domingo, 18 de janeiro de 2015

Sábado

Henry Perowne é um neurocirurgião conceituado, especializado em operar tumores de cérebro com rara habilidade. Vive confortavelmente em  Londres, é feliz no casamento, tendo uma mulher advogada, uma filha poeta e um filho músico de blues. A vida para ele é quase milimetricamente traçada, tudo corre costumeiramente, sem maiores transtornos.

No sábado  de 15 de fevereiro de 2003, pela manhã, sai para jogar sua partida costumeira com um colega do hospital, para depois, à tarde visitar a mãe em uma clínica, vítima de Alzeimer, para depois retornar à casa para preparar um jantar para o sogro que vem visitar a família. No caminho, é parado no trânsito, devido a uma manifestação contra a invasão do Iraque pelos norte-americanos, em decorrência do atentado de 11 de setembro, pouco tempo atrás. Quando tenta escapar do tumulto através de uma manobra irregular, é atingido por um carro ocupado por três jovens de atitude suspeita. Todos descem dos carros, o jovem que estava à direção propõe uma indenização em dinheiro vivo e Henry recusa. O jovem torna-se violento e o agride. Percebendo que o jovem apresenta sintomas de descontrole muscular, usa de seus conhecimentos profissionais para minar os planos do agressor, dando-lhe o diagnóstico de que o rapaz apresenta suspeita da síndrome de Huntington (informe-se). Essa atitude, que mais tarde Henry classifica de antiprofissional, desconcerta o rapaz, que desiste do caso e vai embora, deixando Henry seguir seu caminho. Esse acontecimento interfere no pensamento de Henry várias vezes durante o dia, embora tente manter sua vida normal, apesar do incidente. À noite, durante o jantar, a casa é invadida pelo jovem perturbado, armado de uma faca. O fato trará consequências graves para o médico e sua família.

A interferência de alguém na vida de um personagem, causando-lhe danos é recorrente na obra de  Ian McEwan.  Em Reparação, uma menina constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou. Em Amor sem fim, um homem prepara um piquenique no campo para festejar a volta de sua mulher de uma viagem, quando um incidente com um balão põe em risco a vida de uma criança.  Um dos homens que o ajuda passa a alimentar por ele uma paixão tão instantânea quanto obsessiva, que chegará aos limites da perseguição e da loucura (leia matéria no blog).

A narrativa de Sábado contém um suspense que prende e incomoda o leitor até o final. O exemplar novo em edição de bolso custa em média R$ 26,00.

Tradução de Rubens Figueiredo.

            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=================
Ian McEwan. Sábado. SP, Cia. das Letras, 2013, 304 pp.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Assim na terra

Na voz de Luiz Sérgio Metz, a natureza ganha vida em Assim na terra: a água dos pequenos córregos, terra batida, erosão,tufos de macegas, barro, rastro de roda, pegadas de homem descalço, a asa de um pássaro que se escondeu numa tulha, homens conduzindo um resto de tropa marcada a ferro, uma árvore seca, o emblema da caveira sobre dois ossos, as tábuas do assoalho rangendo sob os pés.
Um gaúcho solitário, do tipo campeiro, encontra, em suas andanças, um homem dormindo na mata. Beira os setenta, pela aparência do rosto. Veste bombacha escura e botas com o bico embarrado. O homem acorda e se apresenta, Gomercindo. Os dois saem a caminhar, encontram uma casa grande, ao lado um galpão. Uma vela se acende.  O galpão parece uma espécie de templo do tempo, com muita acústica e pouca mobília. Sólido, mas também muito simples, embora não fosse apenas simples nem de uma solidez comum, de pedra sobre outra que se enxertam, armado apenas de algum madeirame. Ali dentro daria para se guardar os sótãos da infância. Eles ficariam protegidos do rigor, acomodados até uns sobre os outros formando uma sub-edificação de subjetivos para visitação. Mas há uma escrivaninha, com nervuras nos cantos, com gavetas, um tampo claro no pavio amarelo, sem nada encima. As janelas estão todas fechadas e a vela sobre a escrivaninha é nova. Não há nenhuma medida de tempo, então. Gomercindo olha-o sem fixar os olhos, tudo está fora de alcance. O velho propõe-lhe que seja feito um tratado sobre o sul, "procurar os signos que estava no piso e nas janelas e nas portas e nas paredes: associações urbanas , ruas para dentro de barrocas, as linhas telefônicas, os gritos raspando dentro dos fios, os raseis de setembro, as unhas que se agarravam às pedras que se soltavam como grãos de espigas, brugalhaus". 

As palavras estavam além das tesouras de um mero galpão ou de suas telhas, ou de sua geometria.  Ele parecia querer terminar o livro que trouxera, mas ficava marcando uma página com a unha, num vaivém na margem direita.

Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo , RS, em 1952 e faleceu em 1996, devido a um câncer. Conhecido como "Jacaré", foi letrista do grupo nativista Tambo do Bando. Dele eu já havia lido o livro de contos O primeiro e o segundo homem, já comentado neste blog. Assim na terra descreve a atmosfera do pampa com lirismo e densidade, numa jornada a cavalo, sem destino .

O exemplar novo varia de 22 a 35 reais.
                       
 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
======================

Luiz Sérgio Metz. Assim na terra. SP, Cosac Naify, 2013, 224 pp.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O senhor do lado esquerdo

O escritor carioca Alberto Mussa (1961) costuma afirmar que a história das cidades é a história de seus crimes. A cidade do Rio de Janeiro tem sido descoberta desde seus primórdios do século XIX através de seus crimes, nos romances que narra. O Senhor do lado esquerdo acontece no ano de 1913, apresentando ao leitor a  investigação do assassinato do secretário do presidente da república, mesclada com  crônicas diversas acerca da história e dos mitos da cidade do Rio de Janeiro na época.

O narrador nos que No dia 13 de junho de 1913, por volta das quatro horas da tarde,o secretário da presidência da república chegou à Casa das Trocas, aparentemente uma clínica ginecológica administrada por Miroslav Zmuda, espécie de  ginecologista ou obstetra, visto que fazia abortos, esterilizava, tratava enfermidades venéreas. Embora não tenha sido um erotólogo, na acepção clássica do termo, tinha especial interesse pela fisiologia do coito. E foi um dos primeiros cientistas ocidentais a estudar o fenômeno da atração sexual. E assim surgiu a Casa das Trocas - de que dona Brigiitte foi a principal mentora.

O secretário  foi recebido pela prostituta Fortunata. Minutos depois de terem entrado no quarto, Fortunata desceu para apanhar duas taças e uma garrafa de vinho tinto, na adega improvisada pelo doutor Zmuda, embaixo da grande escadaria, onde a lenda diz haver uma passagem secreta construída por dom Pedro I. Em torno das seis, Fortunata passou pelo salão oval superior, onde ficavam as colegas, demonstrando pressa e reagindo com rispidez incomum a uma gentileza, antes de sair, pela porta da frente. Estava num vestido de tafetá azul e levava nas orelhas o par de brincos de ouro, em forma de cavalo marinho.

Pouco antes das oito, após considerarem exagerado o tempo de permanência do secretário no quarto, dona Brigitte pediu que fossem acordar o cliente ilustre - que foi achado morto, fortemente preso à cama por amarras e ainda com fundas impressões de dedos no pescoço. O laudo confirmou a asfixia como causa mortis, não havendo indícios de latrocínio.

Eis o motivo condutor para a trama interessante de O homem do lado esquerdo, contado com humor e doses de ironia. É gostoso de ler.
                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=======================

Alberto Mussa. O senhor do lado esquerdo. 2ª ed, Rio, Record, 2013, 304 pp, R$ 35,00

domingo, 28 de dezembro de 2014

Flores azuis

Um homem separado vive em um apartamento alugado, onde recebe nos finais se semana a filha pequena.  Esse homem é daqueles sujeitos chatos, que acha tudo errado com ele, é indeciso, inseguro e, por consequência disso, deprimido. A ex-mulher continua a intrometer-se em sua vida. A filha parece não gostar dele, quase não conversam e ele não busca uma aproximação afetiva maior com a menina. De repente, esse homem começa a receber cartas escritas a caneta tinteiro, dentro de um envelope azul, cuja única informação da remetente (trata-se de uma mulher) é a letra k.  Nos dias de  hoje, em que o email e as redes sociais e os sms dominam as relações sociais, alguém ainda escreve cartas de amor a caneta tinteiro. Cada dia uma carta. Esse homem decide violar as cartas e passa a acompanhar a escrita dessa mulher, relatando uma separação por motivos que se confundem, às vezes, com os do homem em relação a seu relacionamento desfeito. As cartas são enviadas diariamente, por um período definido pela autora. No final, ela propõe a esse amante, que não sabemos aparentemente quem seja, embora possa ser o antigo morador, perdoá-lo e aceitá-lo de volta caso ele assim o quisesse.

A partir daí, ele busca obsessivamente encontrar esse homem para entregar-lhe as cartas, com a intenção, quem sabe, de ajudar a recompor a relação partida. Depois de uma série de tentativas, onde se vê obrigado a contatar a dona do apartamento, consegue localizar o antigo locatário, que desconhece quem possa ser essa mulher.

Carola Saavedra intercala as cartas com a crônica de vida desse homem solitário e mal amado e incompreendido de si mesmo. Algumas situações soam pouco verossímeis, como alguém escrever cartas a caneta tinteiro em pleno século XXI, assim como a mulher forjar o funcionário do correio a postar as cartas sem mencionar o remetente. Mas isso não pesa dentro da narrativa e nem  na intenção da romancista, de relacionar o drama de uma mulher abandonada que escreve cartas buscando a reconciliação e de um homem abandonado que lê essas cartas como se fossem suas e quer encontrar um amor para acabar com sua solidão.

O livro encontra-se esgotado, mas há livrarias que vendem o exemplar novo a preço médio de 32 reais.
    
                              paulinhopoa2003@yahoo.com.br

==============

Carola Saavedra. Flores azuis. SP, Cia. das Letras, 2008, 166 pp

domingo, 21 de dezembro de 2014

A máquina de fazer espanhóis

valter hugo mãe disse em um programa de televisão que escolheu o nome mãe como uma coisa literária de completude. Sempre esteve convencido de que as mulheres, através da maternidade, experimentam o extremo da humanidade: não há nada que um ser humano possa fazer de mais milagroso do que a multiplicação, de desdobrar seu corpo em dois. os homens são a parte fraca da humanidade, pois há uma lacuna, um espaço vazio no homem, pois temos uma dimensão afetiva que não fica aproveitada, a menos que tenhamos filhos. a vida é uma coisa terrível, por isso se precisa de epifanias de felicidade que é uma coisa que se perde à medida que se conquista. a felicidade é podermos ser o que somos.

a máquina de fazer espanhóis é a renúncia da felicidade de sonhar, pela consciência da perda. o título refere-se a uma frustração portuguesa contínua, que durou 800 anos de soberania e fez com que os portugueses pensem de vez em quando: se fôssemos espanhóis teríamos uma dignidade de melhor qualidade. a máquina de fazer espanhóis é Portugal. vejamos um trecho emblemático:

antônio jorge da silva está diante do corpo da mulher morta que não lhe diria mais nada, por mais insistente que fosse o seu desespero, sua necessidade de respirar através dos seus olhos, sua necessidade vital de respirar através de seu sorriso. ele e sua mulher morta que se demitia de continuar a justificar-lhe a vida e que, abraçando-lhe como podia, entregava-lhe tudo de uma só vez. e ele, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.
com a morte, também o amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colocando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, ainda, sem saber de nada. quando, por fim, me levantei, estava a anos-luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver sos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar, à reveia de tudo quanto me pareceria menos cruel. e a natureza, se do meu coração não se esvaziou o amor pela laura, estaria numa aniquilação imediata para mim também, poupando-me à miséria de ver o sol que arde sem respeito por qualquer tragédia.

um problema com o ser-velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento,a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas a alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige. e quando eu fico bloqueado, tão irritado com isso sem dúvida, não é por estar imaturo e esperar vir a ser melhor, é por estar maduro de mais e ir como que apodrecendo, igual aos frutos. nós sabemos que erramos e sabemos que, na distração cada vez maior, na perda de reflexo e de agilidade mental, fazemos coisas sem saber e não as fazemos estupidez. fazemos por descoordenação entre o que está certo e o que nos parece certo e até sabemos que isso de certou ou errado é muito relativo. é tudo mais forte do que nós.

enquanto alguns velhos queriam acreditar que a saúde não lhes faltaria e que poderiam concretizar muitos projetos, antônio jorge da silva não concebia o que era chegar àquela idade e ter projetos. o seu projeto era esquecer tudo, era protestar contra a morte de laura convencendo-se de que, depois da morte de alguém que nos é essencial, ao menos a memória do amor deveria ser erradicada também.

a máquina de fazer espanhóis, assim como outros livros do autor é escrito todo ele em minúscula, como forma de colocar tudo no mesmo pé de igualdade. Ele abandonou esse recurso nos livros mais recentes.

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==============


valter hugo mãe. a máquina de fazer espanhóis. sp, cosac naify, 2013, 256 pp., R$ 39,00

domingo, 14 de dezembro de 2014

Hanói

David é filho de pai brasileiro da região de Governador Valadares (emigrado ilegalmente nos EUA) com uma mexicana. Aos 38 anos é diagnosticado de câncer no cérebro, tendo poucos meses de vida. Ao sair do consultório,  pensa no sentido da vida diante dos sintomas do câncer que o levará à morte daqui a pouco. Chega em casa em põe um disco de sua refinada coleção de jazz. Enquanto ouve a música põe-se a observar a coisas a seu redor.  Não tinha pensado em deixar o apartamento, mas em algum momento começou a parecer que seria a ordem natural das coisas. Livrar-se de tudo que havia ali dentro, esvaziá-lo como se esvaziam os bolsos de uma calça, e depois se livrar dele também, da vizinhança, das esquinas conhecidas. Começou, assim, a doar as coisas que tinha à vizinhança.

Quando David vai a uma mercearia asiática no bairro, puxa conversa com Alex,  jovem descendente de vietnamitas, caixa desse estabelecimento. Depois vai uma segunda vez, agora com a necessidade de aproximar-se dela. Pensa David: será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função na nossa  vida, algum papel a desempenhar? Não precisa ser algo grandioso. Podemos topar com alguém na esquina apenas para que esse alguém nos pergunte a direção da rua tal, qual a melhor opção para se fazer uma receita, será que não precisa de um eletrodoméstico que tenho em casa e quero me desfazer?

Alex é mãe solteira. Vive com dificuldade, como quase todo imigrante nos Estados Unidos. Os dois tornam-se íntimos. Quando Alex lhe diz que nunca conhecera o Vietnã, David começa a alimentar a ideia entre eles, de conhecerem Hanói. Também seria uma forma de autoanálise,  de confrontar sua própria identidade através da metáfora do deslocamento.

Até então, só conhecia Adriana Lisboa, através das traduções competentes de duas novelas de Stefan Zweig, Três novelas femininas, e de A estrada, de Cormac McCarthy. Hanói apresenta uma prosa elegante contada com delicadeza.
             
  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
====================

Adriana Lisboa. Hanói. Rio, Objetiva, 2013, 236 pp, R$ 39,90

domingo, 7 de dezembro de 2014

O caminho de Ida

Ida era uma intelectual norte-americana engajada numa guerra sem cartel contra os defensores do desconstrucionismo de Derrida, atacando-os pela esquerda, na grande tradição dos historiadores marxistas. Não tinha um público amplo. Trabalhava para a elite e contra ela, odiava as pessoas que formavam seu círculo profissional. Também gostava de segredo, dos encontros clandestinos num hotel de beira de estrada. Um dia, é encontrada morta em um carro batido, com a mão direita queimada

Emilio Renzi (personagem de outros livros de Ricardo Piglia) estava nessa época - década de 1990 - nos Estados Unidos, a convite de Ida para dar uma palestra sobre o escritor naturalista W. H. Hudson,  escritor de língua inglesa nascido na Argentina e que se interessou pela vida e pelos aspectos físicos daquele país. Com a morte de Ida, Renzi interessa-se pelo caso. Investigando seu passado, descobre que tentara sem sucesso viajar a Cuba. Havia, também, participado de manifestações pela paz, pela descriminalização do aborto, pela igualdade racial, pelo acesso dos latinos à documentação legal, pelo fim do embargo a Cuba. Havia, ainda, participado dos grupos que se manifestaram contra a guerra no Iraque.

Renzi consegue chegar a Thomas Munk, suposto assassino de Ida. Percebeu que ele era considerado o exemplo mais bem acabado de um gênio pelos que o conheciam. Quando desorientado, parecia um tolo, falando confusamente, gaguejando como se estivesse perdido nas suas próprias divagações. Mas, quando estava em forma, era deslumbrante, luminoso, inflexível. Alguns analistas apontam que foi na Califórnia que Tom descobriu a filosofia antitecnológica e começou a sonhar em fugir para o mundo selvagem.
Munk acreditava que vivemos numa época de refluxo e derrota. Já não é mais possível construir grupos clandestinos, pequenas organizações terroristas fechadas, disciplinadas e eficazes. Essa época acabara. Estamos na época dos homens sozinhos, das conspirações pessoais, da ação solitária. Só podemos resistir escondendo nossos pensamentos invisíveis, nos confundindo com a multidão. Somos indivíduos dispersos, internados nas florestas, perdidos nas grandes cidades, sujeitos em fuga extraviados nas pradarias. Faz referência a Henry Hudson e a observação dos animais pampianos. A natureza seria o último refúgio da rebelião.

A conspiração é o motor dessa narrativa com um suspense ágil e revelador do mundo contemporâneo. Ricardo Piglia, como tem sido sempre, soube contar uma história interessante. Eu gostei.

Tradução de Sergio Molina
                              
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===================
Ricardo Piglia. O caminho de Ida. SP, Companhia, 2014, 248 pp.

Preço: 17 a 37 reais o exemplar novo.


domingo, 30 de novembro de 2014

Será difícil ler Gregório de Matos?

Tenho frequentemente feito comentários sobre o conteúdo da leitura obrigatória da Ufrgs/2015.Chegou a vez de Gregório de Matos e Guerra. Lembro de uma jornalista comentando a experiência da filha durante o vestibular de 2014 na televisão, dizer que, apesar de ser leiga no assunto ser uma tortura obrigar os jovens adolescentes serem obrigados a estudar Gregório Matos. A jornalista havia lido alguns poemas marcados como leitura obrigatória e se decepcionou com a linguagem "quase ininteligível" do poeta.

Mas é justamente na escola que se deve estudar Gregório de Matos e buscar compreendê-lo de forma acessível. Estudei muito Gregório de Matos com meus alunos do ensino médio, lendo sua poesia. Num primeiro momento, ler sem paradas para marcar palavras difíceis, isso vem depois. Ler para discutir o poema. Ler em voz alta. Os estudantes são espertos e captam muita coisa, surpreendem. Pode-se depois situar Gregório de Matos dentro da cultura do Barroco brasileiro, cujas características estéticas evidenciam comparações abreviadas, antíteses, paradoxos. A questão da forma versus conteúdo. A linguagem poética do estilo barroco é rebuscada por refletir as contradições de um período formal estupendo, com o enaltecimento da forma, durante o Renascimento, para a obscuridade psicológica oriunda da crença autoritária do catolicismo que passou a dominar parte da França, mas especialmente Espanha e Portugal, se espraiando pelas colônias da América Latina. A poesia desbocada de Gregório de Matos é um caso a parte. Tudo o que foi escrito de escárnio e maldizer na Bahia de 1600 era atribuído a Gregório de Matos. Nem tudo era dele.

Vejamos essa poesia religiosa:

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
  
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Temos aí uma característica conceitista: o poeta faz uso de argumentos inteligentes usando como sua defesa a verdade expressa na bíblia. O poeta pecador reconhece a ofensa a Deus, devido à vaidade, mas pede o perdão de Deus com a certeza de que Deus, bondoso, certamente irá perdoá-lo.

Outra, com traços evidentes de ironia:

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, 
de vossa alta clemência me despido; 
porque quanto mais tenho delinquido, 
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado, 
a abrandar-vos sobeja um só gemido: 
que a mesma culpa, que vos há ofendido, 
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma orelha perdida e já cobrada, 
glória tal e prazer tão repentino 
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, 
cobrai-a; e não queirais, pastor divino, 
perder na vossa ovelha a vossa glória.

Exemplo de sua poesia filosófica: a inconstância dos bens do mundo, a instabilidade das coisas do mundo:

Nasce o sol e não dura mais que um dia. (antítese vida/morte)
Depois da luz, se segue a noite escura, (ant. claro/escuro)
Em tristes sombras morre a formosura, (ant.feio/belo)
Em contínuas tristezas a alegria. (ant. tristeza/alegria)

Porém, se acaba o sol, porque nascia? (dúvida)
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se trasfigura?
Como o gosto da pena assim se fia? (sofrimento)

Mas no sol e na luz falta a firmeza;
Na formosura, não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza. (ant. tristeza/alegria)

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza:
A firmeza somente na inconstância.

A poesia satírica, onde Gregório de Matos é mais reconhecido:

A Cidade da Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado,
Pobre te vê a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh! se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
que fora de algodão o teu capote!

Essa também:

 A cada canto um grande conselheiro,
 Que nos quer governar cabana, e vinha,
 Não sabem governar sua cozinha,
 E podem governar o mundo inteiro.

 Em cada porta um freqüentado olheiro,
 Que a vida do vizinho, e da vizinha
 Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
 Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

 Muitos Mulatos desavergonhados,
 Trazidos pelos pés os homens nobres,
 Posta nas palmas toda a picardia.

 Estupendas usuras nos mercados,
 Todos, os que não furtam, muito pobres,
 E eis aqui a cidade da Bahia.

Poesia amorosa, com traços de amargor:

Ardor em firme coração nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que em um peito abrasas escondido, 
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! Que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.


Esse soneto, muito trabalhado nos compêndios de literatura, difere do lado deprimido do poeta para lançar um tom meio satírico ao poema:

Anjo no nome, Angélica na cara(*),
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

(*) Não se usava, no português antigo, rosto, mas cara.

Então, é tão difícil assim ler Gregório de Matos? Em todos os países a literatura é estudada, mesmo a dita literatura clássica, com respeito, como forma de preservar os valores culturais de um país. Por aqui, percebo que a moderna didática (tenho ranço da didática modernosa) busca incentivar a leitura no aluno, a partir do que ele gosta de ler, quando a função da escola é lhe apresentar outros valores ao lado do que ele gosta de ler.

Precisamos orientar a ler bons autores, sim.

Todos os poemas mencionados aqui pertencem à lista de poemas selecionados para leitura obrigatória da Ufrgs. Se o leitor se interessar, divulgo o site sobre os poemas de Gregórios de Matos selecionados para leitura obrigatória:


http://www.ufrgs.br/coperse/concurso-vestibular/vestibular-2015/leituras-obrigatorias

domingo, 23 de novembro de 2014

O homem que amava os cachorros

O romance do cubano Leonardo Padura conta a história do escritor Iván Cárdenas Maturell,  que na década de 1970  entra em contato com um  homem esquisito que passeava numa  praia de Havana com dois cães de raça russa. Os dois acabam se aproximando. Quando esse homem morre, deixa a Iván uns papeis contando  seu passado e um fato importante que marcou a história da Revolução Russa de 1917. Esse homem era  Ramón Mercander del Río, o homem que matou Trotsky a mando de Stálin. Vinte anos depois, Iván decide trabalhar nos papeis deixados por Ramón.  A partir de então, Iván questiona o próprio destino numa ilha submetida à União Soviética comandada por Stálin e os reflexos disso, após a extinção do URSS em 1991, mergulhando Cuba numa série crise econômica e social.

A geração de Iván era  dos crédulos, que deram o suor e a vida em prol de um socialismo utópico que agora compreendem como traiçoeiro. Aceitaram romanticamente  e justificaram tudo com os olhos postos no futuro. Não ficaram sabendo das repressões e dos genocídios de povos, etnias, partidos políticos inteiros, das perseguições mortais a inconformistas e religiosos, da fúria homicida dos campos de trabalho, do assassinato da legalidade e da credulidade antes, durante e depois dos processos de Moscou. Também não fizeram a menor ideia de quem tinha sido Trotsky ou por que o tinham mandado matar, ou das combinações infames da União Soviética com o nazismo e com o imperialismo, da prostituição dos ideais e das verdades, transformados em palavras de ordem do camarada Stalin, com sua rígida ortodoxia que usou (ele e seus seguidores) para condenar a menor dissidência a seus desmandos e megalomanias.

Agora, a muito custo, Iván podia compreender como e por que toda aquela perfeição havia desmoronado com um acesso mínimo à informação e uma ligeira mas decisiva perda do medo que dera consistência àquela estrutura. O  gigante tinha pés de barro e só se mantivera ereto graças ao terror e à mentira. As profecias de Trotsky acabaram por cumprir-se, e Iván (e os cubanos) sem saber ou não querendo saber de nada. Cada vez mais deprimido, Iván se mata, deixando o relato de sua história a um amigo escritor ciente dos fatos, que decide enterrar os papeis junto com o corpo de Iván, sem que fossem publicados. Ironicamente,  esses papeis constituem a história de O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura.

Tradução de Helena Pitta
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=================

Leonardo Padura. O homem que amava os cachorros. SP, Boitempo, 2013, 592 pp, R$ 69,00

domingo, 16 de novembro de 2014

A artista do corpo

Há quem saiba amar as pessoas depois delas desaparecerem abruptamente. Talvez então possa compreender que sempre manteve uma distância sutil delas, sempre se poupou, só muito raramente expôs seu coração, sempre tecendo redes de dar e receber. Lauren Hartke é uma artista que mescla teatro e mímica e torna o corpo como estátua plástica e viva.

Don Delillo abre o A Artista do Corpo com um casal numa manhã em uma casa enorme à beira de uma praia. Os dois executam ações cotidianas com diálogos soltos, como se cada um se recusasse a sair de si mesmo. As palavras constituem um monólogo sem contexto. Então somos surpreendidos pela notícia de que o homem, um cineasta de origem italiana, havia se matado com um tiro na cabeça sem deixar explicações. Lauren então se fecha para o mundo, decidida a ficar naquela casa da praia até o final do contrato do aluguel a alguns meses.

De repente, um homem esquisito e desconhecido aparece. Ela decide cuidar dele, pois parece perturbado. Então percebe que ele tem atitudes e diálogos que lembram o marido morto. Ela passa a pedir desesperadamente que ele faça coisas como o morto, que diga palavras que ele disse. Ou diga qualquer coisa que lhe venha à cabeça, mas como se fosse ele. Falavam todas as manhãs e ela gravava o que diziam. Mas Lauren sentia que faltava ritmo. As palavras pareciam-lhe desajustadas. O homem não exibia reações faciais às coisas que ela dizia, e isso a confundia. Ela começou a compreender que aquelas conversas não tinham o sentido do tempo, e que todas as referências no nível do não-dito, as coisas que poderia haver entre esse homem e o marido morto não existiam. Então Lauren começa a aproximar-se fisicamente dele, para conhecê-lo melhor. Esse homem misterioso também desaparece da vida.

Tempos depois, uma amiga assiste a uma performance de Lauren,a artista do corpo. Conversando após a performance, a amiga pergunta sobre o marido e o choque do suicídio. Lauren responde que o trabalho saiu diretamente com o que aconteceu com o marido. Em seguida, faz uma coisa que deixa a amiga paralisada. Lauren troca de voz. É a voz dele, do homem nu que ela representara há pouco. Não é uma dublagem, é uma pessoa falando. Está falando com a amiga e o rosto não é bem dela. É capaz de acreditar que está com órgãos genitais masculinos, falsos, como na performance, claro. Lauren pede para ir ao banheiro e a amiga sente que o poder da performance está no corpo da amiga. Às vezes ela faz da feminilidade uma coisa tão misteriosa e forte que engloba os dois sexos e toda uma variedade de estados sem nome. Sua arte na atual performance é obscura, lenta, difícil e às vezes torturante. Mas nunca tem a ver com a agonia grandiosa de imagens e cenários portentosos. Tem a ver com pessoas. A amiga talvez precisasse lhe dizer quem ela era.

Romance surpreendente. Comecei a ler e só parei na última linha do livro. E corri para comprar outros livros de Delillo, considerado pela crítica um dos maiores escritores norte-americanos da atualidade.
        
paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===========================

Don Delillo. A artista do corpo. SP, Cia. das Letras, 2001, 126 pp, R$ 34,00

domingo, 9 de novembro de 2014

Storynhas

Storynhas é o livro de Rita Lee com ilustrações de Laerte, para quem gosta ou é fã da cantora.  São pequenas narrativas desbocadas, cômicas, anárquicas, autobiográficas, críticas, fantásticas etc,  acompanhadas do traço criativo de Laerte. Entre as diversas postagens, acompanhamos a historinha de uma cantora decadente que sonhava em cantar em uma churrascaria. Também fala sobre a dupla mastectomia pela qual passou. Noutro, faz uma relação entre o conservadorismo do fim dos anos 1960 e o conservadorismo de hoje. Há  uma sequência de histórias que começa com “Decadenta” e termina com “Sing-out”, onde fala em tom críticode “Don Malufone”, “Lady Cafa” e “Dasloo”. 
Algumas storynhas:

Delirium Tremens
O Ministério da Saúde adverte:
Quer fumar? Fume, foda-se.
Quer beber? Beba, foda-se.
Quer cheirar? Cheire, foda-se.
Quer injetar? Injete, foda-se.
Quer crackear? Crackeie, foda-se.
Incluir q droga engorda,
o efeito é perfeito.
Eu lá sou mulher d ficar patrulhando
quem quer se foder sabendo q está se
fodendo?
Oh ñ! a polícia na minha porta.
"Não, seu guarda, engano seu, sou uma
pobre velha sofrida, fragilizada pela
vida. Nem sei o que é tuitres".

A leste do Éden
A árvore da felicidade vivia sorridente no jardim do Éden
quando notou uma serpente se enrolando em seu galho
como quem não quer nada.
“Bom dia dona serpente, pq está aqui
em vez d na árvore da sabedoria?”
O réptil visivelmente cansado.
“Não aguento mais ficar de tocaia
na macieira, é um saco.”
Uma semana se passou e,
como a serpente não aparecia,
Deus foi procurá-la.
Ao encontrar a peçonhenta
dormindo no galho da árvore
da felicidade, Deus dá um
esporro de tremer bordel.
“Vaca! Pq vc não está
na macieira p/ seduzir
Eva, como lhe mandei?”
A víbora prontamente:
“Não é justo, tu fica aí no papel
de bacana e eu de demônio?
tô fora, chama outro bicho”.
Deus então ordena q o elefante
cumpra a função, mas c/ o peso,
a macieira plóft. As escrituras
confundiram a tromba do
paquiderme c/ o corpo da serpente.
E Deus viu q isso era bom.

Sing-out
A CNN exibia ao vivo o assassinato d Lady Cafa.
A ex-cantora decadente e atual cantante ascendiente é
presa em flagrante.
Manchetes do planeta destacavam o crime
e exibiam fotos impressionantes d Lady Cafa despedaçada
e sua assassina ao lado sorrindo c/um facão
ensanguentado. Nos bastidores comentava-se q Don
Malufone lhe descolara um habeas corpus.
O q ninguém sabe é q DasLee está fugindo
d volta ao Brasil c/uma surpresa na bagagem.
Chega o dia do aguardado desfile da DasLoo.
Ela entra na passarela envergando um corset c/pedaços
do corpo ensanguentado d Lady Cafa. Autoridades
internacionais imediatamente
foram avisadas e partiram em sua captura.
Agora a ex-cantora decadente, ex-cantante ascendiente e
atual supermodel é fugitiva da lei.

                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
================
Rita Lee. Storynhas. Ilustrações de Laerte. SP, Cia. das Letras, 2013, 96 pp. R$ 33,00



domingo, 2 de novembro de 2014

Dançar tango em Porto Alegre


Um homem solitário embarca num trem em Uruguaiana para procurar emprego em Porto Alegre. Em frente a ele, uma mulher estranha. Ela se irrita quando ele quase a queima com o cigarro. Passado o constrangimento puxam conversa. Em Santa Maria, encruzilhada de trens, acabam dormindo junto numa cabine. São cenas de um erotismo quase pornográfico, encenadas por dois seres humanos solitários e carentes em busca de um sentido para a vida. Quando a mulher sai para buscar alguma coisa de comer, esfriando o clima entre os dois, ele deita-se a pensar: Uma mulher desconhecida, uma viagem de trem, um leito, uma noite de prazer e ali estava eu feito um garoto de colégio repentinamente apaixonado. E não podia conceber o dia seguinte sem aquela mulher que, com suas maluquices, dera um sopro de vida aos meus dias sem saber de velho precoce. Não podia conceber que, no dia seguinte, fosse fazer as mesmas coisas que fizera até então. Disparate? Mas eu me perguntava se de fato não havia sentido, ou se não era mais humano, natural, que a vida acontecesse assim mesmo, loucamente. Sim, precisava pensar, ou por outra, por que pensar? Por que não me entregar à aventura de amar a quem me fazia tanto bem?

Não é fácil de se amar quando o amor é eleito para remediar. Ele, até então um homem difícil, com medo do desconhecido, demorando-se em sondagens e meditações antes de decidir alguma coisa, que para se aproximar das pessoas era necessário que houvesse o intuito de ajudá-las, agora estava desprotegido. Ele simpatizava muito com ela, algo importante havia acontecido nele. Até então era um homem soturno, mergulhado em lembranças juvenis e de mal com a vida, mas algo acontecera. E queria muito vê-la em Porto Alegre, talvez não em seguida, mais tarde, quando ela quisesse. Podiam combinar, quem sabe, para Dançar tango em Porto Alegre. Se ela aceitará ou não, o leitor saberá ao ler esse conto saboroso que dá título ao livro de contos de Carlos Faraco.

O gaúcho alegretense Sérgio Faraco (1940) é mestre do conto moderno, reconhecido internacionalmente. A obra está na lista de leituras obrigatórias para o Vestibular da Ufrgs de 2015.

                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br
========================
Sérgio Faraco. Dançar tango em Porto Alegre. L&PM, 2014, 160 pp, R$ 21,90