domingo, 26 de maio de 2013

Viagem aos mares do sul

Em Viagem aos mares do sul, José Carlos Queiroga nos apresenta a mesma Nova Hereford que  descrevera em Tratado ontológico acerca das bolas do boi, romance árido e por vezes cansativo, devido às muitas digressões e citações acerca do pampa e da formação da propriedade privada que levou ao movimento dos sem-terras dos dias de hoje. Viagem aos mares do sul  é romance curto. Suas 168 páginas podem ser lidas numa tarde, se você for leitor contumaz.
Nova Hereford é uma cidade imaginária que se supõe ser Alegrete, terra natal do escritor. Trata-se de uma cidade rural decadente dos exilados das faculdades de Porto Alegre. Os filhos dos proprietários de hoje em dia não se interessam mais em levar adiante os negócios agropecuários da família e fogem para a cidade grande. Em Nova Hereford, ao lado de alguns grandes estancieiros, existem as vilas pobres dos trabalhadores rurais desempregados. Os gaúchos depois do gaúcho a pé, conforme diz o crítico literário Marcelo Backes, ao analisar a obra de Queiroga. Lá, todo mundo se conhece. Sirley, nosso protagonista, é um guri bundudo e balofo, com jeito de abobado. Segundo o povo do lugar, um vagabundo que não se forma nunca!  O pai de Sirley é um homem grosso e machista. Tratou as mulheres com quem viveu como bichos. O filho teve o azar de herdar as características sensíveis da mãe e sofre com o silêncio que nunca se rompe na comunicação com o pai. Não queria seguir Agronomia em Porto Alegre, mas segue estudando como forma de buscar uma possível aproximação com o pai. Tem uma namorada na cidade, mas ela parece estar interessada em outro rapaz que mora ali. Um dia vai com a namorada e a mãe dela, entrosada em uma entidade filantrópica, visitar os bairros distantes, onde reina a miséria. Sirley chega a comover-se com isso, mas sua vida desinteressante não lhe permite formar opinião a respeito. É um perdido que não consegue vislumbrar uma saída para sua vida.
Viagem aos mares do sul foi publicada pela saudosa editora Mercado Aberto, faliu lá pela década de 90. A obra encontra-se esgotada, mas você consegue um exemplar novo no Balaio Digital por cerca de 10 reais. Vale a pena a leitura.

                                                                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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José Carlos Queiroga. Viagem aos mares do sul. Poa, Mercado Aberto, 1999, 168 pp.

domingo, 19 de maio de 2013

Fluxo-floema

Fluxo-floema é o primeiro livro de ficção de Hilda Hilst. Publicado originalmente em 1970, pela editora Perspectiva, encontra-se reeditado pela editora Globo. Composto por cinco textos que não são romance nem ensaio e nem contos, carregam entre eles o fluxo de consciência da autora, que segundo Alcir Pécora, responsável pela organização e edição da obra de Hilda Hilst pela Globo, não se trata de um fluxo de consciência usual, em que o enunciado se apresenta como realista de pensamentos do autor. É, antes, surpreendentemente dialógico, e teatral. Em seu primeiro texto, Fluxo, temos Ruiska, querendo escrever sobre a angústia de dentro. Essa aflição que, surpreendentemente, não se consegue exprimir de forma racional, liberando o fluxo da consciência em discursos complexos e rítmicos, revelando essa angústia de dentro: Deus tira o bem, do mal que acontece. Falávamos dos seres extraterrestres, das civilizações longínquas, do espaço-tempo, dos seres que podem ser apenas luz, do desconhecido mais secreto dos homens, da vontade de subir e conhecer o espaço mais profundo.
Escrever um livro é como pegar uma enxada, e se você não tem uma excelente reserva de energia, você não consegue mais do que algumas páginas, isto é, mais do que dois ou três golpes de enxada. Por isso, nessa hora de escrever é preciso matar certas doçuras, é preciso matar também o desejo de contemplar, de alegrar-se com as próprias palavras, de alegrar o olhar. É preciso virilidade e compaixão. Sou um unicórnio fechado dentro de um apartamento na cidade.  

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Hilda Hilst. Fluxo-floema. SP, Globo, 2003, 278 pp,  R$ 35,00

domingo, 12 de maio de 2013

Corpo presente

João Paulo Cuenca (1978) é músico e escritor. Atualmente participa da bancada do Estúdio I, nas tardes da Globonews, discutindo cultura. Já publicou o livro de crônicas A Última Madrugada, Leya ( 2012) e os romances Corpo presente, Planeta ( 2002), O dia Mastroianni, Agir ( 2007) e O único final feliz para uma história de amor é um acidente, Cia. das Letras ( 2010), além de participação em inúmeras antologias.
Corpo presente é seu primeiro romance. Na trama, Alberto, debruçado na janela do apartamento, no meio da noite, imagina por trás das cortinas, olhando o pedaço de céu delimitado pela área interna do edifício. Fuma um baseado, não sabe se vai ou não se masturbar. Seu computador está ligado, com a tela em branco, encarando seu fracasso. Toda que vez que senta para escrever, não consegue desenvolver nenhuma ideia, tudo é coisa passada, que já foi escrita. Parece uma criança que monta um quebra-cabeça milhares de vezes. Imagina todos os outros que já estiveram debruçados em sacadas, tomando decisões idiotas e sem perspectivas. O que tenta fazer incessantemente e sem sucesso, é escrever para sobreviver a si mesmo. Durante a narrativa de Cuenca, o protagonista busca obsessivamente sentimentos perdidos num mundo cínico, violento e sexualizado demais. Busca incessantemente o amor perdido e impossível por Carmen, não a da ópera ou ficção, mas a de Copacabana claustrofóbica, suja e sedutora. Alberto só não consegue desintegrar Carmen, única sobrevivente sem pudor, pisando seus pés pequenos sobre os mortos. Durante a noite, Alberto segue descobrindo Carmen pelas ruas, em cada janela fechada, por trás de esquinas, entre cada espelho quebrado, em cada noite perdida, esbarrando nos corpos sem vida.
Escritos em capítulos curtos e numerados, Corpo presente apresenta leitura instigante. A obra encontra-se esgotada, mas pode ser encontrada em sebos virtuais, como o http://www.balaiodigital.com/ por 20 reais um exemplar novo.
                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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João Paulo Cuenca. Corpo presente. SP, Planeta, 2003. 144 pp. 

domingo, 5 de maio de 2013

Caminhos da literdade

Sartre escreveu em O que é a literatura?, que um dos principais motivos da criação artística seria a necessidade do homem sentir-se essencial em relação ao mundo. O universo do escritor deveria mostrar em toda a sua profundidade o exame, a admiração, a indignação e o amor generoso como promessa de mudar o mundo para compactuar com a liberdade do leitor. Grosso modo, a obra de arte, de qualquer ângulo, é um ato de confiança na liberdade dos homens. Para isso, deve-lhe restituir a indignação e a opacidade do mundo como forma de reflexão.
Sartre teve suas atitudes políticas oscilando entre comunismo, anticomunismo e neutralismo, oscilações compreensíveis a um intelectual que pensava o mundo em toda sua amplitude, discutidas no âmbito filosófico e político. A supervalorização que teve esses aspectos, entretanto, injustiçou sua obra romanceada e dramatúrgica de valor apreciável. Sartre escreveu pelo menos um romance que perdura até hoje: A Náusea. E uma peça igualmente memorável: As Moscas.
A trilogia Os caminhos da liberdade, de 1945, compreende três romances, desenvolvendo estudos morais, de alcance social e político de importância documentária indiscutível, mas de mérito literário menor, conforme aponta Otto Maria Carpeaux em sua monumental História da Literatura Ocidental. Havia o planejamento de um quarto romance, que não chegou a ser escrito. 
A idade da razão, o primeiro, passa-se em Paris, 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Mathieu é um professor de filosofia que defende a ideia da liberdade individual, desprezando qualquer tipo de compromisso. A gravidez inesperada de sua namorada, entretanto, coloca em xeque seus conceitos e os dos que o rodeiam.  Mathieu propõe o aborto e a namorada em princípio aceita, sem convicção. Entretanto, Mathieu não tem dinheiro para fazer o serviço com segurança e busca conseguir o dinheiro emprestado com amigos, sem sucesso. Crenças que forjou na sua juventude são desafiadas. Deve tomar decisões que afetarão sua vida futura. Decide roubar o dinheiro de uma velha boêmia sovina. No final, assume que roubou o dinheiro, mas a namorada decide não interromper a gestação e os dois se separam. Sartre levanta nesse primeiro volume, a questão de que realmente seja a liberdade, o compromisso e o amor.

No segundo, Sursis, os acontecimentos nas vidas de diversas pessoas na Europa se entrecruzam, enquanto o continente se consome na angústia da inevitabilidade da guerra. Os personagens de “A Idade da Razão”, cada um vivendo as suas vidas, à espera de serem chamados como reservistas do exército francês, todos com a certeza de não poderem mais sonhar com a liberdade. A história transcorre em sete dias que antecedem o acordo da França e Inglaterra com a Alemanha, como tentativa de evitar a guerra. Para Mathieu, a iminência da guerra significaria que sua vida estaria morta. Considerava-se um homem pacífico e, naquele momento, o futuro se lhe apresentava como uma incógnita. Nesse romance, Sartre descreve a angústia de todos os estratos da população. Ele se utiliza desse contexto para pensar, através de um emaranhado de situações, sobre o que a liberdade representa de importante para o ser humano e a ameaça que isso representa, com o advento da guerra.

Com a morte na alma, terceiro volume da trilogia, conduz o leitor a uma viagem amarga dos mesmos personagens,  marcada por um mesmo acontecimento: a tomada de Paris pelos alemães em 1940. Entrelaçam-se reflexões de um grupo de soldados perplexos ante a derrota iminente, de indivíduos que tentam escapar, mas se encontram submersos na impotência e na presença avassaladora da morte. Mathieu encontra-se lutando pelo exército francês. Todos os heróis da saga chegam a um momento crucial de suas vidas. A guerra os obriga a fazer escolhas, cujas consequências podem ser vitais. Sartre descreve personagens sempre torturados por sua escolha excepcional nesse contexto da guerra. Trata-se da privação da liberdade.

Os caminhos da liberdade pode ser visto como datada, já que os acontecimentos e o pensamento de Sartre modificavam-se de acordo com os acontecimentos do século XX. Vale a pena ser lida pelos amantes de Sartre, como forma de tomar contato com as vertentes do existencialismo, do qual ele foi um dos propagadores mais eminentes.

                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Sartre. A idade da razão. Rio, Nova Fronteira, 2012, 372 pp. R$ 16,90 (Saraiva de bolso)
_____ Sursis. 4ª ed. Rio, Nova Fronteira, 2005, 440 pp. R$ 53,90
_____ Com a morte na alma. Rio, Nova Fronteira, 2012, 376 pp. R$ 14,40 (Saraiva de bolso)

domingo, 28 de abril de 2013

Aqui nos encontramos


John Berger (1926) é inglês. Sua escritura mistura ficção e autobiografia, numa sensível percepção política e histórica da realidade. Além do romance, exerce o conto, a crônica e a crítica literária. No Brasil, seus livros são editados pela Rocco. 
Na ficção Aqui nos encontramos, o autor elege o passado como a forma única para definir o presente. Visita lugares (que formam os capítulos do livro) para trazer à lembrança pessoas importantes em sua vida, todas já mortas. Conta que gostava de livros que o levavam para outra vida. Quando lia, perdia o sentido de tempo por completo. Ler para juntar-se a outras vidas que já viveu ou poderia ter vivido. Neste livro, John Berger está disposto a não esquecer seus mortos. Movendo-se através do tempo e do espaço, ele nos conta que é possível amar os que habitam no passado, sem perder a lucidez. Nessa trajetória de rebuscar pessoas amadas, leva-nos a Lisboa, para matar a saudade da mãe, que um dia esteve lá com ele. Justifica que talvez em Lisboa os mortos se exibam mais que em qualquer outra cidade. Seus bondes, suas ladeiras, praças, as casas antigas, tudo alimenta a atmosfera das lembranças que viveu junto ao carinho materno. Em Genebra, a figura que vem à tona é a de Jorge Luís Borges, que teve em Genebra seu segundo lar. Mas não é Borges o mote dessa narrativa, e sim Katya, que namorou enquanto trabalhou na cidade suíça. Andando pelas ruas da Genebra presente, dá-se conta de que para encontrar algum sentido na vida, era inútil procurar nos lugares onde era instruído a fazê-lo. O sentido da vida só seria encontrado em segredos. Em Cracóvia, ele se encontra com o “fantasma” de Ken, que havia conhecido quando tinha 11 anos. Ken lhe traz a lembrança do massacre de judeus na Cracóvia, durante a segunda guerra mundial. E assim transcorrem as narrativas, em sete lugares, mais um capítulo sobre algumas frutas lembradas pelos mortos.

Narrativa inteligente e de pouco fôlego, mas agradável de ler.

Tradução de Ana Deiró


                                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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John Berger. Aqui nos encontramos. Rio, Rocco, 2008. 208 pp. R$ 33,50

domingo, 21 de abril de 2013

Ibiamoré: o trem fantasma

Roberto Bittencourt Martins (1937) nasceu em Bagé. É filho de dois pioneiros da psicanalistas: Mário e Zaira Martins. Formou-se em medicina, especializando-se em psicanálise. Paralelamente, dedicou-se à literatura, colaborando em jornais e revistas. Escreveu os romances Ibiamoré: o trem fantasma, O Vento nas Vidraças e Amor Ardente. Vive atualmente no Rio de Janeiro.
Ibiamoré: o trem fantasma, envolve mitos e a história sul-rio-grandense. O cenário é Ibiamoré, cidade imaginária localizada na fronteira do Brasil com o Uruguai e a Argentina. De lá parte o tem que não respeita fronteiras, passando por onze estações, onde entram em cena muitos personagens: heróis, índios, jesuítas, espanhóis, portugueses, imigrantes e mestiços. Quem entra nesse trem não sai mais dele. Historicamente, episódios são lembrados, a partir da guerra jesuítica até a construção das primeiras estradas de ferro no final do século XIX.
A história começa com um velho que entoa uma canção acerca de um trem fantasma que corta os campos de Ibiamoré. A partir daí inicia-se a narrativa de Martins. Em cada estação, há a história de um personagem que acaba entrando no trem. O romance termina num círculo, com o velho entoando os versos finais, só que dessa vez sozinho, como se ninguém mais o quisesse escutar. Pronto para entrar no trem que o levará ao caminho do esquecimento. Embora cada capítulo desenvolva a vida de personagens diferentes, cada um deles mantém com o anterior e o próximo uma ligação nem sempre explícita, já que os capítulos não estão organizados em ordem temporal, mas por associação. Assim, o leitor é levado a participar desse processo.
O romance de Martins, embora apresente um narrador em terceira pessoa, que sabe de tudo e de todos, também apresenta outros supostos narradores, oferecendo diferentes relatos e versões da lenda do trem fantasma e daqueles que a contam. Romance original, escrito de forma poética, com personagens bem construídos, constitui leitura interessante.
Roberto Bittencourt, como a maioria dos bons escritores da literatura sul-rio-grandense, é pouco conhecido da maioria das pessoas. Seu romance Ibiamoré veio à tona em 2001, quando foi incluído na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Unisinos de 2002. O romance, assim como toda sua obra, encontra-se esgotada. Mas pode ser encontrado nos sebos virtuais pelo preço médio de dez reais, exemplar em boas condições de leitura.

                                                                   paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Roberto Bittencourt Martins. Ibiamoré: o trem fantasma. 2ª ed, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1995,
                                              424 pp.


sábado, 20 de abril de 2013

A Invenção de Morel

O argentino Adolfo Bioy Casares (1914/1999) trabalhou como colaborador de Jorge Luís Borges durante muito tempo. Entre o que produziram juntos entre roteiros e antologias, há o livro Seis Problemas Para Dom Isidro Parodi & Duas Fantasias Memoráveis escrito sob o pseudônimo H. Bustos Domecq. Por trás do jogo de máscaras da autoria, em que os dois grandes escritores argentinos dão lugar, na verdade, a um heterônimo, ao menos dois aspectos se destacam: a raridade da literatura a quatro mãos e a modernidade do autor como outra criação do autor.
Borges considerava Bioy Casares um dos grandes da literatura universal, escrevendo que sua novela mais famosa, A invenção de Moral, é estruturalmente perfeita. Um fugitivo venezuelano esconde-se numa ilha deserta. Um dia percebe que há outras pessoas na ilha, especialmente uma mulher que lhe interessa sobremaneira. Busca  aproximar-se, mas ela não o nota, assim como os demais também não. Torna-se, então, um voyeur. De repente, assiste a um acontecimento insólito: Morel, o homem que mantém relacionamento cordial com a tal mulher, cria uma espécie de gravador multimídia que reproduz todos os elementos sensíveis da realidade. Morel é impulsionado pela fantasia trágica de vencer a morte para viver a eternidade. Morel fotografara os habitantes da ilha para que vivessem naquela fotografia para sempre.
A invenção de Morel é considerada pelos críticos como uma novela policial. Bioy Casares sempre se interessou por esse tipo de literatura, assim como foi um entusiasta da literatura fantástica, tendo publicado vários contos desse gênero. Tratar A invenção de Morel como novela policial tem um tanto de exagero, embora a história esteja muito bem amarrada e com suspense, levando ao interesse na elucidação da invenção de Morel. Você começa a leitura e não consegue largar até o final de suas cento e poucas páginas.

                          paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Adolfo Bioy Casares. A invenção de Morel. 3ª Ed., SP, Cosac Nsify, 2006, 136 pp., R$ 47,00

domingo, 14 de abril de 2013

Juventude


J. M. Coetzee (1940) nasceu na Cidade do Cabo, África do Sul. Ganhou o Nobel em 2003. Mas é bem mais que isso. É um dos pensadores mais ativos da atualidade. Defende em suas palestras e ensaios a ideia de que o escritor contemporâneo precisa lidar com a sensibilidade estética, o pensamento e o sentido ético.  Sua literatura elegante e sóbria nos revela personagens que, apesar das adversidades, são ansiosos por viverem experiências, lidarem com dificuldades da vida e do relacionamento com os outros, inclusive no sexo e no amor. O cenário sul-africano social e político se faz presente em boa parte de sua obra (combateu veementemente o apartheid), mas os problemas que seus personagens carregam, através da fluidez exemplar das narrativas, são universais e nos tocam profundamente.
No romance Juventude, o autor nos apresenta um jovem estudante de matemática sul-africano e candidato a poeta que não acredita em si próprio. Nunca pensou em fazer terapia, pensa que pessoas felizes não são interessantes. Mora em um apartamento alugado de um cômodo. Foi para fugir à opressão da família, que saiu de casa. Arrumando um emprego, quer usar sua independência para afastar os pais de sua vida. Afastado dos pais, está tentando provar que todo homem é uma ilha: ninguém precisa deles. Envolve-se com uma mulher dez anos mais velha, que passa a morar com ele. Logo em seguida, percebe que está sendo sufocado, que precisa de seu tempo de solidão, longe da bagunça que ela realizou em sua vida. A mulher o deixa. Aparecem outras que acabam sumindo de sua vida. O que o atrai na matemática, além dos símbolos arcanos, são seus usos, sua pureza. Se houvesse um Departamento de Pensamento Puro na universidade, ele se matricularia, mas matemática pura lhe parece o que a academia tem de mais próximo ao reino das formas. Seu plano futuro, entretanto, é ir para Londres, depois de formado, para se dedicar à arte. Enquanto estiver aperfeiçoando sua capacidade poética no estrangeiro, ganhará a vida fazendo alguma coisa obscura e respeitável. Esse é o começo de uma trajetória atraente e muito bem amarrada que envolverá o leitor nas páginas de Juventude, romance com traços autobiográficos que faz parte da trilogia Cenas da vida na província, precedido de Infância e seguido de Verão. Juventude pode ser lido de forma independente. 

Coetzee vem sendo traduzido no Brasil, através da Editora Companhia das Letras. Além de Juventude, temos Desonra (livro que me impressionou bastante), Diário de um ano ruim, O homem lento e A infância de Jesus, recém-lançado.

Dia 18 de abril o autor dará uma palestra no Salão de Atos da Ufrgs, a partir das 19h30 com o tema Literatura e Censura. Se o leitor tiver interesse, a inscrição poderá ser feita diretamente no sítio http://www1.ufrgs.br/extensao/inscricoes/ins_inscricao.php. A inscrição custa R$ 50,00 para o público externo à Universidade.
                                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br                                                

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J. M. Coetzee. Juventude. SP, Cia. Das Letras, 2005, 190 pp. R$ 22,00 (edição de bolso)

domingo, 7 de abril de 2013

Leite derramado

Em Leite derramado, seu quarto romance, Chico Buarque (1944) nos conta a vida de um velho indigente num hospital público do Rio de Janeiro, que narra, de uma forma às vezes desarticulada a alguém que parece ser a enfermeira, sua saga familiar, caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos. O discurso da personagem apresenta muitas personagens que conseguem vida própria em um texto enxuto. Proeza do escritor Chico Buarque que consegue narrar sua história de forma concisa e precisa.
 
Para o velho, todo dia acordava com o sol na cara, a televisão alta no corredor do hospital infecto, ouvindo as vozes das macas com meliantes, aleijados, leprosos e drogados. Sua linhagem não lhe trazia privilégios naquele lugar.Todo cagado nas fraldas, nos conta que teve berço. Seu trisavô desembarcara no Brasil com a Corte Portuguesa. Entretanto, isso agora não o faz melhor do que ninguém. Nem pelo fato de seu trisavô ter sido confidente de Dona Maria Louca. Aquela a gente ao lado dele, agora, não fazem a menor ideia de quem tenha sido Maria Louca. Hoje ele é a escória igual a eles. Antes de ser internado, morava com uma filha de favor, numa casa de um só cômodo nos cafundós do Rio de Janeiro. Ele começa, então, a entrecortar lembranças do passado de seus ancestrais e a decadência econômica da família, antes rica, que foi gradativamente, a cada geração, perdendo seus bens e a educação aristocrática, de que ele tanto sentia saudade. A paixão por Matilde, sua mulher, que de início parece ter sido uma linda história de amor, acaba, no decorrer da narrativa, mostrando a infelicidade dos dois, em meio a preconceitos, traição e loucura.

Leite derramado perdeu o prêmio Jabuti de melhor romance para Ednei Silvestre, com Se eu fechar meus olhos agora. Entretanto, o livro de Chico ganhou o Jabuti como livro do ano. Houve muita confusão entre a editora Record, de Ednei Silvestre e a Companhia das Letras, de Chico. Chico foi atacado por alguns setores da imprensa, que queriam que devolvesse o prêmio. Chico, entretanto, não entrou na briga.

                                                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Chico Buarque. Leite derramado. SP, Cia das Letras, 2009, 200 pp.  R$ 39,50

domingo, 31 de março de 2013

O último voo do flamingo

Na vila de Tizangara, em Moçambique, acontecimento era coisa que nunca sucedia. Só os fatos eram sobrenaturais. Por isso, o narrador de O último voo do flamingo nos diz que tudo que nos vai contar, ocorreu. O mundo não é o que existe, mas o que acontece, ele diz. Eram os tempos de pós-guerra e tudo parecia correr bem. Soldados das Nações Unidas vinham vigiar o processo de paz. Coisas sobrenaturais começaram quando alguns desses soldados começaram a explodir, num total de cinco. Um dia, apareceu um pênis decepado na estrada principal que dava acesso à Vila. Um boné das Nações Unidas estava suspenso num galho de árvore. Havia a tentativa de identificar o corpo. Uma delegação oficial estava prestes a chegar, para investigar o caso do sexo decepado. Gente interna do governo, gente de fora. Até das Nações Unidas. Vinham investigar o caso do sexo decepado, mais os outros casos de soldados estrangeiros que explodiram. O administrador da vila nomeou um habitante da vila que sabia ler e escrever, para ser o tradutor oficial da comitiva, mais especificamente do italiano Massimo Risi, a quem o moçambicano traduz não a sua língua, que o italiano sabia falar, mas a cultura oral de seus ancestrais que está desaparecendo em decorrência da guerra que expulsara os portugueses e firmara no país os rebeldes que passaram a governar com mão de ferro, mantendo a corrupção e a miséria sobre seus semelhantes.
Como costuma acontecer nas histórias do moçambicano Mia Couto (1955), através de uma narrativa carregada de lirismo, conhecemos o administrador Estevão Jonas, de guerrilheiro a empossado comandante da cidade, usando de seu poder para desviar verbas para benefício próprio. Há personagens fascinantes como Temporina, mulher de corpo exuberante com feições de anciã, a prostituta Ana Deusqueira, chamada inicialmente para tentar identificar a quem pertenceria o pênis decepado, o pescador Sulpício, pai do tradutor que nos conta a história e que lhe passa verdadeiras lições de vida relativas à ancestralidade do povo moçambicano, destruído pelo abranquecimento do colonialismo português e pelas bombas que mataram milhares de gente inocente.

                                                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Mia Couto. O último voo do flamingo. SP, Cia. das Letras, 2005, 232 pp.  R$ 46,00

domingo, 24 de março de 2013

Ravelstein


O canadense Saul Bellow (1915/2005) fez parte de um grupo de escritores que exercem o gênero romance-ensaio (parecem ser, ao mesmo tempo, romance, ensaio, tratado científico, história e reportagem), para melhor constituir o espelho do homem e da sociedade.Só assim o leitor contemporâneo chegaria a acreditar na “verdade da ficção”. É tendência do romance moderno, a partir do século XX. Doutor Fausto, de Thomas Mann, O jogo das contas de vidro, de Herman Hesse, Ulysses, de Joyce, os romances e o teatro de Sartre e Simone de Beauvoir, a obra de Jorge Luís Borges; no Brasil: O filho eterno, de Cristóvão Tezza e 9 noites, de Bernardo Carvalho, como um punhado de inúmeros exemplos. Há casos em que a imersão na realidade política e social é tão intensa, que a história torna-se árida, parecendo fugir ao mundo da ficção. As obras de Saramago, a meu ver, são assim, a história se perde nas reflexões políticas do autor em meio à trama.
Ravelstein, de Saul Bellow, é um bom romance. Lança o foco nos momentos finais de um intelectual judeu, vítima da condição humana, numa vida sem sentido. Com formação clássica sólida, elitista, refinado, o protagonista aproxima-se do fim de sua vida pródiga, tendo conquistado fama e fortuna. Como fora professor, tem seu grupo de seguidores, ex-alunos seus a quem havia ensinado filosofia política e passaram a amigos de longa data. Um de seus discípulos sugere que ele lance um livro acerca do que sustenta a humanidade ou tem capacidade para destruí-la. O livro é um sucesso e Ravelstein torna-se um milionário. Entretanto, sabedor de que está prestes a morrer em decorrência da Aids, Ravelstein pede a esse amigo que faça sua biografia. No diálogo que os dois mantêm em função desse propósito, Saul Bellow confronta o nihilismo americano ao dizer às pessoas o que elas talvez não queiram ouvir. Trata-se de uma reflexão sobre a mortalidade. Supõe-se que a personagem Ravelstein foi inspirada em Allan Bloom, filósofo político que influenciou não só Bellow, mas gente como Margareth Tatcher, Sartre e Beauvoir.
Ravelstein está esgotado, mas você encontra exemplares novos no sebo Balaio Digital, a R$ 7,90.

                                          paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Saul Bellow. Ravelstein. Rio, Rocco, 2001, 216 pp.

domingo, 17 de março de 2013

Sargento Getúlio



Sargento Getúlio é sujeito tosco, sem formação acadêmica, trabalhou desde a infância. Cresceu, casou-se, foi traído e assassinou a mulher grávida. Para fugir, quem sabe, à condenação pelo crime, torna-se cabo eleitoral de um poderoso chefe político de Aracaju, ligado ao PSD. Como já havia feito vários“trabalhos” a esse político, Getulio aceita mais um, prender o líder da UDN, de quem não se conhece o nome.   Getulio cumpre a missão e o retorno da viagem rumo a Aracaju é a espinha dorsal da narrativa. O pano político do romance, como se vê, é o do coronelismo, se se enraizou no país da proclamação da República até a ascensão de Getúlio Vargas ao poder na presidência do país.
A missão confiada se converte na razão de ser do Sargento Getúlio. Quando recebe a informação de que deve soltar o prisioneiro, devido às reviravoltas políticas na capital, decide continuar firme com seu propósito, executando a lei por conta própria. Como fundo da história está o conflito ideológico e o comportamento degradante de personagens, cujo objetivo é sobreviver num espaço hostil, dominado pela corrupção política. O romance de João Ubaldo Ribeiro (1941) foi publicada em 1971, em plena vigência do regime militar.
O autor de Sargento Getúlio constrói a história, rompendo a estrutura narrativa tradicional, numa construção aparentemente caótica (mas nem por isso difícil de ser compreendida). No primeiro capítulo, Getulio fala em monólogo ou em diálogo com Amaro, o chofer que o acompanha, e com o preso, que não fala em nenhum momento da narrativa. Todos estão voltando da cidade de Paulo Afonso, onde foram buscar o prisioneiro. Reviravoltas políticas fizeram com que o mandante da busca denunciasse o sargento Getúlio, para salvar a própria pele. Getúlio nega-se a entregar o preso. Na luta, acaba degolando um tenente e a situação se complica. A partir daí, resolve cumprir a missão por conta própria. Na consciência conflituada e em crise total do protagonista, as noções de espaço e tempo vão desaparecendo aos poucos. Sargento Getúlio, em sua trajetória existencial, descobre que o tempo correu e que o mundo mudou. Como se nega a aceitar essa mudança, sua epopeia tem um final trágico.

                                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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João Ubaldo Ribeiro. Sargento Getúlio. RJ, Ponto de Leitura, 2010, 176 pp.  R$ 14,90