domingo, 29 de dezembro de 2013

O Jardim do Passado

O Jardim do Passado é o último romance da trilogia do Cairo. Estamos no ano de 1935. Faz 15 anos que a revolução para a independência do Egito começou, mas os ingleses ainda estão por toda parte. A velha tradição egípcia ainda apresenta sinais de vida. Para Ahmed Abd el-Gawwad, o patriarca da família, o tempo do esforço, da luta e dos prazeres estava acabado.  Agora,  ele se curva no canto da aposentadoria, dando adeus ao mundo do futuro para saudar o da velhice, da doença, da espera e do definhamento do coração  tão loucamente apaixonado pelo mundo e por seus prazeres, já que a fé era para ele apenas uma de suas alegrias, uma incitação a se recolher. Nunca, até então, conhecera a devoção austera que faz renunciar ao mundo e erguer os olhos para o além. Certamente, a loja não era mais "sua loja", mas como apagar a lembrança dela, que tinha sido o centro de sua atividade, o alvo dos olhares, o ponto de referência dos amigos e dos irmãos, a fonte de honra e prestígio? Só lhe restava, agora, o consolo. Casara suas filhas, educara seis filhos, vira nascer seus netos, que tem dinheiro bastante para sustentá-lo até a morte. Provara bastante o sumo da vida. Chega, agora, ao tempo de dizer obrigado. É um dever agradecer a Deus sem cessar, sem nostalgia.
 Kamal, o filho mais novo, agora com 30 anos, é o professor que sempre quisera ser. Transformara-se no vagabundo a explorar campos infinitos do pensamento, lendo, tomando notas que depois eram reunidas em seus artigos. Nisso, a sede de conhecimento, o amor à verdade, o espírito de aventura imaginário motivara seu esforço, como o desejo de se consolidar e se distrair do clima sinistro que o submergia, desse sentimento de solidão que jazia no seu âmago. Certa vez, encontrou Latif,  o amigo da adolescência, quando discutia política e conhecera Aída, que se casara com Hussein, outro amigo rico. No espaço de alguns anos, de 1924 a 1935, um novo Latif nascera, mas  permanecia, apesar de tudo, o velho e eterno amigo. Kamal pôs-se a olhar o amigo com uma curiosidade redobrada. Tinha diante de si um outro indivíduo, sem relação comum  com o Ismail Latif com quem convivera entre 1921 e 1927, esse período único de sua vida que ele vivera intensamente, do qual nem um minuto se passara sem alegria profunda, da verdadeira amizade encarnada em Hussein Sheddad, do puro amor cristalizado em Aída, do ardor impetuoso nutrindo à chama da revolução egípcia; o das experiências violentas em que o tinham lançado a dúvida e os caprichos da carne. Este mesmo Ismail Latif tinha sido o símbolo daquela época, o iniciador eminente. Mas tinha ele hoje a ver com aquilo? Talvez a lembrança viva de um passado fabuloso. Kamal pode-se orgulhar de que o passado não foi um sonho.

A narrativa segue, neste último volume da trilogia do Cairo, com os sobrinhos de Kamal, jovens e idealista. O Egito, no campo político, continua atrelado, ainda, à Inglaterra, apesar da independência. O mundo estava se preparando para enfrentar a Segunda Guerra Mundial.
                                                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Naguib Mahfouz. O jardim do passado. Rio, Record/Best bolso, 2008, 434 pp, R$ 22,00

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Palácio do Desejo


Nagib Mahfuz situa o segundo volume da trilogia do Cairo no período pós-independência do Egito, na terceira década do século XX. Em O Palácio do Desejo, Kamal, o filho mais do patriarca Ahmed Abd el-Gawwad, que no volume anterior (Entre dois palácios) tinha 10 anos, agora é um jovem belo, sensível e idealista, que busca seguir seu coração, optando por fazer a Escola Normal para ser professor, contrariando, assim, a vontade do pai, que o queria advogado ou médico. O pai lhe diz com desprezo que o trabalho de professor é um trabalho de miséria que não tem o respeito de ninguém. Diz que o filho é um fedelho, não sabe de nada . Ensinar é um ofício em que o pequeno burguês vestido à moda europeia se mistura sem distinção ao estudante piolhento dos subúrbio. Um ofício desprovido de qualquer grandeza, de qualquer glória. Entretanto,  Kamal mantém-se irredutível: o papel do professor é difundir o saber. Discordava do preconceito de que a riqueza ou a pobreza pudessem constituir critérios de apreciação do saber ou que este pudesse ter um valor extrínseco. Queria também ser professor para atingir uma meta maior, ser filósofo. A filosofia, para ele, é a disciplina que funde todas as questões relativas ao que seja Deus, ao que seja o homem, a alma, a matéria.  Na faculdade, torna-se amigo de dois jovens da aristocracia egípcia que estudam direito, para satisfazer o desejo das famílias. Inicialmente a amizade ocorre tranquila, até Kamal se apaixonar por Aída, que participava de vez em quando das discussões do grupo. Antes de declarar seu amor a ela, um dos amigos atrapalha suas intenções. É quando Kamal passa a sofrer o preconceito relativo a sua classe social. Aída casa-se com o amigo de Kamal. Mas o amor do rapaz pela moça permanece até o final da narrativa, transformando-o em um jovem sombrio e solitário.
As ruelas, as casas, os palácios, as mesquitas,  as pessoas e o cotidiano da família Gawwad continuam sendo retratadas de forma brilhante por Nagib Mahfuz neste segundo volume. O estilo severo e contraditório do pai dessa família fica abalado por diversos acontecimentos além dos ideais de Kamal. Yasine, o filho mais velho, divorcia-se, casa com a moça que havia sido a grande paixão de, o segundo filho, proibido de desposá-la. Depois volta a casar, dessa vez com  a concubina que era uma das amantes de seu pai. Amina, a mãe submissa, continua a desenvolver o afeto pelos filhos e o respeito ao pai.

O palácio do desejo vale muito a leitura! A bela tradução do francês foi feita por José Augusto de Carvalho
                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Nagib Mahfuz. O palácio do desejo. Rio, Bestbolso (Record), 2008, 644 pp, R$ 25,00

 

domingo, 15 de dezembro de 2013

A Grande Arte

Percor = abreviatura de perfurar e cortar. Arte de usar armas brancas com exímia habilidade, com o objetivo de defesa e/ou ataque.  O termo é utilizado por Rubem Fonseca (1925) como A Grande Arte, em seu romance homônimo. Hermes, um dos personagens do romance e mestre do percor, nos diz que um especialista na arte de matar uma pessoa busca suas artérias. A carótida é sempre fácil de atingir. Um corte de três centímetros de profundidade faz o indivíduo perder a consciência em alguns segundos. A veia favorita de Hermes é a subclávia. A perfuração tem que ser de seis centímetros, é uma artéria que não deve ser procurada numa luta com um adversário difícil, pois, para atingi-la usa-se necessariamente uma empunhadura de maneabilidade reduzida. Quando alcançada, o sangue irrompe num jato forte como uma mangueira de bombeiro, a consciência é perdida em dois segundos e a morte sobrevém no terceiro . O alvo ideal deve ser o  coração. A perda de consciência é instantânea e, se o aço penetrar os oito centímetros apropriados, a morte ocorrerá em dois segundos. O intestino não é um ponto vital. Entre os alvos secundários, o estômago será melhor, se a penetração for de doze ou treze centímetros.

Em A Grande Arte, um assassino conhecia todas as técnicas do uso da faca, era capaz de executar as manobras mais difíceis com inigualável habilidade, mas a usava para escrever a letra P. no rosto de algumas mulheres, quando deitavam a seu lado, falando banalidades. Não imaginava porque fazia aquilo. Talvez fosse por puro prazer, já que não se considerava um psicótico puritano querendo conjurar a congênita corrupção feminina. O detetive Mandrake é designado para desvendar esses assassinatos e prender o assassino. Durante essa trajetória, acaba descobrindo descendentes de famílias aristocráticas falidas envolvidos em forte esquema de corrupção, tráfico de drogas e outras atividades ilícitas.

Rubem Fonseca foi inspetor de policia antes de ser escritor, por isso mesmo sabe lidar muito bem com as situações enigmáticas que envolvem um crime. Dono de uma linguagem objetiva, traz para a literatura personagens pouco explorados , até então, com uma riqueza de detalhes e situações que beiram o insólito, sempre com uma ironia fina. O mestre do percor, que Mandrake se aconselha para aprender a grande arte com a finalidade de entender a personalidade do assassino, acaba sendo morto por um boliviano, Camilo Fuentes, um dos bandidos da história, de maneira imprevisível. Considero A Grande Arte o melhor livro de Rubem Fonseca, ao lado de A Coleira do Cão, livro de contos. O livro foi publicado pela editora Francisco Alves, em 1983. Depois pela Companhia das Letras e, recentemente, pela Editora Agir, detentora dos direitos autorais do romancista.
                                                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Rubem Fonseca. A Grande Arte. Rio, Agir, 2013, 528 pp, R$ 49,90

domingo, 8 de dezembro de 2013

Jaime Bunda, detetive particular

Jaime, um jovem negro angolano, é gordo, com uma bunda saliente. Daí seu apelido. Trabalha como aspirante a detetive numa delegacia onde é ridicularizado pelos colegas por causa do excesso de peso e por se movimentar pouco. Mas Jaime está longe de ser um parvo, pelo contrário, é muito inteligente e sagaz. Sua história começa quando é designado a descobrir o assassino de uma menina de 14 anos, morta brutalmente.  Jaime descobre um suspeito, através da descrição do carro por uma testemunha. Trata-se de um figurão. Junto a isso, descobre o envolvimento do suspeito com um casal de argelinos que ingressara em Angola clandestinamente num cartel criminoso.  Então, o autor da história de Jaime decide demitir o narrador, por estar conduzindo a história com monotonia. Introduz o segundo narrador, a mulher do argelino, revelando os detalhes do envolvimento dos árabes no mistério que Jaime Bunda busca desvendar. Entretanto, se o autor continuar com a narradora árabe, provavelmente vá deslocar a história pelos fabulosos haréns dos sultões e califas das Mil e Uma Noites, perdendo, assim, o espantoso Jaime Bunda e sua infatigável luta contra os horrendos crimes cometidos em Luanda, razão de seus propósitos (do narrador). E como todos devem ter uma segunda chance na vida e o sofrido tempo que vivemos é de proclamar paz e tolerância, dá novamente a palavra ao primeiro narrador, na esperança de que tenha aprendido com seus erros e críticas. Ficamos, assim, conhecendo o lado amoroso de Jaime e seu rolo com Florinda, mulher mais velha e casada com um militar, com quem Bunda mantém um romance um tanto conturbado. Tentativas de afastar o marido de Florinda levam Jaime a pagar um preço nada baixo pela proeza. Finalmente, entra em cena o quarto narrador, para finalizar a história. É quando ficamos sabendo que por trás do crime da adolescente e do envolvimento dos árabes há forte sistema de corrupção, ficamos também sabendo que em Angola, mesmo depois da Revolução que libertou o país, tudo continua igual. As novas figuras notáveis que ocupam a pirâmide social de Angola são iguais ou pior aos velhos.

Ganhei o livro de presente de dois amigos que andaram viajando por Portugual. Foi uma grata surpresa descobrir Pepetela. Jaime Bunda, agente secreto, é um livro de humor. Mas não pense tratar-se de um humor despretensioso calcado no besteirol. Pepetela usa do humor inteligente para nos fazer pensar. Pepetela (1941) é angolano descendente de uma família colonial portuguesa, seus pais também nasceram em Angola. Participou da luta pela libertação de Angola, com o  MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), por isso sua crítica tem fundamento prático, pois viveu a história de Angola.  É dono de vasta obra que começa a ser divulgada no Brasil.  Jaime Bunda, agente secreto pode ser encontra em e-book na Livraria Cultura. Um livro em excelente estado pode ser encontrado na Estante Virtual por 32 reais. Dá para comprar um exemplar novo em sítios portugueses, mas é preciso paciência para esperar 5 semanas para receber o livro. Livro importado não paga imposto. Quando esteve participando de uma mesa de debates em Porto Alegre, nesta última Feira do Livro, Pepetela nos deu a boa notícia de que sua obra começará a ser comercializada no Brasil brevemente.
                                              paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Pepetela. Jaime Bunda, agente secreto. 10ª ed, Editora Dom Quixote (Portugal), 2012, 336 pp

domingo, 1 de dezembro de 2013

A Sibila

Agustina Bessa-Luís (1923) é das grandes da literatura universal, mas o mercado brasileiro, por razões que a própria razão desconhece, quase não a publica aqui: as únicas exceções foram A Sibila, Sebastião José (ambos pela Nova Fronteira), Vale Abraão (Planeta) -os três esgotados- e os infantis Dentes de Rato e Sombra, Areia e Amoras Bravas (ambos pela Peirópolis). Agustina possui obra extensa, são aproximadamente 40 romances, além de obras teatrais, juvenis, biografias e crônicas. O cineasta português Manuel de Oliveira já encenou diversas obras dela. Considerada por muitos críticos literários superior a José Saramago e Lôbo Antunes, tem tido, por parte do mercado editorial, certa inibição em divulgar sua excelente obra aos brasileiros. As razões, segundo estudiosos da autora portuguesa, seriam talvez a falta de conhecimento da literatura portuguesa, o interesse dos editores de sempre querer vender o que pode render lucro fácil, e a linguagem refinada da escritora, que exigirá do leitor sensibilidade para compreender suas figuras humanas quiçá reduzidas a símbolos mitológicos, vivendo histórias fora do alcance humano.

Em A Sibila, acompanhamos a vida de Quina, uma das filhas de Francisco e Maria, desde o momento em que o pai desaparece e ela tem de tomar as rédeas da casa e dos bens rurais da família. Seu pai afastava-se frequentemente por motivo de trabalho e as mulheres permaneciam longo tempo sem a presença de homem. O desleixo do pai pelas terras, causou o desequilíbrio doméstico da família, falta de dinheiro para desenvolver o gado e a lavoura. A mãe de Quina sentia-se sobrecarregada com o fardo que sua vida inteira talvez não pudesse carregar. Os filhos homens eram omissos. Coube a Quina cuidar da família, com a morte do pai. 
Não parecia destinada ao casamento. Teve um antigo candidato que se havia casado com outra. Ele a visitava depois disso, para contar-lhe seus intrincados problemas financeiros. Quina habituara-se a vê-lo aparecer com uma imagem depreciada, melancólica. A razão sobrepôs-se ao sentimento e passou a ser a conselheira dele nas visitas frequentes que a compensava um pouco da solidão da sua vida sem conforto de um braço mais forte e até duma inteligência em que seria bom reconhecer superioridade. Os prazeres femininos, o amor e a passividade espiritual, as ninharias dum sentimento ou dum capricho que nascem dessa euforia tirânica que as mulheres gostam de exercer sobre aquele a quem sabem ter dominado pelos sentidos, isso lhe foi negado. Restava-lhe satisfazer a vaidade e atingir, por imposição da personalidade, tudo quanto teria dispensado, se tivesse sido uma mulher apenas de temperamento. Dedicou-se a evoluir, a enriquecer seu patrimônio, para manter-se independente. Aos poucos vai envelhecendo em contatos esparsos com os irmãos que a invejavam, mas mantinham-se como desocupados. Certa vez, decide acolher um jovem bruto, quase um parvo, que fora copeiro de uma condessa rica que morrera. A entrada desse jovem em sua vida vai estremecer sua relação com a família e os demais seres com quem convive.

História belíssima, contada com requinte que encanta ao mesmo tempo que desequilibra o leitor mais sensível. A Sibila pode ser encontrada em sebos por preços razoáveis. A Livraria Cultura tem em seu catálogo a edição portuguesa por R$ 81,20, mas leva dez semanas para chegar às mãos do leitor, por causa da burocracia na importação. Livros comprados fora do Brasil não somam  impostos de importação. Os problemas são o alto preço do frete e o tempo de envio.

                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Agustina Bessa-Luís. A Sibila. Lisboa, Guimarães Editores, 2009, 298 pp.

domingo, 24 de novembro de 2013

O Grande Mentecapto

Apesar da estrada, que ele já apanhou bastante mais movimentada e atraente, a infância de Geraldo Viramundo transcorreu como a de seus irmãos.Como seus irmãos ele comeu terra, botou lombrigas, arrebentou cupim para ver como era dentro, seguiu as formigas para ver aonde iam, misturou açúcar com sal no armazém, furtou garrafa de guaraná e depois mijou dentro botando no lugar para o pai não descobrir, brincou com fogo e mijou na cama, brincou de pegador, tic-tac carambola, este dentro e este fora, matou passarinho com bodoque, enterrou ovo choco e fez fogo em cima para ver se nascia pinto, foi mordido de marimbondo e ficou de cara inchada, amarrou lata vazia em rabo de gato, fez galinha dançar em cima de lata quente, contou com o ovo no rabo da galinha, enfiou o dedo no rabo dela, teve sarampo, catapora, caxumba e coqueluche, pegou sarna para se coçar, correu de boi bravo, botou cigarro na boca de sapo para ele fumar até rebentar, se
escondeu na cesta de roupa suja para ver a irmã mais velha tomar banho, quis pegar a irmã mais nova e depois teve remorso, perdeu a virgindade numa cabrita,fugiu de casa e apanhou e por isso tornou a fugir e por isso tornou a apanhar, construiu casinhas de barro, caiu da árvore e se machucou, comeu manga com leite e adoeceu, contou as estrelas do céu e ficou com berrugas, pegou carona em caminhão, aprendeu a ler na escola, fez do travesseiro o corpo da professora, teve medo do João Carangola que fugiu da prisão e gostava de menino, assobiou e chupou cana ao mesmo tempo, fumou cigarro de chuchu, fez coleção de favas, foi à missa aos domingos, assistiu fita de Tom Mix, Buck Jones e Carlitos no cineminha da cidade, apanhou bicho-de-pé, pisou em urina de cavalo e ficou com mijação, armou arapuca no mato, jogou futebol com bola de meia, teve dor de dente de noite, foi coroinha na igreja, contou quantas vezes fazia coisa feia para se lembrar na confissão, procurou não mastigar a hóstia para que não saísse sangue, fez flautinha de bambu, ficou preso pela piroca num gargalo de garrafa, molhou o pijama de noite e teve medo de estar doente, ficou com pedra na maminha e perguntou à mãe o que era, se apaixonou pela filha mais velha dos italianos do empório, tirou o cavalinho da chuva, pensou na morte da bezerra, chorou escondido, teve medo, descobriu que o céu era imenso, teve vontade de morrer, ficou acordado de madrugada ouvindo o galo cantar sem saber onde, sentiu dores nos culhões, comeu a negra Adelaide e virou homem.”

Numa tarde de sábado, o sino da igreja tinha acabado de bater, havia silêncio pairando sobre as árvores e as coisas ao redor e ele estava deitado debaixo de uma mangueira no quintal de sua casa. Então se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar meio para longe: centenas de vezes tinha estado ali, naquela mesma posição, era uma paisagem conhecida e tão familiar como o seu próprio modo de viver, que nela se completava. Mas naquele mesmo instante uma buzina de automóvel soou na estrada, um boi mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo lá longe na ponte, um vento leve começou a sacudir a ramagem das árvores. O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a que tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudade da infância - quando, minutos mais tarde, se ergueu e caminhou em direção à casa, percebendo que não era mais menino.

Foi levado por um padre para o seminário. Saiu do seminário e fez longa viagem de Mariana a Ouro Preto, onde conheceu a amada da vida inteira. Em Barbacena, colheu rosas e espinhos, acabando internado em um hospício. Foge de lá e se candidata a prefeito da cidade. Não ganha a eleição, mas passa por mirabolantes aventuras no Esquadrão de Cavalaria em Juiz de Fora, fazendo façanhas militares durante as manobras militares, que o leva a ser expulso do  Esquadrão. Depois, passa um tempo na prisão. Sai da prisão atravessando uma crise espiritual que o leva à desesperança em Congonhas do Campo. Passa por maus bocados em Uberaba, buscando cumprir seu destino, reverenciando a literatura mineira, passando a noite com um fantasma e quase morrendo por uma mulher. Finalmente, em Belo Horizonte, entre retirantes, mulheres, doidos e mendigos, cumpre seu destino.

Fernando Sabino escreveu O Grande Mentecapto seguindo a forma de romance picaresco, subgênero literário que descreve a vida de personagens supostamente  ardilosos e espertos (por serem sonhadores, passam por tolos) , vivendo  as peripécias da vida com o objetivo de alcançar seus ideais. Dom Quixote e Memórias de um Sargento de Milícias são romances  picarescos. No caso do mentecapto de Fernando Sabino, ele é colocado na luta pela vida por vontade dos outros. Essa trajetória, engraçada e trágica, o faz perceber que a alegria e a felicidade que se vive na infância, podem transformar-se em martírio e dor. Sabino começou a escrever a obra em 1946, interrompida em seu início e retomada em1979, quando o autor já estava amadurecido e seus méritos literários reconhecidos  como escritor. Vale a pena ler e reler. A obra encontra-se esgotada. Nos sebos virtuais é possível achar um exemplar em excelente estado de conservação por um preço entre 10 a 20 reais.

                                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Fernando Sabino. O Grande Mentecapto. 70ª ed., Rio, Record, 2007, 258

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Arthur Schnitzler

Com  De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, descobri e passei a gostar de Arthur Schnitzler (1862-1931). Médico de formação, era dramaturgo, romancista, contista e ensaísta. Foi contemporâneo e amigo de Sigmundo Freud. A película de Kubrick foi baseada em sua novela Breve romance do sonho. No filme, Bill Harford (Tom Cruise) é casado com a curadora de arte Alice (Nicole Kidman). Ambos vivem felizes, até que, logo após uma festa, Alice confessa que sentiu atração por outro homem no passado e que seria capaz de largar Bill e sua filha por ele. Bill fica desnorteado e  sai pelas ruas de Nova York, assombrado com a imagem da mulher nos braços de outro. Acaba infiltrando-se em uma reunião secreta numa mansão afastada. Lá, vive emoções fortes e perigosas, reconhecendo pessoas de seu convívio social, ainda que todos estivessem mascarados. A novela de Schnitzler passa-se em Viena, quando o casal Fridolin e Albertine conversam sobre o que aconteceu no baile de máscaras que acabaram de participar. A conversa envereda por pontos de sedução, ambos trocando confidências sobre seus desejos e fantasias sexuais, até que a infidelidade causa uma ruptura emocional em Fridolin. O ciúme é o ponto de apoio entre os dois. A sequência da história é uma aventura alucinante pela noite, culminando numa orgia assustadora. Schnitzler nos diz que, mesmo acordado, não se pode deixar de sonhar.

Em Doutor Gräsler: Médico das Termas (a obra foi reeditada pela Record com o nome de Médico das Termas, pelo mesmo tradutor),Schnitzler nos apresenta o médico Emil Gräsler, convidado a trabalhar nas termas de um balneário. No mundo local em que se relaciona, mostra-se gradativamente um homem sem disposição para firmar vínculos de qualquer natureza, seja na profissão, com as mulheres e os amigos. O autor desenvolve aqui um recurso literário de que foi um dos precursores na literatura: o monólogo interior ou fluxo de consciência. Através dessa estratégia, ficamos acompanhando o pensamento íntimo do personagem que pouco revela de si exteriormente. Os avanços e recuos nas tentativas de amar, o sentimento de um vazio imponderável são revelados na análise da alma do Doutor Gäsler. O personagem faz de tudo para que nós, leitores, não venhamos a gostar dele, já que nos perturba.

Aurora, sua obra-prima, passa-se no período anterior à Primeira Guerra Mundial, em Viena. O tenente Wilhelm Kasda, homem com forte complexo de inferioridade, decide ajudar um companheiro de caserna, que lhe pedira dinheiro emprestado para pagar uma dívida. O tenente Kasda, pensando em ajudá-lo, resolve sair à noite para jogar, sonhando que conseguirá ganhar o suficiente para poder emprestar o que lhe havia pedido. Kasda ganha algumas vezes, chega a juntar um monte considerável de dinheiro, que acaba perdendo de uma hora para outra. Sem dinheiro, não tem como recuperar o que perdera. Então, um cônsul lhe empresta uma quantia considerável, que o tenente perde. Empresta-lhe mais, até que Kasda fica devendo ao cônsul onze mil florins, um montão de dinheiro. O credor lhe dá pouquíssimo tempo para a restituição do montante, sem o quê dará parte ao exército da falta que cometera. O mundo de Kasda vira de cabeça para baixo, numa busca alucinada para conseguir um empréstimo. O final da novela surpreende.

Otto Maria Carpeaux (1900-1978), austríaco e brasileiro, nos informa em sua monumental História da Literatura Ocidental, que a obra de Schnitzler é o espelho de uma sociedade agonizante dividida entre operários socialistas e pequenos burgueses agitados, antissemitas que responsabilizavam a rica burguesia judia vienense pelos males do país. Acima dessa massa em ebulição havia a alta burocracia e o exército, comandando, gente sem nacionalidade definida, com títulos de nobreza alemães, mas de origens alemã, húngaras e eslavas. Foi dessa elite mesclada que surgiu a nova literatura austríaca, da qual Arthur Schnitzler é um representante dos mais importantes. A obra de Schnitzler é escrita com realismo sincero, cabe ao sexo o papel principal, sem esquecer, entretanto, a morte. O amor em todos os seus aspetos é quase o único assunto do autor. Há um pessimismo irônico misturado a uma poesia intensa.

Há mais obras de Arthur Schnitzler traduzidas para o português: Caminho para a liberdade, O retorno de Casanova, Crônica de uma vida de mulher, A senhora Beate e seu filho etc. A Editora Record vem editando as obras do autor, sob tradução de Marcelo Backes. Entretanto, algumas delas ainda se encontram esgotadas. Será preciso garimpá-las em sebos virtuais com preços acessíveis. Aurora você encontra em bom estado de conservação por um preço médio de 25 reais. Vale a pena ler as histórias desse autor que sabe cativar e incomodar o leitor com maestria.

                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Arthur Schnitzler. Breve romance do sonho. SP, Companhia de
     Bolso, 2008, 112 pp, tradução de Sérgio Tellaroli, R$ 16,50
_________________ Médico das termas. Rio, Record, 2011, 192 pp. Tradução de Marcelo Backes, R$ 33,90
_________________ Aurora. SP, Boitempo Editorial, 2001, 152 pp. Tradução de Marcelo Backes, esgotada

domingo, 10 de novembro de 2013

Oceano mar

O romance do italiano Alessandro Baricco (1958) é engraçado, mas não é burlesco. As imagens cômicas que o leitor depreenderá de sua prosa competente são carregadas de graça e delicadeza, como cenas da commedia dell'arte ou dos filmes de fantasia de Tim Burton. Essa graciosidade poética da narrativa retrata o tema  que amarra as personagens do romance: a necessidade de se olhar o que não se vê.  O personagem central da história é o mar. Todos os demais personagens vivem relacionados diretamente com ele. Esses personagens funcionam como máscaras:  um quer determinar onde começa o mar; outro, onde o mar termina.  Há a menina que tem a estranha doença de flutuar, tirando os pés da realidade. A belíssima mulher que é obrigada a curar-se do mal do adultério. O estranho marinheiro que precisa salvar as histórias que escondia. Todos vivem em uma ilha para que tenham um tipo de transformação, alguma chance que lhes resgate a vida. Vivem em quartos com vista obrigatória para o mar, que lhes dê alento. Há um sétimo quarto com um habitante que se mostrará somente no final da história, causando a curiosidade dos demais.  Plasson, o pintor, pinta suas telas na beira da praia, usando como tinta a água do mar. Ele vangloria-se da beleza de seus retratos, mas os demais habitantes da ilha enxergam somente uma tela em branco. Plasson  anteriormente fizera dinheiro, tornando-se o retratista mais amado em sua terra. Todas as famílias endinheiradas faziam questão de ter um retrato seu na parede.  Poderia ter continuado assim a vida inteira, enriquecido, mas certo dia veio-lhe a ideia surpreendente: fazer o retrato dos olhos do mar. Foi assim que se mudou para a ilha.  Naquele lugar, ele e os demais  se despem de si próprios, o que são resvala sobre si mesmos, aos poucos. O presente desaparece diante do mar e se torna memória. Todos se despem de tudo, medos, sentimentos, desejos. Isso torna-se roupa que é guardada, porque não se usa mais.
As crianças apresentam papel essencial na narrativa. São elas que conseguem olhar, que conseguem expressar a verdade das coisas.  Funcionam como protótipos da esperança, conseguem sensibilizar os que não conseguem ver nem sentir. O lado materno do mar poderá levá-los a enxergar o outro lado. Afinal, talvez seja realmente importante não sermos sempre os mesmos.
Quem quiser se aprofundar um pouco mais sobre o romance de Baricco, procure o ensaio da professora Maria Célia Martirani no Jornal Rascunho, sob o título Quando o olhar se faz visão.
Oceano mar tem tradução de Roberta Barni.
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Alessandro Baricco. Oceano mar. SP, Iluminuras, 1997, 222 pp, R$ 47,00

domingo, 3 de novembro de 2013

O encontro marcado

O encontro marcado é um a história de perdas. Narrado em terceira pessoa, o romance de Fernando Sabino (1923/2004) conta a vida do mineiro Eduardo, filho de classe média, da infância até a transferência para o Rio de Janeiro, para casar-se com Antônia, filha de um ministro do governo Getúlio Vargas.  Tem pendores para romancista, mas se submete a um emprego público arranjado pelo sogro, para manter o casamento.  É nesse ponto que Eduardo entra em crise existencial.  Já não é dono de si mesmo.  Já não sabe em que acredita, não tem tempo para pensar .  A vida de casado o  vai afastando dos amigos, distanciando-lhe o sonho de ser escritor. Não poderá responsabilizar a ninguém  o destino que se deu.  Agora está sozinho no mundo, com uma mulher. Terá de amá-la, sustentá-la, zelar por ela.  Há uma fresta em sua alma por onde a substância do que é está sempre se escapando. Eduardo tem crise de fé: a mão de Deus lhe parece pesada, não parece livrá-lo do pijama, para que possa ser livre, puro. De tudo o que pensa, a partir de então,  ficam três coisas: a certeza de que está sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que será interrompido antes de terminar. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro. O encontro marcado  com sua verdade.  O que pode ajudar Eduardo nessa empreitada  é o fato dele ter sido amado pelos pais na infância e, agora adulto, conseguir enfrentar o medo de si mesmo.
Encontro marcado tem traços autobiográficos de Fernando Sabino, mas é o romance de toda uma geração à procura, não de qualquer coisa, mas de qualquer sentido. No meio de tantas confusões na vida, procura-se um valor. História de adolescência e juventude, de prazeres fugidios, desespero, cinismo, desencanto, melancolia, tédio. Eduardo acumula perdas durante sua vida e  amadurece num mundo desorientado.
Fernando Sabino fez parte do grupo de intelectuais e escritores mineiros que fermentavam o mundo cultural de Belo Horizonte na primeira metade do século XX. Faziam parte do grupo Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos e Helio Peregrino. Mais tarde, todos eles migram para o Rio de Janeiro, juntando-se a Vinicius de Morais, Rubem Braga, Sergio Porto e Antonio Houaiss, só para falar dos escritores.
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Fernando Sabino. O encontro marcado. 81ª ed, Rio, Record, 2006, 368 pp, R$ 34,90


domingo, 27 de outubro de 2013

A casa dos budas ditosos


O baiano João Ubaldo Ribeiro (1941 abre A casa dos budas ditosos, explicando ao leitor a encomenda da Companhia das Letras para escrever um romance sobre o pecado da luxúria, da Coleção Pequenos Pecados, que inclui como tema de cada livro um dos sete pecados capitais. Entretanto, (aí começa a ficção) os originais que constituem A casa dos Budas ditosos foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde João Ubaldo trabalhou, acompanhado de um bilhete assinado pelas iniciais CLB. Informava que se tratava de um relato verídico, no qual apenas a maior parte dos nomes das pessoas citadas foi mudada, e que sua autora era uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro. Autorizava que a obra fosse publicada em nome do João Ubaldo, embora preferisse que ele revelasse aos leitores a verdadeira origem, pois achava irresistível deixar as pessoas sem saber no que acreditar. E assim foi feito. O autor conta o pecado da luxúria através da boca de uma senhora (69 anos) experiente nas lidas da vida sexual. Ela nos diz, por exemplo, que seu texto é Sociohistoricoliteropornô, já que é fixada na fase oral canibalista, pois  adora qualquer tipo de ingestão. Antigamente ela já era fixadinha, mas só agora viu o comportamento com clareza. Afirma que não gosta de psicanálise. Em sua casa, bem antes de Freud achava-se obsceno ficar contando intimidades e fraquezas a estranhos, mas de vez em quando  usa uma frase que é jargão de psicanalista: "- isso é inevitável a sua geração".  Acha-se encaixada nessa situação de fixada na fase oral, não se arrepende de nada do que fez, mas afirma que não há bons tempos, só há tempos. Nada de saudosismo, que é uma espécie de masturbação sem verdadeiro prazer, uma inutilidade atravancadora, que no máximo pode ser empregada para brincadeiras, mas geralmente é perda de tempo mesmo.  Aqueles tempos tinham seu charme, mas eram duros também, cada tempo tem sua dureza. Tomar nas coxas, por exemplo, exige know-how, para ser desfrutado decentemente. A mulher tem que treinar a postura, para estar segura de que vai atingir um orgasmo.
Em uma linguagem obscenamente prazerosa, João Ubaldo conduz com talento e competência sua narrativa. Prova de que trabalho por encomenda pode render bons frutos. O livro é dedicado às mulheres, para que os homens também o leiam. Todos vão se divertir à beça.
Essa é mais uma obra importante que se encontra esgotada. Nos sebos virtuais é possível encontrar um exemplar em muito bom estado de conservação por um preço médio de R$ 15,00. Um exemplar novo, por um preço de R$ 35,00.
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João Ubaldo Ribeiro. A casa dos Budas ditodos. SP, Cia. Das Letras, 1999, 164 pp. 

domingo, 20 de outubro de 2013

O escorpião da sexta-feira

Antônio, ex-seminarista, saiu de Pau d’Arco (a Macondo de Charles Kiefer) para trabalhar na Cúria metropolitada de Porto Alegre. Uma tarde, sob a luz filtrada dos vitrais, viu a mulher que transformaria sua vida, que o arrastaria num turbilhão de desejo e paixão, e o desviaria definitivamente do destino que tentava traçar até então, com a fé inabalada em Deus. Luísa, ardilosa e irônica, inflexível e fria. Luísa o abandona e o trai. A partir daí, sente perder o controle sobre si mesmo, abandonado numa solidão doída. Volta a lembrar-se da paixão antiga por escorpiões. Encontra Luísa pela última vez e a mata. A partir de então, adquire um escorpião venenoso que usará toda a sexta-feira à noite para matar prostitutas e, com isso, vingar-se da mulher que amou. Para ele, a vida é um conjunto muito reduzido dos mesmos temas, das mesmas situações inúteis.

Fiquei com a impressão, ao ler O escorpião na sexta-feira, de que Charles Kiefer, intimidou-se diante do psicopata Antônio, tratando-o na superficialidade de suas ações, sem aprofundar suas contradições como indivíduo, reduzindo-o a um traço característico básico que o acompanha durante toda a história: a obsessão por Luísa. O romance ganharia muito, se apresentasse contradições, comportamentos imprevisíveis, enigmáticos, que vão sendo definidos no decorrer da narrativa, evoluindo e surpreendendo o leitor. Assim como está, fica tudo previsível.

Charles Kiefer não é um escritor qualquer. Tem três Prêmios Jabuti em seu currículo, além de outros prêmios. É professor universitário de Literatura e administra oficinas literárias. Tem mais de 30 livros publicados, entre romances e contos. Ganhou notoriedade nacional ao publicar sua primeira novela infanto-juvenil, Caminhando na Chuva, em 1984. Atualmente publica seus livros pela editora Record.

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Charles Kiefer. O escorpião da sexta-feira. Rio, Record, 2006, 112 pp R$ 27,90

domingo, 13 de outubro de 2013

Os sofrimentos do jovem Werther

Wherter, o jovem personagem criado por Goethe, ama desesperadamente a jovem Carlota, comprometida com Alberto, honesto e trabalhador. Torna-se amigo dos dois e passa a cortejar a jovem sem, entretanto, revelar-lhe seus sentimentos. Carlota e Alberto se casam. Wherter decide abandonar a cidade para tentar esquecê-la. Nesse novo lugar, é atraído por uma jovem. Um incidente numa festa, entretanto, faz com que Wherter abandone o emprego, retornando à cidade natal. A paixão por Carlota continua intensa e Wherter vai, gradativamente, enredando-se nas teias de um amor impossível. Acerca-se dela de forma intensa, causando comentários na cidade e desconfiança de Alberto, que pede à esposa que se afaste do jovem. Como isso não acontece, Carlota chama-lhe a atenção, pedindo que não a procure mais. Desesperado, deprime-se e comete o suicídio.

O argumento de Os sofrimentos do jovem Wherter teve, como substrato, acontecimentos semelhantes na vida de Goethe, mas sem o final trágico. Em suas memórias, o autor alemão conta que teve uma paixão não correspondida por uma jovem casada e narrava seus dissabores a um amigo, através de cartas. O casal era amigo de Goethe e comentou que algumas cenas e acontecimentos do Werther tinham realmente acontecido na vida deles. A cena do incidente, quando Werther parte para a Corte também foi verdadeira. Lá conheceu Wilhelm, pastor protestante. Goethe trabalhava na Corte, quando conheceu Wilhelm, dando-lhe acesso, assim, à aristocracia local. Wilhelm  apaixonara-se por uma jovem casada. Certa vez, o pastor protestante compareceu para um almoço na casa de um conde, sem ser convidado, para vê-la, mas é tratado com frieza. Para complicar ainda mais a situação, o conde pediu-lhe que se retirasse. Frustrado pela humilhação,  comete o suicídio. Goethe pôde, assim, extrair de sua experiência pessoal os elementos essenciais da primeira parte de sua obra, e emprestou a experiência trágica do amigo Wilhelm para a segunda parte.

Goethe escreveu Os desenganos do jovem Werther entre fevereiro e abril de 1774, aos 25 anos, portanto. O romance faz parte do contexto histórico e político do Sturm und Drang (tempestade e ímpeto), a época áurea do romantismo alemão. Esse movimento, juntamento com as influências românticas inglesas e francesas, influencou sobremaneira o romantismo brasileiro, especificamente a segunda geração romântica dos poetas Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, para citar os mais conhecidos. Para Werther (e os românticos), os sentimentos tornam-se mais importantes que a racionalidade. Acaba morrendo de amor. A natureza exerce fascínio ao jovem. Refugiava-se nela quando estava contente e também quando estava deprimido. Era a busca de encontrar-se a si mesmo, alargando sua sensibilidade. Goethe experimenta, ainda, outra característica do Romantismo, que é a liberdade artística. A história de Werther é apresentada através das cartas datadas de Werther a Wilhelm. A partir de determinado momento, quando Werther começa a perder a razão, surge outro narrador, na figura do editor das cartas de Werther. A história, então, foi contada a partir da morte de Werther.
Quando atingiu sua maturidade como escritor, Goethe foi influenciado pelo classicismo alemão, que sucedeu ao romantismo. É dessa fase sua derradeira obra-prima, o monumental Fausto, dividido em duas partes. Há uma edição bilíngue muito bem cuidada, da Editora 34, com tradução do original alemão de Jenny Klabin Segall.

Há duas traduções do Werther confiáveis, a de Marcelo Backes, pela LPM e de Marion Fleischer, pela Martins Fontes. Não é muito fácil de encontrar exemplares novos nas livrarias. Você consegue comprá-los no site da Livraria Martins Fontes por R$ 16,00 o da LPM e 43,57 o da Martins Fontes. Nos sebos virtuais é possível encontrá-los por preços mais acessíveis. Eu recomendaria a tradução da Martins Fontes, que apresenta o texto mais redondinho, contemplando a poeticidade da prosa de Goethe.
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J. W. Goethe. Os sofrimentos do jovem Werther. SP, Martins Fontes, 2007, 176 pp.

domingo, 6 de outubro de 2013

Diário de um ano ruim


O sul-africano J. M. Coetzee (1940) nos apresenta, em Diário de um ano ruim, um velho escritor solitário que se encontra com uma jovem na lavanderia do condomínio, onde moram. Fica Interessado. Busca informações da moça com o porteiro do prédio. No segundo encontro, em um parque, leva adiante seu plano de se aproximar. Descobre que trabalha como secretária para seu companheiro. Como já está seduzido, arma uma estratégia para trazê-la para si. Conta-lhe que está produzindo material para contribuir para um livro, ideia de um editor da Alemanha, cujo projeto é reunir seis colaboradores de seis países, dizendo o que quiserem sobre qualquer assunto que escolherem, pronunciando-se sobre o que está errado no mundo de hoje. Esse fato é verídico na ficção (na vida de Coetzee também). Faz o convite: como está com prazo apertado,  precisando urgentemente de uma secretária que o ajude a organizar o material, precisa dela para trabalhar com ele, oferece-lhe pagar muito bem. Ela aceita. Porém, o companheiro da jovem instala um spyware no computador do escritor e passa a monitorar os dois.

A história é contada em três planos: o diário que vai constituindo um ensaio sobre temas relevantes da atualidade. Esse plano aproxima o narrador do próprio Coetzee, que costuma dar palestras ao redor do mundo sobre esses temas (recentemente esteve em Porto Alegre, para falar sobre a censura na África do Sul). O segundo e o terceiro planos são contados como notas de rodapé: num, é o escritor narrando sua atração e relacionamento com a secretária; noutro, é a secretária que revela seu ponto de vista sobre o escritor.
O livro pode ser lido de várias formas. O leitor vai escolher a que lhe for mais cômoda. Coetzee, como sempre, se reinventa a cada romance. A tradução é de José Rubens Siqueira

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J. M. Coetzee. Diário de um ano ruim. SP, Cia. das Letras, 2008, 248 pp. R$ 39,50

domingo, 29 de setembro de 2013

o sonâmbulo amador

Jurandir trabalha em uma fábrica de tecelagens. Está próximo à aposentadoria. Então, recebe a tarefa de resolver um problema trabalhista com um empregado da empresa que sofreu queimaduras no local de trabalho. Ao sair com o carro da empresa para visitar o empregado enfermo comete um ato insano e é internado em uma clínica para doentes mentais.

Lá, sente que a loucura, paradoxalmente, revela a lucidez de que viver dói. Incentivado pelo médico da clínica, começa a escrever suas memórias e sonhos, que o ajudam a reconstituir sua vida e enfrentar acontecimentos traumáticos, como o acidente que o deixou manco e a perda do filho num acidente de moto.
O sonâmbulo amador é o segundo romance do escritor pernambucano José Luiz Passos (1971). Narrado em primeira pessoa, divide-se em quatro cadernos que narram a fala aparentemente confusa e desarrumada de Jurandir, revelando seus pensamentos interiores, cheios de mágoa. Jurandir busca clarear o escuro de sua alma, enfrentar fatos dramáticos para tentar definir-se como sujeito, tentar compreender os labirintos que sua consciência cria, trazendo-lhe tristeza. Tristeza que não chega a constituir uma tragédia, apesar da força dos fatos.. Memórias e sonhos  escondem-lhe mistérios, criam armadilhas que confundem o limite entre a imaginação e o acontecido. O autor soube equilibrar isso de forma harmônica.

Apesar de jovem, José Luiz Passos nos apresenta em O sonâmbulo amador uma prosa madura e segura. O escritor vive atualmente nos Estados Unidos, onde leciona literatura e escreve.

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José Luiz Passos. O sonâmbulo amador. RJ, Objetiva, 2012, 270 pp R$ 39,90

domingo, 22 de setembro de 2013

A verdade das mentiras


Dessa vez, vamos comentar um livro sobre os romances. A verdade das mentiras, de Mário Vargas Llosa, debruça-se sobre 36 romances do século XX, que ele selecionou e releu, muitos anos depois, para analisar aspectos dessas obras, diferentemente da intenção primeira que o autor teve, ao lê-las pela primeira vez, quando jovem. Lançado em 2002, contém  ensaios independentes selecionados arbitrariamente e ligados por um denominador comum: de que a missão do romance é mentir de forma persuasiva, passar por verdade as mentiras.
Vargas começa afirmando que, de fato, os romances mentem, pois não podem fazer outra coisa. Mentindo, expressam uma verdade curiosa que só pode se expressar escondida, disfarçada do que não é. Isso acontece porque os homens não estão contentes com seu destino rico ou pobre, medíocre ou genial, célebre ou obscuro: gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Por isso, nos diz Llosa, surgiu a ficção. Na ficção, os leitores podem ter as vidas que não se resignam a não ter. No embrião de todo o romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo satisfeito.

Mas, Vargas Llosa adverte: isso não significa que o romance é sinônimo de irrealidade. A verdade e a mentira no mundo da ficção estão semeados de armadilhas. Não se escrevem romances para contar a vida, mas para transformá-la, acrescentando-lhe algo. Todos os romances refazem a realidade, embelezando-a ou piorando-a. Nesses acréscimos sutis ou grosseiros à vida, nos quais o romancista materializa suas obsessões secretas, reside a originalidade da ficção.
Isto posto, ele nos fala de O coração das trevas (Conrad), Morte em Veneza (Mann), Dublinenses (Joyce), Mrs. Dalloway (Woolf), O grande Gatsby (Fitzgerald), O lobo da estepe (Hesse), O estrangeiro (Camus), A revolução dos bichos (Orwell), O velho e o mar (Hemmingway), Doutor Jivago (Pasternak), O tambor (Grass), Afirma Pereira (Tabucchi) e mais 24 obras que fizeram sucesso no século XX. Trata-se de ensaios curtos – média de 6 a 7 folhas, escritos de forma brilhante, numa linguagem acessível, discorrendo sobre o propósito da literatura, o futuro dos livros e o modo como a ficção transforma nossa experiência vital.

A tradução excelente é de Cordelia Magalhães. Lamentavelmente, estamos diante de mais uma obra de qualidade esgotada. Mas não desanime, nos sebos virtuais é possível encontrar um exemplar seminovo por um preço médio de 33 reais. Mas compre logo, porque são poucos disponíveis!
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Mario Vargas Llosa. A verdade das mentiras. 3ª ed, SP, ARX, 2004, 368 pp.

 

 

domingo, 15 de setembro de 2013

O amor nos tempos do cólera


O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, é um romance que trata de um amor fora de moda. É a história de um homem que ama uma mulher profundamente e conserva seu amor intensamente por toda a vida.
O romance começou a ser escrito em 1984 em Cartagena de Indias, logo após o autor ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura. García Márquez se vale de alguns dados históricos da cidade, como a epidemia do cólera que assolou a cidade no final do século XIX, assim como o naufrágio do galeão espanhol San José, que carregava joias. Também aparecem hábitos, costumes e preconceitos da sociedade colombiana da primeira metade do século XX, o empobrecimento do país e as inúmeras guerras que assolaram a Colômbia nesse período.

A questão social também é um dado importante na narrativa. Trata-se de dois jovens de extratos sociais diferentes. Florentino Ariza vive com a mãe numa meia casa alugada, onde tinha uma loja de armarinho e também desfiava camisas e panos velhos que vendia como algodão para os feridos de guerra. Seu pai morre quando ele tinha 10 anos, sem reconhecê-lo. Cedo teve de largar os estudos para trabalhar. Um telegrafista interessa-se pelo jovem e lhe ensina o ofício, que mantém por bom tempo. Fermina Daza, a jovem, vinha de uma família que enriquecera de forma obscura. Seu pai tinha vínculo com contrabando e falsificações. Isso vem à tona quando o pai, falido, insiste para a filha casar-se com o médico rico e influente, Juvenal Urbino. Fermina, que inicialmente correspondia às investidas de Florentino, muda de ideia e casa-se com o médico, vivendo juntos por mais de 50 anos. Quando o médico morre vítima de uma queda absurda,  Florentino busca se reaproximar e declarar à velha senhora que continua amando-a com a mesma intensidade de sempre. Ela o rejeita de forma bruta. Mas ele não desiste.
Florentino coloca a esfera do sentimento como o sentido de sua vida. O amor que sente por Fermina é aquele que ninguém sentirá como ele sente. A guerra, o cólera ficam para segundo plano em função do amor de Florentino por Fermina. O sentimento dele  representa o sentido absoluto do amor. Recusado por ser pobre, busca enriquecer para que um dia possa conquistá-la.

García Márquez, como sempre, faz uso da memória e do tempo para contar sua história. O incentivo para o romance veio do amor de seus pais. Quando os dois se conheceram, o pai de García Márquez tinha uma vida simples, era telegrafista. O pai de sua mãe não permitia o casamento, até que de tanta insistência do noivo, os dois acabaram casando. As características dos personagens do romance, entretanto, seguem outras características psicológicas. O autor usa de recursos temporais para contar a história. Tudo começa na velhice, com a morte do médico, a seguir volta ao presente, para contar as coisas do princípio, do velório do médico à reaproximação de Florentino. A história é contada com o humor característico do escritor colombiano, embora a velhice seja mostrada com dureza, sem descambar para o grotesco.
A tradução da editora Record é de Antônio Callado.

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Gabriel García Márquez. O amor nos tempos do cólera. 27ª ed, Rio, Record, 2005, 434 pp. R$ 53,00          

domingo, 8 de setembro de 2013

Os dragões não conhecem o paraíso

Caio Fernando Abreu nos avisa em Os dragões não conhecem o paraíso, que os textos podem ser lidos como histórias autônomas. Também podem ser lidos, fazendo parte de um romance móbile, em que as partes se interligam formando um todo, de acordo com o gosto do autor.
Em Linda, o personagem narrador volta para morar com a velha mãe solitária, está com sintomas da AIDS na pele. Em O destino desfolhou, ele relembra a infância e adolescência, quando teve contato com a morte na presença de Beatriz, antigo amor que morreu de leucemia na adolescência, virando uma estrela. Em À beira do mar aberto, relata a paixão não revelada pelo outro. Em Semana, blues, as marcas da ausência de Ana em sua vida, sem que soubesse os motivos. Vodca, lágrimas e café; os ciclos da terapia, psicodramas,  sonhos junguianos, promessas a Santo Antônio; o mundo tornando-se, aos poucos, um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Em Saudade de Audrey Hepburn, um cara solitário caminha pela noite paulistana, como à procura de um outro que perdera numa véspera de São João. Nessa trajetória de lembranças, a presença das entidades do candomblé. Em O rapaz mais triste do mundo, um homem solitário no fundo de um bar guei observa um homem também solitário de 40 anos que pega uma cerveja e senta numa mesa onde há um rapaz de uns 20 anos. Os dois se evitam, não se olham, não se falam. Esse rapaz parece ser o rapaz mais triste do mundo. Ele é, com os outros e com o leitor, um único homem perdido na noite, cercado de álcool e muita solidão. Sapatinhos vermelhos é o fetiche de uma mulher de meia idade, curtindo a fossa de uma separação na madrugada de uma sexta-feira santa. Num quarto da cidade grande, sofrendo de tédio e com ideias de suicídio, lembra da praiazinha de areia bem clara, no meio da sanga, em Passo do Guanxuma (cidade ficcional presente na obra de Caio), onde teve um encontro com Dudu há sete anos atrás, que teria motivado, quiçá, sua ida para São Paulo. Para fugir à ideia do suicídio ela escreve uma carta a Dudu. Em A dama da noite, ela, numa boate, bêbada, espera aquele um que virá buscá-la de uma hora para outra. Ela aluga um jovem para despejar seus demônios, é a dama da noite que envenena, contamina o sangue com todos os vírus, é a dama infeliz que, a cada noite, naquele bar, se mata e contamina a si mesma com a solidão dos desamados. Em Mel e girassóis, um homem e uma mulher passam férias sozinhos num hotel à beira-mar. Casualmente, fazem contato e vão se aproximando até um aparente happy-end, posto que quando os dois se descobrem, é véspera de cada um voltar a suas origens. Em A outra voz, morte e esperança. No conto Pequeno monstro, sabemos da presença de um primo que vem passar férias na praia e desencadeia a descoberta da sexualidade em um adolescente. A solidão é o tema de Os dragões não conhecem o paraíso, porque não precisam ser aceitos. Fogem do paraíso banal que inventamos, porque detestam o mundo perfeito que inventamos, onde nada dói, numa eterna monotonia de falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia. Os homens precisam da ilusão do amor para não afundarem no poço da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Caio Fernando Abreu. Os dragões não conhecem o paraíso. Rio, Nova Fronteira, 2010, 192 pp. R$ 39,90

domingo, 1 de setembro de 2013

A natureza trágica de Adonias Filho

Carlos Nejar divulgou há pouco tempo no programa Globonews Literatura sua monumental História da Literatura Brasileira (da carta de Caminha aos contemporâneos). Durante a entrevista, referiu-se a Adonias Filho como o grande escritor que havia sido relegado a segundo plano pelos estudiosos da literatura brasileira, por questões ideológicas. Nejar não dá detalhes sobre a afirmação, mas se o fato ocorreu por causas ideológicas, poderia ter sido, talvez, porque o autor serviu ao governo militar, tendo sido membro do Conselho Federal de Cultura, de 1969 a 1973, período áureo da ditadura militar, e de 1977 a 1990, ano de sua morte. Hoje, entretanto, sua obra está sendo revalorizada e reeditada. Adonias Filho foi membro da Academia Brasileira de Letras.

A obra do baiano Adonias Filho (1915/1990) é carregada de imagens fortes, retratando o sentimento trágico da vida. Suas personagens, por vezes, vivem a dolorosa miragem gerada pela mata. Perto de Itajuípe, vizinha a Ilhéus, onde nasceu o escritor, acontece quase toda sua narrativa. A maior parte de suas  personagens são bugres, índios e pequenos agricultores arruinados, ao contrário de Jorge Amado que situou alguns romances no ciclo do cacau, com personagens negros ou mulatos. As personagens de Adonias Filho são seres embrutecidos pela paisagem hostil, em vales secos. As pedras, cobrindo a planície, rasgando o chão, são como dentes afiados, limados, cortantes, formando mandíbula fechando a passagem, constituindo a fronteira de outro universo. Aí caminha o homem, em conflito entre um corpo destrutível e uma alma sem governo, em agonia, numa região onde se permite o crime, o calor do ambiente sufocando o coração do homem que já não se considera humano. Carecem, então, de sentimento. A violência substitui o afeto, muitos são tratados como se fossem bichos.


Memórias de Lázaro, narra a vida de Alexandre, separado criança dos pais e sendo criado por um tio. Em sua vida não há lugar para afeto. Quando isso acontece, a natureza de seu destino muda e elementos trágicos mexem seu destino, que sempre lhe foi dura, num universo sem lei nem rumo, mantendo-o trancado em si mesmo, na busca de uma experiência qualquer para os mistérios do mundo e do ser.

Corpo Vivo, situado ainda nesse universo duro e cruel, narra a vida de Cajango, que teve toda a família morta por jagunços, quando tinha 11 anos de idade. Auxiliado pelo padrinho, é levado a viver com um tio, um bugre rude que lhe ensina a forjar o ódio para vingar a morte da família e restituir as terras que lhes foram roubadas. Entretanto, quando o afeto se faz presente em sua vida, quando se apaixona por Malva, seu destino é alterado e o sentimento trágico da vida e da morte passa a acompanhá-lo.
O Forte narra uma história de amor mal costurada entre Jairo, um médico, e Tibiti, a neta do negro Olegário, que matou o genro para salvar a filha e a neta. Olegário julgado e feito prisioneiro no forte que guarda trezentos anos da história da Bahia e de como Olegário e Jairo se conheceram. A destruição do forte representa um recomeço na vida de Jairo e Tibiti. O romance carece da carga dramática dos romances anteriores. Aqui, a violência humana está mais dosada.
Léguas da Promissão é um livro de novelas. Apresenta o mesmo universo hostil e trágico que o autor gosta de retratar. Desse universo destaca-se a novela Um anjo mau, narrativa muito bem construída e que me impressionou muitíssimo. Açucena, que teve sua vida destruída pela violência física e sexual, é vingada pelo homem de sua vida, para que assim possa esquecer o passado.  
As velhas deu o Prêmio Jabuti de melhor romance a Adonias Filho em 1975. O romance narra a história de quatro velhas cujos acontecimentos se entrelaçam. Tari Januária, índia pataxó, pede ao filho Tonho que lhe traga os ossos do pai, morto em emboscada, para ser enterrado junto à família. Zefa Cinco, a pistoleira que matou o pai de Tonho, propõe entregar-lhe os ossos do pai, em troca da neta que estava longe em péssimas condições de vida. Zonga, a rainha negra, de quase dois metros de altura, representa a trégua na vida de Tonho em sua trajetória. E Lina de Todos, a que se recusou a ser mulher de um homem só e teve inúmeros filhos que desbravam a selva do sul da Bahia para o plantio do cacau; ela ajuda Tonho a conseguir seu intento. Quatro velhas marcantes em sua autoridade, em suas lembranças, seus rancores e cegueira vingativa.
Luanda Beira Bahia, três lugares ligados pela etnia negra em contato com o colonizador. Sardento, marinheiro português, tem caso com uma negra de Ilhéus e nasce-lhe um filho, Caúla, que cresce sem pai, pois Sardento abandona a família para correr o mar. Esteve em Angola, onde teve uma filha em Luanda. Caúla cresce e segue os passos do pai, depois que sua mãe morre. Em Luanda conhece a irmã, mas não sabe de quem se trata. Depois vai a Moçambique, onde tem um caso com uma adolescente na Beira. O caso de amor não avança e Caúla retorna a Luanda, onde volta a ter contato com a irmã. Os dois se apaixonam e decidem voltar à Bahia, onde a casa em Ilhéus espera pelos dois. Quando chegam à casa, Sardento lá estava, de volta. Ao descobrir que os dois são seus filhos e estão casados, os mata. Luanda Beira Bahia não é um bom romance, falta-lhe profundidade, já que nas narrativas de Adonias Filho costumam ser curtas. Se o autor enveredasse pelo caminho de uma história de amor, sem supervalorizar o trágico, talvez o romance ganhasse consistência.
                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Adonias Filho. Memórias de Lázaro. 3ª ed, Bertrand Brasil, 1978,168 pp. R$ 33,00
               Corpo Vivo. 32ª ed, Bertrand Brasil, 2001, 134 pp. R$ 35,00
               O Forte. 10ª ed, Bertrand Brasil, 2002, 160 pp. R$ 33,00
               Léguas da Promissão. 4ª ed, Civ. Brasileira, 1975, 147 pp.
                                   Esgotado. Preço médio nos sebos de R$ 10,00  
               As Velhas. Bertrand Brasil, 2004, 160 pp. R$ 37,00
               Luanda Beira Bahia, 2ª ed, Civilização Brasileira, 1975, 144 pp.
                              Esgotado. Preço médio nos sebos R$ 10,00           

domingo, 25 de agosto de 2013

Clara dos Anjos

“O subúrbio é o refúgio dos infelizes”. Essa é a frase mais lembrada, quando se fala no romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881/1922). O subúrbio é o lugar dos que perderam o emprego, os bens; dos que faliram nos negócios. Lima Barreto sabia muito bem do que falava. Viveu sempre no subúrbio, em condições humildes de vida. Conheceu as dificuldades dos que tinham de se manter à periferia da cidade do Rio de Janeiro, devido ao crescimento e embelezamento da Corte. O prefeito Pereira Passos, no início do século XX, desapropriara a população que vivia no centro da cidade, próximo aos prédios públicos, para que ruas fossem criadas ou ampliadas e residências burguesas fossem erguidas para habitar os poderosos. Nos subúrbios passaram a habitar os trabalhadores humildes, entre eles os negros e mulatos recém libertos da escravidão. Por ser mulato, Lima Barreto sentiu na pele o peso do preconceito. Seria filho de escrava com o protetor de sua família, fato não comprovado suficientemente, ainda que Lima Barreto e sua família tivessem sido ajudados pela outra família até depois da morte do patriarca. Lima Barreto não aceitava o preconceito de cor e sempre lutou contra isso, através de seus romances e das crônicas diárias dos jornais em que trabalhou. Criticava duramente a sedução que os homens brancos exerciam sobre as mulatas, abandonando-as mães e solteiras. Esse, aliás, é o mote para Clara dos Anjos, romance irregular em sua estrutura narrativa, mas importante por revelar personagens marginais muito pouco expressivas nos romances que haviam sido produzidos até então na literatura brasileira.

O enredo é simples, Clara dos Anjos, uma pobre mulata ingênua e sonhadora, filha de um carteiro de subúrbio, é iludida, seduzida e desprezada por um rapaz branco de condição social inferior a sua. Não faltaram cuidados e avisos para que ela não caísse na lábia de tal malandro, já conhecido por desencaminhar outras moças ingênuas e virgens. Clara cede, apesar do zelo dos pais e do padrinho, na esperança de que ele fosse casar-se com ela, o que não ocorre, pois o rapaz foge, deixando-a grávida. A família tenta contato com a família do rapaz, mas nada pode ser feito, o rapaz é maior de idade. Cabe à família de Clara arcar com as consequências do ato, num final em que a filha diz ao pai: “Nós não somos nada nessa vida”.

Clara, aliás, aparece pouco na narrativa. É a personagem que fica à espera de seu destino infeliz. O autor tece um retrato fiel dos ambientes por onde circulam essa gente humilde, com personagens estruturadas sob a forma da caricatura. A personagem de Cassi Jones, o pilantra, é fartamente documentada oralmente pelos que conhecem sua pessoa e seu caráter. Só que a ingenuidade é o defeito que provoca o trágico na vida de Clara e de sua família.

A edição econômica da Penguin & Cia. das Letras é muito bem cuidada, incluindo textos de Beatriz Rezende, Lúcia Miguel Pereira e Sérgio Buarque de Holanda, elucidando diversos aspectos do texto de Lima Barreto. Apresenta também notas de rodapé de Lilia M. Schwarcz e Pedro Galdino da Silva Neto, esclarecendo e explicando metáforas, expressões, personagens, lugares e situações históricas presentes na vida social da época do romance: .

                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Lima Barreto. Clara dos Anjos. SP, Penguin Editora, 2012, 304 pp. R$ 26,00