domingo, 18 de dezembro de 2016

5. Os Lusíadas

Os Lusíadas designa os portugueses. Camões propõe-se em seu poema épico, a contar toda a história de Portugal, desde sua formação até a descoberta do caminho marítimo para as Índias, com Vasco da Gama como herói. Celebra-se, assim, a glória da epopeia portuguesa das grandes navegações, o esplendor de Portugal, a fama dos heróis lusitanos com o objetivo de propagar a fé cristã entre os infiéis e de aumentar o Império português.  O poema é composto de dez cantos.. A ação motivadora é a viagem de Vasco da Gama, numa rota marítima como as de Ulisses e Enéias. Na viagem de Vasco da Gama em sua descoberta do caminho marítimo para as Índias, temos uma sequência cronológica dos acontecimentos. Como unidade de ação, valeu-se de algumas táticas greco-romanas que lhe forneceram protótipos de uma intriga entre deuses apaixonados: o embate entre Vênus, protetora dos portugueses e Baco, inimigo deles, posto que Baco temia perder as glórias de ter sido ele o já conquistador do território a ser descoberto pelos lusos. 

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana*,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
*Taprobana = Ceilão/Sri Lanka

No canto I, Camões revela que vai tratar dos feitos gloriosos dos portugueses, pedindo inspiração às musas do Tejo e dedicando o poema a D. Sebastião, rei de Portugal. Há o concílio no  Olimpo para o pronunciamento dos deuses sobre a empreitada, posicionando-se Baco contra os portugueses (quer o deus que caiba a ele a glória de ter descoberto os territórios da Ásia) e Vênus pronuncia-se em favor dos portugueses. Essa briga entre os deuses é que vai alimentar a ação narrativa, com percalços e adversidades para o herói Vasco da Gama. No canto II, o rei de Mombaça (Quênia) convida a frota de Vasco da Gama para entrar no porto. É uma armadilha de Baco. Vênus salva os portugueses, pedindo a Júpiter que convença a população de Melinde (Quênia) a receber bem a esquadra de Vasco da Gama. Lá, Vasco da Gama é convidado a contar a história de Portugal e de seus feitos marítimos.
No canto III, Vasco da Gama conta da Europa e da origem de Portugal e de suas armas, da relação bélica com os mouros, destaca os reinados dos diversos reis de Portugal, incluindo D. Afonso IV e o episódio importante de Inês de Castro:
Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.

Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus formosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra ua fraca dama delicada?

Traziam-a os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava

D. Afonso IV, o Bravo, reinou em Portugal de 1325 a 1357. Foi o grande responsável pela expansão da marinha portuguesa. Seu filho, D. Pedro, toma-se de amores por Inês de Castro, jovem de Castela de origem plebeia. O rei não vê com bons olhos a relação dos dois e afasta o príncipe de Inês, forçando-o a casar com outra. A peixão do príncipe por Inês não morre e os dois continuam se correspondendo. Com a morte da mulher, D. Pedro traz Inês de Castro para a Corte e os dois têm quatro filhos. D. Alfonso decide, então, aproveitando-se da ausência do filho, matar Inês de Castro.

Segunda parte

No canto IV, Vasco da Gama continua narrando a história portuguesa ao rei de Melinde, falando de D. João I, mestre de Avis, a batalha de Aljubarrota, a conquista de Ceuta, o reinado de D. Duarte, as conquistas da África, o sonho de D. Manuel sobre o rio Indo e Ganges, que levaram o rei a escolher Vasco da Gama para a viagem. Vasco da Gama narra ao rei o episódio do velho do Restelo, que crítica a sede de poder dos portugueses:

94
Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
95
- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
96
- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
97
- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?
Camões inclui na narrativa uma voz que se manifesta em desacordo com o empreendimento português. A armada portuguesa num clima de festa está pronta para a partida, quando um velho "de aspecto venerando" ergue a voz mostrando seu descontentamento, atacando ponto por ponto os ideais do sonho português de conquistas. A fama, diz ele, nada mais é que vaidade, a aura popular que os poderosos querem provocar, com os grandes descobrimentos  é uma fraude para iludir o povo. A glória vã dos poderosos só lhes proporcionará danos, ocasionando perda de homens, enfraquecimento da nação, restará ao fim velhos, mulheres e órfãos desamparados.
A exaltação da exaltação dos feitos humanos, característica do Renascimento, é desafiada pelo conservadorismo, pelo castigo da ambição desmesurada de elevar-se a patamares divinos.

No canto V, Vasco narra a partida de Belém, a passagem pelo Equador, a visão deslumbrante no céu do Cruzeiro do Sul e da Ursa Maior, a primeira tempestade marítima, o desembarque em Santa Helena, o episõdio famoso do surgimento do gigante Adamastor perto do Cabo das Tormentas, a chegada a Moçambique, Mombaça e Melinde.

37
 Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando hüa noute, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Hüa nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

38
Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
"Ó Potestade (disse) sublimada:
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?"

39
Não acabava, quando hüa figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

40
Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

41
E disse: "Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho;

42
Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do húmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pola terra
Que inda hás-de sojugar com dura guerra.

43
Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem,
Com ventos e tormentas desmedidas!
E da primeira armada, que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei de improviso tal castigo,
Que seja mor o dano que o perigo!

O que parecia ser o prenúncio de uma tempestade passa a ser o prenúncio para o aparecimento do monstro, que causa medo e terror aos navegantes portugueses. Significa o impasse entre o velho e o novo. Dobrando o Cabo das Tormentas um mundo novo surgirá, mas isso lhes trará dificuldades imensas. Adamastor falando assim a Vasco da Gama, na verdade não está fazendo uma profecia, mas colocando em Vasco e na tripulação, fatos que poderiam acontecer em decorrência de acontecimentos passados. Afinal, Bartolomeu Dias, o descobridor do Cabo das Tormentas, acabou sucumbindo logo após tê-lo descoberto.

A idéia de se construir uma epopeia contando o feito dos heróis portugueses, a partir do descobrimento do caminho marítimo para as Índias já vinha sendo pensada por nobres e reis. E coube a Camões levá-la a cabo a tarefa.
Utilizei-me na elaboração deste texto da edição da Lpm, com os comentários valiosos de Tane Tutikian. Também me serviu de base anotações de classe dos professores Óscar Lopes e José Antônio Saraiva.

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Luís de Camões. Os Lusíadas. Porto Alegre, RS, LP&M, 2009, 336 pp, 

4. Decameron

Giovanni Boccaccio (1313;1375) é um dos grandes expoentes do Renascimento italiano, com Dante e Petrarca.  Decameron, sua obra-prima, tem duas traduções recentes e de bom nível no mercado editorial, diretamente do italiano:a da LPM apresenta o texto integral, com tradução de Ivone C. Benedetti. A Cosac Naify  apresenta dez das cem novelas que Boccaccio escreveu no período em que a Europa havia sido devastada pela peste negra de 1348. A seleção dos textos foi feita pelo professor e tradutor  Maurício Santana Dias, com ilustrações do artista plástico Alex Cerveny. Esta é que será comentada a seguir.

Sete jovens damas se encontram por acaso na igreja de Santa Maria Novella em Florença. Estavam ali em busca de abrigo e proteção divina, até que uma delas propõe às outras uma fuga de Florença para as colinas próximas, ainda preservadas da peste.  Todas concordam com a ideia, e convidam três jovens cavalheiros para acompanhá-las. Os dez, então, acompanhados de sete criados, partem para uma villa senhoril afastada da cidade e ali poderão reconstituir o modo de vida que levavam até o caos instaurado pela doença. 
Em meio ao inferno sombrio de Florença tomada pela peste, abre-se então uma clareira, o paraíso de prazeres idealizado que tornará possível o esquecimento da morte por alguns dias.  As regras do convívio social que haviam sido desorganizadas pela epidemia começam a se reorganizar entre os dez jovens, que de comum acordo estabelecem uma série de rotinas a serem seguidas por todos. Dentre as normas adotadas, a principal  instituía que todos, após a sesta da tarde, se reuniriam próximos a uma fonte, sob a sombra das árvores, para contar histórias até a hora da ceia.

Nas dez novelas do Decameron ficaremos sabendo como um péssimo homem em vida, ao morrer, é tomado por santo; como um homem, fingindo-se de mudo, consegue empregar-se de jardineiro em um convento de freiras e todas querem deitar com ele; como Frei Alberto dá a entender a uma senhora que o anjo Gabriel apaixonou-se por ela e, dessa forma, deita-se várias vezes com a mulher; como um jovem fidalgo ama sem ser amado, gastando toda sua fortuna em cortesias, ficando apenas com um falcão. Recebendo uma visita imprevista da amada e não tendo o que lhe oferecer de almoço, prepara-lhe a ave. Ao saber disso, a mulher toma-o como marido e o torna rico. Há outras histórias mais, todas de leitura divertida e deliciosa.

Maurício Santana Dias nos explica que buscou montar, na seleção das dez novelas do volume, um microcosmo que pudesse em alguma medida oferecer ao leitor uma visão macroscópica do Decameron. Equilibrou temas e registros que vã dos mais popularesco ao mais aristocrático, evitando cair no vício de muitas antologias que insistem em compilar as novelas mais erótica ou escabrosas de Boccaccio, que acabam alimentando uma percepção redutora do universo boccacciano.

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3. A Divina Comédia

O linguista alemão Harald Weinrich nos fala em seu livro Lete, arte e crítica do esquecimento (tradução de Lya Luft pela Civilização Brasileira) que "A morte é o mais poderoso agente do esquecimento. Mas não é onipotente. Pois os homens desde sempre ergueram trincheiras de recordação contra o esquecimento na morte, de modo que rastros que fazem concluir a existência de uma memória dos mortos são considerados por arqueólogos e estudiosos da história os mais seguros sinais de que existiu uma civilização humana. Os rituais de culto aos mortos, com seus pedidos, sacrifícios e ofertas nos túmulos, em muitos casos servem em primeiro lugar para assegurar aos mortos um certo bem-estar no Além. Mas os monumentos fúnebres fitam os vivos exortando-os a não esquecerem os seus mortos, e mesmo assim, às vezes a esquecê-los um pouco, porque "a vida continua".

Portanto, o tempo se liga antes com o esquecer do que com o lembrar. Mas quando os poetas abordam a memória dos mortos o esquecimento não pode mais realizar seu jogo costumeiro com a memória humana. Ter mostrado isso em perfeição clássica é privilégio de um dos maiores poetas da literatura mundial, Dante, que ergueu em torno da memória dos mortos - sempre ameaçada pelo esquecimento - a duradoura catedral da sua Divina Comédia. Dante Alighieri (1265-1321) escreveu essa obra em cem cantos de 14.233 versos no começo do século XIV, quando ele próprio fora banido da cidade natal e estava ameaçado de esquecimento no exílio.

A Divina comédia é o relato da salvação da alma de seu autor, Dante. Ele descreve uma jornada épica através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso que culmina numa série de visões que lhe revelam o sentido final da criação de Deus. O poeta romano Virgílio, autor da Eneida, é o guia de Dante pelos nove círculos do Inferno e pelos sete terraços do Purgatório, mas, quando os dois chegam ao Jardim do Éden, situado no topo da montanha do Purgatório, Virgílio vai embora e Dante se reencontra com Beatriz, a mulher morta que ele ainda adora, e é ela que o conduz através dos nove céus do Paraíso até o plano da Presença Absoluta de Deus, para além do espaço e do tempo. Lá, por fim, é concebida a Dante uma visão da Rosa do Justo, formada pelas almas daqueles que conquistaram a salvação.  De repente, Dante nota que Beatriz não está mais com ele; ele grita de consternação, mas então a vê no lugar designado para ela, em um dos círculos da rosa mística. Beatriz sorri para ele uma última vez, antes de virar-se para  contemplar em êxtase a fonte do amor eterno de Deus.

Beatriz é a personagem que desempenha um papel providencial no início e no desenrolar do poema de Dante. Graças à intersecção dela, Deus permite que Dante empreenda a jornada e é ela também que propicia a inspiração para a composição do poema que revelará o destino pessoal de Dante e oferecerá um sentido final para a existência do homem na terra. Quem era, então, Beatriz? Trata-sede Bice Portinari, que diz ter visto pela primeira vez quando tinha nove anos de idade e tê-la revisto só nove anos depois, quando se negou a reconhecê-lo. Essa rejeição fez com que Dante sublimasse seu amor por Beatriz,um processo que continuou mesmo depois que ela se casou com outro homem. Após sua morte, o amor de Dante tornou-se totalmente espiritual. (1)

A melhor tradução de A Divina Comédia, segundo os críticos, parece ser a de João Trentino Ziller, pela editora Unicamp/Ateliê, com desenhos de Botticelli.  Mas, a obra encontra-se esgotada. A tradução que eu li é de Ítalo Eugenio Mauro, em edição bilíngue,  em 3 volumes, da Editora 34.
Depois de conhecer universo de Dante, recomento a leitura de Nove cartas  sobre A Divina Comédia, de Marco Lucchesi, estudioso da obra do poeta italiano, pela Editora Casa da Palavra. Escrito em formato de cartas,  é um convite para uma viagem reveladora pelo universo poderoso da poesia e também da filosofia, história e religião,  a partir dA Divina Comédia.
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(1) Edwin Williamson in Borges, uma vida. Companhia das Letras. Trad. Pedro Maia Soares

2. Odisseia revisitada

A Ilíada é o poema da guerra. A Odisseia é o poema da aventura, há poucas cenas de combate, com muitos personagens fabulosos, um ambiente doméstico bem definido e, principalmente, o embate de Ulisses com os pretendentes a sua esposa, Penélope, supostamente viúva. Ulisses, portanto, é um herói bom, que luta para preservar sua família. O termo grego do epíteto latino Ulisses é Odisseu.

Acabou a guerra de Troia, passaram-se vários anos. Em Ítaca, todos pensam que Ulisses não voltará mais, devido à longa ausência. Sua casa é invadida por pretendentes, causando transtornos a Penélope, que acredita na volta do marido e o espera de forma casta. O filho adolescente, Telêmaco, decide partir para tentar encontrar o paradeiro do pai.

Enquanto isso, Ulisses encontra-se preso na ilha de Calipso,  quando foge para voltar para casa. Como a narrativa não é linear, o poema volta a acontecimentos envolvendo o herói, antes que ele chegue à ilha de Calipso. 

Quando sai de lá, chega à terra dos feácios, onde acaba contando suas aventuras. É a parte mais interessante da Odisseia, com acontecimentos fantásticos, como a luta com o Ciclope, as sereias e os monstros marinhos. Os feácios acabam facilitando a volta de Ulisses a Ítaca.

Chegando a sua terra, ele aparece disfarçado de mendigo. O herói faz uso do artifício, para buscar saber quem está do lado dele e para matar quem merece morrer. No final, revela-se à esposa e a paz se restabelece em seu lar.
Ulisses é a figura moderada que sabe raciocinar a melhor maneira de agir, é extremamente astucioso.

Há um texto postado aqui, centrado no enredo da narrativa. Use o mecanismo de busca do blog.
       
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Homero. Odisseia. SP, Penguin Companhia, 2011, 584 pp. tradução de Frederico Lourenço

1. Ilíada revisitada

Saber se Homero existiu de fato, e se foi ele que criou IlíadaOdisseia, é um assunto bastante controverso. Homero, se existido, seria um rapsodo, um recitador de poesias épicas  para um público ouvir em diversos lugares por onde passasse. Na tradição grega, imagina-se Homero como um poeta cego.  De qualquer forma, é importante que se diga que Homero não escreveu nem uma obra nem outra. O que os estudos nos mostram, é que as obras escritas apresentam fortes indícios de que os dois  poemas são frutos da tradição oral.Estudos concretos sobre sua existência, não existem. Mostram, por sua vez, que a existência dessa longa tradição oral torna pouco relevante a presença de um grande gênio autoral que cria, a partir de sua própria mente, os grandes poemas. Isso quer dizer que a tradição é muito mais importante do que a criação de um determinado poeta, se é que isso aconteceu. Homero poderia ser a representação de um coletivo de recitadores que transmitiam a poesia cantada pelos diversos pontos da Grécia, durante muito tempo, até ser organizada sobre forma escrita.

Ilíada de Homero, portanto, é um grande poema. Tem uma capacidade narrativa impressionante. As imagens utilizadas para contar os versos, a maneira como são construídos, transmite uma sonoridade impressionante.
O poema, em 24 cantos, narra o que está acontecendo no final da Guerra de Troia, que durou dez anos, por causa do rapto de Helena. Páris, jovem troiano, teve de fazer uma escolha de qual a mais bela entre três divindades, Hera, Atena e Afrodite. Escolheu Afrodite, a deusa do desejo sexual. Páris, então, apaixona-se pela mulher de Menelau e a rapta para Troia.
Homero narra menos de dois meses antes do final da guerra. O motivo do poema é uma briga entre Aquiles e Agamenon, por causa de uma escrava, é o impasse que movimenta a narrativa épica.  Aquiles se recusa a continuar guerreando. Os gregos começam, então, a sofrer baixas. Agamenon tenta se reconciliar com Aquiles sem sucesso. No final, Pátroclo, o melhor amigo de Aquiles, vai lutar disfarçado em herói. Heitor, o troiano, mata Pátroclo. 
Aquiles,  enfurecido com a perda do amigo, entra na guerra e mata Heitor.

A história da Ilíada, resumidamente, é a história da ira de Aquiles. Quando mata Heitor, o herói não se satisfaz com isso, quer aniquilar o cadáver. Em vez de entregar o corpo aos troianos para as honras fúnebres, Aquiles diariamente amarra o cadáver  em sua carroça e faz voltas em torno do túmulo de Pátroclo, tamanho seu ódio. No final, ele cede e entrega o corpo ao pai de Heitor, Príamo, para que seja enterrado.

Ilíada já nos mostra a importância do caráter trágico, da responsabilidade pelas próprias ações, na figura de Aquiles. Ele é cercado de dúvidas: será que o homem já está predestinado?  Agiu corretamente? É culpado pela morte do amigo? Causou a morte do amigo? São questões existenciais importantes na história da humanidade de ontem e de hoje.

A melhor tradução da Ilíada é  do helenista português  Frederico Lourenço, que traduziu o poema em verso livre, o que dá fluência ao texto, facilitando bastante sua compreensão.

Ilíada já foi comentado aqui, centrado no enredo dos versos. Use o mecanismo de busca do blog.
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Homero. Ilíada. SP. Penguin Compania, 2013, 720 pp.

50 livros imprescindíveis para compreender a literatura universal

Um livro de ficção bom  é aquele que nos consegue contar uma história original, de forma envolvente. O autor não precisa, obrigatoriamente, fazer grandes experimentos formais para que a matéria do romance nos conquiste a leitura de forma ávida. Mas, o conteúdo de uma história não sobrevive sem as operações formais que lhe deem corpo, caracterizando um estilo. Determinado tempo considerado em relação aos acontecimentos nele ocorridos, suas características distintivas, e os homens que nele viveram se refletem num estilo de viver e de expressar-se. Esses períodos de tempo esquematizam, assim, estilos de época que se refletem, na criação literária, em estilos literários. O estilo clássico predominou sob o domínio dos gregos e foi retomado durante o Renascimento e o Parnasianismo. O período das trevas da Idade Média ressurgiu no Barroco, sob o autoritarismo da Igreja Católica, no mundo latino. A ascensão da burguesia dos séculos XVIII e XIX gerou, como forma de expressão artística, o Romantismo, com o predomínio do subjetivismo. Até que a era da industrialização trouxe à classe burguesa excluída da aristocracia, a intensificação da força produtiva excluída da burguesia quanto a fatores econômicos. Com o advento da Primeira Guerra Mundial, o mundo experimentou algo novo que revolucionou a literatura de então, até o presente: o Modernismo. O romance, a partir de então, nunca mais foi o mesmo. O conservadorismo da forma narrativa sofreu um nó que resultou em novos experimentos literários, como o fluxo de consciência, o foco na forma em detrimento do conteúdo, e por aí vai. Durante esse longo período de evolução da forma narrativa, houve obras imprescindíveis que fugiram ao cânone, tornando-se únicas, universais.

As 50 narrativas fundamentais que serão comentadas aqui a partir da próxima semana, são obras que influenciaram sobremaneira tudo o que se criou em forma de ficção a partir delas. O critério de escolha seguiu uma lista que o professor Flávio Loureiro Chaves , de quem tive o prazer de ser aluno, divulgou em uma de suas aulas de Literatura da UFRGS, lá pelo ano de 1976. A lista de agora  foi um exercício de memória, pois a lista me foi perdida. Creio que recuperei todos, ou quase todos. Talvez um ou dois títulos tenham sido trocados. Não tenho certeza absoluta se O jogo da amarelinha estivesse na lista do professor Flávio. Os livros de Borges, pode ser que não tenham sido dois. Mas tenho forte convicção de que O Aleph estava lá. Ficções é certo. Na lista do professor tinha Dom Casmurro. Optei por substituí-lo por Quincas Borba, por questão pessoal.

1.      A Ilíada
2.      A Odisseia
3.      A Divina Comédia
4.      Decameron
5.      Os Lusíadas
6.      Don Quixote
7.      Tristan Shandy
8.      Viagens de Gulliver
9.      Robinson Crusoé
10.     Tom Jones
11.     As relações perigosas
12.     Fausto
13.     O vermelho e o negro
14.     Moby Dick
15.     Madame Bovary
16.     Crime e castigo
17.     Os irmãos Karamázov
18.     Eugênia Grandet
19.     Pai Goriot
20.     Quincas Borba
21.     Anna Kariênina
22.     Guerra e paz
23.     Contos de Gógol
24.     Contos de Tchékov
25.     Lorde Jim
26.     O retrato de Dorian Gray
27.     Em busca do tempo perdido
28.     Metamorfose
29.     O processo
30.     Ulisses
31.     Orlando
32.     Mrs. Dalloway
33.     A montanha mágica
34.     Macunaíma
35.     O som e a fúria
36.     O homem sem qualidades
37.     São Bernardo
38.     O grande Gatsby
39.     A náusea
40.     Ficções
41.     O Aleph
42.     A peste
43.     O tempo e o vento
44.     Pedro Páramo
45.     Grande sertão, veredas
46.     O quarteto de Alexandria
47.     O leopardo
48.     A paixão segundo GH
49.     O jogo da amarelinha

50.     Cem anos de solidão

A neve estava suja

O personagem central de A neve estava suja é uma incógnita, quanto mais queremos saber sobre ele (e esse é o trunfo da história) mais ele se torna escorregadio. Frank Friedmaier vive na pensão de Lotte, sua mãe. O lugar é um prostíbulo que atende, em sua maioria, soldados do exército alemão que invadiu Paris. Frank não tem  perspectivas, levando uma vida ociosa, transando com as garotas da pensão ou frequentando um bar em frente, onde tem um amigo, Fred Kromer, criminoso de carteirinha. Tem uma jovem, ainda virgem que o ama, mas que ele prepara para entregar a Kromer, para ser deflorada. Quando começa a história, ficamos sabendo que Frank já matou um homem, oficial do exército, e ficou com seu revólver. Frank mata sem um objetivo específico, só para saber como se sente depois. kromer põe o jovem em contato com o contrabando de relógios. Frank é preso pelos nazistas portando grande quantidade dinheiro e passa a ser interrogado. O que chama atenção é que Frank não expressa o menor desejo de salvar sua vida. Enfrenta os interrogatórios com coragem. Para de se alimentar e entra numa letargia que lhe parece ser fatal. Sua mãe o visita na prisão para lhe dizer que  fechará a pensão e o abandonará.


Georges Simenon ficou famoso com as histórias do detetive Maigret, mas escreveu outros romances de cunho psicológico mais elaborados, como A neve estava suja, considerado sua obra prima, escrito em 1948, quando a segunda guerra recém acabara.

Tradução de Eduardo Brandão

                      paulinhopoa2003@hotmail.com
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Georges Simenon. A neve estava suja. SP, Cia. das Letras, 2014, 230 pp. Preço de 27 a 34 reais o exemplar novo.

A consciência de Zeno

Uma confissão escrita é sempre mentirosa. Mentimos em cada palavra toscana que dizemos! Podemos falar com naturalidade das coisas para as quais temos frases prontas, mas evitamos tudo quanto nos obrigue a recorrer ao dicionário! Dessa mesma forma, escolhemos de nossa vida os episódios mais notáveis. Compreende-se que ela teria uma feição realmente diversa se fosse narrada em dialeto.
O tema de A consciência de Zeno é a psicanálise, subvertida no romance de forma irônica.  A psicanálise também influencia a estrutura narrativa, pois não é uma obra escrita em ordem sequencial, mas a partir do fluxo da memória em função do tratamento a que Zeno se submete. Quando decide escrever sua autobiografia, incentivado por seu psicanalista, já está velho, os efeitos da Primeira Guerra já se fazem sentir no Trieste, região onde mora.

O motivo condutor da história é o fumo. O fumo é o grande problema de Zeno.Está sempre fumando o último cigarro, mas nunca pára. Chega a anotar datas de que fumou o último. O problema de Zeno é que o último cigarro que fuma é sempre o mais prazeroso.
Zeno procurou o psicanalista porque queria curar-se de uma doença e precisa, assim, descobrir as causas. Achava que a  doença é uma convicção e ele nasceu com essa convicção. Não se lembraria da que contraiu aos vinte anos se não a tivesse naquela época relatado a um médico. Curioso é como recorda melhor as palavras ditas que os sentimentos que não chegaram a repercutir no ar. O doente imaginário é um doente real, mais intimamente que os demais. Isso porque seus nervos são propensos a acusar uma doença quado esta não existia, ao passo que sua função normal seria a de dar um alarme por meio da dor para provocar a busca de alívio. Só os doentes sabem algo sobre si mesmos.

Assim vamos conhecendo Zeno. Era um zero à esquerda. Um inepto. Nunca precisou dar duro no trabalho, pois tinha dinheiro (um tutor cuidava de suas finanças). Vacilou entre estudar Química ou Direito. Decidiu-se ao Direito, achando que teria sido melhor fazer Química. Nunca toma decisões, e quando toma, vai procrastinando até que alguém tome por ele. Zeno se apega a um comerciante (que fica sendo meio um pai adotivo) e apaixona-se por Ada, a mais bonita das três filhas em idade de casar. Na noite em que se apresenta para pedir a mão de Ada, acaba pedindo a três em casamento e sobra-lhe a mais feia, a quem não ama. Casa-se, e aparece a amante. Um dia, a amante quer conhecer a mulher de Zeno. Como tem vergonha de apresentar-lhe a esposa, apresenta-lhe Ada. No final, acaba afastando a amante, apresentando a ela o homem que acabaria sendo seu marido.
Zeno passa o tempo todo querendo achar a cura. No final fica isolado no Trieste e acaba se dando bem, através da especulação financeira.  No final, dá-se conta de que não é só ele que está doente, a sociedade é que está doente.

Tem muito mais coisa interessante na autobiografia de Zeno.Quem apresenta a história é o psicanalista dele. Como Zeno havia interrompido o tratamento, publicou a autobiografia à revelia do paciente. Nota-se de cara tratar-se de um médico que não merece credibilidade, visto que propõe dividir os direitos autorias da autobiografia, se ele voltar ao tratamento que havia interrompido. A tática usada para o tratamento era incutir em Zeno que ele tinha complexo de Édipo, fato que Zeno nunca assimilou. Buscava incessantemente a razão para isso e chegou à conclusão de que só podia ser o tapa que dera no pai, de forma um tanto ocasional, pouco antes do pai morrer.

Italo Svevo (1861/1928) era o pseudônimo de Aron Hector Schmitz, depois italianizado para Ettore Schmit.Nasceu em Trieste, quando pertencia ao Império Austro-Húngaro. O pai era de origem austríaca e a mãe italiana. Fez os estudos iniciais na Áustria. Em casa falava o dialeto triestino. A escolha do pseudônimo resume as duas culturas a que se viu envolvido. É o primeiro autor italiano a usar a teoria de Freud na literatura. Transfigura comicamente a psicanálise e a utiliza no livro. Mas não a subverte por desconhecimento Era estudioso do psicanalista austríaco.

Quem incentivou Svevo a publicar A consciência de Zeno foi o escritor irlandês James Joyce, de quem era amigo. Joyce morou um tempo em Trieste e foi professor de inglês de Svevo.
Excelente livro.

Tradução de Ivo Barroso.
                       paulinhopoa2003@hotmail.com

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Italo Svevo. A consciência de Zeno. Rio, Nova Fronteira, 2015, 400 pp. R$ 35,90

28. A Metamorfose

Gregor Samsa era caixeiro viajante. Escolhera uma profissão cansativa, devido às viagens frequentes que fazia, com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio social sem calor humano. Acordar sempre cedo, sem ter o justo sono. O chefe sempre tratando-o de cima para baixo, que além do mais tinha de se aproximar para responder-lhe, pois seu chefe era surdo. Mas Gregor Samsa tinha a esperança de juntar o dinheiro para pagar a dívida de seus pais e fazer a ruptura com aquele tipo de trabalho que o aborrecia em demasia. A preocupação dele era fazer tudo para a família esquecer o mais rapidamente possível a desgraça comercial que havia levado todos a um estado de completa desesperança. Assim, começara a trabalhar com um fogo muito especial e, quase da noite para o dia, passara de pequeno caixeiro a caixeiro viajante, que naturalmente tinha possibilidades bem diversas de ganhar dinheiro. Passou a ganhar tanto dinheiro que passou a assumir as despesas dos pais e da irmã.

A narrativa inicia-se com a transformação:“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.”

A partir desse acontecimento insólito, a vida de Gregor sofre uma reviravolta. A metamorfose sofrida altera sua relação com o chefe e com cada membro da família.

A metamorfose, escrita em 1912,  é a mais  célebre novela de Kafka (1883/1924), escritor tcheco que escrevia em alemão. Já foi dito antes que a metamorfose de Gegor Samsa é um evento inverossímil. Para o leitor, pode ser que sim.  No entanto, para a família, o evento não é inverossímil, não é um elemento que provoque pavor, a não ser a surpresa inicial ao vê-lo pela primeira vez. É uma presença que perturba, uma presença incômoda, mas é algo assim como se de repente alguém encontrasse um animal feroz em sua residência. Não vai além disso. Não ameaça a ordenação do mundo no qual surge. 

Tradução direta do alemão de Modesto Carone, especialista em Kafka.
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Franz Kafka. A metamorfose. SP, Cia. das Letras, 1997. 102 pp. 

29. O processo

O processo, de Kafka, que começou a ser escrito em 1914, é um dos melhores romances do século XX.

Josef K.,  procurador de um grande banco, ao acordar certa manhã, estranhou a demora da dona da pensão que servia seu café todos os dias. De repente, batem à porta,  entra um homem que ele nunca havia visto antes, acompanhado de mais duas figuras esquisitas. Josef K. estava sendo detido sem ter feito mal nenhum, certamente vítima de uma calúnia. De início, pensou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto arquitetada por motivos desconhecidos, talvez porque ele completasse 30 anos de idade; ou talvez os guardas que invadiram sua casa fossem serviçais da esquina, daí talvez estivesse correndo algum perigo.

Busca argumentar com os guardas o erro que estavam cometendo, mas o inspetor lhe adverte que ele e os guardas, na verdade, não sabiam nada dele. Por isso não saberiam dizer absolutamente nada a respeito do processo, pois desconheciam seu conteúdo. Josef K.  questiona como poderá trabalhar se está detido e fica surpreso ao ver que, na sala encontravam-se mais três pessoas, colegas de trabalho que ele mal reconhecia, que o acompanhariam ao trabalho para que continuasse a ter sua vida normal, até ser chamado para a primeira audiência.

Ao comparecer à primeira audiência, Josef K. se dá conta, diante dos absurdos que lhe são ditos e da manifestação dos presentes que formam duas torcidas, uma a favor dele e outra contra, que tudo aquilo fazia parte de uma organização que mobilizava não só guardar corruptíveis, instrutores e juízes simplórios, mas sustentava uma magistratura de grau elevado e superior, com seu séquito inumerável e inevitável de contínuos, escriturários, militares e outros auxiliares, talvez até de carrascos que consistia em prender pessoas inocentes, movendo contra elas processos absurdos sem nenhum fundamento. Josef K. se insurge contra o juiz e se nega a participar daquela farsa, abandonando a sala.

A partir daí,  com cada um que conversa, obtém alguma informação difusa do processo e de pessoas que sabem alguma coisa dele, ou dos responsáveis pela ação. Como não é chamado para uma segunda audiência, decide ir novamente ao local no domingo seguinte, e percebe que ali reside um casal de funcionários que, toda vez que há alguma intimação, têm de retirar suas coisas do local.
Depois, recebe em casa a visita dos dois guardas que o haviam admoestado na visita da intimação, para serem açoitados por um espancador, na frente de Josef K., como castigo por terem se portado de maneira inaceitável naquela ocasião. Depois aparece um tio do interior que também soube do processo e veio visitá-lo, com preocupações. E assim quase todos sabem alguma coisa do incidente. Decide consultar um advogado, que lhe diz coisas absurdas e sem sentido, quanto a sua defesa.

Josef K. não conseguia mais deixar de pensar no processo. Já tinha refletido com frequência se não seria bom redigir um documento de defesa e apresentá-lo ao tribunal. Queria expor nele um breve relato de vida e, a propósito de cada acontecimento relevante, explicar os motivos pelos quais tinha agido daquela maneira, se esse comportamento devia ser censurado ou aprovado segundo o seu juízo atual, e que razões podia invocar em relação a este ou aquele. As vantagens dessa defesa por escrito, diante da mera defesa através do advogado, de resto não de todo irrepreensível, eram indubitáveis.

E assim ele vai se enredando em uma situação absurda que prende a atenção do leitor até o final, no intuito de buscar compreender de que é acusado, quem o acusa, numa obra magnífica, segura de mistério, angústia, premonições e suspense.
O processo apresenta uma contradição fundamental que sustenta a obra, o paradoxo de que, quanto mais fantástica a aventura vivida, mais natural se apresenta a narrativa, porque por mais estranhos que sejam os fatos que envolvem as personagens, elas os aceitam com naturalidade e sem espanto. Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender. É nessa contradição que reside o segredo de Kafka; nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.

Tradução de Modesto Carone.
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Franz Kafka. O processo. SP, Cia. das Letras, 1997, 334 pp. R$ 19,10

30. Ulysses

Ulysses é um romance com personagens simbólicos, realizando ações simbólicas realizadas, entretanto, num mundo real, Dublin do dia 16 de junho de 1904. Trabalhando intensamente o monólogo interior, o irlandês judeu Leopold Bloom vive uma odisseia moderna no decorrer desse único dia. Além dele, aparecem com destaque sua esposa, Molly Bloom e seu amigo Stephen Dedalus. Este representa a identidade oculta de Joyce, não só neste romance, mas em  Retrato de um artista quando jovem, em que narra a infância e juventude de Stephen Dedalus até sua ida à escola, como interno.

O romance de 1112 páginas retrata uma viagem ao mundo interior caótico de Leopold Bloom, parodiando a Odisseia de Homero: Ulisses (Leopold), Telêmaco (Dedalus) e Penélope (Mary Bloom). Há outros personagens do romance de Joyce que fazem referências às personagens da obra de Homero.  Joyce faz uso da paródia, como uma técnica narrativa para desfigurar as obras-primas do passado, fazendo um ataque à própria literatura. Ulysses tem um tom jocoso, satírico.

Leopold Bloom, um homem comum, judeu mas batizado como católico, é casado há 16 anos com Molly, cantora de talento, linda e cobiçada. Os dois tiveram um filho morto  depois de 11 dias de nascido. Esse acontecimento afeta a vida dos dois para sempre.  Eles têm, ainda, uma filha de 15 anos que vive fora de casa, devido a atritos com a mãe.

No dia 16 de junho de 1904, Bloom sai cedo de casa para acompanhar o enterro de um conhecido. Ao voltar do enterro, vai ao centro da cidade até o jornal para os quais presta serviço  publicitário. Feito isso, poderia voltar para casa, mas ele não quer que isso aconteça, por enquanto. Daí começa, então, sua odisseia que dura 18 horas, em busca de pretextos para estar na rua até que tenha certeza de que, ao chegar em casa, sua mulher esteja dormindo. É que eles estão em crise e Bloom sabe que, durante a tarde, ela irá receber um amigo, Boylan, que ele pensar ser amante dela. A história ganha fôlego ao retratar, também, a vida de Stephen Dedalus  e de Molly, que apresenta no final do romance um longo monólogo interior. Além dessas três vozes, há inúmeras outras vozes que se fazem ouvir, tornando a narrativa interessante, mas ao mesmo tempo complexa.

O objetivo de Joyce, em Ulysses, talvez tenha sido o dar uma forma e um significado ao imenso panorama de futilidade e anarquia que é a vida contemporânea.  É uma ficção construída em cima de estruturas de um mito. Leopoldo Bloom é um cara que sabe sentir, mas que muitas vezes não tem capacidade de se expressar. Quando consegue a capacidade expressiva, desaprende a do sentir. Bloom sofre de uma solitária falta de articulação, numa verborragia aparentemente sem sentido algum. As poucas ideias ou sentimentos únicos e de sentidos múltiplos são facilmente deformados em clichês convencionais. Quando Bloom observa, por exemplo uma lingerie numa vitrine, ele diz: "Perfume de abraços o todo assaltou. Com carne faminta e obscuramente, por adorar ardia mudo."

Joyce apresenta Bloom como o homem andrógino do futuro. Mas não antes de definir as necessidades do homem moderno na figura de Stephen Dedalus, um jovem em fuga do machismo presunçoso do mundo da Dublin de seu pai. A personalidade de Bloom reflete um espelho partido de muitas faces. E esse eu que Joyce celebrou em Leopld, um sujeito culto e versátil, que combina inúmeras vidas passadas em sua própria vida.

Ulysses apresenta uma mudança de técnica narrativa a cada um dos episódios, aparentemente autônomos. A obra contém um quadro que discrimina, para cada episódio, uma cor, uma técnica narrativa, um símbolo, etc, além de atribuir horários e sentido a cada trecho do livro. Joyce teria elaborado esse quadro para facilitar o acesso dos amigos ao livro e a seus detalhes.

Há três traduções da obra em português no mercado: o linguista Antônio Houaiss apresentou a primeira tradução brasileira em 1966. Foi esta edição que tentei ler, mas parei na metade por não estar preparado ainda para as inovações formais de Joyce. Em 2007 saiu a tradução da professora Bernardina Pinheiro, pela editora Objetiva, à qual ainda não tive contato.  Em 2012 saiu a de Caetano Galindo, pela Penguin/Cia. das Letras, considerada a melhor.  É esta que eu li toda e recomendo aos leitores. Aos que se interessam por literatura de qualidade, recomendo o livro do próprio tradutor, Galindo, Uma visita guiada ao Ulysses de James joyce, que busca auxiliar na aproximação do leitor com a obra.

Tradução de Caetano Galindo
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James Joyce. Ulysses. SP Penguin/Companhia, 2012, 1112 pp. 

domingo, 5 de abril de 2015

O filho de mil homens

Crisóstomos é um homem solitário de 42 anos, só com metade de tudo. Falhara nos amores, muito complicados. Pensava que havia gente a exercer o amor como um crime. Mas as coisas não precisam ser assim. A solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.

Sonha em ter um filho, constituir uma família baseada em laços de amor e amizade mais do que em laços consanguíneos. Conhece um adolescente órfão, Camilo, filho de uma anã que morreu afirmando que Camilo era filho de quinze homens da aldeia onde morava. Os dois vão morar juntos. Camilo pede a Crisóstomos que procure uma mulher para casar, pois quer ter uma mãe.

Crisóstomos encontra Isaura, uma mulher desiludida,um traste que a família procurou casar a qualquer custo e acabou casando-a com Antonino, homossexual delicado que a procura para buscar esconder-se das torturas que as pessoas da vila, especialmente os homens, exerciam sobre ele.

As coisas não dão certo. Antonino foge no dia do casamento. Isaura fica desconsolada. Consegue anular o casamento. Mas perde o gosto pela vida. Uma vez, quando vai junto ao porto para chorar seu infortúnio, encontra Crisóstomos. Os laços vão se firmando, forma-se um núcleo familiar que se une inicialmente pelo sofrimento e solidão, mas que se vai constituindo em amor e respeito ao próximo. Antonino é trazido para junto dessa família especial e começa a ter sua identidade respeitada, acabando por encontrar um amigo igual a ele em seu desejo.Afinal, segundo Valter Hugo Mãe, Somos o resultado de muita gente.

Mais um belo romance recheado de delicadezas no trato com o sentimento humano e a dignidade de viver.
                       
                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. SP, Cosac Naify, 2012, 256 pp. R$ 39,00