domingo, 5 de fevereiro de 2017

38. O grande Gatsby

Quanto vale um homem sem o seu dinheiro? Para a sociedade norte-americana da década de 1920, nada. Gatsby, sujeito obscuro, que não se deixa inteiramente conhecer, já que é visto sob o ângulo de Nick, seu vizinho com quem manteve curta amizade, como um espectador sóbrio e isolado das próprias festas. Gatsby era de origem humilde e se apaixonara por uma moça rica de Nova Iorque. Ela casa com outro, Gatsby fica rico e decide investir novamente nessa mulher. Acaba morto de forma equivocada, tentando protegê-la. É quando Nick, o vizinho que nos conta sua história, percebe que o mundo de pessoas que frequentava suas festas suntuosas, não estavam interessados em nada mais que a futilidade proporcionada pelo dinheiro.

Nas noites de verão, a música irradiava da casa de seu vizinho Gatsby. Em seus jardins suntuosos, homens e mulheres iam e vinham feito mariposas entre sussurros , champanhe e estrelas. Nas tardes de maré alta, ele observava os convivas mergulhando no alto de sua balsa, ou tomando sol nas areias quentes de sua praia particular, enquanto barcos a motor cortavam as águas, puxando esquiadores aquáticos por entre cataratas de espuma. Nos fins de semana, seu rolls-royce virava um lotação, transportando convidados das nove da manhã até depois da meia-noite, enquanto sua caminhonete zunia feito um inseto amarelo e ligeiro no encalço de trens. E às segundas-feiras, oito empregados, incluindo um jardineiro extra, trabalhavam o dia todo com esfregões, escovas, martelos e tesouras de jardinagem, reparando os destroços da noite anterior.

Nick é um espectador em busca de um astro. Vê Gatsby como modelo bem sucedido. Os dois formam uma amizade que contempla diálogos em que Gatsby mostra sua insegurança legada de sua origem nebulosa.

Tradução de Vanessa Barbara.
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F. Scott Fitzgerald. O grande Gatsby. SP, Pinguin Companhia, 2011, 256 pp

domingo, 29 de janeiro de 2017

37. São Bernardo

Graciliano Ramos viveu entre 1892 e 1953. Durante esse período conviveu com duas guerras mundiais, duas revoluções socialistas, o nazismo de um lado e o stalinismo de outro. No Brasil, 1937, instaura-se em 1937o Estado Novo de Getúlio Vargas e um regime ditatorial que predomina até 1945.  Um ano antes do Estado Novo, Graciliano foi preso e conduzido à prisão de Ilha Grande, no Rio, durante um ano. Até sua morte, em 1953, nunca soube oficialmente por que havia sido detido. Era filiado ao Partido Comunista desde 1945.

Graciliano Ramos se distancia dos demais contadores de histórias da época, como Jorge Amado e Érico Veríssimo, por apresentar uma escritura sofrida, trabalhada à exaustão, onde cada palavra tem um peso, numa prosa extremamente elaborada. Sua obra principal  é condensada em um curto período: Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas Secas (1937). Os três últimos romances constituem suas obras-primas.

São Bernardo é contado em primeira pessoa, o narrador-personagem está situado no presente de sua solidão, rememorando os fatos do passado, entregando-se ao doloroso exercício de enfrentar a verdade sobre si mesmo Quando decide contar sua história, Paulo Honório já se encontra viúvo e sozinho. Está com cinquenta anos. A certidão de nascimento não confirma pai nem mãe. Fora criado pela velha Margarida, que vendia doces. Cedo, rolou pelo mundo, trabalhando como lavrador. Aos 18 anos esfaqueou um homem e foi preso. Quando saiu da prisão, decidiu que queria ganhar dinheiro.

De posse de um capital inicial, empenha-se na compra da fazenda São Bernardo. Aproveita-se da fraqueza do filho de seu antigo patrão e, de forma esperta, faz uso de todas as atitudes escusas possíveis. De posse da fazenda, passa a invadir partes de terras alheias para ampliar sua propriedade. Consolidada a posse, era preciso casar-se para ter um herdeiro. 

Numa das visitas que faz à cidade, conhece Madalena, jovem de 27 anos. Não era bem a mulher que procurava, mas decide investir em Madalena. A moça era professora primária e só tinha como família a tia Glória, que a criara desde pequena. Levada a pensar na proposta de Paulo Honório, Madalena, pensando na proteção e segurança que aquele senhor de terras lhe poderia garantir, aceita casar-se, levando a tia junto para morar na fazenda.

Os dois têm um filho, apesar da relação conflituosa entre os dois. Paulo Honório é seco, autoritário e possessivo, trata seus funcionários como bichos. Madalena é doce, compreensiva e altruísta. Toma o partido dos humilhados e ofendidos, exige melhores condições de vida e de salário para seus funcionários enfurecendo o marido. Letrada, Madalena passa a conversar com Padilha, o professor da região que morava na fazenda e com amigos que visitavam a fazenda. Inseguro, sem conseguir apossar-se da vontade da esposa, passa a ter ciúmes doentios que acabam por levar Madalena ao suicídio.

Paulo Honório é um homem agreste, egoísta e cruel,  que não consegue compreender a mulher, pois é incapaz de senti-la em sua integridade humana e em sua liberdade, e a considera apenas como mais uma coisa a ser possuída. A crise reside na incompatibilidade de conviver quando um indivíduo não reconhece nem aceita a diferença representada  no outro. Paulo Honório não admite a livre expressão da esposa, a competência dela o faz sentir-se inferiorizado, reagindo, assim, de modo impensado, por meio de um ciúme doentio que o leva a duvidar da fidelidade de Madalena.

Interpretado pelo que representa de crítica social, Paulo Honório representa a modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante  dos meios e se apossa do que tem pela frente.

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Graciliano Ramos. São Bernardo. 71ª ed., Rio, Record, 2001 224pp

domingo, 22 de janeiro de 2017

36. O homem sem qualidades

O homem sem qualidades é uma obra híbrida: contempla ensaísmo e narração. Seu processo de criação foi lento e exigente. Em 1906, Robert Musil (1880/1942)   já tinha anotações sobre a estrutura do livro, que é publicado em 1930, a primeira parte. Em seguida, por pressão dos escritores, edita a segunda parte. A terceira parte, inacabada, foi publicada após sua morte, em 1942, pela viúva do autor. A edição brasileira contém as três partes do livro.

A proposta do autor era contar como o homem normal nasce e se coloca diante da realidade empírica sem se deixar submeter a uma razão opressora. O ser que não tem qualidades próprias, que não sabe o que é, que só se conhece no cumprimento de tarefas. Diante disso, busca saber como pode adquirir o autoconhecimento diante da modernidade. Embora escrito entre a primeira e segunda guerras mundiais, não se trata de um livro histórico, nem um manifesto contra o nazismo. O que o escritor austríaco se propõe é narrar a utopia de Ulrich, de criar um mundo à parte.

Ulrich, o homem sem qualidades, é alguém que se propõe a  tirar férias da vida. Não tem uma profissão definida, não tem família e sente que vive num mundo de qualidades que são impostas a ele. A história começa em 1913 em dois mundos paralelos, o da reflexão do protagonista e o mundo dos eventos. No mundo dos eventos, existe uma trama paralela, a ação patriótica para comemoração do jubileu de coroação do imperador austríaco, em 1918. Aparecem as mais diferentes personalidades da aristocracia. Ulrich é secretário desse comitê, que não chega a lugar nenhum.

Em contrapartida, há a figura de Moosbrugger, um assassino que chama a atenção de todos pelo crime de matar sua mulher. A intenção da sociedade é eliminar esse elemento, através da condenação à morte. Mas o grupo liderado por Clarisse e Walter, amigos de Ulrich, é estudar uma terceira via para o destino do assassino.

Na segunda parte há também uma relação quase incestuosa entre Ulrich e a irmã Ágatha, que surge quando decide separar-se do marido, aplicando-lhe um golpe no testamento deixado pelo pai.  A aproximação de Ulrich com a irmã é uma forma de tentar dar uma continuidade dos acontecimentos que giram em torno de sua existência. Uma forma de recuperação.
Ulrich é um homem bastante à frente de seu tempo. Provara ter espírito forte e aguçado. Sempre sabe o que deve fazer, sabe olhar nos olhos de uma mulher, sabe refletir bastante sobre qualquer coisa a qualquer momento. Talentoso, isento de preconceitos, corajoso, resistente, destemido, prudente.

Essas qualidades, entretanto, ele não as tem. Elas fizeram dele aquilo que ele é, e determinaram seu caminho, mas não lhe pertencem. A uma coisa, Ulrich opõe outra. Para ele, nada é sólido. Tudo é mutável, parte de um todo que ele ainda não conhece integralmente. Assim, todas suas respostas são respostas parciais, cada um de seus sentimentos um ponto de vista. Para ele, não importa o que a coisa é, mas como é. O adjetivo  "homem sem qualidades" deve ser visto nesse sentido. Um caráter sem caráter nenhum.

Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth

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Robert Musil. O homem sem qualidades. Rio, Nova Fronteira, 1989, 872 pp.

domingo, 15 de janeiro de 2017

35. Duas obras primas de Faulkner

 O Som e a Fúria (1929) conta a história da decadente família Compson no cenário quase sempre presente nas obras do autor, o Condado de Yoknapatawpha, a partir de quatro narradores diferentes, três deles irmãos: Benjy, um idiota que não fala e cujo pensamento é expresso pelos sentidos, especialmente o olfato; Quentin, o irmão estudado, frequenta a Harvard e nutre um amor incestuoso pela irmã Caddy; Jason, o irmão ressentido que luta contra o tempo e a falência da família; e um narrador onisciente, presente na última parte do livro. “O Som e a Fúria” aborda temas como incesto, suicídio, doença metal, família, conflitos raciais, situação histórica do sul dos Estados Unidos.

Caddy é a menina dos olhos de cada narrador, relacionando-se com os três irmãos por diferentes graus: Benjy, o idiota, chora quando Caddy usa perfume, deturpando seu cheiro natural, ao mesmo tempo em que ela é a única a lhe dedicar atenção; já o amor incestuoso de Quentin pela irmã pode representar um amor eterno, imperecível, e acima da carne, mas deturpado pelo desejo físico; o desagradável irmão Jason tem uma inescrupulosa busca por dinheiro, extorquindo dinheiro de Caddy.  Jason  buscava sempre uma oportunidade de enriquecer sem precisar trabalhar.
O leitor talvez vá precisar de um pouco de calma para ler “O Som e a Fúria”, pois a narrativa, fazendo usa da técnica do fluxo de consciência,  pode levá-lo a nem sempre saber o que aconteceu. Mas nem por isso sua leitura será desagradável. O esforço de seguir adiante é extremamente recompensador. E também convidativo para uma segunda leitura, talvez até mais prazerosa. Isso não é pedir muito, já que essa pode ser a “história contada por um idiota” mais surpreendente que você tenha a oportunidade de ler.
Há um apêndice sobre a linhagem da família Compson até o seu final.

Tradução de Paulo Henriques Britto

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William Faulkner. O som e a fúria. SP, Cosac Naify, 2004. 336 pp.



Luz em agosto (1932) se passa no condado imaginário de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos. A narrativa começa numa estrada do Alabama, onde uma jovem grávida, Lena Grove, busca carona para chegar a Jefferson, à procura de Lucas Burch, o pai de seu filho. Contando com a generosidade de agricultores da região, Lena consegue chegar a Jefferson, e acaba sabendo que no moinho da cidade trabalha um homem que talvez possa ser Burch. Esse homem, na verdade, é Byron Bunch, que se propõe a ajudá-la a encontrar esse rapaz, que ele julga ser Joe Brown. Brown vive em uma cabana na propriedade de Joanna Burden, sobrevivente de uma família de abolicionistas, em companhia de Joe Christmas, que mantém um relacionamento com a tal mulher. Christmas, apesar de ter pele clara, ser órfão e desconhecer qualquer fato de sua descendência, acredita que tenha sangue de negro. Por isso viveu, até o momento da trama, fugindo de seu passado.

A época da narrativa ocorre no calor intenso de agosto,  no final do século XX, época da Lei Seca. Brown e Christmas aproveitam-se disso para contrabandear whisky para ganhar mais dinheiro. Numa noite, há um incêndio na propriedade de Joanna Burden (Luz em agosto), na cabana onde viviam Brown e Christmas. Descobrem, então, que a dona da casa havia sido assassinada e a culpa recai sobre Christmas que foge dali e é caçado impiedosamente até ser executado por um soldado do exército. Brown, preso na ocasião do incêndio, responsabiliza Christmas pelo assassinato e é mantido preso. A partir de então, Byron Bunch, que já estava apaixonado por Lena, arranja um encontro entre o preso e a jovem. Brown acaba desaparecendo de forma obscura.

Há outro personagem interessante na narrativa, Gail Hightower, ex ministro metodista, forçado a se demitir depois que descobriram que sua esposa mantinha um caso extraconjugal numa cidade vizinha, e cometera suicídio após o escândalo. Gail recusa-se a sair de Jefferson, vive uma vida miserável e mantém longos diálogos com Byron sobre a miséria da existência humana.

Faulkner mantém um suspense narrativo de primeira, prendendo a atenção durante todo o livro.

Tradução de Celso Mauro Paciornik
          
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William Faulkner. Luz em agosto. 2ª ed., SP, Cosac Naify, 2007, 448pp


domingo, 8 de janeiro de 2017

34. Macunaíma

No meio da mata virgem, às margens do Uraricoera, uma índia tupinambá pare um menino preto retinto e feio, chamado Macunaíma. Passou seis anos sem falar, e quando o incitavam a fazê-lo, dizia: "Ai, que preguiça!" Sempre foi muito ativo e a coisa que mais gostava de fazer era "brincar" com as índias no rio. Tinha dois irmãos mais velhos, Maanape e Jiguê, este tinha uma mulher, Sofará. Um dia, Macunaíma transforma-se num belo príncipe e brinca com a cunhada, causando a ira de Jiguê, que a manda embora, casando-se com Iriqui, que também brinca com Macunaíma. A Jiguê não resta outra alternativa, a não ser se conformar.

Um dia, a cutia lhe dá um banho de água de mandioca envenenada e Macunaíma se transforma em homem, mas a cabeça, que não havia sido molhada, permanece pequena. Quando sai à caça, certo dia, mata acidentalmente uma veada com a cria. O animal era a mãe do herói, transformada em veada por Anhangá. Todos choram a morte da mãe e decidem sair por este mundo afora. No caminho, Macunaíma possui Ci, a Mãe do Mato, rainha das amazonas. Ci acompanha Macunaíma na viagem, dá à luz um menino de cor encarnada e cabeça chata. O menino, ao chupar o seio da mãe, que havia sido mordido por uma cobra preta, morre. O menino é enterrado, Ci entrega a Macunaíma uma muiraquitã e vai para o céu , subindo por um cipó. Quando o herói visita o túmulo do filho, no dia seguinte, vê que sobre ele nascera uma planta, o guaraná.

Nas muitas andanças e peripécias de Macunaíma, este acaba perdendo a pedra muiracitã, que havia sido encontrada por um homem que o vendera a Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã. Macunaíma descobre o paradeiro da pedra e decide, com os irmãos, ir para São Paulo, onde morava o gigante, para tentar recuperar a pedra. No final da rapsódia, Pietro Pietra acaba caindo em caldeirão de macarronada, a pedra é recuperada e Macunaíma volta ao Uraricoera. No final, a tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaima subira aos céus transformado na estrela Ursa Maior. Só restara o papagaio no silêncio do Uraricoera, preservando do esquecimento o caso e as falas desaparecidas sobre o herói de nossa gente. O papagaio foi quem contou tudo ao homem, Mário de Andrade.

Macunaíma é a obra síntese do Modernismo brasileiro. Publicada em 1928, seis anos depois da Semana de Arte Moderno, é representativa da miscigenação das diversas culturas que formam o Brasil. De posse da muiraquitã, no final da história, os irmãos retornam ao lugar de origem, carregando na canoa objetos de diversas procedências, como um casal de galinhas Legorne, um revóver Smith Wesson e um relógio Pathek Philipe, símbolos da cultura estrangeira, indicadores dos valores capitalistas transportados ao lugar de origem, compondo o perfil do herói sem nenhum caráter. O termo sem caráter, aqui, longe de ter o significado de indivíduo de moral duvidosa, representa a síntese da alma brasileira forjada através de uma cultura transplantada e adaptada ao mundo moderno, com o advento do capitalismo que chegou ao Brasil no início do século XX, para o bem ou para o mal. O antropofagismo cultural surgido com a Semana de Arte Moderna significa que, para haver avanço cultural, é necessário assimilar tudo de novo que vem de fora, miscigenando-o à cultura já existente, em vez de negá-lo.

A edição que eu li é a sétima, da Martins Editora, de 1972. Há edições recentes da Civilização Brasileira e da Penguin Editora, por preço baixo.

      

                                                       paulinhopoa2003@hotmail.com

domingo, 1 de janeiro de 2017

32. Mrs. Dalloway

O romance de Virgínia Woolf, publicado em 1925, retrata um dia na vida de Clarissa Dalloway, preparando a festa de seu aniversário. O tempo cronológico compreende o período em que ela sai de casa para comprar flores para enfeitar a casa, até o final da festa, no final da noite. O que movimenta o romance, entretanto, é o tempo interior dela e dos personagens que ela encontra pela rua, alguns deles participarão da festa, e de personagens que surgem à memória dela e deles evocados pelas situações cotidianas de cada um.

Clarissa Dalloway, ao sair de casa, pela manhã, está inebriada pelo gosto da vida, tudo ao seu redor evocam-lhe sensações doces, desde o movimento dos carros, o aroma dos parques com o canto dos pássaros, as cores da cidade, o céu incentivador de coisas boas. Mesmo as situações embaraçosas, como o encontro com Peter Walsh, que a amou na juventude e foi desprezado de forma deselegante por ela. Isso a faz pensar sobre a escolha de Richard Dalloway, o marido; depois Septimus, que ela vê na rua em situação de abandono, perturbado mentalmente em decorrência da Primeira Guerra; a lembrança de Sally Seton, por quem foi atraída e pensa, agora, que talvez pudesse ter sido amor; a chegada em casa e a notícia dada pela criada, de que o marido fora almoçar com uma amiga que não a convidou; o diálogo com a filha Elizabeth, que esboça o desejo de não querer participar da festa, nada disso pode querer fazer de Clarissa uma pessoa infeliz. Será?

A festa de Clarissa nessa noite é um lento sucesso. Nela comparece a maior parte dos personagens que ela encontrou durante o dia, incluindo pessoas do seu passado. Ela ouve falar na festa sobre o suicídio de Septimus, que havia sido internado naquela tarde em um hospital psiquiátrico,  e gradualmente passa a admirar esse ato alheio, que vê como uma tentativa de preservar a pureza da sua felicidade.

O romance tem dois focos narrativos envolvendo dois personagens diferentes: Clarissa Dalloway e Septimus Smith. Em cada narrativa há um determinado tempo e lugar do passado aos quais os personagens principais recorrem com frequência nas suas mentes. Virgínia Woolf mostra o pensamento de Clarissa, no uso de um tempo verbal onde aparentemente as coisas que se movem em um mesmo plano, avance  tão  lentamente, que provoque no leitor a impressão de estar sendo absorvido para o interior deste texto. Esse tempo lhe invade a mente durante todo o dia em Londres,  apresentando-se como a ser disputada por vários pretendentes em sua juventude. Para Septimus,  esse presente prolongado apresenta-se como o tempo em que era soldado durante a Primeira Guerra Mundial, principalmente na forma de Evans, seu companheiro falecido.


Há uma edição recente de Mrs. Dalloway, com tradução de Mário Quintana, pela Civilização Brasileira. A Cosac Naify tem uma tradução de Cláudio Marcondes, que você encontra em ebook ou nos sebos, o livro físico. A Abril Cultural apresenta o romance, junto com Orlando, edição esgotada encontrável nos sebos. Também há a tradução de Tomaz Tadeu, pela editora Autêntica.

domingo, 25 de dezembro de 2016

31. Orlando

Virginia Woolf tem duas obras-primas da literatura universal: Orlando e Mrs. Dalloway, o que torna quase impossível sobrepor uma em relação a outra, por critérios de valores. Clarissa Dalloway mergulha num fluxo de consciência durante o dia em que prepara a festa de seu aniversário. Orlando, que não se utiliza da mesma técnica narrativa, narra a história do jovem inglês, nascido na Idade Moderna e que, durante a mudança que fez à Turquia, acorda mulher. Dotada da imortalidade, a vida de Orlando é narrada durante 350 anos, até 1928, ano da publicação do romance.

 Orlando era desajeitado e um pouco distraído. Uma vez, apaixonou-se por uma princesa moscovita e sua vida tornou-se mais dinâmica. Tinha cada vez menos cuidado de ocultar seus sentimentos. Mas um dia a princesa embarca, de volta à Rússia, e Orlando cai em profunda melancolia.

Aos trinta anos, já tinha passado por todas as experiências que a vida oferece e verificado a inutilidade de todas elas. Amor e ambição, mulheres e poetas eram igualmente vãos. A literatura, uma farsa. Numa noite, queimou quase todas as suas obras poéticas, guardando apenas O Carvalho, que era seu sonho de adolescente. O mundo com toda a sua variedade, a vida, com toda a sua complexidade, se reduziram a duas coisas só: os cães e a natureza.

Assim, persuadido de que sua casa e sua vida não lhe diziam mais nada, pediu ao Rei que o enviasse como embaixador extraordinário para Constantinopla.
Assim, os dias de Orlando na Turquia passava-se de forma rotineira, levantava-se cedo, envolvia-se num longo casaco turco, acendia um charuto e fincava os cotovelos no parapeito, mirando a cidade a seus pés, num aparente êxtase.

Sabe-se muito pouca coisa de Orlando em Constantinopla. Um acontecimento inesperado, entretanto, ocorreu em uma noite em que se despiu para dormir, ao som das trombetas, e quando acordou, transformara-se em mulher. A mudança de sexo, entretanto, não alterara sua identidade. Seu rosto permanecia praticamente o mesmo. Sua memória podia remontar através de todos os acontecimentos da vida passada, sem encontrar nenhum obstáculo. A mudança parecia ter-se produzido sem sofrimento, e completa, e de tal modo que o próprio Orlando parecia não estranhar. Muita gente, à vista disso, e sustentando que a mudança de sexo é contra a natureza, esforçou-se em provar, primeiro: que Orlando sempre tinha sido mulher; segundo: que Orlando foi homem até os trinta anos; nessa ocasião, tornou-se mulher, e assim ficou daí por diante.

Tornando-se mulher, Orlando adquire a imortalidade, atravessando 350 anos de vida, até o dia 28/03/1928, quando se encerra sua biografia.


Há uma tradução de Orlando pela Penguin?Companhia, com tradução de Jorio Dauster. Há outra edição pela Autêntica, com tradução de Tomaz Tadeu. A edição que eu li teve tradução de Cecília Meireles, pela Editora Abril/Civilização Brasileira, de 1972. Junto com o volume vem Mrs. Dalloway, com tradução de Mário Quintana.

domingo, 18 de dezembro de 2016

30. Ulysses


Ulysses é um romance com personagens simbólicos, realizando ações simbólicas realizadas, entretanto, num mundo real, Dublin do dia 16 de junho de 1904. Trabalhando intensamente o monólogo interior, o irlandês judeu Leopold Bloom vive uma odisseia moderna no decorrer desse único dia. Além dele, aparecem com destaque sua esposa, Molly Bloom e seu amigo Stephen Dedalus. Este representa a identidade oculta de Joyce, não só neste romance, mas em  Retrato de um artista quando jovem, em que narra a infância e juventude de Stephen Dedalus até sua ida à escola, como interno.

O romance de 1112 páginas retrata uma viagem ao mundo interior caótico de Leopold Blum, parodiando a Odisseia de Homero: Ulisses (Leopold), Telêmaco (Dedalus) e Penélope (Mary Bloom). Há outros personagens do romance de Joyce que fazem referências às personagens da obra de Homero.  Joyce faz uso da paródia, como uma técnica narrativa para desfigurar as obras-primas do passado, fazendo um ataque à própria literatura. Ulysses tem um tom jocoso, satírico.
Leopold Bloom, um homem comum, judeu mas batizado como católico, é casado há 16 anos com Molly, cantora de talento, linda e cobiçada. Os dois tiveram um filho morto  depois de 11 dias de nascido. Esse acontecimento afeta a vida dos dois para sempre.  Eles têm, ainda, uma filha de 15 anos que vive fora de casa, devido a atritos com a mãe.

No dia 16 de junho de 1904, Bloom sai cedo de casa para acompanhar o enterro de um conhecido. Ao voltar do enterro, vai ao centro da cidade até o jornal para os quais presta serviço  publicitário. Feito isso, poderia voltar para casa, mas ele não quer que isso aconteça, por enquanto. Daí começa, então, sua odisseia que dura 18 horas, em busca de pretextos para estar na rua até que tenha certeza de que, ao chegar em casa, sua mulher esteja dormindo. É que eles estão em crise e Bloom sabe que, durante a tarde, ela irá receber um amigo, Boylan, que ele pensar ser amante dela. A história ganha fôlego ao retratar, também, a vida de Stephen Dedalus  e de Molly, que apresenta no final do romance um longo monólogo interior. Além dessas três vozes, há inúmeras outras vozes que se fazem ouvir, tornando a narrativa interessante, mas ao mesmo tempo complexa.

O objetivo de Joyce, em Ulysses, talvez tenha sido o dar uma forma e um significado ao imenso panorama de futilidade e anarquia que é a vida contemporânea.  É uma ficção construída em cima de estruturas de um mito. Leopoldo Bloom é um cara que sabe sentir, mas que muitas vezes não tem capacidade de se expressar. Quando consegue a capacidade expressiva, desaprende a do sentir. Bloom sofre de uma solitária falta de articulação, numa verborragia aparentemente sem sentido algum. As poucas ideias ou sentimentos únicos e de sentidos múltiplos são facilmente deformados em clichês convencionais. Quando Bloom observa, por exemplo uma lingerie numa vitrine, ele diz: "Perfume de abraços o todo assaltou. Com carne faminta e obscuramente, por adorar ardia mudo."
 Joyce apresenta Bloom como o homem andrógino do futuro. Mas não antes de definir as necessidades do homem moderno na figura de Stephen Dedalus, um jovem em fuga do machismo presunçoso do mundo da Dublin de seu pai. A personalidade de Bloom reflete um espelho partido de muitas faces. E esse eu que Joyce celebrou em Leopld, um sujeito culto e versátil, que combina inúmeras vidas passadas em sua própria vida.

Ulysses apresenta uma mudança de técnica narrativa a cada um dos episódios, aparentemente autônomos. A obra contém um quadro que discrimina, para cada episódio, uma cor, uma técnica narrativa, um símbolo, etc, além de atribuir horários e sentido a cada trecho do livro. Joyce teria elaborado esse quadro para facilitar o acesso dos amigos ao livro e a seus detalhes.

Há três traduções da obra em português no mercado: o linguista Antônio Houaiss apresentou a primeira tradução brasileira em 1966. Foi esta edição que tentei ler, mas parei na metade por não estar preparado ainda para as inovações formais de Joyce. Em 2007 saiu a tradução da professora Bernardina Pinheiro, pela editora Objetiva, à qual ainda não tive contato.  Em 2012 saiu a de Caetano Galindo, pela Penguin/Cia. das Letras, considerada a melhor.  É esta que eu li toda e recomendo aos leitores. Aos que se interessam por literatura de qualidade, recomendo o livro do próprio tradutor, Galindo, Uma visita guiada ao Ulysses de James joyce, que busca auxiliar na aproximação do leitor com a obra.

Tradução de Caetano Galindo
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James Joyce. Ulysses. SP Penguin/Companhia, 2012, 1112 pp. 

29. O Processo

O processo, de Kafka, que começou a ser escrito em 1914, é um dos melhores romances do século XX.

Josef K.,  procurador de um grande banco, ao acordar certa manhã, estranhou a demora da dona da pensão que servia seu café todos os dias. De repente, batem à porta,  entra um homem que ele nunca havia visto antes, acompanhado de mais duas figuras esquisitas. Josef K. estava sendo detido sem ter feito mal nenhum, certamente vítima de uma calúnia. De início, pensou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto arquitetada por motivos desconhecidos, talvez porque ele completasse 30 anos de idade; ou talvez os guardas que invadiram sua casa fossem serviçais da esquina, daí talvez estivesse correndo algum perigo.
Busca argumentar com os guardas o erro que estavam cometendo, mas o inspetor lhe adverte que ele e os guardas, na verdade, não sabiam nada dele. Por isso não saberiam dizer absolutamente nada a respeito do processo, pois desconheciam seu conteúdo. Josef K.  questiona como poderá trabalhar se está detido e fica surpreso ao ver que, na sala encontravam-se mais três pessoas, colegas de trabalho que ele mal reconhecia, que o acompanhariam ao trabalho para que continuasse a ter sua vida normal, até ser chamado para a primeira audiência.

Ao comparecer à primeira audiência, Josef K. se dá conta, diante dos absurdos que lhe são ditos e da manifestação dos presentes que formam duas torcidas, uma a favor dele e outra contra, que tudo aquilo fazia parte de uma organização que mobilizava não só guardar corruptíveis, instrutores e juízes simplórios, mas sustentava uma magistratura de grau elevado e superior, com seu séquito inumerável e inevitável de contínuos, escriturários, militares e outros auxiliares, talvez até de carrascos que consistia em prender pessoas inocentes, movendo contra elas processos absurdos sem nenhum fundamento. Josef K. se insurge contra o juiz e se nega a participar daquela farsa, abandonando a sala.

A partir daí,  com cada um que conversa, obtém alguma informação difusa do processo e de pessoas que sabem alguma coisa dele, ou dos responsáveis pela ação. Como não é chamado para uma segunda audiência, decide ir novamente ao local no domingo seguinte, e percebe que ali reside um casal de funcionários que, toda vez que há alguma intimação, têm de retirar suas coisas do local.
Depois, recebe em casa a visita dos dois guardas que o haviam admoestado na visita da intimação, para serem açoitados por um espancador, na frente de Josef K., como castigo por terem se portado de maneira inaceitável naquela ocasião. Depois aparece um tio do interior que também soube do processo e veio visitá-lo, com preocupações. 

E assim quase todos sabem alguma coisa do incidente. Decide consultar um advogado, que lhe diz coisas absurdas e sem sentido, quanto a sua defesa.
Josef K. não conseguia mais deixar de pensar no processo. Já tinha refletido com frequência se não seria bom redigir um documento de defesa e apresentá-lo ao tribunal. Queria expor nele um breve relato de vida e, a propósito de cada acontecimento relevante, explicar os motivos pelos quais tinha agido daquela maneira, se esse comportamento devia ser censurado ou aprovado segundo o seu juízo atual, e que razões podia invocar em relação a este ou aquele. As vantagens dessa defesa por escrito, diante da mera defesa através do advogado, de resto não de todo irrepreensível, eram indubitáveis.

E assim ele vai se enredando em uma situação absurda que prende a atenção do leitor até o final, no intuito de buscar compreender de que é acusado, quem o acusa, numa obra magnífica, segura de mistério, angústia, premonições e suspense.
O processo apresenta uma contradição fundamental que sustenta a obra, o paradoxo de que, quanto mais fantástica a aventura vivida, mais natural se apresenta a narrativa, porque por mais estranhos que sejam os fatos que envolvem as personagens, elas os aceitam com naturalidade e sem espanto. Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender. É nessa contradição que reside o segredo de Kafka; nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.

Tradução de Modesto Carone.
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Franz Kafka. O processo. SP, Cia. das Letras, 1997, 334 pp. R$ 19,10

28. A Metamorfose

Gregor Samsa era caixeiro viajante. Escolhera uma profissão cansativa, devido às viagens frequentes que fazia, com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio social sem calor humano. Acordar sempre cedo, sem ter o justo sono. O chefe sempre tratando-o de cima para baixo, que além do mais tinha de se aproximar para responder-lhe, pois seu chefe era surdo. Mas Gregor Samsa tinha a esperança de juntar o dinheiro para pagar a dívida de seus pais e fazer a ruptura com aquele tipo de trabalho que o aborrecia em demasia. A preocupação dele era fazer tudo para a família esquecer o mais rapidamente possível a desgraça comercial que havia levado todos a um estado de completa desesperança. Assim, começara a trabalhar com um fogo muito especial e, quase da noite para o dia, passara de pequeno caixeiro a caixeiro viajante, que naturalmente tinha possibilidades bem diversas de ganhar dinheiro. Passou a ganhar tanto dinheiro que passou a assumir as despesas dos pais e da irmã.

A narrativa inicia-se com a transformação:“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.”

A partir desse acontecimento insólito, a vida de Gregor sofre uma reviravolta. A metamorfose sofrida altera sua relação com o chefe e com cada membro da família.

A metamorfose, escrita em 1912,  é a mais  célebre novela de Kafka (1883/1924), escritor tcheco que escrevia em alemão. Já foi dito antes que a metamorfose de Gegor Samsa é um evento inverossímil. Para o leitor, pode ser que sim.  No entanto, para a família, o evento não é inverossímil, não é um elemento que provoque pavor, a não ser a surpresa inicial ao vê-lo pela primeira vez. É uma presença que perturba, uma presença incômoda, mas é algo assim como se de repente alguém encontrasse um animal feroz em sua residência. Não vai além disso. Não ameaça a ordenação do mundo no qual surge. 

Tradução direta do alemão de Modesto Carone, especialista em Kafka.
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Franz Kafka. A metamorfose. SP, Cia. das Letras, 1997. 102 pp. 

27. Em busca do tempo perdido

No caminho de Swann, o  primeiro volume de Em busca do tempo perdido consta, em realidade, de três romances. O primeiro, "Combray', em forma de devaneio, descreve a infância do terno e apaixonado menino que era o próprio autor, bem como a vida de veraneio numa pequena cidade, e as carinhosas relações com a mãe e a avó. Surge então a figura de Swann, estabelecendo a ligação com Paris. Em "Um amor de Swann", temos a história da paixão desse homem por Odette, antiga cocote. Swann tinha  dinheiro, mas considerado um canalha, por se envolver com mulheres de baixa condição social. Os dois casam, causando mal estar na comunidade. O assunto de "Nome de lugar: o nome", é o amor precoce do menino por Gilberta, filha de Swann e Odette. Completas em si mesmas, essas histórias foram, contudo, parte integrante de um conjunto mais amplo, cuja estrutura final só podemos compreender e admirar ao findarmos o último dos 7 volumes da obra monumental de Proust.
Tradução de Mário Quintana

Em À sombra das raparigas em flor, o segundo volume,  vemos desenvolver e depois fenecer o amor de Marcel por Gilberta, enquanto que Swann, após o casamento, vai cada vez mais se aburguesando e enchendo-se de preocupações. Odette vence os preconceitos da alta sociedade, que ainda a mantém afastada, mas reconhece e acompanha sua ascensão. Aprendemos a conhecer melhor o escritor Bergotte, Norpois, o diplomata, e o grande médico Cottard. Na praia de Balbec, onde fora com a avó, Marcel admira um grupo de amigas: Albertina, Simonet, Andreia, Gisela e Rosemonde, por quem se sente atraído. Torna-se também amigo do pintor Elstir, cuja experiência artística o interessará sobremaneira. Trava conhecimento, ainda, com o Barão de Charlus, irmão do Duque de Guermantes, e com o sobrinho destes, Roberto de Saint-Loup, penetrando, assim um pouco e de longe naquele mundo que se lhe afigurava inacessível e maravilhoso.
Tradução de Mário Quintana

No terceiro volume,  O caminho de Guermantes,  ação se passa em Paris, Proust esboça da sociedade parisiense um quadro de esplendor deslumbrante. Como figura central sobressai Oriana, Duquesa de Guermantes, venerada de longe pelo tímido autor. Este mantém estreita amizade com Roberto de Saint-Loup, que, por sua vez, toma-se de paixão pela medíocre atriz Raquel. Um episódio comovedor é a morte da velha avó, à qual o autor estava ligado por fervoroso afeto. O desempenho da grande atriz trágica Berma, no papel de Fedra, torna-se o ponto alto da arte descritiva de Proust neste romance, em cuja tessitura, colorida e rica como a própria vida, encontramos o vaivém de inúmeras personagens e de seus dramas.
Tradução de Mário Quintana

O quarto volume, Sodoma e Gomorra,  envereda pela difícil análise da inversão sexual, assim como apresenta Proust, na figura do Barão de Charlus e na de Albertina. A sociedade francesa, na época de Proust, considerava a homossexualidade um vício, uma doença do caráter, mas comportamentos afeminados como o do Barão de Charlus e suas aventuras com o músico Morel eram aceitas na alta sociedade em que transita o narrador do romance,  assim como a desconfiança de alguns nobres casados que mantinham relações  homossexuais com gigolôs, de forma discreta. A bissexualidade de Albertina é vista com preocupação por Marcel, que a ama e quer casar-se com ela. O cenário desse quarto romance se passa, em sua maior parte, em Balbec, onde Marcel retorna para reavivar a lembrança de sua avó, recém morta. E seu convívio nos salões dos Verdurin e dos Cambremer.
Tradução de Mário Quintana

A Prisioneira apareceu em 1923, depois da morte de Proust. Apesar das desavenças já tidas com Albertina, e da revelação de alguns aspectos da vida que ela levava, o narrador sente que já não lhe é possível prescindir de sua presença. Comunicando a sua mãe a decisão de casar-se com Albertina, ele a leva para Paris e passa a viver com ela sob o mesmo teto, para desgosto da mãe que, entretanto, não tem ânimo para reprovar-lhe o procedimento. Embora já vivendo juntos, ele percebe que o seu amor está-se encaminhando para o cansaço, e que só os ciúmes o mantém ligado à noiva. Várias vezes lhe vem a ideia de abandoná-la, de libertar-se de Albertina, para dedicar-se inteiramente à arte. Mas, obsedado pelo passado da amiga, conserva-a enclausurada e sob uma vigilância constante que a transforma numa prisioneira. Albertina reage e sempre que possível foge-lhe ao controle. O narrador sabe que um dia terá de separar-se dela. Mas a ideia de que ela pode abandoná-lo, por iniciativa própria, o desespera. Ele sente que vai perdê-la, mas quer decidir sobre o momento da separação. Afinal, no momento em que decide abandoná-la definitivamente, Francisca, a fiel empregada, vem comunicar-lhe que Albertina partiu. Para sempre.
Também neste tomo, morre Bergotte, e desenrola-se em tom cada vez mais dramático, as relações do Barão de Charlus com os Verdurin. Tratados antes pelo Barão com certa reserva, agora se vingam dele, intrigando-o com Morel, seu amante.
Tradução de Manuel Bandeira

A fugitiva,  o sexto volume, nos apresenta o narrador abandonado por Albertina. Esse desfecho, em vez de trazer-lhe a almejada libertação, vem apenas agravar-lhe as dúvidas e tormentos, e ele procura, para fugir à realidade que o abate, embalar-se na ilusão de que ela voltaria, talvez no mesmo dia. Mas Albertina morre, vítima de um acidente. E o narrador, ao descobrir que ela era realmente culpada de todas as faltas suspeitadas, sofre e se consome no inferno de um ciúme póstumo sem limites. Mas todos esses padecimentos , pouco a pouco vão cedendo lugar ao esquecimento. Instala-se nele a indiferença, que é o princípio da morte. Nesta altura, ele já não é o mesmo, não é mais aquele que amara Albertina. E a verdade que brota neste volume denso de inquietação e de humanidade, é que só cessamos de sofrer porque mudamos continuamente, porque, à medida que a vida flui, nos tornamos estranhos a nós mesmos, até desfigurar nossa identidade e  nos perdermos irremediavelmente no tempo. Gilberta, filha de Swann finalmente é recebida no lar dos Guermantes, onde durante muito tempo seus pais não puderam frequentar, devido ao passado de Odette. Agora Gilberta está podre de rica e casa-se com o amigo de Marcel, Roberto Saint-Loup, cuja identidade homossexual é revelada no final deste tomo.
Tradução de Carlos Drummond de Andrade

O tempo redescoberto, último volume da longa obra de Marcel Proust, adquirem relevo mais nítido os momentos essenciais dessa busca do tempo perdido, Proust  já nos  delineara uma fresta através da qual pudemos perceber uma lenta tentativa de reconstrução de um universo contendo uma outra realidade, mais profunda e mais vasta que esta da superfície a que estamos habituados pelos nossos sentidos, um universo que está do outro lado das aparências e contém, no mistério por vezes entrevisto de seus abismos, a essência fundamental das coisas. Essa longa tentativa vem avançando através da obra que tem as dimensões de toda uma vida dedicada à recaptação do tempo morto, para chegar finalmente a esta milagrosa recuperação, ao tempo descoberto. Tornam-se mais vivas, presentes e atuantes,  as sondagens involuntárias através do bolinho molhado no chá de tília; dos degraus desiguais do batistério de São Marcos, em Veneza, e da entrada da residência dos Guermantes, em Paris; daquela passagem da sonata de Vinteuil; do tinir da colher contra a porcelana da xícara; do áspero contato do guardanapo despertando  o azul sobrenatural do mar em Balbec; de todos os momentos em que Proust mergulha em si mesmo para reencontrar a misteriosa essência do tempo sedimentada em sua memória afetiva. Aqui, o escritor encontra a outra dimensão da vida, aquela que, atravessando a bruma do tempo, talvez participe do enigma da eternidade. É neste tempo que Marcel Proust repousa, depois de nos haver dado esse maravilhoso fruto que esgotou toda sua substância, e foi a razão de sua vida.
Tradução de Lúcia Miguel Pereira
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Marcel Proust. Em busca do tempo perdido. 7 volumes,Globo Livros

26. O retrato de Dorian Gray

 Basil Hallward, pintor de quadros, apaixona-se pela beleza do jovem Dorian Gray, um dândi da sociedade londrina, vivendo das rendas de sua família rica. Quis, então, compor um quadro do jovem que representasse o máximo às suas pretensões de artista.  A beleza  de Dorian Gray era tanta que talvez a arte não fosse capaz de expressá-la.  O artista, assim, pensou uma forma completamente diferente de arte, um estilo inteiramente novo.  O quadro a ser pintado teria de harmonizar a alma e o corpo, inaugurando, quem sabe, uma nova escola contendo toda a paixão do espírito romântico e toda a perfeição do espírito grego. Entretanto, Basil sentia uma insegurança no comportamento de Dorian Gray, como alguém que só existia para agradar a sua vaidade. Mesmo assim, fez o retrato.

Dorian, entretanto, tinha ciúmes do retrato que Basil pintara dele, porque tinha ciúmes de qualquer coisa cuja beleza não morre. Na vida, o tempo tira  a todo o instante  algo dele e dá ao quadro. Se o quadro pudesse mudar, se a pessoa de Dorian pudesse ser belo e jovem pela vida toda e o quadro mostrasse seus sinais de decadência, seria a perfeição.

O jovem era apaixonado por uma atriz de teatro, filha de outra atriz. Portanto, oriunda de uma família pobre. Henry, seu amigo e mentor,  incentiva-o a largar a atriz, que não estaria à altura de sua beleza. Dorian, entretanto, busca provar que essa atriz era a mais maravilhosa das criaturas, convidando Henry e Basil para assistir ao espetáculo Romeu e Julieta, protagonizado por ela. O que se vê no palco, entretanto, é um desastre. Ela representa quase tudo de forma desastrada, para frustração de Dorian. Ao visitá-la no camarim, após o fim do espetáculo, ela lhe diz que sabe que representou mal, porque a arte não a satisfaz mais do que o amor que ela sente por Dorian. Ela se dispõe a abandonar a arte da representação em prol do amor por ele. Isso marca o fim da relação dos dois. Dorian a rejeita. A paixão dele não era pela pessoa da atriz, mas pela função que ela teria, de representar a arte.

Dorian era imaturo. Acreditava que somente pessoas superficiais precisam de anos para se livrar de uma emoção. Um homem que é senhor de si mesmo pode fazer cessar uma tristeza com a mesma facilidade com que inventa um prazer. Não quer estar à mercê das emoções, mas usá-las, aproveitá-las e dominá-las.

Após abandonar a atriz, passa a ter uma vida desregrada e imoral. Para ele, os modos passam a ser mais importante que a moral. Muitos da sociedade fugiam dele. Só o toleravam nas rodas sociais por causa do seu dinheiro. Assim, começa a haver a decadência de uma beleza que fora, um dia, aparentemente tão notável. Passou a sentir-se entristecido pelo reflexo que a ruína causava nas coisas belas e maravilhosas.
Dorian passou a odiar Basil, acusando-o de incentivá-lo a se gabar de sua boa aparência. Apresentou-o a Henry que lhe explicou as maravilhas da juventude, e finalizara um quadro que lhe revelava a maravilha da beleza. 

Agora, o quadro, completamente transformado pela passagem do tempo, representava um sátiro. O quadro, a feiura de uma imagem que tornava as coisas reais. Em O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde levanta o tapete que cobre a superfície da beleza, revelando a sujeira das conveniências
Oscar Wilde (1854/1900) nasceu em Dublin, passando a residir em Londres, era cultor da Arte pela Arte. O escritor posicionava-se contra a mentira na arte, afetando a criatividade do artista. Para que o artista pudesse atingir a máxima liberdade na criação artística, era preciso que essa criação não fosse imitativa, buscando um distanciamento  da realidade como meio de atingir a verdadeira arte e a beleza poética.

Wilde teve uma vida irreverente, recheada de escândalos, devido a sua fama de escritor e dramaturgo. Era homossexual, apesar de casado e pai de dois filhos. Envolveu-se numa relação tempestuosa com Afred Douglas. Apesar da homossexualidade ser crime na Inglaterra, a importância do escritor nos meios burgueses e sua privilegiada condição social o livravam de problemas com a polícia. Quando move uma ação contra o pai de Douglas, o marquês de Queensberry, por difamação e calúnia, perde a ação e é condenado e preso por dois anos.  Ao sair da prisão conta com a ajuda da pensão da esposa para viver, mas isso lhe é cortado, quando Wilde continua vivendo uma vida promíscua, bebendo em demasia. Morre em estado de mendigo.

Tradução de Paulo Schiller
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Oscar Wilde. O retrato de Dorian Gray. SP, Penguin/Companhia, 2012, 164 pp.