domingo, 18 de dezembro de 2016

3. A Divina Comédia

O linguista alemão Harald Weinrich nos fala em seu livro Lete, arte e crítica do esquecimento (tradução de Lya Luft pela Civilização Brasileira) que "A morte é o mais poderoso agente do esquecimento. Mas não é onipotente. Pois os homens desde sempre ergueram trincheiras de recordação contra o esquecimento na morte, de modo que rastros que fazem concluir a existência de uma memória dos mortos são considerados por arqueólogos e estudiosos da história os mais seguros sinais de que existiu uma civilização humana. Os rituais de culto aos mortos, com seus pedidos, sacrifícios e ofertas nos túmulos, em muitos casos servem em primeiro lugar para assegurar aos mortos um certo bem-estar no Além. Mas os monumentos fúnebres fitam os vivos exortando-os a não esquecerem os seus mortos, e mesmo assim, às vezes a esquecê-los um pouco, porque "a vida continua".

Portanto, o tempo se liga antes com o esquecer do que com o lembrar. Mas quando os poetas abordam a memória dos mortos o esquecimento não pode mais realizar seu jogo costumeiro com a memória humana. Ter mostrado isso em perfeição clássica é privilégio de um dos maiores poetas da literatura mundial, Dante, que ergueu em torno da memória dos mortos - sempre ameaçada pelo esquecimento - a duradoura catedral da sua Divina Comédia. Dante Alighieri (1265-1321) escreveu essa obra em cem cantos de 14.233 versos no começo do século XIV, quando ele próprio fora banido da cidade natal e estava ameaçado de esquecimento no exílio.

A Divina comédia é o relato da salvação da alma de seu autor, Dante. Ele descreve uma jornada épica através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso que culmina numa série de visões que lhe revelam o sentido final da criação de Deus. O poeta romano Virgílio, autor da Eneida, é o guia de Dante pelos nove círculos do Inferno e pelos sete terraços do Purgatório, mas, quando os dois chegam ao Jardim do Éden, situado no topo da montanha do Purgatório, Virgílio vai embora e Dante se reencontra com Beatriz, a mulher morta que ele ainda adora, e é ela que o conduz através dos nove céus do Paraíso até o plano da Presença Absoluta de Deus, para além do espaço e do tempo. Lá, por fim, é concebida a Dante uma visão da Rosa do Justo, formada pelas almas daqueles que conquistaram a salvação.  De repente, Dante nota que Beatriz não está mais com ele; ele grita de consternação, mas então a vê no lugar designado para ela, em um dos círculos da rosa mística. Beatriz sorri para ele uma última vez, antes de virar-se para  contemplar em êxtase a fonte do amor eterno de Deus.

Beatriz é a personagem que desempenha um papel providencial no início e no desenrolar do poema de Dante. Graças à intersecção dela, Deus permite que Dante empreenda a jornada e é ela também que propicia a inspiração para a composição do poema que revelará o destino pessoal de Dante e oferecerá um sentido final para a existência do homem na terra. Quem era, então, Beatriz? Trata-sede Bice Portinari, que diz ter visto pela primeira vez quando tinha nove anos de idade e tê-la revisto só nove anos depois, quando se negou a reconhecê-lo. Essa rejeição fez com que Dante sublimasse seu amor por Beatriz,um processo que continuou mesmo depois que ela se casou com outro homem. Após sua morte, o amor de Dante tornou-se totalmente espiritual. (1)

A melhor tradução de A Divina Comédia, segundo os críticos, parece ser a de João Trentino Ziller, pela editora Unicamp/Ateliê, com desenhos de Botticelli.  Mas, a obra encontra-se esgotada. A tradução que eu li é de Ítalo Eugenio Mauro, em edição bilíngue,  em 3 volumes, da Editora 34.
Depois de conhecer universo de Dante, recomento a leitura de Nove cartas  sobre A Divina Comédia, de Marco Lucchesi, estudioso da obra do poeta italiano, pela Editora Casa da Palavra. Escrito em formato de cartas,  é um convite para uma viagem reveladora pelo universo poderoso da poesia e também da filosofia, história e religião,  a partir dA Divina Comédia.
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(1) Edwin Williamson in Borges, uma vida. Companhia das Letras. Trad. Pedro Maia Soares

2. Odisseia revisitada

A Ilíada é o poema da guerra. A Odisseia é o poema da aventura, há poucas cenas de combate, com muitos personagens fabulosos, um ambiente doméstico bem definido e, principalmente, o embate de Ulisses com os pretendentes a sua esposa, Penélope, supostamente viúva. Ulisses, portanto, é um herói bom, que luta para preservar sua família. O termo grego do epíteto latino Ulisses é Odisseu.

Acabou a guerra de Troia, passaram-se vários anos. Em Ítaca, todos pensam que Ulisses não voltará mais, devido à longa ausência. Sua casa é invadida por pretendentes, causando transtornos a Penélope, que acredita na volta do marido e o espera de forma casta. O filho adolescente, Telêmaco, decide partir para tentar encontrar o paradeiro do pai.

Enquanto isso, Ulisses encontra-se preso na ilha de Calipso,  quando foge para voltar para casa. Como a narrativa não é linear, o poema volta a acontecimentos envolvendo o herói, antes que ele chegue à ilha de Calipso. 

Quando sai de lá, chega à terra dos feácios, onde acaba contando suas aventuras. É a parte mais interessante da Odisseia, com acontecimentos fantásticos, como a luta com o Ciclope, as sereias e os monstros marinhos. Os feácios acabam facilitando a volta de Ulisses a Ítaca.

Chegando a sua terra, ele aparece disfarçado de mendigo. O herói faz uso do artifício, para buscar saber quem está do lado dele e para matar quem merece morrer. No final, revela-se à esposa e a paz se restabelece em seu lar.
Ulisses é a figura moderada que sabe raciocinar a melhor maneira de agir, é extremamente astucioso.

Há um texto postado aqui, centrado no enredo da narrativa. Use o mecanismo de busca do blog.
       
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Homero. Odisseia. SP, Penguin Companhia, 2011, 584 pp. tradução de Frederico Lourenço

1. Ilíada revisitada

Saber se Homero existiu de fato, e se foi ele que criou IlíadaOdisseia, é um assunto bastante controverso. Homero, se existido, seria um rapsodo, um recitador de poesias épicas  para um público ouvir em diversos lugares por onde passasse. Na tradição grega, imagina-se Homero como um poeta cego.  De qualquer forma, é importante que se diga que Homero não escreveu nem uma obra nem outra. O que os estudos nos mostram, é que as obras escritas apresentam fortes indícios de que os dois  poemas são frutos da tradição oral.Estudos concretos sobre sua existência, não existem. Mostram, por sua vez, que a existência dessa longa tradição oral torna pouco relevante a presença de um grande gênio autoral que cria, a partir de sua própria mente, os grandes poemas. Isso quer dizer que a tradição é muito mais importante do que a criação de um determinado poeta, se é que isso aconteceu. Homero poderia ser a representação de um coletivo de recitadores que transmitiam a poesia cantada pelos diversos pontos da Grécia, durante muito tempo, até ser organizada sobre forma escrita.

Ilíada de Homero, portanto, é um grande poema. Tem uma capacidade narrativa impressionante. As imagens utilizadas para contar os versos, a maneira como são construídos, transmite uma sonoridade impressionante.
O poema, em 24 cantos, narra o que está acontecendo no final da Guerra de Troia, que durou dez anos, por causa do rapto de Helena. Páris, jovem troiano, teve de fazer uma escolha de qual a mais bela entre três divindades, Hera, Atena e Afrodite. Escolheu Afrodite, a deusa do desejo sexual. Páris, então, apaixona-se pela mulher de Menelau e a rapta para Troia.
Homero narra menos de dois meses antes do final da guerra. O motivo do poema é uma briga entre Aquiles e Agamenon, por causa de uma escrava, é o impasse que movimenta a narrativa épica.  Aquiles se recusa a continuar guerreando. Os gregos começam, então, a sofrer baixas. Agamenon tenta se reconciliar com Aquiles sem sucesso. No final, Pátroclo, o melhor amigo de Aquiles, vai lutar disfarçado em herói. Heitor, o troiano, mata Pátroclo. 
Aquiles,  enfurecido com a perda do amigo, entra na guerra e mata Heitor.

A história da Ilíada, resumidamente, é a história da ira de Aquiles. Quando mata Heitor, o herói não se satisfaz com isso, quer aniquilar o cadáver. Em vez de entregar o corpo aos troianos para as honras fúnebres, Aquiles diariamente amarra o cadáver  em sua carroça e faz voltas em torno do túmulo de Pátroclo, tamanho seu ódio. No final, ele cede e entrega o corpo ao pai de Heitor, Príamo, para que seja enterrado.

Ilíada já nos mostra a importância do caráter trágico, da responsabilidade pelas próprias ações, na figura de Aquiles. Ele é cercado de dúvidas: será que o homem já está predestinado?  Agiu corretamente? É culpado pela morte do amigo? Causou a morte do amigo? São questões existenciais importantes na história da humanidade de ontem e de hoje.

A melhor tradução da Ilíada é  do helenista português  Frederico Lourenço, que traduziu o poema em verso livre, o que dá fluência ao texto, facilitando bastante sua compreensão.

Ilíada já foi comentado aqui, centrado no enredo dos versos. Use o mecanismo de busca do blog.
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Homero. Ilíada. SP. Penguin Compania, 2013, 720 pp.

50 livros imprescindíveis para compreender a literatura universal

Um livro de ficção bom  é aquele que nos consegue contar uma história original, de forma envolvente. O autor não precisa, obrigatoriamente, fazer grandes experimentos formais para que a matéria do romance nos conquiste a leitura de forma ávida. Mas, o conteúdo de uma história não sobrevive sem as operações formais que lhe deem corpo, caracterizando um estilo. Determinado tempo considerado em relação aos acontecimentos nele ocorridos, suas características distintivas, e os homens que nele viveram se refletem num estilo de viver e de expressar-se. Esses períodos de tempo esquematizam, assim, estilos de época que se refletem, na criação literária, em estilos literários. O estilo clássico predominou sob o domínio dos gregos e foi retomado durante o Renascimento e o Parnasianismo. O período das trevas da Idade Média ressurgiu no Barroco, sob o autoritarismo da Igreja Católica, no mundo latino. A ascensão da burguesia dos séculos XVIII e XIX gerou, como forma de expressão artística, o Romantismo, com o predomínio do subjetivismo. Até que a era da industrialização trouxe à classe burguesa excluída da aristocracia, a intensificação da força produtiva excluída da burguesia quanto a fatores econômicos. Com o advento da Primeira Guerra Mundial, o mundo experimentou algo novo que revolucionou a literatura de então, até o presente: o Modernismo. O romance, a partir de então, nunca mais foi o mesmo. O conservadorismo da forma narrativa sofreu um nó que resultou em novos experimentos literários, como o fluxo de consciência, o foco na forma em detrimento do conteúdo, e por aí vai. Durante esse longo período de evolução da forma narrativa, houve obras imprescindíveis que fugiram ao cânone, tornando-se únicas, universais.

As 50 narrativas fundamentais que serão comentadas aqui a partir da próxima semana, são obras que influenciaram sobremaneira tudo o que se criou em forma de ficção a partir delas. O critério de escolha seguiu uma lista que o professor Flávio Loureiro Chaves , de quem tive o prazer de ser aluno, divulgou em uma de suas aulas de Literatura da UFRGS, lá pelo ano de 1976. A lista de agora  foi um exercício de memória, pois a lista me foi perdida. Creio que recuperei todos, ou quase todos. Talvez um ou dois títulos tenham sido trocados. Não tenho certeza absoluta se O jogo da amarelinha estivesse na lista do professor Flávio. Os livros de Borges, pode ser que não tenham sido dois. Mas tenho forte convicção de que O Aleph estava lá. Ficções é certo. Na lista do professor tinha Dom Casmurro. Optei por substituí-lo por Quincas Borba, por questão pessoal.

1.      A Ilíada
2.      A Odisseia
3.      A Divina Comédia
4.      Decameron
5.      Os Lusíadas
6.      Don Quixote
7.      Tristan Shandy
8.      Viagens de Gulliver
9.      Robinson Crusoé
10.     Tom Jones
11.     As relações perigosas
12.     Fausto
13.     O vermelho e o negro
14.     Moby Dick
15.     Madame Bovary
16.     Crime e castigo
17.     Os irmãos Karamázov
18.     Eugênia Grandet
19.     Pai Goriot
20.     Quincas Borba
21.     Anna Kariênina
22.     Guerra e paz
23.     Contos de Gógol
24.     Contos de Tchékov
25.     Lorde Jim
26.     O retrato de Dorian Gray
27.     Em busca do tempo perdido
28.     Metamorfose
29.     O processo
30.     Ulisses
31.     Orlando
32.     Mrs. Dalloway
33.     A montanha mágica
34.     Macunaíma
35.     O som e a fúria
36.     O homem sem qualidades
37.     São Bernardo
38.     O grande Gatsby
39.     A náusea
40.     Ficções
41.     O Aleph
42.     A peste
43.     O tempo e o vento
44.     Pedro Páramo
45.     Grande sertão, veredas
46.     O quarteto de Alexandria
47.     O leopardo
48.     A paixão segundo GH
49.     O jogo da amarelinha

50.     Cem anos de solidão

A neve estava suja

O personagem central de A neve estava suja é uma incógnita, quanto mais queremos saber sobre ele (e esse é o trunfo da história) mais ele se torna escorregadio. Frank Friedmaier vive na pensão de Lotte, sua mãe. O lugar é um prostíbulo que atende, em sua maioria, soldados do exército alemão que invadiu Paris. Frank não tem  perspectivas, levando uma vida ociosa, transando com as garotas da pensão ou frequentando um bar em frente, onde tem um amigo, Fred Kromer, criminoso de carteirinha. Tem uma jovem, ainda virgem que o ama, mas que ele prepara para entregar a Kromer, para ser deflorada. Quando começa a história, ficamos sabendo que Frank já matou um homem, oficial do exército, e ficou com seu revólver. Frank mata sem um objetivo específico, só para saber como se sente depois. kromer põe o jovem em contato com o contrabando de relógios. Frank é preso pelos nazistas portando grande quantidade dinheiro e passa a ser interrogado. O que chama atenção é que Frank não expressa o menor desejo de salvar sua vida. Enfrenta os interrogatórios com coragem. Para de se alimentar e entra numa letargia que lhe parece ser fatal. Sua mãe o visita na prisão para lhe dizer que  fechará a pensão e o abandonará.


Georges Simenon ficou famoso com as histórias do detetive Maigret, mas escreveu outros romances de cunho psicológico mais elaborados, como A neve estava suja, considerado sua obra prima, escrito em 1948, quando a segunda guerra recém acabara.

Tradução de Eduardo Brandão

                      paulinhopoa2003@hotmail.com
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Georges Simenon. A neve estava suja. SP, Cia. das Letras, 2014, 230 pp. Preço de 27 a 34 reais o exemplar novo.

A consciência de Zeno

Uma confissão escrita é sempre mentirosa. Mentimos em cada palavra toscana que dizemos! Podemos falar com naturalidade das coisas para as quais temos frases prontas, mas evitamos tudo quanto nos obrigue a recorrer ao dicionário! Dessa mesma forma, escolhemos de nossa vida os episódios mais notáveis. Compreende-se que ela teria uma feição realmente diversa se fosse narrada em dialeto.
O tema de A consciência de Zeno é a psicanálise, subvertida no romance de forma irônica.  A psicanálise também influencia a estrutura narrativa, pois não é uma obra escrita em ordem sequencial, mas a partir do fluxo da memória em função do tratamento a que Zeno se submete. Quando decide escrever sua autobiografia, incentivado por seu psicanalista, já está velho, os efeitos da Primeira Guerra já se fazem sentir no Trieste, região onde mora.

O motivo condutor da história é o fumo. O fumo é o grande problema de Zeno.Está sempre fumando o último cigarro, mas nunca pára. Chega a anotar datas de que fumou o último. O problema de Zeno é que o último cigarro que fuma é sempre o mais prazeroso.
Zeno procurou o psicanalista porque queria curar-se de uma doença e precisa, assim, descobrir as causas. Achava que a  doença é uma convicção e ele nasceu com essa convicção. Não se lembraria da que contraiu aos vinte anos se não a tivesse naquela época relatado a um médico. Curioso é como recorda melhor as palavras ditas que os sentimentos que não chegaram a repercutir no ar. O doente imaginário é um doente real, mais intimamente que os demais. Isso porque seus nervos são propensos a acusar uma doença quado esta não existia, ao passo que sua função normal seria a de dar um alarme por meio da dor para provocar a busca de alívio. Só os doentes sabem algo sobre si mesmos.

Assim vamos conhecendo Zeno. Era um zero à esquerda. Um inepto. Nunca precisou dar duro no trabalho, pois tinha dinheiro (um tutor cuidava de suas finanças). Vacilou entre estudar Química ou Direito. Decidiu-se ao Direito, achando que teria sido melhor fazer Química. Nunca toma decisões, e quando toma, vai procrastinando até que alguém tome por ele. Zeno se apega a um comerciante (que fica sendo meio um pai adotivo) e apaixona-se por Ada, a mais bonita das três filhas em idade de casar. Na noite em que se apresenta para pedir a mão de Ada, acaba pedindo a três em casamento e sobra-lhe a mais feia, a quem não ama. Casa-se, e aparece a amante. Um dia, a amante quer conhecer a mulher de Zeno. Como tem vergonha de apresentar-lhe a esposa, apresenta-lhe Ada. No final, acaba afastando a amante, apresentando a ela o homem que acabaria sendo seu marido.
Zeno passa o tempo todo querendo achar a cura. No final fica isolado no Trieste e acaba se dando bem, através da especulação financeira.  No final, dá-se conta de que não é só ele que está doente, a sociedade é que está doente.

Tem muito mais coisa interessante na autobiografia de Zeno.Quem apresenta a história é o psicanalista dele. Como Zeno havia interrompido o tratamento, publicou a autobiografia à revelia do paciente. Nota-se de cara tratar-se de um médico que não merece credibilidade, visto que propõe dividir os direitos autorias da autobiografia, se ele voltar ao tratamento que havia interrompido. A tática usada para o tratamento era incutir em Zeno que ele tinha complexo de Édipo, fato que Zeno nunca assimilou. Buscava incessantemente a razão para isso e chegou à conclusão de que só podia ser o tapa que dera no pai, de forma um tanto ocasional, pouco antes do pai morrer.

Italo Svevo (1861/1928) era o pseudônimo de Aron Hector Schmitz, depois italianizado para Ettore Schmit.Nasceu em Trieste, quando pertencia ao Império Austro-Húngaro. O pai era de origem austríaca e a mãe italiana. Fez os estudos iniciais na Áustria. Em casa falava o dialeto triestino. A escolha do pseudônimo resume as duas culturas a que se viu envolvido. É o primeiro autor italiano a usar a teoria de Freud na literatura. Transfigura comicamente a psicanálise e a utiliza no livro. Mas não a subverte por desconhecimento Era estudioso do psicanalista austríaco.

Quem incentivou Svevo a publicar A consciência de Zeno foi o escritor irlandês James Joyce, de quem era amigo. Joyce morou um tempo em Trieste e foi professor de inglês de Svevo.
Excelente livro.

Tradução de Ivo Barroso.
                       paulinhopoa2003@hotmail.com

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Italo Svevo. A consciência de Zeno. Rio, Nova Fronteira, 2015, 400 pp. R$ 35,90

28. A Metamorfose

Gregor Samsa era caixeiro viajante. Escolhera uma profissão cansativa, devido às viagens frequentes que fazia, com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio social sem calor humano. Acordar sempre cedo, sem ter o justo sono. O chefe sempre tratando-o de cima para baixo, que além do mais tinha de se aproximar para responder-lhe, pois seu chefe era surdo. Mas Gregor Samsa tinha a esperança de juntar o dinheiro para pagar a dívida de seus pais e fazer a ruptura com aquele tipo de trabalho que o aborrecia em demasia. A preocupação dele era fazer tudo para a família esquecer o mais rapidamente possível a desgraça comercial que havia levado todos a um estado de completa desesperança. Assim, começara a trabalhar com um fogo muito especial e, quase da noite para o dia, passara de pequeno caixeiro a caixeiro viajante, que naturalmente tinha possibilidades bem diversas de ganhar dinheiro. Passou a ganhar tanto dinheiro que passou a assumir as despesas dos pais e da irmã.

A narrativa inicia-se com a transformação:“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.”

A partir desse acontecimento insólito, a vida de Gregor sofre uma reviravolta. A metamorfose sofrida altera sua relação com o chefe e com cada membro da família.

A metamorfose, escrita em 1912,  é a mais  célebre novela de Kafka (1883/1924), escritor tcheco que escrevia em alemão. Já foi dito antes que a metamorfose de Gegor Samsa é um evento inverossímil. Para o leitor, pode ser que sim.  No entanto, para a família, o evento não é inverossímil, não é um elemento que provoque pavor, a não ser a surpresa inicial ao vê-lo pela primeira vez. É uma presença que perturba, uma presença incômoda, mas é algo assim como se de repente alguém encontrasse um animal feroz em sua residência. Não vai além disso. Não ameaça a ordenação do mundo no qual surge. 

Tradução direta do alemão de Modesto Carone, especialista em Kafka.
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Franz Kafka. A metamorfose. SP, Cia. das Letras, 1997. 102 pp. 

29. O processo

O processo, de Kafka, que começou a ser escrito em 1914, é um dos melhores romances do século XX.

Josef K.,  procurador de um grande banco, ao acordar certa manhã, estranhou a demora da dona da pensão que servia seu café todos os dias. De repente, batem à porta,  entra um homem que ele nunca havia visto antes, acompanhado de mais duas figuras esquisitas. Josef K. estava sendo detido sem ter feito mal nenhum, certamente vítima de uma calúnia. De início, pensou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto arquitetada por motivos desconhecidos, talvez porque ele completasse 30 anos de idade; ou talvez os guardas que invadiram sua casa fossem serviçais da esquina, daí talvez estivesse correndo algum perigo.

Busca argumentar com os guardas o erro que estavam cometendo, mas o inspetor lhe adverte que ele e os guardas, na verdade, não sabiam nada dele. Por isso não saberiam dizer absolutamente nada a respeito do processo, pois desconheciam seu conteúdo. Josef K.  questiona como poderá trabalhar se está detido e fica surpreso ao ver que, na sala encontravam-se mais três pessoas, colegas de trabalho que ele mal reconhecia, que o acompanhariam ao trabalho para que continuasse a ter sua vida normal, até ser chamado para a primeira audiência.

Ao comparecer à primeira audiência, Josef K. se dá conta, diante dos absurdos que lhe são ditos e da manifestação dos presentes que formam duas torcidas, uma a favor dele e outra contra, que tudo aquilo fazia parte de uma organização que mobilizava não só guardar corruptíveis, instrutores e juízes simplórios, mas sustentava uma magistratura de grau elevado e superior, com seu séquito inumerável e inevitável de contínuos, escriturários, militares e outros auxiliares, talvez até de carrascos que consistia em prender pessoas inocentes, movendo contra elas processos absurdos sem nenhum fundamento. Josef K. se insurge contra o juiz e se nega a participar daquela farsa, abandonando a sala.

A partir daí,  com cada um que conversa, obtém alguma informação difusa do processo e de pessoas que sabem alguma coisa dele, ou dos responsáveis pela ação. Como não é chamado para uma segunda audiência, decide ir novamente ao local no domingo seguinte, e percebe que ali reside um casal de funcionários que, toda vez que há alguma intimação, têm de retirar suas coisas do local.
Depois, recebe em casa a visita dos dois guardas que o haviam admoestado na visita da intimação, para serem açoitados por um espancador, na frente de Josef K., como castigo por terem se portado de maneira inaceitável naquela ocasião. Depois aparece um tio do interior que também soube do processo e veio visitá-lo, com preocupações. E assim quase todos sabem alguma coisa do incidente. Decide consultar um advogado, que lhe diz coisas absurdas e sem sentido, quanto a sua defesa.

Josef K. não conseguia mais deixar de pensar no processo. Já tinha refletido com frequência se não seria bom redigir um documento de defesa e apresentá-lo ao tribunal. Queria expor nele um breve relato de vida e, a propósito de cada acontecimento relevante, explicar os motivos pelos quais tinha agido daquela maneira, se esse comportamento devia ser censurado ou aprovado segundo o seu juízo atual, e que razões podia invocar em relação a este ou aquele. As vantagens dessa defesa por escrito, diante da mera defesa através do advogado, de resto não de todo irrepreensível, eram indubitáveis.

E assim ele vai se enredando em uma situação absurda que prende a atenção do leitor até o final, no intuito de buscar compreender de que é acusado, quem o acusa, numa obra magnífica, segura de mistério, angústia, premonições e suspense.
O processo apresenta uma contradição fundamental que sustenta a obra, o paradoxo de que, quanto mais fantástica a aventura vivida, mais natural se apresenta a narrativa, porque por mais estranhos que sejam os fatos que envolvem as personagens, elas os aceitam com naturalidade e sem espanto. Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender. É nessa contradição que reside o segredo de Kafka; nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.

Tradução de Modesto Carone.
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Franz Kafka. O processo. SP, Cia. das Letras, 1997, 334 pp. R$ 19,10

30. Ulysses

Ulysses é um romance com personagens simbólicos, realizando ações simbólicas realizadas, entretanto, num mundo real, Dublin do dia 16 de junho de 1904. Trabalhando intensamente o monólogo interior, o irlandês judeu Leopold Bloom vive uma odisseia moderna no decorrer desse único dia. Além dele, aparecem com destaque sua esposa, Molly Bloom e seu amigo Stephen Dedalus. Este representa a identidade oculta de Joyce, não só neste romance, mas em  Retrato de um artista quando jovem, em que narra a infância e juventude de Stephen Dedalus até sua ida à escola, como interno.

O romance de 1112 páginas retrata uma viagem ao mundo interior caótico de Leopold Bloom, parodiando a Odisseia de Homero: Ulisses (Leopold), Telêmaco (Dedalus) e Penélope (Mary Bloom). Há outros personagens do romance de Joyce que fazem referências às personagens da obra de Homero.  Joyce faz uso da paródia, como uma técnica narrativa para desfigurar as obras-primas do passado, fazendo um ataque à própria literatura. Ulysses tem um tom jocoso, satírico.

Leopold Bloom, um homem comum, judeu mas batizado como católico, é casado há 16 anos com Molly, cantora de talento, linda e cobiçada. Os dois tiveram um filho morto  depois de 11 dias de nascido. Esse acontecimento afeta a vida dos dois para sempre.  Eles têm, ainda, uma filha de 15 anos que vive fora de casa, devido a atritos com a mãe.

No dia 16 de junho de 1904, Bloom sai cedo de casa para acompanhar o enterro de um conhecido. Ao voltar do enterro, vai ao centro da cidade até o jornal para os quais presta serviço  publicitário. Feito isso, poderia voltar para casa, mas ele não quer que isso aconteça, por enquanto. Daí começa, então, sua odisseia que dura 18 horas, em busca de pretextos para estar na rua até que tenha certeza de que, ao chegar em casa, sua mulher esteja dormindo. É que eles estão em crise e Bloom sabe que, durante a tarde, ela irá receber um amigo, Boylan, que ele pensar ser amante dela. A história ganha fôlego ao retratar, também, a vida de Stephen Dedalus  e de Molly, que apresenta no final do romance um longo monólogo interior. Além dessas três vozes, há inúmeras outras vozes que se fazem ouvir, tornando a narrativa interessante, mas ao mesmo tempo complexa.

O objetivo de Joyce, em Ulysses, talvez tenha sido o dar uma forma e um significado ao imenso panorama de futilidade e anarquia que é a vida contemporânea.  É uma ficção construída em cima de estruturas de um mito. Leopoldo Bloom é um cara que sabe sentir, mas que muitas vezes não tem capacidade de se expressar. Quando consegue a capacidade expressiva, desaprende a do sentir. Bloom sofre de uma solitária falta de articulação, numa verborragia aparentemente sem sentido algum. As poucas ideias ou sentimentos únicos e de sentidos múltiplos são facilmente deformados em clichês convencionais. Quando Bloom observa, por exemplo uma lingerie numa vitrine, ele diz: "Perfume de abraços o todo assaltou. Com carne faminta e obscuramente, por adorar ardia mudo."

Joyce apresenta Bloom como o homem andrógino do futuro. Mas não antes de definir as necessidades do homem moderno na figura de Stephen Dedalus, um jovem em fuga do machismo presunçoso do mundo da Dublin de seu pai. A personalidade de Bloom reflete um espelho partido de muitas faces. E esse eu que Joyce celebrou em Leopld, um sujeito culto e versátil, que combina inúmeras vidas passadas em sua própria vida.

Ulysses apresenta uma mudança de técnica narrativa a cada um dos episódios, aparentemente autônomos. A obra contém um quadro que discrimina, para cada episódio, uma cor, uma técnica narrativa, um símbolo, etc, além de atribuir horários e sentido a cada trecho do livro. Joyce teria elaborado esse quadro para facilitar o acesso dos amigos ao livro e a seus detalhes.

Há três traduções da obra em português no mercado: o linguista Antônio Houaiss apresentou a primeira tradução brasileira em 1966. Foi esta edição que tentei ler, mas parei na metade por não estar preparado ainda para as inovações formais de Joyce. Em 2007 saiu a tradução da professora Bernardina Pinheiro, pela editora Objetiva, à qual ainda não tive contato.  Em 2012 saiu a de Caetano Galindo, pela Penguin/Cia. das Letras, considerada a melhor.  É esta que eu li toda e recomendo aos leitores. Aos que se interessam por literatura de qualidade, recomendo o livro do próprio tradutor, Galindo, Uma visita guiada ao Ulysses de James joyce, que busca auxiliar na aproximação do leitor com a obra.

Tradução de Caetano Galindo
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James Joyce. Ulysses. SP Penguin/Companhia, 2012, 1112 pp. 

domingo, 5 de abril de 2015

O filho de mil homens

Crisóstomos é um homem solitário de 42 anos, só com metade de tudo. Falhara nos amores, muito complicados. Pensava que havia gente a exercer o amor como um crime. Mas as coisas não precisam ser assim. A solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.

Sonha em ter um filho, constituir uma família baseada em laços de amor e amizade mais do que em laços consanguíneos. Conhece um adolescente órfão, Camilo, filho de uma anã que morreu afirmando que Camilo era filho de quinze homens da aldeia onde morava. Os dois vão morar juntos. Camilo pede a Crisóstomos que procure uma mulher para casar, pois quer ter uma mãe.

Crisóstomos encontra Isaura, uma mulher desiludida,um traste que a família procurou casar a qualquer custo e acabou casando-a com Antonino, homossexual delicado que a procura para buscar esconder-se das torturas que as pessoas da vila, especialmente os homens, exerciam sobre ele.

As coisas não dão certo. Antonino foge no dia do casamento. Isaura fica desconsolada. Consegue anular o casamento. Mas perde o gosto pela vida. Uma vez, quando vai junto ao porto para chorar seu infortúnio, encontra Crisóstomos. Os laços vão se firmando, forma-se um núcleo familiar que se une inicialmente pelo sofrimento e solidão, mas que se vai constituindo em amor e respeito ao próximo. Antonino é trazido para junto dessa família especial e começa a ter sua identidade respeitada, acabando por encontrar um amigo igual a ele em seu desejo.Afinal, segundo Valter Hugo Mãe, Somos o resultado de muita gente.

Mais um belo romance recheado de delicadezas no trato com o sentimento humano e a dignidade de viver.
                       
                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. SP, Cosac Naify, 2012, 256 pp. R$ 39,00

domingo, 29 de março de 2015

O professor

Heliseu é um homem do século passado vivendo num Brasil contemporâneo. É um velho professor de Linguística, acorda de um sonho agitado no dia em que deve preparar um discurso de agradecimento na homenagem que receberá na universidade. No sonho, Heliseu era abraçado por um inimigo pegajoso que o agarrava de forma insistente buscando beijar seus lábios.

Esse sonho é o ponto de partida para o professor repassar sua história de vida. Nessa trajetória de revisitar sua memória, ficamos sabendo que Heliseu era especialista nos processos de construção e transformação da linguagem, mas não se comunicava com aqueles de quem era próximo. Passou a vida toda achando que levava uma vida normal com a mulher, até o dia em que ela se suicida, jogando-se da sacada do apartamento. Descobriu a  homossexualidade do filho, quando o surpreendeu com um amigo no quarto. Esse filho mais tarde muda-se para o Estados Unidos, casa-se com um americano e adotam um filho. Heliseu se dá conta de que nunca tivera uma conversa afetiva com o filho, abraçara-o uma única vez, no enterro da esposa. A velha empregada que o serve há muito tempo também lhe é estranha. Nesse dia em que se lembra da vida, pensa em convidá-la para tomarem café juntos, mas recua ante a possibilidade dela pensar algo de errado em relação ao gesto.

Heliseu foge da necessidade de reconhecer sua verdade, já que a verdade é o produto do medo da morte. Suas lembranças, mesmo as mais trágicas, passam-lhe pela mente como coisa corriqueira, negadas. É um covarde que aceita as derrotas como se as coisas fossem assim e pronto. 
               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Cristóvão Tezza. O professor. 2ª ed, Rio, Record, 2014,  240 pp, 35,00

domingo, 22 de março de 2015

K. Relato de uma busca

Bernardo Kucinski (1937) esclarece o leitor em K. Relato de uma busca,  que "Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu". 

Um homem morou por tinta anos em uma casa e costumava receber de tempos em tempos  cartas de um banco com oferta de produtos financeiros  endereçadas a sua filha que nunca morou lá. De início, questionou como era possível enviar reiteradamente cartas a quem desaparecera há mais de três décadas. Sua filha tinha sido morta pelo regime militar e seu corpo nunca foi encontrado.  Por que teria ela dado esse endereço, se a casa havia sido comprada seis anos depois de seu desaparecimento? De fato, os fugitivos do exército que entravam para a clandestinidade não tinham lares fixos. Talvez ela tivesse dado aquele endereço ao banco como forma de se proteger.

Esse homem é K.,um imigrante judeu, professor emérito, escritor de livros em iídiche,língua que os judeus da Europa oriental falavam e  hoje é língua morta, substituída pelo hebraico após a criação do estado de Israel. Bernardo Kucinski descreve a agonia e a angústia desse um homem que vê a filha desaparecer subitamente, saber que casou no exílio como forma de se proteger ela e o marido em caso de fuga, sem que pudesse participar, bater em diversas delegacias e departamentos do exército e nunca ter uma resposta concreta de que a filha havia sido mesmo sequestrada, sem nunca saber se estaria viva ou morta.

Quem  acompanhou ou tem conhecimento do que foi o doloroso processo de perseguição aos presos políticos, vai reconhecer no livro personagens que remetem a figuras conhecidas do meio repressivo, a maior não nomeada, com exceção do delegado Fleury. Esses acontecimentos, entretanto, ganham fôlego maior pela força da ficção representada pelo personagem K.

O desaparecimento da irmã do escritor durante a ditadura militar serviu de mote para a construção dessa narrativa carregada se suspense, agonia e compaixão.
                                                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Bernardo Kucinski. K. Relato de uma busca. SP, Cosac Naify, 2014, 192 pp, R$ 29,90