domingo, 19 de junho de 2016

4. Decameron

Giovanni Boccaccio (1313;1375) é um dos grandes expoentes do Renascimento italiano, com Dante e Petrarca.  Decameron, sua obra-prima, tem duas traduções recentes e de bom nível no mercado editorial, diretamente do italiano:a da LPM apresenta o texto integral, com tradução de Ivone C. Benedetti. A Cosac Naify  apresenta dez das cem novelas que Boccaccio escreveu no período em que a Europa havia sido devastada pela peste negra de 1348. A seleção dos textos foi feita pelo professor e tradutor  Maurício Santana Dias, com ilustrações do artista plástico Alex Cerveny. Esta é que será comentada a seguir.

Sete jovens damas se encontram por acaso na igreja de Santa Maria Novella em Florença. Estavam ali em busca de abrigo e proteção divina, até que uma delas propõe às outras uma fuga de Florença para as colinas próximas, ainda preservadas da peste.  Todas concordam com a ideia, e convidam três jovens cavalheiros para acompanhá-las. Os dez, então, acompanhados de sete criados, partem para uma villa senhoril afastada da cidade e ali poderão reconstituir o modo de vida que levavam até o caos instaurado pela doença. 

Em meio ao inferno sombrio de Florença tomada pela peste, abre-se então uma clareira, o paraíso de prazeres idealizado que tornará possível o esquecimento da morte por alguns dias.  As regras do convívio social que haviam sido desorganizadas pela epidemia começam a se reorganizar entre os dez jovens, que de comum acordo estabelecem uma série de rotinas a serem seguidas por todos. Dentre as normas adotadas, a principal  instituía que todos, após a sesta da tarde, se reuniriam próximos a uma fonte, sob a sombra das árvores, para contar histórias até a hora da ceia.

Nas dez novelas do Decameron ficaremos sabendo como um péssimo homem em vida, ao morrer, é tomado por santo; como um homem, fingindo-se de mudo, consegue empregar-se de jardineiro em um convento de freiras e todas querem deitar com ele; como Frei Alberto dá a entender a uma senhora que o anjo Gabriel apaixonou-se por ela e, dessa forma, deita-se várias vezes com a mulher; como um jovem fidalgo ama sem ser amado, gastando toda sua fortuna em cortesias, ficando apenas com um falcão. Recebendo uma visita imprevista da amada e não tendo o que lhe oferecer de almoço, prepara-lhe a ave. Ao saber disso, a mulher toma-o como marido e o torna rico. Há outras histórias mais, todas de leitura divertida e deliciosa.

Maurício Santana Dias nos explica que buscou montar, na seleção das dez novelas do volume, um microcosmo que pudesse em alguma medida oferecer ao leitor uma visão macroscópica do Decameron. Equilibrou temas e registros que vã dos mais popularesco ao mais aristocrático, evitando cair no vício de muitas antologias que insistem em compilar as novelas mais erótica ou escabrosas de Boccaccio, que acabam alimentando uma percepção redutora do universo boccacciano.
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domingo, 12 de junho de 2016

3. A Divina Comédia

O linguista alemão Harald Weinrich nos fala em seu livro Lete, arte e crítica do esquecimento (tradução de Lya Luft pela Civilização Brasileira) que "A morte é o mais poderoso agente do esquecimento. Mas não é onipotente. Pois os homens desde sempre ergueram trincheiras de recordação contra o esquecimento na morte, de modo que rastros que fazem concluir a existência de uma memória dos mortos são considerados por arqueólogos e estudiosos da história os mais seguros sinais de que existiu uma civilização humana. Os rituais de culto aos mortos, com seus pedidos, sacrifícios e ofertas nos túmulos, em muitos casos servem em primeiro lugar para assegurar aos mortos um certo bem-estar no Além. Mas os monumentos fúnebres fitam os vivos exortando-os a não esquecerem os seus mortos, e mesmo assim, às vezes a esquecê-los um pouco, porque "a vida continua".

Portanto, o tempo se liga antes com o esquecer do que com o lembrar. Mas quando os poetas abordam a memória dos mortos o esquecimento não pode mais realizar seu jogo costumeiro com a memória humana. Ter mostrado isso em perfeição clássica é privilégio de um dos maiores poetas da literatura mundial, Dante, que ergueu em torno da memória dos mortos - sempre ameaçada pelo esquecimento - a duradoura catedral da sua Divina Comédia. Dante Alighieri (1265-1321) escreveu essa obra em cem cantos de 14.233 versos no começo do século XIV, quando ele próprio fora banido da cidade natal e estava ameaçado de esquecimento no exílio.

A Divina comédia é o relato da salvação da alma de seu autor, Dante. Ele descreve uma jornada épica através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso que culmina numa série de visões que lhe revelam o sentido final da criação de Deus. O poeta romano Virgílio, autor da Eneida, é o guia de Dante pelos nove círculos do Inferno e pelos sete terraços do Purgatório, mas, quando os dois chegam ao Jardim do Éden, situado no topo da montanha do Purgatório, Virgílio vai embora e Dante se reencontra com Beatriz, a mulher morta que ele ainda adora, e é ela que o conduz através dos nove céus do Paraíso até o plano da Presença Absoluta de Deus, para além do espaço e do tempo. Lá, por fim, é concebida a Dante uma visão da Rosa do Justo, formada pelas almas daqueles que conquistaram a salvação.  De repente, Dante nota que Beatriz não está mais com ele; ele grita de consternação, mas então a vê no lugar designado para ela, em um dos círculos da rosa mística. Beatriz sorri para ele uma última vez, antes de virar-se para  contemplar em êxtase a fonte do amor eterno de Deus.

Beatriz é a personagem que desempenha um papel providencial no início e no desenrolar do poema de Dante. Graças à intersecção dela, Deus permite que Dante empreenda a jornada e é ela também que propicia a inspiração para a composição do poema que revelará o destino pessoal de Dante e oferecerá um sentido final para a existência do homem na terra. Quem era, então, Beatriz? Trata-sede Bice Portinari, que diz ter visto pela primeira vez quando tinha nove anos de idade e tê-la revisto só nove anos depois, quando se negou a reconhecê-lo. Essa rejeição fez com que Dante sublimasse seu amor por Beatriz,um processo que continuou mesmo depois que ela se casou com outro homem. Após sua morte, o amor de Dante tornou-se totalmente espiritual. (1)

A melhor tradução de A Divina Comédia, segundo os críticos, parece ser a de João Trentino Ziller, pela editora Unicamp/Ateliê, com desenhos de Botticelli.  Mas, a obra encontra-se esgotada. A tradução que eu li é de Ítalo Eugenio Mauro, em edição bilíngue,  em 3 volumes, da Editora 34.

Depois de conhecer universo de Dante, recomento a leitura de Nove cartas  sobre A Divina Comédia, de Marco Lucchesi, estudioso da obra do poeta italiano, pela Editora Casa da Palavra. Escrito em formato de cartas,  é um convite para uma viagem reveladora pelo universo poderoso da poesia e também da filosofia, história e religião,  a partir dA Divina Comédia.


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(1) Edwin Williamson in Borges, uma vida. Companhia das Letras. Trad. Pedro Maia Soares

domingo, 5 de junho de 2016

2. Odisseu


 A Ilíada é o poema da guerra. A Odisseia é o poema da aventura, há poucas cenas de combate, com muitos personagens fabulosos, um ambiente doméstico bem definido e, principalmente, o embate de Ulisses com os pretendentes a sua esposa, Penélope, supostamente viúva. Ulisses, portanto, é um herói bom, que luta para preservar sua família. O termo grego do epíteto latino Ulisses é Odisseu.

Acabou a guerra de Troia, passaram-se vários anos. Em Ítaca, todos pensam que Ulisses não voltará mais, devido à longa ausência. Sua casa é invadida por pretendentes, causando transtornos a Penélope, que acredita na volta do marido e o espera de forma casta. O filho adolescente, Telêmaco, decide partir para tentar encontrar o paradeiro do pai.

Enquanto isso, Ulisses encontra-se preso na ilha de Calipso,  quando foge para voltar para casa. Como a narrativa não é linear, o poema volta a acontecimentos envolvendo o herói, antes que ele chegue à ilha de Calipso. Quando sai de lá, chega à terra dos feácios, onde acaba contando suas aventuras. É a parte mais interessante da Odisseia, com acontecimentos fantásticos, como a luta com o Ciclope, as sereias e os monstros marinhos. 
Os feácios acabam facilitando a volta de Ulisses a Ítaca.

Chegando a sua terra, ele aparece disfarçado de mendigo. O herói faz uso do artifício, para buscar saber quem está do lado dele e para matar quem merece morrer. No final, revela-se à esposa e a paz se restabelece em seu lar.

Ulisses é a figura moderada que sabe raciocinar a melhor maneira de agir, é extremamente astucioso.

Há um texto postado aqui, centrado no enredo da narrativa. Use o mecanismo de busca do blog.
     
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Homero. Odisseia. SP, Penguin Companhia, 2011, 584 pp. tradução de Frederico Lourenço

domingo, 29 de maio de 2016

1. Ilíada revisitada


Saber se Homero existiu de fato, e se foi ele que criou IlíadaOdisseia, é um assunto bastante controverso. Homero, se existido, fora um rapsodo, um recitador de poesias épicas  para um público ouvir em diversos lugares por onde passava. Na tradição grega, imagina-se Homero como um poeta cego.  De qualquer forma, Homero não escreveu nem uma obra nem outra. O que os estudos mostram, é que as obras escritas apresentam fortes indícios de que os dois  poemas são frutos da tradição oral.Estudos concretos sobre sua existência, não existem. Mostram, por sua vez, que a existência dessa longa tradição oral torna pouco relevante a presença de um grande gênio autoral que cria, a partir de sua própria mente, os grandes poemas. Isso quer dizer que a tradição é muito mais importante do que a criação de um determinado poeta, se é que isso aconteceu. Homero poderia ser a representação de um coletivo de recitadores que transmitiam a poesia cantada pelos diversos pontos da Grécia, durante muito tempo, até ser organizada sobre forma escrita.

Ilíada de Homero, portanto, é um grande poema. Tem uma capacidade narrativa impressionante. As imagens utilizadas para contar os versos, a maneira como são construídos, transmite uma sonoridade impressionante.
Estruturado em 24 cantos, narra o que está acontecendo no final da Guerra de Troia, que durou dez anos, por causa do rapto de Helena. Páris, jovem troiano, teve de fazer uma escolha de qual a mais bela entre três divindades, Hera, Atena e Afrodite. Escolheu Afrodite, a deusa do desejo sexual. Páris, então, apaixona-se pela mulher de Menelau e a rapta para Troia.

Homero narra menos de dois meses antes do final da guerra. O motivo do poema é uma briga entre Aquiles e Agamenon, por causa de uma escrava, é o impasse que movimenta a narrativa épica.  Aquiles se recusa a continuar guerreando. Os gregos começam, então, a sofrer baixas. Agamenon tenta se reconciliar com Aquiles sem sucesso. No final, Pátroclo, o melhor amigo de Aquiles, vai lutar disfarçado em herói. Heitor, o troiano, mata Pátroclo. Aquiles,  enfurecido com a perda do amigo, entra na guerra e mata Heitor.

A história da Ilíada, resumidamente, é a história da ira de Aquiles. Quando mata Heitor, o herói não se satisfaz com isso, quer aniquilar o cadáver. Em vez de entregar o corpo aos troianos para as honras fúnebres, Aquiles diariamente amarra o cadáver  em sua carroça e faz voltas em torno do túmulo de Pátroclo, tamanho seu ódio. No final, ele cede e entrega o corpo ao pai de Heitor, Príamo, para que seja enterrado.

Ilíada já nos mostra a importância do caráter trágico, da responsabilidade pelas próprias ações, na figura de Aquiles. Ele é cercado de dúvidas: será que o homem já está predestinado?  Agiu corretamente? É culpado pela morte do amigo? Causou a morte dele? São questões existenciais importantes na história da humanidade de ontem e de hoje.

A melhor tradução da Ilíada é  do helenista português  Frederico Lourenço, que traduziu o poema em verso livre, o que dá fluência ao texto, facilitando bastante sua compreensão.

Ilíada já foi comentado aqui, centrado no enredo. Use o mecanismo de busca do blog.
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Homero. Ilíada. SP. Penguin Compania, 2013, 720 pp.

domingo, 22 de maio de 2016

50 narrativas imprescindíveis

Um livro de ficção bom  é aquele que nos consegue contar uma história original, de forma envolvente. O autor não precisa, obrigatoriamente, fazer grandes experimentos formais para que a matéria do romance nos conquiste a leitura de forma ávida. Mas, o conteúdo de uma história não sobrevive sem as operações formais que lhe deem corpo, caracterizando um estilo. Determinado tempo considerado em relação aos acontecimentos nele ocorridos, suas características distintivas, e os homens que nele viveram se refletem num estilo de viver e de expressar-se. Esses períodos de tempo esquematizam, assim, estilos de época que se refletem, na criação literária, em estilos literários. O estilo clássico predominou sob o domínio dos gregos e foi retomado durante o Renascimento e o Parnasianismo. O período das trevas da Idade Média ressurgiu no Barroco, sob o autoritarismo da Igreja Católica, no mundo latino. A ascensão da burguesia dos séculos XVIII e XIX gerou, como forma de expressão artística, o Romantismo, com o predomínio do subjetivismo. Até que a era da industrialização trouxe à classe burguesa excluída da aristocracia, a intensificação da força produtiva excluída da burguesia quanto a fatores econômicos. Com o advento da Primeira Guerra Mundial, o mundo experimentou algo novo que revolucionou a literatura de então, até o presente: o Modernismo. O romance, a partir de então, nunca mais foi o mesmo. O conservadorismo da forma narrativa sofreu um nó que resultou em novos experimentos literários, como o fluxo de consciência, o foco na forma em detrimento do conteúdo, e por aí vai. Durante esse longo período de evolução da forma narrativa, houve obras imprescindíveis que fugiram ao cânone, tornando-se únicas, universais.

As 50 narrativas fundamentais que serão comentadas aqui a partir da próxima semana, são obras que influenciaram sobremaneira tudo o que se criou em forma de ficção a partir delas. O critério de escolha seguiu uma lista que o professor Flávio Loureiro Chaves , de quem tive o prazer de ser aluno, divulgou em uma de suas aulas de Literatura da UFRGS, lá pelo ano de 1976. A lista de agora  foi um exercício de memória, pois a lista me foi perdida. Creio que recuperei todos, ou quase todos. Talvez um ou dois títulos tenham sido trocados. Não tenho certeza absoluta se O jogo da amarelinha estivesse na lista do professor Flávio. Os livros de Borges, pode ser que não tenham sido dois. Mas tenho forte convicção de que O Aleph estava lá. Ficções é certo. Na lista do professor tinha Dom Casmurro. Optei por substituí-lo por Quincas Borba, por questão pessoal.

1.      A Ilíada
2.      A Odisseia
3.      A Divina Comédia
4.      Decameron
5.      Os Lusíadas
6.      Don Quixote
7.      Tristan Shandy
8.      Viagens de Gulliver
9.      Robinson Crusoé
10.     Tom Jones
11.     As relações perigosas
12.     Fausto
13.     O vermelho e o negro
14.     Moby Dick
15.     Madame Bovary
16.     Crime e castigo
17.     Os irmãos Karamázov
18.     Eugênia Grandet
19.     Pai Goriot
20.     Quincas Borba
21.     Anna Kariênina
22.     Guerra e paz
23.     Contos de Gógol
24.     Contos de Tchékov
25.     Lorde Jim
26.     O retrato de Dorian Gray
27.     Em busca do tempo perdido
28.     Metamorfose
29.     O processo
30.     Ulisses
31.     Orlando
32.     Mrs. Dalloway
33.     A montanha mágica
34.     Macunaíma
35.     O som e a fúria
36.     O homem sem qualidades
37.     São Bernardo
38.     O grande gatsby
39.     A náusea
40.     Ficções
41.     O Aleph
42.     A peste
43.     O tempo e o vento
44.     Pedro Páramo
45.     Grande sertão, veredas
46.     O quarteto de Alexandria
47.     O leopardo
48.     A paixão segundo GH
49.     O jogo da amarelinha

50.     Cem anos de solidão

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domingo, 15 de maio de 2016

A bíblia como narrativa literária


O professor de literatura e crítico literário norte-americano,  Robert Alter, levanta questões interessantes sobre "a arte da narrativa bíblica", no sentido de que a bíblia, especialmente a do Velho Testamento, é feita de histórias, episódios e personagens complexos, como Raquel, José, Rute ou Moisés, que não se reduzem a meras  alegorias de uma mensagem moral inquestionável. A narrativa bíblica compreende um realismo psicológico e moral bastante complexo, uma vez que os desígnios de Deus estão sempre entrelaçados às histórias humanas, dependendo de ações individuais de homens e mulheres, com suas contradições e múltiplas facetas de sua individualidade humana. Tudo isso tem a ver com a maneira como o escritor bíblico articula a forma narrativa, organizando eixos temáticos, de acordo com sua notável intuição da psicologia das personagens. Esse narrador cria monólogos interiores, atribuindo-lhes sentimentos, intenções ou motivações, inventando diálogos e situações dramáticas que expõem as figuras bíblicas a sua dimensão existencial.

Optei pela leitura da Bíblia de Jerusalém, por considerá-la a melhor edição da Sagrada Escritura, quer pelas opções críticas que orientaram a tradução, quer pelas introduções, notas, referências marginais e apêndices. A Paulus Editora editou a tradução brasileira, a partir dos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos, numa edição integral.  Fiquei espantado de saber que o Deus do velho testamento procedia de forma autoritária,  cruel e vingativa com aqueles que não seguiam sua palavra. Me encantaram os salmos e os provérbios.

A Bíblia de Jerusalém se divide entre o Antigo e o Novo Testamentos. O Antigo Testamento compreende o Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, isto é: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Os judeus chamam essa parte da Bíblia com o nome de Torá, que significa Lei. As histórias aí contidas, na sua maioria, nasceram no meio do povo e, primeiramente, eram histórias de famílias, de clãs e de tribos que procuravam transmitir oralmente, de geração em geração, ensinamentos e fatos. Mais tarde essas histórias foram reunidas, modificadas e interpretadas para que todo o povo de Israel pudesse se espelhar nelas e para que elas expressassem a fé em Javé, "o Deus que liberta".

Há, também no Antigo Testamento, os assim chamados livros históricos. Neles encontramos a história de Israel e do judaísmo, desde a conquista da terra prometida até quase a época do Novo Testamento, com uma  interpretação de acontecimentos a partir da fé. Esse conjunto divide-se em quatro partes:
1. Josué, Juízes 1 e 2, Samuel 1 e 2 Reis. Formam um relato mais ou menos contínuo, apresentando a história do povo desde a conquista da terra até o exílio na Babilônia. Os livros de Samuel relatam acontecimentos que se situam entre 1040 e 971 a.C. Temos aí uma análise crítica do aparecimento da realeza em Israel, análise que pode ajudar a avaliar nossos sistemas e homens políticos, bem como qualquer outra autoridade.
2. 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias. Abarcam o tempo do pós-exílio babilônico até meados do séc. III a.C. A preocupação básica é fundamentar e organizar a comunidade depois do exílio na Babilônia (Esdras e Neemias). Para isso, seus autores repensam toda a história do povo, a fim de fundamentar a vida da comunidade judaica e sua forma de governo, polarizada pelo culto no Templo de Jerusalém (1 e 2 Crônicas).
3. Rute, Tobias, Judite, Ester. São novelas ou romances que mostram situações típicas dos judeus na Palestina ou fora dela.
41 e 2 Macabeus. Relatam a resistência heroica de um grupo de judeus diante da dominação estrangeira que ameaça destruir a identidade cultural e religiosa da comunidade judaica. Os dois livros dos Macabeus apresentam os acontecimentos que se desenvolveram entre 175 e 134 a.C.

O Antigo Testamento compreende também os Livros proféticos e sapienciais: Provérbios, Jó, Eclesiastes, Eclesiástico e Sabedoria. A esses são acrescentados dois livros poéticos: Salmos e Cântico dos Cânticos. Esses livros apresentam a sabedoria e a espiritualidade de Israel.
Os livros sapienciais mostram que a experiência comum do povo também é lugar da manifestação de Deus e da revelação do seu projeto: Deus fala através da experiência do povo.

Por último, o Antigo Testamento compreende, ainda, os Livros proféticos. Pela sua coragem de questionar a situação presente e vislumbrar um futuro diferente para o seu povo, os profetas sempre exerceram atração fascinante. Muitos chegaram  a confundir profeta com adivinhador do futuro. Outros chegam a pensar que eles ensinavam coisas absolutamente novas. A literatura profética pode ser dividida de várias maneiras. A mais tradicional e comum é a divisão em profetas maiores e profetas menores. Não porque uns sejam mais importantes que outros, mas simplesmente pela extensão de seus escritos. Os profetas maiores são quatro: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Os menores são treze: Baruc, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

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O Novo Testamento ou Nova Aliança é a parte da Bíblia onde encontramos o anúncio da pessoa de Jesus Cristo. Sua mensagem central é o próprio Filho de Deus, que veio ao mundo para estabelecer a aliança definitiva entre Deus e os homens. Sendo Deus-e-Homem, o próprio Jesus é a expressão total dessa aliança: ele mostra que Deus é Pai para os homens, e como os homens devem viver para se tornarem filhos de Deus.

O Novo Testamento agrupa vinte e sete livros, conforme temas e estilos diferentes: Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Cartas e Apocalipse.
Os evangelhos são quatro formas de anunciar Jesus, escritas no ambiente de comunidades diferentes. Por isso tratam da pessoa, das palavras e das ações de Jesus de modo ao mesmo tempo semelhante e diferente. Não são biografia ou história, e sim um anúncio para levar à fé em Jesus, isto é, ao compromisso de continuar sua obra, pela palavra e ação.

Os Atos dos Apóstolos são a segunda parte do evangelho de são Lucas. Mostram como o anúncio de Jesus e a formação das comunidades cristãs se expandiram, chegando a Roma, centro do mundo naquela época. Aí vemos o sentido da missão cristã: levar a boa nova do Evangelho a todos os homens, para que todos possam tomar conhecimento de Jesus e pertencer ao povo de Deus.

As cartas ou epístolas são escritos dirigidos às primeiras comunidades cristãs. Elas não só nos dão uma ideia dos problemas dessas comunidades, mas nos ajudam também a ver e superar os problemas em nossas comunidades atuais.

O Apocalipse de são João é livro escrito em linguagem figurada, porque se dirige aos cristãos em tempo de perseguição. Apresenta Jesus Ressuscitado como Senhor da história, e mostra como os cristãos devem anunciá-lo e testemunhá-lo sem medo, enfrentando até mesmo a própria morte.

Concluindo o índice, a Bíblia de Jerusalém apresenta um quadro cronológico, as dinastias asmoneica e herodiana, o calendário, lista de medidas e moedas, mapas do Antigo Oriente, Egito, Península do Sinai e Palestina na época do Êxodo, ainda a divisão das tribos sob Josué, as viagens de São Paulo, além da lista alfabética das notas mais importantes. 

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Robert Alter. A arte na narrativa bíblica. Tradução de Vera Pereira. SP, Cia. das Letras, 2007, 288 pp.
A Bíblia de Jerusalém. SP, Paulus Editora, 2002, 2212 pp.


domingo, 8 de maio de 2016

A morte de Ivan Ilitch

A história da vida de Ivan Ilitch, juiz do Foro Criminal de Petersburgo foi das mais simples, mas das mais terríveis. Filho de funcionário público, também decidiu seguir carreira pública, não só por ser medíocre, mas para manter uma estabilidade que lhe permitisse suportar sua vida nos salões da sociedade russa. Teve ligações amorosas com algumas senhoras locais até casar-se com uma dama igualmente fútil, e assim sua vida seguia alegre e feliz, como ele imaginara que fosse. Com o tempo, a mulher passou a infernizar-lhe a vida com suas crises de ciúme. Isso fê-lo compreender, com o tempo, que o convívio conjugal nem sempre contribui para o encantamento e a decência da vida. Dessa forma, transferia cada vez mais para o serviço o centro de gravidade da sua vida e passou a gostar mais do serviço e tornou-se mais ambicioso.

Assim viveu Ivan Ilitch dezessete anos de casado. Já era um promotor experiente, que recusara algumas transferências, na expectativa de um lugar mais interessante, quando ocorreu inesperadamente uma circunstância desagradável, que alterou completamente a tranquilidade de sua vida. Ivan Ilitch esperava receber o cargo de juiz presidente numa cidade universitária, mas um colega seu conseguiu a vaga. Brigou com seus chefes imediatos e passou a ser tratado com frieza e nas promoções seguintes foi novamente prejudicado. O ordenado que recebia passava a não ser suficiente para seu sustento. Passou, então, a viver uma angústia que o levou a viajar a Petersburgo para insistir com uma comissão mais vantajosa. E conseguiu. Regressava, assim, a sua vida alegre e satisfeito.

Até que lhe veio a doença. E a consciência de que estava irremediavelmente só. O sofrimento maior provinha da mentira, aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, que bastava tratar-se para ficar bom. Passou a conviver com a mentira das pessoas que o cercavam, incluindo sua mulher, que lhe representava um afeto vazio. Empreende, então, uma viagem ao inferno, em que a dor física é tão intensa quanto a dor moral. Há uma exceção, entretanto, a aproximação dele com Guerássim, o ajudante de copeiro, que demonstra um afeto verdadeiro, quando o ajuda a amenizar sua dor.

Ivan Ilitch morre. Seus colegas de trabalho vão a seu enterro. O colega mais chegado, Piotr Ivânovitch, amigo desde a juventude, já pensa na possibilidade de vir a se promover com a vaga deixada pelo morto. A viúva, por sua vez, quer saber de Piotr como fazer para obter o dinheiro do Tesouro, devido à morte do marido. Quer abocanhar o que puder, em função daquela morte.

A morte de Ivan Ilitch é considerada uma das grandes obras da literatura russa e uma das mais perfeitas novelas já escritas da literatura universal.

Tradução de Boris Schnaiderman. Existe uma tradução de Vera Karam, pela LPM.

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Tolstói. A morte de Ivan Ilitch. SP, 34, 2006, 96 pp. R$ 27,00

domingo, 1 de maio de 2016

Ricardo III

Mac Beth, Hamlet e Othelo são as tragédias mais conhecidas e analisadas de Shakespeare. Entretanto, a minha tragédia preferida desse autor genial é Ricardo III, um homem cruel, frio e calculista, que mata quem for possível não por vingança, mas para tirar da frente todos os que se interpuserem em seu caminho para conquistar o poder. Shakespeare exagera na concepção da figura histórica de Ricardo III, criando uma personagem feia, corcunda e manco de uma perna, com uma personalidade sociopata. Isso ajuda a tornar a figura do rei sanguinário mais assustadora ainda.  Ricardo III se aproxima em termos de determinação e maldade, a Iago, o grande personagem de Othelo.

A ação de Ricardo III se passa durante a Guerra das Rosas (1455/1485), as linhagens de  Lancaster e York, descendentes da dinastia Plantageneta  se debateram para tomar o trono da Inglaterra. A linhagem de York vence a batalha e Eduardo, neto de Eduardo III, é coroado rei com o nome de Eduardo IV. Ricardo, o mais novo dos irmãos, arma um plano para aniquilar o rei e também Clarence, o irmão que sucederia o rei ao trono, jogando um contra o outro, espalhando uma profecia de que os herdeiros de Eduardo seriam eliminados por alguém de nome iniciado por G. Como Clarence chama-se George, duque de Clarence, Eduardo IV manda prendê-lo em um torre por precaução. Ricardo, então, trama a morte do irmão para, com a morte do rei, tomar o poder.

Ricardo manda matar Clarence, o rei Eduardo IV morre, o Conselho se reúne para escolher o sucessor ao trono. O Duque de York, o filho mais velho de Educardo IV, e Eduardo, o filho mais novo, são empecilhos para que Ricardo possa assumir o trono. Ele arma, com seus colaboradores de confiança, uma trama envolvendo o nascimento do rei morto, alegando não ser ele filho legítimo de seu pai. Também que a mulher de Eduardo IV, por ser viúva quando casou com seu irmão, não seria esposa legítima, posto que o casamento com viúvas era considerado ilegítimo, caracterizado como adultério. Ricardo, assim, consegue ser eleito rei, como Ricardo III.
Ricardo III casa-se com Lady Anne. Prevendo, entretanto que o trono possa ser reclamado pela filha de Clarence, consegue casá-la com um plebeu. Quanto à Elizabeth de York, filha de Eduardo IV, temendo que ela se case com um nobre que venha a usurpá-lo do poder, arquiteta um plano para casar-se com a sobrinha. Lady Anne, a essas alturas, já está morta. 

Mas nem tudo são rosas para Ricardo III. Buckingham, que havia ajudado Ricardo a assumir o trono, reclama a recompensa que lhe foi prometido, o condado de Hereford. Ricardo o manda às favas. Buckingham decide, então, vingar-se do rei,aliando-se ao Conde Richmond, que irá assumir o trono com a morte de Ricardo, inaugurando uma nova dinastia imperial:a dos Tudor.
O quinto e último ato apresenta Ricardo III e o Conde Richmond (Henrique Tudor) no campo de batalha. Durante a noite, Ricardo IIII tem um sonho, onde aparecem os fantasmas de todos o que foram mortos por ele, prenunciando que Richmond vencerá a batalha e tomará o trono.

Com o exército quase todo deserdando para o lado inimigo, a pé e implorando: "Meu reino por um cavalo!", Ricardo e Richmond lutam e Ricardo III é morto. Richmond, da casa Lancaster, desposa Elizabeth York (a que Ricardo III pretendia), unido a dinastia Plantageneta, mas inaurando uma nova dinastia, a dos Tudor, a partir da posse de Richmond como Henrique VII.

Tradução de Beatriz Viégas-Faria

A obra editada pela LPM encontra-se esgotada e a editora é preguiçosa para reeditar seus livros. Mas você poderá encontrar um exemplar em bom estado nas estantes virtuais.
      
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William Shakespeare. Ricardo III. Porto Alegre, LPM, 207, 192 pp.

domingo, 24 de abril de 2016

Luz em agosto

A história se passa no condado imaginário de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos, onde Faulkner centra a maioria de suas histórias. A narrativa começa numa estrada do Alabama, onde uma jovem grávida, Lena Grove, busca carona para chegar a Jefferson, à procura de Lucas Burch, o pai de seu filho. Contando com a generosidade de agricultores da região, Lena consegue chegar a Jefferson, e acaba sabendo que no moinho da cidade trabalha um homem que talvez possa ser Burch. Esse homem, na verdade, é Byron Bunch, que se propõe a ajudá-la a encontrar esse rapaz, que ele julga ser Joe Brown. Brown vive em uma cabana, na propriedade de Joanna Burden, sobrevivente de uma família de abolicionistas, em companhia de Joe Christmas, que mantém um relacionamento com a tal mulher. Christmas, apesar de ter pele clara, ser órfão e desconhecer qualquer fato de sua descendência, acredita que tenha sangue de negro. Por isso viveu, até o momento da narrativa, fugindo de seu passado.

A época da narrativa dá-se no calor intenso de agosto,  no final do século XX, época da Lei Seca. Brown e Christmas aproveitam-se disso para contrabandear whisky para ganhar mais dinheiro.

Numa noite, há um incêndio na propriedade de Joanna Burden (Luz em agosto), na cabana onde viviam Brown e Christmas. Descobrem, então, que a dona da casa havia sido assassinada e a culpa recai sobre Christmas que foge dali e caçado impiedosamente até ser executado por um soldado do exército. Brown, preso na ocasião do incêndio, responsabiliza Christmas pelo assassinato e é mantido preso. A partir de então, Byron Bunch, que já estava apaixonado por Lena, arranja um encontro entre o preso e a jovem. Brown acaba desaparecendo de forma obscura.

Há outro personagem interessante na narrativa, Gail Hightower, ex ministro metodista, forçado a se demitir depois que descobriram que sua esposa mantinha um caso extraconjugal numa cidade vizinha, e cometera suicídio após o escândalo. Gail recusa-se a sair de Jefferson, vive uma vida miserável e mantém longos diálogos com Byron sobre a miséria da existência humana.
Faulkner mantém um suspense narrativo de primeira, prendendo a atenção durante todo o livro.

Tradução de Celso Mauro Paciornik

                                      paulinhopoa2003@hotmail.com
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William Faulkner. Luz em agosto. 2ª ed., SP, Cosac Naify, 2007, 448pp. A Cosac Naify, infelizmente, não existe mais. Mas a obra pode ser encontra nas livrarias, ainda, por um preço médio de 68 reais, novo.

domingo, 17 de abril de 2016

Sonata a Kreutzer

Pode ser que Lev Tolstói tenha escrito A sonata a Kreutzer para demonstrar seu repúdio às normas burguesas da sociedade russa da segunda metade do século XIX, quando, já convertido ao cristianismo, passou a abominar certas regras de convivência social, refugiando-se no campo, em prol de uma vida simples, em contato com pessoas igualmente simples, que ele admirava. Seu casamento, nesse tempo, estava em crise. A esposa tentou na justiça anular o testamento do marido, que abdicava de todos os seus em prol da classe trabalhadora.

A história começa em um vagão de trem, onde estão sentados um advogado com sua dama, o narrador da história e um homem esquisito que, a princípio evita contato com os demais. Num tempo determinado, o casal começa a discutir sobre o divórcio. A dama afirma que o casamento deveria se sustentar pelo amor entre duas pessoas, em vez de ser um enlace de conveniência, como costuma acontecer na sociedade russa de então. A senhora era enfática em afirmar que se promovia o casamento  entre pessoas que não se amam e depois causava espanto quando não viviam em concórdia. Como viver com uma pessoa não se tem amor? Só poderia haver casamento, quando houvesse entre o casal, amor verdadeiro.

Nesse momento,  o tal homem esquisito toma parte da conversa, questionando a senhora sobre o que se deveria entender como amor verdadeiro. A dama lhe responde que  "o amor constitui uma predileção exclusiva por um homem ou uma mulher, dentre todos os demais", ao que o marido advogado complementa, explicando-lhe que a dama quis dizer que o casamento deve originar-se primeiramente da afeição, do amor, somente assim o matrimônio poderia se consumar entre duas pessoas, tornando-se sagrado. Sem isso, o casamento não conteria, em si, nenhuma obrigação moral. Mas o homem retruca,diz que entendeu, mas insiste, perguntando  por quanto tempo o amor é uma preferência de um por outro. E continua: "o que atrapalha esse amor idealizado é a paixão, o amor carnal, quando o desejo acaba, babaus o amor!"

Conversa vai, até que o homem, para comprovar sua tese de desprezo pelo casamento por amor, resolve citar sua experiência de casado. A falta de desejo de sua mulher por ele, levou-a a se apaixonar por seu professor de música. Sentindo-se renegado pela mulher, ele acaba matando-a numa crise de ciúme. Nesse ponto, todos os que participavam do assunto trataram de afastar-se dele, menos o narrador, que se interessa em saber a história de amor trágico desse homem.

A sonata a Kreutzer é uma novela contundente, com toques de humor negro.

Tradução de Boris Schnaiderman

               paulinhopoa2003@hotmail.com
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Leon Tolstói. A sonata a Kreutzer. SP, Editora 34, 120 pp. R$ 20,90

domingo, 10 de abril de 2016

Gargântua e Pantagruel


Gargântua e Pantagruel foi escrita pelo francês François Rabelais (1494/1553), no período do Renascimento. É uma obra cômica baseada em lendas populares, usando muitas vezes de linguagem obscena e picante, criticando o clero, a nobreza e também as classes populares. Rabelais foi padre e médico, amigo do papa. Graças a isso, foi poupado de castigos maiores por causa de sua obra contestadora.

Gargântua nasceu depois de onze meses, durante uma caganeira de sua mãe, causada por uma quantidade enorme de tripas ingerida na noite anterior ao parto. O esforço para expelir as fezes forçou o nascimento do menino, que veio à luz gordo e grande, muito grande. Como o pai do menino era um grande beberrão, costumavam dizer a ele: "Que garganta a tua"! Ouvindo isso, o pai achou que o filho devesse se chamar Gargântua. O menino vivia comendo, bebendo e dormindo e acabou crescendo demais e acabou virando um gigante. Na adolescência, foi educado por um sofista em letras latinas. Estudava bastante mas não aprendia nada. Então o pai levou-o para outros pedagogos.  Quando jovem, foi enviado a Paris. Lá, roubou os sinos da catedral de Notre Dame para pôr no pescoço de sua égua de estimação. Os sinos foram, depois, recuperados. Em Paris, teve outro educador,  Ponocrates, cujo nome significa "a visão humanista de educação como renascença do espírito". Assim, Gargântua é esvaziado de toda a educação escolástica que recebera, para receber uma  educação harmoniosa, física, intelectual e moral. Aí surgiram as guerras e Gargântua saiu de Paris para ajudar seu povo. Venceu a guerra e tratou bem os vencidos, com todos o méritos de um humanista.

Com a idade de 484 anos,  gerou seu filho Pantagruel.Como o menino nasceu muito grande, acabou sufocando e matando a mãe durante o parto. Pantagruel tornou-se um jovem muito inteligente e culto. Lia muito. Certo dia, passeando fora da cidade, encontrou um homem de boa estatura, apesar da aparência deplorável, que chamou sua atenção, pois esse homem, apesar de certas atitudes suspeitas, era um grande filósofo. Os dois tornaram-se amigos e Panúrgio, esse homem, passou a influenciar os atos e pensamentos de Pantagruel, que passou a julgar causas jurídicas com rara habilidade.
Bem, paremos por aqui para não falar demais da obra ao leitor.

Gargântua e Pantagruel, formado por cinco livros em um só volume, aborda as manifestações do riso, com base em elementos da cultura da Idade Média: as festas públicas carnavalescas, os ritos e cultos cômicos com bufões tolos, gigantes, anões e monstros, palhaços de diversos estilos e categorias, imagens do corpo,  da comida, da bebida, da satisfação das necessidades naturais e da vida sexual são mostradas de forma exagerada, através de um realismo grotesco. Essas imagens grotescas conservam uma natureza original, pois diferenciam-se da imagem da vida cotidiana. São ambivalente e contraditórias, parecendo disformes, monstruosas e horrendas.

Tradução de David Jardim Filho. Ilustrações de Gustave Doré

               paulinhopoa2003@hotmail.com
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François Rabelais. Gargântua e Pantagruel. BH, Itatiaia, 2003, 948 pp, R$ 110,00