domingo, 28 de setembro de 2014

Beleza e tristeza

Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata (1899-1972), é um comovente romance de complexidade e sutileza. Oki Toshio, um escritor de meia-idade, faz uma viagem nostálgica a Kyoto para ouvir os sinos dos templos soarem na noite do Ano Novo. É movido também pelo desejo de reencontrar Otoko, que fora sua amante 24 anos antes e que agora é uma pintora de renome. Otoko vive num monastério com sua pupila Keiko, jovem de temperamento amoral e apaixonado. À medida que a vida dos três se entrelaçam irremediavelmente, Keiko torna-se a principal agente de destruição deste vasto e inquietante drama de vingança.
De todos os livros de Oki, aquele que permanecera mais tempo em voga e que ainda hoje gozava de grande prestígio do público era o romance onde relatava seu amor por Otoko, quando ela tinha 16 anos. Ao ser publicado, esse livro certamente prejudicou Otoko, chamando a atenção sobre ela, o que, sem dúvida, constituiu um obstáculo para um eventual casamento. Ainda assim, por que, depois de mais de vinte anos, a personagem baseada em Otoko continuava a seduzir tantos leitores? Sem dúvida seria mais correto dizer que era Okoko, tal como ela aparecia no romance de Oki, que seduzia os leitores, e não a adolescente que lhe serviu de modelo. O romance não era a verdadeira história de Okoko, mas simplesmente alguma coisa que Oki havia escrito. Mas, qual era a verdadeira Otoko, aquela que Oki havia descrito ou aquela que a própria Otoko poderia ter criado ao narrar ela mesma sua história? Sem  esse caso de amor o livro não teria existido. E era, sem dúvida, por causa de Otoko que esse romance continuava a ser lido, vinte anos depois de escrito. Se não tivesse conhecido Otoko, Oki jamais teria vivido esse amor. Ele não saberia dizer se o fato de ter encontrado a jovem e tê-la amado, quando tinha 31 anos, fora um infortúnio ou uma felicidade, mas o certo é que esse encontro lhe proporcionara, como escritor, um início promissor. Entretanto, qual a relação, por exemplo, entre a Otoko de seu romance e a verdadeira Otoko? Era difícil dizer.

No romance, observações psicológicas e um questionamento profundo sobre o sentido da arte e da literatura, assim como evocações poéticas surpreendentes dos jardins e monastérios do Japão, fazem de Beleza e Tristeza uma meditação sutil sobre temas caros a Kawabata: solidão e morte, amor e erotismo.

Beleza e Tristeza é o último romance de Yasunari Kawabata, Prêmio Nobel de 1968. Um surto depressivo o levou a tirar a própria vida em 1972. Foi contemporâneo de Mishima.

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Yasunari Kawabata. Beleza e tristeza. 3ª ed., SP, Globo, 2008, 292 pp, R$ 36,00

domingo, 21 de setembro de 2014

Boca do Inferno

A cearense Ana Miranda (1951) surgiu no cenário cultural como atriz de cinema. Se você tem mais de 50 anos e bebeu da fonte dos movimentos culturais de 1968, deve tê-la visto nos filmes Como era gostoso meu francês, Mãos vazias, A faca e o rio etc. É irmã de Marlui Miranda, cantora e ativista da causa indígena, que também foi marcante nesse período e continua ativa como cantora. Ana surgiu no meio literário como poeta. Sua incursão pelo romance deu-se em 1989, com Boca do Inferno, de que falaremos a seguir. Sua originalidade como romancista consiste no fato de se apropriar de figuras conhecidas da historiografia brasileira e construir uma narrativa bem elaborada, sem o ranço de romance histórico.


A ação de Boca do Inferno se passa na Bahia dos 1600. A Companhia de Jesus fortificava-se em igrejas, missões de catequese dos indígenas e colégios para evangelizar as novas gerações, de norte a sul do Brasil. Na Bahia, eram senhores de quase tudo,. Naquele tempo Gregório de Matos acreditava-se dono de uma grande vocação religiosa. Por isso quis ser um deles. Porém, cansou-se dela e passou a procurar algo diferente. Partiu para Portugal. Lá, passou muitas horas à margem do Tejo olhando as frotas, as pessoas na rua, aprendendo a lidar com as mulheres. Leu muitos livros até entrar na Universidade de Coimbra. A poesia trovadoresca portuguesa aguçou-lhe o estilo do escárnio e maldizer. Formou-se em Direito e voltou ao Brasil, atuando como desembargador, função que passou a odiar em seguida. Como conhecesse bem os pecados e a hipocrisia do clero, sentia-se desconfortável entre os louvores da fé a mesquinhez das atitudes humanas. Passou a frequentar embriagado lugares sórdidos da Bahia. O dom da poesia se manifesta nessa fase e passa a compor seus versos de escárnio e maldizer ao lado de outros versos religiosos e amorosos, frutos de diversas relações afetivas mal resolvidas.


Mas Boca do Inferno não é a biografia romanceada de Gregório de Matos. No romance de Ana Miranda, o poeta envolve-se em uma trama da qual participam o padre Antônio Vieira, cujo irmão está metido num complô para eliminar o governador da Bahia, acusado de corrupção. O assassinato do alcaide-mor, por parte desse grupo desencadeia uma perseguição do poder estabelecido contra os conspiradores, para prender e julgar os culpados. Essa perseguição conduz o leitor pelos meandros da política, dos conchavos pelas vielas tortuosas de uma cidade, cuja topografia de altos e baixos atolados de imundície, espelha de modo exemplar a vida colonial brasileira. Vieira é preso, Gregório de Matos é investigado, até o reino português interfere politicamente, para conduzir a história a seu final.

Boca do Inferno deu o Prêmio Jabuti de revelação. Ana Miranda escreveu ainda Dias e Dias, envolvendo a figura do poeta Gonçalves Dias; A última quimera, com o poeta Augusto dos Anjos como tema central; Desmundo, trata da história de órfãs que vinham de Portugal para o Brasil para casarem-se com os colonos; Amrik revive a saga de imigrantes árabes recém chegados em São Paulo no final do século XIX, e muitos romances mais. Em 2014 publica  Semíramis, que tematiza o escritor José de Alencar.
Ana Miranda escreve muito bem. Vale a pena conferir.
                        
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Ana Miranda. Boca do Inferno. 5ª ed, SP, Cia. das Letras, 1990, 336 pp, R$ 31,00

domingo, 14 de setembro de 2014

Dois rios

Há um grão de loucura em Marie-Ange que me atraiu de forma arrebatadora. No princípio, não conseguia identificá-lo com exatidão, apenas sabia que ele existia e me tirava de onde eu permanecera nos últimos anos. Seu corpo pequeno, sua pele alva, seu cabelo não seriam propriamente belos não fosse esse grão de loucura. Foram seus detalhes pouco usuais, seus pequenos defeitos que me encheram de vontade de me aproximar e descobrir de onde vêm. Eu tinha apenas os indícios: a boca que entorna com o cigarro, o despudor ao falar, o jeito desengonçado de andar, o corpo solto.
Da areia, vi-a entregar-se ao mar como se a existência começasse no momento mesmo em que ela entrava na água, como se a vida pulsasse ali e o instigante valesse mais do que toda uma história. A sua liberdade escancarada me comoveu.

Dois rios, dois irmãos gêmeos, duas ilhas - Ilha Grande na vila de Dois Rios, onde se situa o presídio que abrigava presos políticos; Nonza, na Córsega, onde vivem os pais de Marie-Ange.
Na década de 70, em plena ditadura no Brasil, o pai de Joana ia toda semana visitar seu irmão, preso por questões políticas, e numa dessas visitas conheceu sua mãe, filha de um policial. Ela, de classe média baixa, católica, educada para casar e ter filhos. Ele, rico, ateu, criado para se dar bem na vida. Nenhum dos dois conseguiu cumprir nem descumprir seus destinos, eles apenas se esqueceram de ser felizes.

Foi Marie-Ange quem tirou Joana (a protagonista da primeira parte de Dois Rios) de uma casa repleta de histórias tristes, de dor e culpa, onde viu sua mãe perambular dia e noite, tomando cuidado para não pisar no rejunte que une os tacos de madeira do piso, conferindo se o garfo e a faca estavam na distância exata do prato, trocando de sabonete a cada vez que lavava as mãos. Onde também  viu sua mãe escutar por horas a fio "Ne me quitte pas", a música que seu pai costumava cantar para ela e que depois de sua morte a fazia chorar. Sua mãe cultivava essas lágrimas fugindo para um universo  onde acabou vivendo seus dias. A morte do pai tornou a vida de Joana e seu irmão frágil e vaporosa. O elo entre os dois se rompera de forma tão abrupta, que agora Joana passa a duvidar da sua memória.

Antônio, irmão de Joana, é o protagonista da segunda parte do romance de Tatiana Levy.  Aos 22 anos, Antônio  terminou a universidade e foi fotografar pelo mundo. A vida lhe parecia estreita no apartamento em que morava em Copacabana  e deixou a irmã com a mãe e a culpa.A reconciliação parecia cada vez mais improvável. Antônio, que conhecera Marie-Ange no Brasil, quando estava com a irmã, acaba se apaixonando pela francesa, indo morar com ela numa aldeia da Córsega, tendo essa relação marcado profundamente a vida dele também.


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Tatiana Salem Levy. Dois rios. 2ª ed.,  Rio, Record, 2013, 224, pp, R$ 37,00

domingo, 7 de setembro de 2014

O mesmo mar

O mesmo mar. Podemos concluir tudo assim: um homem no quarto. O filho não está aqui. Sua nora está com ele por enquanto. Vai. Vem. Enquanto isso tem um caso com um rapaz irrequieto, deita com ela quando os negócios permitem, rapaz esperto, vai e vem. À noite, um homem à mesa. Tudo é silêncio. O filho não está. Sobre o aparador guardanapos, toalhinhas rendadas, entre elas duas fotos. Pela janela o mar. Móveis escuros. Esta noite ele deve checar um balanço, o que fecha, o que não fecha. Uma viúva com penteado à la garconne esteve aqui esta noite, por puro acaso, Às vezes ela dá uma passada, tomar um chá. O inverno passa, o mar permanece. E a luz, ela vai e vem. Uma vez de um jeito e outra vez de outro. Esta noite ele deve calcular no monitor quais foram seus lucros e quais suas perdas, o que conseguiu juntar. Coluna a coluna. Não é assim com a angústia: ela é incalculável.

Esta passagem de O mesmo mar, de Amós Óz, ilustra uma visão parcial desse romance, cujo enredo se revela numa sequência de seções curtas, num tom casual e ameno das conversas do dia-a-dia, às vezes como parábola bíblica, fábula, sonho ou poema.
O viúvo sexagenário Albert Danon vive só. Seu filho, Rico, após a morte da mãe, partiu para o Tibet em busca de paz interior, deixando a relação comTida, a namorada, em aberto. O tempo passa, Dita aparece na casa de Albert pedindo abrigo, seu projeto de cinema não deu certo, o produtor fugira com o dinheiro para o projeto. Está sem apartamento e sem dinheiro. Albert lhe oferece o quarto do filho como abrigo. A presença da jovem no quarto ao lado passa a atormentá-lo. Fantasia e realidade se confundem nesse romance de solidão e reencontro consigo mesmo.

Amós Óz nasceu em 1939 em Jerusalém. Autor de inúmeros romances e ensaios, tem se dedicado, ultimamente, à militância em favor da paz entre árabes e israelenses.
Tradução do hebraico por Milton Lando
     
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Amós Óz. O mesmo mar. SP, Companhia de Bolso, 2014, 272pp, R$ 24,50

domingo, 31 de agosto de 2014

As parceiras

 As parceiras, de Lya Luft, é a visão feminina sobre uma família marcada pela morte, pela loucura, por um mundo decadente que a envolve e a desagrega.Anelise relata sua adolescência no meio de mulheres, numa casa de praia onde há um sótão em que viveu sua avó louca. A presença de sua avó, presa por vontade própria em um sótão, que passa a representar  um mundo de infância, marca sua vida para sempre.  O medo que povoava a infância de Anelise tornou-se naqueles anos do casarão um pavor profundo. Do medo, a rebeldia.  Não queria aquela vida, nem aquelas ideias, nem aquela religião. Tudo lhe era um castigo.

Um dia Anelise sentiu vontade de visitar o sótão do casarão, para tentar recompor a vida que sua avó Catarina levara ali. Surgem as perguntas: quando teria começado a arrumar o sótão feito um quarto de menina? Por que teria se refugiado ali? O que pensaria sozinha anos e anos a fio? Com quem falava sempre, para quem eram aquelas famosas cartas, as misteriosas? Quem seriam seus fantasmas?
Ninguém sabia ao certo o que se passara entre as paredes do sótão. Pouco antes de morrer a avó começara com uma nova mania: escrever. Compunha longas cartas desconexas e garatujadas, em letra gótica, em alemão, língua que Catarina preferia sempre. Pareciam ora dirigidas a um homem, ora a uma mulher, talvez escrevesse também as respostas, tudo misturado.

Durante esse tempo de curiosidade e busca, Anelise conheceu Otávio, um cara muito especial, que se refugiava na música,tocando piano. Achava tudo diferente nele, amava-lhe tudo, os olhos, a pele, o cheiro, a boca, o cabelo, as mãos de pianista. Foi Otávio quem lhe deu o primeiro beijo na boca, a fez partilhar de uma primeira , incompleta e assustada experiência de sexo, ajudou-a  a enxergar outra vida além dos paredões sombrios daquela casa. Também a ajudou quando seu casamento desmoronou depois de anos perfeitos.Tudo o que ela experimentava naquele tempo a fez entender mais intensamente que o mundo não se resumia a uma casa grande e escura, com medos no sótão. Havia uma floresta de experiências que esperava por ela: havia a liberdade.

Escrita em forma de diário, na primeira pessoa, durante uma semana, as palavras revelavam a Anelise toda sua existência, através desse mergulho no passado, para enfrentá-lo com a coragem e a verdade.

As Parceiras  é o primeiro romance de Lya Luft, lançado no mercado editorial. Faz parte das leituras obrigatórias do Vestibular da UFRGS de 2015.

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Lya Luft. As parceiras. Rio, Record, 2003, 128 pp, R$ 28,00

domingo, 24 de agosto de 2014

Miserere

Miserere, o livro recém-lançado de Adélia Prado, é um diálogo com a divindade. O problema religioso sempre aparece em sua obra, mas não é a fé que a faz fazer poesia. Escrever versos faz parte da sua condição humana, é ela inteira que produz poesia. Aos 40 anos sentiu que precisava trabalhar a palavra: era poeta. Seus poemas são trabalhados com rigor, com o sentido de não trair o que está sentindo, pois detesta enfeites.
Seus versos revelam um sofrimento pessoal que todo mundo tem,  é condição de consciência, assim como a finitude da vida, sua precariedade, a velhice, a doença, a morte, os desconfortos físicos, morais e filosóficos. É preciso dizer um sim para aquela situação. O que alimenta sua poesia é o próprio susto e o próprio espanto que tem da vida. É poeta do cotidiano,  das paixões humanas, da perplexidade de existir. Existir é muito esquisito, ela costuma dizer. O que é, de onde veio, para onde vai são a base do questionamento da existência humana.
Adélia Prado, como sempre tem sido, conversa de forma aberta e afetiva com o leitor. Não acredito que exista alguém, mesmo ateu, que não goste de seus poemas. Sua poesia ecoa em todos os cantos.É linda! 

Deguste:

Branca de Neve

Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
'Nem todo alemão conhece Mozart.'

Um óbvio, pois nem é preciso, 
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma da sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
"Geração perversa, raça de víboras"
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro 'tino escolhitivo'.
Pra quem me pede dou lista de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.


                                 paulinhopoa2003@hotmail.com
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Adélia Prado. Miserere. Rio, Record, 2013, 96 pp, R$ 25,00

domingo, 17 de agosto de 2014

A costa dos murmúrios

A fotografia seguinte representa uma árvore alta, sem folhas, como se realmente queimada, e um grande galho donde pende o negro, pelo pescoço, baloiçando sem camisa. A seguinte tem a mesma árvore, o mesmo galho, o mesmo negro, mas agora nem tem nem calças nem camisa. O negro baloiça no galho da árvore, rodeado por soldados. Helena segura a fotografia. "Disse o Jaime que as calças dele escorregaram e que ejaculou para cima do capim, em frente dos soldados portugueses! O Jaime diz que nunca mais acontece - agora vão amarrar sempre as calças de quem for enforcado, para se pouparem a cenas dessas!" - disse ela. "Passe" - disse, com um olho na porta outro na janela. Passou outro pacote (...) que dizia Víbora Venenosa. Eram imagens de incêndios, aldeias em chamas, sem qualquer referência. O fotógrafo deveria gostar dos rolos de fumo. As seguintes tinham referência, localização, e número de palhotas destruídas - destruídas trinta, oitenta e três... Também traziam coordenadas. Agora no meio das palhotas incendiadas havia soldados correndo. Adiante, novo pacote. Estávamos sentadas num sofá de pano onde Helena ia empilhando e desempilhando. Helena mostrou-me com precaução o pacote que dizia spoilt como os outros e Víbora Venenosa III. Mais rostos, mais cabeças de soldados escondidos entre sarças, mais incêndios, e logo a imagem dum homem caído de bruços, depois dois telhados, e sobre um dos telhados de palha, um soldado com a cabeça dum negro espetada num pau.  Viam-se vários corpos sem cabeça à beira duma chitala, um bando de galinhas avoejava sobre eles na mesma fotografia. Helena passou. Helena tomou a seguinte e mostrou o soldado em pé, sobre o caniço. Via-se nitidamente o pau, a cabeça espetada, mas o soldado que a agitava não era um soldado, era o noivo. Helena de Tróia disse - "Vê aqui o seu noivo?" Ela queria que Evita visse. Era claro como a manhã que despontava que Helena de Tróia me havia trazido até àquela divisão da casa para que eu visse sobretudo o noivo.

Essa é uma das muitas cenas inquietantes em que se vê portugueses em meio às atrocidades da guerra em Moçambique. É a fase final da guerra, quando a nação africana prepara sua independência. A costa dos murmúrios, de Lidia Jorge, apresenta em sua estrutura duas narrativas. A primeira, Os Gafanhotos, é uma narrativa curta que termina com um FIM.  Trata-se da comemoração do casamento do alferes português Luis Alex (o da foto com a cabeça do negro) e sua noiva, Evita, durante uma trégua nos combates. Um cortejo de convidados dança e se diverte num clima eufórico no terraço do hotel Stella Maris, enquanto um fotógrafo registra as cenas da festa. Enquanto isso acontece no hotel, uma aglomeração de cadáveres de negros aparece na praia, recolhidos em caminhões de lixo.  Também acontece uma praga de gafanhotos e a morte do noivo de Evita. A segunda, que ocupa as demais páginas do romance retomam e desvendam uma série de imagens da primeira página, contada por vários personagens, sendo Evita uma delas. A morte misteriosa do noivo revela uma relação de adultério.

Se o leitor conseguir deixar de lado o estilo encaixado, com a colocação dos pronomes rigorosamente respeitados, vai se deixar envolver pela prosa criativa e inquietante de Lídia Jorge, que vem crescendo na literatura portuguesa e universal. Outro romance dela, A Noite das mulheres cantoras será comentada adiante, quando abordarmos a lista de livros recomendados pelo vestibular da UFRGS.
A obra em papel encontra-se esgotada. Pode ser encontrada em sebos por um preço médio de 40 reais um exemplar em bom estado de conservação.

                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Lídia Jorge. A costa dos murmúrios. Rio, Record, 2004. 290 pp, 

domingo, 10 de agosto de 2014

Uma história da leitura

A leitura começa com os olhos. Quando vemos um texto lembramo-nos melhor dele do que quando apenas o ouvimos.  Até aqui está óbvio para qualquer leitor: as letras são apreendidas pela visão. Mas por meio de qual alquimia essas letras se tornam palavras inteligíveis? O que acontece dentro de nós quando nos defrontamos com um texto? De que forma as coisas vistas, as "substâncias" que chegam através dos olhos ao nosso laboratório interno, as cores e formas dos objetos e das letras se tornam legíveis? O que é, na verdade, o ato que chamamos de ler? Uma história da leitura é o relato da nossa história da leitura. Descobrimos com Alberto Manguel que ler nos propicia desvendar mistérios e ficarmos pasmos diante de outros mais. É um livro de ensaios, que o prestigiado escritor argentino que ajudava Borges em seu processo de leitura e foi por ele influenciado, nos delicia com uma prosa muito bem amarrada.

Os leitores de livros ampliam ou concentram uma função comum a todos nós. Ler as letras de uma página é apenas um de seus muitos disfarces. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais; o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa, de modo a protegê-la das forças malignas; o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta; o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora; a dançarina lendo as notações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco; o tecelão lendo o desenho intrincado de um tapete sendo tecido; o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página; os pais lendo no rosto do bebê sinais de alegria, medo, admiração; o adivinho chinês lendo as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante lendo cegamente o corpo amado à noite, sob os lençóis; o psiquiatra ajudando os pacientes a ler seus sonhos perturbadores; o pescador havaiano lendo as correntes do oceano ao mergulhar a mão na água; o agricultor lendo o tempo no céu - todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos. Algumas dessas leituras são coloridas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para aquele propósito específico por outros seres humanos - a notação musical ou os sinais de trânsito, por exemplo - ou pelos deuses, - o casco da tartaruga, o céu à noite. Outras pertencem ao acaso. E, contudo, em cada caso é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo. Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial. 

Alberto Manguel  descobriu pela primeira vez que podia ler, aos quatro anos de idade. Tinha visto uma infinidade de vezes as letras que sabia (porque tinham lhe dito) serem os nomes das figuras colocadas sob elas. O menino desenhado em grossas linhas pretas, vestido com calção vermelho e camisa verde (o mesmo tecido vermelho e verde de todas as outras imagens do livro, cachorros, gatos, árvores, mães altas e magras), era também, de algum modo, percebia, as formas pretas e rígidas embaixo dele, como se o corpo do menino tivesse sido desmembrado em três figuras distintas: um braço e o torso, b; a cabeça isolada, perfeitamente redonda, o; e as pernas bambas e caídas, y. Desenhou os olhos e um sorriso no rosto redondo e preencheu o vazio do círculo do torso. Mas havia mais: sabia que essas formas não apenas espelhavam o menino acima delas, mas também podiam lhe dizer exatamente o que o menino estava fazendo com os braços e as pernas abertas. O menino corre, diziam as formas. Ele não estava pulando, como poderia ter pensado, nem fingindo estar congelado no lugar, ou jogando um jogo cujas regras e objetivos lhe eram desconhecidos. O menino corre. Depois que aprendeu a ler suas letras, leu de tudo: livros, mas também notícias, anúncios, os tipos  pequenos no verso da passagem do bonde, letras jogadas no lixo, jornais velhos apanhados sob o banco do parque, grafites, a contracapa das revistas de outros passageiros no ônibus. Quando ficou sabendo que Cervantes, em seu apego à leitura, lia até os pedaços de papel rasgado na rua, entendeu exatamente que impulso o levava a isso. Essa adoração do livro (em pergaminho, em papel ou tela) é um dos alicerces de uma sociedade letrada. O Islã leva a noção ainda mais longe: o Corão não é apenas uma das criações de Deus, mas um de seus atributos, tal como a onipresença ou a compaixão.A experiência veio a ele primeiramente por meio dos livros. Mais tarde, quando se deparava com algum acontecimento, circunstância ou tipo semelhante àquele sobre o qual havia lido, isso lhe causava o sentimento um tanto surpreendente mas desapontador de déja vu, porque imaginava que aquilo que estava acontecendo agora já havia lhe acontecido em palavras, já havia sido nomeado.


O livro irá agradar aos que possuem uma bagagem considerável de boa literatura. Mas poderá surpreender aos curiosos que também gostam de ler.

                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Alberto Manguel. Uma história da leitura. SP, Cia. das Letras, 1997, 408 pp, R$ 60,00

domingo, 3 de agosto de 2014

De gados e homens

A escritora fluminense Ana Paula Maia (1977) não gosta de se alongar muito em uma história. Há um tempo para escrever um livro, ela disse em uma entrevista ao jornal Rascunho. Gosta das coisas acontecendos. A cada capítulo deve ter alguma coisa acontecendo. Acha meio chato quando o personagem está com uma dúvida e fica cinco capítulos com essa dúvida. Ela disse que acha Proust uma coisa chatérrima.

O problema, entretanto, é quando o leitor vê coisas acontecendo a todo momento e quando termina o livro se pergunta: tá, mas e daí?

O enredo do curto romance De gados e homens gira em torno de um abatedouro de carne bovina, onde homens rudes agem de forma quase desumana. Edgar Wilson está apoiado no batente da porta do escritório do seu patrão, que conclui um telefonema aos berros, já que desde cedo aprendeu a berrar, quando solto no pasto, ainda bem menino, disputava com o bezerro a teta da vaca. O escritório não passa de um cômodo espremido ao lado do setor de bucharia do matadouro. O patrão lhe pede que vá até a fábrica de hambúrguer fazer uma cobrança. Edgar Wilson alerta que há gado a ser abatido, mas o patrão passa a tarefa para o Zeca.
Edgar Wilson acena com a cabeça e apanha a ordem de cobrança. Segue por um corredor fétido e mal iluminado e ao virar à direita entra no boxe de atordoamento, local em que trabalha muitas horas por dia. A fila de bois e vacas é sempre longa. Um funcionário abre a portinhola e o boi que já passou pela inspeção e pelo banho entra devagar, desconfiado, olhando ao redor. Edgar apanha a marreta. O boi caminha até bem perto dele. Edgar olha nos olhos do animal e acaricia a sua fronte. O boi bate uma das patas, abana o rabo e bufa. Edgar cicia e o animal abranda seus movimentos. Há algo nesse cicio que deixa o gado sonolento, intimamente ligado a Edgar Wilson, e dessa forma estabelecem confiança mútua. Com o polegar lambuzado de cal, faz o sinal da cruz entre os olhos do ruminante e se afasta dois passos para trás. Suspende a marreta e acerta a fronte com precisão, provocando um desmaio causado por uma hemorragia cerebral. O boi caído no chão sofre de breves espasmos até se aquietar. Não haverá sofrimento, ele acredita. Agora o bicho descansa sereno, inconsciente, enquanto é levado para a etapa seguinte por outro funcionário, que o suspenderá de cabeça para baixo e o degolará.
 Vai até o setor de triparia e chama por Zeca, que imediatamente acata sua ordem. É com o coração pesaroso que Edgar vê, minutos depois, o rapaz, sorridente, seguir até o boxe de atordoamento ao sair da sala de Milo. Zeca é um garoto de dezoito anos, perturbado. Gosta de ver o animal sofrer. Gosta de matar. Se prepara para a tarefa quando Edgar entra no boxe e o adverte: não deixa o bicho sofrer. Zeca apanha a marreta, faz sinal para que o funcionário deixe o boi entrar. Quando o animal fica frente a frente com ele, a marretada propositalmente não é certeira, e o boi, gemendo, caído no chão, se debate em espasmos agonizantes. Zeca suspende a marreta e arrebenta a cabeça do animal com duas pancadas seguidas, fazendo o sangue respingar em seu rosto.
Edgar Wilson não responde à afronta de Zeca. Vira de costas e caminha até o banheiro, onde troca de roupa. Veste uma calça jeans e uma camisa quadriculada de botões. Após apanhar as chaves, segue até a caminhonete e lamenta o rádio quebrado do carro. Ao retornar, já e fim de tarde, estaciona a caminhonete do pátio do matadouro, entra no escritório e entrega o cheque ao Milo. No boxe de atordoamento repara na quantidade excessiva de sangue e em pedaços de crânio esfacelado. Entra no banheiro do alojamento. Espera que reste apenas o Zeca no banho. Com a marreta, sua ferramenta de trabalho, acerta precisamente a fronte do rapaz, que cai no chão em espasmos violentos e geme baixinho. Nenhuma gota de sangue foi derramada. Seu trabalho é limpo. No fundo do rio, com restos de sangue e vísceras de gado, é onde deixa o corpo de Zeca.
Cumprido seu dever, ele vai para a cozinha do alojamento e frita os hambúrgueres. Com os colegas comem toda a caixa, admirados. Assim, redondo e temperado, nem parece ter sido um boi. Não se pode vislumbrar o horror desmedido que há por trás de algo tão saboroso e delicado.
 Ao terminar o primeiro capítulo do livro achei que ia ser arrebatado por uma narrativa tensa, instigante. A orelha do livro diz isso e diz que cativará o leitor pelo terror, pela agonia, e pelo espanto. Mas a violência imposta no início do romance se esvai em um enredo que parece beirar um real maravilhoso descosturado, com o rio morto cuja água fica salgada, vacas libanesas misturadas a vacas israelenses, também as vacas que se suicidam. O assassinato do Zeca, relatado acima, fica por isso mesmo.. Li matérias em jornais literários enaltecendo a prosa de Ana Paula Maia neste romance, mas tudo parece, agora, resenha de amigos. Eu esperava mais.

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Ana Paula Maia. De gados e homens. Rio, Record, 2013, 128 pp, R$ 30,00


sábado, 26 de julho de 2014

Nossos ossos

Minha cama fica no centro do quarto e, em cima de mim, no escuro, um foco não me deixa pregar os olhos, é quente e intenso, como se uma plateia toda esperasse eu me levantar e fazer algo, rápido, essa tragédia não poderia ficar como está.
Eu sei que se eu vestir a roupa, colocar o blazer, usar as palavras certas, eu consigo o que eu quero, sim, saber notícias do menino assassinado, dar um jeito de avisar seus pais, arranjarei o endereço, aliviarei esse puxão de unha no peito, meu gato, Picasso, me alerta que eu me esqueci, mais uma vez, de tomar os remédios.
Eu ensaio, olha, é o seguinte, deu entrada no IML um rapaz bem moreno, assim, assado, eu gostaria de saber o que eu faço para levar o corpo do garoto embora, se for preciso eu pago, e apelo, desse jeito não, seria, no mínimo, escroto, pegaria mal qualquer insinuação de suborno.
Melhor falar a verdade, então, ele era meu namorado, um caso que eu tive, um rapaz inteligente, sabe, tipo um filho mais novo que eu resolvi tirar da rua, dessa vida prostituta, sem saída, sem alternativa, mas aí aconteceu o pior, essa merda de cidade, cada vez mais impossível, será que ele tinha inimigos, reflito e me calo, o que eu quero é que ele descanse em paz, por isso vim aqui ao IML, acredite, vim para salvá-lo.
Meu Cristo, ridículo é ficar aqui decorando o texto, desse jeito nada sairá do lugar, o melhor será eu me apressar, ir pessoalmente ao IML,tenho confiança de que muito ajudará essa minha postura digna, até romântica, esse meu ar professoral, essa minha cara de intelectual de branco europeu, mesmo não acreditando em Deus passei a acreditar, Ele há de me entender e perdoar.

Nossos ossos mostra o drama de Heleno, hoje dramaturgo famoso, vivendo em São Paulo. Partira de Recife em busca de Carlos, um ator por quem estivera apaixonado e que se mudara antes para a capital paulista. A história de amor não deu certo e Heleno caiu na vida, transando anonimamente com michês no Largo do Arouche e na Estação da Luz, contraindo HIV. Um dia sabe que um boy com quem tivera um caso esporádico fora assassinado brutalmente por dois motociclistas homofóbicos e estava no IML à espera de familiares que não sabiam do paradeiro do filho, que também partira de Pernambuco para tentar uma vida melhor em São Paulo.  Heleno decide encerrar desse jeito sua história em São Paulo, enfrentando dois mil e tantos quilômetros até o Recife, atravessando o Brasil em um carro funerário, levando, para seu último descanso o corpo desse garoto de programa com quem ele havia trepado uma história, digamos, de amizade. Essa viagem também  é a história de seu próprio corpo que  leva para morrer na terra onde viveu sua infância, buscando resgatar o conforto derradeiro junto à família.  É uma narrativa curta, comovente.

Marcelino Freire (1967) é pernambucano e vive em São Paulo. Contista, esse é seu primeiro romance.
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Marcelino Freire. Nossos ossos. Rio, Record, 2013, 128 pp, R$ 28,00

domingo, 20 de julho de 2014

Encrenca

Eu me lembrava do Invetral 2.500 sempre que contava para mim mesmo como havia sido a farra no hospital, relação hospital-remédio mais que uma relação com o rótulo vermelho do Invetral 2.500?, eu não sabia, o vidro de Invetral 2.500 eu havia deixado no carro, talvez fosse hora, decidi pagar a conta (do bar) e ir até o carro, naquele momento um sujeito de óculos de uma lente escura e uma clara aproximou-se do balcão, parou ao meu lado, fez um pedido e enquanto esperava ser servido virou-se para mim e perguntou: posso fazer uma pergunta?
Demorei para dizer alguma coisa porque fixei as minhas atenções nos óculos dele, a primeira impressão era que o sujeito não teria necessidade de usar óculos com uma lente escura e uma clara, a primeira impressão foi que ele chamaria a atenção mesmo sem óculos com lentes diferentes, talvez eu tenha imaginado o sujeito sem óculos com lentes diferentes, talvez eu tenha imaginado o sujeito sem óculos com um olho escuro e um claro, pode ter sido, pode não ter sido, passou algum tempo e o sujeito sentiu demora ou hesitação, e repetiu a pergunta: posso  fazer uma pergunta?
Depois que ele repetiu a pergunta, fiz uma pergunta para mim mesmo: por que alguém pergunta se pode fazer uma pergunta?, porque duas perguntas em vez de uma?, cogitei perguntar para ele se poderia fazer uma pergunta e perguntar sobre os óculos com lentes diferentes, novamente demora ou hesitação, o sujeito repetiu a pergunta: posso fazer uma pergunta?
Achei melhor responder logo porque minhas reflexões sobre perguntas estavam sendo interrompidas pelas perguntas dele e isto poderia acabar me irritando, eu me lembrava de que naquele momento emiti um sorriso porque considerei engraçado o que eu havia pensado, ele percebeu o sorriso, deve ter creditado o sorriso a uma tentativa minha de ser simpático, sorriu também e repetiu a pergunta: posso fazer uma pergunta?
Pode sim, pode, é claro que pode, é evidente, fui repetindo, e ele tendo recebido a resposta da primeira pergunta não fez o esperado, a segunda pergunta, em vez dela fez um comentário, uma introdução à segunda pergunta, a segunda pergunta tinha uma introdução, eu pensei, deveria ter imaginado, eu pensei, então ele fez a introdução à segunda pergunta: é uma velha mania.
Eu me lembrava de que a frase me pareceu mesmo como uma introdução à segunda pergunta, introdução como preparação para alguma coisa que poderia me surpreender?, ele acreditava que a segunda pergunta me surpreenderia?, a segunda pergunta me surpreenderia mais que os óculos dele?, então ele fez a segunda pergunta.
Que horas são?, ele disse.

Ao ler Encrenca, de Manoel Carlos Karam, achamos que compreendemos tudo, mas acabamos vendo que tudo acontece sem acontecer : as frases contêm uma expectativa que não se concretiza nunca. O absurdo aparece como se fosse uma coisa natural. Encrenca começa e termina no nada. O estranho é real, numa prosa bem humorada e aparentemente sem pé nem cabeça que poderá causar um desconforto no leitor desacostumado com a prosa engenhosamente elaborada, com um pé no absurdo. Mas não se trata de uma prosa difícil. Ela prende o leitor desde o início. É impossível passar por suas páginas sem dar algumas gargalhadas, devido ao humor refinado de Karam.

Manoel Carlos Karam (1947/2007) é quase desconhecido do público leitor. Era catarinense radicado em Curitiba. Há quem disse que a literatura de Karam faz um bem danado para as ideias.  Encrenca funciona como um drinque delicioso para atiçar a inteligência. Adorei!
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Manoel Carlos Karam. Encrenca.  SP, Ateliê /Imprensa Of. do Paraná, 2002, 160 pp., R$ 34,00

domingo, 13 de julho de 2014

O círculo trágico tebano

A tragédia de Édipo foi motivada pelo pai dele, Laio, que era filho de Labdaco, rei de Tebas. Era criança quando o pai morreu e o reino foi entregue a Lico que, mais tarde, foi morto por usurpadores do trono, fazendo com que  Laio fugisse para a Frígia, com medo de ser morto. Lá, tomou-se de amores pelo jovem Crisipo, filho do rei, raptando-o. O jovem, temendo a reação do pai, suicida-se. O rei, com a ajuda dos deuses, amaldiçoou Laio e todos seus descendentes. Mais tarde, Laio é chamado a Tebas para retomar o trono da cidade e casa-se com Jocasta.  Ele temia ter um filho homem, pois o oráculo lhe predisse que seria morto por seu filho. Mas, nasceu Édipo. O rei mandou que abandonassem o filho num monte. Alguns pastores o encontraram,  com os pés inchados. Por isso,  chamaram-no de Édipo (= de pés inchados) e levaram-no a Corinto, onde foi criado como filho dos reis.  Já adulto, Édipo ouviu de um cidadão coríntio insinuações sobre sua origem. Ele consultou o oráculo de Delfos, que lhe revelou que mataria o pai e casaria com a própria mãe. Pensando tratar-se dos pais que o criaram, abandonou Corinto. Durante sua trajetória errante, quase foi atropelado por uma carruagem em um desfiladeiro. Insultado, matou o desconhecido, Laio. Estava assim cumprida a primeira parte da profecia. Na entrada de Tebas, encontrou-se com a Esfinge, que lhe propôs um enigma. Se errasse, seria devorado pelo monstro. Mas Édipo decifrou o enigma e a Esfinge, desesperada, jogou-se no abismo. Como reconhecimento de sua proeza, Creonte, o rei de Tebas, lhe passou o trono e Édipo casou-se com a rainha viúva, Jocasta, sua mãe. É a segunda parte da profecia. Dessa relação incestuosa nasceram Etéocles, Polinice, Antígona e Ismena.  Depois de algum tempo de reinado feliz, abateu-se uma epidemia na cidade e Édipo dirigiu-se novamente ao oráculo, que lhe disse que a peste só seria dizimada quando o matador de Laio fosse expulso de Tebas. Aí começa o enredo de Édipo Rei, de Sófocles. Édipo empenha-se em encontrar o assassino. Consulta o adivinho Tirésias, que lhe faz sérias revelações e Édipo acaba descobrindo a verdade. Jocasta, envergonhada, enforca-se. Édipo fura os próprios olhos, é expulso de Tebas e passa a vagar errante, acompanhado de sua filha Antígona.
Sófocles deu continuidade ao ciclo trágico tebano que forma a trilogia que engloba, além de Édipo-Rei,  Édipo em Colono e Antígona.

Em Édipo em Colono a ação inicia, quando Édipo cego chega ao lugar onde findariam suas provações.  Pede a Teseu, rei de Atenas, que o acolha naquele lugar, em troca de impedir qualquer agressão que venha de Tebas. Ismena vem juntar-se ao pai e a Antígona. Etéocles, filho de Édipo, havia assumido o trono de Tebas e Creonte, irmão de Jocasta,  informado de que a terra onde fosse enterrado o corpo do infeliz cunhado seria abençoada pelos deuses, aparece em Colono para buscá-lo. Teseu se opõe à mudança e Creonte ameaça Atenas com uma guerra. Em seguida aparece Polinices, que preparava uma expedição contra Tebas, cujo trono era ocupado pelo irmão e contava com a ajuda do pai para a conquista. Diante da recusa de Édipo, que reitera a profecia de que os dois irmãos se matariam um ao outro, Polinices, mesmo assim, parte para o combate e pede a Antígona que, se voltasse a Tebas e ele tivesse morrido, lhe desse uma sepultura digna. Édipo morre em Colono, em local misterioso. Bem, os irmãos se matam um ao outro, Etéocles recebe pompas fúnebres, enquanto Polinices apodrecerá sem ser enterrado, segundo as ordens de Creonte.  A luta de Antígona para enterrar seu irmão é o mote da terceira peça da trilogia, Antígona. O tema da peça é o choque do direito natural, defendido pela heroína, com o direito impositivo de Creonte.

Eurípedes escreveu uma peça, abordando o mito de Édipo: As Fenícias passa-se em Tebas, quando Édipo ainda lá estava cego. Segundo a versão de Eurípedes, Jocasta está viva e sabe que seus dois filhos vão se enfrentar em combate e tenta demovê-los da decisão, o que não acontece.
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Sófocles.Trilogia tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. 9ª ed.,Zahar, 2001, 264 pp, R$ 54,90