sábado, 5 de novembro de 2011

Augusto Roa Bastos e sua trilogia do monoteísmo do poder



O paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005) foi um escritor brilhante, mas quase desconhecido no Brasil. Seu romance traduzido aqui, Eu, o Supremo, não teve boa tradução. Esse romance, assim como os demais da trilogía: Hijo de hombre e El fiscal, não são de leitura fácil, já que necesitam do leitor uma consciencia desperta da realidade latino-americana de início do século XX até o período turvo da ditadura latino-americana, de 1950 até finais da década de 1980.

Provenientes do Alto Paraná, das planícies do Chaco e Assunção, os vários personagens que povoam Hijo de hombre são testemunhas e vítimas da história do Paraguai: a passagem do cometa Halley em 1910 marca as primeiras páginas do romance para, em seguida, atravessar os anos de revoltas camponesas, suas repressões, fundindo-se, nos últimos capítulos, nas consequências da desoladora Guerra do Chaco (1930). Mas a ação também é baseada em um plano atemporal: o autor dá voz ao homem em rebelião, denuncia os abusos das oligarquias, retrata em uma imagem muito terrena o mártir crucificado, reivindicando o legado dos mortos e, portanto, seu passado: em determinada cidade do interior do Paraguai, uma imagem de Cristo, inicialmente no topo de um morro, passa de povoado em povoado para lembrar que o fiho de Deus é o filho do homem que, como os demais cidadãos, precisa ser vingado. Filho do Homem (1960) foi o primeiro romance publicado por Augusto Roa Bastos, uma cosmogonia audaciosa, onde se percebem as vozes ancestrais da herança guarani e espanhola do Paraguai, um projeto que redefine a função do escritor como alguém destinado a colher, conforme palavras de Roa Bastos, “um discurso oral ainda não transcrito, mas presente e marcante no ritmo da história.

Em Yo El Supremo, Augusto Roa Bastos retrata com certa complexidade histórica e simbólica o mundo irreal de José Gaspar Rodrigues de Francia, que governou com mão de ferro o Paraguai entre 1814 e 1840. Ele é a figura totêmica da novela, um homem dedicado à redação de um interminável documento púbico, a Circular Perpétua (na trama, suas memórias), que tem a participação de Patiño, seu nem sempre fiel secretario. A relação do dr. Francia com aduladores, intrigantes, súditos e governos vizinhos, frutifica em uma vereda oral e textual, que aspira a instituir-se, a Circular, como poder absoluto em voz única e irretocável. Com esta obra, publicada originalmente em 1974, temos um marco narrativo que remete a Don Quijote, já que fala sobre o poder e o indivíduo, a supremacía do discurso sobre a realidade, a História americana, a psicología do tirano e, o que é seu cerne, os limites da linguagem e a novela como estrutura narrativa. Em seu discurso quando do recebimento do Prêmio Cervantes na Espanha, relativo a Eu, o Supremo, em 1989, Roa Bastos nos disse que o núcleo gerador de sua novela com Dom Quixote, foi a de imaginar um dublé do Cavaleiro da Triste Figura metamorfoseado no Cavaleiro Andante do Absoluto, realizando esse mito do absoluto em realidade que ele trata de compilar em sua Circular, a simbiose da realidade real com a realidade simbólica, da tradição oral e da palavra escrita. El Supremo Ditador da República do Paraguai desejou apenas o poder absoluto e o teve em suas mãos sem deixar de ser, também, o homem mais pobre do mundo.

El Fiscal (O Fiscal), narra a tragetória de Félix Moral, um escritor paraguaio que teve de se exilar no interior da França, tendo inclusive de trocar de nome. Ele tem uma obsessão: assassinar o presidente ditador Alfredo Stroessner durante um congreso de escritores e intelectuais que se realizará em Asunción em 1987, idealizado pelo próprio Stroessner. Sua companheira de vida, Jimena, representa para Félix o baluarte da estabilidade afetiva. O escritor se debaterá entre a função messiânica do intelectual exilado e o sacrificio do herói (matar o ditador Stroessner), enquanto constrói um discurso elaborado, quase uma sentença jurídica sobre a lealdade e a traição, onde sua experiencia se funde com episódios trágicos da história paraguaia. O escritor, no final, acaba sendo reconhecido, torturado e morto. A novela termina com o relato dos últimos passos do escritor contados de forma escrita por Jimena à mãe de Félix Moral. Com essa obra, reescrita em 1993, Roa Bastos conclui sua trilogía sobre sobre o monoteísmo do poder. Sob meu ponto de vista, este é o melhor romance dos três. Apresenta uma linguagem contemporânea de fatos históricos ainda vivos em nossa memória. O livro foi reescrito por Roa Bastos em 1993.
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Augusto Roa Bastos. Hijo de hombre. Barcelona, Debolsillo, 2008
__________ Yo, El Supremo. Barcelona, Debolsillo, 2008. A ed. Paz e Terra apresenta uma edição em português. Por ser uma edição econômica, possui caracteres minúsculos, dificultuando sua leitora. Entretanto, é a única tradução desse autor que conheço, existente no Brasil.
__________ El Fiscal. Barcelona, Debolsillo, 2008

2 comentários:

  1. Parabéns pelo blog!
    Vou me aventurar pela primeira vez numa obra de Bastos, também o primeiro leitor paraguaio que terei em mãos.
    Sinto-me constrangida por saber tão pouco de autores vizinhos (no meu caso, literalmente, já que nasci em Mato Grosso do Sul e sei o quanto é discriminatória a relação entre brasileiros e paraguaios).
    Pelos seus comentários, creio que vou gostar :)

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    1. Bem-vinda, Thays. A leitura de Bastos te será enriquecedora. Tomara que gostes. Saudações.

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