domingo, 1 de maio de 2016

Ricardo III

Mac Beth, Hamlet e Othelo são as tragédias mais conhecidas e analisadas de Shakespeare. Entretanto, a minha tragédia preferida desse autor genial é Ricardo III, um homem cruel, frio e calculista, que mata quem for possível não por vingança, mas para tirar da frente todos os que se interpuserem em seu caminho para conquistar o poder. Shakespeare exagera na concepção da figura histórica de Ricardo III, criando uma personagem feia, corcunda e manco de uma perna, com uma personalidade sociopata. Isso ajuda a tornar a figura do rei sanguinário mais assustadora ainda.  Ricardo III se aproxima em termos de determinação e maldade, a Iago, o grande personagem de Othelo.

A ação de Ricardo III se passa durante a Guerra das Rosas (1455/1485), as linhagens de  Lancaster e York, descendentes da dinastia Plantageneta  se debateram para tomar o trono da Inglaterra. A linhagem de York vence a batalha e Eduardo, neto de Eduardo III, é coroado rei com o nome de Eduardo IV. Ricardo, o mais novo dos irmãos, arma um plano para aniquilar o rei e também Clarence, o irmão que sucederia o rei ao trono, jogando um contra o outro, espalhando uma profecia de que os herdeiros de Eduardo seriam eliminados por alguém de nome iniciado por G. Como Clarence chama-se George, duque de Clarence, Eduardo IV manda prendê-lo em um torre por precaução. Ricardo, então, trama a morte do irmão para, com a morte do rei, tomar o poder.

Ricardo manda matar Clarence, o rei Eduardo IV morre, o Conselho se reúne para escolher o sucessor ao trono. O Duque de York, o filho mais velho de Educardo IV, e Eduardo, o filho mais novo, são empecilhos para que Ricardo possa assumir o trono. Ele arma, com seus colaboradores de confiança, uma trama envolvendo o nascimento do rei morto, alegando não ser ele filho legítimo de seu pai. Também que a mulher de Eduardo IV, por ser viúva quando casou com seu irmão, não seria esposa legítima, posto que o casamento com viúvas era considerado ilegítimo, caracterizado como adultério. Ricardo, assim, consegue ser eleito rei, como Ricardo III.
Ricardo III casa-se com Lady Anne. Prevendo, entretanto que o trono possa ser reclamado pela filha de Clarence, consegue casá-la com um plebeu. Quanto à Elizabeth de York, filha de Eduardo IV, temendo que ela se case com um nobre que venha a usurpá-lo do poder, arquiteta um plano para casar-se com a sobrinha. Lady Anne, a essas alturas, já está morta. 

Mas nem tudo são rosas para Ricardo III. Buckingham, que havia ajudado Ricardo a assumir o trono, reclama a recompensa que lhe foi prometido, o condado de Hereford. Ricardo o manda às favas. Buckingham decide, então, vingar-se do rei,aliando-se ao Conde Richmond, que irá assumir o trono com a morte de Ricardo, inaugurando uma nova dinastia imperial:a dos Tudor.
O quinto e último ato apresenta Ricardo III e o Conde Richmond (Henrique Tudor) no campo de batalha. Durante a noite, Ricardo IIII tem um sonho, onde aparecem os fantasmas de todos o que foram mortos por ele, prenunciando que Richmond vencerá a batalha e tomará o trono.

Com o exército quase todo deserdando para o lado inimigo, a pé e implorando: "Meu reino por um cavalo!", Ricardo e Richmond lutam e Ricardo III é morto. Richmond, da casa Lancaster, desposa Elizabeth York (a que Ricardo III pretendia), unido a dinastia Plantageneta, mas inaurando uma nova dinastia, a dos Tudor, a partir da posse de Richmond como Henrique VII.

Tradução de Beatriz Viégas-Faria

A obra editada pela LPM encontra-se esgotada e a editora é preguiçosa para reeditar seus livros. Mas você poderá encontrar um exemplar em bom estado nas estantes virtuais.
      
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William Shakespeare. Ricardo III. Porto Alegre, LPM, 207, 192 pp.

domingo, 24 de abril de 2016

Luz em agosto

A história se passa no condado imaginário de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos, onde Faulkner centra a maioria de suas histórias. A narrativa começa numa estrada do Alabama, onde uma jovem grávida, Lena Grove, busca carona para chegar a Jefferson, à procura de Lucas Burch, o pai de seu filho. Contando com a generosidade de agricultores da região, Lena consegue chegar a Jefferson, e acaba sabendo que no moinho da cidade trabalha um homem que talvez possa ser Burch. Esse homem, na verdade, é Byron Bunch, que se propõe a ajudá-la a encontrar esse rapaz, que ele julga ser Joe Brown. Brown vive em uma cabana, na propriedade de Joanna Burden, sobrevivente de uma família de abolicionistas, em companhia de Joe Christmas, que mantém um relacionamento com a tal mulher. Christmas, apesar de ter pele clara, ser órfão e desconhecer qualquer fato de sua descendência, acredita que tenha sangue de negro. Por isso viveu, até o momento da narrativa, fugindo de seu passado.

A época da narrativa dá-se no calor intenso de agosto,  no final do século XX, época da Lei Seca. Brown e Christmas aproveitam-se disso para contrabandear whisky para ganhar mais dinheiro.

Numa noite, há um incêndio na propriedade de Joanna Burden (Luz em agosto), na cabana onde viviam Brown e Christmas. Descobrem, então, que a dona da casa havia sido assassinada e a culpa recai sobre Christmas que foge dali e caçado impiedosamente até ser executado por um soldado do exército. Brown, preso na ocasião do incêndio, responsabiliza Christmas pelo assassinato e é mantido preso. A partir de então, Byron Bunch, que já estava apaixonado por Lena, arranja um encontro entre o preso e a jovem. Brown acaba desaparecendo de forma obscura.

Há outro personagem interessante na narrativa, Gail Hightower, ex ministro metodista, forçado a se demitir depois que descobriram que sua esposa mantinha um caso extraconjugal numa cidade vizinha, e cometera suicídio após o escândalo. Gail recusa-se a sair de Jefferson, vive uma vida miserável e mantém longos diálogos com Byron sobre a miséria da existência humana.
Faulkner mantém um suspense narrativo de primeira, prendendo a atenção durante todo o livro.

Tradução de Celso Mauro Paciornik

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William Faulkner. Luz em agosto. 2ª ed., SP, Cosac Naify, 2007, 448pp. A Cosac Naify, infelizmente, não existe mais. Mas a obra pode ser encontra nas livrarias, ainda, por um preço médio de 68 reais, novo.

domingo, 17 de abril de 2016

Sonata a Kreutzer

Pode ser que Lev Tolstói tenha escrito A sonata a Kreutzer para demonstrar seu repúdio às normas burguesas da sociedade russa da segunda metade do século XIX, quando, já convertido ao cristianismo, passou a abominar certas regras de convivência social, refugiando-se no campo, em prol de uma vida simples, em contato com pessoas igualmente simples, que ele admirava. Seu casamento, nesse tempo, estava em crise. A esposa tentou na justiça anular o testamento do marido, que abdicava de todos os seus em prol da classe trabalhadora.

A história começa em um vagão de trem, onde estão sentados um advogado com sua dama, o narrador da história e um homem esquisito que, a princípio evita contato com os demais. Num tempo determinado, o casal começa a discutir sobre o divórcio. A dama afirma que o casamento deveria se sustentar pelo amor entre duas pessoas, em vez de ser um enlace de conveniência, como costuma acontecer na sociedade russa de então. A senhora era enfática em afirmar que se promovia o casamento  entre pessoas que não se amam e depois causava espanto quando não viviam em concórdia. Como viver com uma pessoa não se tem amor? Só poderia haver casamento, quando houvesse entre o casal, amor verdadeiro.

Nesse momento,  o tal homem esquisito toma parte da conversa, questionando a senhora sobre o que se deveria entender como amor verdadeiro. A dama lhe responde que  "o amor constitui uma predileção exclusiva por um homem ou uma mulher, dentre todos os demais", ao que o marido advogado complementa, explicando-lhe que a dama quis dizer que o casamento deve originar-se primeiramente da afeição, do amor, somente assim o matrimônio poderia se consumar entre duas pessoas, tornando-se sagrado. Sem isso, o casamento não conteria, em si, nenhuma obrigação moral. Mas o homem retruca,diz que entendeu, mas insiste, perguntando  por quanto tempo o amor é uma preferência de um por outro. E continua: "o que atrapalha esse amor idealizado é a paixão, o amor carnal, quando o desejo acaba, babaus o amor!"

Conversa vai, até que o homem, para comprovar sua tese de desprezo pelo casamento por amor, resolve citar sua experiência de casado. A falta de desejo de sua mulher por ele, levou-a a se apaixonar por seu professor de música. Sentindo-se renegado pela mulher, ele acaba matando-a numa crise de ciúme. Nesse ponto, todos os que participavam do assunto trataram de afastar-se dele, menos o narrador, que se interessa em saber a história de amor trágico desse homem.

A sonata a Kreutzer é uma novela contundente, com toques de humor negro.

Tradução de Boris Schnaiderman

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Leon Tolstói. A sonata a Kreutzer. SP, Editora 34, 120 pp. R$ 20,90

domingo, 10 de abril de 2016

Gargântua e Pantagruel


Gargântua e Pantagruel foi escrita pelo francês François Rabelais (1494/1553), no período do Renascimento. É uma obra cômica baseada em lendas populares, usando muitas vezes de linguagem obscena e picante, criticando o clero, a nobreza e também as classes populares. Rabelais foi padre e médico, amigo do papa. Graças a isso, foi poupado de castigos maiores por causa de sua obra contestadora.

Gargântua nasceu depois de onze meses, durante uma caganeira de sua mãe, causada por uma quantidade enorme de tripas ingerida na noite anterior ao parto. O esforço para expelir as fezes forçou o nascimento do menino, que veio à luz gordo e grande, muito grande. Como o pai do menino era um grande beberrão, costumavam dizer a ele: "Que garganta a tua"! Ouvindo isso, o pai achou que o filho devesse se chamar Gargântua. O menino vivia comendo, bebendo e dormindo e acabou crescendo demais e acabou virando um gigante. Na adolescência, foi educado por um sofista em letras latinas. Estudava bastante mas não aprendia nada. Então o pai levou-o para outros pedagogos.  Quando jovem, foi enviado a Paris. Lá, roubou os sinos da catedral de Notre Dame para pôr no pescoço de sua égua de estimação. Os sinos foram, depois, recuperados. Em Paris, teve outro educador,  Ponocrates, cujo nome significa "a visão humanista de educação como renascença do espírito". Assim, Gargântua é esvaziado de toda a educação escolástica que recebera, para receber uma  educação harmoniosa, física, intelectual e moral. Aí surgiram as guerras e Gargântua saiu de Paris para ajudar seu povo. Venceu a guerra e tratou bem os vencidos, com todos o méritos de um humanista.

Com a idade de 484 anos,  gerou seu filho Pantagruel.Como o menino nasceu muito grande, acabou sufocando e matando a mãe durante o parto. Pantagruel tornou-se um jovem muito inteligente e culto. Lia muito. Certo dia, passeando fora da cidade, encontrou um homem de boa estatura, apesar da aparência deplorável, que chamou sua atenção, pois esse homem, apesar de certas atitudes suspeitas, era um grande filósofo. Os dois tornaram-se amigos e Panúrgio, esse homem, passou a influenciar os atos e pensamentos de Pantagruel, que passou a julgar causas jurídicas com rara habilidade.
Bem, paremos por aqui para não falar demais da obra ao leitor.

Gargântua e Pantagruel, formado por cinco livros em um só volume, aborda as manifestações do riso, com base em elementos da cultura da Idade Média: as festas públicas carnavalescas, os ritos e cultos cômicos com bufões tolos, gigantes, anões e monstros, palhaços de diversos estilos e categorias, imagens do corpo,  da comida, da bebida, da satisfação das necessidades naturais e da vida sexual são mostradas de forma exagerada, através de um realismo grotesco. Essas imagens grotescas conservam uma natureza original, pois diferenciam-se da imagem da vida cotidiana. São ambivalente e contraditórias, parecendo disformes, monstruosas e horrendas.

Tradução de David Jardim Filho. Ilustrações de Gustave Doré

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François Rabelais. Gargântua e Pantagruel. BH, Itatiaia, 2003, 948 pp, R$ 110,00  

domingo, 3 de abril de 2016

O regresso


Arthur Rimbaud (1854/1891) nasceu numa região rural da França, criado pela mãe junto com mais quatro irmãos, pois não chegou a conhecer o pai, que abandonou a família quando ele era muito pequeno. Dono de um temperamento rebelde, não se sentia amado em casa. Adolescente, ainda, fugiu para Paris, mas foi preso por não pagar a passagem. Nesse período, já escrevia poemas. O poeta Paul Verlaine conheceu sua poesia e propôs que se encontrassem em Paris. Os dois tornaram-se amantes, numa relação tensa, onde não faltaram ataques físicos. Numa dessas brigas, Verlaine feriu a mão de Rimbaud com uma arma, e foi preso. Rimbaud aproveitou a ocasião e desapareceu da vida de Verlaine e da poesia, passando a exercer o ofício de mercador em regiões da África e da Ásia. Afetado por um problema sério em um dos joelhos, viu-se forçado a regressar à França, para tratar-se em Marselha. Durante a internação, descobriu que desenvolvera um câncer que o matou, aos 37 anos.

A escritora carioca Lúcia Bettencourt  recria, numa prosa elegante, os últimos dias da vida de Rimbaud, quando regressa à França, já doente. Escrito em duas vozes principais intercaladas (há outras vozes narrativas também), uma é a do Rimbaud em seu mundo interior e outra a de um narrador que tenta compreender os passos de seu regresso à França, narrando os acontecimentos históricos que situam o poeta no universo em que viveu. Desde recém-nascido já começara a partir. Frequentemente fugia de casa. A liberdade era sua deusa. A outra deusa, a sua vida. Cedo, sentiu a presença do ritmo das palavras e descobriu que sabia fazer versos. Fugindo para Paris, encontrou em Paul Verlaine o amor e também sua perdição. Descobriu o álcool, o ópio, o haxixe e o absinto.Desapareceu aos 21 anos para traficar no desconhecido. Quando volta doente à Marselha para tratar-se, descobre que a mãe continua sem amar o filho. É no amor da irmã Isabelle que encontra conforto até sua morte. Isabelle, até então, nunca tinha tido contato com o irmão e não conhecia sua poesia.

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Lúcia Bettencourt. O regresso, a última viagem de Rimbaud. Rio, Rocco, 2015, 192 pp. Preço entre 19 e 27 reais, novo.

domingo, 27 de março de 2016

O eterno marido


Vieltchâninov, um solitário hipocondríaco, vivia em um apartamento alugado próximo ao Teatro Bolshoi. Vivera uma vida plena com alguns excessos e já era considerado um velho, em torno de seus aproximados 40 anos.  Sempre tivera posses e ultimamente andava envolvido com algumas questões de terras no interior da Rússia e para isso contratara um advogado. Quando se inicia a história, Vieltchâninov passava por uma crise depressiva e repetia para si constantemente que, de modo geral, tudo começava a mudar para pior.

A irritação de Vieltchâninov aumentou quando começou a notar um homem, usando um crepe no chapéu, que passou por ele na rua, olhando-o com insistência.  No dia seguinte, a mesma coisa. Sabia que aquele rosto lhe era familiar, mas não lembrava de onde. Encontraram-se novamente uma terceira vez e o estranho fez menção de acenar-lhe, mas foi empurrado por alguém e ficou tudo na mesma.

Depois do quarto encontro, quando se dirigia ao restaurante para jantar, Vieltchâninov estava perturbado e tomado pela raiva. Voltou para casa e pôs-se a dormir. Depois de três horas de sono, é despertado pela sineta da porta. Ninguém. Olhou pela janela e enxergou do outro lado da rua, bem em frente à casa, a figura do homem com chapéu crepe. Ele espiou ao redor e  atravessou a rua, esgueirando-se  na ponta dos pés em direção à porta.  
Vieltchâninov abre a porta e dá de cara com o homem, era Páviel Pávlovitch, que lhe disse ter sido casado com Natália Vassílievna, morta recentemente. Tudo então lhe vem à tona, aquele homem esquisito, quase um bufão, havia lhe hospedado em sua casa e ele havia tido um caso com sua mulher há nove anos atrás. A relação terminara quando a mulher de Páviel rompera com ele para amasiar-se com um jovem oficial.

Resumindo, Páviel viera a Petersburgo para um acerto de contas com certa pessoa. Dias depois, Vieltchâninov descobre o paradeiro de Páviel numa pensão vagabunda. Junto, vivia uma criança de nove anos, que era maltratada por Páviel. O interesse de Vieltchâninov por saber mais de Páviel e da criança conduz a história de forma instigante, num estilo com doses de comicidade e fina ironia.

Tradução de Boris Schnauderman

O exemplar novo custa de 32,30 a 49 reais. Pesquise.

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Dostoiévski. O eterno marido.3ª ed., SP, Editora 34, 2010, 216 pp

domingo, 20 de março de 2016

Um jogador

                                                   
Dostoiévski tem dois romances longos considerados suas obras-primas: Crime e castigo e Os irmãos Karamázov. E duas novelas geniais, Um jogador e O eterno marido. Esta será comentada no próximo post. O clima, aparentemente leve da trama, deve-se à ironia fina do autor ao narrar  a vida desastrada de Aleksiéi Ivânovitch.

Aleksiéi Ivânovitch é um jovem russo de 25 anos, com título universitário, de condição fidalga, preceptor na casa de um general, cuja mãe, esclerosada, adquire o hábito compulsivo pelo jogo, acompanhada quase sempre por Aleksiéi.

Nesse núcleo familiar havia uma jovem, Polina, por quem sente-se atraído. Em um dos passeios, Aleksiéi diz à Polina que faria tudo por ela, inclusive matar. Visando humilhá-lo, a jovem pede-lhe que se dirija a um barão com a esposa, que estavam perto, e lhe dissesse qualquer coisa, provocando o velho a lhe dar uma bengalada. Ele cumpre o pedido, há uma enorme confusão, com tentativa de duelo e  o general, indignado, ao saber do ocorrido, o expulsa de casa. As coisas, porém, acabam se ajeitando e Aleksiéi continua como acompanhante da velha senhora esclerosada, acompanhando-a aos cassinos, apesar de protestos da família.

Com o passar da narrativa, Aleksiéi começa a jogar compulsivimente, levando-o a uma desintegração moral e psíquica. Ele acreditava que através do dinheiro pudesse igualar-se aos demais, caindo no erro de coisificar as pessoas, como se pudesse comprá-las. É o que acaba fazendo com Polina, quando tenta oferecer-lhe vultosa quantia de dinheiro ganha no jogo, em troca de seu amor. O resultado é desastroso, pois Polina, ofendida, o rejeita, apesar de amá-lo. Isso Aleksiéi fica sabendo no final da história, quando sua vida está praticamente destruída.

O tom de sátira que Dostoiévski dá à narrativa, torna Um jogador menos pesado em relação aos demais, mas não menos profundo. O romance foi escrito sob pressão dos editores, que cobravam do autor uma história que lhe haviam contratado, tendo recebido um adiantamento para isso.

Tradução de Boris Schnaiderman

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Dostoiévski. Um jogador.3ª ed, SP, Ed. 34, 2011, 232 pp. Preço médio, 30 reais.     

segunda-feira, 14 de março de 2016

Cecília Meireles cronista


Programa de circo
                                                       Cecília Meireles

Queremos ir ao Circo pelo amor ao transcendente.  Tudo é transcendente, no Circo: o leão e o tigre abdicam de sua ferocidade e submetem-se ao domador; o macaco,disciplinado, dirige motocicleta, os cães dão-nos a ilusão de fazer cálculos rápidos como, outrora, os guarda-livros e, hoje, as máquinas especializadas; os elefantes dançam com leveza de pluma romântica; e os cavalos adquirem um donaire de cultura e sapiência, quando se movem ao som da música, dominando,igualmente, ritmo e expressão.

O palhaço, que pretende ser o mais desprezível comparsa, sai vencedor de todas as humilhações; levanta-se lépido de seus tombos, rindo-se de bofetadas e pontapés, é capaz de cair de todas as maneiras, sem quebrar nem desconjuntar o esqueleto, coisa que nenhum de nós sabe fazer, e que todos invejamos. Porque o palhaço também é transcendente.

São transcendentes as belas écuyères que saltam pelos ares, subindo e descendo de cavalos, em movimento, como deusas desenhadas apenas, aparecidas em corpo de nácar e cabelos de ouro.

E os equilibristas e malabaristas - o que se ergue apoiado na ponta do dedo, o que gira os pratos na extremidade da vara, o que atira e pára molinetes como chispas rápidas, o que vai pisando, sem outro apoio, com seus pés cuidadosos, o fio de arame... - todos são transcendentes,  e realizam pequenas proezas, que representam exercícios sem fim,  uma enorme constância de trabalho, um interminável aperfeiçoamento para a realização impecável de um objetivo.

E chega-se enfim ao trapezista, que é sempre o número mais sensacional. O simples fato de ele se exibir tão alto, tão acima de nós, tão longe da terra, confere-lhe uma irradiação mágica: torna-o sobrenatural, sobre-humano. Acompanhamos com os olhos a sua ascensão e sentimos que de repente se transfigura em Anjo.

Então, para o Anjo, a prova é a mais transcendente: ele se lançará pelo espaço, numa trajetória tão exata que suas mãos encontrarão o trapézio no justo momento de agarrá-lo. Nessas demonstrações geométricas há uma vida que se joga. E tão certo está o trapezista da sua matemática que às vezes se compraz em saltos mortais. É quando, arrepiados de espanto, sentimos no trapezista o Anjo que vence a Morte. E quando o vemos descer à sua condição humana, agradecemos-lhe a prova que d3eu, na altura, de um destino alado e triunfante.

Mas neste programa de Circo apareceu o que ninguém espera ver num espetáculo transcendente: o regresso do homem à selvageria. E vimos a Negação, o Mal, o Poder Satânico. E esse é o terrível assombro, sobre o qual meditamos, que nos envergonha, entristece e faz chorar.
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Além de sua poesia excepcional, Cecília Meireles exerceu a função de jornalista, escrevendo, inicialmente, crônicas sobre educação, na década de 1930. Defensora da Escola Nova, posicionava-se em seus textos, contra o sistema educacional vigente, não aceitando as imposições do governo de obrigar o ensino religioso nas escolas, por exemplo. Seus textos apresentavam um posicionamento político contrário a Getúlio Vargas, que governava o país na época. Também trabalhava questões filosóficas sobre arte e ética, assim como discutia o papel das mulheres na sociedade. Mais tarde, desenvolveu crônicas abordando assuntos variados, desde situações pessoais e curiosas de sua vida, como observações do Rio de Janeiro, até notícias de ordem mundial, como as bombas atômicas na Segunda Guerra. Trabalhou, ainda, um terceiro estilo de texto, as crônicas de viagem, fruto das experiências da autora, quando convidada a fazer palestras em diversos lugares do Brasil e do mundo.

A obra encontra-se esgotada, mas nos sebos você encontra um exemplar em bom estado por uma média de 10 reais.

Essa matéria não segue o novo acordo ortográfico.

                                   paulinhopoa2003@hotmail.com
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Cecília Meireles. Escolha o seu sonho. 26ª ed., Rio, Record, 2005, 130 pp.

sábado, 5 de março de 2016

Clarice Lispector contista


Amor
                                                                                                                                          Clarice Lispector

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

 Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

 Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

 No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

 Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

 O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

 O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

 A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

 O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

 Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

 Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

 Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito
. (...)


*****

O conto continua por mais dez páginas, reproduzidas , caso o leitor queira conhecê-lo inteiro.

Ana fica chocada com o fato de ver alguém que é olhado, mas não pode olhar. Abre-se, nela, uma fenda que revela um vazio em sua vida. Esse acontecimento abre-lhe os olhos para dimensão do amor, na vida de uma mulher mergulhada, até então, em seu mundinho previsível e cotidiano. É invadida por uma piedade absolutamente profunda e espantosa.

Completamente chocada, ela nem percebe a partida do bonde, deixando cair a caixa de ovos que havia comprado. Depois que as coisas se ajeitam no bonde, Ana  permanece nesse estado por um bom tempo, olhando as coisas e as pessoas de uma maneira diferente. Ao chegar em casa, se esforça por mergulhar novamente em seu cotidiano, ao sentir a culpa quando revê o filho. Tenta espremer a vastidão do que vivenciou na estreiteza de sua vida doméstica conhecida, previsível e esgotada. E é o próprio marido que a reconduz a seu mundinho sem frestas. Mas Ana não é mais a mesma, aprendeu a compaixão.

Há uma edição recente, da Rocco,por 24 reais, na Livraria Cultura.

Essa matéria não segue o novo acordo ortográfico.
                                              
                                                  paulinhopoa2003@hotmail.com
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Clarice Lispector. Laços de família. 11ª ed., Rio, José Olympio, 1977, 160 pp.



Continuação do conto:
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

 O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

 Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

 Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

 Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

 Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

 A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

 De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

 Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

 Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

 Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

 Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

 Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

 As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

 Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

 Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

 Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

 Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

 Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

 Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

 Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

 Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

 Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

 Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

 Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

 Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

 — O que foi?! gritou vibrando toda.

 Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: 

 — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

 Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

 — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

 — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

 Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

 Acabara-se a vertigem de bondade.

 E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.



Amor

                                                                                                         Clarice Lispector

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

 Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

 Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

 No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

 Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

 O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

 O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

 A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

 O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.

 Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

 Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

 Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito
. (...)


*****

O conto continua por mais dez páginas, reproduzidas , caso o leitor queira conhecer o conto inteiro.
Ana fica chocada com o fato de ver alguém que é olhado, mas não pode olhar. Abre-se, nela, uma fenda que revela um vazio em sua vida. Esse acontecimento abre-lhe os olhos para dimensão do amor, na vida de uma mulher mergulhada, até então, em seu mundinho previsível e cotidiano. É invadida por uma piedade absolutamente profunda e espantosa.
Completamente chocada, ela nem percebe a partida do bonde, deixando cair a caixa de ovos que havia comprado. Depois que as coisas se ajeitam no bonde, Ana  permanece nesse estado por um bom tempo, olhando as coisas e as pessoas de uma maneira diferente. Ao chegar em casa, se esforça por mergulhar novamente em seu cotidiano, ao sentir a culpa quando revê o filho. Tenta espremer a vastidão do que vivenciou na estreiteza de sua vida doméstica conhecida, previsível e esgotada. E é o próprio marido que a reconduz a seu mundinho sem frestas. Mas Ana não é mais a mesma, aprendeu a compaixão.
Há uma edição recente, da Rocco,por 24 reais, na Livraria Cultura.
Essa matéria não segue o novo acordo ortográfico.
                                               paulinhopoa2003@hotmail.com
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Clarice Lispector. Laços de família. 11ª ed., Rio, José Olympio, 1977, 160 pp.

Continuação do conto:
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

 O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

 Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

 Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.

 Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.

 Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.

 A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.

 De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

 Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

 Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

 Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

 Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

 Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

 As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

 Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

 Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

 Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

 Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

 Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.

 Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

 Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

 Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

 Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

 Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

 Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

 Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

 — O que foi?! gritou vibrando toda.

 Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: 

 — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

 Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

 — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

 — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

 Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

 Acabara-se a vertigem de bondade.

 E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Os Buddenbrook

Os Buddenbrook, publicado em 1901,  é o primeiro romance de Thomas Mann (1975/1955), o maior virtuose ficcional do modernismo alemão. O escritor era filho de mãe brasileira, Júlia da Silva Bruhns, filha de um comerciante alemão que morou na região de Paraty, onde casou com uma brasileira. A mãe de Júlia morre quando esta tinha seis anos. O pai retorna para Lübeck levando Júlia, que nunca mais voltou ao Brasil. Júlia vista como exótica, por ter o cabelo preto e a pele morena dos latinos. Júlia casou-se com um alemão e teve cinco filhos. Heinrich Mann, irmão de Thomas, também era escritor. Parece que Thomas e o irmão mantinham certa reserva em falar da mãe, especialmente no período em que o nazismo começava a ganhar força na Alemanha, para evitar a desconfiança de que pudessem ser perseguidos como judeus.

A ação de Os Buddenbrook ocorre no período de 1835, quando o patriarca da família, o rico comerciante Johann Bruddenbrook vive uma vida próspera na Mengstrasse, 4, em Lübeck. Johann está casado em segundas núpcias, e tem um filho do primeiro casamento, Gothold, que passa por uma crise financeira e pede ao pai que reconsidere o valor determinado a ele na herança. O pai contesta o pedido e Gothold volta à vida medíocre, aceito com reserva pela família do segundo casamento do pai. Johan (Jean), meio irmão de Gothold, tem o título de cônsul e segue os negócios do pai, quando este morre. Jean tem os filhos Thomas, Christian e Antoine, a Tony. Thomas acompanha os negócios do pai, assumindo a empresa, quando morre-lhes o pai. Christian e Tony se ocupam em dilapidar o patrimônio da família. Christian tem uma vida desregrada, calcada na boêmia. Tony casa-se a primeira vez com um agiota que estava interessado em seu dote, para tentar, desesperadamente, saldar suas dívidas. Quando a trama se descobre, Tony busca o divórcio. Acaba casando-se uma segunda vez, mas continua não conseguindo ser feliz e divorcia-se novamente. Thomas é o personagem que ganha corpo durante a narrativa, através de uma figura solitária e fatigada, que tenta, de todas as formas, manter o prestígio da família em alta, apesar dos pesares. Thomas casa-se com 
Gerda, figura reservada e distante. Os dois tem um filho, Johann, o Danno, que vai encerrar a quarta e última geração dos Buddenbrook. Danno tem constituição débil e volta-se para a música, mas não é compreendido pelo pai. Quando a consulesa, mãe de Thomas, morre, ele vê-se forçado a vender a casa da Mengstrasse.  Depois Thomas morre, Gerda vende a casa e retorna a Amsterdam. Christian também morre, a empresa está em falência evidente, e a Danno, excluído pelo pai a continuar comandando a empresa, em testamente, já adolescente, decide-se a seguir sua vocação de artista, apesar de estar já bastante doente.

O retrato da decadência da família Buddenbrook, que vê a derrocada de seus negócios entre 1835 e 1877, atravessa a revolução de 1848, a guerra Austro-Prussiana e a ascensão do Império Germânico. Thomas Mann foi influenciado fortemente, em sua obra, pelas ideias filosóficas de Arthur Shopenhauer, filósofo alemão do século XIX, que desenvolveu o pensamento sobre a importância da arte para que o homem se permita olhar a vida de fora, desviando-se do sofrimento causado pelo fato de o homem ser comandado por vontades.

Sentimento e forma são temas constantes na obra de Thomas Mann.  Gustav, o escritor à beira da morte em Morte em Veneza envolve-se num amor platônico por um adolescente numa praia de Veneza, simbolizando o amor idealizado diante da beleza e juventude do jovem. Em A montanha mágica, Hans Castrop, que sofre de tuberculose  não é artista, mas envolve-se em discussões sobre estética com Setembrni, um professor de arte. Finalmente Danno, de Os Buddenbrook, representa o homem distanciando-se do sofrimento através da música.

O exemplar novo custa, em média, 79 reais. Nos sebos, 18 reais, em média.

Tradução de Herbert Caro
                                          paulinhopoa2003@hotmail.com
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Thomas Mann. Os Buddenbrook. Rio, Nova Fronteira, 1981. 700 pp.