domingo, 25 de dezembro de 2011

A Camareira

Linda, 30 anos, solteira, solitária, parece não saber quem é. Diante do espelho nunca encontra a si mesma. Não sabe por que está viva. Um dia, conseguiu trabalho num hotel. De repente, acrescentou um passatempo a seus afazeres: visitar os quartos, mesmos os desocupados, examinando cada marca deixada pelos que se iam, dando vida às coisas imaginárias. A partir daí, passou a bisbilhotar os quartos dos hóspedes na ausência desses. Certa vez, enquanto mexia nas roupas de um hóspede, ele chegou. Subitamente, ela estava embaixo da cama. O medo de ser descoberta a fascinou. No dia seguinte, quando saiu do quarto, percebeu que havia encontrado um sentido na vida. Passou a fazer isso de forma cotidiana. Uma vez o homem recebeu uma prostituta. Linda se apaixonou pela voz de Chiara, seu nome, quis conhecer seu rosto. Durante a manhã, quando saía do apartamento, pegou o número do telefone que Chiara havia deixado sobre a mesa. Passaram-se uns dias e ela criou coragem para lhe telefonar. Marcaram um encontro. Acabaram transando. Quando a prostituta saiu, Linda sentiu curiosidade de saber como seria Chiara verdadeiramente. Como ela lhe havia dito que haveria outro encontro com aquele homem no mesmo quarto, nesse dia Linda chegou antes, como de costume, e pôs-se debaixo da cama à espera. O homem chegou e foi para o banho. Enquanto isso, Linda investigou sua bolsa e encontrou uma foto de um homem com uma mulher, provavelmente sua esposa? Na manhã seguinte, Linda seguiu o homem até sua casa no subúrbio. Dias depois, resolveu ir até lá, enquanto o homem estava com Chiara, para contar a verdade à mulher. Mas não conseguiu. Ao sair, desnorteada, quase é atropelada por um carro. O carro parou na casa da mulher. Seria seu amante? Um dia, Linda viu-se obrigada a tirar férias. Paremos aqui, para não estragar o final da história.
Markus Orths é um escritor alemão nascido em 1969. Todos os seus livros publicados receberam diversas distinções. No Brasil, a única obra traduzida até o momento é este A Camareira, que você vai devorar de uma sentada.
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Markus Orths. A Camareira. Porto Alegre, LPM, 2010, 136 p.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Ofício de Viver

O italiano Cesare Pavese (1908-1950), poeta e romancista, manteve uma atividade intelectual antifacista. Quando o regime fascista fechou a revista em que trabalhava como seu diretor, Pavese foi desterrado no sul da Calábria (1935-36), onde começou a escrever O Ofício de Viver, diário pessoal que acompanha os últimos quinze anos de sua vida. Entretanto, seu posicionamento político nunca apareceu em sua escritura. Nas páginas de seu diário, todo ele escrito na primeira pessoa, afloram tensões obscuras centradas na dificuldade das relações entre os sexos que explodem numa tragédia final, transmitindo um sentido desolado de inutilidade da vida.
Em suas páginas encontramos considerações sobre sua poética, leituras críticas de outros escritores, lado a lado com desabafos e lamentos inflamados sobre sua vida pessoal e suas desilusões amorosas, acompanhados de reflexões sobre a morte, intimamente associado à idéia de suicídio. Dado como encerrado pelo autor cerca de uma semana antes da morte, e por ele próprio assinalados pelos limites cronológicos 1935-1950, constitui, assim, a evidência da trágica decisão consciente e antecipadamente tomada, e que vem ganhando corpo ao longo dos anos, de pôr termo à vida. No diário não há descrições nem alusões ao lugar em que se encontra. Referências a acontecimentos políticos também não se registram. O que se acentua em suas páginas é o clima de solidão. É a sua vida interior e a imagem da sua profunda angústia de viver.
Sobre as mulheres, que são a fonte direta de seu sofrimento, nada revela, nenhum retrato faz delas. São impessoais, despidas de sentimentos e movidas apenas por interesses, quase desumanizadas. O seu destino de perdedor em relação às mulheres tem como marco um acontecimento de 1929, quando ele conhece Tina, comunista e professora e matemática. Ela tivera uma enlace amoroso com um intelectual de esquerda. Pavese, entretanto, apaixona-se por ela. Em maio de 1935 a polícia invade a casa dele e encontra as cartas desse intelectual endereçadas a Tina. Pavese, para agradá-la, aceitara que a correspondência fosse enviada a sua casa. Quando ele regressa do exílio da Calábria, Tina já estava casada. O choque foi muito forte para ele. Jamais conseguiu compreender a atitude dela. A partir de então, Pavese torna-se, como ele mesmo diz de si mesmo no diário, um misógino. As mulheres nunca transmitem uma idéia afetiva, antes de decepção. Passam a representar para ele apenas um objeto de que se desfruta por breves momentos.
Pavese cultivou a idéia do suicídio ao longo de toda a vida, associando-a constantemente ao tema do amor. A autodestruição identifica-se com uma vida que para ele parece de pouca importância, apesar da consolidação do seu sucesso na carreira editorial e na de escritor. A 18 de agosto de 1950, quando ingere os soníferos que o libertariam de viver, escreve as últimas palavras do seu diário: “Tudo isto é asqueroso. Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais.”
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Cesare Pavese. O Ofício de Viver. Lisboa, Relógio D’água, 2004. 404 pp

Além de O Ofício de Viver, Pavese tem os seguintes livros traduzidos para o português:
Diálogos de Leucó. Ed. Cosac Naify. Em 27 de agosto de 1950, quando foi Cesare Pavese encontrado morto em um quarto de hotel em Turim. Ao lado de seu corpo, havia apenas um livro, 'Diálogos com Leucó', no qual escreveu suas palavras de despedida. Escritos em sua maioria entre 1943 e 1946, estes 'Diálogos' entre seres da mitologia grega versam sobre o que Pavese considerava as questões fundamentais da existência humana - o destino, a violência, o amor, a morte, a poesia.
Trabalhar cansa. Ed. Cosac Naify. Poesia. Com um verso mais narrativo, aberto à prosa da vida cotidiana, o autor retratou as noites insones das cidades, as figuras de proletários, camponeses, prostitutas, bandidos, bêbados e mendigos vivendo seu drama diário.
A lua e as fogueiras. Ed. Berlendis & Vertecch. Publicado originalmente em 1950, 'A lua e as fogueiras' é o último e mais bonito romance de Cesare Pavese. Nele, o personagem central retorna rico à cidade de Santo Stefano Belbo, de onde partiu ainda jovem para "fazer a América", pretendendo usufruir uma vida abastada. Não é mais o rapaz obrigado a trabalhar nos campos, mas um homem maduro que agora pode ser um patrão. Numa paisagem em que, aparentemente, nada mudou, encontra tudo transformado. Não só pela passagem do tempo e pelas transformações históricas, mas, principalmente, porque ele próprio mudou. Outro tema típico de Pavese aqui se repete - o retorno com o pensamento à vida de jovem, mas sob a luz dos novos tempos, em busca da identidade do protagonista com um mundo que, obviamente, se transformou. Mas a narrativa demonstra que a busca da identidade não se resolve com o retorno do protagonista ao paese, à sua terra natal. Este se descobre ainda um expatriado, em uma contínua busca de contato com as suas raízes e com seu passado infantil, situação que, no plano biográfico, também era a de Pavese que, não por acaso, situa a história na mesma Santo Stefano em que nasceu.
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Meu agradecimento especial à tradutora Margarida Periquito, pelas informações imprescindíveis.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Do amor e outros demônios



Do amor e outros demônios foi escrito pelo escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez em 1994. Sierva Maria, filha de um casamento sem amor, é criada pelos escravos negros da propriedade onde vivia. Aos 12 anos é mordida por um cão raivoso e isso acaba trazendo preocupações a seu pai, que acreditava que a menina pudesse, então, estar possuída pelo demônio. A partir daí, aproxima-se mais da filha, busca ajuda de um médico ateu, do bispo da região, que lhe apresenta um padre exorcista que acaba, no decorrer da história, apaixonando-se pela menina. Sierva Maria é internada num convento, a pedido do bispo, onde passa a sofrer uma série de torturas. A novela tem um final trágico. Alguns personagens da história:
Sierva María – nasceu no dia 07 de dezembro, dia de Santo Ambrósio (o santo que, segundo a tradição, pregava a importância da virgindade e do culto à Virgem Maria). Nasceu de 7 meses, com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Quase morreu, mas foi salva por Dominga Del Adviento, uma escrava, que prometeu a seu santo de guarda que, se ela vivesse, seu cabelo não seria cortado até que se casasse. Por isso, tinha imensa cabeleira que caía-lhe aos pés. Herdou do pai a timidez e o isolamento. Seu modo de ser era tão sigiloso que parecia uma criatura invisível. Analfabeta até a adolescência, assimilou a cultura dos negros, com eles convivendo por quase todo o tempo, até que seu pai a trouxe para dentro de casa e tratou de civilizá-la. Era chamada entre os negros de Maria Mandinga. Ao ser mordida por um cão raivoso, surgiram suspeitas de que estaria possuída pelo demônio. Foi internada no convento das monjas “enterradas vivas”. Tinha acessos de fúria quando tentavam tirar seus colares de yorubá do pescoço. Algumas monjas, escondidas, aproximavam-se dela para pedir-lhe favores impossíveis, como se fosse uma santa.
Ygnacio – pai de Sierva Maria, era um homem débil desde a juventude. Custou a aprender a ler e escrever. Cresceu com certos sinais de retardo mental. Seu primeiro sintoma de vida fui quando se tomou de amores por Dulce Olívia. considerada louca. Foi a primeira paixão platônica de Ignacio. Correspondiam-se por bilhetes. Quando Ignácio decidiu casar-se com ela, o pai o desterrou em uma de suas fazendas. Mais tarde seu pai ameaçou-o com clausulas testamentarias, obrigando-o a casar-se com Olalla, uma mujer bela e com muitos talentos. Foi um casamento sem sexo. Olalla intentou vencer o obstáculo através da música, mas morreu fulminada por um raio sem consegui-lo. Mais tarde é obrigado a casar-se com Bernarda, mulher que odiou a vida inteira.
Bernarda – mestiça, seduziu Ignacio até fazer sexo com ele. Engravidou e a situação o obrigou a casar-se com ela. Foi um casamento cercado de ódio. Bernarda não amava a filha, antes tinha-lhe temor. Com um furor insasiável de sexo, comprou um negro, Judas, que se tornou seu amante, sem que Ignacio se opusesse. Quando soube que a filha havia sido internada no convento, abandonou o marido, levando o que pôde de riqueza desses 12 anos de má convivência.
Cayetano deLaura – padre exorcista chamado para exorcizar Sierva Maria, mas acaba apaixonando-se por ela. Dialogava muito sobre a menina com o bispo (havia fuxicos de que Cayetano seria seu filho ilegítimo) e com o médico Abrenúncio. Um dia disse ao médico que no seminário lhe haviam proibido um livro e ele ficara curioso de saber o nome da obra. O médico lhe diz que o livro era o Amadis de Gaula, que conta o relato dos amores furtivos entre um rei e uma infanta, que deram lugar a uma criança abandonada numa barca. A criança, Amadis, é criada pelo cavaleiro Gandales. Mais tarde, Amadis vai em busca das suas verdadeiras origens, o que o leva a meter-se em fantásticas aventuras, sempre protegido pela feiticeira Urganda e perseguido pelo mago Arcalaus, o encantador. Passa por todo o tipo de perigosas aventuras, pelo amor da sua amada Oriana. Nas versões iniciais, a união dos dois tem fins trágicos.
Médico Abrenúncio – solteiro, judeu, ateu. Quando Ignácio internara a filha no convento para o exorcismo, foi contra. Achava que as feitiçarias dos negros sacrificavam animais, enquanto a igreja sacrificava pessoas. Abrenúncio é importante na narrativa, porque em sua conversa com Delaura sobre a possessão de Sierva Maria, consegue fazer ver a Delaura, que este está apaixonado por ela. Sierva Maria, assim, é o demônio do amor que ele não precisaria exorcizar.
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Garcia Marquez. Do amor e outros demônios. 9ª ed, Record, 1996.
García Marquez. Del amor y otros demónios. 16ª ed., Debolsillo, 2009

domingo, 4 de dezembro de 2011

Terra nostra, de Carlos Fuentes



John Elliot, no prefácio à edição de Terra nostra pela editora Seix Barral, escreve que o romance está impregnado de um sentido de passado. A estória rica e complexa de Fuentes, tem como tema a História. O autor, como historiador, busca evocar o passado, ao mesmo tempo que o interpreta. A novela de Fuentes tem como intuito trazer a influência do passado no presente e interpretá-lo em relação ao futuro. O presente, igualmente, influencia na forma como se vê e se compreende o passado. O historiador, ou o narrador ou o cronista do enredo múltiplo (são várias historias que se misturam), é o guardião da memória. Aquele que escolhe recordar do passado o que sobrevive e dá forma a um futuro.
Terra nostra apresenta um México nativo do autor como uma nação resultante da contundente imposição da civilização espanhola do século XVI às civilizações astecas e maias. As civilizações hispânica e indígena têm pontos de vista diferentes sobre o tempo. Para os habitantes do México prévio à conquista, o tempo era cíclico; para os espanhóis da era do Renascimento e da Contrarreforma, o tempo era linear, culminando na grande apoteose do Juízo Final.
El Escorial, palácio mandado construir por Felipe II é central na história, porque dali a Espanha trata de impor sua visão de mundo a um México conquistado. A Espanha que subjuga e coloniza o México é a rígida e intolerante Espanha da Contra-Reforma.
A história de Terra nostra, a fábula, é o destino de três irmãos, filhos bastardo do Senhor (Felipe II), todos com uma cruz vermelha nas costas e seis dedos em cada um dos pés. Na primeira parte da obra, El viejo mundo, passa-se na Espanha, quando o rei discute com seu cronista os valores da existência. Fuentes incorpora no enredo figuras desse mundo, a partir de A Celestina, de Fernando de Rojas, Don Juan, de Tirso de Molina e Don Quijote, de Cervantes. A Celestina é obra de transição entre a Idade Média e o Renascimento. Nela são retratados os vícios e defeitos de uma sociedade moralista. A Celestina é uma alcoviteira e dona de prostíbulo, que amarra casamentos à base do dinheiro. Acaba, assim, juntando Calisto e Melibea, que representam a paixão descontrolada e destrutiva, alheios à razão. Don Juan, o burlador de Sevilla, apresenta o comportamento imoral de um homem que seduz as mulheres com falsas promessas de casamento, com a finalidade única de fazer sexo com elas e depois abandoná-las. Don Quijote é a história por demais conhecida, do cavaleiro da triste figura. Em Terra nostra, as personagens dessas três obras se misturam e passam a refletir a moral oficial deformada da Igreja e dos poderosos da época.
Na segunda parte do romance, El mundo nuevo, o cenário é o México da época do descobrimento da América pelos espanhóis, o confronto do tempo cíclico dos selvagens, com a realidade linear dos descobridores. Carlos Fuentes narra o mito de Quetzalcóatl, uma mistura de ave plumada com serpente, venerada pelos astecas e mais. Quetzalcoatl representa as energias telúricas e também a vida, a abundância da vegetação, o alimento físico e espiritual para o povo. Posteriormente passou a ser cultuado como deus, representante do planeta Vênus, correspondendo à noção de morte e ressurreiçao. Uma das representações desse deus, segundo fontes orais, seria a de um homem branco, barbudo e de olhos claros. Alguns historiadores acreditam que os astecas viram no explorador Hernán Cortés a figura de Quetzalcoatl, o que teria facilitado a subjugação espanhola sobre os povos nativos do México.
A terceira parte, El otro mundo, volta à Espanha da Contra-Reforma, mas dá saltos no tempo em relação ao passado, presente e futuro. Surge a história da formação da Itália e sua constituição política, surge o México dos caudilhos, Paris dos fugitivos políticos. Há uma passagem interessante de Ludovico, quando este regressa do Novo Mundo e conversa com o Senhor Felipe II e este lhe pergunta: “Então, triunfaste tu. O sonho foi realidade”, ao qual Ludovico responde: “Não, Felipe, triunfaste tu, o sonho foi pesadelo. A mesma ordem que quiseste para a Espanha foi trasladada à Nova Espanha, as mesmas hierarquias rígidas, vesticais, o mesmo estilo de governo. Para os poderosos, todos os tipos de direitos e nenhuma obrigação; para os fracos, nenhum direito e todas as obrigações. O novo mundo foi povoado por espanhóis enervados pelo luxo inesperado, o clima, a mestiçagem, as tentações de uma injustiça impune”.  Eu li Terra nostra no original, mas há a tradução de Olga Savary pela Nova Fronteira, 1982, que se pode garimpar nos sebos. É um livro pesado, exige alguma pesquisa paralela à leitura, mas é de leitura enriquecedora, se tivermos um pouco de paciência.
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Carlos Fuentes. Terra nostra. Barcelona, Seix Barral, 2003. 796pp

Fernando de Rojas. A Celestina. Porto Alegre, LPM, 2008
Tirso de Molina. Don Juan, o burlador de Sevilha. Brasília, Círculo de Brasília, 2004
Cervantes. Dom Quixote. Porto Alegre, LPM, 2005 2vol.

domingo, 27 de novembro de 2011

Prólogos à Biblioteca de Babel

A pedido de seu editor e amigo italiano Franco Maria Ricci, Jorge Luís Borges escreveu uma série artigos sobre seus escritores favoritos para uma edição de contos relacionados à iteratura fantástica. A literatura fantástica de Borges relaciona-se à imaginação, esta sim, fantástica, dos contos árabes, da ficção científica, do absurdo kafkiano entre outras veredas.
Para falar dos ensaios introdutórios de Prólogos de La biblioteca de Babel, é preciso, antes, falar do conto A Biblioteca de Babel, que faz parte do livro traduzido em português, Ficcções. No conto, o mundo consta como uma enorme biblioteca com os mais variados assuntos, alguns de fácil decifração, outros de quase impossíveis decifrações. A biblioteca é constituídas por homens que se dizem bibliotecários. A biblioteca de Babel remete ao mundo da Mesopotâmia, a origem da civilização. O mundo, essa biblioteca, sugere igualmente o caos e o labirinto. Percorrê-lo e o desafio contra a crueldade divina.
Prólogos da Biblioteca de Babel contém 24 prólogos que Borges escreveu para a coleção La Biblioteca de Babel, publicada inicialmente em italiano e depois em espanhol. Selecionados por Borges, os livros que o interam revelam vastas e supreendentes leituras. Nos prólogos, analisa os contos de escritores diversos como Pedro Angonio Alarcon, Voltaire, Leopoldo Lugones, Leon Bloy, Giovanni Papini e P’u Sung-ling, junto a outros como Nathaniel Hawthorne, G. K. Chesterton, Robert Louis Stevenson, Herman Melville, Franz Kafka, Edgar Allan Poe e H. G. Wells, todos seus autores preferidos. Alguns desses autores têm títulos em português pela LPM. São eles, Jack London (Antes de Adão), Mark Twain (As aventuras de Huckleberry Finn), Voltaire (Cândido ou O otimismo), William Beckford (Vathek), Stevenson (A ilha do tesouro) e Wells (Uma breve história do mundo).
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Jorge Luís Borges. Prólogos a la biblioteca de Babel. Barcelona, Alianza Editorial, 2002.

domingo, 20 de novembro de 2011

A morte de Artêmio Cruz



Em A morte de Artêmio Cruz , Carlos Fuentes nos revela os processos mentais de um velho que já não é capaz de valer-se por si mesmo e que se acha prostrado ante a morte iminente e indigna. A técnica narrativa consiste em intercalar o passado, o presente e o futuro da personagem, tendo como pano de fundo a Revoução Mexicana de 1910. O presente narrativo se passa na década de 1950. O mesmo pretexto foi usado pelo autor em sua novela anterior, La región más transparente.Se lá a personagem central é a cidade do México, aqui é o homem que subiu na vida graças às engrenagens do mundo capitalista. Para isso, renunciou a seus preceitos revolucionários do passado.
A história começa quando Artêmio Cruz sofre um ataque.Em seu leito de morte, recusa a extremunção do cura, sabendo que há muito tempo havia deixado de lado a fé. Busca incessantemente prolongar um pouco mais seu martírio. Mãe e filha, à beira do leito do moribundo estão precocupadas com o testamento do velho, que até o momento não lhes havia dito nada sobre isso. Artêmio pensa na mulher a quem nunca amou, na filha que o despreza.
Enquanto essa e outras pessoas se movimentam ao redor de sua cama, seu cerebro se translada em indas e vindas entre o presente e o passado. Recorda dos sucessos que o levaram até onde se encontra nesse momento. Vê-se a si mesmo no ano de 1919, como um joven veterano da Revolução que chegou à fazenda dos Bernal, trazendo noticias à familia de que o filho Gustavo havia sido fuzilado por forças de Pancho Villa. A verdadeira intenção de Artêmio era ganhar a confiança do velho pai de Gonzalo e casar-se com a filha, Catalina, para assim apropriar-se das propriedades da familia. Catalina nunca conseguiu compreender esse amor insosso de Artêmio por ela. Por isso, culpa-se por toda vida pelo fato de não ter sido correspondida. Com a norte do filho, Catalina e Artêmio passam a ter uma vida aborrecida, até que ele se alista novamente para lutar na revolução espanhola e assim escapar de uma relção sem conserto.
Artêmio recorda-se também de outras relações mediocres que teve com outras mulheres, antes de Catalina. Recorda-se, também, dos assentatados da localidade de Perales, seus vizinhos, e de como se apoderou de suas terras. De como foi eleito pela primeira vez deputado, cargo que lhe valeu para todo o tipo de trapaças, subornos e chantagens. Das grandes festas que dava, em que seus convidados riam dele pelas costas.
Pouco antes de sua hora final, revela ao leitor dois epísódios que explicam por que foi o que foi. Num deles, conta como foi capturado pelas tropas de Villa e sentenciado à norte. Foi aí que ele decidiu passar informações ao inimigo e mudar seu objetivo de vida. No capítulo final, entendemos como tudo começou: Artêmio havia nascido num meio rural bem humilde. Durante seus primeiros anos, seu único amigo era o mestiço Lunero, que servia à avó e ao tio alcoólatra de Artêmio. Depois de matar seu tio por tiro acidental, ele foge para Veracruz. Ali, um professor se interessa por ele e o prepara para desempenhar o papel que o levou a lutar na Revolução, antes de perder seus ideais e eleger a traição que o levou a usar o poder, para corromper-se a si mesmo.
La muerte de Artemio Cruz apareceu em 1962. A personagem Artêmio Cruz representa, assim, os paradoxos da história moderna do México, no período da constituição de uma burguesía urbana. Há uma edição em portugués, pela Rocco, esgotada. É possível encontrá-la em sebos virtuais.
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Carlos Fuentes. La muerte de Artemio Cruz. Madrid, Punto de Lectura, 2001

sábado, 12 de novembro de 2011

Carlos Fuentes y La región más transparente



La región más transparente romance do escritor mexicano Carlos Fuentes, é uma novela social. Tem como escopo a Revolução de 1910, no México, embora a ação da trama se desenrole na décadas de 40/50, quando uma burguesia oriunda das classes industrial e latifundiária se estabelece de forma desigual. Carlos Fuentes põe a descoberto a essência injusta dessa sociedade, assim como a frustração provocada pela negação dos valores de justiça social da Revolução de 1910. As classes populares estão impossibilitadas de se realizarem economicamente. As ânsias de poder e de corrupção da burguesia, a falsidade e superficialidade dos ambientes pseudo-intelectuais circulam todo o romance. La región más transparente é uma novela audaz, de denúncia e reflexão, de análise e busca, que logra tramar eficazmente diversas histórias, para brindar um extenso afresco do caótico e turbulento México contemporâneo.
Podemos dizer que a novela é a descrição geral de um só personagem: a cidade, em cuja ebulição se percebem os distintos discursos das distintas classes e castas sociais do México, os distintos tipos humanos (mestiços, criollos, indígenas, assim como estrangeiros assimilados e acomodados), distintas formas de ver o mundo e assimilar a então jovem e crescente modernidade industrial que é filtrada de uma nação que vive o processo de des-composição de uma revolução e o início de uma nova sociedade corrupta.
Das inúmeras personagens da história, cabe referirse à presença de Norma Larragoiti, que foi noiva de Rodrigo Pola, fiho de um revolucionário da Revolução de 1910, mas casou-se com Federico Robles, filho de camponeses de uma das fazendas da família De Ovando, soldado da revolução, advogado e banqueiro conselheiro de companhias estrangeiras. Norma é filha de mãe mestiça e de espanhol pobre, comerciante do norte do país. Seu irmão mora nos Estados Unidos e trabalha como pedreiro, ofício característico dos estratos mais pobres da sociedade. A origem de Norma, então, é visivelmente humilde. A partir de casamento com o banqueiro Federico Robles, tem a possibilidade de participar, de certo modo da elite mexicana. Entretanto, dentro desses grupos de classe alta, tanto Norma como seu marido são criticados por sua origem baixa e tolerados somente por seu dinheiro. Dessa forma, Norma tenta introjetar-se nessa classe social rica, ignorando e rechaçando sua própria origem.
Carlos Fuentes é um dos escritores mais importantes, sólidos e prolíficos da América Latina. Assim o atestam, entre outras, suas novelas La muerte de Artemio Cruz, Cristóbal Nonato, Los años com Laura Diaz e Terra Nostra, que serão comentados em sequencia nas colunas a seguir.
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Carlos Fuentes. La región más transparente. Alfaguara Argentina, 2008. 640 pp

sábado, 5 de novembro de 2011

Augusto Roa Bastos e sua trilogia do monoteísmo do poder



O paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005) foi um escritor brilhante, mas quase desconhecido no Brasil. Seu romance traduzido aqui, Eu, o Supremo, não teve boa tradução. Esse romance, assim como os demais da trilogía: Hijo de hombre e El fiscal, não são de leitura fácil, já que necesitam do leitor uma consciencia desperta da realidade latino-americana de início do século XX até o período turvo da ditadura latino-americana, de 1950 até finais da década de 1980.

Provenientes do Alto Paraná, das planícies do Chaco e Assunção, os vários personagens que povoam Hijo de hombre são testemunhas e vítimas da história do Paraguai: a passagem do cometa Halley em 1910 marca as primeiras páginas do romance para, em seguida, atravessar os anos de revoltas camponesas, suas repressões, fundindo-se, nos últimos capítulos, nas consequências da desoladora Guerra do Chaco (1930). Mas a ação também é baseada em um plano atemporal: o autor dá voz ao homem em rebelião, denuncia os abusos das oligarquias, retrata em uma imagem muito terrena o mártir crucificado, reivindicando o legado dos mortos e, portanto, seu passado: em determinada cidade do interior do Paraguai, uma imagem de Cristo, inicialmente no topo de um morro, passa de povoado em povoado para lembrar que o fiho de Deus é o filho do homem que, como os demais cidadãos, precisa ser vingado. Filho do Homem (1960) foi o primeiro romance publicado por Augusto Roa Bastos, uma cosmogonia audaciosa, onde se percebem as vozes ancestrais da herança guarani e espanhola do Paraguai, um projeto que redefine a função do escritor como alguém destinado a colher, conforme palavras de Roa Bastos, “um discurso oral ainda não transcrito, mas presente e marcante no ritmo da história.

Em Yo El Supremo, Augusto Roa Bastos retrata com certa complexidade histórica e simbólica o mundo irreal de José Gaspar Rodrigues de Francia, que governou com mão de ferro o Paraguai entre 1814 e 1840. Ele é a figura totêmica da novela, um homem dedicado à redação de um interminável documento púbico, a Circular Perpétua (na trama, suas memórias), que tem a participação de Patiño, seu nem sempre fiel secretario. A relação do dr. Francia com aduladores, intrigantes, súditos e governos vizinhos, frutifica em uma vereda oral e textual, que aspira a instituir-se, a Circular, como poder absoluto em voz única e irretocável. Com esta obra, publicada originalmente em 1974, temos um marco narrativo que remete a Don Quijote, já que fala sobre o poder e o indivíduo, a supremacía do discurso sobre a realidade, a História americana, a psicología do tirano e, o que é seu cerne, os limites da linguagem e a novela como estrutura narrativa. Em seu discurso quando do recebimento do Prêmio Cervantes na Espanha, relativo a Eu, o Supremo, em 1989, Roa Bastos nos disse que o núcleo gerador de sua novela com Dom Quixote, foi a de imaginar um dublé do Cavaleiro da Triste Figura metamorfoseado no Cavaleiro Andante do Absoluto, realizando esse mito do absoluto em realidade que ele trata de compilar em sua Circular, a simbiose da realidade real com a realidade simbólica, da tradição oral e da palavra escrita. El Supremo Ditador da República do Paraguai desejou apenas o poder absoluto e o teve em suas mãos sem deixar de ser, também, o homem mais pobre do mundo.

El Fiscal (O Fiscal), narra a tragetória de Félix Moral, um escritor paraguaio que teve de se exilar no interior da França, tendo inclusive de trocar de nome. Ele tem uma obsessão: assassinar o presidente ditador Alfredo Stroessner durante um congreso de escritores e intelectuais que se realizará em Asunción em 1987, idealizado pelo próprio Stroessner. Sua companheira de vida, Jimena, representa para Félix o baluarte da estabilidade afetiva. O escritor se debaterá entre a função messiânica do intelectual exilado e o sacrificio do herói (matar o ditador Stroessner), enquanto constrói um discurso elaborado, quase uma sentença jurídica sobre a lealdade e a traição, onde sua experiencia se funde com episódios trágicos da história paraguaia. O escritor, no final, acaba sendo reconhecido, torturado e morto. A novela termina com o relato dos últimos passos do escritor contados de forma escrita por Jimena à mãe de Félix Moral. Com essa obra, reescrita em 1993, Roa Bastos conclui sua trilogía sobre sobre o monoteísmo do poder. Sob meu ponto de vista, este é o melhor romance dos três. Apresenta uma linguagem contemporânea de fatos históricos ainda vivos em nossa memória. O livro foi reescrito por Roa Bastos em 1993.
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Augusto Roa Bastos. Hijo de hombre. Barcelona, Debolsillo, 2008
__________ Yo, El Supremo. Barcelona, Debolsillo, 2008. A ed. Paz e Terra apresenta uma edição em português. Por ser uma edição econômica, possui caracteres minúsculos, dificultuando sua leitora. Entretanto, é a única tradução desse autor que conheço, existente no Brasil.
__________ El Fiscal. Barcelona, Debolsillo, 2008

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Minha lista da Feira



Cemitério de pianos, José Luís Peixoto, Ed. Record
O português José Luís Peixoto nos apresenta, neste romance, uma família em decomposição. Utilizando constantes passagens de tempo e múltiplos pontos de vista, o autor conta as desventuras de uma numerosa família portuguesa, revela seus segredos e estranhas repetições de fatos, amores e desgostos de geração em geração.

Bili com limão verde na mão, Décio Pignatari, Cosac Naify
Bili é uma adolescente de quase treze anos que sai de sua casa desatando bile e atirando um limão nos animais que encontra no caminho. Não contava que eles, o limão e os animais, voltariam até ela, atingindo-a como um bumerangue. Cansada, depois de sua jornada, Bili tem um pesadelo e toma um banho purificador. Uma espécie de releitura de 'Alice no País das Maravilhas', de Lewis Carroll, a obra de Pignatari, traz situações nonsense e personagens esquisitos.

Confissões de uma máscara, Yukio Mishima, Companhia das Letras
Koo-chan vive um momento de conflito interior no Japão do entreguerras. No começo da adolescência, tem fantasias que combinam impulso sexual e violência sado-masoquista, desejo e morbidez. O rapaz chega a imaginar um 'teatro da morte', em que jovens lutadores se enfrentariam como gladiadores, exclusivamente para êxtase do próprio Koo-chan. À medida que avança na adolescência - e a Segunda Guerra Mundial se desenrola -, o rapaz tenta se interessar por mulheres. Por detrás da máscara de 'normalidade', porém, ele sabe que sua opção sexual não corresponde aos padrões convencionais. O protagonista empreende, aos poucos, uma viagem interior de descoberta e construção da própria identidade. 'Confissões de uma máscara' (1949) é um dos livros mais importantes de Mishima - pseudônimo de Hiraoka Kimitake (1925-1970). O autor foi grande admirador das tradições milenares da cultura de seu país. Em 1970, cometeu o suicídio ritual dos samurais - rasgando o ventre com uma espada.

Pastoral americana, Philip Roth, Companhia das Letras
'Pastoral americana' narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta, em vão, comunicar um legado moral à terceira geração da família Levov. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdida lhe confere um caráter ao mesmo tempo heróico e louco.

Servidão humana, Somerset Maugham, Globo
No centro da trama deste romance está Philip Carey, estudante de medicina que, por ser manco, é rejeitado pela sociedade. Ao lado dele surge a sedutora Mildred, que desafia o orgulho intelectual de Philip. Para conquistá-la, ele se sujeita à forma mais vil de escravidão - a renúncia à própria dignidade.

O mal estar da pos-modernidade, Zygmunt Bauman, Zahar
Neste livro, o sociólogo Zygmunt Bauman mostra que a marca da pós-modernidade - ou seu valor supremo - é a 'vontade de liberdade' que acompanha a velocidade das mudanças econômicas, tecnológicas, culturais e do cotidiano. Daí resulta um mundo vivido como incerto, incontrolável e assustador - bem diverso da segurança projetada em torno de uma vida social estável, ou em torno da ordem, como pensava Freud em 'O malestar na civilização'.

A invenção da solidão, Paul Auster, Companhia das Letras
Neste livro de memórias, o autor americano Paul Auster alia seus notáveis talentos de poeta, tradutor, ensaísta e ficcionista. As recordações da infância e dos primeiros anos como escritor se entremeiam com uma profunda reflexão sobre a paternidade, o acaso e a literatura.Paul Auster parte, primeiro, de sua experiência como filho e, depois, como pai, para indagar a fundo a natureza do legado que, sem escolher, herdamos e transmitimos, de geração a geração. Construído na forma de um mosaico poético de fragmentos, o livro alterna recordações pessoais com argutos comentários sobre literatura, pintura e filosofia.

A passagem tensa dos corpos, Carlos de Brito e Melo, Companhia das Letras
Este livro aborda o tema morte. O narrador-personagem não é visto nem percebido por ninguém. Sua principal ocupação é percorrer cidades e registrar as mortes que encontra pelo caminho. Numa dessas localidades, há um morto insepulto, cuja família não parece disposta a velar ou enterrar. Como se nada tivesse acontecido, o cadáver é mantido amarrado à cadeira na mesa da sala, enquanto a esposa e a filha se ocupam dos preparativos para o casamento da menina, e o filho do morto permanece trancado no quarto. Diante da situação testemunhada na casa, a personagem aos poucos se dá conta de que, para existir de fato, necessita, ele mesmo, se apropriar de um dos corpos que encontra.

Os subterrâneaos, Jack Kerouak, LPM
'Os subterrâneos' possui contornos autobiográficos. Leo Percepied é Kerouac e Mardou Fox é a moça pela qual o escritor se apaixona na Nova York dos anos 50. No livro, a pedido do editor, a história se transfere para São Francisco, mas o ambiente underground e boêmio é o mesmo. O texto de Kerouac é uma prosa de um só fôlego, com poucas pausas para novos parágrafos. Após concluir o livro, o próprio autor afirmou que a obra tinha adquirido um estilo quase jazzístico, ritmado, como o bebop que serve de trilha sonora para a história. 'Os subterrâneos' são um grupo de hipsters, aspirantes a artistas, outsiders, homens e mulheres que vivem de bar em bar pelas ruas da cidade. 'Os subterrâneos' é a história do encontro de duas almas perdidas. Mardou é uma moça metade cherokee metade negra, que cresceu em meio à pobreza. Passou a juventude pulando de amante em amante, até conhecer Leo. Ele, por sua vez, se apaixona verdadeiramente por Mardou, mas a forte ligação com a mãe e o preconceito racial fazem com que Percepied não consiga levar o romance adiante. Ao romper essa ligação, Leo/Kerouac se vê completamente perdido, atitude que é justificada pelas últimas linhas do texto - 'E vou para casa tendo perdido o amor dela. E escrevo esse livro.'

Histórias íntimas, Mary Del Priore, Planeta do Brasil
Quando o Brasil era a Terra de Santa Cruz, as mulheres tinham de se enfear e os homens precisavam dormir de lado, nunca de costas, porque 'a concentração de calor na região lombar' podia excitar os órgãos sexuais. E nos momentos a sós - geralmente no meio do mato, e não em casa, porque chave era artigo de luxo e não era possível fechar as portas aos olhares e ouvidos curiosos -, as mulheres levantavam as saias e os homens abaixavam as calças e ceroulas. Casos íntimos são narrados por Mary del Priore. Em 'Histórias Íntimas', ela procura mostrar como a sexualidade e a noção de intimidade foram mudando ao longo do tempo, influenciadas por questões políticas, econômicas e culturais, e passaram de um assunto a ser evitado a todo custo para um dos mais comentados no mundo contemporâneo.

Uma viagem à India, Gonçalo M. Tavares, Leya Brasil
Este livro pode ser considerado uma epopeia portuguesa do século XXI. Esta obra narra a história de um homem que faz uma viagem à Índia, tentando aprender e esquecer no mesmo movimento, traçando um itinerário de uma certa melancolia contemporânea.
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Agradecimentos à Livraria Cultura

domingo, 23 de outubro de 2011

El reino de este mundo



O reino deste mundo, escrita pelo cubano Alejo Carpentier, em 1949, é uma narrativa épica que apresenta como cenário um recorte história do Haiti, do dominio francês a sua libertação. A narrativa apresenta sua estrutura centrada no realismo mágico, ou real maravilhoso, que teve seu início justamente nesta obra de Carpentier. No prólogo da novela, o autor relata que, em 1943 visitou o Haiti e entrou em contato com as ruínas do tempo de Henri Christophe, escravo liberto que se tornou rei, lá pelo início do século XIX. Esse contato lhe suscitou uma realidade maravihosa, em que a cultura popular e seus mitos misturavam-se à realidade histórica. Alejo Carpentier nos diz que o maravilhoso começa a existir de maneira inequívoca, da alteração inesperada da realidade – o milagre, de uma revelação privilegiada da realidade, de uma iluminação inabitual que favorece a riqueza inesperada da realidade, ampliando-a com especial intensidade, em virtude de uma exaltação do espírito. A sensação do real maravilhoso pressupõe uma fé. E uma aceitação dessa fé como parte da cultura de um povo. Carpentier pisara uma terra onde milhares de homens ansiosos de liberdade acreditaram nos poderes sagrados de Mackandal, um escravo africano descrito em algumas resenhas históricas como sacerdote do vodu haitiano. Adepto da magia negra, Mackandal estaría preparando uma poção de magia negra, feita com ervas, para envenenar os senhores de escravos do Haiti. Capturado, foi queimado em praça pública, em 1788. A fé popular produziu a lenda de que, ao morrer queimado, Mackandal transformara-se em uma mariposa noturna que fugira voando, para proteger os seus.
Como se pode notar, o real maravihoso encontra-se a cada passo das vidas de homens que inscreveram na história latino-americana e deixaram marcas ainda presentes na cultura oral de um povo. Alejo Carpentier acreditava em uma práxis latino-americana. O escritor deveria ter uma consciencia nacional, que espelhasse sua obra. A literatura latino-americana, a partir de Carpentier, passou a valorizar o real maravilhoso, até a década de 70: hábitos, costumes, crenças, a cultura oral,de um povo que, desvalorizado pela história oficial, construiu a história de um país. Alejo Carpentier, em suma, acreditava no papel social do romancista. O narrador deveria compreender uma visão de mundo e dar-lhe uma visão ampliada, universal, compremetendo-se com ese mundo. O escritor das Américas latinas deveria buscar na cultura popular de seu país, do líder popular que teve sua voz cortada pelos donos do poder em todas as etapas da história de seu país. Esse líder transforma-se no herói épico da narrativa latino-americana. Através da narrativa épica, o popular particular passa a adquirir status de universalidade.
A novela O Reino deste mundo começa com Ti Noel, um joven escravo, escutando maravilhado os mitos de Mackandal, negro rebelado contra os brancos, com poderes sobrenaturais de curar e transformar-se em diversos animais. Queimado na fogueira, o mito do herói negro sobrevive na cultura oral. O dono de Ti Noel, proprietário de terras, depois da norte da esposa, decide vender suas terras e mudar-se dali, levando o escravo. Ele consegue, depois de um tempo, comprar sua alforria e volta ao lugar de origen, onde tem contato com uma nova etapa de opressão política, durante o regime de Henri Christophe, ex–escravo que se torna imperador do Haiti. Ti Noel, mais maduro, assiste, com novas esperanças, à rebelião de outro líder escravo, Bouckman, querendo a libertação da escravidão já nos moldes dos ideais da revolução francesa. O Haiti, diga-se de passagem, foi o primeiro país a abolir a escravidão, em 1804. Com a norte de Christophe, entretanto, uma nova aristocracia toma o poder, apoderando-se de antigas fazendas e restituindo o regime escravocrata. Ti Noel, assim, faz uma reflexão sobre o destino do homem que padece, espera e trabalha para pessoas que nunca conhecerá e nunca será feliz, posto queo homem ansia, sempre, por uma felicidade situada além do que lhe é outorgado.
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Obras de Alejo Carpentier usadas como pano de fundo:

O reino deste mundo. São Paulo, Martins Editora, 2010. 136pp
Literatura e consciência política na América Latina. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1975. 144pp
El siglo de las luces. Madrid, Austral, 2007. 351pp

domingo, 16 de outubro de 2011

Meu lado professor

Fui professor durante 15 anos, trabalhando português, literatura e teatro. Larguei a profissão por um tempo, mas depois fiz novo concurso e lecionei literatura brasileira por mais três anos. Exerci a profissão com a de bancário sem problemas. Talvez por isso tenha saído do banco sem odiar a instituição. O serviço bancário era um serviço desgraçado, pois o que se produzia não era serviço criativo. Tinha a vantagem de ser um serviço coletivo, é verdade, mas o que se fazia me parecia ser produto de ninguém, um serviço sem cara. Depois que larguei o Estado de vez, tratei de exercer no banco a função didática, como educador da Oficina de Comunicação Administrativa, onde se tratava de simplificar o texto ao mínimo necessário, visando agilizar o fluxo de trabalho. Também era educador do BB Educar, dando cursos de 40 horas para formar alfabetizadores de jovens e adultos por esse Brasil afora. Agora aposentado, ainda permaneço ativo no quadro da FBB. Também atuei como alfabetizador em dois núcleos de alfabetização em Porto Alegre.
Como se pode ver, a educação está no meu sangue. Foi a profissão que escolhi como minha meta profissional. Ainda bem que consegui exercê-la paralelamente ao serviço bancário. O trabalho com literatura foi o que mais me cativou. Trabalhar com alunos de periferia era um desafio a cumprir, o que mais gostava de fazer. Você pode imaginar que alunos do segundo grau chegassem até ali sem terem lido um só livro de ficção? Eram muitos assim. Havia os que liam literatura espírita e Paulo Coelho. Era um começo. Busquei entrar em contato com esse material, lendo alguns livros, inclusive Paulo Coelho. Não se podia desvalorizar esse tipo de literatura, pois ela reforçava o gosto pela leitura. O que seu tinha que fazer era diversificar, trazendo textos com maior profundidade criativa, próximos a essa literatura consumida por eles. Era mais importante trabalhar o texto de um autor e a partir daí buscar as características de estilo que marcavam determinado período literário. Lecionar à noite era trabalhar com jovens e adultos na mesma sala de aula. Bater com pessoas que não compreendiam o que liam, já que não desenvolveram a capacidade de abstração em séries anteriores, justamente porque não liam.
O que eu costumava fazer: pegar o capítulo de um livro e digitá-lo no computar com uma letra maior, para que tivessem o conforto da leitura. Depois, ligar os acontecimentos dentro do contexto histórico em que a história era contada. Depois, a verossimilhança. Assim, a função social da literatura se fazia presente. Esta era minha linha de trabalho. Para levar esses polígrafos digitados em fonte maior, eu cometia um ato ilícito, os imprimia numa impressora do banco, usando o lado em branco de papéis já impressos. Aliás, agradeço aos colegas bancários que muitas vezes encontravam na impressora os impressos e não me entregavam à chefia. A chefia era camarada nesse ponto, também. Eu cometia uma infração que tinha um objetivo nobre. Estava buscando alimentar a cultura de gente trabalhadora que não teria acesso a material digno, se não fosse dessa forma.
Eu não era um professor bonzinho, entretanto. Tinha a “crueldade” de obrigar os alunos a lerem, no mínimo, um livro por ano. Para isso tinha minha biblioteca particular com romances e poesias da coleção LPM, que levava para a sala de aula e os deixava folheá-los e se interessar por um que pudessem ler. A tarefa deles não era fácil, eu fazia uma entrevista depois da leitura do livro. Alguns tentavam me enganar, pulando páginas, outros diziam que não conseguiam lembrar da história. Resultado, a nota não era dada até que lessem o livro todo. Claro que alguns não liam o livro todo, era necessário que eu me deixasse enganar. Mas a tentativa havia sido feita. Páginas, pelo menos, foram lidas. Eu puxava o couro dos alunos, mas nenhum deles era reprovado, pois todos buscavam um esforço de vencer dificuldades. Adquiriam a consciência de que havia uma defasagem em sua educação até o momento e que o esforço para alguma compensação, passava a fazer parte deles.
Um dia desses, no ônibus, uma jovem se aproximou e perguntou se eu era o professor Paulo. Ela havia sido minha aluna de teatro na oitava série da Escola Dom Diogo de Souza. Agradeceu-me pelas aulas de teatro e me disse que havia encontrado sua profissão dentro da área: havia feito a faculdade de Artes Cênicas e estava trabalhando numa peça infantil. No restaurante Marcos, uma noite, um garçom me perguntou se eu era o professor de literatura da Lomba do Pinheiro. Havia sido meu aluno (daqueles que me “enganavam” na leitura). Outro dia, uma cobradora do ônibus Santana me disse que eu havia sido professor dela, também. Todos eles me demonstraram afeto na abordagem, sinal de que meu lado “terrorista” não lhes trouxe grandes males. Ainda bem.

domingo, 9 de outubro de 2011

A escritora

Numa noite dessas um programa de tevê local entrevistou uma escritora famosa no mundo das letras. Dizia à entrevistadora que prezava muito a possibilidade do amor na terceira idade. Que as pessoas mais velhas, muitas vezes sozinhas depois de um longo amor em que construíram seu lar com filhos e uma casa acolhedora, tinham o direito de olhar para o lado. Que é possível a todos, sem nenhuma exceção, ser felizes novamente.
A escritora continuou a discorrer sobre seus pontos de vista em relação à vida e à vida em sua escritura, sempre olhando para a câmera, embora estivesse frente a frente com a entrevistadora. Eu não via a hora em que a entrevistadora, incomodada, pedisse que se dirigisse a ela e não à câmera para a conversa transcorrer em clima de certa intimidade disfarçada. Mas a escritora continuava olhando para a câmera, talvez para passar uma imagem mais verdadeira no batepapo.
O que a escritora achava das atrizes mais velhas esticarem o rosto: ridículo! As pessoas deveriam envelhecer valorizando o sinal dos tempos, já que o envelhecimento tem sua cota de beleza. Mas a senhora já fez plástica... Sim, minha filha, mas... pouca coisa! Alguns retoques para tirar as papas, nada que alterasse meu semblante. Não sei por que essa gente teima em ser outra pessoa...
A senhora valoriza o amor na terceira idade. Está amando um homem mais novo que a senhora? De fato, mas pouca coisa, também. Nem aparecem as discrepâncias. Essa história de que relacionamentos em que o “pai” procura a “filha” e a “mãe” procura o “filho”, isso é história de Nélson Rodrigues. Mas os médicos falam em testosteronas... Conversa pra boi dormir, minha filha. O amor maduro não é só sexo, écompartilhamento, é amizade. Amor maduro é amor de amigo, também.
Pois é, e o que a senhora pensa das críticas que vem recebendo, de que sua literatura é de auto-ajuda? Coisa de patrulhamento da esquerda festiva que vem infestando o país... Não dou bola pra crítica, nunca dei, não preciso dela para vender meus livros. Meu público é fiel e sabe o valor de minha obra...
Essa escritora passou a vender muito, desde que mudou seu rumo na escrita. Agora ela diz que escreve ensaios, na verdade um estilo de crônica meio longa, em que traça parâmetros de vida e opina daqui, opina dali. Parei de ler a escritora, depois de ler dois livros seus nessa linha. Essa coisa de comentar um fato e emitir um ponto de vista como verdade terapêutica me cheira sem graça.

domingo, 2 de outubro de 2011

Recortes




Decidi assistir ao filme “Tropa de Elite 2” na tevê a cabo, incentivado pela notícia de que representaria o Brasil na concorrência ao Oscar. Não consegui ver até o fim. O filme me aborreceu. Não sei se a platéia internacional conseguirá acompanhar o filme sem a base do primeiro. Tecnicamente pareceu bem feito, a ação ocorria em clima meio de jogos eletrônicos. As atuações eram boas, mas não me convenceu como história. Esse negócio do Brasil priorizar o cinema na linha “favela movie” para concorrer ao Oscar está ficando manjada demais.
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Ainda na televisão, assisti a flashes do Rock in Rio. Todas as cantoras absolutamente iguais em sua mediocridade. Pasmei quando vi um rapaz chorando na apresentação da cantora Rhiana. Não achei a menor graça nos figurinos iguais, todas elas de maiô ou shortinho, dançando do mesmo jeito, levantando pernas na testa e esfregando o cóccix no chão. As mesmas músicas. Berrando como só elas. Claudia Leitte busca seguir a fórmula global, parece competente no que faz, mas falta-lhe voz (ou técnica para aprimorar a voz).
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Decidi estudar espanhol no Instituto Cervantes. Há dois anos vinha estudando espanhol em casa e me saía bem nas provas da Ufrgs que baixava na internet. Senti necessidade, entretanto, de aprimorar a conversação, para evitar falar espanhol com a sintaxe do português. Pois numa das aulas, foi dado um exercício de ler um conto popular e fazer um resumo do texto. Busquei “O Patinho Feio”. Criada pelo dinamarquês Handersen, no romantismo (teria sido escrito em 1832), o conto reflete as tristezas e desventuras de um “patinho” que é visto diferente pelos demais e, por isso mesmo, rejeitado. Fazendo-se uma leitura nos tempos atuais, o conto reforça essa idéia que está, quiçá, mudando nos dias atuais, o preconceito aos diferentes, seja em gênero, raça e tipo físico. O patinho só consegue ser feliz quando vira cisne e passa a viver entre seus pares, numa sociedade que não queria ser inclusiva.
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Tenho acompanhado na internet crônicas de jornalistas e críticos, avacalhando com o último cd de Chico Buarque. Uns disseram que sua poesia perdeu força, outros que não conseguiram ouvir o disco e tamborilar como nas obras anteriores do artista. Houve quem dissesse que sua pouca voz andava debilitada. Creio que o uso de sua imagem ligada às campanhas do PT nas últimas eleições deva ter contribuído para esse tipo de crítica, de buscar demolir o mito. Não concordo com a opinião desses cronistas. O disco de Chico não é para se botar a tocar e sair para pôr a roupa na máquina ou cortar a cebola do molho da macarronada. Gostei muito do cd, que é obra para se ouvir uma e muitas vezes, pois requer atenção igual a que se tem quando se lê um livro. As canções são belíssimas, muito bem entrelaçadas às letras, que continuam brilhantes. Sei que você deve ter ouvido e não gostado... Pois, sente-se numa poltrona em silêncio, coloque o disco no aparelho, pegue o folhetos com as letras e preste atenção. É música das boas. Gostei, em especial, de “Se eu soubesse”, que ele canta com a namorada cantora.

domingo, 25 de setembro de 2011

Céu de primavera




Escrevi numa crônica anterior o meu gosto pelos dias de inverno frio e seco de Porto Alegre, quando se busca o calor, o aconchego, o sono aquecedor (os dedos das mãos e os pés gelados a gente esquece, tá?!). Agora, quero dizer do meu gosto particular pela Primavera, minha estação preferida. Quando se tem sol e céu limpo, tudo é mais cor. Um dia luminoso como o deste domingo (25/09) é encantador. Fica-se com o pé que é um leque para sair à rua. O dia como hoje deveria ser o Dia Mundial sem o Carro. Na primavera, as ruas parecem ter alma. Árvores divergem nas cores, flores aparecem em canteiros e jardins, crianças reaparecem a brincar, bermudas e camisetas expõem mais o corpo ao clima fresco que vai esquentando um pouquinho mais, com a presença do sol. O bric da Redenção, a caminhada na orla do Guaíba, é compartilhamento.
A primavera incentiva o senso da coletividade, onde o nós passa a ser importante. O relacionamento é uma de suas tônicas. As pessoas parecem mais bonitas e alegres. Vontade de tomar cerveja e vinho branco. O entardecer primaveril é muito gostoso, quando o anoitecer volta a refrescar e nos traz para casa com a alegria de ter podido reverenciar o spot luminoso do dia.
A primavera de Porto Alegre é a estação da cultura e das artes: mostra de teatro, bienal do Mercosul, Feira do Livro. Já o litoral gaúcho cria vida na primavera. As casas são abertas, o mofo cede lutar aos perfumes de limpeza, as caminhadas à beira do mar são compartilhadas. A primavera é um festival de preparação.
A primavera é especial para mim, porque começa com o signo de Libra, meu signo. Minha natureza se alimenta do tom primaveril. Meio démodê, adoro presentear com flores, curto perfumes e aromas naturais. Sou muito natureza.
Para despedir-me, trago-lhes um pedaço da letra de Ronaldo Bastos para a música Sol de Primavera, de Beto Guedes:
Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
(Juntos outra vez)
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar

Bons dias a todos!

domingo, 18 de setembro de 2011

A roda da Fortuna


Estou procurando sem sucesso o livro “A Velhice” de Simone Beauvoir. Muita gente deve estar fazendo o mesmo, já que a obra está esgotada na Editora Nova Fronteira, que tem publicado a obra de Simone, assim como a de Sartre. Na Estante Virtual também não encontrei a edição que busco ler, de 2003. Os poucos exemplares usados à disposição são da década de 70 e estão caros. Meu interesse pela obra vem do fato de que estou no alvorecer dos 58 anos e a hora de confrontar-me com o texto é agora, quando não me encontro com grandes problemas de saúde e tenho um distanciamento do que se coloca no livro, sob o ponto de vista existencialista. Simone de Beauvoir afirma que a sociedade de consumo trata os velhos como párias, condenados à miséria, à solidão e ao desespero. É exigido dos velhos a serenidade, o que evidencia o desinteresse pela infelicidade dos idosos.
Quando procurava “A Velhice” na Estante Virtual, verifiquei obras cujos títulos levam à compreensão da velhice na trilha parecida da auto-ajuda. Uma obra que me chamou a atenção foi “Rejuvenescer a velhice”. Segundo informação da contracapa, a terceira idade é entendida como a etapa mais rica e experiente da vida e, por isso mesmo, a mais propícia a aprofundar-se no autoconhecimento e na percepção da sociedade. Destas reflexões brotam as formas possíveis do idoso atuar e integrar-se no corpo social, debelando com sabedoria os rótulos e preconceitos que ainda atingem esse segmento da população. Acredito que alguns idosos saudáveis consigam essa integração social, mas o comportamento da sociedade com os velhos ainda é preocupante. Parece que se esquecem de que velhice é preocupação com a falta saúde. Outra é a solidão. Os velhos que podem “rejuvenescer” são os mais ricos, que dispõem de meios para embasar o cuidado que lhes é necessário.
Outra obra de título interessante que encontrei foi “Vencendo a velhice”, da Dra. Ana Aslan. Fiquemos na afirmação do título: você acha que é capaz de se vencer a velhice? Como se a velhice fosse uma doença de que se pudesse sarar. Outro é “Pondo Fim à Velhice”. Pronto, você acaba com ela, fica eternamente jovem. Aliás, quando vejo matérias na tevê mostrando idosos fazendo ginástica, teatro, brincadeiras infantilizadas, alguns depoimentos de idosos que se sentem como se tivessem 15 anos fazendo atividades físicas, tudo isso me deixa com a pulga atrás da orelha. Que se façam exercícios, que pratiquem atividades criativas, mas não tornem os velhos imbecis. Já repararam como há terapeutas da terceira idade falando aos velhos no diminutivo, como se fossem crianças?
Velhice pra mim é aceitação da condição humana. É confronto direto com a solidão. É finitude. É preparação para a morte que não consigo ainda aceitar. Velhice é amadurecimento, e eu preciso amadurecer para aceitar as coisas não muito boas que poderão vir por aí, espero que não muito cedo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Relato de viagem



A viagem a Rússia e Escandinávia estava sendo planejada desde que me aposentei em 2007. Como na ocasião eu adquiri uma polineuropatia inflamatória crônica desmilienizante, que comprometeu um pouquinho o movimento dos pés, fui deixando a coisa passar, até que agora o projeto aconteceu. A ida até Moscou foi muito demorada, oito horas de espera no aeroporto de Amsterdam para conexão a Moscou. Estando lá, dois dias cheios e não consegui ter uma visão mais abrangente da cidade. Será que Moscou seria somente o Kremlin e a Praça Vermelha? O passeio interessante que fizemos à noite pelos pontos turísticos da cidade, se oferecido durante o dia, daria uma visão mais diversificada da capital russa. Um dia a mais em Moscou teria sido perfeito, pois gosto muito de frequentar museus e não pude ver o de Gorki, grande escritor russo que tanto admiro. Como a fala e a escrita são enigmas, consegui decifrar muita coisa usando meu inglês que julgara enferrujado. Especialmente em restaurantes, a coisa foi meio complicada. Mas deu tudo certo.
São Petersburgo é uma cidade charmosa. Cortada pelo rio Neva, possui uma arquitetura meio barroca, em que o estilo austero dos soviéticos não pôde alterar. O palácio de verão de Catarina II, a Grande, é sensacional. Quase todo ele em estilo rococó, começou a ser construído em 1717. O salão de baile, todo decorado em ouro, bem como o Salão Âmbar, são deslumbrantes. A Rússia foi assim um pouco intenso de história. Muito dessa riqueza vem da aristocracia que os bolchevique tentaram apagar.
Da Rússia a Finlandia, a história cede lugar às belezas naturais. Helsinque, uma graça. Poderia ter ficado mais um dia. A cidade é pequena e agradável. Ao contrário do que eu sabia, a Finlândia não faz parte da Escandinávia, tem uma língua diversa das demais, uma das mais antigas do mundo, que se aproxima do tronco da língua romena. De lá, viagem de navio a Estocolmo. A travessia do Mar Báltico só fez sentido, porque o ônibus precisou ir junto. Foi um tempo precioso que se desperdiçou. Estocolmo, entretanto compensou o esforço. Cheia de canais, tem uma rua de pedestres imensa e colorida que leva aos pontos turísticos importantes da cidade. A visita aos salões da prefeitura, onde acontecem as cerimônias de entrega do Nobel foi muito bacana.


De Estocolmo a Oslo, o cansaço. Três dias cheios dentro do ônibus, paisagens belíssimas vistas da janela, pois as estradas estreitas não permitiam parar para sacar fotos. O que se via o tempo todo era uma paisagem rural com suas casinhas com telhado de grama (eles dizem que isso protege do frio) próximas a lagos e fiordes. O passeios pelos fiordes, que era o que mais me interessava, ficou com menos brilho por causa dessa trajetória cansativa. Oslo agradou não tanto quanto as demais visitadas. O passeio fechou com uma Copenhagen linda e sedutora. Lá, um dia a mais não faria nada mal a ninguém. Aproveitei a noite no “canal”, um local perto do porto, repleto de restaurantes, onde tomei vodca e cerveja “strong”. Kopenhagen prioriza a bicicleta ao pedestre. Há muita, mas muita bicicleta circulando em ciclovias que existem em todas as ruas que vi.
Quase não troquei dinheiro. Usei o cartão para tudo. Apesar dos 6,5%, achei que valeu a pena, porque não me enchi de moedinhas indesejáveis depois que se vai embora, e porque a conversão ao dólar comercial valeu a pena. Agora, em casa, estou curtindo a música erudita do músico norueguês Eduard Grieg e estou começando a leitura de “Noites Brancas”, de Dostoievski, cujo cenário é São Petersburgo. Para finalizar, quero dizer-lhes que é muito bom estar de volta ao lar.

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia do Pai

A lembrança de meu pai é de um homem velho. Quando nasci, ele tinha mais de 50. Aos dez anos, a imagem dele era de alguém que exercia sua autoridade sobre a família. Ele nunca foi de bater nos filhos, na maturidade, mas usava o sermão como arma infalível para consertar alguma coisa em meu comportamento arredio. Em minha adolescência, lá pelos 14, 15, 16, discutíamos muito, pois punha em prova sua maneira de pensar, antiga, ao comportamento novo da geração de 60. Mas não éramos de muita conversa um com o outro, não. Sempre fui um cara reservado, fazia as coisas em silêncio. Na minha infância, tinha três irmãs na casa. Menino não se podia meter na vida feminina. Por isso mesmo fazia minhas brincadeiras e fantasias no pátio, na rua, com a liberdade que me era designada. Um irmão me disse um dia desses, que meu pai era uma pessoa fora de série, pena que eu convivera já com a velhice dele, com algumas doenças e não pudera participar de seu estilo peculiar na educação dos filhos. Seu poder de força, com a idade avançada, não era a mesma que meu irmão vivenciara em sua juventude. Meu pai, para ele, era um herói. A única herança que ele dizia legar aos filhos, era a educação. Era necessário estudar. Mais que trabalhar. Sempre admirei a forma como meus irmãos mais velhos se relacionavam com ele, tendo como ponto de vista o respeito. Comigo e minha irmã mais nova, nossa convivência era mais aberta, havia respeito, mas podíamos divergir, discutir, brigar, pois esse era o caminho que ele escolhia sempre, permitir o diálogo.
Uma imagem que me dói de meu pai, era a de pessoa solitária. Minha mãe havia morrido. Minha irmã e eu trabalhávamos e ele cuidava da casa, rodeado de sua solidão e da lembrança de minha mãe, que partira há pouco. Seu sorriso já não era mais o mesmo, até quando algum tom alegre no ambiente o fazia sorrir. Quando não gostava de alguma coisa, limitava-se a resmungar e fechava a cara de poucos amigos. Às vezes eu implicava, perguntando-lhe o que era. Ele respondia nada. Certas dores no corpo, a pedra nos rins...
Percebia-se a mudança também no rosto. A boca que pronunciava palavras silenciosas, enquanto jogava cartas sozinho na sala, era uma boca de defunto. Os olhos castanhos acumulavam as marcas do tempo a seu redor e os poucos cabelos da parte lateral da cabeça não escondiam mais a mescla de grisalhos: era completamente branca.Quando se aproximava para me desejar bom dia, o braço que me tocava o ombro, completamente flácido, era leve e indeciso.
Quando me sentava na outra ponta da mesa para tomar o café da manhã, sentia sua respiração ofegante. Tossia de vez em quando. Ouvia o barulho da xícara raspando o pires e me sentia assim como ele, também diminuído, trancado na mesma saudade, parceiro de mesma solidão.
O silêncio enchia a sala. Quando essa triste lembrança da morte dela se tornasse saudade, talvez pudéssemos discutir futebol e política, sorrindo e brigando como amigos. Torcia para que o tempo fizesse surtir seu efeito.
Não foi possível. A saudade dela acabou tirando-lhe a vida alguns anos depois. A coisa de que mais sinto falta em relação a ele, é de poder lhe dar um abraço apertado.

domingo, 7 de agosto de 2011

A vulgarização do afeto

Você já esteve em uma rodinha de amigos, certamente, batendo papo, até que a roda se desfaz por motivo vário e cada um se despede, dá um abaninho e diz: “tchau, um beijo”. O beijo não é dado. É falado. As pessoas estão todas juntas, uma frente às outras, e o beijo sai falado. Entre homens é o afeto falado do “até mais, um abraço”. Puxa vida! Por que não dar um abraço corpo a corpo? Já repararam que muitos homens se abraçam colocando a mão no peito um do outro, para evitar o confronto corpo a corpo mais direto? É da cultura machista. Não tem jeito. Pois é, mas assim é a vida. Pode ser que as pessoas dessa rodinha não sejam grandes amigos a ponto dos lábios tocarem o rosto do outro. Então se usa a tal cortesia de demonstrar um afeto não tão próximo através do beijinho falado e não dado.
Certa vez, quando estava em Brasília montando um curso de linha na Gepes do Banco do Brasil, fui apresentado a uma educadora, dessas chefas com alto cargo inerente à competência de sua função. Muito cortês à primeira vista, chamava-me pelo nome toda a vez em que conversávamos no horário do lanche coletivo. Quando finalizou o lanche, ela desejou um bom final de tarde a todos e a todas (não sei por que dessa moda, pois o gênero “todos” inclui, quem exclui é o “todas”) e propôs que todos ali presentes se dessem um abraço de confraternização. No dia seguinte, cruzamos eu e ela em sentidos opostos no imenso corredor deserto da Gepes. Quando chegamos bem próximos, olho para ela, mas ela ignora minha presença, como se eu não existisse passando por ela naquele momento. Fiquei intrigado. No dia anterior ela propôs um abraço de confraternização. Abraço é coisa séria, gente! No dia seguinte, já propôs que fôssemos anônimos, fingindo desconhecer um ao outro. Essa característica, aliás, é típica de ambientes de trabalho em que há muita gente e não se pode ou não se quer estar “arreganhando os dentes” a toda hora e momento.
Ora, não se trata de arreganhar os dentes a toda hora e momento. Um olhar não tira pedaço de ninguém. Não é preciso nem falar, basta o esboço de um sorriso que a cordialidade está feita. Mas a vida é assim mesmo. Já me disseram que ninguém é obrigado a estar feliz o tempo todo. Eu penso, entretanto, que é possível a delicadeza e a gentileza sem grandes estardalhaços, que daí é exagero falso. Se fôssemos mais autênticos em nossa forma de demonstrar afeto a terceiros, poderíamos, quem sabe nessa tal rodinha, dar um adeus e “até a próxima”. Senão, dá um beijo, cara, não custa nada!

sábado, 30 de julho de 2011

Os males do fumo




Dias desses, desci para esperar o táxi na portaria. Lá, estava uma vizinha conversando com o porteiro. Senhora educada, nos seus cinquenta e poucos anos, pelo modo de se expressar me fez pensar numa professora universitária. Moradora solitária, sempre que passo pela portaria a vejo conversar com o porteiro. Já houve queixa ao síndico, de suas conversas com o empregado. Mas, que fazer, ela não dá importância e se detém na portaria, a contar de sua vida. Dessa vez em que desci a esperar o táxi, ela contava ao porteiro que fumava por prazer. Disse a ele que nunca fumou no trabalho. Sempre depois, no "happy hour", acompanhada de um chopinho. O porteiro lhe perguntou se ela alguma vez pensara em parar e ela lhe disse não. Gostava de fumar. Durante o fumo, ela punha a vida em devaneio e o tempo passava com prazer. Como visse que eu observava a conversa, virou-se para mim e disse:
_ Sabe, vizinho, adoro um traguinho. Mas não abuso não. Agora que estou envelhecendo, é só um cálice de vinho tinto. Faz bem ao coração. Mas sabe como são as coisas, a bebida sempre puxa um cigarrinho. Impossível beber sem fumar. No que me diz respeito, comecei a fumar em torno dos dezesseis anos e nunca parei. É verdade que só ocasionalmente fumei mais de vinte cigarros por dia. O que fumei? De tudo. Do cigarro sem filtro ao mentolado. Cigarrilha e charuto também. Gostava muito do Mistura Fina. Com ele me iniciei no fumo. Hoje fumo dos mais fracos, por causa de uma tossezinha seca.
O senhor sabe, ela me disse, aproximando-se, o fumo, que se casa admiravelmente com o álcool (se o álcool é a rainha, o fumo é o rei), é um companheiro caloroso de todos os acontecimentos de minha vida. É o grande companheiro dos dias bons e maus. Acende-se um cigarro para festejar uma alegria ou para disfarçar um amargor. Quando se está só, ou acompanhado.
Continou: o fumo é um prazer de todos os sentidos – da visão (que belo espetáculo, sob o papel prateado, esses crigarros brancos arrumados como para uma parada), do olfato, do tato. Se me vendassem os olhos e me colocassem um cigarro aceso na boca, me recusaria a fumá-lo. Gosto de tocar o maço em meu bolso, de abri-lo, de apreciar entre dois dedos a consistência de um cigarro, de sentir o papel em meus lábios, o gosto do tabaco em minha língua, de ver brilhar a chama, de aproximá-la, finalmente de encher-me de calor.
O senhor sabe, um homem que eu conhecia desde a universidade, da alta burguesia porto-alegrense, de centrodireita, engenheiro, morreu de um câncer no pulmão. Ia vê-lo no hospital, no bairro Menino Deus. Já faz um tempinho. Tinha tubos por todos os lados e uma máscara de oxigênio que retirava de quando em quando, para aspirar, muito rápido, às escondidas, uma baforada de cigarro. Fumou até as últimas horas de sua vida, fiel ao prazer que o matava.
Meio incomodado, fui me aproximando da porta, para esperar no jardim. Ela continou comigo. Assim sendo, se o senhor me permite, para encerrar essas considerações sobre o álcool e o fumo, pais das profundas amizades bem como dos devaneios fecundos, dar um duplo conselho: não beba e não fume. É perigoso para a saúde.
Quando me dirigia em direção ao táxi que chegara, ela veio atrás de mim e arrematou:
_ Acrescento que o álcool e o fumo acompanham agradavelmente o ato de amor, também. Geralmente o álcool se situa antes e o fumo depois. Mas o senhor me desculpe a intimdade inadequada. Não vá esperar de mim confidências extraordinárias. Essas particularidades, a gente não conta a ninguém. Até a próxima.
Abri o portão e saí desconcertado. Vou morrer e não vou conseguir ouvir tudo não, pensei. Entrei no táxi e me fui.Saudade de um filme surrealista de Luis Buñuel.
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Por falar em Buñuel, recomendo-lhes seu livro de memórias:

Luis Buñuel. Meu último suspiro. Rio, Nova Fronteira, 1982

domingo, 24 de julho de 2011

O ídolo pelo avesso


Os jornais noticiaram neste sábado a morte de Amy Winehouse. Os reporteres e fãs diziam que já sabiam que o destino dela seria esse, mas não pensavam que ia ser tão cedo. Suas atitudes e os escândalos noticiados pela mídia criaram a esteira para que afirmassem isso. A cantora necessitava do álcool e das drogas para sobreviver. Sabemos de personalidades que carregavam o enigma que não conseguimos depreender com isenção de partido: para eles, viver dói e dói muito. É possível não ter amor à vida e seu futuro de felicidade a ser conquistada. Os alcoolistas são assim. Os drogaditos também. Não é preciso ser famoso para sentir a mesma dor dos famosos que amamos, morrendo em desastre, na mais completa solidão. Quem consegue permanecer vivo, vive sempre o dia de hoje, pois a vida é uma batalha. Deprimida constantemente, Amy era mais famosa por seus pileques e atitudes agressivas do que por sua música. Esqueceu letras e caiu em shows no Brasil.
Quando tropeçou e caiu,a platéia aplaudiu, confortando-a do constrangimento. Muitos não gostaram de sua performance frígida. Foi gravada e fotografada no bar do hotel em que estava hospedada, no Rio, bebendo do conteúdo mortal que a alimentava viva.
A imprensa toda está explorando o 27 como um número cabalisto. Amy Winehouse, Janis Joplin, Jimy Hendrix, Kurt Cobain e Jimi Morrison morreram jovens, todos aos 27 anos, sozinhos e de uma forma trágica. Lutaram para se expressar e morreram reféns do vício. Todos deixaram sua marca na estrada da música. Janis Joplin seduzia pelo vozeirão e movimentos felinos. Cantava o blues como ninguém. Disse que trocaria todos os dias de amanhã por um dia do passado. Símbolo da contracultura, eternizou sua imagem cultuada até hoje. Jimi foi outro símbolo de uma mesma geração. Deus da guitarra, criava e experimentava sons antes deles serem misturados pela tecnologia dos dias atuais. Num show em Monterey, 1967, entrou em transe, queimou e destruiu uma guitarra sob o delírio da platéia. Morrison, do The Doors, culto e sexy, andou sempre em busca de novas sensações. Várias vezes saiu algemado do palco por bebedeira e atentado ao pudor. Cantou bêbado em vários shows, caindo e rolando no palco. Kurt Cobain, do Nirvana, cometeu suicídio em 1994. Viveu um turbilhão psicológico com a atriz Courtney Cox. Deprimido, mergulhou na heroína.
O escritor Rodrigo de Souza Leão escreveu que na vida às vezes a gente tem de escolher entre esmurrar a ponta de uma faca ou se deixar queimar no fogo. Gente famosa como Amy Winehouse e gente anônima que sofre da pulsão de morte carregam consigo o enigma do desgosto pela vida. Viver pode ser uma dor muito profunda que nós, que não a sentimos ou não a sentimos com essa intensidade, talvez não a consigamos compreender. Nem aceitar.

domingo, 17 de julho de 2011

Universo particular



A vida é bela se você colocar o mundo ao redor de seu umbigo. Você vai criar seu universo particular. Vai selecionar as coisas que lhe são necessárias para dizer que se considera feliz e o mundo é maravilhoso. Seu universo é uma bolha. Nela você coleciona os amigos que lhe interessam, faz seu fisiculturismo, trata de sua saúde com uma alimentação competente, bebe seus 10 copos de água por dia, trata bem de seu sono, seleciona criteriosamente as coisas a seu redor. E assim vai. E você é feliz, pois a vida é bela. Em seu universo particular não há lugar para a pobreza, pois ela é feia e você não se considera responsável por ela. Atitudes maldosas e interesseiras, será que você as tem? Fazem parte de seu universo particular? Não, você se considera justo e a moral é uma meta. É importante ser correto, tratar as pessoas com justiça e igualdade, mas isso não quer dizer que determinados iguais possam fazer parte de sua bio-bolha E assim vai e você é feliz e a vida é bela. Se você se olhar por dentro, também, e verificar que uma vontade muito grande de viver é mais importante que o viver alheio, porque você se considera um vencedor de si mesmo, a vida também é bela.
Agora, você tira o olho de seu umbigo e concorda que o cinismo combina com a castidade. Ou a alma humana não é a mesma em toda parte, talvez a vida não lhe seja bela. Se o bem tem importância menor que a do mal, o desconforto do outro desloca sua comodidade... A vida não é bela. Não pode ser bela a vida que é cumprida por obrigação e sem prazer. Quando você transa sem camisinha com o namorado que conheceu na semana passada e nem se lembrou disso, alguma coisa está fora da ordem. As coisas boas e ruins da vida ao mesmo tempo não constituem beleza. O amor do filho pelos pais não é o mesmo amor dos pais pelo filho. O amor filial da infância e juventude esmaece, fica pálido. Torna-se afeto por obrigação, quando não se precisa mais deles. Quando você comete pequenos deslizes e os justifica porque fazem parte da cultura, como atravessar a faixa de segurança no sinal vermelho, segurando uma criança pela mão: não vinha carro e você foi cuidadosa. Dar uma estacionada relâmpago em vaga de deficiente físico de um banco eletrônico não faz mal nenhum, era coisa rápida, se aparecesse o deficiente físico você daria o lugar a ele, sem problema. No trânsito congestionado, dar passagem a um carro que está saindo da garagem, nem pensar, você está com pressa, ainda mais se você for mulher. Galanteria é coisa de homem.
A vida é bela. A vida não é bela. O egoísmo, muitas vezes, faz-nos acreditar que estamos bem, contentes em nossa zona de conforto, libertos da ansiedade e do medo de morrer (há pessoas que têm medo de viver). Então acreditamos ser felizes. E somos, porque não. Estamos no tempo. E o tempo não para. E ninguém é cem por cento feliz para sempre. A vida não teria graça sem o sofrimento para nos recompor a felicidade. Viver é complicado. É triste. É belo. É paradoxo.

domingo, 10 de julho de 2011

O amor cortês

Você conhece, por acaso, alguém que seja espirituoso, educado, sensível e galanteador? Desses ou dessas que conquistam pela inteligência aliada à inspiração poética? Não precisa ser um poeta, mas demonstrar ações e gestos em de forma poética. Alguém que conquiste sem a premência da cama? Alguém que te surpreenda em coisas antigas, mas bacanas? Provavelmente esse alguém seja adepto do amor cortês.
O amor cortês não é objetivo. Tampouco é platônico, como referem alguns. Requer menos interpretação e mais sentimento. Amor cortês é namorar. É encantar. É seduzir sem outra contra-indicação que não seja a sedução. Quem não seduz não pratica o amor cortês. Atenção, porém, sedução não é sinônimo de amor cortês. O amor Cortês seduz com requinte. Idealiza. Ou melhor, busca por em prática a idealização de um tipo de pessoa amada, que partilhará de seu perfil ideal de amante. Jamais o praticante de um amor cortês será mal-educado. Muito pelo contrário. Uma pessoa que busca conquistar a outra, enviando-lhe flores, será adepta do amor cortês se essas flores chegarem ao ser amado de uma forma diferente, ainda que simples. Lidar com a simplicidade de forma esplendorosa, essa é uma característica do amor cortês. Não precisa ser uma dúzia de rosas, pode ser uma única dália. Mas a forma e a situação em que essa flor aparecer, será de um requinte e refinamento muito peculiar.
Librianos, por exemplo, costumam curtir o amor cortês. Toda pessoa de libra pensa muito no amor, mas não um amor tórrido e cheio de paixão como pensa um taurino ou escorpiano. Amor para libra é antes de tudo algo carregado de ideias e ideais românticos, aquilo que faz um relacionamento perfeito. Refinamento, requinte e classe são qualidades importantíssimas para Libra. Mas não se iluda, há librianos e librianos. De turrões o mundo está cheio. Geminianos costumam aparecer nesse grupo, ainda que a discrição não lhes seja um ponto forte. Escorpianos também, apesar das desconfianças. Arianos, taurinos e leoninos não curtem o amor cortês. Para os desses signos, o negócio é pão-pão queijo-queijo.
O amor cortês teve sua origem na poesia trovadoresca da Idade Média e na poesia provençal. Nesse tipo de expressão poética, o amor cortês tinha traços de submissão à mulher amada. Ou a amada era sempre distante. O estado amoroso, por transposição ao amor dos sentimentos e imaginário religioso, era uma espécie de estado de graça que enobrecia a quem o praticava. Tratava-se também, pasmem, muitas vezes de um amor adúltero! O galanteador cantava seu amor a uma mulher casada.
Hoje, o amor cortês pode ser considerado uma forma inadequada de expressar o interesse ao objeto de desejo. A característica de vida solitária de nossa sociedade denuncia carências que se resumem a um afeto acompanhado de uma bela transa sexual. Amor cortês com sexo quase concomitante, até pode ser! Mas esse amor caracterizado por uma conquista poética e falsamente platônica está em desuso. Mas é bonito!
Se você quiser curtir o amor cortês concebido na sua origem medieval, loque o filme Tristão e Isolda. Talvez goste.

domingo, 3 de julho de 2011

Os palhaços

A palavra palhaço tem duas conotações básicas. Uma, mais usada frequentemente, tem aparecido com frequência nas notícias da televisão, é a depreciativa. A figura do palhaço é associada a um tipo de trabalhador que é feito de trouxa, desqualificado, bobalhão, ignorante. Com esse palhaço a classe trabalhadora não quer se identificar. Recentemente, assisti a uma matéria jornalística onde professores e demais servidores públicos protestavam contra medidas do governo gaúcho, visando ao aumento na percentagem descontada nos salários para prover o fundo de previdência do estado. Muitos desses manifestantes protestavam com a cara pintada e o tradicional nariz de palhaço. O protesto ameaçava com greves que prejudicariam alunos e a população que usa o serviço da rede pública.
Outra manifestação – menos recente – em que esse palhaço rejeitado apareceu, foi na dos médicos residentes do Hospital de Clínicas, protestando por aumento no valor da bolsa que recebiam para que se especializassem em um dos ramos da medicina. Lá estavam os médicos iniciantes com o narizinho de palhaço fazendo barulho do lado de fora do hospital, enquanto dentro estavam pessoas doentes sem atendimento médico.
Bem, o que essas duas entidades exemplificadas querem dizer a seus “patrões” é que os estão fazendo de bobos e suas atividades não são bobas, não são ridículas como a do palhaço, um profissional que ganha muito pouco, vive quase na miséria. São de outra natureza mais nobre e devem ser melhor qualificadas com salários mais justos. Eu discordo do uso da figura do palhaço,um trabalhador do riso, como depreciativa. O palhaço é uma profissão nobre, tem técnica, tem esforço, dedicação. Mas não é essa vereda que quero percorrer aqui. Quero enaltecer a figura de outro palhaço, positivo, criativo, emocionante. Que tem relação com o ridículo, mas a cobertura desse ridículo é o sublime. O palhaço é um personagem atrapalhado que nos mostra as fraquezas com as quais nos identificamos, mas temos vergonha de assumir. E agradecemos ao palhaço por fazer isso por nós. Quando o palhaço nos faz rir de suas imperfeições nos faz pensar que também somos assim, esse palhaço atrapalhado e lírico, que mostra suas fraquezas com uma perspectiva positiva. O palhaço, o clown, é visto no cinema com Woody Allen, que nos faz rir das neuroses que são compatíveis com a realidade de muitas pessoas. Damos risadas delas quando as reconhecemos e isso nos dá algo de liberador, de grandeza. Nos dá prazer sem negar a realidade. Kassia Kiss está apresentando na novela das sete um clown interessantíssimo: por trás da figura patética da personagem, meio sonsa, meio lenta em demasia, encontra-se o protótipo de um ser humano com conteúdo ético interessante.
Assim sendo, leitor, o palhaço é um bobo com quem muitos não querem se identificar, recusam o estigma de ridicularizados, de bobos levados ao ridículos. Também é um ser poético, atrapalhado e trapalhão, que busca através da arte nos fazer rir das coisas menos nobres da vida com nobreza. Faz-nos o favor de deixar que riamos de seus desajustes, livrando a nossa cara. Como sugestão de leitura, mais uma vez Cecília Meireles, que em muitas de suas crônicas enalteceu a importância do circo e do palhaço em sua infância. Recomendo "Escolha seu sonho", especialmente a crônica "Programa de circo".
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Cecília Meireles. Escolha seu sonho. RJ, Record, 2005, 26ª ed.

domingo, 26 de junho de 2011

Três poemas de Cecília Meireles

Nesta semana comprei um lote de CDs maravilhosos. Entre eles, o disco de Nélson Freire gravado em Londres em 2010: Chopin The Nocturnes. O som límpido e cristalino do piano fustigou meu sentimento e a vontade de ler a poesia de Cecília Meireles com fundo musical.
A poesia de Cecília Meireles me encanta especialmente pelo poder da metáfora, de criar imagens cristalinas da alma humana, na maioria das vezes sem um tom alentador, posto que o tema central de sua obra é a solidão. Na solidão de si mesmo, o eu-lírico (grosso modo, o eu-lírico seria o equivalente do narrador no romance. Não é o poeta que fala, mas um eu-lírico com o qual nos identificamos ou não) questiona a dimensão humana em várias de suas nuances. No livro Ou isto ou aquilo, com poesias infantis, alguém, uma criança?, questiona a dificuldade de se querer tudo o que se deseja ao mesmo tempo. Leia essa beleza de poema:

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Quando crianças, aprendemos a conhecer os limites que vão afunilar nossa existência até o final de nossos dias. Mas a criança não quer saber de limites, ela quer o todo que lhe pode pertencer, o direito a aproveitar a vida do jeito que gosta, fazendo o que lhe der na telha. Seria tão bom se as duas coisas boas pudessem ser curtidas? Entretanto, algo já a perturba metafisicamente: a obrigatoriedade de fazer uma escolha. Por que não se pode querer tudo do que se gosta ao mesmo tempo? À medida que crescemos, continuamos fazendo escolhas a contragosto, deixamos coisas boas de lado, também. Faz parte da vida.

No livro Viagem/Vaga música, temos o poema Canção, em que podemos nos deliciar com o brilho das metáforas. Leia e sinta o significado de sonho, navio, mar e naufrágio na vida de uma pessoa:

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

O que representaria a figura de um navio? Um deslocamento, uma distância vencida, a busca da realização de um sonho, o distanciamento, a separação, a própria representação do sonho,o que mais? O eu-lírico de que lhes falei constrói um sonho em forma de navio e o põe a navegar, para que naufrague. A figura da água aqui é interessante: pode significar a vida, a purificação, o êxito, Nossas emoções e intuições têm a ver com a água. Água é mãe. A água pode ser o que existe para ser vivido desde o momento em que nascemos, até nossa morte. Também é turbulência, violência, desestabilização, agito, confusão... Tanta coisa! O alto grau de pessimismo de quem canta: o sonho se constrói e não se realiza. Não há perspectiva de sucesso na realização das coisas. Tudo se perde. O sonho que morre sem nascer permanece vivo na lembrança como um trauma (minhas mãos ainda estão molhadas/do azul das ondas entreabertas). O naufragar do sonho se dá por uma atitude do eu-lírico, que abriu o mar com as próprias mãos para por tudo a perder. Em contraposição ao azul das ondas entreabertas, se opõem o vento que vem de longe, a noite que se curva de frio e do afogamento de parte importante da vida representada em sonho desacreditado, impossível de acontecer.

O terceiro poema compreende a terceira etapa da vida: a da aceitação. Compreende também a importância do canto (que pode ser entendido como o poema) como um ofício, o trabalho do poeta:

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

O tempo voa, o tempo passa, e a vida continua a ser cantada em poesia. Compreende também o fazer poesia, através de indagações e da investigação da criação poética. Inicialmente, evidencia-se a fugacidade do tempo e do instante como justificativa do canto para preencher a vida. O eu-lírico distancia o sentir do cantar (não sou alegre nem triste/sou poeta). As coisas lhe são fugidias, efêmeras, inconstantes. O que a imagem do vento representa a você, leitor, no poema?
O poema reflete ainda a dúvida diante da vida: não sei se fico ou passo. E encerra com o estado de plenitude. O poder de cantar, que para a poeta é o poder de fazer poesia, retrata o instante, para eternizá-lo. A poesia é a razão de viver de quem canta.
Assim, querido leitor convido você a dar suas impressões, suas interpretações sobre um ou todos os três poemas como comentário do blog. Vamos lá!

domingo, 19 de junho de 2011

A caixa de Pandora


Acabei recentemente a leitura de Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, com tradução, introdução e comentários de Mary de Camargo Neves Lafer. Trata-se de um poema curto, onde o filósofo grego mostra-nos os fundamentos da própria condição humana e deixa transparente que o trabalho é a base da justiça entre os homens, abordando a organização do mundo dos mortais, sua origem, suas limitações, seus deveres. No poema, o relato central da narrativa é o mito de Prometeu e Pandora. Prometeu, um semideus, vivia em perfeita harmonia com Zeus, o deus dos deuses, até o dia em que o titã, num dos sacrifícios, engana Zeus, oferecendo-lhe ossos com gordura de um animal, em vez da carne. Revoltado, Zeus não concede mais o fogo aos mortais. Como Prometeu era astuto, rouba o fogo celeste e o oferece aos homens. Como resposta, Zeus dá-lhe de presente uma mulher, Pandora, o belo mal, o bem e a causa da desgraça para os homens (Prometeu rejeita o presente e sofre consequências trágicas, conforme abaixo). Com ela, instaura-se de forma definitiva a condição humana. Hesíodo situa o aparecimento da mulher com o surgimento de todos os males humanos. Pandora não é somente o mal em si, mas através dela surgem todos os males para os homens. Até então, os homens não precisavam trabalhar para viver. Com o rompimento entre deuses e homens e o surgimento da mulher mortal, acontece a separação entre deus e homens. Surge a sexualidade entre os mortais. Inicia-se a era da cultura. Lembremo-nos de que Prometeu era o criador pelo intelecto, ao contrário de Zeus, que era o criador pelo espírito.
Quem era Pandora? Uma mulher belíssima criada por Zeus com a ajuda de outros deuses, para presentear Prometeu, que astutamente a recusou. Como vingança, Zeus mandou acorrentá-lo a uma coluna na montanha, onde um abutre lhe devoraria o fígado durante o dia, ano após ano. Seu tormento seria eterno: todas as noites seu fígado se regeneraria para ser devorado no dia seguinte. O irmão de Prometeu, Epimeteu, alarmado com o castigo, casa-se com Pandora. E o que faz Pandora? Curiosa, acaba abrindo um jarro (algumas versões do mito mencionam uma caixa) que Prometeu havia dado ao irmão, com a advertência de não abri-lo, pois dentro dele estavam encerrados os males que podiam afetar a raça humana: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, o vício, a paixão. Apenas a esperança, que Prometeu havia capturado no vaso, não saiu. Não se tem uma idéia muito clara do porquê estar a esperança, entre os males enclausurados.
O tarô mitológico vê Pandora de uma forma reconfortante. Pandora é a estrela, a que simboliza a esperança. Representa o lado feminino da natureza humana: o instinto, o sentimento, a imaginação e a intuição que devem nortear as pessoas para a verdade. A esperança de que fala o tarô mitológico, está ligada a algo profundo dentro do ser humano, que muitas vezes chamamos de força para viver. Pandora, a esperança, oferece a fé. Na carta do tarô, o olhar de Pandora está fixo não na infelicidade da condição humana, mas na certeza irracional e inexplicável de que muito em breve uma nova luz brilhará.
Se me permitirem uma interpretação psicológica, o jarro, ou a caixa de Pandora, representam todas as coisas que nos incomodam e amedrontam e que guardamos dentro de nós. Quando liberadas, trazem a esperança de uma vida melhor. Pandora representa uma parte do ser humano que, a despeito das frustrações e desapontamentos, da depressão e das perdas, ainda tem forças para se agarrar ao sentido da vida e ao futuro que poderá superar a infelicidade do passado.
Voltando a Hesíodo, os gregos antigos foram malvados demais com as mulheres, não acham?
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Robert Graves. O grande livro dos mitos gregos. SP, Ediouro, 2008
Hesíodo. Os trabalhos e os dias. SP, Iluminuras, 2009
Sharman-Burke & Greene. O tarô mitológico. SP, Siciliano, 1988,15ª Ed.