domingo, 24 de março de 2013

Ravelstein


O canadense Saul Bellow (1915/2005) fez parte de um grupo de escritores que exercem o gênero romance-ensaio (parecem ser, ao mesmo tempo, romance, ensaio, tratado científico, história e reportagem), para melhor constituir o espelho do homem e da sociedade.Só assim o leitor contemporâneo chegaria a acreditar na “verdade da ficção”. É tendência do romance moderno, a partir do século XX. Doutor Fausto, de Thomas Mann, O jogo das contas de vidro, de Herman Hesse, Ulysses, de Joyce, os romances e o teatro de Sartre e Simone de Beauvoir, a obra de Jorge Luís Borges; no Brasil: O filho eterno, de Cristóvão Tezza e 9 noites, de Bernardo Carvalho, como um punhado de inúmeros exemplos. Há casos em que a imersão na realidade política e social é tão intensa, que a história torna-se árida, parecendo fugir ao mundo da ficção. As obras de Saramago, a meu ver, são assim, a história se perde nas reflexões políticas do autor em meio à trama.
Ravelstein, de Saul Bellow, é um bom romance. Lança o foco nos momentos finais de um intelectual judeu, vítima da condição humana, numa vida sem sentido. Com formação clássica sólida, elitista, refinado, o protagonista aproxima-se do fim de sua vida pródiga, tendo conquistado fama e fortuna. Como fora professor, tem seu grupo de seguidores, ex-alunos seus a quem havia ensinado filosofia política e passaram a amigos de longa data. Um de seus discípulos sugere que ele lance um livro acerca do que sustenta a humanidade ou tem capacidade para destruí-la. O livro é um sucesso e Ravelstein torna-se um milionário. Entretanto, sabedor de que está prestes a morrer em decorrência da Aids, Ravelstein pede a esse amigo que faça sua biografia. No diálogo que os dois mantêm em função desse propósito, Saul Bellow confronta o nihilismo americano ao dizer às pessoas o que elas talvez não queiram ouvir. Trata-se de uma reflexão sobre a mortalidade. Supõe-se que a personagem Ravelstein foi inspirada em Allan Bloom, filósofo político que influenciou não só Bellow, mas gente como Margareth Tatcher, Sartre e Beauvoir.
Ravelstein está esgotado, mas você encontra exemplares novos no sebo Balaio Digital, a R$ 7,90.

                                          paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Saul Bellow. Ravelstein. Rio, Rocco, 2001, 216 pp.

domingo, 17 de março de 2013

Sargento Getúlio



Sargento Getúlio é sujeito tosco, sem formação acadêmica, trabalhou desde a infância. Cresceu, casou-se, foi traído e assassinou a mulher grávida. Para fugir, quem sabe, à condenação pelo crime, torna-se cabo eleitoral de um poderoso chefe político de Aracaju, ligado ao PSD. Como já havia feito vários“trabalhos” a esse político, Getulio aceita mais um, prender o líder da UDN, de quem não se conhece o nome.   Getulio cumpre a missão e o retorno da viagem rumo a Aracaju é a espinha dorsal da narrativa. O pano político do romance, como se vê, é o do coronelismo, se se enraizou no país da proclamação da República até a ascensão de Getúlio Vargas ao poder na presidência do país.
A missão confiada se converte na razão de ser do Sargento Getúlio. Quando recebe a informação de que deve soltar o prisioneiro, devido às reviravoltas políticas na capital, decide continuar firme com seu propósito, executando a lei por conta própria. Como fundo da história está o conflito ideológico e o comportamento degradante de personagens, cujo objetivo é sobreviver num espaço hostil, dominado pela corrupção política. O romance de João Ubaldo Ribeiro (1941) foi publicada em 1971, em plena vigência do regime militar.
O autor de Sargento Getúlio constrói a história, rompendo a estrutura narrativa tradicional, numa construção aparentemente caótica (mas nem por isso difícil de ser compreendida). No primeiro capítulo, Getulio fala em monólogo ou em diálogo com Amaro, o chofer que o acompanha, e com o preso, que não fala em nenhum momento da narrativa. Todos estão voltando da cidade de Paulo Afonso, onde foram buscar o prisioneiro. Reviravoltas políticas fizeram com que o mandante da busca denunciasse o sargento Getúlio, para salvar a própria pele. Getúlio nega-se a entregar o preso. Na luta, acaba degolando um tenente e a situação se complica. A partir daí, resolve cumprir a missão por conta própria. Na consciência conflituada e em crise total do protagonista, as noções de espaço e tempo vão desaparecendo aos poucos. Sargento Getúlio, em sua trajetória existencial, descobre que o tempo correu e que o mundo mudou. Como se nega a aceitar essa mudança, sua epopeia tem um final trágico.

                                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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João Ubaldo Ribeiro. Sargento Getúlio. RJ, Ponto de Leitura, 2010, 176 pp.  R$ 14,90

domingo, 10 de março de 2013

Middlemarch, um estudo da vida provinciana


George Eliot (1819/1880) era mulher. Seu nome feminino era Mary Ann Evans. Feia, sem dote e sem posses, iniciou seus esforços no sentido de adquirir cultura de forma autodidata, pois a  mulheres do seu tempo só lhes restavam o ensino de boas maneiras, belas-artes, piano, religião e bordados. Tinha personalidade marcante. Fugiu com um homem casado, numa época em que tal atitude chocava a moral protestante. Chamava-se George Eliot e era escritor. Foi ele que a incentivou a escrever romances. Foi dele que Mary Evans adquiriu o pseudônimo com que se tornou conhecida, rica e famosa como escritora. Essa atitude não adviria de um ato de submissão ao marido, pelo contrário, teria sido uma forma de homenagear o grande amor de sua vida, que a incentivou a escrever.
Dorothea, a jovem heroína de Middlemarch, é cheia de bondade. O desejo de aprender e partilhar a cultura então exclusiva dos homens, faz com que se case com um senhor trinta anos mais velho que ela, rabugento, doentio, egoísta, mas supostamente culto. A autora nos mostra, nessa fase da vida de Dorothea, os equívocos do casamento como ilusão ou negócio, não como uma troca, retratando, assim, a sujeição degradante em que as mulheres viviam. Quando o marido morre, deixa-a muito rica. Deixa também um testamento que ordena a perda de seus bens, caso ela se case com um primo do marido, que lhe nutria um amor que não conseguia esconder.
Viúva, decide acordar da gaiola de luxo a que fora submetida, enfrenta a oposição da família, as opiniões da cidade e as convenções do mundo para realizar seu amor, mesmo tendo de perder a riqueza que não a fazia feliz. Há toques feministas no romance, embora as mulheres não sejam poupadas, quando a vida provinciana é exposta pelo que tem de mais fútil. Dividido em oito partes em suas quase novecentas páginas, Middlemarch tece outros eixos de vida na figura do médico Lydgate, que trouxe à cidade um método diferente de tratar os pacientes. Esse médico casa-se por amor, mas  sua vida é arruinada quando fica endividado para tentar ostentar uma vida burguesa fora de suas possibilidades. Vítima de um complô, perde tudo, mas mantém sua moral com a ajuda de Dorothea. Há também a vida de Garth e sua família, que vive uma vida de dificuldades, mas não abre mão de seus princípios morais.
Para dar credibilidade ao realismo de seu romance, George Eliot se muniu de dados meticulosos sobre o que acontecia no país por volta de 1830, ano da ação do romance. Enfoca o estado de certas áreas de atividade como a medicina, à qual faz críticas ferozes. Todo o mundo das profissões masculinas: uma sequência de figuras caricatas como um leiloeiro pedante, um espertalhão que vende cavalos, um juiz ardiloso, médicos retrógrados, um banqueiro que esconde as falcatruas do passado e a origem de sua grande fortuna sob o pretexto por obras de caridade e hipocrisia religiosa. É um mundo que parece brotar da falsidade e onde a gana por dinheiro silencia os princípios, cheio de teatralidade e astúcia, de palavras belas e vazias, 
Middlemarch, um estudo da vida provinciana é uma história que se lê sem pressa, de forma muito agradável. A tradução do poeta Leonardo Fróes é primorosa. É considerado pela crítica especializada um dos melhores romances do século XIX. A edição brasileira da Record encontra-se esgotada. Existe a edição portuguesa da Relógio d'Água por R$ 103,10 com praso de seis semanas para entrega. Você pode encontrar o romance editado pela Record em sebos virtuais em ótimo estado de conservação, por 40 reais. 

                                                                                              Paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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George Eliot. Middlemarch, um estudo da vida provinciana. Rio, Record, 1998, 884 pp. 

domingo, 3 de março de 2013

Don Segundo Sombra



Don Segundo Sombra, obra do escritor argentino Ricardo Güiraldes, trata da vida de um guri de nome Fabio, que sai da casa dos tios depois de ser abandonado pelo pai e conhece Don Segundo Sombra, pampeiro experiente que o ajuda e o ensina a trabalhar no campo, domando cavalos e trabalhando em todo o pampa argentino. Assim, Fabio vai criando uma identidade de “gaucho”, a figura solitária e campeira do pampa.
Don Segundo Sombra é um homem solitário, com muita experiência e sabedoria popular, além de exímio domador de cavalos. Com ele, o guri leva uma existência nômade, aprendendo a viver e a trabalhar no campo, guiado por esse gaúcho que se transforma em seu padrinho e mestre. Em cada povoado que passam, entre bailes, brigas de galo, organizando a boiada, mais as histórias que Don Segundo lhe conta, fazem dessa etapa a fase mais feliz da vida do piá.
Um certo dia, o jovem recebe uma carta que lhe revela, agora, ser um homem rico, pois fora reconhecido pelo pai, que lhe deixara toda sua fortuna. Esse acontecimento marca profundamente a vida de Fabio, que não gostaria de aceitar a mudança de vida. Incentivado por Don Segundo, assume suas terras, tornando-se estancieiro. Na estância, trava amizade com o filho do administrador, que lhe aponta os caminhos da cultura intelectual, infundindo-lhe o amor pelos livros e pela cultura.
Esta novela de Güiralde é a primeira obra de caráter universal da literatura gauchesca argentina. A obra transpõe as fronteiras do pampa para mostrar os valores do “gaucho”, que nós, gaúchos, herdamos a tradição. A literatura sul-rio-grandense possui bons romances que evidenciam a figura de nosso gaúcho pêlo duro, que identifica nossa identidade com o pampa. Contos gauchescos e Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto, o mais fiel e o mais popular dos regionalistas gaúchos, são obras-primas da literatura brasileira. Grande escritor, Lopes Neto revive a vida dos campos, o linguajar e os costumes gauchescos, as lendas regionais, sem se restringir ao mero pitoresco, mas vertendo em suas criaturas toda a força das paixões e caos humanos, dando a sua obra interesse permanente. O autor pelotense transpõe suas histórias na voz inconfundível do pampeiro Blau Nunes, índio velho e contador de causos na hora de folga dos galpões. Outros escritores de temática gauchesca imergiram a figura do gaúcho no panorama social e político do século XX, a partir de Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. Memórias do Coronel Falcão, de Aureliano de Figueiredo Pinto, é um romance de fronteira gaúcha escrito por um médico estancieiro, onde o mundo do campo, sua gente e suas transformações aparecem vistos de dentro para fora, numa época conturbada pelo borgismo. Cyro Martins nos coloca a figura do gaúcho a pé, o que perdeu sua pequena propriedade, o gado e o cavalo para os grandes pecuaristas com suas máquinas agrícolas, vindo a formar os bolsões de miséria das cidades grandes. Os livros Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova, compõem a chamada Trilogia do Gaúcho a pé.
Voltemos a Ricardo Güiraldes, para acrescentar que o escritor nasceu em Buenos Aires, em 1886, e morreu em Paris, em 1927. De origem aristocrática, cuja família tinha inúmeras propriedades rurais, com um ano de idade foi morar na Europa, retornando quatro anos depois à Argentina, vivendo sua infância e juventude nas estâncias de seu pai.

                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
                                                                                       
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Ricardo Güiraldes. Dom Segundo Sombra. Porto Alegre, Ardotempo, 2011, 334 pp., R$ 40,00

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A invenção da solidão



A Invenção da Solidão é um  livro que traça um retrato importante da vida passada de Paul  Auster.  No entanto, não é uma autobiografia típica.  Seu objetivo, além de descrever acontecimentos relativos à perda de seu pai, é apresentar algumas questões universais. Auster o considera "uma meditação sobre certas questões, colocando-se como o personagem central"  O livro se divide em duas partes: Retrato de um Homem Invisível e O Livro de Memória. Originalmente escritas como dois livros separadosforam publicadas em conjunto com o nome A Invenção da Solidão, em 1982.

Auster começou a escrever Retrato de um Homem Invisível como uma reação espontânea à morte súbita de seu pai. Narrado na primeira pessoa, explora, entre outras coisas, em que medida é possível compreender sentimentos e emoções, assim como penetrar na solidão de terceiros, quando se está intimamente ligado a eles. Assim, ficamos sabendo que foi graças a uma poupança que o pai lhe deixou, que Auster pôde se tornar escritor. Também tomamos conhecimento de um acontecimento marcante na vida do autor, quando descobriu que sua avó paterna havia matado seu avô por questões que permanecem um tanto nebulosa, já que é a impressão desse acontecimento em sua vida, o que lhe interessa.

O Livro de Memória, escrito na terceira pessoa, foi uma resposta direta à primeira parte. É uma colagem confessional de pensamentos, lembranças, citações e meditação sobre temas como identidade, paternidade e o sentido da vida. O autor busca, também aí, definir o que consiste e o que significa a solidão em nossas vidas. Nessa fase, seu casamento havia desmoronado e suas perspectivas eram pouco animadoras. Vivia sozinho em um local pequeno.   Nesse espaço,  decidiu usar sua solidão criativa e empregar a escrita como uma ferramenta de introspecção e auto-análise. O tom do livro nos faz sentir que não foi um período feliz de sua vida. É como se a realidade do mundo exterior deixasse de existir para ele, é uma temporada hermética, um longo momento de interioridade. O mundo exterior chegou a parecer não mais do que uma emanação de sua mente. Sua busca é de natureza espiritual. Ele tenta sentir o que tem de ser feito, a fim de chegar mais longe com a sua vida.


Para os leitores assíduos de Auster, a leitura de A invenção da solidão é uma forma de se aproximar mais da natureza desse autor, cuja obra é best seller ao redor do mundo. Para quem se inicia em sua escrita, é uma leitura que aprofunda, sem prolixidade. Sua escrita é simples  e pouco ousada.  A maioria das obras romanceadas de Auster tem um pé na memória do autor.

Eu li a obra no original, pois a edição em português encontra-se esgotada. Entretanto, você pode encontrá-la na Estante Virtual pelo preço médio de R$ 20,00.


                                                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Paul Auster. A invenção da solidão. SP, Cia. das Letras, 1999, 200 pp. Tradução de Rubens  Figueiredo.




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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Lição dos mestres


George Steiner é renomado professor e crítico literário. Nascido em Paris, em 1929, com profunda erudição filosófica, pedagógica e literária, já lecionou nas universidades em Cambridge, Genebra, Harward e Yale. Em Lição dos Mestres, ele nos propõe uma reflexão sistemática sobre a interação sutil e complexa entre poder e saber, confiança e paixão, a partir da relação de mestres e alunos, os discípulos, partindo de Sófocles e Platão, Jesus e seus apóstolos, Virgílio e Dante, Nietzche e o músico Peter Gast ( o filósofo achava que estava enlouquecendo pela irremediável solidão decorrente da incompreensão de seus alunos), Husserl e Heidegger, etc.
Steiner nos diz que o discípulo representa um caminho para que o intelecto não envelheça. Para ele, conhecimento é transmissão. No progresso, na inovação, por mais inventivos que sejam, o passado está presente. Os mestres seriam os guardiães e os transmissores da memória. Os discípulos aprimoram, disseminam ou rejeitam os fios que tecem essa identidade pessoal e social.
Steiner nos fala, ainda, do caráter “sacerdótico” do magistério. Em qualquer contexto étnico, qualquer que seja a civilização, o magistério sempre teve profundas raízes na experiência e no culto religioso. Nas origens do magistério encontra-se o sacerdócio. O mestre medieval ou do renascimento era o teólogo.  A herança teológica, entretanto, foi se enfraquecendo ao longo do tempo. Porém, suas convenções mantiveram-se na modernidade. Essas convenções de espírito eram subscritas por uma reverência praticamente inquestionável e evidente. Reverenciar o mestre era a forma natural de relacionar-se com ele.
O crítico toca numa questão relevante, e pouco comentada nessa relação de mestre e discípulo: seu aspecto erótico. Existe muito da sedução, da conquista que o mestre exerce sobre o discípulo e da submissão deste a seus caprichos. Alguns mestres burlaram o lado ético dessa questão e tiveram relacionamentos íntimos com seus discípulos: Jung e sua paciente russa Sabina Spielrein, que depois se tornou psiquiatra,  Ingmar Bergman e Liv Ullman, para citar os mais recentes conhecidos.
Apesar de apresentar alguns conceitos contraditórios (há quem possa implicar com a afirmação de que ensinar é transmitir, por exemplo), trata-se de um livro que qualquer pessoa interessada em cultura deve ler.
                                                                   Paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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George Steiner. Lições dos Mestres. 2ª ed., RJ, Record, 2000, 2010, 240 pp.  R$ 32,90

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Memórias de uma moça bem comportada



Neste seu primeiro livro de memórias, retratando sua infância e juventude, Simone de Beauvoir nos conta que não foi tão comportada assim, em sua juventude. Nascida de uma família burguesa em 1906, desenvolveu desde cedo o gosto pela leitura. Desde pequena sofria com a solidão, por se perceber uma pessoa com pensamento mais avançado que os demais à sua volta. Aos 21 anos já estava graduada em Filosofia pela Sorbonne. Bem antes disso,  já questionava a fé católica (quando criança, frequentava a igreja três vezes por semana). Adolescente, teve a consciência de que não acreditava mais em Deus. Durante o período em que foi estudante universitária, passou a frequentar bares e a beber socialmente, o que nunca havia feito antes. Apaixonou-se por um primo que muito  influenciou sua intelectualidade, mas não foi correspondida. Teve poucas, mas grandes amigas. Conheceu Sartre, estudante como ela. Sua influência sobre Simone foi essencial, para que ela enveredasse pelo caminho do existencialismo. Sartre sentia carinho e atração por Simone, mas não era correspondido, ainda.
Muito bem escrito, parece prosa de ficção, o livro reserva muitas outras nuances dessa personalidade marcante no modo de pensar do século XX. Simone morreu em 1986, deixando romances, peças teatrais e vários livros autobiográficos. Seu livro Cerimônia do adeus (será resenhado aqui brevemente) retrata os últimos dez anos da vida de Sartre, que veio a falecer em 1980.
Os romances que Simone de Beauvoir escreveu tinham como estrutura uma tese filosófica. Suas tramas serviam como exemplos de sua forma existencialista de pensar. Por isso parecem soar falsos como ficção. A convidada e Os Mandarins são suas obras romanceadas mais conhecidas no Brasil. Nessas duas obras, por exemplo, a autora examina a condição feminina nas dimensões sexual, psicológica, social e política. Amarrada às tramas, aparece a proposta de caminhos que podem levar à libertação não só das mulheres, como também dos homens. Para Simone, o certo era que até o momento do século XX, as possibilidades da mulher haviam sido sufocadas e perdidas para a humanidade. Portanto, era (e é) já tempo de deixar a mulher, enfim, correr todos os riscos, tentar a sorte. Simone de Beauvoir disse em O segundo sexo, que ninguém nasce mulher: torna-se mulher, posto que nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro.
Se você sentir vontade de ler Memórias de uma moça bem comportada, irá se deparar com uma prosa clara, objetiva e interessante. Correrá o risco, também, de querer ler o segundo livro de suas memórias,  A força da idade, que retrata a Simone na fase em que ela mais queria viver, quando adolescente, a da mulher adulta.
Memórias de uma moça bem comportada, assim como outros livros de Simone de Beauvoir, são frequente relançados e rapidamente se esgotam. É possível encontrar exemplares bem conservados a preços acessíveis nos sebos virtuais.
                                                                        Paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Simone de Beauvoir. Memórias de uma moça bem comportada. Rio, Nova Fronteira, 1983, 372 pp. 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Fazes-me Falta


Em um dos monólogos, ele diz: Eu nunca me aproximara tanto do teu corpo. O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Sentia uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exatamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.
A escritora portuguesa Inês Pedrosa (1962) ganhou reconhecimento no Brasil com o romance Em tuas mãos, em que intercala os discursos de três mulheres de uma mesma família, entrecruzando memórias e pensamentos que ilustram três gerações. Em 2007, a Alfaguara lançou aqui A eternidade e o desejo, onde uma jovem professora portuguesa  decide voltar a Salvador (Bahia) anos após ter ficado cega ao tentar salvar de um tiroteio o homem que amava.  Nesse regresso ao Brasil, seu objetivo é seguir as pegadas de Padre Antônio Vieira, buscando conforto e inspiração em seus sermões, ao mesmo tempo em que relembra o passado e começa, lentamente, a mergulhar no sincretismo religioso baiano. Fazes-me falta, obra anterior a A eternidade e o desejo, chega à mídia através da publicação da Folha de São Paulo, que reeditou obras da literatura ibero-americana.
 Em Fazes-me Falta, a autora compõe uma narrativa com duas vozes distintas - um homem e uma mulher - que se entrecruzam gradualmente sua intensa relação em monólogos, num estado intenso entre paixão e amizade. De forma insólita, esse diálogo resulta num contato partido, pois a mulher, cuja voz inicia esse romance, morreu ainda jovem. É ela, no entanto, quem ampara seu companheiro da perda e da solidão. Entre as lembranças de encontros e desencontros, caberá a ambos dizer o que nunca puderam pronunciar em vida, e curar antigas cicatrizes do passado. O romance sofre do problema da sintaxe portuguesa, com a rigidez da colocação dos pronomes oblíquos, que  chateia um pouco. Os personagens falam como escrevem. Fora isso, é uma historia contada com delicadeza e sensualidade, apesar das perdas. 

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Inês Pedrosa. Fazes-me Falta. SP, Alfaguara Brasil, 2010, 224 pp.,  R$ 38,90

domingo, 27 de janeiro de 2013

Catatau


Levei um tempo para decidir falar do Catatau de Paulo Leminski. É desses livros que quase ninguém leu e talvez não consiga levá-lo adiante, se não tiver fôlego suficiente. Entretanto, vale a pena falar de Catatau pela sua importância como prosa concretista de um poeta igualmente concretista que foi Paulo Leminski. Nascido em 1944, em Curitiba, e morto em 1989, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor. Foi casado com a poeta Alice Ruiz, de quem você deve conhecer o trabalho através das letras de muitas músicas de Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção. Leminski também teve poemas musicados por Caetano Veloso e o grupo baiano A Cor do Som. Possuía profundo conhecimento intelectual, foi considerado pela crítica como poeta de vanguarda, talvez por ter aderido à contracultura, publicando seus versos em revistas alternativas. Também foi incluído na geração de poetas marginais da década de 80, apesar de não ter se aproximado dos poetas dessa leva. Travou amizade com Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. Chegou a fazer parte do Grupo Noigandres, surgido inicialmente na década de 50, em São Paulo, para divulgar a poesia concretista, que supervalorizava o caráter gráfico da palavra, proporcionando novos níveis de leitura..Profundo conhecedor da literatura e cultura japonesa, Leminski notabilizou-se com sua poesia curta, fazendo haicais e brincando sobre frases feitas, no jeito próximo a Oswald de Andrade.

Considerado pelo autor um romance-ideia, Catatau, publicado em 1975, fala da   vinda do filósofo René Descartes (no romance chamado de Cartésio) ao Brasil, junto com Maurício de Nassau, durante as invasões holandesas. Cartesio veio aqui para exercer a lógica: penso, logo existo. Cartesio espera a vinda do polonês Artychewsky, também vindo com os holandeses, para mostrar ao filósofo como funcionam as coisas no Brasil quinhentista. Com um cachimbo de “canabis” em uma das mãos, presente de um escravo, e uma luneta na outra, passa a estudar a paisagem e a filosofar de forma verborrágica. Esse discurso é o que sustenta toda a narrativa, visto que o polonês Artyschewsky só vai aparecer na história na última página do livro, podre de bêbado. O livro apresenta de forma satírica o ponto de vista cartesiano sobre o Brasil e o desenvolvimento. O texto, apesar de cansar um pouco, é muito divertido. É bom que seja lido em pequenas doses. Assim o leitor certamente vai se rolar de rir das tiradas de Cartesio, parodiando discursos e jargões conhecidos de nosso imaginário popular.

O “chapado” Cartesio, faz suas tiradas filosóficas. Conta-nos, por exemplo, de um tratado sobre o juiz perfeito, chegando à conclusão de que o juiz seria tanto mais perfeito quanto mais se assemelhasse ao réu, para conhecê-lo e puni-lo com justiça. Assim, o juiz e o réu seriam a mesma pessoa, que se absolvem e fazem as pazes. E arremata: “Quando se come é que se vê como a natureza foi sábia em colocar o boi no prato e o homem na cadeira”. Noutra, “Do mau pau cai o bom macaco, com caco pra cá, outro naco lá para as putas, que me lambdam, me arrepenteiem, me arrebastam, me depressipintam: falai do mau, parai o pau, a pedra, o pacau. Desse coalho – não sai coelho, aquele cacau no cascalho tira água do joelho”. Em mais uma de inúmeras outras: “Fluxo, lago enxuto”.
Catatau seria obra para leitores verticais? Nem tanto. Basta ter senso de humor.

                                                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br

                                                                                                                                                
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Paulo Leminski. Catatau: um romance-ideia. SP, Iluminuras, 2010, 256 pp.  R$ 44,00

domingo, 20 de janeiro de 2013

Coração das Trevas


O navegador Marlow alimentava o desejo de um dia conhecer um lugar escondido no continente africano. Esse sonho alimentado desde a infância era dominado por um mistério fascinante, às vezes transformado em um lugar escuro, tomado pelas trevas. É que naquele lugar havia um rio, grande e caudaloso, que se podia ver no mapa, lembrando uma imensa serpente desenrolada, com a cabeça no mar, o corpo estendido descrevendo curvas que se prolongavam por uma vasta extensão de terras e a cauda perdida nas profundezas do continente. Um dia apareceu a oportunidade de visitar esse lugar. Uma companhia, dessas que exploravam o marfim no Congo precisavam de um navegador experiente para buscar um de seus funcionários que havia desaparecido, talvez prisioneiro ou doente. Marlow aceitou imediatamente e foi com a tarefa de encontrar e trazer o misterioso senhor Kurtz. A presença ainda desconhecida de Kurtz, assim, passou a ser-lhe uma obsessão.  O que sabia dele, até então, era que tinha o dom da expressão. Era uma voz. Queria encontrá-lo vivo. Quando o encontrou, finalmente,  percebeu que era, realmente, um homem notável.  Nesse primeiro encontro, Kurtz, com o olhar fixo que não conseguia ver a chama da vela, mas abrangia todo o universo, capaz de penetrar nos corações que pulsam nas trevas, resumiu e julgou “O horror”. O romance de Joseph Conrad (1857-1924) aborda, por um lado, a desumanização e a violência do colonialismo europeu no continente africano, notadamente durante o período de comercialização do marfim. Kurtz representaria a racionalização da violência colonial, o perigo do desaparecimento das sociedades não-ocidentais diante da expansão europeia. Por outro, desvela a inquietação existencial e o desregramento do indivíduo, confrontado com a ruptura de laços sociais. Movido pelo comércio e pela ideia de progresso, Kurtz (representante do colonizador) assume o direito de subjugar e matar.

Joseph Conrad, nascido na Polônia, exilou-se com a família na Rússia, onde teve seu primeiro contato com a língua inglesa através do pai, que era tradutor de Shakespeare. Órfão aos 11 anos, retornou à Polônia, para viver com um tio. Quando jovem, ingressou na Escola de Marinha, tomando-se, assim, de amores pelo mar, que lhe havia de marcar toda a vida. Em 1878 passa a residir na Inglaterra, adquirindo mais tarde a cidadania britânica.  Quando se aposentou da marinha, por motivos de doença, dedicou-se a escrever romances, tornando-se um dos mais notáveis escritores da língua inglesa, apesar de sua prosa peculiar. Suas obras-primas são Lorde Jim e Coração das trevas, que inspirou fortemente Francis Ford Coppola no filme Apocalypse Now, retratando a guerra do Vietnã, em que Marlon Brandon interpretou a personagem inspirada em Kurtz.
Conrad, de fato, viveu na África Central por seis meses, capitaneando gaiolas no rio Congo, conhecendo, portanto, muito bem o ambiente que retratou em seu livro. A edição da Companhia das Letras tem tradução de Sergio Flaksman e posfácio de Luiz Felipe Alencastro.

                                                                                                 Paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Joseph Conrad. Coração das trevas. SP, Companhia de Bolso, 2008, 184 pp, R$ 21,00

domingo, 13 de janeiro de 2013

Cemitério de Pianos


A história de Cemitério de Pianos é narrada em três tempos diferentes por três homens da família Lázaro, cujos integrantes nascem, vivem, sonham, amam, casam, trabalham e morrem, enredados pela música tocada infinitamente por um piano desafinado.
Francisco Lázaro, um dos narradores da história, descobre, através de seu tio, o local onde seu pai, também chamado Francisco Lázaro, trabalhava: o cemitério de pianos, onde inúmeros instrumentos dessa natureza eram empilhados, alguns desmontados para uso de peças em outros pianos que eram consertados. Nesse momento de descoberta, o narrador encontra um sentido dentro si: a descoberta do pai. Sua mãe sempre evitava falar dessa parte da casa onde ficava a oficina. Dentro, a escuridão absoluta cobria todas as formas. Aos poucos, a peça começava a ser iluminada e o ar que vinha do cemitério de pianos entrava em seus pulmões e trazia o toque úmido do cheiro de um tempo que todos da família, até então, quiseram esquecer, mas que ainda existia. O tio mostrou-lhe um piano de cauda, de onde seriam retiradas as peças para o conserto do piano de um cliente. Desde então, ele aprende a parte mais importante do que seria necessário para aprender o ofício que fora de seu pai. Só que havia outros segredos do pai que seriam descobertos mais tarde, como a caixa de sapatos pesada, que escondia outra faceta dele que também não lhe havia sido revelada.
Inspirada na história real do maratonista português Francisco Lázaro, morto de insolação, durante a prova dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, os episódios e os personagens estão no âmbito da absoluta ficção, segundo o autor português José Luís Peixoto (1974). Nascido em Lisboa, Peixoto é um dos expoentes da recente prosa portuguesa, ao lado de Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe.

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 José Luís Peixoto. Cemitério de Pianos. Rio, Record, 2008, 304 pp, R$ 42,90 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sob o Sol de Satã


Numa vila da França, a jovem Germana aparece grávida. É filha de um moleiro e fabricante de farinha, que sabe tirar proveito das pequenas coisas e ama os grandes negócios e a vida farta. Com a gravidez, o pai decide acusar um velho e rico marquês que cortejara a filha, já comprometida com outro homem. Acontece que Germana, com 16 anos, sabia amar, alimentava em si, como um belo fruto amadurecido, a curiosidade do prazer e do risco, a confiança ousada das que jogam a sorte na intuição, afrontam os mundos desconhecidos. Cansada de passar a vida monótona, sempre costurando, esperava o momento de surgir e viver. Tinha bastante audácia para imaginar ou desejar, mas também sabia organizar as coisas, a escolha fixada com um bom senso heroico.  Germana sabia que não havia nascido para uma vida pacífica. Entretanto, um destino trágico a espera. Assim é a história de Mouchette, como também a do padre Donissan, com suas crises existenciais e de crença. A personagem Mouchette, famosa na literatura de Bernanos (ela aparece em A Nova História de Mouchette) toma conta da primeira parte da história. O foco se espraia sobre o dilema da fé no padre Donissan, que viu em Mouchette a reencarnação do demônio.
Durante a narrativa, Donissan ressuscita uma criança morta. Deus ou Demônio? Essa é a questão do livro do escritor católico francês Georges Bernanos (1888/1948). Bernanos acreditava piamente na presença do demônio a inquietar o espírito das pessoas. O livro pode parecer chato aos que não acreditam em seres superiores espiritualmente. Tem traços de romance gótico, com exaltação mística e sensacionalismo grosseiro. Teve tradução do renomado poeta alagoano  Jorge de Lima, que fez parte da corrente espiritualista da literatura brasileira do Modernismo. Cecília Meireles, Alceu Amoroso Lima (Tristão Athayde), Gustavo Corção, Murilo Mendes e nosso poeta Armindo Trevisan também trouxeram os dilemas da fé para sua obra. Trata-se de um romance de tese, com longos e cansativos diálogos filosóficos de caráter religioso. Requer paciência na leitura.

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Georges Bernanos. Sob o Sol de Satã. SP, É Realizações, 2010, 320 pp. R$ 53,00