiste em ele ter estruturado uma série de episódios do ciclo lendário das guerras troianas em torno da ira de Aquiles. Sua técnica narrativa traduz uma conduta caracteristicamente grega: os gregos concebem a realidade como um todo ordenado. A harmonia exige limites precisos. O ilimitado é o não-ordenado, o caos, estágio anterior à ordem. Desde Homero, os gregos nos colocam diante de fronteiras claras, diante de unidades abarcáveis. O homem homérico sabe de um mundo interior, sabe que acontecem coisas em si, mas esse mundo não lhe é claro, não o fascina, não se demora nele. Quando percebe dentro de si fenômenos que não compreende, os atribui a forças sobre-humanas. O homem homérico volta-se para fora, para o mundo luminoso, concreto, real. Ilíada é também a guerra dos deuses, que decidem quem ganha e quem vai perder. Os próprios heróis da Ilíada sabem muito pouco de seu destino.

A Ilíada surgiu, mais ou menos, no século VIII a.C., fruto da tradição oral. Em 1488 surgiu a primeira edição impressa da obra na Itália. Para contar a Ilíada, Homero opta por isolar um período de pouco mais de 50 dias, já na fase final da guerra (a guerra de Troia teria durado uns 10 anos). Simbolicamente, a narrativa concentra-se em 14 dias. Por outro lado, os cinquenta e cinco dias da ação global do poema e mais os 14 fatídicos dias da ação efetivamente narrada, não deixa de estar condicionados fatos de todo o passado da guerra que repercutem tragicamente no presente da narrativa.

Há várias teses buscando contestar a autoria da Ilíada. O Canto IX, estruturalmente o melhor elaborado, não faria parte da Ilíada de Homero, mas de outro escrito sobre o tema. Mas os argumentos dessa corrente, entretanto, não se sustentam. A Ilíada foi toda construída por um único poeta. Seja ele quem for, trata-se de Homero. Se o leitor se interessar por este assunto, há um livro esclarecedor de Donaldo Schüler, especialista em literatura grega: A Construção da Ilíada, uma análise de sua elaboração, Ed. LPM, onde se comprova a fragilidade argumentativa dos que contestam a autoria da Ilíada.

A Ilíada merece ser lida, apesar de pequeno esforço eventual, devido ao estilo do texto. O resultado será gratificante. Aconselho a evitarem algumas edições de bolso mal traduzidas que existem por aí. Aconselho a edição portuguesa com a excelente tradução do conceituado Frederico Lourenço. Para nossa sorte, o selo Penguin, da Companhia das Letras lançou essa tradução no Brasil, a preço bem acessível. Não dá pra morrer sem ler a Ilíada.
                                          paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==========================

Homero. Ilíada. SP, Penguin/Cia. das Letras, 2013, 720 pp, R$ 40,00

domingo, 8 de junho de 2014

Maíra

Darcy Ribeiro (1922/1997) usa de sua vasta experiência como etnólogo e antropólogo para escrever Maíra, seu primeiro romance, editado em 1978. Maíra, em linguagem tupi, é um divindade entre os indígenas.
Enquanto isso, no posto da Funai da região, alguns índios vivem dentro de seus costumes. Os padres  afirmam que a estratégia da Funai é congelar os índios em seus costumes, para assim protegê-los da degeneração.Já os arrebanhados pelos padres marcham para a civilização, sem romantismos rondonianos: vestidos, calçados, limpos.  Elias, indígena da tribo mairum é um desses índios aculturados que volta para sua aldeia de origem, depois de passar sua infância  e adolescência preso em um convento para ser padre. Para ele, sua aldeia nesses anos todos de desterro só existiu dentro dele, na lembrança. Em breve estará junto de seu velho tio, o chefe da tribo Anacã, bem no meio do círculo dos homens em posição cerimonial, para ser o novo aroe(*) . Isaías é ambíguo, não é índio nem cristão. Não é homem nem deixa de ser. Manteve contato com uma mulher branca que havia se decidido a viver entre os índios e foi encontrada morta da praia com o feto de dois filhos mortos entre suas pernas. Isso pode ser encarado como a simbologia de Maíra-Coraci, o sol e Micura-Iaci, a lua - irmãos que criaram o mundo da cultura mairum. A trama se divide em núcleos, envolvendo a vida e morte dessa mulher, o reduto dos índios da Funai, o mameluco que se comunicava com esses núcleos e que matava índios, e o conflito existencial de Elias, que luta com sua consciência dividida.

Darcy Ribeiro tem um olhar atento sobre o programa de aculturação indígena que teve o Brasil, a religiosa - que defendia a catequese católica como a única solução compatível com a formação do povo brasileiro, e a leiga - que defendia o propósito de que a assistência protetora ao índio era competência do Estado. Entretanto, nenhuma das duas correntes analisou a situação real dos índios, conhecendo e valorizando sua cultura. Maíra mostra o resultado trágico dessas invasões para trazer os índios à civilização. Está longe de ser obra didática. É ficção das boas.

(*) Provavelmente o que puxa o canto nas cerimônias. Não consegui uma definição precisa para o termo.

                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==============
Darcy Ribeiro. Maíra. 17ª ed., Rio Record, 2007, 430 pp, R$ 40,00


domingo, 1 de junho de 2014

A Falência


Júlia Lopes de Almeida (1862/1934) é das grandes da literatura brasileira, apesar de quase desconhecida.  Graças à Editora Mulheres, criada em Santa Catarina em 1996 (http://www.editoramulheres.com.br/) com o objetivo de resgatar escritoras dos séculos passados,  a obra de Júlia Lopes de Almeida está vindo a público agora.  A editora lançou três romances de Júlia: A Falência, A Família  Medeiros, A Silveirinha e A Viúva Simões (esgotado). Filha de pais abastados,  seguiu o caminho da literatura sem oposição da família. Possuía espírito avançado para a época, tinha preocupações sociais como o fim da escravatura e a opressão feminina, que ela retrata tão bem em A FalênciaAjudou a fundar a Academia Brasileira de Letras, mas não pôde fazer parte dela, por ser mulher. Em seu lugar tomou posse seu marido, o escritor Filinto de Almeida, cuja obra não merece destaque. 
A trama de A Falência ocorre no final do século XIX, durante a República. Uma nova moral burguesa, novos comportamentos e ideais se impõem na sociedade do Rio de Janeiro. Francisco Teodoro é um comerciante português casado com Camila, com quem teve filhos. O comerciante é proprietário de armazéns, um palacete e muito dinheiro investido em banco.
Um dia Francisco Teodoro recebe a visita de um amigo, convidando-o a organizar no Rio um grande sindicato de café. Diz que outro grande comerciante estaria disposto a entrar com grande parte do capital. O negócio daria grande retorno financeiro aos sócios. O dinheiro de Francisco Teodoro fora adquirido com esforço. Por isso gostava de viver do bom e do melhor, para justificar seu orgulho com tanto trabalho. Fica indeciso, tem muito medo de perder dinheiro. O amigo o incentiva. Deixa-lhe o contrato para ler e pensar melhor. Passam-se dias e Teodoro aceita entrar na sociedade. Pouco tempo depois o preço do café começa a cair no mercado. O comerciante acaba sabendo, depois de um período de angústia e aflição, que tinha sido vítima de um golpe. Perdera tudo. Seus negócios começam a ruir e ele entra em falência. Acovardado, suicida-se, deixando a mulher e os filhos ao relento. A partir de então, a figura de Camila, a viúva, começa a ganhar corpo. Até então ela era parte do marido, nunca fizera nada, não entendia de nada relacionado a negócios. Vivia, enquanto rica, uma vida de futilidades e gastança. Tinha como amante o médico de família, fato que Teodoro nunca percebeu. Pobres, são obrigados a mudar-se para a casa humilde de Nina (agregada à família) que havia ganho de presente de Teodoro. Paro o relato por aqui, para não comprometer o interesse dos que pretendem ler o livro.
A edição que eu tenho e li é de 1978. Você consegue nos sebos virtuais por um preço de R$ 12,00. A edição nova, da Editora Mulheres custa R$ 30,00.

                                         Paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===================
Júlia Lopes de Almeida. A Falência. SP, Hucitec, 1978, 242 pp.


domingo, 25 de maio de 2014

A doce canção de Caetana

Depois de 20 anos de ausência, Caetana, atriz de teatro mambembe, retorna a Trindade para cobrar uma dívida de Polidoro, fazendeiro e grande apaixonado pela atriz. Polidoro procura recriar na suíte do hotel da cidade o clima propício para que o passado seja recordado e, sabe-se lá, reparado. Ordena que coloquem no quarto a penteadeira onde ele a admirava escovando os cabelos longos e negros nas noites passadas de idílio amoroso.
Polidoro sonhava encontrar Caetana escondida atrás do biombo, fingindo constrangimento, talvez por medo de a idade houvesse dissolvido as ilusões alimentadas pelas intempéries da vida. Imaginava Caetana voltando, conservando os mesmos gestos grandiloquentes do palco e do picadeiro, em contraste com as falas banais de seu texto. Caetana, durante todo esse tempo, não admitia a tragédia e o fracasso em sua vida.
Polidoro exigiu que o trem desviasse a rota, passando por Trindade para deixar Caetana. Repassou as façanhas do dia: a ida à estação, o trem chegando, a confusão de todos querendo abraçar a passageira que descera do trem e que todos confundiram com Caetana, que não estava no trem, pois havia chegado pela estrada com sua troupe.
Caetana veio cobrar de Polidoro a produção de uma ópera que ela admirava na voz de Maria Callas. O cinema da cidade é reformado às pressas para a montagem. Ela quer provar a todos que ainda tem talento para representar tão ou melhor que Callas, num esforço para provar a todos que fora a grande atriz injustiçada. Esse esforço, porém, secara-lhe a garganta. O resultado disso você vai acompanhar na prosa deliciosa e sensível de Nélida Piñon em A doce canção de Caetana. A cidade de Trindade apresenta outros personagens interessantes que atuam em torno da estrela da história.
                                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===============================

Nélida Piñon. A doce canção de Caetana. 2ª ed, Rio, Record, 2012, 398 pp, R$ 55,00

domingo, 18 de maio de 2014

Manoel de Barros, o poeta que queria ser lido pelas pedras

Manoel de Barros, poeta mato-grossense que revela a natureza e o homem pantaneiros através do verso, acredita que é necessário desver o mundo. Para isso, é preciso gostar das palavras quando elas perturbam o sentido  normal das ideias. Porque só os absurdos enriquecem a poesia. Para o menino criado no meio da mata, o conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar, de apalpar, de ouvir e de outros sentidos. As palavras se juntavam a ele para comunicar não através da sintaxe, mas por amor.  Ele queria o arpejo, o canto, o gorjeio das palavras. Hoje, adulto, confessa que também das percepções primárias nascem os arpejos e canções e gorjeios. A infância da palavra já vem com o primitivismo das origens, do absurdo divino das imagens: o menino que regava o rio para que os peixes pudessem sobreviver; passar a mão na bunda do vento; Bernardo armou sua barraca na beira de um sapo. A palavra não precisa significar, é só entoar.   O poeta não pode explicar as imagens, porque explicar afasta as falas da imaginação. O que Manoel de Barros quer fazer é brinquedo com as palavras. Fazer coisas inúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora. Poesia é coisa-nada. Se o nada desaparecer, a poesia acaba.

A Editora Leya acaba de lançar Manoel de Barros - poesia completa, com todos os livros publicados pelo autor, incluindo os livros de poesia infantil, mais um poema inédito de 2013.

O poeta que enaltece a 'vagabundagem profissional' e o estar à toa tem para si um sentido especial de ócio. Estar consigo, com sua imaginação, suas leituras e prazeres solitariamente, é o seu ócio. Para ele, a poesia esteve presente desde muito cedo no olhar do menino para as pessoas e coisas do seu entorno.
Ele já era um senhor de mais de 70 anos quando Millôr Fernandes descobriu seus poemas e escreveu uma crítica fazendo estardalhaço sobre certo poeta 'de verdade' que o Brasil precisava conhecer. 
  
Manoel, que nasceu em Cuiabá e foi menino para o Pantanal, viveu quase 40 anos no Rio de Janeiro. De lá, migrou uma vez mais para o Pantanal, para suceder ao pai na administração da fazenda de gado da família. Dez anos à frente da fazenda e o poeta quis mudar de novo. Foi com a mulher e os três filhos para Campo Grande, sua atual morada e onde escreveu quase todos os seus livros.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            Melho do que falar do processo criativo de Manoel de Barros, é ler seus poemas, dos quais selecionei alguns:

EU NÃO VOU PERTURBAR A PAZ

De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
Saberia de seus mistérios
Ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
Descobriria o sinistro
Ou doce alento de vida
Que move suas pernas e braços.

 Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto.


 INSTANTE ANUNCIADO

 Um chapéu velho!
Eu não via seu rosto, que um velho chapéu,
Esmaecido pelo sol, cobria.
Mas sei que não chorava
E nem tinha desejo de falar.
Porque sabia que alguma coisa vinha chegando
De manso, alguma coisa vinha chegando...
Eu não via seu rosto,
Seu rosto sombreado que um velho chapéu,
Esmaecido pelo sol, cobria.
Mas sei como ele amou aquele instante
Mas sei com que prazer ele esperou
Aquela que viria com os lábios úmidos para ele
A que havia de vir passar as mãos
Pelos seus joelhos feridos.


A ESPERA

Vejo sempre um homem ao lado das casas,
Olhando-as de frente como se elas fossem pessoas íntimas.
Vejo-o passando pelas casas comovido, afagando as mais pobres,
Satisfeito com a paz que lhe transmitem.
Vejo um homem caminhando pequeno na rua sem nome.
Vejo-o com o seu ocaso e o seu casaco de iodo às costas.
Vejo a erva depois crescer na pedra, e vejo, no coração,
O amor germinar como um rápido clarão na tempestade.
Esse homem não sabe como agradecer a penumbra que o esconde.
Vejo-o tocando com os seus dedos uns objetos esquecidos na tarde...
Vejo-o depois andar sobre a cidade errante como os cães vagabundos
E adormecer nas pedras junto ao mar.


MUNDO PEQUENO

I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
      maravilhosas.
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
      com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
      besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
                                                           Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os
      ocasos.   

DESEJAR SER

2.

Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava deter
uma perna mais curta (Só pra poder andar torto). Eu via o velho
farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto... toc
ploc toc ploc. Ele era um destaque.
Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar
para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc
toc ploc.
Eu seria um destaque. A própria sagração do eu.



RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA

I

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca
em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer
por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

ASCENSÃO

 Depois que iniciei minha ascensão para a infância,
Foi que vi como o adulto é sensato!
Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros?
Como não furar lona de circo para ver os palhaços?
Como não ascender ainda mais até na ausência da voz?
(Ausência da voz é infantia, como t, em latim.)
Como não ascender até a ausência da voz -
Lá onde a gente pode ver o próprio feito do verbo -
ainda sem movimento.
Por que não voltar a apalpar as primeiras formas da
pedra. A Escutar
os primeiros pios dos pássaros. A ver
As primeiras cores do amanhecer.
Como não voltar para onde a invenção está virgem?
Por que não ascender de volta para o tartamudo!


POEMAS RUPESTRES

5.

Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais -
como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejar de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
Só para causar distúrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele também
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.

                                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br

=========================
Manoel de Barros. Poesia completa. SP, Leya, 2013, 480 pp., R$ 54,90

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

domingo, 11 de maio de 2014

Viva o povo brasileiro

O narrador de Viva o povo  brasileiro nos explica que O comportamento das almas inopinadamente desencarnadas, sobretudo quando muito jovens, é objeto de grande controvérsia e mesmo de versões diametralmente contraditórias, resultando que, em todo o assunto, não há um só ponto pacífico. Em Amoreiras (praia da Ilha de Itaparica), por exemplo, afirma-se que a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias mais potentes,  dos polos esotéricos, das correntes alquímico-filosofais, das trações da lua e dos astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas - tudo isso faz com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e às vezes fazendo um sem-número de exigências. Dizia-se que era por causa dos tupinambás que lá moravam, que com mil artes e manhas de índios, amarravam as almas dos mortos até que eles pegassem os obséquios que morrem devendo, ou resolvessem qualquer pendência de que foram partes. Mas depois dos tupinambás vieram os portugueses, espanhóis, holandeses, até franceses, e os defuntos , mesmo não havendo mais índios para os amarrar, continuaram por lá, desafiando as ordens dos padres e feiticeiros mais respeitados para que se retirassem. Em seguida, chegaram os pretos de várias nações da África e, não importa de onde viessem e que, deuses trouxessem consigo, nenhum deles jamais pôde livrar-se de seus mortos, tanto assim que foram os que melhor aprenderam a conviver, com essa circunstância, não havendo, por exemplo, órfãos e viúvos entre eles. Os muitos deles que não conseguiram suportar viver na companhia de uma memória infinita e na presença de tudo o que já existiu mudaram-se para lugares bem longe de Amoreiras e jamais comem qualquer coisa vinda de lá.

A trama de Viva o povo brasileiro, grosso modo, é mais ou menos assim: um grande barão do Império vivia na Bahia, onde era senhor de todos os peixes que lá se pescava e possuía muita riqueza e muitos domínios vastos e grande número de escravos.  Isto se deu, porque esse barão foi considerado herói, na guerra da Independência, por isso mesmo nomeado barão, e  recompensado com  terras e presentes do rei  Imperador Dom Pedro.

Mas, esse barão era muito perverso. O heroísmo dele na guerra foi uma mentira. Sem ninguém ver, matou um cativo e com o sangue desse cativo se lambuzou e fez muitos curativos para dizer que tinha sido ferido na batalha. Apresentou-se como ferido, se escondeu uns tempos e depois apareceu de novo, ficando conhecido como o grande herói de guerra. Numa noite,  véspera de Santo Antônio, mandou buscar uma cativa de grande beleza e a deflorou, deu-lhe depois  uma surra e a expulsou dali. O barão teve a maldade castigada. Logo depois do abuso com a escrava, apareceu uma grande Irmandade numa casa de farinha que havia no sítio do barão, chefiada por um negro feiticeiro chamado Dandão e por um negro muito alto chamado Bodeão. Esses dois negros tinham uma canastra contendo muitos segredos do destino do povo, muitas defesas e muitas receitas de orações e feitiços. E, por meio dessas orações e feitiços, bem como a ajuda de outros como eles, conseguiram dar uma certa bebida ao barão, o qual foi estuporando aos poucos, até morrer uma das piores mortes que já se viu na Bahia.
Enquanto isso, a cativa, que ficara prenha do barão,  se tornou grande pescadora.  A menina nasceu, foi protegida e educada em boas escolas. Ficou moça bonita e inteligente. Certa vez ela e a mãe foram atacadas por um bando de homens que queriam estuprá-la. A mãe a defendeu e foi morta a pauladas. Esse acontecimento modificou a vida da moça para sempre.  Querendo justiça, entrou para a Irmandade, tornando-se a chefe do grupo, perdendo-se no mundo combatendo a injustiça na companhia de uma milícia, a Milícia do Povo, para mostrar a todos a tirania que sofria o povo pobre e negro por parte dos poderosos. Sabe-se que teve somente um grande amor por um alto oficial do Exército, herói da Guerra do Paraguai,  que nunca quis combater contra o povo. Ele propôs que se juntassem como marido e mulher, mas ela tinha um ideal maior, lutar pela igualdade e a injustiça.
Veio a República e o governo continuava a não se preocupar com o povo, os coronéis mandando e desmandando em tudo. Então, Maria da Fé, essa mulher guerreira, partiu para o sertão com seus milicianos, porque sabia que lá havia muita gente revoltada disposta a combater contra a tirania.  

Hoje não se sabe por onde anda Maria da Fé agora, mas se sabe que ela continua acreditando que um dia vai vencer, nem que não seja ela em pessoa, mas quem herde as ideias e a valentia dela, que serão muitos. Como nasceu na época da Independência, já deve estar velha e talvez nem velha seja, pois faz aniversário de quatro em quatro anos, tendo nascido no dia 29 de fevereiro.

A história abrange o período histórico de 1637 até 1972, mas o miolo da trama está centrado entre a Independência do Brasil e a proclamação da República. O romance de João Ubaldo Ribeiro é sobre os muitos espíritos encarnados e desencarnados por esse Brasil  onde muitos trabalhavam e poucos ganhavam. O povo que produzia,  construía,  vivia e criava, mas não tinha voz nem respeito,onde os poderosos encaravam sua terra apenas como algo a ser pilhado e aproveitado sem nada darem em troca, piratas de seu próprio país. Eram (e são) carpinteiros, marceneiros ferreiros, tanoeiros, sapateiros, alfaiates, pedreiros, lavradores, jardineiros, alambiqueiros, padeiros, barbeiros,pintores, armeiros, açougueiros, carroceiros, cuteleiros, vassoureiros, quitandeiros, vaqueiros, fateiros, muleiros, carregadores, caixeiros, sineiros, ourives, tecelões, paneleiros, mineiros, caçadores, boticários, quituteiros, maquinistas, tiradentes, curandeiros, cocheiros, mariscadores, peixeiros, lenhadores, magarefes, faxineiros, aguadeiros, taverneiros, amoladores, foguistas, mascates, alfarrabistas, oleiros, impressores, escreventes, acendedores, gravadores, coveiros, almocreves, aseiros, arreiros, tosadores,capadores, leiteiros, estalajadeiros,moleiros, músicos,saltimbancos, palhaços, cantadores, violeiros, repentistas, músicos,bailarinos, escultores, atores, escritores, entalhadores, douradores, mágicos, contadores de histórias, motoristas, cobradores, zeladores, hidráulicos, eletricistas,prostitutos, seguranças, moradores de rua, babalorixás, macumbeiros... Viva o povo brasileiro!
                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===============================

João Ubaldo Ribeiro. Viva o povo brasileiro. Rio, Objetiva, 2008, 640 pp, R$ 69,90

domingo, 4 de maio de 2014

Todos os homens são mentirosos

O que é a verdade? Essa é a questão proposta pelo escritor argentino Alberto Manguel (1948) em seu romance Todos os homens são mentirosos. Quando Jean Luc Terradillos, um periodista francês, se interessa em investigar a queda e morte de  um genial escritor argentino, debate-se com a seguinte máxima: "o que é a verdade"? Há sempre coisas ocultas sob a verdade de um fato. Por isso, todos os homens são mentirosos, na medida em que transformam a visão particular de um fato como verdadeira.
Jean-Luc Terradillos foi encarregado de pesquisar e entrevistar a vida de Alejandro Bevilacqua, asilado político argentino refugiado em Madri. Uma novela supostamente de autoria de Bevilacqua, "Elogio da Mentira", ganha notoriedade nos países de língua espanhola e o autor acaba forçado a falar do processo de sua obra publicamente. Entretanto, numa dessas reuniões sociais, Bevilacqua cai da sacada e acaba morrendo. Paralelamente, uma investigação policial busca desvendar a origem de sua morte. Terradillos, ao relembrar a vida de Bevilacqua,  lembra de um homem esquálido , grisalho, fumando cigarro atrás de cigarro, cruzando e descruzando as pernas para logo por-se de pé e dar largas passadas pelo apartamento. Ao relembrar sua convivência com Alejandro, Terradillo tem a missão de contar, e por que não?, recriar a história alheia.

Terradillo confia mais na memória do que na imaginação e usa as confidências de Bevilacqua em sua personagem de ficção, que é o próprio Bevilacqua. As recordações de Belivacqua careciam de paixão, de colorido. Por isso, começou a agregar a sua história um pouco de fantasia, de humor. À precisão do escritor argentino, acrescentava uma glosa irônica, um comentário. Bevilacqua parecia estar inventando um passado a si mesmo, como para convencer Teradillo de sua existência. Terradillo nos diz que quando Bevilacqua dizia não ser escritor, tinha razão. Carecia desse impulso de invenção que a escrita de ficção exige,  essa falta de respeito perante o que é e a ansiedade ante o que poderia ser. Não imaginava, via e documentava,  que não é a mesma coisa.
Assim, a figura de Bevilacqua, quase inexistente, transita de hipóteses, conforme sua figura concorde com determinados dados e prejuízos. Vai mudando de aspecto como uma dessas estátuas de jardim que se transformam imperceptivelmente ao longo do dia, conforme muda a luz. Isso, como verdade, entretanto, é inaceitável.  Nem todos  os diversos Bevilacquas são os que o periodista persegue. Nem todas as facetas de uma realidade lhe interessam. Só uma, se é sincero, ou quem sabe nenhuma. Por isso, quem sabe, escreve. Para dá-la a conhecer desde um ponto de vista particular, privado. Agora pensa que foi o desejo o que fez que ele fosse periodista. Ver seu nome no rodapé de uma coluna impressa. Declarar-se responsável. Dizer o que sente, o que opina. Dar sua visão do mundo lhe regozija secretamente.

Alberto Manguel (1948) é argentino de Buenos Aires e mora no Canadá.

                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==========================
Alberto Manguel. Todos os homens são mentirosos. SP, Cia. das Letras, 2010, 184 pp. R$ 39,00

domingo, 27 de abril de 2014

O Ateneu

É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? O merecimento não tem cotação, (...) aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, (...) abundam as seduções perversas, triunfam as audácias dos nulos? Tanto melhor: é a escola da sociedade (...)

Ensaiados no microcosmo do internato, não há mais surpresas no grande mundo lá fora, onde se vão sofrer todas as convivências, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialética geral, e nos envolvem as evoluções de tudo o que rasteja e tudo que morde, porque a perfídia mãe-terra é um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora (...)
E não se diga que é um viveiro de maus germes, seminário nefasto de maus princípios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali viceja, vem de fora.

O narrador-personagem vive o terror de uma experiência pedagógica num internato comandado pela figura caricatural de Aristarco. Sua figura é poderosa. A caracterização satírica e despótica do diretor acompanha a composição de um ambiente de terror no colégio onde, em vez dos castigos físicos, infligia um controle exaustivo que marcava com o medo a vivência dos alunos. O temor insinuava-se não apenas pela tirania de Aristarco, mas por sua capacidade de incutir nos meninos o horror ao espectro da perversão que os ameaçaria. As influências perniciosas do ambiente marcam a vida de Sérgio para sempre. 
Não se pode dizer claramente o enredo do livro,  são narradas são situações e experiências, reflexos de caracteres e intenções.   A memória de Sérgio revela impressões da sua infância. O ângulo de visão do mundo ou da realidade é essencialmente subjetivo. Há quem diga que se trata do primeiro romance psicológico da literatura brasileira. Surgido dentro do real/naturalismo, O Ateneu  supera as características desse período, apresentando um narrador cheio de emotividade. São as impressões do menino que persistem na alma do narrador adulto que nos conta sua história. Aproxima-se, assim, também, do romance impressionista.
Os os que leram ou tentaram ler O Ateneu por obrigação durante o período escolar, deveriam reler a obra agora, para verificar como é forte, como é bem estruturado esteticamente e como é fascinante essa história de Raul Pompéia. É uma obra-prima.

Encerro, assim, o ciclo dos clássicos da literatura brasileira.

                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=====================
Raul Pompéia. O Ateneu. SP, Penguin/Companhia, 2013, 312 pp. R$ 22,00

domingo, 20 de abril de 2014

Senhora



Afastemos discretamente uma dobra do reposteiro que recata a câmara nupcial.

É uma sala em quadro, toda ela de uma alvura deslumbrante, que realçam o azul celeste do tapete de riço recamado de estrelas e a bela cor de ouro das cortinas e do estofo dos móveis.
A um lado, duas estatuetas de bronze dourado representando o amor e a castidade, sustentam uma cúpula oval de forma ligeira, donde se desdobram até o pavimento, bambolins de cassa finíssima.

Por entre a diáfana limpidez dessas nuvens de linho, percebe-se o molde elegante de uma cama de pau-cetim pudicamente envolta em seus véus nupciais, e forrada por uma colcha de chamalote também cor de ouro.
(...)

Correu-se uma cortina, e Aurélia entrou na câmara nupcial.

Seu passo deslizou pela alcatifa de veludo azul marchetado de alcachofras de ouro, como o andar com que as deusas perlustravam no céu a galáxia quando subiam ao olimpo.

A formosa moça trocara seu vestuário de noiva por esse outro que bem se podia chamar trajo de esposa; pois os suaves emblemas da pureza imaculada, de que a virgem se reveste quando caminha para o altar, já se desfolhavam como as pétalas da flor no outono, deixando entrever as castas primícias do santo amor conjugal.

Trazia Aurélia uma túnica de cetim verde, colhida à cintura por um cordão de torçal de ouro, cujas borlas tremiam com seu passo modulado. Pelos golpeados deste simples roupão borbulhavam os frocos de transparente cambraia, que envolviam as formas sedutoras da jovem mulher.

As mangas amplas e esvasadas eram apanhadas, na covinha do braço e sobre a espádua, por um broche onde também prendia a ombreira, mostrando o braço mimoso, cuja tez roseava a camisa de cambraia abotoada no punho por uma pérola.

Os lindos cabelos negros refluíam-lhe pelos ombros presos apenas com o aro de ouro, que cingia-lhe a opulenta madeixa; o pé escondia-se em um pantufo de cetim que às vezes beliscava a orla da anágua, como um travesso beija-flor.

O casto vestuário da moça recatava-lhe as graças do talhe; entretanto quando ela andava, e que seu corpo airoso nadava nas ondas de seda e cambraia, sentia-se mais n'alma do que nos olhos o debuxo da estátua palpitante de emoção. A cada movimento que imprimia-lhe o passo onduloso, acreditava-se que o broche da ombreira partira-se e que os véus zelosos se abatiam de repente aos pés dessa mulher sublime, desvendando uma criação divina, mas de beleza imaterial, e vestida de esplendores celestes.

Aurélia atravessou o aposento, e chegando à porta que ficava fronteira àquela por onde entrara, curvou de leve a cabeça recolhendo-se para escutar; mas não ouviu senão o arfar do seio, que lhe ofegava.

(...)

Seixas ajoelhou aos pés da noiva, tomou-lhe as mãos que ela não retirava; e modulou o seu canto de amor, essa ode sublime do coração que só as mulheres entendem, como somente as mães percebem o balbuciar do filho.

A moça com o talhe lângüidamente recostado no espaldar da cadeira, a fronte reclinada, os olhos coalhados em uma ternura maviosa, escutava as falas de seu marido; toda ela se embebia dos eflúvios de amor, de que ele a repassava com a palavra ardente, o olhar rendido, e o gesto apaixonado.

-- É então verdade que me ama?

-- Pois duvida, Aurélia?

-- E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?

-- Não lho disse já?

-- Então nunca amou a outra?

-- Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse a minha mãe. O meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...

Soerguendo-se para alcançar-lhe a face, não viu Seixas a súbita mutação que se havia operado na fisionomia de sua noiva.

Aurélia estava lívida, e a sua beleza, radiante há pouco, se marmorizava.

-- Ou para outra mais rica!... disse ela retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.

A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia ringir-lhe nos lábios como aço.

-- Aurélia! Que significa isto?

-- Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entretemos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.

-- Vendido! exclamou Seixas ferido dentro d'alma.

-- Vendido sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica, sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento.

Aurélia proferiu estas palavras desdobrando um papel, no qual Seixas reconheceu a obrigação por ele passada ao Lemos.

Não se pode exprimir o sarcasmo que salpicava dos lábios da moça; nem a indignação que vazava dessa alma profundamente revolta, no olhar implacável com que ela flagelava o semblante do marido.

Seixas, trespassado pelo cruel insulto, arremessado do êxtase da felicidade a esse abismo de humilhação, a princípio ficara atônito. Depois quando os assomos da irritação vinham sublevando-lhe a alma, recalcou-os esse poderoso sentimento do respeito à mulher, que raro abandona o homem de fina educação.

Penetrado da impossibilidade de retribuir o ultraje à senhora a quem havia amado, escutava imóvel, cogitando no que lhe cumpria fazer; se matá-la a ela, matar-se a si, ou matar a ambos.

Aurélia como se lhe adivinhasse o pensamento, esteve por algum tempo afrontando-o com inexorável desprezo.

-- Agora, meu marido, se quer saber a razão por que o comprei de preferência a qualquer outro, vou dizê-la; e peço que me não interrompa. Deixe-me vazar o que tenho dentro desta alma, e que há um ano a está amargurando e consumindo.

A moça apontou a Seixas uma cadeira próxima.

-- Sente-se, meu marido.

Com que tom acerbo e excruciante lançou a moça esta frase meu marido, que nos seus lábios ríspidos acerava-se como um dardo ervado de cáustica ironia!

Seixas sentou-se.

Dominava-o a estranha fascinação dessa mulher, e ainda mais a situação incrível a que fora arrastado.

Senhora é a história de uma jovem rica, linda e formosa que compra um marido. Nada demais,  considerando-se os costumes da sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. Era praxe a famílias ricas o casamento por interesse e o oferecimento de  um dote a um homem que se dispusesse a casar. Era assim que muitos homens bastardos ascendiam socialmente. Entretanto, o que José de Alencar nos oferece no romance é uma dura crítica social a esse tipo de transação, em que os bens materiais subjugam o sentimento amoroso. Aurélia Camargo é a nova estrela que raiou no céu fluminense; a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Acontece que Aurélia não fora sempre assim. Era moça pobre e órfã que ajudava a mãe nas costuras, o único sustento das duas. Tinha 16 anos quando conheceu Seixas. Apaixonaram-se. Porém, movido por dificuldades financeiras, Seixas a abandona para casar-se com outra, devido a um dote de 40 contos de réis. Inesperadamente, para sorte de Aurélia, morre-lhe o avô rico que lhe deixa enorme fortuna. Aurélia torna-se rica e arma o plano para ter Seixas de volta por um dote de 100 contos de réis, como forma de vingança.

Senhora só não é um romance extraordinário, porque José de Alencar não leva a cabo a ideia primeira de desmontar a hipocrisia da sociedade imperial de sua época. Seixas acaba se mostrando um moço fino de boa índole, que fez o que fez forçado por pressões econômicas. Ele trava uma árdua batalha para resgatar sua independência. Mas é um romance ótimo de se ler ou reler. José de Alencar era exímio construtor de metáforas e descrições deslumbrantes de ambientes e pessoas. O romance prende a tenção do leitor desde o início.

Caso queira entrar em contato com a obra, busque a edição da Penguin/Companhia das Letras, que apresenta um texto bem diagramado, de leitura confortável, além de apresentar uma introdução esclarecedora do professor Antônio Dimas. Vale a pena!

                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
====================
José de Alencar. Senhora. SP, Penguin/Cia. Das Letras, 2013, 336 pp, R$ 29,00

terça-feira, 15 de abril de 2014

Infâmia


O velho embaixador Soares de Vilhena precisa descobrir o que se esconde por trás da morte misteriosa de sua filha, também casada com um embaixador. Soares de Vilhena notara que a filha andava meio tristonha pouco antes de sua morte, mas o marido reiterava que era exagero da moça. Como tem dificuldade para a leitura, devido à catarata avançada, contrata uma jovem estudante de literatura para ler as notícias de jornais e trechos de livros para ele.  Para o embaixador, cegos capazes de ver mais que os outros eram personagens recorrentes na tradição literária. Personagens  que pareciam não ver mas tinham uma visão interior, como visionários ou videntes, em condições de reorganizar o mundo a partir de outros parâmetros. Capazes de apreender os fatos ocultos ou revelar sinais vindos do céu.  O embaixador sentia estar  se reduzindo a um velho cego na dependência de ser guiado por uma moça. Obrigado a reconhecer que fora incapaz de conduzir a própria filha e de lhe apontar saídas que a aliviassem ou sendas que a livrassem do terror pessoal que lhe paralisara o coração. Vontade de se incluir no coro grego da tragédia e repetir com eles seu refrão, um desejo expresso de jamais haver existido, para não ter de viver aquela situação. O aparecimento de um envelope com documentos antigos, entretanto, traz à tona os fantasmas que assombram a família: fotos e fragmentos de textos da filha que morreu em circunstâncias misteriosas. Tal como Édipo cego que vai em busca da verdade trágica, o embaixador Vilhena vai em busca da sua verdade de vida.

Mas há um segundo núcleo da narrativa. Jorge, seu fisioterapeuta, tem o pai, funcionário de uma repartição pública, acusado injustamente de participar de um esquema de corrupção. Daí temos a Infâmia que dá título ao romance de Ana Maria Machado.  Custódio, o pai do fisioterapeuta, era funcionário atento, responsável zeloso pelo almoxarifado. Esse Custódio começa a notar o consumo exagerado de papel e material de escritório e produtos de limpeza. Com a ajuda de um jornalista, denuncia a fraude a um jornal. É quando passa a ser difamado publicamente e hostilizado no local de trabalho, a ponto de precisar se afastar do trabalho. O neto de Vilhena, que buscara o auxílio do avô para fazer um documentário se interessa pela história do pai do fisioterapeuta e as duas histórias se cruzam.

Ana Maria Machado teria ganho o Prêmio Jabuti 2013 de romance, não fosse ter levado nota zero de um dos jurados, Rodrigo Gurgel, que argumentou posteriormente ter achado o livro de Ana Maria Machado pobre na história e esteticamente. Rodrigo Gurgel quis chamar a atenção à organização do Prêmio Jabuti para a valorização da obra e não a valorização do autor sobre ela. Mas, Ana Maria Machado foi recompensada com o Prêmio Zaffari Bourbon de melhor romance.

Reconhecida como boa escritora de obras infanto-juvenis, Ana Maria Machado vez ou outra enveredou para romances para adultos, como esse Infâmia. Para mim, a história não convenceu, apesar da ideia brilhante de parodiar a cegueira de Edipo com a do embaixador, como sustentação para descobrir a verdade trágica da morte da filha. A leitura torna-se cansativa pela fragilidade argumentativa. Mas é bem escrito e merece ser lido para os fãs da escritora Ana Maria Machado.
                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===========================
Ana Maria Machado. Infâmia. Rio, Objetiva, 2011, 277 pp, R$ 45,90

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Esaú e Jacó

Esaú e Jacó foi publicado originalmente em 1904. É o oitavo e penúltimo  romance de Machado de Assis. O autor ainda teve fôlego para escrever o último, Memorial de Aires, em 1908,  pouco antes de falecer. A história, partindo da referência bíblica, é aparentemente simples: dois gêmeos, Pedro e Paulo, brigam  desde o útero da mãe e continuam a brigar pela vida toda. Amam a mesma mulher, Flora, que amava os dois e acaba morrendo sem escolher nem um nem outro. A história se passa nas décadas de 1870 a 1890, compreendendo a degradação do Império e os primeiros anos da República. Os dois divergem em tudo. Pedro é monarquista e Paulo, republicano. Pedro estuda Direito e Paulo Medicina. Discordam menos por convicções individuais do que pela necessidade de se distinguir pelas oposições. Quem toma o foco central, para impulsionar o fluxo da narrativa é Flora, que oscila na dúvida da escolha. Para ela, não se tratava de um conflito de escolher entre um e outro, já que  desejava os dois. 

Dono de uma ironia fina, Machado de Assis obriga o leitor a se dar conta, na parte final do romance, de que a oscilação entre o sim e o não ocupou  boa parte da história, fazendo troça da paciência do leitor que acompanha a oscilação de Flora num jogo que se estende ao infinito.

O conselheiro Aires, velho solitário que é escolhido pela mãe dos dois, vai escrevendo um Memorial (o último romance de Machado), analisando o dilema de Flora entre os dois irmãos.

Esaú e Jacó é engraçado pela ironia, é inteligente, instigante. Romance dos grandes!

                                                                              paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=================================
Machado de Assis. Esaú e Jacó. SP, Penguin/Companhia, 2012, 296 pp, R$ 26,00

domingo, 6 de abril de 2014

O amante de Lady Chatterley

Constance Chatterley é uma jovem oriunda da sociedade inglesa liberal. Recém-casada, recebe de volta seu marido que havia lutado durante a Primeira Guerra Mundial, paralisado da cintura para baixo. Isolada, encontra companhia na figura de um guarda-caça que, após sucessivos fracassos amorosos, vive sozinho numa cabana próxima à casa dos Chatterley. Os dois acabam se envolvendo emocionalmente.
Lida agora, o que conta menos são as cenas antes consideradas picantes, mas a metáfora que o autor quis revelar através de sua história, para demonstrar que as palavras  podem chocar os olhos, mas não a mente, menos a das pessoas de mente vazia. As que têm inteligência podem superar os tabus inerentes à sua cultura e, pelo contrário, experimentar alívio.  É isso que nos diz o autor no posfácio da obra.  D. H. Lawrence quer fazer o leitor pensar  o sexo de maneira total, integrada, honesta e limpa.  Mesmo que não conseguisse agir sexualmente de maneira satisfatória, deveria pelo menos, pensar sexualmente de maneira integrada e limpa. Toda aquela conversa sobre virgindade é um disparate. Os jovens são um emaranhado de tormentos, uma confusão fervilhante de sentimentos sexuais e pensamentos sexuais que só os anos irão desembaraçar. Lawrence alerta para o fato de que o romance não se propõe a sugerir que todas as mulheres devam correr atrás dos homens para torná-los amantes. Pelo contrário,  seu intento é para que se compreenda o sexo. Sua compreensão é mais importante que o ato em si. Mentalmente, a sociedade britânica de sua época encontrava-se atrasada na forma de pensar o sexo, confundida por uma certa vaguidão, medo oculto e abjeto carregado a séculos de repressão.

Em suma, D. H. Lawrence parece nos querer dizer que a vida só é tolerável quando a mente e o corpo estão em harmonia, em equilíbrio natural entre os dois e cada um mantendo o respeito natural pelo outro.  Com a emoção forjada, ninguém se sente realmente feliz, satisfeito, em paz. Constance Chatterley vai construindo o caminho de um amor desobstruído, à medida que vai conhecendo e se envolvendo também fisicamente com o guarda-caça Mellors, que também não busca repetir a rotina de um amor forjado como os que teve anteriormente. Para que o amor aconteça entre os dois, será necessário vencer o preconceito oriundo da diferença de classes, da educação, investindo no desejo que se satisfaz no corpo e que atinge a mente.

D. H. Lawrence (1885-1930) chocou a sociedade britânica da época, com O amante de Lady Chatterley , tanto que a obra ficou proibida por um bom tempo. A sociedade britânica da época, puritana, reprimida e dissimulada, não viu o romance com bons olhos. Também chocou os editores que a rejeitaram temendo represálias por causa das "cenas de sexo".

                                                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=============================
D. H. Lawrence. O amante de lady Chatterley. Penguin Companhia, 2010, 660 pp, R$ 32,00