domingo, 26 de março de 2017

45. Grande sertão: veredas

Riobaldo, fazendeiro mineiro, conta sua vida de jagunço a um ouvinte não identificado. Trata-se de um monólogo onde a fala do outro interlocutor é apenas sugerida. São histórias de disputas, vinganças, longas viagens, amores e mortes vistas e vividas pelo ex jagunço nos vários anos em que este andou por Minas, Goiás e sul da Bahia. Toda a narração é intercalada por vários momentos de reflexão sobre as coisas e os acontecimentos do sertão.

O assunto parece sempre girar na existência ou inexistência do diabo, já que Riobaldo parece ter vendido sua alma numa certa ocasião. Ele era um dos jagunços que percorriam o sertão abrindo o caminho à bala. Entre seus companheiros, havia um que muito lhe agradava: Reinaldo, ou Diadorim. Conhecera-o quando menino e mantinha com ele uma relação que muitas vezes passava de uma simples amizade. O jagunço, que admirava e cultivava um terno laço com Diadorim, perturbava-se com toda aquela relação, mas a alimentava com uma pureza que ia contra toda a rudeza do sertão, beirando inclusive o amor e os ciúmes.

Nas longas tramas e aventuras dos jagunços, conhece um dos seus heróis: o chefe Joca Ramiro, verdadeiro mito entre aqueles homens, que logo começa a mostrar certa confiança por ele. Isso dura pouco tempo, já que Riobaldo logo perde seu líder, pois Joca Ramiro acabou sendo traído e assassinado por um dos seus companheiros chamado Hermógenes. Riobaldo jura vingança e persegue Hermógenes e seus homens por toda aquela árida região.

O medo da morte e uma curiosidade sobre a existência ou não do diabo toma cada vez mais conta da alma de Riobaldo, evidencia-se um pacto entre o jagunço e o príncipe das trevas, apesar de não explícito. Acontecido ou não o tal pacto, o fato é que Riobaldo começa a mudar à medida que o combate final contra Hermógenes se aproxima. E a crescente raiva do jagunço só é contida por uma relação mais estreita com Diadorim, que já mostra marcas de amor completo.

Segue-se, então, o encontro com Hermógenes e seus homens, e a vingança é enfim saboreada por Riobaldo. Vingança, aliás, que se tornou amarga, já que Hermógenes mata, durante o combate, o grande amigo Diadorim... A obra reserva, nas últimas páginas, uma surpreendente revelação: na hora de lavar o corpo de Diadorim, Riobaldo percebe que o velho amigo de aventuras que sempre lhe cativou de uma forma especial era, na verdade, uma mulher.

Após o sepultamento dos mortos, Riobaldo, cansado e doente, abandona definitivamente a jagunçagem, quase morrendo de doença. Quando sara, reencontra Otacília, com quem já pretendia casar, quando estava no bando. Descobre, ainda, que Selorico Mendes,seu padrinho, fora na verdade seu pai, de quem herda a fazenda onde o herói reside na velhice presente.

Assim a história chega ao fim, com Riobaldo e o interlocutor no ponto de partida.
===================================

João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. 10ª ed., Rio, José Olympio, 1976, 462 pp.

domingo, 19 de março de 2017

44. Pedro Páramo


Juan Rulfo (1918 - 1986), romancista e contista nascido no México, começou a trabalhar em dois capítulos de Pedro Páramo (1955), publicados em revistas literárias. Mais tarde, com auxílio de uma bolsa, pôde concluir a obra, que ganhou dimensões internacionais, tendo sido traduzida em vários idiomas.

O filho de Pedro Páramo, Juan Preciado, vai a Comala para encontrar seu pai. No entanto, essa  jornada tem sua essência na busca de identidade. Comala é um lugar desabitado, cheio de fantasmas, almas perdidas daqueles que lá viviam. Através de conversas com essas almas perdidas, Juan Preciado percebe estar vivendo, com eles, o coletivo passado de Comala e da história de Pedro Páramo, o cacique que fora tão importante para seu povo. O leitor vai perceber, através da trama meio enredada (mas inteligível), que Juan Preciado conversa com Dorotea, a mulher que lhe conta toda a história de Comala e de seu povo, numa situação “real maravilhosa” que não posso contar, para não estragar um ponto que é uma das muitas qualidades da escritura.

A novela de Juan Rulfo tem um estilo surrealista, cuja estética influenciou o real maravilhoso, característica que predominou na literatura latino-americana a partir da década de 40/50. O resultado é uma obra de grande perfeição técnica, que contou com várias versões e títulos anteriores para chegar à final. Graças a este desenvolvimento, a novela tem a particularidade e a singularidade dos personagens fortes, num ambiente fascinante.

A estrutura da narrativa apresenta uma sequência em ordem cronológica  contada em primeira pessoa, por Juan Preciado. Há outra sequencia mostrada em terceira pessoa, narrando  acontecimentos relacionados a seu pai, Pedro Páramo, em certa desordem cronológica. Há, ainda uma terceira sequência, que mistura as duas anteriores.

Juan Rulfo não descuida do contexto histórico e social, fazendo referência à Revolução Mexicana de 1910, num México rural, em que Pedro Páramo é um cacique de um povo tiranizado pelo poder capitalista que se instalou no país a partir do século XX.

Tradução de Eric Nepomuceno
====================

Juan Rulfo. Pedro Páramo. Bestbolso, 2009, 134 pp   R$ 12,90 

domingo, 12 de março de 2017

43. O Continente - volume 1


                                                                                                

Continente compreende dois volumes iniciais da trilogia O Tempo e o Vento, do escritor gaúcho  Erico Veríssimo (1905/1975). O primeiro volume, que nos interessa aqui, narra o final da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893/1895) e as origens da família Terra Cambará até o momento do conflito. Os liberais apoiadores de Júlio de Castilhos venceram os federalistas de Gaspar Martins e Gumercindo Saraiva, mas em Santa Fé, o universo literário da narrativa épica de Erico Veríssimo, os federalistas só consideram acabada a guerra quando o neto de Bibiana, Licurgo Cambará, dono do sobrado, entregar suas armas. A trama é narrada em contraponto com o início e progressão da povoação do Rio Grande do Sul, na região das Missões, quando o território gaúcho era disputado entre portugueses e espanhóis.  

Quando começa O Continente, o ano é 1895 e a família Terra Cambará está acossada no casarão. Alice espera um filho e passa mal. Todos precisam de água que está no poço no centro da praça, vigiada por pistoleiros dos dois lados. Há um corte no tempo, e o leitor é situado nas Missões Guaraníticas de Santo Ângelo e arredores, então pertencentes à Espanha. Os personagens centrais são Padre Alonzo, que tem um segredo em sua vida pessoal e carrega consigo um punhal. Ele se encarrega da catequização do menino índio Pedro. O padre dá-lhe o punhal de prata, símbolo importante em toda a narrativa, pois atravessará o tempo nas mãos de determinados membros da família Terra Cambará.

Pedro Missioneiro nasce nas Missões Jesuíticas, filho de uma índia estuprada por algum bandeirante. Revela a capacidade de ter visões fantásticas desde a infância. Nessa época, 1745, os Sete Povos das Missões, pertencentes à coroa espanhola, vivem em crescente prosperidade. Com a guerra, Portugal devolve a Colônia do Sacramento à Espanha e recebe em troca o território das Missões, os povoados jesuíticos são destruídos e Pedro foge, sendo descoberto por Ana Terra, ferido, no açude da propriedade da família, paulistas vindos de Sorocaba para povoar o Continente de São Pedro.

A família Terra trata do índio, que se afeiçoa a todos. Um dia Pedro seduz Ana Terra no açude. Ana descobre, pouco depois, estar grávida. Pedro é morto pelos irmãos dela. Pedro Terra nasce. A família não aceita a criança. Num ataque dos castelhanos, todos são mortos, exceto Ana, o filho e a cunhada. Para salvar a vida do filho, ela insiste em ficar na casa, sendo estuprada barbaramente pelos bandidos. Os sobreviventes veem-se ao desabrigo. Ana decide, então, recomeçar de novo e parte com um grupo de colonizadores. Chegam às terras do coronel Amaral, que decide fundar o povoado de Santa Fé. A família Amaral vai se tornar inimiga dos Terra, até o final de O Continente.

Pedro Terra casa-se e tem dois filhos, Juvenal e Bibiana. Quando Bibiana já está moça, surge em Santa Fé o Capitão Rodrigo Cambará, personagem-símbolo do gaudério rio-grandense. Oriundo de Viamão e condecorado nas diversas guerras de que participou, Rodrigo Cambará chega à cidade sem muito propósito, até que põe os olhos em Bibiana e apaixona-se. A paixão é correspondida, mas o irmão e o pai não aprovam a aproximação dela com Rodrigo. Além do quê, Bento Amaral tem pretensões sobre Bibiana, mas a família Terra não o suporta. Há um duelo entre Bento Amaral e Rodrigo Cambará, Rodrigo vence, mas é traído, quase vindo a morrer. Quando se recupera, toma jeito e pede a mão de Bibiana em casamento e o enlace é consentido por Pedro Terra, com ressalvas. Rodrigo, em sociedade com o cunhado Juvenal, abre um armazém na cidade. Mas, com o tempo, se desinteressa pelo negócio, pois gosta de barulho, pelear pelo mundo. Bibiana sofre com as saídas frequentes do marido para outras freguesias. Os dois têm três filhos, Bolívar, Anita e Leonor. Numa dessas saídas para guerrear, Rodrigo acaba sendo morto.

Com a morte do marido, Bibiana vai viver com os filhos na casa do pai, que perde a propriedade para um tal de Aguinaldo Silva, homem enriquecido através de empréstimos a juros. No lugar da casa, Aguinaldo ergue o Casarão, onde se situa o mote central de "O sobrado". Aguinaldo tem uma neta, Luzia, por quem Bolívar se apaixona e os dois acabam casando. Bibiana tem sérios embates com a nora, até que arquiteta um plano para que a família Terra Cambará recupere o Casarão, o que acaba acontecendo.
Durante o confinamento no Sobrado, Alice Terra, casada com o primo Licurgo, está esperando o terceiro filho. Eles já tinham Toríbio e Rodrigo Cambará, que será o personagem principal da  segunda parte da trilogia, O Retrato. Este segundo Rodrigo é diametralmente oposto ao Capitão Rodrigo, por revelar uma personalidade de lisura contestável. Floriano, filho de Rodrigo neto, será o narrador-personagem da terceira parte da trilogia, O ArquipélagoO primeiro volume de O Continente termina com Alice Terra enlouquecendo, enquanto espera, com dificuldade,  para dar à luz.


O plano geral de O tempo e o vento é traçar toda a saga da formação rio-grandense, desde as origens remotas no século XVIII até o ano de 1946, finalizando a narrativa ao encontrarem-se, mais uma vez, o tempo da ficção e o momento presente em que o discurso é produzido.  A estrutura temporal, portanto tem o passado reconstruído como uma possibilidade de esclarecer o presente. Apesar disso, a obra de Erico Veríssimo não é um romance histórico e nem épico, já que a família Terra Cambará declina moral e economicamente, com o passar das gerações.

O Continente apresenta em contraponto o histórico com o social  com seu ritmo próprio e independência em relação ao conjunto do texto. Dentro dessa moldura, desenvolvem-se vários segmentos, com início, meio e fim, contendo, portanto, vida própria e autonomia do âmbito da totalidade da obra. Prova disso é o fato de Ana Terra e Um certo capitão Rodrigo terem sido lançados como romances independentes no mercado editorial.


http://educaterra.terra.com.br/literatura/livrodomes/livrodomes_ocontinente_11.htm

=========================
Erico Veríssimo. O Continente vol. 1. Cia. das Letras, 2004, 416 pp


domingo, 5 de março de 2017

42. A Peste

Albert Camus (1913/1960) nasceu na Argélia, no período, em que o estado africano era colônia francesa. Logo, era um francês nascido na Argélia. Tinha, também, ascendência francesa por parte do pai. Filho de família muito humilde, fez seus estudos em Argel, destacando-se pela inteligência e originalidade na forma de se expressar. Graças a empenho de professores, conseguiu, através de bolsas de estudos, concluir o grau superior em Filosofia. Exerceu a função de jornalista em Argel, até mudar-se para Paris, onde passou a ser reconhecido internacionalmente, por  sua literatura. Camus era também teatrólogo.

Publicado em 1947, A Peste trata do absurdo da existência humana, que se resolve através da solidariedade. A narrativa se passa na Argélia, na cidade fictícia de Oran, onde as pessoas "se dedicavam ao tédio e a criar hábitos". Era uma cidade feia, sem pombos, sem árvores e sem jardins, apenas nos céus se lia a mudança das estações. Durante a manhã de 06 de abril de 1940, surge um acontecimento insólito: começam a aparecer ratos e mais ratos mortos pelas ruas e casas, assustando as pessoas. Era o vírus da peste bubônica que, logo em seguida, começa a dizimar os habitantes de Oran.
A administração pública in­siste em esconder o flagelo, mas a situação se complica e a cidade inteira entra em quarentena,  sitiada. Todos exilados, na condição de prisioneiros.

Quando os portões das cidades são fechados pelo isolamento do mundo, um fato inusitado acontece: os laços de amor e amizade estreitam-se. Um grupo de pessoas se dedicará à luta contra a peste, num enfrentamento resignado e persistente,  travado pelos homens que providenciavam o isolamento sanitário dos doentes e a quarentena dos familiares, assim como um mínimo de atendimento às vítimas da peste.

Uma das figuras solidárias é a do dr. Rieux, ateu, que faz o máximo possível para o bem estar alheio, mas não é visto como herói, faz o que faz de forma gratuita, nada além do estar bem consigo mesmo. O padre Paneloux é outro que se envolve voluntariamente no combate à peste. Ele achava, inicialmente, que a peste pudesse ter sido obra de Deus, para castigar os moradores da cidade. Com o tempo, começa a se opor à ideia de aceitação e submissão, achando aquilo tudo revoltante, sem, entretanto, perder a crença religiosa. Tarrou, um artista revoltado, é um estrangeiro em Oran, atuando lado a lado com o médico, criando abrigos sanitários. Ele se dizia ser um santo sem Deus.

Até que as coisas começam a mudar, a peste regride, os habitantes começam a se recuperar do isolamento e tudo se esquece e os ratos voltam a surgir vivos e espertos. Mas o que Camus desejava, com sua narrativa, é que as pessoas se dessem conta de que a vida, entretanto, não poderia voltar a ser exatamente o que era antes, que destruir é mais fácil que construir E o que se aprende com a destruição, é que colocando-se ao lado das vítimas, pode-se procurar a paz.

Tradução de Valerie Runjanek
===========================

Albert Camus. A Peste. 5 ed, Rio, Record/Bestbolso, 2016, 294 pp

domingo, 26 de fevereiro de 2017

41. O Aleph

Borges parece ser mais difícil do que é. Tem vários níveis de leitura. Sua escrita parece estar fora do mundo real. Ele mesmo, em algumas entrevistas, considerava-se um homem do século XIX. Gostava de cultivar uma imagem distante de sua realidade, cultivando  geografias imaginárias, entidade fabulosa, animais imaginários, mundos ideais, labirintos, livros etc. Antes de ser escritor, era leitor. Viveu cercado de livros desde a infância. Mas Borges pode parecer bem mais acessível que parece.Nunca acredite no que ele diz, pois faz citações falsas, menciona escritores que não existem. É um escritor de textos alheios. O conjunto de contos O Aleph, juntamente com Ficções, trazem contribuição fundamental para a literatura universal.

O Aleph: neste conto, temos Borges lidando com o tema da universalidade, pois um episódio nos leva a este ponto onde se pode enxergar todo o universo. O personagem do conto passa a visitar anualmente a casa da falecida Beatriz Viterbo, no dia do aniversário dela, até ser informado de que a casa seria demolida. Ele fica, então, sabendo da existência de uma esfera mágica, um Aleph, um dos pontos do espaço que contém todos os outros pontos. Curiosamente, a esfera mágica que contém o Aleph está  no décimo nono degrau da estreita escada que leva ao porão que fica sob a sala de jantar da casa de Beatriz Viterbo. O protagonista  não faz nenhuma tentativa de evitar a demolição  da casa, pois percebe, sem dúvida, que depois da morte da amada, ele não tem nenhuma esperança de tornar verdadeiramente sua a visão do Aleph.

Os Teólogos: dois teólogos, Aureliano e João de Panonia, digladiam-se em suas discussões religiosas, o que Borges vai tratando com um humor que pouco aparece em outros contos; por exemplo, no trecho: “Discutiu com os homens de cuja sentença dependia a sua sorte e cometeu a grosseria máxima de fazê-lo com talento e com ironia” . A discussão leva um deles à fogueira, mas eles ainda se encontrarão na eternidade, culminando em um final inesperado.

O Imortal: relata a história de um general romano que sai à procura da imortalidade; fato que o autor aprofunda em suas reflexões filosóficas, como pode ser conferido neste trecho: “Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal”. No entanto, ao deparar-se com sua busca, toda a sua vida é alterada, não bem como ele imaginava.

O fato de ter visto um homem ser baleado num taberna em Santana do Livramento, serviu de mote para Borges criar em O morto a história de Benjamin Otálora, um jovem compadrito (descendente do gaucho rural)  dos subúrbios pobres de Buenos Aires, que mata um rival e foge para o Uruguai, onde entra para o bando de vaqueiros e contrabandistas liderado por um brasileiro chamado Azevedo Bandeira. Em um ano, aprende as habilidades de um gaucho. Estimulado por um sentimento novo de liberdade e poder, ele aspira superar Bandeira na liderança do bando. Para isso, faz amizade com um capanga de Bandeira, Suárez, e lhe diz de seu plano, recebendo uma promessa de ajuda em sua rebelião contra o velho chefe. Otálora desobedece então às ordens de Bandeira, dá aos homens contraordens e até dorme com a concubina do chefe, uma mulher com cabelos ruivos resplandecentes. Uma noite, no entanto, Bandeira desmascara o caso de Otálora com a ruiva e seu capanga e atira a sangue frio no usurpador.

O impulso misógino da história é inequívoco em Emma Zunz. Emma quer vingar seu pai, que se suicidou depois de ter sido acusado falsamente de desfalque. Maquina então um plano para matar o ex-sócio do pai, responsável por sua desgraça. Ela se prostitui com um marinheiro num bordel e depois mata a tiro o ex-sócio sob o falso pretexto de que tentou estuprá-la. Borges retrata uma mulher jovem presa num labirinto de contradições sexuais.

A Intrusa foi transposto para o cinema em 1979, dirigido por Carlos Hugo Christensen, com José de Abreu, Arlindo Barreto e Maria Zilda. Borges criticou a leitura equivocada do diretor, reduzindo a relação dos dois irmãos a um caso de homossexualidade, que não está presente no conto.  A história se passa no ano de mil oitocentos e tanto, no pampa argentino, onde os irmãos Nielsen, Eduardo e Cristián, viviam comungando a mais completa solidão. Eram tidos como perigosos malfeitores, chegados a farras e brigas violentas. Seus episódios amorosos davam-se em casas suspeitas. As coisas mudam, quando Cristián leva uma mulher para o rancho, como sua amante. A partir daí, a relação dos dois esfria. Eduardo torna-se gradativamente mais irritadiço. Até que um dia Cristián avisa ao irmão que ia para uma farra e deixava a mulher para ele usá-la como quisesse. Assim, a mulher passou a atender aos dois com uma submissão animal, mas não escondia alguma preferência a Eduardo. Um dia, puseram-se  os dois a conversar e decidiram vender Juliana a um prostíbulo. Assim, voltavam a renovar sua vida antiga de homens entre homens. Tempo depois, foi cada um para um lado resolver problemas particulares. Foi quando Cristián, dirigindo-se ao prostíbulo onde venderam Juliana, encontrou o irmão sentado na fila esperando sua vez. Decidiram que era melhor levá-la de volta à casa, "para não cansar os cavalos". Voltaram, assim, ao que já se disse, até o dia em que Cristián comunica ao irmão, que matara a mulher, para não lhes causar mais danos. Assim, abraçaram-se, quase chorando. Agora os unia outro vínculo: a mulher tristemente sacrificada e a obrigação de esquecê-la.

Tradução de Flávio José Cardozo
=============================
Jorge Luís Borges. O Aleph. 3 ed., Porto Alegre, Editora Globo, 1978, 146 p.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

40. Ficções

O escritor argentino Jorge Luís Borges (1899/1986) cresceu entre duas línguas. Foi alfabetizado em inglês, por decisão do pai. O espanhol é ligado à linhagem materna. Tinha ascendência portuguesa por parte do bisavô paterno, que nascera em Portugal.  Ficou cego cedo, aos 58 anos. Mas continuou a produzir sempre, ditando seus textos a seus auxiliares, notadamente sua mãe e depois a esposa, Maria Kodama.
Borges foi primeiro poeta e ensaísta. Seu lado ficcional surgiu mais tarde. 

Viaja à Europa na adolescência, para tratamento da cegueira do pai, onde estuda, tem acesso e leitura em outras línguas, e retorna em 1922 à Argentina. Foi leitor voraz de enciclopédias. Isso faz ver a obra de Borges, estamos falando aqui dos contos, em duas vertentes: a mística, os arquétipos, os labirintos. De outro, o olhar para o pampa: o duplo, a violência, a solidão árida. O escritor sustentava que, por trás da sua escrita, há a leitura de um livro. Borges lia um livro e contava uma história do que lera. Isso é chave em sua literatura.

Ficções é um livro-chave para a literatura do século XX, que influencia toda a literatura que vem depois dele. Sua estética coloca a possibilidade de algo impensado.  É um relato autêntico que não propõe uma verdade fora do texto. Não é uma reprodução fiel do mundo. Mas o prazer da forma estética. Esses relatos oferecem ao leitor um prazer com a forma que assume o relato. O livro tem duas partes. A primeira, "O jardim dos caminhos que se bifurcam", contendo um prólogo, apresenta textos que foram, muitos deles, já editados em jornais e revistas. A segunda, também contendo um prólogo, "Artifícios", insiste na ideia de colocar em evidência o caráter experimental da estética do texto:

O jardim dos caminhos que se bifurcam: uma das mais importantes narrativas do autor no que se refere a falar de uma de suas metáforas preferidas: o labirinto. O protagonista do conto está sendo perseguido e foge para o lugar onde viveu seu descendente, um rei que disse que se ausentaria do mundo para construir um labirinto e escrever um livro. Contudo, o que o leitor não perde por esperar, é a relação dessa história com a do próprio protagonista.

A biblioteca de Babel: o autor fala do mundo como se este fosse uma biblioteca, tendo um dos mais impressionantes começos literários da história da literatura: “O universo (que outros chamam a  Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e  infinito, de galerias hexagonais, com vastos postos de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas".

Pierre Menard, autor do Quixote, a falsa resenha da obras de um escritor de ficção francês recentemente falecido, que se envolveu na tarefa complexa e fútil de reescrever Dom Quixote, de Cervantes. Não se trata de copiar o romance, mas de repetir o livro com o intuito de fazê-lo coincidir, palavra por palavra e linha por linha com o original. Trata-se da total aniquilação da personalidade. Se Menard tivesse conseguido reescrever o Dom Quixote, teria sacrificado sua individualidade artística à tarefa, ao mesmo tempo que teria roubado Cervantes de seu status de autor único do grande clássico; o sucesso de Menard equivaleria então à destruição da criação original, tornando a criação um conceito arbitrário, podendo, no futuro, qualquer obra ser escrita por qualquer autor.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius é uma paródia do idealismo filosófico do bispo Berkeley, na qual os membros de uma sociedade secreta dirigida por um milionário chamado Ezra Buckley inventam um planeta imaginário chamado Tlön, cujos habitantes carecem de qualquer senso nato da existência de uma realidade física externa a suas consciências. Numa série de brilhantes manobras cômicas, Borges esboça as consequências desse idealismo congênito para as línguas, as ciências, a matemática, a literatura e as religiões de Tlön. Nesse conto se reconhece várias estratégicas narrativas, uma delas, apagar os limites entre o verdadeiro e o imaginário. O leitor fica confuso se o que lê é invenção ou realidade. É a busca de um livro inexistente. Nesse livro, há um verbete que fala de Ukbar. Postula uma ideia de que o livro é um mundo e o mundo é o livro. O  mundo não é uma condição de possibilidades de um livro, mas o livro pode ser uma condição de possibilidade do mundo.

As ruínas circulares, o protagonista é um homem cinza que chega a um templo circular dedicado ao deus do fogo. O homem pede à divindade o poder de sonhar um filho e inseri-lo no mundo real. Seu desejo é concedido e ele sonhará um filho que todos tomarão como real, exceto o deus do fogo e o próprio sonhador, que saberão que sua criatura é, na verdade, um fantasma imune ao fogo. O homem cinza sente uma espécie de êxtase, uma vez que o propósito de sua vida parece ter se realizado. Pouco depois, porém, um incêndio destrói o templo, e o homem cinza descobre que não é afetado pelas chamas. Percebe, então, que ele, como seu filho é um fantasma: outra pessoa o está sonhando.
A loteria da Babilônia toma a ideia banal de que a vida é uma loteria e inventa uma situação em que é impossível dizer se as vidas dos babilônios são governadas pelo acaso ou pelos desígnios de uma companhia secreta.
Em A morte e a bússola, o detetive Erik Lönrot está investigando o homicídio de um judeu estudioso de Cabala. Um estranho conflito o impele a procurar o assassino por um processo de pura razão. Porém, Erik está, na verdade, sendo manipulado por seu arqui-inimigo, um criminoso judeu chamado Red Scharlach, que planeja secretamente atrair o detetive para a morte, aprisionando-o num labirinto de pistas enganosas.

O sul e O fim tratam do duplo, quando é preciso fazer uma escolha que contempla um deles. Em O Sul, o protagonista é Juan Dahlmann, um residente de Buenos Aires de origem mista germano-protestante e argentino-católica, que se sente profundamente argentino por ser neto de um herói da guerra da Independência. Embora as propriedades da família tenham se perdido há muito tempo e ele tenha um emprego público modesto na cidade, conseguiu salvar a sede de uma estância nos pampas ao sul de Buenos Aires. Na segunda parte da história, o encontramos tomando um trem para ir visitar a mansão, mas o trem para inesperadamente no meio do campo, e enquanto espera num armazém, recebe provocações de um grupo de peões. Sem saber como reagir, subitamente resolve enfrentar o desafio de um compadrito (equivalente ao nosso gaúcho a pé, banido do pampa) depois que um velho gaucho lhe joga uma adaga.

O fim descreve o final de Martín Fierro, relatando o duelo final entre o protagonista e El Moreno, o irmão de um gaucho negro que Fierro havia matado numa briga de bar na primeira parte do famoso poema. Dessa vez, porém, é Fierro que é morto, mas a morte do protagonista não oferece, no fim, uma resolução clara da ação: quando mata Fierro, o negro assume o destino de sua vítima e as identidades aparentemente contrárias de assassino e assassinado se dissolvem, abrindo a história para uma progressão potencialmente infinita. A ação é observada por um terceiro personagem, testemunha totalmente passiva, por causa de um derrame.

Tradução de Carlos Nejar
=============================

Jorge Luís Borges. Ficções. Porto Alegre, Editora Globo, 1969, 158 pp.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

39. A náusea

Sartre (1905/1980)  sempre conservou, durante toda sua vida, a junção entre os temas filosóficos e condição humana, através da literatura. A Náusea, lançada em 1938,  é o romance que o levou à notoriedade. O título inicial era Melancolia, mas por sugestão do editor, Sartre optou por A Náusea. O romance é importante, na obra de Sartre, por ser a primeira a desenvolver o tema que aparecerá no restante de sua obra ficcional: o existencialismo. Está escrito em forma de diário, para dar verossimilhança ao personagem.

O personagem central é um historiador que viajou muito. Recolheu-se à cidade de Bouville para escrever o retrato de um marquês do século XVIII, Rollebon. Como nessa cidade havia arquivos importantes sobre o biografado, mudou-se para lá. Em sua convivência no local, vai aos poucos se desinteressando pela existência de Rollebon, por considerá-lo um personagem de si mesmo, alguém que não é ele mesmo, e abandona a função de historiador, que passa a considerar uma subordinação ao real, ao acontecido, e vai dar asas à liberdade através da ficção.
O encontro do historiador consigo mesmo é o encontro com a liberdade, e isso acontece de forma dramática, pois é o encontro com a contingência, isso é, nada na vida é premeditado. Ocorrem ao acaso. A existência é gratuita.

O livro é muito teatral, com cenas surrealistas, com personagens caricatos, simbólicos, como o Autodidata, que adquire cultura na biblioteca da cidade, lendo autores pela ordem alfabética, sem um objetivo pré-determinado. A moça do rendez-vous representa a caricatura do sexo, a banalização da vida amorosa e das relações humanas. Os casais que vão ao restaurante almoçar, namorar e comer, são falsos, constituem uma imagem projetada, estereótipo, uma tentativa de marcar uma essência humana e não viver a existência em seu decurso gratuito.

A namorada que ele encontra no final do livro, na esperança de retomar um amor perdido, diz respeito ao valor do instante. Ela tem uma característica de viver o instante em toda sua intensidade, mas perdeu isso com o tempo, idealizando-o.  Quando se separam, o personagem toma consciência de que cada um tem a sua história. E supera a náusea, a contingência de existir, ao ouvir uma música que ele considera perfeitamente acabada, como a vida deveria ser, mas não é. Vai escrever um livro de ficção, onde a liberdade apareça.

Sartre debruça-se em A Náusea, sobre a filosofia da existência, onde não existe uma essência humana à qual os exemplares estão determinados, existe o homem existente em sua contingência e sua gratuidade, ao contrário da figura idealizada que o pensamento burguês supunha.

O romance é anterior a O ser e o nada (se o homem existe, Deus é nada; se Deus existe, o homem é nada) e ao O que é literatura?, onde se propôs a responder em que medida a literatura deve ater-se à vida circundante e, a seu modo, refleti-la e procurar transformá-la. Mas contém, em essência, aspectos das duas obras filosófico literárias.

Tradução de Rita Braga
 =================

Jean-Paul Sartre. A náusea. Rio, Nova Fronteira, 2006, 222 pp.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

38. O grande Gatsby

Quanto vale um homem sem o seu dinheiro? Para a sociedade norte-americana da década de 1920, nada. Gatsby, sujeito obscuro, que não se deixa inteiramente conhecer, já que é visto sob o ângulo de Nick, seu vizinho com quem manteve curta amizade, como um espectador sóbrio e isolado das próprias festas. Gatsby era de origem humilde e se apaixonara por uma moça rica de Nova Iorque. Ela casa com outro, Gatsby fica rico e decide investir novamente nessa mulher. Acaba morto de forma equivocada, tentando protegê-la. É quando Nick, o vizinho que nos conta sua história, percebe que o mundo de pessoas que frequentava suas festas suntuosas, não estavam interessados em nada mais que a futilidade proporcionada pelo dinheiro.

Nas noites de verão, a música irradiava da casa de seu vizinho Gatsby. Em seus jardins suntuosos, homens e mulheres iam e vinham feito mariposas entre sussurros , champanhe e estrelas. Nas tardes de maré alta, ele observava os convivas mergulhando no alto de sua balsa, ou tomando sol nas areias quentes de sua praia particular, enquanto barcos a motor cortavam as águas, puxando esquiadores aquáticos por entre cataratas de espuma. Nos fins de semana, seu rolls-royce virava um lotação, transportando convidados das nove da manhã até depois da meia-noite, enquanto sua caminhonete zunia feito um inseto amarelo e ligeiro no encalço de trens. E às segundas-feiras, oito empregados, incluindo um jardineiro extra, trabalhavam o dia todo com esfregões, escovas, martelos e tesouras de jardinagem, reparando os destroços da noite anterior.

Nick é um espectador em busca de um astro. Vê Gatsby como modelo bem sucedido. Os dois formam uma amizade que contempla diálogos em que Gatsby mostra sua insegurança legada de sua origem nebulosa.

Tradução de Vanessa Barbara.
======================

F. Scott Fitzgerald. O grande Gatsby. SP, Pinguin Companhia, 2011, 256 pp

domingo, 29 de janeiro de 2017

37. São Bernardo

Graciliano Ramos viveu entre 1892 e 1953. Durante esse período conviveu com duas guerras mundiais, duas revoluções socialistas, o nazismo de um lado e o stalinismo de outro. No Brasil, 1937, instaura-se em 1937o Estado Novo de Getúlio Vargas e um regime ditatorial que predomina até 1945.  Um ano antes do Estado Novo, Graciliano foi preso e conduzido à prisão de Ilha Grande, no Rio, durante um ano. Até sua morte, em 1953, nunca soube oficialmente por que havia sido detido. Era filiado ao Partido Comunista desde 1945.

Graciliano Ramos se distancia dos demais contadores de histórias da época, como Jorge Amado e Érico Veríssimo, por apresentar uma escritura sofrida, trabalhada à exaustão, onde cada palavra tem um peso, numa prosa extremamente elaborada. Sua obra principal  é condensada em um curto período: Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas Secas (1937). Os três últimos romances constituem suas obras-primas.

São Bernardo é contado em primeira pessoa, o narrador-personagem está situado no presente de sua solidão, rememorando os fatos do passado, entregando-se ao doloroso exercício de enfrentar a verdade sobre si mesmo Quando decide contar sua história, Paulo Honório já se encontra viúvo e sozinho. Está com cinquenta anos. A certidão de nascimento não confirma pai nem mãe. Fora criado pela velha Margarida, que vendia doces. Cedo, rolou pelo mundo, trabalhando como lavrador. Aos 18 anos esfaqueou um homem e foi preso. Quando saiu da prisão, decidiu que queria ganhar dinheiro.

De posse de um capital inicial, empenha-se na compra da fazenda São Bernardo. Aproveita-se da fraqueza do filho de seu antigo patrão e, de forma esperta, faz uso de todas as atitudes escusas possíveis. De posse da fazenda, passa a invadir partes de terras alheias para ampliar sua propriedade. Consolidada a posse, era preciso casar-se para ter um herdeiro. 

Numa das visitas que faz à cidade, conhece Madalena, jovem de 27 anos. Não era bem a mulher que procurava, mas decide investir em Madalena. A moça era professora primária e só tinha como família a tia Glória, que a criara desde pequena. Levada a pensar na proposta de Paulo Honório, Madalena, pensando na proteção e segurança que aquele senhor de terras lhe poderia garantir, aceita casar-se, levando a tia junto para morar na fazenda.

Os dois têm um filho, apesar da relação conflituosa entre os dois. Paulo Honório é seco, autoritário e possessivo, trata seus funcionários como bichos. Madalena é doce, compreensiva e altruísta. Toma o partido dos humilhados e ofendidos, exige melhores condições de vida e de salário para seus funcionários enfurecendo o marido. Letrada, Madalena passa a conversar com Padilha, o professor da região que morava na fazenda e com amigos que visitavam a fazenda. Inseguro, sem conseguir apossar-se da vontade da esposa, passa a ter ciúmes doentios que acabam por levar Madalena ao suicídio.

Paulo Honório é um homem agreste, egoísta e cruel,  que não consegue compreender a mulher, pois é incapaz de senti-la em sua integridade humana e em sua liberdade, e a considera apenas como mais uma coisa a ser possuída. A crise reside na incompatibilidade de conviver quando um indivíduo não reconhece nem aceita a diferença representada  no outro. Paulo Honório não admite a livre expressão da esposa, a competência dela o faz sentir-se inferiorizado, reagindo, assim, de modo impensado, por meio de um ciúme doentio que o leva a duvidar da fidelidade de Madalena.

Interpretado pelo que representa de crítica social, Paulo Honório representa a modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante  dos meios e se apossa do que tem pela frente.

=================

Graciliano Ramos. São Bernardo. 71ª ed., Rio, Record, 2001 224pp

domingo, 22 de janeiro de 2017

36. O homem sem qualidades

O homem sem qualidades é uma obra híbrida: contempla ensaísmo e narração. Seu processo de criação foi lento e exigente. Em 1906, Robert Musil (1880/1942)   já tinha anotações sobre a estrutura do livro, que é publicado em 1930, a primeira parte. Em seguida, por pressão dos escritores, edita a segunda parte. A terceira parte, inacabada, foi publicada após sua morte, em 1942, pela viúva do autor. A edição brasileira contém as três partes do livro.

A proposta do autor era contar como o homem normal nasce e se coloca diante da realidade empírica sem se deixar submeter a uma razão opressora. O ser que não tem qualidades próprias, que não sabe o que é, que só se conhece no cumprimento de tarefas. Diante disso, busca saber como pode adquirir o autoconhecimento diante da modernidade. Embora escrito entre a primeira e segunda guerras mundiais, não se trata de um livro histórico, nem um manifesto contra o nazismo. O que o escritor austríaco se propõe é narrar a utopia de Ulrich, de criar um mundo à parte.

Ulrich, o homem sem qualidades, é alguém que se propõe a  tirar férias da vida. Não tem uma profissão definida, não tem família e sente que vive num mundo de qualidades que são impostas a ele. A história começa em 1913 em dois mundos paralelos, o da reflexão do protagonista e o mundo dos eventos. No mundo dos eventos, existe uma trama paralela, a ação patriótica para comemoração do jubileu de coroação do imperador austríaco, em 1918. Aparecem as mais diferentes personalidades da aristocracia. Ulrich é secretário desse comitê, que não chega a lugar nenhum.

Em contrapartida, há a figura de Moosbrugger, um assassino que chama a atenção de todos pelo crime de matar sua mulher. A intenção da sociedade é eliminar esse elemento, através da condenação à morte. Mas o grupo liderado por Clarisse e Walter, amigos de Ulrich, é estudar uma terceira via para o destino do assassino.

Na segunda parte há também uma relação quase incestuosa entre Ulrich e a irmã Ágatha, que surge quando decide separar-se do marido, aplicando-lhe um golpe no testamento deixado pelo pai.  A aproximação de Ulrich com a irmã é uma forma de tentar dar uma continuidade dos acontecimentos que giram em torno de sua existência. Uma forma de recuperação.
Ulrich é um homem bastante à frente de seu tempo. Provara ter espírito forte e aguçado. Sempre sabe o que deve fazer, sabe olhar nos olhos de uma mulher, sabe refletir bastante sobre qualquer coisa a qualquer momento. Talentoso, isento de preconceitos, corajoso, resistente, destemido, prudente.

Essas qualidades, entretanto, ele não as tem. Elas fizeram dele aquilo que ele é, e determinaram seu caminho, mas não lhe pertencem. A uma coisa, Ulrich opõe outra. Para ele, nada é sólido. Tudo é mutável, parte de um todo que ele ainda não conhece integralmente. Assim, todas suas respostas são respostas parciais, cada um de seus sentimentos um ponto de vista. Para ele, não importa o que a coisa é, mas como é. O adjetivo  "homem sem qualidades" deve ser visto nesse sentido. Um caráter sem caráter nenhum.

Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth

==================

Robert Musil. O homem sem qualidades. Rio, Nova Fronteira, 1989, 872 pp.

domingo, 15 de janeiro de 2017

35. Duas obras primas de Faulkner

 O Som e a Fúria (1929) conta a história da decadente família Compson no cenário quase sempre presente nas obras do autor, o Condado de Yoknapatawpha, a partir de quatro narradores diferentes, três deles irmãos: Benjy, um idiota que não fala e cujo pensamento é expresso pelos sentidos, especialmente o olfato; Quentin, o irmão estudado, frequenta a Harvard e nutre um amor incestuoso pela irmã Caddy; Jason, o irmão ressentido que luta contra o tempo e a falência da família; e um narrador onisciente, presente na última parte do livro. “O Som e a Fúria” aborda temas como incesto, suicídio, doença metal, família, conflitos raciais, situação histórica do sul dos Estados Unidos.

Caddy é a menina dos olhos de cada narrador, relacionando-se com os três irmãos por diferentes graus: Benjy, o idiota, chora quando Caddy usa perfume, deturpando seu cheiro natural, ao mesmo tempo em que ela é a única a lhe dedicar atenção; já o amor incestuoso de Quentin pela irmã pode representar um amor eterno, imperecível, e acima da carne, mas deturpado pelo desejo físico; o desagradável irmão Jason tem uma inescrupulosa busca por dinheiro, extorquindo dinheiro de Caddy.  Jason  buscava sempre uma oportunidade de enriquecer sem precisar trabalhar.
O leitor talvez vá precisar de um pouco de calma para ler “O Som e a Fúria”, pois a narrativa, fazendo usa da técnica do fluxo de consciência,  pode levá-lo a nem sempre saber o que aconteceu. Mas nem por isso sua leitura será desagradável. O esforço de seguir adiante é extremamente recompensador. E também convidativo para uma segunda leitura, talvez até mais prazerosa. Isso não é pedir muito, já que essa pode ser a “história contada por um idiota” mais surpreendente que você tenha a oportunidade de ler.
Há um apêndice sobre a linhagem da família Compson até o seu final.

Tradução de Paulo Henriques Britto

==========================
William Faulkner. O som e a fúria. SP, Cosac Naify, 2004. 336 pp.



Luz em agosto (1932) se passa no condado imaginário de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos. A narrativa começa numa estrada do Alabama, onde uma jovem grávida, Lena Grove, busca carona para chegar a Jefferson, à procura de Lucas Burch, o pai de seu filho. Contando com a generosidade de agricultores da região, Lena consegue chegar a Jefferson, e acaba sabendo que no moinho da cidade trabalha um homem que talvez possa ser Burch. Esse homem, na verdade, é Byron Bunch, que se propõe a ajudá-la a encontrar esse rapaz, que ele julga ser Joe Brown. Brown vive em uma cabana na propriedade de Joanna Burden, sobrevivente de uma família de abolicionistas, em companhia de Joe Christmas, que mantém um relacionamento com a tal mulher. Christmas, apesar de ter pele clara, ser órfão e desconhecer qualquer fato de sua descendência, acredita que tenha sangue de negro. Por isso viveu, até o momento da trama, fugindo de seu passado.

A época da narrativa ocorre no calor intenso de agosto,  no final do século XX, época da Lei Seca. Brown e Christmas aproveitam-se disso para contrabandear whisky para ganhar mais dinheiro. Numa noite, há um incêndio na propriedade de Joanna Burden (Luz em agosto), na cabana onde viviam Brown e Christmas. Descobrem, então, que a dona da casa havia sido assassinada e a culpa recai sobre Christmas que foge dali e é caçado impiedosamente até ser executado por um soldado do exército. Brown, preso na ocasião do incêndio, responsabiliza Christmas pelo assassinato e é mantido preso. A partir de então, Byron Bunch, que já estava apaixonado por Lena, arranja um encontro entre o preso e a jovem. Brown acaba desaparecendo de forma obscura.

Há outro personagem interessante na narrativa, Gail Hightower, ex ministro metodista, forçado a se demitir depois que descobriram que sua esposa mantinha um caso extraconjugal numa cidade vizinha, e cometera suicídio após o escândalo. Gail recusa-se a sair de Jefferson, vive uma vida miserável e mantém longos diálogos com Byron sobre a miséria da existência humana.

Faulkner mantém um suspense narrativo de primeira, prendendo a atenção durante todo o livro.

Tradução de Celso Mauro Paciornik
          
===================
William Faulkner. Luz em agosto. 2ª ed., SP, Cosac Naify, 2007, 448pp


domingo, 8 de janeiro de 2017

34. Macunaíma

No meio da mata virgem, às margens do Uraricoera, uma índia tupinambá pare um menino preto retinto e feio, chamado Macunaíma. Passou seis anos sem falar, e quando o incitavam a fazê-lo, dizia: "Ai, que preguiça!" Sempre foi muito ativo e a coisa que mais gostava de fazer era "brincar" com as índias no rio. Tinha dois irmãos mais velhos, Maanape e Jiguê, este tinha uma mulher, Sofará. Um dia, Macunaíma transforma-se num belo príncipe e brinca com a cunhada, causando a ira de Jiguê, que a manda embora, casando-se com Iriqui, que também brinca com Macunaíma. A Jiguê não resta outra alternativa, a não ser se conformar.

Um dia, a cutia lhe dá um banho de água de mandioca envenenada e Macunaíma se transforma em homem, mas a cabeça, que não havia sido molhada, permanece pequena. Quando sai à caça, certo dia, mata acidentalmente uma veada com a cria. O animal era a mãe do herói, transformada em veada por Anhangá. Todos choram a morte da mãe e decidem sair por este mundo afora. No caminho, Macunaíma possui Ci, a Mãe do Mato, rainha das amazonas. Ci acompanha Macunaíma na viagem, dá à luz um menino de cor encarnada e cabeça chata. O menino, ao chupar o seio da mãe, que havia sido mordido por uma cobra preta, morre. O menino é enterrado, Ci entrega a Macunaíma uma muiraquitã e vai para o céu , subindo por um cipó. Quando o herói visita o túmulo do filho, no dia seguinte, vê que sobre ele nascera uma planta, o guaraná.

Nas muitas andanças e peripécias de Macunaíma, este acaba perdendo a pedra muiracitã, que havia sido encontrada por um homem que o vendera a Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã. Macunaíma descobre o paradeiro da pedra e decide, com os irmãos, ir para São Paulo, onde morava o gigante, para tentar recuperar a pedra. No final da rapsódia, Pietro Pietra acaba caindo em caldeirão de macarronada, a pedra é recuperada e Macunaíma volta ao Uraricoera. No final, a tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaima subira aos céus transformado na estrela Ursa Maior. Só restara o papagaio no silêncio do Uraricoera, preservando do esquecimento o caso e as falas desaparecidas sobre o herói de nossa gente. O papagaio foi quem contou tudo ao homem, Mário de Andrade.

Macunaíma é a obra síntese do Modernismo brasileiro. Publicada em 1928, seis anos depois da Semana de Arte Moderno, é representativa da miscigenação das diversas culturas que formam o Brasil. De posse da muiraquitã, no final da história, os irmãos retornam ao lugar de origem, carregando na canoa objetos de diversas procedências, como um casal de galinhas Legorne, um revóver Smith Wesson e um relógio Pathek Philipe, símbolos da cultura estrangeira, indicadores dos valores capitalistas transportados ao lugar de origem, compondo o perfil do herói sem nenhum caráter. O termo sem caráter, aqui, longe de ter o significado de indivíduo de moral duvidosa, representa a síntese da alma brasileira forjada através de uma cultura transplantada e adaptada ao mundo moderno, com o advento do capitalismo que chegou ao Brasil no início do século XX, para o bem ou para o mal. O antropofagismo cultural surgido com a Semana de Arte Moderna significa que, para haver avanço cultural, é necessário assimilar tudo de novo que vem de fora, miscigenando-o à cultura já existente, em vez de negá-lo.

A edição que eu li é a sétima, da Martins Editora, de 1972. Há edições recentes da Civilização Brasileira e da Penguin Editora, por preço baixo.

      

                                                       paulinhopoa2003@hotmail.com