domingo, 9 de março de 2014

A letra escarlate

"Na cidade puritana de Salém, na primeira metade do século XIX, seus habitantes esperavam um acontecimento grave. Quando a porta da cadeia foi aberta, surgiu na praça uma jovem, que avançou a céu aberto.  Segurava nos braços um bebê de cerca de três meses, Assim que a jovem — mãe dessa criança — se revelou por inteiro à multidão, pareceu ter sido seu primeiro instinto abraçar com mais força o bebê junto ao peito; não tanto por um impulso de afetividade materna, mas como se escondesse um símbolo, o qual vinha gravado ou costurado naquela altura do vestido. No momento seguinte, no entanto, percebendo que não fazia mais do que ocultar de maneira precária um emblema de sua vergonha com outro, ela tomou o bebê num dos braços e, com o rosto queimando, um sorriso arrogante e o olhar de quem não se deixaria humilhar, encarou a gente de sua cidade e os vizinhos que a rodeavam. No peitoral da túnica, em tecido vermelho fino e adornada por um elaborado bordado e fantásticos floreios em linha dourada, trazia a letra A. O emblema fora bordado com arte, exuberância e beleza decorativas, dando a  impressão de um toque final e preciso à roupa que ela usava; roupa que, por sua vez, exibia esplendor conforme ao gosto da época, mas muito além do que permitiriam as normas da colônia no que dizia respeito a ostentação e luxo. A jovem era alta, uma figura de perfeita elegância em todos os sentidos, tinha cabelo escuro e abundante,  e um rosto que causava aquela impressão bem feminina, para os padrões da época; caracterizava-se por certa postura e dignidade. Talvez houvesse nela algo delicadamente doloroso. Seu traje, que, na verdade, confeccionara para a ocasião na própria cadeia, modelando-o bem ao seu gosto, parecia expressar, com insolente e pitoresca peculiaridade, uma postura de espírito, a desesperada temeridade de seu estado de ânimo. Mas o detalhe que atraía todos os olhares e, como era de esperar, transfigurava sua portadora — a ponto de homens e mulheres para quem ela fora até ali uma presença familiar agora a olharem como se pela primeira vez — era aquela letra escarlate, tão magnificamente bordada e iluminada em seu peito. Funcionava como um feitiço, apartando-a das relações humanas ordinárias para encapsulá-la numa esfera própria. O lúgubre oficial de justiça fez um gesto com o bastão, para abrir caminho. Chegara a hora em que a virtuosa colônia de Massachusetts, onde a justiça se faz à luz do sol visse a jovem mulher exibir sua letra escarlate na praça pública, expondo, assim, sua vergonha."

O que acontecera é que essa mulher era casada com um homem tido como honrado, ainda que não tivesse aparecido ainda na cidade, pois a mulher tinha vindo antes dele para Salém. Como tivera um filho, certamente não seria do marido. Agora, em praça pública, querem que ela revele o nome do pai da criança. Mas ela se cala, como gesto de proteção.

Percebe-se no trecho narrado acima, que estamos diante de uma obra romântica: dignidade, beleza física, recato. O romance retrata o adultério na sociedade puritana do século XVIII. A letra escarlate, entretanto, é uma obra muito mais complexa. Os puritanos insistem numa sociedade absolutamente pública, porque acreditam necessitar de toda a energia de cada indivíduo na tarefa de estabelecer uma colônia duradoura. Segundo esse ponto de vista, a sociedade e a própria civilização seriam incompatíveis com a privacidade.  Para isso, os puritanos precisam manter cada aspecto da vida das pessoas sob controle.Tal objetivo é incompatível com a permissão de que os indivíduos tenham vida privada ou existência íntima.  Para os puritanos, o adultério é um pecado aos olhos de Deus e, consequentemente, considerado um crime. Mas a questão importante na história não é o pecado, mas a maneira como a crença de que é conduz os puritanos a certas ações que, por sua vez, afetam pessoas que mantêm opiniões diferentes sobre o adultério.  Embora Hester, a adúltera, sofra enormemente pela vergonha de sua desonra pública e pelo isolamento que seu castigo impõe, jamais consegue aceitar, no íntimo de seu coração, a interpretação puritana para seu ato. Mantém, assim, seu amor próprio e sobrevive à sua pena com dignidade e caráter cada vez mais fortalecido.

A tradução é de Christian Schwartz.

                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Nathaniel Hawthorne. A letra escarlate. SP, Penguin Companhia, 2010, 336 pp, R$ 29,00

domingo, 2 de março de 2014

O coronel Chabert

O coronel Chabert é uma novela curta de Balzac, que você vai ler de um fôlego só, pois é envolvente e criativa. Conta a história de um homem considerado morto perante a justiça,  que busca readquirir sua identidade e a fortuna que perdeu para a mulher, oficialmente viúva e casada com outro homem, com quem teve dois filhos. Chabert procura o advogado Derville para lhe contar sua história e como se tornou um morto-vivo esfarrapado e faminto. O advogado se interessa pela história de Chabert, adiantando-lhe pequena soma em dinheiro para que o defunto sobreviva, enquanto investiga os fatos. Essa investigação acaba revelando muitas surpresas, mas o básico é o uso do dinheiro como o único meio para subir na sociedade burguesa da época.

Chabert, o defunto, conta ao advogado que comandava um regimento de infantaria ligado ao imperador Napoleão Bonaparte, que tinha o maior apreço por Chabert. Numa batalha contra os russos, quando voltavam para junto do imperador, depois de dispersados os russos, Chabert e seus comandados toparam com um batalhão do exército inimigo. Deu-se a batalha e Chabert acabou ferido por uma espada na cabeça e dado como morto junto com outros tantos soldados franceses. Enterrado em uma vala comum com os outros mortos, Chabert recobra os sentidos pouco depois, mas seu atestado de óbito já havia sido feito conforme as regras estabelecidas pela jurisprudência militar.

Chabert se esconde na Alemanha, onde é resgatado por um casal de camponeses que tratam de seu ferimento e lhe dão roupas para vestir. Quando regressa a Paris é que descobre que é um morto-vivo, e todos passam a desacreditá-lo. Sua esposa, agora oficialmente viúva, herdou dele grande quantia em dinheiro e não lhe quer dar um tostão sequer.  Derville lhe diz que a esposa o havia procurado justamente para tentar negar a existência de Chabert. Muitas coisas mais acontecem, a partir daí.

O coronel Chabert tem tradução de Eduardo Brandão
                                                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Honoré de Balzac. O coronel Chabert. SP, Penguin/ Cia das Letras,  2012, 88 pp, R$  14,90

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Reprodução

Existem traços de um discurso neofascista rondando as redes sociais e a mídia de um modo geral. O político defensor dos agricultores rurais afirma em vídeo que quilombolas, índios, gueis e lésbicas "são tudo que não presta". Depois ele se retrata negando ser homofóbico, tem pessoas de suas relações que "são do meio" e a retratação está feita. A professora universitária do Pará chama um segurança negro de macaco. Depois se desculpa, afirmando que se referiu a macaco como brincadeira, macaquice. A jornalista do SBT que se diz cristã, do bem, compreende as pessoas que hostilizaram"o marginalzinho preso a um poste". Isso que estou dizendo é café pequeno diante do discurso neofascista. Muito discurso contraditório que você encontra nas postagens do Facebook, por exemplo, faz parte de uma classe média, a maioria com curso superior, que não se presta a fazer uma análise de conjuntura (viva o Betinho!), reproduzindo discursos alheios oriundos de uma preguiça para pensar politicamente sua opinião própria.

Na esfera internacional, tivemos recentemente  o caso de Marine Le Pen, candidata de extrema direita à presidência da França, pela Frente Nacional. Ela dizia defender um estado laico e, contraditoriamente, propagava a xenofobia e a homofobia, através de um discurso ambíguo carregado de clichês. Esse fato chamou a atenção do escritor Bernardo Carvalho. Ele percebeu que estamos hoje diante de um novo tipo de fascismo que não está exatamente onde o fascismo estaria,  o de Mussolini e Hitler. Há um novo fascismo no discurso competente carregado de narcisismo que perambula por espaços supostamente democráticos. Isso serviu de  mote para seu novo livro, Reprodução, um romance tragicômico, tendendo a um humor negro.  O primeiro romance político de Bernardo Carvalho.

Um cara que trabalha no mercado financeiro e perdeu o emprego e a mulher resolve estudar chinês por considerar que os chineses vão dominar o mundo. Ele está na fila do check-in para pegar o voo para Xangai, quando encontra a antiga professora de chinês com uma criança querendo embarcar no mesmo voo. Ele tenta manter contato com a mulher, mas ela é presa e desaparece. Ele também é confinado numa sala sem janelas do aeroporto, onde transcorre todo o romance.

O estudante de chinês, ao ser interrogado, diz ao delegado que lê as revistas semanais , jornais, blogs, artigos de cronistas, colunistas e articulistas. Acha que são gente preparada que fala com propriedade, porque sabe o que estão dizendo. Pensa que brasileiro é burro e ignorante. Não se consegue conversar com um brasileiro. O brasileiro nasce inocente, sem memória, sem educação, sem peso, sem luta, sem sangue.  Por isso estuda chinês, para quando a China invadir o Brasil e será um deles. O chinês é a língua do futuro, com ela as pessoas vão poder dizer o que quiser, sem consequência, sem responsabilidade e sem contradição. Na língua do futuro, o assassino vai clamar justiça, o racista vai exigir seus direitos, o fascista será o porta-voz da democracia, na língua do futuro. A língua do futuro dará ao homem o que ele quiser ouivir.

O livro é dividido em três monólogos (na verdade são diálogos em que só a fala do protagonista é reproduzida). Leitura interessante.

                                                                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Bernardo Carvalho. Reprodução. SP, Companhia das Letras, 2013, 168 pp, R$ 37,

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Primavera num Espelho Partido

O pano de fundo do romance é o período da ditadura uruguaia imposta ao país de 1973 a 1985. A história gira em torno de Santiago, preso político, e Graciela, sua mulher. Graciela é forçada a pedir asilo na Argentina com a filha pequena, mais o pai de Santiago, para tentar refazer sua vida. Em cinco anos de prisão, comunicam-se apenas por cartas esporádicas. Santiago vive um tempo estático, onde nada de novo acontece. Passa e repassa as lembranças familiares como forma de se manter livre. A escolha dele, de lutar contra a opressão, e a dela, de sair do país, levam suas vidas a um rumo imprevisível. Graciela, ao contrário,  precisa seguir em frente, procurando recompor sua vida com a filha. Cai em uma rotina  de mudanças constantes, em que até o amor pelo marido será afetada, já que Graciela começa a nutrir sentimentos pelo melhor amigo de Santiago. O romance é contado em várias vozes, inclusive a de Mario Benedetti, que relata seu drama de exilado político em várias partes do mundo. Don Rafael, o pai de Santiago, é uma dessas vozes. Sua fala revela a preocupação de o filho enlouquecer na prisão. É nos torturadores que reside a loucura. São loucos por vocação e livre escolha, que é a forma mais ignóbil de loucura. Ganharam aulas de tortura dos norte-americanos para se diplomarem dementes. Mas isso não acontece. Ao receber uma carta do filho, sente que sua descida ao inferno não o incinerou. Está são. Pensa o pai que, mais do que se entregar a uma esperança, o que conta para o filho é se agarrar à sanidade. E seu filho continua sensato. Está dosando seus ódios com prudência e sagacidade, o que é decisivo. O pai sabe que é difícil ter bom senso quando se passou pela humilhação e pelo mutismo obstinado e pelo asco à morte e pelo alerta sem trégua e pelo pavor solitário e pelo martírio em cotas incômodas. Depois de tudo isso, agarrar-se à sensatez pode ser uma forma de delírio. Só isso pode explicar essa ferrenha lealdade ao equilíbrio. Isso explica o respeito a si mesmo, fidelidade aos demais e sobretudo muita tenacidade, muita obstinação e uma desmistificação progressiva da morte.
Primavera num espelho partido é uma história sobre as contradições humanas, a busca de sentido na vida. Benedetti compõe um mosaico de impressões e sentimentos, numa história marcante sobre a permanência do amor em tempos sombrios.

A tradução é de Eliana Aguiar
                                                                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Mario Benedetti. Primavera num espelho partido. Rio, Objetiva, 2009, 218 pp, R$ 42,90

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Taça de Ouro

Londres, início do século XX.  A senhora Assingham, casada com um militar aposentado, recebe em sua casa a visita do príncipe italiano Amerigo, vindo a Londres para casar-se com Maggie, jovem aristocrata e rica. Durante o encontro, a senhora Assingham recebe também a visita inesperada da srta. Charlotte, que voltava de Nova Iorque. O que a jovem estaria fazendo ali, a poucos dias do casamento do príncipe com Maggie, amiga de Charlotte? Naquele momento, o príncipe, que se preparava para partir, decide ficar. Para a senhora  Assingham,  ele não estaria ficando para fazer uma pergunta grosseira (quanto tempo ela pretendia ficar hospedada na casa da senhora Assingham?). Havia um ar de suspense no semblante do príncipe, reflexo do medo que tinha da jovem. Será que ela se jogaria em seus braços ou, pelo contrário, seria maravilhosa? Ela veria o que ele iria fazer - foi o que  o estranho minuto de silêncio disse a ela. Mas o que ele poderia fazer, além de deixar claro que faria qualquer coisa, tudo, por ela, do mais honradamente possível? Mesmo que ela se jogasse em seus braços, ele tornaria isso fácil, isto é, desconsiderar, ignorar, não lembrar, e também lamentar. Na verdade não foi isso o que aconteceu, apesar de não ter sido com um simples toque, mas através das gradações mais delicadas, que a tensão dele diminuiu. Charlotte era um produto raro, especial. Sua especificidade, sua solidão, sua carência de posses, isso é, sua carência de ramificações e outras vantagens, contribuíam para enriquecê-la de algum modo com uma neutralidade estranha, preciosa, para constituir para ela, tão distanciada e ao mesmo tempo tão consciente, uma espécie de pequeno capital social.
O príncipe acaba indo embora e a senhora Assingham providencia as acomodações para Charlotte em sua casa. Mas uma dúvida lhe persiste, por que a jovem viera antes e não depois do casamento de Maggie? Tarde da noite, expondo ao marido o incômodo que a perturbava, ficamos sabendo que Charlotte e Amerigo haviam sido amantes na Itália, mas o relacionamento não fora adiante, talvez porque a Charlotte interessasse um homem de posses e o príncipe estava praticamente falido. Temendo que alguma coisa pudesse comprometer o casamento de Maggie, a senhora Assingham arma uma estratégia para casar Charlotte com um nobre inglês, bastante amigo do príncipe Amerigo.

A taça de ouro, obra-prima de Henry James,  um dos principais introdutores do fluxo de consciência na narrativa, é marcado pela dúvida, pelas impressões, pelas ações decorrentes disso por parte de quem imagina a partir daquilo que vê. Num primeiro momento é o olhar da senhora Assingham sobre Maggie, o príncipe e Charlotte. No segundo momento é o olhar de Maggie sobre o marido e Charlotte. História longa e envolvente, é indicado para quem gosta de literatura acima dos joelhos. Vale a pena!

Tradução de Alves Calado
                                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Henry James. A taça de ouro. Rio, Record/Best Bolso, 2009, 574 pp, R$ 25,00
 

 

 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O Voo da Madrugada

O voo da madrugada, de Sérgio Sant'Anna (1941), é um livro híbrido. Divide-se em três partes, a primeira e a terceira são contos e estão intercaladas pela novela O Gorila, também dividida em três partes. Os temas de quase todas as histórias são a solidão e a morte, tratadas algumas vezes com humor irônico, para abrandar a atmosfera sombria das narrativas.
O personagem do conto Invocações afirma que sempre pairou no mundo a pergunta se existe o Diabo. Talvez ele exista, se existir Deus. Mas, ainda que houvesse uma possibilidade apenas, entre milhões, de que o Diabo existisse e pudesse apossar-se da alma de alguém em troca de uma grande fortuna artística ou de outra ordem, não se atreveria a evocá-lo. Mesmo que a obra não passasse de um simples conto, e o contista um pequeníssimo Fausto.  O que não quer dizer que ele, o contista, quando em desespero, não possa apelar para outras invocações, como a morte, por exemplo. Pois a existência de um ser para além da morte é algo em que se pode acreditar ou não, mas que os textos que lhe vieram à cabeça, independentemente do esforço que lhe custou a escrita e do seu modesto valor, sofreram em tudo a interferência da própria invocação e estão com ela intimamente relacionados. Disso não há a menor dúvida, como se verá nos contos de O voo da madrugada, Prêmio Jabuti de 2004, na categoria contos.
Na viagem que inicia esses contos de Sérgio Sant'Anna, um homem embarca num voo noturno em companhia de alguns cadáveres e de pessoas enlutadas. O absurdo da situação , porém, deve-se mais às especulações íntimas do personagem que narra, misto de atração e repulsa pela morte. Seus fantasmas interiores desdobram-se em fantasia, memória, alucinação e desejo sexual, sempre de forma ambígua.

 A solidão que persegue os personagens do livro de forma desesperada leva-os, muitas vezes,a  pensar em dar cabo da existência. À obsessão pela morte, associa-se forte carga erótica e também a busca pela forma perfeita.  Sedução, volúpia, imaginação, fantasia, morte, nos textos que fecham o livro, retomam essas figuras femininas, defendendo uma arte ligada de forma íntima à vida. A composição da escrita de Sérgio Sant'Anna alimenta-se de forças artísticas criadoras e destrutivas, indissociáveis, que permitem alcançara a fusão perfeita - morte, mas também viagem e delírio, como um voo na madrugada.
O autor nasceu no Rio de Janeiro em 1941. Ganhou três prêmios Jabuti.

                                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Sérgio Sant'Anna. O voo da madrugada. SP, Cia das Letras, 2003, 248 pp. R$ 39,50

domingo, 26 de janeiro de 2014

Trilogia Suja de Havana

Ninguém goza mais do que ela. Assim ficamos unidos por muito tempo. Quando tirei o pau, estava melado de merda e ela sentiu nojo. Eu não. Eu tinha o cínico alerta, não dormia nunca. O sexo não é para gente escrupulosa. O sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, saliva, hálito e aromas fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se for apenas ternura e espiritualidade etérea, não passa de uma paródia estéril do que poderia ser.  Nada. (...) Fome.  Claro, só tinha no estômago um chá, uma fatia de melão e um café. Em casa comi um pedaço de pão com outro chá. Já estava me acostumando com muitas coisas novas na minha vida. Estava me acostumando com a miséria. A encarar as coisas como elas são. Treinava para abandonar o rigor, porque senão não sobreviveria. Sempre vivi carente de alguma coisa. Inquieto, querendo tudo de uma vez, lutando rigorosamente por algo mais. Estava aprendendo a não ter tudo de uma vez. A viver quase sem nada. Caso contrário, continuaria com a minha visão trágica da vida. Por isso agora a miséria não me afetava tanto.

Assim vive o personagem de Trilogia suja de Havana, que tem o mesmo nome do autor, Pedro juan Gutierrez. O livro é composto de crônicas que se passam no centro de Havana, onde reside grande parte da população que vem do interior para a capital, sob a crise de alimentação e moradia que assolou Cuba, na década de 90 do século passado, quando a União Soviética foi extinta e Cuba teve de se virar pelo avesso. Foi a partir daí, por exemplo, que os cubanos passaram a investir no turismo como uma das formas de abrandar um pouco a forte crise econômica da ilha.
O Pedro juan do livro mora em um quarto no terraço, em Centro Havana. Um bom lugar. O problema lá são os vizinhos e o banheiro coletivo. Lá vivem negros, velhas decadentes, algumas putas jovens, outras já destruídas, que foram putas de luxo em outros tempos; velhos bêbados e um monte de gente de Guantánamo que emigra em bandos e ninguém sabe o que fazer para caber vinte num quarto.Em Guantánamo entravam para a polícia e logo depois conseguiam transferência para Havana e levavam junto a família inteira. E se viram para morar todos num quarto de quatro metros por quatro, não se sabe como. O banheiro é o mais nojento do mundo, a merda chega até ao teto. Nesse banheiro cagam, mijam, tomam banho diariamente nada menos que duzentas pessoas. Sempre há fila. Mesmo que alguém esteja se cagando, tem que entrar na fila. Alguns, para fugir da fila, cagam  num papel e jogam o pacote de merda no terraço do edifício ao lado, que é mais baixo. Ou na rua. Tanto faz. Um desastre! Mas, quem  está em baixa, tem que se acostumar.

 Pedro Juan Gutiérrez, o autor, acredita que a arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira pode nos mostrar a outra face do mundo, aquela que nunca vemos ou nunca queremos ver para não causar incômodos à nossa consciência. Em Havana tudo está contaminado. Em última instância, são todos mestiços. A agitação é subterrânea. Basta arranhar um pouco a superfície e tudo explode, com a mesma brutalidade. O autor nasceu em Cuba em 1950 e exerceu os mais diversos ofícios: vendedor de sorvetes e jornais, instrutor de caiaques , cortador de cana-de-açúcar, operário agrícola, soldado, locutor de rádio e jornalista. Trilogia suja de Havana ganhou projeção internacional em 1998. Depois disso, escreveu mais quatro livros do chama Ciclo do Centro de Havana: O rei de Havana, O insaciável homem-aranha, Animal tropical e Carne de cachorro. Todos os livros desse ciclo constituem o relato sobre a vida em Cuba nos anos 90.  Através de sua literatura, conhecemos uma Cuba contraditória, vibrante e sensual, mas ao mesmo tempo um país duro e perigoso.

Gutiérrez vive em um prédio velho no centro de Havana e se diz simpatizante do regime cubano (Trilogia suja de Havana não pôde ser publicado em Cuba, inicialmente, mas na Espanha) por isso nega-se a responder a perguntas sobre a repressão e a censura em seu país. Faz parte de uma elite cultural, artística e esportiva que divulga Cuba no exterior. Talvez pudesse ganhar bem melhor exilando-se em algum país de língua espanhola, mas certamente não seria Pedro Juan Gutiérrez de seus personagens alegres, irreverentes e patéticos diante das dificuldades de um país pobre.
                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Pedro Juan Gutiérrez. Trilogia suja de Havana. Rio, Objetiva, 2008, 382 pp. R$

 

domingo, 19 de janeiro de 2014

A fera na Selva

Ele a reencontra, anos depois, em uma reunião de amigos, quando ela questiona sobre uma declaração que ele lhe havia feito naquela vez:  "Você me contou que sempre teve, desde os primeiros tempos, como a coisa mais profunda dentro de você, a sensação de estar sendo poupado para algo raro e estranho, talvez prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.  Isso que você falou já aconteceu?" A partir dessa revelação, os dois passam o resto da vida aguardando com obstinada intensidade que aconteça essa coisa extraordinária, como uma fera emboscada na selva, pronta para saltar a qualquer momento. Enquanto envelhecem, vão tecendo, com sentimentos à flor da pele, um sutilíssimo embate de emoções, no jogo da relação afetiva entre dois seres a quem o amor uniu sem que eles saibam.
A lembrança desse esquecimento  acaba trazendo-o para a luz do dia. A sorte rara de haver outra vez esbarrado no lugar exato o tornou indiferente a tudo mais; sem dúvida dedicaria mais tempo ao seu esquisito lapso de memória, se não fosse levado a dedicar mais ao alívio, para o futuro que o próprio lapso ajudou a conservar. Nunca fizera parte de seus planos que alguém pudesse saber, principalmente pela simples razão de que não estava nele contar a ninguém. Isso teria sido impossível, pois não poderia esperar nada de impossível, pois não poderia esperar nada de um mundo indiferente, a não ser que se divertissem com aquilo. Desde que  o misterioso destino veio abrir em tempo a sua boca, considerou isto uma compensação da qual tiraria o maior proveito. A ideia de que a pessoa certa é que sabia amenizava a aspereza do seu segredo bem mais do que a timidez poderia deixá-lo imaginar. Ele se considerava a pessoa mais desinteressada do mundo, carregando sempre discretamente a sua pesada carga, jamais tocando no assunto, não mostrando aos demais sequer um lampejo dela, ou dos efeitos sobre sua vida, não pedindo a compreensão de ninguém e somente dando, por seu lado, aquela que lhe pediam. Deu-se conta, então, que o que acabou acontecendo é que ele passou a usar uma máscara pintada com o sorriso social, de cujas frestas emanava um olhar de uma expressão que nada tinha a ver com as suas feições. Era o que o mundo estúpido, mesmo depois de tantos anos, jamais descobriu senão em parte. Somente ela chegara a fazê-lo, e, com uma arte indescritível, realizava a façanha de encarar os olhos de frente e ao mesmo tampo - ou talvez fosse apenas alternadamente - intrometer sua própria visão, como por sobre o ombro dele, espiando também através das frestas da máscara.

O que incomoda positivamente o leitor nessa narrativa curta característica da narrativa de Henry James pelo uso de uma linguagem densa e intricada (que a tradução de Fernando Sabino procurou atenuar), é o complexo funcionamento da consciência humana. A fera na selva é a história de algo que não acontece. Ao desenrolar dos encontro dos dois durante, vai-se criando a sensação incômoda de que o que deve ser dito poderá não acontecer. Uma pulsão amorosa reprimida até a perda, pela covardia.

Há duas traduções para o português de A fera na selva. Recentemente a Cosac Naify lançou a obra com a tradução de José Geraldo Couto, com posfácio de Modesto Carone em edição esmerada, característica da Cosac (R$ 45,00). A tradução mais antiga é de Fernando Sabino, que traduziu a obra para a coleção que coordenou para a Editora Rocco sobre grandes novelas da literatura universal. Foi essa edição que eu li.
                                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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henry james. A fera na selva.  Rio, Rocco, 2011, 96 pp, R$ 19,50

domingo, 12 de janeiro de 2014

Suttree


O narrador de Suttree com uma carta:
"Caro amigo, nas horas poeirentas e intemporais da cidade, agora que as ruas jazem negras e exalam nuvens de vapor na esteira dos camiões-cisterna e agora que os bêbedos e os sem-abrigo desaguaram nas vielas e nos terrenos baldios, abrigados junto aos muros, e os gatos vagueiam nas soturnas cercanias, esguios e de espáduas altaneiras, agora nestas galerias empedradas ou de tijolos enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fios eléctricos formam uma harpa espectral nas portas das caves, ninguém caminhará senão tu."

O narrador nos aponta um mundo distante e abandonado em  Knoxville (a terra em que Cormac McCarthy viveu durante o tempo em que seu pai lá trabalhou como advogado),  uma cidade pobre do sul dos Estados Unidos, na década de 1950. Há ruas sujas, com ossos fossilizados ocultos nas suas estrias, pessoas pobres caminhando e sujando os pés em ruelas arenosas onde repousam carros destroçados sobre muradas de tijolos, árvores magras e escuras, lâmpadas partidas à pedrada, casas desalinhadas onde crescem flores sujas, trilhos onde repousam vagões que se perdem nas trevas. Junto ao rio, há pedaços de caixotes apodrecidos, preservativos, cascas de frutas, latas enferrujadas, excrementos, lâmpadas estilhaçadas, formas nauseabundas de fetos tumefatos. Junto a esse cenário, o rio nos mostra pequenas plantações de milho e hortas para consumo próprio de homens e mulheres pobres, alguns bêbados,  vivendo em condições miseráveis. É nesse lugar nojento e até mesmo amedrontador que Cormac McCarthy dá voz aos marginais vivendo segundo cânones e regras que escapam à compreensão da maioria social economicamente estabelecida. O personagem central do romance, Cornelius Suttree, é um homem solitário que vive dentro de uma embarcação que usa para pescar peixes podres que vende na cidade para sobreviver. A narrativa abarca o período entre 1950/1955. Durante o desenrolar da história, ficamos sabendo que Sutree vive nesse mundo degradado como opção de vida. Filho de uma família com certas posses, tinha problemas de relacionamento com o pai, afastando-se de casa. Essa escolha é clara para Sutree, mas não deixa de lhe ser torturante. Ele passa todo o romance em busca de qualquer coisa que não sabe bem o que seja, embora compreenda perfeitamente que não poderá voltar atrás a essa escolha. Por isso, o personagem carrega consigo uma profunda e desoladora solidão. Também carrega consigo uma angústia imensa, uma incapacidade de se entregar aos outros de corpo e alma. Essa atmosfera trágica não deixa, entretanto, de apresentar situações burlescas, um humor escatológico, sim, mas com situações engraçadas que iluminam o âmago tenebroso da narrativa.
Suttree está merecendo uma boa tradução brasileira. Quem sabe a editora Objetiva, quem vem publicando suas obras no Brasil venha a fazer isso brevemente. Se você tiver curiosidade em conhecer essa obra-prima, terá de recorrer à edição portuguesa da Relógio D'Água, com tradução de Paulo Faria. Um exemplar novo leva em torno de 60 dias para chegar a suas mãos, ainda que você não pague imposto sobre livro estrangeiro. Mas valerá a pena. O romance é muito, mas muito bom!

                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Cormac McCarthy. Suttree. Lisboa, Relógio D'Água, 2009, 496 pp, R$ 96,80

domingo, 5 de janeiro de 2014

Meridiano de Sangue

Mesmo que Deus exista, nada pode fazer por nós. Em Meridiano de sangue, Cormac McCarthy (1933) parece nos dizer que estamos abandonados e nosso único confronto é com nossa própria existência. A personagem principal, o Kid, órfão de mãe, foi esquecido pelo pai. Largado no mundo, leva um tiro nas costas aos quinze anos de idade. Envolve-se num bando de mercenários, mas logo se vê no meio de um ataque de apaches (por ironia, uma das cenas mais fortes da narrativa). Vai para a prisão e logo é contratado pelo capitão Glanton para ir com seu grupo caçar mais índios e um mexicano. Será ali que reencontrará um sujeito que sempre o acompanhou desde os tempos de infância, o juiz Holdem. Leia a cena do ataque dos apaches ao grupo:

Já se podia ver, por entre a poeira, pintados sobre o couro dos pôneis, asnas e mãos e sois nascentes e pássaros e peixes de todos os feitios como vestígios de trabalho antigo sob o selante de uma tela e agora também se podia ouvir acima do martelar dos cascos desferrados o sopro das quenas, flautas de ossos humanos, e alguns dentro da companhia começaram a olhar para trás em suas montarias e outros a se atropelar em confusão quando de um ponto além daqueles pôneis assomou uma horda fantástica de lanceiros e arqueiros a cavalo portando escudos adornados com pedaços de espelhos quebrados que lançavam mil sóis fragmentados contra os olhos de seus inimigos. Uma legião medonha, às centenas em números, seminus ou vestidos em trajes áticos ou bíblicos ou ataviados como num sonho febril com as peles de animais e ornatos de seda e peças de uniforme ainda marcadas pelo sangue de seus donos originais, capotes de dragoons trucidados, casacos de cavalaria com galões e alamares, um de cartola e outro com um guarda-chuva e mais outro com longas meias brancas de mulher e um véu de noiva manchado de sangue e alguns com cocares de penas de grou ou capacetes de couro cru ostentando chifres de touro ou búfalo e um metido em um fraque ao contrário e de resto nu e outro com a armadura de um conquistador espanhol, o peitoral e as espaldeiras com fundas mossas de antigos golpes de maça ou sabre feitos em outro país por homens cujos ossos eram agora pó e muitos ainda com suas tranças entrelaçadas ao pelo de outras feras a ponto de arrastar no chão e as orelhas e rabos de seus cavalos ornamentados com retalhos de tecidos coloridos brilhantes e um cujo animal tinha a cabeça inteira pintada de escarlate e os rostos de todos os cavaleiros lambuzados de tinta de um jeito espalhafatoso e grotesco como uma companhia de palhaços a cavalos, hilários mortais, todos ululando em uma língua bárbara e caindo sobre eles como uma horda de um inferno ainda mais horrível que o mundo sulfuroso do juízo cristão, guinchando e gritando e amortalhados em fumaça como esses seres vaporosos de regiões além da justa apreensão onde o olho erra e os lábios balbuciam e babam. (...) uma sonora revoada de flechas atravessou a companhia e homens cambalearam e tombaram de suas montarias. Cavalos empinavam e mergulhavam e as hordas mongólicas os envolveram pelos flancos e viraram e investiram à plena carga com suas lanças.= (59/60)

A violência, que parece fazer parte de quase toda a narrativa de McCarthy, transmite um problema moral repleto de ambiguidade, provando que, apesar de todo o caos, nele existe uma ordem que poucos têm a coragem de aceitar.  O autor usa de uma violência em prol de uma causa maior. Cria imagens poéticas da violência. A narrativa borbulha descrições poéticas e ações e situações que alimentam a vontade de ler o livro quase sem parar. O kid passa por um aprendizado da sua própria violência e a dos outros para depois, ao reencontrar o juiz no final romance, chegar à conclusão de que há algo além das carnificinas que testemunhou. As lições do mal de McCarthçy educam seus personagens. A observação detalhada e poética da natureza é como um espelho da alma do protagonista, um solitário arredio a uma sociedade que se moderniza sem nenhum respeito pela tradição que se despede. A solidão é o mote principal da condição humana. A noção pessimista quase mórbida do ser humano, em que um mal lógico é identificado como a origem de uma violência que, se provoca ainda mais desgraça, também pode regenerar o mundo; escolhas que ninguém sabe por que são feitas, para que ele sinta em cada um de seus ossos a solidão que permeia a vida dessas pessoas, a solidão que enfim os faz se aproximar cada vez mais da morte, seja de si mesmos ou do lugar onde moram, prontos a se tornarem lendas, mitos, pó.

O luiz Holden, albino, desprovido de pelos, enorme na altura e na largura, perito em armas brancas e de fogo, culto em várias línguas, um gentleman que encanta as mulheres com suas danças e, ao mesmo tempo, estupra criancinhas, escalpelas índios apaches sem nenhuma hesitação e anota minuciosamente todas as coisas ao seu redor em um livro de couro para despois apagá-las de sua existência, sem deixar nenhum rastro. A conversa definitiva que ele tem ao reencontrar o garoto, quase no final da narrativa, desconcerta:

Os homens nasceram para os jogos. Nada mais. Qualquer criança sabe que brincar é mais nobre que trabalhar. Sabe também que o valor ou mérito de um jogo não é inerente ao jogo em si, mas antes ao valor do que está em risco. Jogos de azar exigem uma aposta para significar alguma coisa. Jogos esportivos envolvem a habilidade e força dos oponentes e a humilhação da derrota e o orgulho da vitória são em si mesmos aposta suficiente pois estão indissociavelmente ligados ao valor dos envolvidos e os definem. Mas seja qual for a prova, se de sorte ou valor, todo jogo aspira à condição de guerra pois nesse caso o que se aposta suprime tudo, jogo, jogadores, tudo. (...) Imaginem dois homens jogando cartas sem outra coisa para apostar além de suas vidas. Quem já não ouviu falar de algo assim. A virada de uma carta. Para esse jogador o universo inteiro avançou laboriosamente em todo o seu fragor para chegar a esse momento que dirá se ele vai morrer na mão daquele homem ou se ele morrerá da sua. Que confirmação mais definitiva o valor de um homem pode ter que essa? Essa intensificação do jogo a sua condição suprema não admite qualquer discussão relativa a ideia de destino. A seleção de um homem em detrimento de outro é uma preferência absoluta e irrevogável. E é um estúpido genuíno aquele capaz de supor decisão assim tão profunda sem um agente ou significação, uma coisa ou outra. Em tais disputas em que está em jogo é a aniquilação do derrotado, as decisões são cristalinas. Esse homem, segurando esse arranjo particular de cartas em sua mão, é por isso removido da existência. Essa é a natureza da guerra cuja aposta é, ao mesmo tempo, o jogo, a autoridade e a significação. Vista dessa forma, a guerra é a forma mais legítima de divinação. Significa pôr à prova a vontade de um indivíduo e a vontade de outro no contexto dessa vontade mais ampla, que, ao ligar a deles é, por conseguinte, forçada a selecionar. A guerra é o jogo supremo, por que é, em última instância, um forçar da unidade da existência. A guerra é Deus. Não faz diferença o que o homem pensa da guerra, a guerra perdura, é a mesma coisa que perguntar o que o homem pensa da guerra. A guerra sempre vai existir. Antes do homem aparecer, a guerra estava a sua espera. A ocupação suprema, a espera, do praticante supremo. Assim foi e assim será. Assim e de mais nenhum outro jeito. (261)
Para o leitor que gosta ou quer conhecer melhor a obra de Cormac McCarthy, recomendo o ensaio esclarecedor de Martim Vasques da Cunha, no Jornal Rascunho: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-visao-do-abandono/

Meridiano de sangue é considerado obra-prima de Cormac McCarthy. Tem tradução de Cássio de Arantes Leite
                                    
                                   paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Cormac McCarthy. Meridiano de sangue. Rio, Objetiva, 2009, 352 pp, R$ 49,90

 

 
 

domingo, 29 de dezembro de 2013

O Jardim do Passado

O Jardim do Passado é o último romance da trilogia do Cairo. Estamos no ano de 1935. Faz 15 anos que a revolução para a independência do Egito começou, mas os ingleses ainda estão por toda parte. A velha tradição egípcia ainda apresenta sinais de vida. Para Ahmed Abd el-Gawwad, o patriarca da família, o tempo do esforço, da luta e dos prazeres estava acabado.  Agora,  ele se curva no canto da aposentadoria, dando adeus ao mundo do futuro para saudar o da velhice, da doença, da espera e do definhamento do coração  tão loucamente apaixonado pelo mundo e por seus prazeres, já que a fé era para ele apenas uma de suas alegrias, uma incitação a se recolher. Nunca, até então, conhecera a devoção austera que faz renunciar ao mundo e erguer os olhos para o além. Certamente, a loja não era mais "sua loja", mas como apagar a lembrança dela, que tinha sido o centro de sua atividade, o alvo dos olhares, o ponto de referência dos amigos e dos irmãos, a fonte de honra e prestígio? Só lhe restava, agora, o consolo. Casara suas filhas, educara seis filhos, vira nascer seus netos, que tem dinheiro bastante para sustentá-lo até a morte. Provara bastante o sumo da vida. Chega, agora, ao tempo de dizer obrigado. É um dever agradecer a Deus sem cessar, sem nostalgia.
 Kamal, o filho mais novo, agora com 30 anos, é o professor que sempre quisera ser. Transformara-se no vagabundo a explorar campos infinitos do pensamento, lendo, tomando notas que depois eram reunidas em seus artigos. Nisso, a sede de conhecimento, o amor à verdade, o espírito de aventura imaginário motivara seu esforço, como o desejo de se consolidar e se distrair do clima sinistro que o submergia, desse sentimento de solidão que jazia no seu âmago. Certa vez, encontrou Latif,  o amigo da adolescência, quando discutia política e conhecera Aída, que se casara com Hussein, outro amigo rico. No espaço de alguns anos, de 1924 a 1935, um novo Latif nascera, mas  permanecia, apesar de tudo, o velho e eterno amigo. Kamal pôs-se a olhar o amigo com uma curiosidade redobrada. Tinha diante de si um outro indivíduo, sem relação comum  com o Ismail Latif com quem convivera entre 1921 e 1927, esse período único de sua vida que ele vivera intensamente, do qual nem um minuto se passara sem alegria profunda, da verdadeira amizade encarnada em Hussein Sheddad, do puro amor cristalizado em Aída, do ardor impetuoso nutrindo à chama da revolução egípcia; o das experiências violentas em que o tinham lançado a dúvida e os caprichos da carne. Este mesmo Ismail Latif tinha sido o símbolo daquela época, o iniciador eminente. Mas tinha ele hoje a ver com aquilo? Talvez a lembrança viva de um passado fabuloso. Kamal pode-se orgulhar de que o passado não foi um sonho.

A narrativa segue, neste último volume da trilogia do Cairo, com os sobrinhos de Kamal, jovens e idealista. O Egito, no campo político, continua atrelado, ainda, à Inglaterra, apesar da independência. O mundo estava se preparando para enfrentar a Segunda Guerra Mundial.
                                                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Naguib Mahfouz. O jardim do passado. Rio, Record/Best bolso, 2008, 434 pp, R$ 22,00

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Palácio do Desejo


Nagib Mahfuz situa o segundo volume da trilogia do Cairo no período pós-independência do Egito, na terceira década do século XX. Em O Palácio do Desejo, Kamal, o filho mais do patriarca Ahmed Abd el-Gawwad, que no volume anterior (Entre dois palácios) tinha 10 anos, agora é um jovem belo, sensível e idealista, que busca seguir seu coração, optando por fazer a Escola Normal para ser professor, contrariando, assim, a vontade do pai, que o queria advogado ou médico. O pai lhe diz com desprezo que o trabalho de professor é um trabalho de miséria que não tem o respeito de ninguém. Diz que o filho é um fedelho, não sabe de nada . Ensinar é um ofício em que o pequeno burguês vestido à moda europeia se mistura sem distinção ao estudante piolhento dos subúrbio. Um ofício desprovido de qualquer grandeza, de qualquer glória. Entretanto,  Kamal mantém-se irredutível: o papel do professor é difundir o saber. Discordava do preconceito de que a riqueza ou a pobreza pudessem constituir critérios de apreciação do saber ou que este pudesse ter um valor extrínseco. Queria também ser professor para atingir uma meta maior, ser filósofo. A filosofia, para ele, é a disciplina que funde todas as questões relativas ao que seja Deus, ao que seja o homem, a alma, a matéria.  Na faculdade, torna-se amigo de dois jovens da aristocracia egípcia que estudam direito, para satisfazer o desejo das famílias. Inicialmente a amizade ocorre tranquila, até Kamal se apaixonar por Aída, que participava de vez em quando das discussões do grupo. Antes de declarar seu amor a ela, um dos amigos atrapalha suas intenções. É quando Kamal passa a sofrer o preconceito relativo a sua classe social. Aída casa-se com o amigo de Kamal. Mas o amor do rapaz pela moça permanece até o final da narrativa, transformando-o em um jovem sombrio e solitário.
As ruelas, as casas, os palácios, as mesquitas,  as pessoas e o cotidiano da família Gawwad continuam sendo retratadas de forma brilhante por Nagib Mahfuz neste segundo volume. O estilo severo e contraditório do pai dessa família fica abalado por diversos acontecimentos além dos ideais de Kamal. Yasine, o filho mais velho, divorcia-se, casa com a moça que havia sido a grande paixão de, o segundo filho, proibido de desposá-la. Depois volta a casar, dessa vez com  a concubina que era uma das amantes de seu pai. Amina, a mãe submissa, continua a desenvolver o afeto pelos filhos e o respeito ao pai.

O palácio do desejo vale muito a leitura! A bela tradução do francês foi feita por José Augusto de Carvalho
                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Nagib Mahfuz. O palácio do desejo. Rio, Bestbolso (Record), 2008, 644 pp, R$ 25,00