domingo, 18 de dezembro de 2016

25. Lorde Jim

O polonês Joseph Conrad (1857/1924) nasceu numa região que, na época, era disputada pela Polônia, Rússia e o Império Austro-Húngaro. Em casa, falava polonês, na escola, o russo. Em sua juventude, talvez para fugir do serviço militar russo, foge e começa a trabalhar em navios mercantes, vivendo um bom tempo em Marselha, aprendendo o francês, passando a ler a literatura francesa, especialmente Flaubert, de quem era admirador. Entra em contato com a língua inglesa, através de sua literatura, e passa a viver em Londres, onde é recebido de braços abertos. Começa, assim,  a escrever suas estórias em inglês, sendo considerado um dos escritores mais significativos da literatura inglesa. Conrad, que escreveu a maior parte de seus livros, tendo o mar como cenário, não é apenas um escritor de aventuras marítimas para o entretenimento, suas personagens têm a alma em profundidade. Seus melhores livros são: Coração das trevas (já comentado aqui), Lorde Jim e Nostromo.
Lorde Jim é narrado por Marlow, personagem recorrente na obra de 

Conrad, contando a história de Jim, um vendedor marítimo. Sua característica essencial era a esperteza. Seu trabalho consistia em abordar os capitães dos navios que ancoravam no porto e levá-los para um armazém cheio de coisas boas de comer e beber a bordo, além de todos os acessórios necessários à embarcação. Jim tinha para com seus clientes um devotamento sublime. Tinha a vantagem de ser possuidor de uma educação de marinheiro. No porto, todos os conheciam por Jim, e nada mais. Tinha outro nome, mas procurava ocultá-lo, para esconder um fato que teve grande repercussão em sua vida. Quando acontecia de alguém descobrir seu passado, buscava fugir o mais rapidamente dali e procurar outros portos para trabalhar.  Era um marinheiro exilado do mar. Como esse fato o perseguia, havia sido visto nos lugares mais distantes e exóticos do mundo. Mais tarde, quando se viu escorraçado para sempre dos portos e da sociedade dos brancos, passou a viver entre os malaios da aldeia que escolhera na selva para aí esconder sua deplorável sensibilidade. Entre os nativos, ganhou uma palavra a seu nome: chamavam-lhe Lorde Jim.
Quem nos conta boa parte da história é Marlow, que encontra Jim no tribunal, julgado por abandonar o navio em que trabalhava, quando afundava com grande número de muçulmanos, fugindo num bote com o capitão e mais dois marujos. Aconteceu que o navio não afundara e dos quatro que abandonaram a tripulação à deriva, apenas Jim permaneceu para ser julgado. Condenado, é proibido de exercer o serviço de marinheiro no mar. Com a ajuda de Marlow, consegue uma série de empregos que acaba abandonando, quando é descoberto pelo que fez. O problema de Jim, é que ele acredita que é possível começar do zero e refazer sua vida, mas não consegue agir diante de seu passado, que acaba aniquilando-o aos poucos. As aventuras de Jim, fugindo de seu passado,impõem-lhe, com crueldade,  quebrar, destruir, aniquilar tudo o que vê, conhece, ama ou odeia, no afã de querer varrer para sempre de sua vida, a tragédia moral que vivera. O desconforto causado pela indefinição, pelo autoboicote e pela dificuldade de assumir um erro, provoca- lhe apreensão, medo e angústia.
A tradução que li é de Mário Quintana. Há uma tradução de Julieta Cupertino, que vem se dedicando a traduzir as obras de Conrad para o português, pela Editora Revan.

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CONRAD, Joseph. Lorde Jim. Tradução QUINTANA, Mário. São Paulo: Abril Cultural, 1982. Esta edição você encontra nos sebos virtuais, valendo de 3 a 30 reais.

24. Os contos de Tchekov

Já se passou quase um século desde que Tchecov escreveu seus contos, atuais e eternos. Momentos de vida, fragmentos arrancados do real, trechos da existência cotidiana. A distância no tempo e no espaço não diminuiu ou empalideceu a força dessas estórias ou a emoção que sentimos ao lê-las. E isto acontece porque Tchecov - como todos os grandes gênios criadores - trata da essência do ser humano. As figuras que nos apresenta são gente como nós, como nossos amigos, vizinhos e conhecidos. As emoções que sentem são iguais às nossas. E as tramas descritas em cada um de seus contos - apesar de situadas na Rússia czarista - estão acontecendo à nossa volta e conosco mesmo.

Tchecov foi um realista no sentido de expressar em seus textos a "verdade absoluta e honesta". Quanto mais objetivo, mais forte. Suas histórias respiram realidade, seus personagens palpitam vida sem um só efeito supérfluo com toda a riqueza e profundidade de seu conteúdo humano. Tchécov, no entanto, jamais se permitiu qualquer tipo de pieguice, de sentimentalismo.  Mantinha um olhar desarmado de idealizações de qualquer espécie.  Muitos de seus contos possuem uma atmosfera de tragédia silenciosa, um beco sem saída, numa atmosfera de tristeza difusa, às vezes revestidas de ironia e humor.

Entre os contos maravilhosos de Tchekhov destaco O professor de letras, em que Mikítin toma-se de amores por Maniússia, de 18 anos, que era apaixonada por cavalos. Passa a fazer visitas constantes a sua casa e os dois acabam casando. A irmã mais velha, entretanto, mantém-se solteira e isso acaba causando algum transtorno à família. Ao longo de sua vida conjugal atrelada a seu contato social, foi dando-se  conta de que era, na verdade, um professor de literatura medíocre, que nunca tivera talento para o magistério. Na conversa dos demais, passou a perceber o conteúdo vazio de suas conversas, em que as pessoas só se ocupavam em dissimular a ignorância e o descontentamento com a vida. Míkitin, assim, passa a ter vontade de largar tudo, voltar a Moscou e revisitar o quarto de pensão em que morava quando era solteiro.

Em O assassinato,  um garçom decadente que já tivera vida melhor, serve em uma estalagem onde se cruzavam duas estradas de ferro. Lá, viviam pessoas igualmente decadentes e derrotadas na luta pela vida. Um dia acontece um assassinato, presenciado por esse garçom. o assassino oferece-lhe dinheiro em troca do silêncio. O garçom reluta mas aceita o dinheiro. Mesmo assim o assassino acaba descoberto e preso. Tchékhov descreve a vida miserável e desumana com incrível realismo. O escritor havia conhecido a prisão onde narra a parte final do conto.

Em Os mujiques, temos a classe camponesa apodrecida pela miséria e abandono do poder público. A grande maioria é constituída de analfabetos. Os poucos que aprendem a ler, geralmente os homens, partem para Moscou para trabalhar em casas abastadas. O mujique, isto é, o camponês russo, hipoteticamente vivia de seu próprio trabalho, depois que a servidão foi abolida na Rússia da segunda metade do século XIX. Na prática, entretanto, muitos viviam como escravos livres, pela falta de incentivo para gerarem sua própria subsistência com recursos próprios. A religiosidade transparece de forma ineficaz para deter a crueldade presente nessa classe social.

O homem extraordinário retrata a vida de um avarento compulsivo. Numa madrugada, uma parteira é despertada por um homem que quer contratar seus serviços, mas exige que ela lhe dê o preço antecipadamente, quer pagar-lhe de forma justa, nem um centavo a mais ou a menos. Ela lhe dá o valor, ele acha demais. Ela baixa um pouco, mas ele lhe quer dar menos. Pelo valor que lhe quer pagar, ela prefere então fazer de graça. Ele quer ser justo e pagar o que ele acha o correto. Ela recusa. Ele vai embora mas volta em seguida, e decide pagar o que ela havia pedido. A parteira realiza o parto, mas observa que o homem permanece calado e inexpressivo. A única que coisa que diz, ao ver o filho, é dizer: "Pois é, graças a Deus, há um ser humano a mais no mundo". Quando ele se afasta , a parteira fica sabendo da parturiente que seu marido é um homem justo e bom, ponderado e sensato economicamente, mas tudo isso de forma tão extraordinária que todos sentem-se desconfortáveis ao lado dele. A mulher e os filhos lhe têm medo, apesar dele nunca bater e grita com ninguém. A parteira sai da casa tão atordoada que no caminha se dá conta de que não havia cobrado a conta.

São centenas de contos e algumas novelas. Não esqueçamos de que Tchékhov foi um dramaturgo de sucesso com O Jardim das Cerejeiras, A Gaivota, Tio Vânia e As três irmãs. O diretor russo Stanislavski gostava de montar suas peças.


Os contos comentados aqui foram retirados dos livros Um homem extraordinário e outras, da LPM, com tradução de Tatiana Belinki; O assasssinato e outras histórias, da Cosac Naify, com tradução de Rubens Figueiredo e Treze contos de Tchékhov, da Ediouro, com tradução de Maria Jacintha. Os treze contos foram relançados pela Edibolso (Record). A outra seleção dos contos de Tchékhov feita e traduzida por Boris Schneiderman pela Editora 34, A dama do cachorrinho e outros contos,  está na fila de leitura.

23. Os contos de Gógol

Gógol(1809/1853), não foi propriamente russo; é ucraniano, escrevendo em língua russa. Inspirou na literatura russa do século XIX o intenso sentimento social, a simpatia para com os ofendidos e humilhado, a indignação contra as injustiças da vida russa, numa prosa realista que não é realista, pois seus personagens são sempre caricaturas monstruosas ou burlescas. Seus "heróis" são todos caricatura, até Akaki Aakievitch de O Capote é uma caricatura burlesca e comovente dos humilhados da terra russa. Ao descrever a realidade, deforma-a e essa deformação fornece o humorismo intenso de sua obra.
O leitor atento deve conhecer Gógol através de sua peça O inspetor geral e do romance Almas mortas, traduzidos para o português. Mas o melhor de Gógol está reunido em O capote e outras novelas de Gógol, lançado pela Editora Civilização Brasileira, com tradução de Paulo Bezerra. Vamos destacar, aqui, a síntese de três contos, para que o leitor tome conhecimento do estilo original do autor.  Você encontra a edição da Civilização Brasileira nos sebos virtuais.

 O Capote
Havia alguma coisa sobrenatural que afastava Akáki Akákievitch dos colegas de trabalho. Ninguém podia se lembrar quando e por recomendação de quem entrou para o departamento. Por mais que mudassem de diretores e chefes de toda espécie, viam-no sempre no mesmo lugar, na mesma posição, no mesmo cargo, o mesmo escrevente, de tal maneira que depois passaram a acreditar que ele parecia mesmo já haver nascido inteiramente preparado, de uniforme e calvo. No departamento ninguém lhe prestava o menor respeito, com uma frieza despótica, muitos sem lhe dirigir o olhar. E se  olhava para alguma coisa, via sempre em tudo suas linhas limpas, escritas com uma caligrafia igual, e só perceberia que não estava no meio de uma linha, mas no meio da rua, se um cavalo aparecesse de repente e lhe pousasse o focinho no ombro. Em casa, sentava-se imediatamente à mesa, sorvia rapidamente sua sopa de verduras e comia um pedaço de carne bovina sem perceber-lhe o sabor.
Há tempo começara a sentir um ardor especialmente forte nas costas e nos ombros. Examinando seu capote em casa, descobriu que justamente nas costas e nos ombros, o tecido virara gaze quase transparente, devido ao desgaste do forro. Seu capote era objeto de galhofa do pessoal da repartição. A peça era de um formato estranho, a gola sempre diminuindo de ano para ano, pois servia de remendo para outras partes. Akáki decidiu que era hora de levar o capote ao alfaiate para mais um remendo, mas o alfaiate recusou-se a isso, era necessário fazer um novo capote.
A muito custo Akáki concordou com a ideia de gastar suas economias para a confecção de um novo capote. Quando o vestiu e apareceu no trabalho, foi finalmente visto pelos colegas. Passou a ser convidado para uma festa e todos notaram sua presença, isto é, seu novo capote. Ao voltar para casa, entretanto, foi assaltando e levaram seu capote. Quando apareceu ao serviço, no dia seguinte, os colegas, por compaixão, aconselharam-no a prestar queixa para tentar reaver o capote. Mas não ao inspetor do bairro, que era figura insignificante, mas a uma pessoa importante que pudesse lhe trazer um resultado satisfatório a sua perda.
Essa pessoa importante deu-lhe um chá de banco, fazendo-o esperar o dia todo. Quando o atendeu, com descortesia, exaltou-se furiosamente com a ousadia de Akáki, do pedido insignificante de Akáki. O pobre homem saiu de lá vexado pela reprimenda e chegou em casa sentindo-se doente. Teve febre e morreu de desgosto. Assim, levaram o morto e o enterraram. Petersburgo ficou sem Akáki, como se ele nunca tivesse existido.

O nariz
Ivan Iákovlievitch era um tremendo beberrão. Embora barbeasse queixos alheios todos os dias, o seu estava sempre para barbear. Tinha um fraque preto cheio de nódoas amarelas e acinzentadas com a gola brilhando de suja. Quando barbeava o assessor Kovaliov, este lhe dizia sempre que as mãos de Ivan estavam sempre fedendo. Um dia, pela manhã Ivan acordou e foi tomar café com pão recém-feito pela esposa e, ao partir o pão encontrou uma massa esbranquiçada que, analisando bem, chegou à conclusão de que se tratava do nariz de Kovaliov. Apavorado, saiu à rua em direção à ponte para se livrar do nariz, quando é interceptado por um guarda. Enquanto isso, Kovaliov, também nessa manhã, acordara cedo e pediu um espelho para verificar uma espinha que lhe brotara no nariz. Surpreso, viu que sua face estava lisa, sem a presença do nariz. É que o nariz de Kovaliov tomara vida própria, com vistas a tornar-se independente do dono. Kovaliov vai à polícia e começa a caçada ao nariz fujão.

Noite de Natal

Numa aldeia russa era o período do Natal, quando a comunidade local preparava suas canções e apresentações populares. Nessa aldeia havia um ferreiro temente a Deus, que desenhava imagens de santos, uma delas exposta na igreja. O momento crucial de sua arte foi quando pintou um quadro na parede do átrio direito de uma igreja, no qual reproduziu São Pedro no dia do juízo final, expulsando do inferno o diabo que, assustado com a possibilidade de seu fim, jurou vingar-se do ferreiro. Foi nessa noite de Natal que o diabo decidiu roubar a Lua, sabendo     que o velho Tchub, queria fazer uma caminhada para visitar o amigo sacristão que morava perto dali. Com a noite completamente escurecida pela falta de luz, Tchub não sairia de casa, atrapalhando a visita que o ferreiro faria à filha de Tchub para pedir seu coração. Aconteceu de Tchub acabar saindo e se perdendo na escuridão, tendo voltado a sua casa, sem saber que era a sua. O ferreiro, coitado, recebeu um não da jovem adolescente e decidiu aliar-se ao diabo para buscar os sapatinhos de ouro da czarina, a fim de conquistar o coração da jovem.

22. Guerra e Paz

Guerra e paz acompanha a vida de quatro famílias aristocráticas: Bolkonski, Rostóv, Bezukóv e Kuráguin, tendo como pano de fundo a invasão da Rússia por Napoleão. Seu enredo abrangente explora o valor da família e mostra como a vitória na vida e na guerra vai além do acaso e das ciscunstâncias.

O romance se inicia em 1805, no salão da casa de Anna Pavlovna, dama de honra e dama favorita da imperatriz. Ali ocorre uma reunião da nobreza russa de Petersburgo, onde o tema principal é a iminente invasão francesa ao país, comandada por Napoleão Bonaparte. Nesse encontro, estava pela primeira vez numa reunião social Pierre (Piotr), um jovem gordo e corpulento, filho ilegítimo de um famoso grão-senhor do tempo da imperatriz Catarina,o Conde Bezúkhov, que estava moribundo em Moscou. Pierre ainda não havia trabalhado em parte alguma, acabara de chegar do exterior, onde fora educado. Vivia, então, na casa do príncipe Vassíli Kuráguin e participava da vida de orgias de seu filho Anatole, o mesmo que pretendiam endireitar casando-o com a irmã do príncipe Andrei Kolkónski, cuja família era uma das mais ricas da Rússia.

O conde Bezúkhov morre, reconhecendo Pierre como filho, deixando-lhe, assim, imensa fortuna. O príncipe Vassíli era um homem mundano,  de sucesso na sociedade. Conforme as circunstâncias e as relações pessoais, vinham-lhe planos e ponderações. Com a mudança de Pierre na sociedade russa, a partir de sua recente fortuna, Vassíli pensava em conquistar sua confiança e amizade com vistas a compensações financeiras. Também pensava que não seria nada mal casar a filha Hélène com Pierre. Os dois casam-se, mas a vida de Pierre cai num marasmo sem fim. Hélene era chegada a grandes festas em sua casa e a trair o marido. Pierre rompe com a esposa e passa a morar sozinho em uma de suas propriedades. Entra para a maçonaria com o intuito de buscar salvar sua alma, vendo a vida com olhos menos mercantilistas.

A sociedade de Petersburgo, após a vitória de Nopelão em Austerlitz, girava em torno de dois círculos sociais: o da casa de Anna Pávlovna, onde predominava os russos patriotas, e o de Hélène, onde se desmentiam os boatos sobre a crueldade dos franceses em relação aos russos e certa admiração por Napoleão Bonaparte.
Poucos anos depois Napoleão ataca novamente a Rússia, submetendo Moscou a seu domínio. Ocorrem saques e a cidade é incendiada. Nesse período, Pierre encontra-se no exército. Ao presenciar tanta barbaridade por parte dos franceses, arma um plano para matar Napoleão Bonaparte. O plano não dá certo,Pierre é preso, mas 
escapa do fuzilamento.

A condição física de Pierre, como sempre acontece, acompanhava sua condição moral. A comida grosseira a que não estava acostumado e a vodca que bebera naqueles dias, a ausência de vinho e de charutos, a roupa de baixo imunda e que não era trocada, as duars noites que havia dormido só pela metade, deitado num sofá curto e sem roupa de cama, tudo isso impelia Pierre a um estado de irritação próximo da demência.

Quando entrara para o exército, estava sofrendo assédio da esposa para anulação do casamento, para se casar com outro nobre. Mas Hélène morre antes disso. Quando os franceses abandonam Moscou, Pierre volta à vida social e reencontra Natacha, por quem tinha uma paixão recolhida. Os dois acabam casando, tendo filhos e vivendo uma vida aparentemente feliz no meio rural.

Pierre é o personagem central do romance, na medida em que é o que sofre uma transformação moral em sua conduta perante a vida. De nobre endinheirado, chegado à bebida e às mulheres, passa a ter seu olhar voltado às classe menos favorecidas, no caso os trabalhadores rurais, que no início do século XIX ainda viviam na condição de servos. Através de Pierre, Tolstói tece um verdadeiro tratado sociológico, propondo uma nova história para a Rússia,um anarquismo respeitando a ordem das coisas.

O segundo tomo do romance contém, como foco importante da narrativa, o entrelaçamento amoroso entre o príncipe Andrei, a condessa Natasha e Pierre. Andrei tinha Napoleão como ídolo, mas lutou contra ele, como auxiliar do comandante Kutuzov. Ferido na batalha de Austelitz, é dado equivocadamente como morto. Resgatado, retorna a Petersburgo, quando sua esposa está dando à luz. A mulher morre no parto e, a partir daí, Andrei, amargurado,retira-se da guerra e do convívio social, passando a dedicar-se à educação do filho. Anos depois, ele retorna a Petersburgo e é apresentado à condessa Natasha Rostova e apaixona-se por ela, voltando a ter gosto pela vida. Ela aceita o noivado, mas seu pai, preocupado pelo fato de Andrei ser bem mais velho que ela e também por que a quer casada com um aristocrata rico, pede o prazo de um ano para decidir sobre as bodas. Andrei parte em viagem e, nesse tempo, Natasha se apaixona pelo libertino Anatole Kuragin, incentivada por sua irmã Hélène, ex-mulher de Pierre. Ao voltar, Andrei descobre a traição e rompe com Natasha e acaba indo para a guerra mais uma vez. O casamento de Natasha com Anatole, não se realiza,entretanto. Ferido gravemente em combate, Andrei volta à cidade e acaba perdoando Natasha, antes de morrer. É quando Pierre toma coragem de declarar seu amor a Natasha, sendo por ela correspondido.
Esse segundo volume contém, também, os pensamentos filosóficos, uma reflexão moral sobre a guerra e a paz.

Tradução e apresentação de Rubens Figueiredo

            paulinopoa2003@yahoo.com.br
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Lev Tolstói. Guerra e Paz. SP, Cosac Naify, 2011,2.538 pp. 2 tomos. Dê uma olhada na obra na Amazon, com preços especiais.

21. Anna Kariênina

Entre os muitos dilemas abordados na literatura, especialmente a realista, um deles é a escolha que algumas mulheres fazem e que acabam  destruindo suas vidas. Vou citar dois casos, aparentemente antagônicos e trágicos: a de Flora, em Esaú e Jacó, de Machado, e a de Anna kariênina, de Tolstói. No romance do genial Machado de Assis, Flora é uma jovem cortejada por dois irmãos gêmeos diametralmente opostos:  Pedro é monarquista conservador e Paulo é liberal republicano. O problema para Flora, é que os dois são tão idênticos fisicamente, que ela não consegue distingui-los e, por isso mesmo, não consegue escolher, já que ama os dois ao mesmo tempo. A tarefa da escolha é tão atormentadora, que ela enlouquece e morre.  No romance de Tolstói, Anna é uma mulher casada que leva uma vida conjugal tediosa com o marido, mas que preza o luxo dos salões de Moscou e São Petersburgo. Num desses encontros, Anna Kariênina corresponde ao amor de Vronsky, jovem militar,  e faz a escolha de juntar-se ao amante, sem levar em conta as consequências que essa atitude poderá trazer em sua vida, numa sociedade em que a mulher era subserviente ao marido e onde o divórcio era visto com ressalvas. Um dos problemas de Anna, é que ela quer viver o idílio, sem separar-se legalmente o marido, para não perder o contato com o filho. Isso desgosta Vronsky, que quer o divórcio da amante para formar uma nova família e dar segurança a ela e ao filho nascido desse relacionamento. 
O isolamento deles, motivado mais por Anna, acaba causando uma fissura na relação dos dois, pois Vronsky quer assumir a mulher e tornar sua relação legítima e Anna despreza, aparentemente, as relações sociais, ao mesmo tempo em que sente falta desse convívio, já que é fútil, vazia e imatura emocionalmente. Seu ciúme doentio acaba minando a relação, até o momento em que ela, numa espécie de surto paranoide, passa a pensar que o amante já não a ama mais, depois que ele se afasta devido a uma forte discussão.   Há uma série de desencontros e Anna toma uma atitude trágica.
Tolstói constrói  Anna Kariênina, com  descrições sublimes, tão  próximas e tão distantes, com intensa força dramática e beleza literária. O autor construiu uma das mais emblemáticas  personagens da literatura mundial, uma mulher que combina doçura e uma capacidade inesgotável de amar , até às últimas consequências.

As questões sociais, que sempre preocuparam o autor russo, marcam presença no romance através de Liévin, que faz um papel mediático entre os camponeses e a alta sociedade. Liévin, apesar de ser alto proprietário, é preocupado com questões sociais camponesas, como, por exemplo, a criação de escolas agrárias. Liévin é um personagem que, a princípio, demonstra-se como bruto, mas que, ao chegar à própria casa, revela-se um verdadeiro filósofo e pesquisador, engajado em amplos problemas lógicos, e até mesmo estava escrevendo um livro sobre a agricultura na Rússia. Liévin é o alter ego de Tolstói.

Tradução de Rubens Figueiredo
                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Liev Tolstói. Anna Kariênina. SP, Cosac Naify. 2005, 816 pp

A Amazon está comercializando o livro por um ótimo preço.

20. Quincas Borba

Rubião fitava a enseada, — eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
- Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...

Quincas Borba é um romance realista. Não o realismo que reduz seus personagens a simples produtos da sociedade ou à sua carga genética. Trata-se de um realismo em vários níveis de leitura, com toques psicológicos, com uma ironia fina inteligentíssima. O excerto acima ilustra o fato de que Rubião, no presente momento, é um capitalista, pensando na transformação que sua vida tivera, quando ficou rico. Rubião recém entrou no mundo dos que avaliam as coisas sob o ponto de vista do lucro. Mas há um abismo entre a consciência e os sentimentos de Rubião (que acabará levando-o à loucura).

Quincas Borba começa em1867 e termina em 1871. Rubião,  modesto professor primário, herda do filósofo Quincas Borba uma fortuna, com a condição de cuidar de seu cachorro, a quem dera o próprio nome. Entretanto, com o dinheiro herda também a loucura do amigo. Sua fortuna se esvai em ostentação e no sustento de parasitas; mas serve sobretudo como capital para as especulações comerciais de um arrivista hábil, Cristiano Palha, por cuja mulher,Sofia, Rubião era apaixonado. Palha usa a sensualidade de Sofia, sua esposa, para atrair Rubião e, assim, espoliá-lo. Ao contrário de Bentinho, que queria esconder Capitu dos olhares alheios, Palha tira prazer da inveja dos outros. Sofia também gosta de atrair os homens, anda habitualmente muito decotada, apesar de seus desejos de um possível adultério fiquem apenas na fantasia.

No fim, pobre e louco, morre abandonado. Os fracos e os puros foram sutilmente manipulados como coisas e em seguida são postos de lado, mostrando os crápulas como triunfadores. Rubião observava em sua solidão, que o cachorro que  maltrata vez ou outra, era humano. Seria o Quincas Borba cachorro o próprio filósofo Quincas Borba que começa como homem, enlouquece e acaba como um pobre bicho, fustigado pela fome e maus tratos.

É do filósofo e louco Quincas Borba o conceito de Humanitas, que encerra o  princípio de substância ou vontade. O encontro das duas manifestações, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas,  porque a supressão de uma é condição da sobrevivência da outra, Daí o fato de Quincas Borba afirmar o caráter benéfico da guerra. Ele cita a Rubião a famosa expressão "ao vencedor, as batatas". Supõe o leitor um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói.  Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
Ao Palha, a fortuna de Rubião. A este, a loucura, a miséria e o esquecimento.
             
                              paulinhopoa2003@hotmail.com
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Machado de Assis. Quincas Borba. SP, Penguin/Companhia, 2012, 360 pp,  

19. Père Goriot

Jean-Joachim Goriot era, antes da Revolução, um simples operário macarroneiro, hábil, econômico e empreendedor o bastante para ter comprado o patrimônio de seu patrão, que o acaso tornou vítima do primeiro levante de 1789. Estabelecera-se na zona nobre parisiense e tivera o enorme bom senso de aceitar a presidência de seu departamento, a fim de ter seu negócio protegido pelos mais influentes personagens daquela época perigosa.

Tal sensatez fora a origem de sua fortuna que começou na escassez, verdadeira ou falsa, em consequência da qual os grãos atingiram um preço enorme em Paris. o povo se matava diante das padarias, enquanto algumas pessoas iam buscar sem reclamar massas italianas nos armazéns. Durante aquele ano, Goriot reuniu o capital que mais tarde lhe serviu para fazer seus negócios com toda a superioridade que dá uma grande soma em dinheiro àquele que a possui. Aconteceu com ele o que acontece a todos os homens que só possuem uma aptidão relativa. Sua mediocridade salvou-o. Aliás, sua fortuna só se tendo tornado conhecida no momento em que não mais havia perigo em ser rico, ele não despertou qualquer inveja. O comércio de grãos parecia ter absorvido toda sua inteligência.Mas o destino será cruel com Pai Goriot.(*)

Balzac articula uma narrativa  fornecendo todos os conflitos psicológicos e tensões sociais, para mostrar a Paris de sua época. O romance começa com a descrição da  Casa Vauquer, uma pensão parisiense vagabunda, onde vivia Pai Goriot, já na miséria. Diversos moradores ali convivem, entre eles o estudante de Direito Eugène  de Rastignac e um misterioso agitador chamado Vautrin. O velho Goriot  é alvo da chacota de todos os moradores da pensão, que descobrem que ele empobreceu para sustentar suas duas filhas bem casadas.  Ele as amava de paixão, mas elas o detestavam, pela profissão que o pai tivera. Imaginava que as duas filhas o amavam, que os genros é que se conduziam mal em relação a ele. Para evitar desentendimentos com os maridos, acreditava que as filhas queriam vê-lo em segredo.

Rastignac, vindo de família humilde, fica deslumbrado com a vida parisiense e logo em seguida abandona os estudos para tentar penetrar na alta sociedade. Convidado a um baile na corte, tenta se aproximar de  Anastasie de Restaud, mas é frustrado pelo fosso cultural e sobretudo financeiro que o separa da dama, de seu marido e de seu amante. Humilhado, pede à prima que o ajude a se envolver nos mistérios da alta sociedade. É quando descobre que Anastasie é filha de Pai Goriot.

O misterioso Vautrin, também o ajuda, revelando o funcionamento da sociedade e os meios de se tornar poderoso. Quer que este faça fortuna e insiste que se case com a srta. Taillefer, de cujo irmão trama a morte num duelo para que ela receba a fortuna do pai. Rastignac se recusa a compactuar com esse ato criminoso. Envolve-se numa relação amorosa com Delfina, a outra filha de Goriot. Uma investigação revela que Vautrin é um antigo forçado, que acaba sendo capturado na pensão pelos agentes da polícia.

O Pai Goriot, que planejava deixar a pensão com Rastignac para morar junto com a filha Delfina, morre ao descobrir brutalmente a situação familiar e financeira catastrófica das filhas.Rastignac assiste ao enterro do velho. As filhas sequer foram ao cemitério. Dominado pela paixão do poder e dinheiro,  se lança à conquista de Paris.Rastignac é figura recorrente em outros romances dA Comédia Humana de Balzac.

Tradução de Celina Portocarrero e Ilana Heineberg

                                           paulinhopoa2003@hotmail.com
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O Pai Goriot. Porto Alegre, LPM, 2006, 304 pp. 23 reais

18. Eugênia Grandet

O Sr. Grandet era, em 1789, um mestre tanoeiro bastante próspero, sabendo ler, escrever e contar. Quando, no distrito de Saumus, a República pôs à venda os bens do clero, o tanoeiro, então com quarenta anos, acabara de desposar a filha de um rico negociante de tábuas. Munido de sua fortuna líquida e do dote, munido de 2000 luíses de ouro, Grandet compareceu ao distrito, onde, graças a 200 luíses duplos oferecidos pelo sogro ao feroz republicano que administrava a venda dos domínios nacionais, obteve, a troco de nada, legalmente, senão legitimamente, um dos mais belos vinhedos da região, uma velha abadia e algumas terras arrendadas.

Depois disso, foi nomeado membro da administração do distrito de Saumur, e sua influência pacífica fez-se sentir nos domínios político e comercial. Politicamente, ele protegeu os nobres e usou de todo o seu poder para impedir a venda dos bens dos emigrados; comercialmente, forneceu aos exércitos republicanos 1 ou 2 milhares de barris de vinho branco e se fez pagar em soberbos prados, pertencentes a uma comunidade de mulheres que haviam sido reservados como derradeiro dote.
S
ob o Consulado, foi prefeito, administrou sabiamente, vindimou melhor ainda; sob o Império (de Napoleão), voltou a ser o Sr. Grandet. Napoleão não gostava dos republicanos e o substituiu. Mesmo assim, deixou as  honras municipais sem nenhum pesar. Mandara abrir, no interesse da cidade, excelentes estradas que conduziam às suas propriedades. Sua casa e seus bens,  vantajosamente cadastrados, pagavam impostos módicos. Com a classificação das suas diferentes quintas, suas vinhas, graças a cuidados constantes, haviam-se tornado a cabeça da região, termo técnico empregado para indicar os vinhedos que produzem a melhor qualidade de vinho. Teria podido solicitar a cruz da Legião de Honra.
Este acontecimento deu-se em 1806. O Sr. Grandet tinha então 57 anos e sua mulher andava pelos 36. Uma filha única, fruto de seus amores legítimos, tinha dez anos de idade.(*)

Como podemos ver, Balzac nos mostra a figura do Sr. Grandet de forma irônica, que se aproveitou da liberdade republicana para enriquecer, assim como hoje em dia fazem os políticos por aqui, de legislar em causa própria.
Ele era muito conceituado na província. Nunca devia nada a ninguém. Seu grande defeito era ser sovina até dar com o pau! Tanto que a mulher, a filha e Manon, a criada fiel, não imaginavam que ele pudesse ser tão rico, tal a penúria com que ele subjugava a família em seu cotidiano. Mãe e filha eram responsáveis por toda a roupa da casa, e empregavam tão conscienciosamente os seus dias nesse verdadeiro trabalho de operárias que, se Eugênia queria bordar algo para a mãe, era obrigada a perder horas de sono, enganando o pai para poder ter luz.
Só duas pessoas na cidade podiam supor, vagamente, o vulto de sua fortuna: o Sr. Cruchot, notário, encarregado das inversões usurárias do Sr. Grandet; outra, o Sr. de Grassins, o mais rico banqueiro de Saumur, de cujos lucros o vinhateiro participava segundo sua conveniência e secretamente. Esses dois senhores tinham, cada um deles, um filho que pretendiam casar com Eugênia Grandet, para herdar-lhe a imensa fortuna do sovina.

Quando Eugênia completa 23 anos, o pai faz um jantar de comemoração, onde comparecem as partes interessadas no dote. De repente, batem à porta e apresenta-se um jovem cavalheiro vindo de Paris, Carlos, sobrinho do Sr. Grandet e primo, portanto, de Eugênia. Junto com Carlos vem uma carta lacrada do pai do jovem, onde o irmão lhe revela que está arruinado, afogado em dívidas, e que cometerá o suicídio. Pede, assim, que contem ao filho o ocorrido e que  o amparem em sua pobreza.

Esse moço fino, de hábitos corteses, chama a atenção de Eugênia, que se apaixona por ele de forma ingênua e terna. Ao saber que está sem dinheiro, Carlos decide saldar o que pode com a venda de alguns bens móveis e planeja viajar às Índias, para tentar fazer riqueza. Como não tem um puto vintém, Eugênia lhe empresta uns medalhões de ouro que dão um bom dinheiro para ele fazer a viagem. O sonho de Eugênia é que ele enriqueça e volte para casarem.

Carlos desaparece momentaneamente, o pai descobre que a filha havia se desfeito de seu ouro e a castiga, prendendo-a a pão e água por um bom tempo. A mãe de Eugênia fica doente de desgosto e acaba morrendo, quando pai e filha já estavam reconciliados. O Sr.  Grandet morre de velho e Eugênia herda-lhe a herança. E Carlos ressurge em Paris, rico à custa de serviços escusos. O final do romance é triste, já que Eugênia sucumbe diante de uma sociedade gananciosa, por acreditar no valor dos sentimentos ternos e verdadeiros como essência da vida.

Eugênia Grandet é uma joia de romance, considerado pela crítica como a obra-prima de Balzac, juntamente com Pai Goriot (que mostra o reverso da fortuna na França pós-Revolução). Balzac usa de descrições de pessoas e de situações de forma primorosa, que envolve o leitor até o final do romance.
A edição que eu li tem tradução de Moacyr Werneck de Castro, pela Difel, relançado pelo selo da Abril Cultural, "Os imortais da literatura universal". Poderá ser encontrado em sebos. A LP&M tem se dedicado a boas traduções da obra de Balzac e tem Eugênia Grandet em seu catálogo. Tem a edição da Martin Claret, porém...
(*) adaptado

                              paulinhopoa21003@yahoo.com.br

17. Os irmãos Karamázov

Os Irmãos Karamázov  conta a história de uma família e uma comunidade, e não propriamente de um indivíduo. Ele alterna as histórias de suas cinco figuras principais em partes sucessivas, às vezes com uma sobreposição de tempo de uma para outra, criando suspense sem a necessidade de uma intriga. Assim, todas as personagens estão conectadas com as vastas forças culturais e históricas e os conflitos morais e espirituais da época, 1870.
O autor aborda nesta obra-prima, a questão da falência da família russa, que sofria a perda da fé em Cristo e em Deus. Assim, o conflito entre fé e razão é colocado como ponto central do romance, apreendido em seu plano moral e filosófico mais altos.

O fazendeiro Fiódor Pávlovitch Karamázov negligencia totalmente os três filhos tidos de duas esposas. Dimitri, o filho mais velho que teve com a primeira esposa, herdou da mãe o temperamento forte. Sua expectativa, desde jovem, era herdar da mãe algum dinheiro, quando tivesse a idade para isso. O pai, porém, tinha enredado de tal modo os bens de Dimitri, que ele ficara sem nada.Ivan, o filho do meio, era de natureza reservada, introspectiva e era preocupado com as injustiças do mundo. Aliocha, de 20 anos, o terceiro filho, tinha índole religiosa, nutria um amor precoce ao ser humano. Para que sua alma pudesse se ver livre das trevas da maldade, refugiou-se num mosteiro como uma saída de sua alma para a luz. Smerdiákov, o pretenso filho bastardo, foi assistido pelo criado da casa de Fiódor, passando a tarefas domésticas.É descrito como uma pessoa mediana e sádica, destituída de qualquer sentimento natural de gratidão ou obrigação para com os outros. Desde pequeno zombava da religião. Racionalista, tinha diálogos primorosos com Ivan, torturado com seus raciocínios morais. Smerdiákov adquire importância maior, durante o julgamento de Dimitri.

O fio condutor da trama é sobre o ódio de Dimitri (já integrado ao exército russo) ao pai, quando se sentiu espoliado da herança a que tinha direito. Como tinha pavio curto e o  cérebro na ponta da língua, metia-se em constantes confusões, chegando a afirmar, perante pessoas, que se vingaria do pai. Tinha uma noiva, Cátia, mas era apaixonado por Grúchenka, uma jovem liberal sustentada por um homem mais velho. Dimitri a amava, mas vivia com suas rendas quase a zero. Embora Grúchenka tivesse recursos, Dimitri era orgulhoso, queria levá-la por conta própria e começar com ela uma nova vida. Ele tinha outro problema de consciência: havia se apossado do dinheiro da namorada Cátia, que o havia dado a ele para enviar a um parente necessitado.

O conflito se agrava, quando Fiódor decide entrar na briga para conquistar Grúchenka. Esse é o ponto central da narrativa, que leva a uma tragédia familiar, envolvendo os demais irmãos.  Há um roubo de dinheiro na casa de Fiódor e este é assassinado. As suspeitas, obviamente, recaem sobre Dimitri, que afirma ser inocente, mas é levado a julgamento.
Os dois longos capítulos em que a promotoria e a defesa traçam sua estratégia de condenação e absolvição de Dimitri é outro ponto alto no romance. Contêm  os extensos discursos dos advogados. 
Dostoiévski se utiliza deles para dar o clima adequado à ação da trama. Os dois advogados iluminam os problemas morais,  espirituais, sociais e políticos que envolvem a família Karamázov.

Todo o romance é um primor de construção narrativa. Último romance de Dostoiévski, em sua fase áurea de obras-primas, é considerado a obra síntese do autor russo.

Tradução de Paulo Bezerra.
                     paulinhopoa2003@hotmail.com
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Fiódor Dostoiévski. Os irmãos Karamázov.SP, Editora 34, 2008, 1080 pp. em dois volumes. 

16. Crime e Castigo

Crime e castigo inaugura a trilha de obras-primas de Dostoiévski, junto com, O Idiota e Os Demônios, além de duas  novelas primorosas, O Jogador e O Eterno Marido. Quando  se conhecem as condições em que ele viveu, parece incrível o fato de ele ter sido capaz de produzir, em tão pouco tempo, tantas obras-primas. Enfrentou a pobreza e contínuas mudanças de residência para fugir de credores (por causa do jogo) e de familiares gananciosos e foi viver obscuramente na Alemanha e na Suíça até 1871. Também sofreu repetidos ataques epiléticos. . Se nos romances anteriores já havia a preocupação com a dignidade do ser humano independentemente de sua condição social, agora encontramos um viés filosófico e psicológico envolvendo as ações de Raskólnikov, o protagonista.

Dostoiévski apresenta Raskólnikov como um rapaz muito pobre, apesar de extremamente orgulhoso, causando a impressão de que ocultava algo de si aos demais. Se esquivava de todos na universidade, menos de Razumíkhin, que se tornou seu amigo.  Sua mãe e irmã moravam no interior, também em situação de emergência. Mesmo assim, pede dinheiro à família para atenuar a miséria em que vivia, em São Petersburgo. A ideia de cometer um assassinato com fins utilitaristas (mais ou menos a ideia de que devemos considerar o bem-estar de todos e não o de uma única pessoa), já vinha rondando a mente do protagonista. A época em que transcorre a narrativa coincide com o movimento  pregado pelos jovens intelectuais russos, o nihilismo, cuja principal característica era uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. O grande mérito de Dostoiévski, ao criar o personagem, é que ele não é plano. Pelo contrário, é um personagem complexo que delira entre ideias racionais que forjam-lhe um conceito de moral, e os princípios cristãos de compaixão e igualdade.

Passeando num final de tarde pela zona do mercado de  ambulantes de gêneros diversos e frutas, notou uma senhora conversando com uma conhecida. Essa conhecida era Lisavieta Ivánovna,  a irmã caçula de uma velha  viúva usurária, com quem ele estivera na véspera, empenhando um relógio. Ao ouvir que essa irmã não estaria em casa na noite seguinte e que a velha estaria sozinha em casa, foi tomado de uma sensação estranha que foi originando o seguinte pensamento: se matasse e saqueasse a velha maldita, não sentiria remorso. Com o dinheiro da velha poderia  distribuir o dinheiro a pessoas necessitadas, ajudar algum mosteiro, salvar famílias da miséria, da desagregação, da morte, da depravação e das doenças venéreas. Ele rouba o machado do zelador do prédio onde aluga um quarto e segue até a casa da usurária. O que não contava, é com o fato de que a irmã da agiota, provavelmente grávida, estivesse em casa. Acaba matando as duas e foge com os bens.

Quando volta para seu quarto, recoloca o machado no quarto do zelador, esconde o produto do roubo num buraco no papel de parede e tenta tirar as manchas de sangue da roupa. Desgastado pela tensão nervosa e pela doença, cai num sono febril até que é despertado por uma intimação do posto de polícia local. Chega lá horrorizado, mas fica sabendo que a intimação diz respeito a uma dívida que tem com a dona da pensão onde mora. Sente-se salvo, mas desmaia de fraqueza, ao ouvir dois policiais mencionarem o assassinato. Pensando que sua atitude pudesse levantar suspeitas, quando se recupera, volta ligeiro ao quarto a fim de remover os bens roubados, escondendo-os debaixo de uma pedra junto ao mictório num parque. A seguir, perde a consciência por quatro dias. Quando desperta, vê que está sendo cuidado pelo amigo Razumílkin e mais o delegado.

A partir daí, é esmagado e oprimido pelas consequências morais e psíquicas de seu ato criminoso, ao mesmo tempo em que passa a revelar traços de caráter. Em vez de medo e angústia, mostra agora raiva e ódio contra todos os que estiveram cuidando de sua doença e decide fugir desse cuidado opressivo.

Escreve e publica, então, um artigo polêmico lançando a questão de que os indivíduos se subdividiam  em "ordinários" e "extraordinários". Os ordinários são predestinados a viver na obediência, para cuidar dos outros, sem o direito de infringir a lei. Já os extraordinários teriam o direito de cometer toda sorte de crimes e infringir a lei de todas as maneiras justamente por serem extraordinários.

O romance é um primor de suspense policial, onde D0stoiévski traça com maestria o caráter psicológico contraditório de Raskólnikov. O encontro dele com Sonia, jovem prostituta, quase no final da narrativa, é fundamental para o desfecho do livro.

Tradução de Paulo Bezerra.
                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Fiódor Dostoiévski. Crime a castigo. 6ª ed., SP, Editora 34, 2009, 568 pp.

15. Madame Bovary

Você imagina uma mulher da baixa classe média provinciana da França da metade do século XIX que faz um casamento errado, leva uma vida aquém de suas pretensões e não consegue mudar seu destino devido às imposições morais de uma sociedade marcada por costumes políticos e religiosos hipócritas. Quando essa mulher não aceita esse destino e entra em desespero, gera uma tragédia. Essa mulher é Ema Bovary, personagem central de Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821/1880), o grande estilista da prosa francesa de todos os tempos.

Carlos Bovary, marido de Ema, desde a adolescência mostrou-se um sujeito 
sem atitude, sem grande inteligência, sem muita determinação. Venceu os estudos na marra, formou-se médico com muito esforço por determinação da mãe. Casou-se com uma viúva mais velha que ele por causa de um dote, que se revelou uma fraude, pois essa mulher estava arruinada e nada dissera ao marido Carlos. Então ele toma-se de amores por Ema, uma jovem que se destacava das demais pela beleza e por certo mistério em seu jeito de ser. O pai de Ema concorda com o casamento pelo fato de Carlos ser médico. Porém, Ema se decepciona logo pelas atitudes molengas do marido, por sua falta de ambição, pela mediocridade no exercício da medicina. Forma-se um abismo na comunicação entre os dois, visto que Carlos não conseguia percebê-la como mulher. Os dois têm uma filha, mas nem isso ajuda no encontro dos dois. Aos poucos ela vai se rebelando em suas atitudes, gastando além de suas possibilidades, com isso adquirindo dívidas. Depois, arranja um amante. Ema leva essa relação às últimas consequências, até que o jovem desaparece momentaneamente de sua vida, temendo consequências desastrosas a sua moral. Ema se desespera de início, mas não se deixa vencer. Vai reformando a casa, adquirindo mais dívidas sem que o marido o saiba. E arruma um novo amante, que manipula de forma doentia.

De repente, bate-lhe à porta o oficial de justiça cobrando a dívida, já vultosa, comunicando a penhora de seus bens. Para evitar que Carlos saiba do ocorrido, ela busca ajuda de todas as maneiras possíveis, recorrendo inclusive aos ex amantes, mas tudo em vão. Vendo-se num beco sem saída, ela suborna o empregado da farmácia e consegue o veneno para se matar.
O final é trágico e patético.
 Flaubert nos desenha o perfil psicológico de Ema sem descobrir a personagem. É através de seus atos e atitudes que vamos conhecendo uma personalidade sedutora e perigosa, angustiada e frustrada em seus sonhos de felicidade.Trata-se de uma mulher que não se satisfaz com pouco. A cena em que Flaubert descreve o encontro amoroso de Ema com seu primeiro amante em uma carruagem que transita pela cidade sem um destino definido é de um suspense arrepiante.

Não entendo por que a obra de Flaubert não teve uma acolhida mais calorosa por parte das editoras e tradutores brasileiros. Tem uma tradução decente de Araújo Nabuco (a tradução é da década de 1940) pela Martins Editora e relançada pelo Círculo do Livro, da editora Abril em 1976. A Penguin Companhia lançou Madame Bovary recentemente, com tradução de Mário Laranjeira, indicado ao Jabuti de melhor tradução. Cuidado com as edições baratinhas das editoras de bolso tradicionais, Essa editoras gostam de plagiar traduções já feitas.
                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Gustave Flaubert. Madame Bovary. SP, Círculo do Livro, 1976, 264 pp.

14. Moby Dick

Ismael é um caçador de baleias. É ele quem nos conta a história de Moby Dick, o leviatã, o monstro assustador dos mares que todos os marinheiros têm sede de eliminar. Moby Dick, na verdade, é uma baleia branca que habita os mares próximos à Groenlândia. Ismael está preparado para embarcar mais uma vez para tentar a aventura de arpoar a baleia branca e matá-la, assim como os demais marinheiros que viajarão com ele na jornada.

Ismael está numa pensão em New Bedford, importante porto baleeiro na época, para formar a tripulação do navio que empreenderá a viagem. Na pensão, tem como colega de quarto um aborígene, Quiqueg, que simboliza uma mistura de todos os ilhéus que têm a verdadeira fama de exímios arpoadores. Quiqueg é um sujeito aculturado, segue o Islã, o que por vezes nos faz pensar que pudesse ser um nativo malaio, mas Quiqueg não tem olhos puxados, está mais próximo de um nativo da Oceania. Ismael o define como uma criatura em estado de transição de lagarta a borboleta: era civilizado o bastante para ostentar seu exotismo. Veste-se de maneira única, original. Quanto a seu temperamento, é uma pessoa doce, corajosa e leal. Quiqueg entendia que a vida era a união de todos os seres da natureza com o ser superior, que integra tudo, sendo o ser humano não um ser superior, mas um participante da natureza com os demais seres. Os dois tornam-se amigos inseparáveis.

O capitão Acab, o protagonista da trama, tem quarenta anos de atividade baleeira, cercado de privações e perigos sobre um mar desapiedado. Há quarenta anos abandonou a terra pacífica para guerrear os horrores marinhos. Quando Acab pensa na vida que tem levado, na solidão desoladora que o acompanha, sente cansaço, angústia. Mas ele não pode esmorecer justo no momento em que se prepara para formar a tripulação de seu navio, o Pequod, para matar a baleia branca assassina que lhe arrancou uma das pernas.

Então dá-se início à aventura pelo mar gelado e perigoso que esconde o "monstro branco". Um embate entre o homem e as forças da natureza. Herman Melville (1819/1891)conhecia a navegação de baleeiros por conta própria, pois trabalhou em alguns deles. Em uma de suas viagens, viveu algum tempo na Polinésia. O romance apresenta verdadeiras aulas sobre navegação e o ofício da caça da baleia.
Moby Dick foi fracasso de vendas, na época de seu lançamento. Acontece que a obra estava adiante de seu tempo. Não se trata apenas da história de um homem que busca matar a baleia que arrancara sua perna. Trata-se da obsessão de um homem por seu ato de vingança. Melville retrata em Acab as virtudes e falhas do espírito humano, assim como sua pulsão assassina. Quando finalmente ele se depara com a baleia, trava-se uma luta atroz e apenas Ismael sobrevive para fazer o relato da história. 

Cuidado com as traduções. Prefira a edição da Cosac Naify, com tradução de Irene Hirsch. O livro físico está esgotado, mas se encontra facilmente nos sebos virtuais.


Tem uma tradução mais antiga, de Péricles Eugênio da Silva Ramos, lançado pela Editora Abril em 1980, em dois volumes, também confiável.