domingo, 20 de abril de 2014

Senhora



Afastemos discretamente uma dobra do reposteiro que recata a câmara nupcial.

É uma sala em quadro, toda ela de uma alvura deslumbrante, que realçam o azul celeste do tapete de riço recamado de estrelas e a bela cor de ouro das cortinas e do estofo dos móveis.
A um lado, duas estatuetas de bronze dourado representando o amor e a castidade, sustentam uma cúpula oval de forma ligeira, donde se desdobram até o pavimento, bambolins de cassa finíssima.

Por entre a diáfana limpidez dessas nuvens de linho, percebe-se o molde elegante de uma cama de pau-cetim pudicamente envolta em seus véus nupciais, e forrada por uma colcha de chamalote também cor de ouro.
(...)

Correu-se uma cortina, e Aurélia entrou na câmara nupcial.

Seu passo deslizou pela alcatifa de veludo azul marchetado de alcachofras de ouro, como o andar com que as deusas perlustravam no céu a galáxia quando subiam ao olimpo.

A formosa moça trocara seu vestuário de noiva por esse outro que bem se podia chamar trajo de esposa; pois os suaves emblemas da pureza imaculada, de que a virgem se reveste quando caminha para o altar, já se desfolhavam como as pétalas da flor no outono, deixando entrever as castas primícias do santo amor conjugal.

Trazia Aurélia uma túnica de cetim verde, colhida à cintura por um cordão de torçal de ouro, cujas borlas tremiam com seu passo modulado. Pelos golpeados deste simples roupão borbulhavam os frocos de transparente cambraia, que envolviam as formas sedutoras da jovem mulher.

As mangas amplas e esvasadas eram apanhadas, na covinha do braço e sobre a espádua, por um broche onde também prendia a ombreira, mostrando o braço mimoso, cuja tez roseava a camisa de cambraia abotoada no punho por uma pérola.

Os lindos cabelos negros refluíam-lhe pelos ombros presos apenas com o aro de ouro, que cingia-lhe a opulenta madeixa; o pé escondia-se em um pantufo de cetim que às vezes beliscava a orla da anágua, como um travesso beija-flor.

O casto vestuário da moça recatava-lhe as graças do talhe; entretanto quando ela andava, e que seu corpo airoso nadava nas ondas de seda e cambraia, sentia-se mais n'alma do que nos olhos o debuxo da estátua palpitante de emoção. A cada movimento que imprimia-lhe o passo onduloso, acreditava-se que o broche da ombreira partira-se e que os véus zelosos se abatiam de repente aos pés dessa mulher sublime, desvendando uma criação divina, mas de beleza imaterial, e vestida de esplendores celestes.

Aurélia atravessou o aposento, e chegando à porta que ficava fronteira àquela por onde entrara, curvou de leve a cabeça recolhendo-se para escutar; mas não ouviu senão o arfar do seio, que lhe ofegava.

(...)

Seixas ajoelhou aos pés da noiva, tomou-lhe as mãos que ela não retirava; e modulou o seu canto de amor, essa ode sublime do coração que só as mulheres entendem, como somente as mães percebem o balbuciar do filho.

A moça com o talhe lângüidamente recostado no espaldar da cadeira, a fronte reclinada, os olhos coalhados em uma ternura maviosa, escutava as falas de seu marido; toda ela se embebia dos eflúvios de amor, de que ele a repassava com a palavra ardente, o olhar rendido, e o gesto apaixonado.

-- É então verdade que me ama?

-- Pois duvida, Aurélia?

-- E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?

-- Não lho disse já?

-- Então nunca amou a outra?

-- Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse a minha mãe. O meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...

Soerguendo-se para alcançar-lhe a face, não viu Seixas a súbita mutação que se havia operado na fisionomia de sua noiva.

Aurélia estava lívida, e a sua beleza, radiante há pouco, se marmorizava.

-- Ou para outra mais rica!... disse ela retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.

A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia ringir-lhe nos lábios como aço.

-- Aurélia! Que significa isto?

-- Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entretemos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.

-- Vendido! exclamou Seixas ferido dentro d'alma.

-- Vendido sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica, sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento.

Aurélia proferiu estas palavras desdobrando um papel, no qual Seixas reconheceu a obrigação por ele passada ao Lemos.

Não se pode exprimir o sarcasmo que salpicava dos lábios da moça; nem a indignação que vazava dessa alma profundamente revolta, no olhar implacável com que ela flagelava o semblante do marido.

Seixas, trespassado pelo cruel insulto, arremessado do êxtase da felicidade a esse abismo de humilhação, a princípio ficara atônito. Depois quando os assomos da irritação vinham sublevando-lhe a alma, recalcou-os esse poderoso sentimento do respeito à mulher, que raro abandona o homem de fina educação.

Penetrado da impossibilidade de retribuir o ultraje à senhora a quem havia amado, escutava imóvel, cogitando no que lhe cumpria fazer; se matá-la a ela, matar-se a si, ou matar a ambos.

Aurélia como se lhe adivinhasse o pensamento, esteve por algum tempo afrontando-o com inexorável desprezo.

-- Agora, meu marido, se quer saber a razão por que o comprei de preferência a qualquer outro, vou dizê-la; e peço que me não interrompa. Deixe-me vazar o que tenho dentro desta alma, e que há um ano a está amargurando e consumindo.

A moça apontou a Seixas uma cadeira próxima.

-- Sente-se, meu marido.

Com que tom acerbo e excruciante lançou a moça esta frase meu marido, que nos seus lábios ríspidos acerava-se como um dardo ervado de cáustica ironia!

Seixas sentou-se.

Dominava-o a estranha fascinação dessa mulher, e ainda mais a situação incrível a que fora arrastado.

Senhora é a história de uma jovem rica, linda e formosa que compra um marido. Nada demais,  considerando-se os costumes da sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. Era praxe a famílias ricas o casamento por interesse e o oferecimento de  um dote a um homem que se dispusesse a casar. Era assim que muitos homens bastardos ascendiam socialmente. Entretanto, o que José de Alencar nos oferece no romance é uma dura crítica social a esse tipo de transação, em que os bens materiais subjugam o sentimento amoroso. Aurélia Camargo é a nova estrela que raiou no céu fluminense; a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Acontece que Aurélia não fora sempre assim. Era moça pobre e órfã que ajudava a mãe nas costuras, o único sustento das duas. Tinha 16 anos quando conheceu Seixas. Apaixonaram-se. Porém, movido por dificuldades financeiras, Seixas a abandona para casar-se com outra, devido a um dote de 40 contos de réis. Inesperadamente, para sorte de Aurélia, morre-lhe o avô rico que lhe deixa enorme fortuna. Aurélia torna-se rica e arma o plano para ter Seixas de volta por um dote de 100 contos de réis, como forma de vingança.

Senhora só não é um romance extraordinário, porque José de Alencar não leva a cabo a ideia primeira de desmontar a hipocrisia da sociedade imperial de sua época. Seixas acaba se mostrando um moço fino de boa índole, que fez o que fez forçado por pressões econômicas. Ele trava uma árdua batalha para resgatar sua independência. Mas é um romance ótimo de se ler ou reler. José de Alencar era exímio construtor de metáforas e descrições deslumbrantes de ambientes e pessoas. O romance prende a tenção do leitor desde o início.

Caso queira entrar em contato com a obra, busque a edição da Penguin/Companhia das Letras, que apresenta um texto bem diagramado, de leitura confortável, além de apresentar uma introdução esclarecedora do professor Antônio Dimas. Vale a pena!

                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
====================
José de Alencar. Senhora. SP, Penguin/Cia. Das Letras, 2013, 336 pp, R$ 29,00

terça-feira, 15 de abril de 2014

Infâmia


O velho embaixador Soares de Vilhena precisa descobrir o que se esconde por trás da morte misteriosa de sua filha, também casada com um embaixador. Soares de Vilhena notara que a filha andava meio tristonha pouco antes de sua morte, mas o marido reiterava que era exagero da moça. Como tem dificuldade para a leitura, devido à catarata avançada, contrata uma jovem estudante de literatura para ler as notícias de jornais e trechos de livros para ele.  Para o embaixador, cegos capazes de ver mais que os outros eram personagens recorrentes na tradição literária. Personagens  que pareciam não ver mas tinham uma visão interior, como visionários ou videntes, em condições de reorganizar o mundo a partir de outros parâmetros. Capazes de apreender os fatos ocultos ou revelar sinais vindos do céu.  O embaixador sentia estar  se reduzindo a um velho cego na dependência de ser guiado por uma moça. Obrigado a reconhecer que fora incapaz de conduzir a própria filha e de lhe apontar saídas que a aliviassem ou sendas que a livrassem do terror pessoal que lhe paralisara o coração. Vontade de se incluir no coro grego da tragédia e repetir com eles seu refrão, um desejo expresso de jamais haver existido, para não ter de viver aquela situação. O aparecimento de um envelope com documentos antigos, entretanto, traz à tona os fantasmas que assombram a família: fotos e fragmentos de textos da filha que morreu em circunstâncias misteriosas. Tal como Édipo cego que vai em busca da verdade trágica, o embaixador Vilhena vai em busca da sua verdade de vida.

Mas há um segundo núcleo da narrativa. Jorge, seu fisioterapeuta, tem o pai, funcionário de uma repartição pública, acusado injustamente de participar de um esquema de corrupção. Daí temos a Infâmia que dá título ao romance de Ana Maria Machado.  Custódio, o pai do fisioterapeuta, era funcionário atento, responsável zeloso pelo almoxarifado. Esse Custódio começa a notar o consumo exagerado de papel e material de escritório e produtos de limpeza. Com a ajuda de um jornalista, denuncia a fraude a um jornal. É quando passa a ser difamado publicamente e hostilizado no local de trabalho, a ponto de precisar se afastar do trabalho. O neto de Vilhena, que buscara o auxílio do avô para fazer um documentário se interessa pela história do pai do fisioterapeuta e as duas histórias se cruzam.

Ana Maria Machado teria ganho o Prêmio Jabuti 2013 de romance, não fosse ter levado nota zero de um dos jurados, Rodrigo Gurgel, que argumentou posteriormente ter achado o livro de Ana Maria Machado pobre na história e esteticamente. Rodrigo Gurgel quis chamar a atenção à organização do Prêmio Jabuti para a valorização da obra e não a valorização do autor sobre ela. Mas, Ana Maria Machado foi recompensada com o Prêmio Zaffari Bourbon de melhor romance.

Reconhecida como boa escritora de obras infanto-juvenis, Ana Maria Machado vez ou outra enveredou para romances para adultos, como esse Infâmia. Para mim, a história não convenceu, apesar da ideia brilhante de parodiar a cegueira de Edipo com a do embaixador, como sustentação para descobrir a verdade trágica da morte da filha. A leitura torna-se cansativa pela fragilidade argumentativa. Mas é bem escrito e merece ser lido para os fãs da escritora Ana Maria Machado.
                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===========================
Ana Maria Machado. Infâmia. Rio, Objetiva, 2011, 277 pp, R$ 45,90

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Esaú e Jacó

Esaú e Jacó foi publicado originalmente em 1904. É o oitavo e penúltimo  romance de Machado de Assis. O autor ainda teve fôlego para escrever o último, Memorial de Aires, em 1908,  pouco antes de falecer. A história, partindo da referência bíblica, é aparentemente simples: dois gêmeos, Pedro e Paulo, brigam  desde o útero da mãe e continuam a brigar pela vida toda. Amam a mesma mulher, Flora, que amava os dois e acaba morrendo sem escolher nem um nem outro. A história se passa nas décadas de 1870 a 1890, compreendendo a degradação do Império e os primeiros anos da República. Os dois divergem em tudo. Pedro é monarquista e Paulo, republicano. Pedro estuda Direito e Paulo Medicina. Discordam menos por convicções individuais do que pela necessidade de se distinguir pelas oposições. Quem toma o foco central, para impulsionar o fluxo da narrativa é Flora, que oscila na dúvida da escolha. Para ela, não se tratava de um conflito de escolher entre um e outro, já que  desejava os dois. 

Dono de uma ironia fina, Machado de Assis obriga o leitor a se dar conta, na parte final do romance, de que a oscilação entre o sim e o não ocupou  boa parte da história, fazendo troça da paciência do leitor que acompanha a oscilação de Flora num jogo que se estende ao infinito.

O conselheiro Aires, velho solitário que é escolhido pela mãe dos dois, vai escrevendo um Memorial (o último romance de Machado), analisando o dilema de Flora entre os dois irmãos.

Esaú e Jacó é engraçado pela ironia, é inteligente, instigante. Romance dos grandes!

                                                                              paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=================================
Machado de Assis. Esaú e Jacó. SP, Penguin/Companhia, 2012, 296 pp, R$ 26,00

domingo, 6 de abril de 2014

O amante de Lady Chatterley

Constance Chatterley é uma jovem oriunda da sociedade inglesa liberal. Recém-casada, recebe de volta seu marido que havia lutado durante a Primeira Guerra Mundial, paralisado da cintura para baixo. Isolada, encontra companhia na figura de um guarda-caça que, após sucessivos fracassos amorosos, vive sozinho numa cabana próxima à casa dos Chatterley. Os dois acabam se envolvendo emocionalmente.
Lida agora, o que conta menos são as cenas antes consideradas picantes, mas a metáfora que o autor quis revelar através de sua história, para demonstrar que as palavras  podem chocar os olhos, mas não a mente, menos a das pessoas de mente vazia. As que têm inteligência podem superar os tabus inerentes à sua cultura e, pelo contrário, experimentar alívio.  É isso que nos diz o autor no posfácio da obra.  D. H. Lawrence quer fazer o leitor pensar  o sexo de maneira total, integrada, honesta e limpa.  Mesmo que não conseguisse agir sexualmente de maneira satisfatória, deveria pelo menos, pensar sexualmente de maneira integrada e limpa. Toda aquela conversa sobre virgindade é um disparate. Os jovens são um emaranhado de tormentos, uma confusão fervilhante de sentimentos sexuais e pensamentos sexuais que só os anos irão desembaraçar. Lawrence alerta para o fato de que o romance não se propõe a sugerir que todas as mulheres devam correr atrás dos homens para torná-los amantes. Pelo contrário,  seu intento é para que se compreenda o sexo. Sua compreensão é mais importante que o ato em si. Mentalmente, a sociedade britânica de sua época encontrava-se atrasada na forma de pensar o sexo, confundida por uma certa vaguidão, medo oculto e abjeto carregado a séculos de repressão.

Em suma, D. H. Lawrence parece nos querer dizer que a vida só é tolerável quando a mente e o corpo estão em harmonia, em equilíbrio natural entre os dois e cada um mantendo o respeito natural pelo outro.  Com a emoção forjada, ninguém se sente realmente feliz, satisfeito, em paz. Constance Chatterley vai construindo o caminho de um amor desobstruído, à medida que vai conhecendo e se envolvendo também fisicamente com o guarda-caça Mellors, que também não busca repetir a rotina de um amor forjado como os que teve anteriormente. Para que o amor aconteça entre os dois, será necessário vencer o preconceito oriundo da diferença de classes, da educação, investindo no desejo que se satisfaz no corpo e que atinge a mente.

D. H. Lawrence (1885-1930) chocou a sociedade britânica da época, com O amante de Lady Chatterley , tanto que a obra ficou proibida por um bom tempo. A sociedade britânica da época, puritana, reprimida e dissimulada, não viu o romance com bons olhos. Também chocou os editores que a rejeitaram temendo represálias por causa das "cenas de sexo".

                                                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=============================
D. H. Lawrence. O amante de lady Chatterley. Penguin Companhia, 2010, 660 pp, R$ 32,00

domingo, 30 de março de 2014

Triste fim de Policarpo Quaresma

Mais uma edição da Penguin com a Companhia das Letras nos revela uma leitura sem o ranço da obrigatoriedade escolar que nos levaram a ler Triste fim de Policarpo Quaresma na escola. O tempo passado entre a primeira leitura e a de agora, muitos anos depois, nos ajuda a compreender na figura de Quaresma um parvo caricato, mas um homem fiel  a seus princípios e honesto em sua forma de pensar o nacionalismo que buscava seguir. Essa fidelidade o vai isolando cada vez mais de uma sociedade, essa sim, caricaturada como hipócrita.
Quaresma amava a modinha tocada na viola pelo amigo Ricardo Coração dos Outros. Ficava desanimado pelo povo não guardar as tradições e com elas suas canções. Isso era demonstração de fraqueza diante de outras nações que as guardavam durante séculos.  Queria que houvesse uma reação que desenvolvesse o culto das tradições, para mantê-las sempre vivazes nas memórias e costumes do povo brasileiro.

No final da vida, alijado da vida social, por ser considerado louco, Quaresma dá-se conta de que não é só a morte que nivela as pessoas. A loucura, o crime e a doença passam também a sua vassoura pelas distinções que inventamos.  A sobrinha, casada com um médico emergente e sovina, é a única que, juntamente com o músico Ricardo Coração dos Outros, demonstra afeição por Quaresma, quando este já está considerado insano. Busca a ajuda do marido, que se abstém. Ela o enfrenta e sai à rua, em busca de auxílio. Busca contato com os políticos, que lhe debocham na cara.

Quem sabe um pouco do escritor Lima Barreto (informe-se) sabe que a vida não lhe foi fácil. Sua literatura critica os políticos e a sociedade emergente na recém-criada República através da caricatura e denuncia o estado precário que vivia a classe pobre da periferia inchada de brancos e negros pobres.
                                                                      pauinhopoa2003@yahoo.com.br
=====================================
Lima Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. SP, Penguin, 2011. 368 pp, R$ 26,50

domingo, 23 de março de 2014

Memórias de um sargento de milícias

 Vez ou outra relia Memórias de um sargento de milícias, quando ainda era professor de literatura brasileira. Recentemente li mais uma vez o romance pela edição bem cuidada da Penguin & Companhia das Letras. Leitura deliciosa e sempre surpreendente. Consegui observar melhor a figura do Vidigal, famoso por sua autoridade e implicância com o Leonardo Pataca, revelando, entretanto, um lado afetivo e paternal que diminui um pouco essa caricatura, para revelar um homem com atitudes contraditórias.
Memórias de um sargento de milícias foi uma façanha literária de Manuel Antônio de Almeida, jornalista que escreveu sua única obra ainda jovem, de maneira original. O livro saiu no período do Romantismo, em que Alencar, Macedo e Machado de Assis, em sua fase inicial, revelavam em suas obras heróis e heroínas típicos dos salões do Império no Rio de Janeiro. O romance de Manuel Antônio de Almeida foge diametralmente do romantismo dramático, revelando personagens caricatos com a função de exercer, inclusive, uma crítica social aos costumes e à política da época. O autor nos mostra um herói simplório só na aparência, já que Leonardo é muito vivo e sabe tirar partido das adversidades para buscar aquilo em que acredita. O romance revela um cenário carioca com uma multidão composta por meirinhos, soldados, barbeiros,padres, ciganos, burocratas, costureiras, marujos, boticários, parteiras, beatas, curandeiros, professores,músicos, dançarinos, taverneiros, agiotas, vadios, velhacos, valentões, todos ou quase todos de origem portuguesa, mas já corrompidos pelos costumes do Rio de Janeiro da época. A originalidade da obra de Manuel Antônio de Almeida reside em contar uma história cheia de pequenos golpes, mutretas e espertezas. Curiosamente, como atesta Rui Castro no ensaio introdutório do romance, não se notam nobres, nem escravos e muito menos índios, revelando que o cânone romântico não comportava a obra-prima de Manuel Antônio de Almeida.

Há quem considere Memórias de um sargento de milícias como o nosso romance picaresco. A malandragem que permeia o romance também aparece nas comédias de Martins Pena, outro autor que não se deixa amarrar na estética dominante do Romantismo brasileiro. A menos que possua o livro, evite aquelas edições horrorosas que se usavam na escola, com os desenhos horrorosos da capa. Isso ajudou muito a desmerecer o interesse pelo livro.  O mérito dessas editoras é que foram as únicas, por bom tempo, a lançar livros paradidáticos com preços bem acessíveis. Mas esqueceram o conforto da leitura.

Dedico essa crônica a alguns ex-alunos da Lomba do Pinheiro, que descobriram meu blog, demonstrando-me que ensinar literatura pode render bons frutos.

                                                                   paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===========================
Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias. SP,Penguin/Companhia, 2013, 270 pp, R$ 24,50

domingo, 16 de março de 2014

O grande Gatsby

Nas noites de verão, a música irradiava da casa de seu vizinho Gatsby. Em seus jardins suntuosos, homens e mulheres iam e vinham feito mariposas entre sussurros , champanhe e estrelas. Nas tardes de maré alta, ele observava os convivas mergulhando no alto de sua balsa, ou tomando sol nas areias quentes de sua praia particular enquanto barcos a motor cortavam as águas, puxando esquiadores aquáticos por entre cataratas de espuma. Nos fins de semana, seu rolls-royce virava um lotação, transportando convidados das nove da manhã até depois da meia-noite, enquanto sua caminhonete zunia feito um inseto amarelo e ligeiro no encalço de trens. E às segundas-feiras, oito empregados, incluindo um jardineiro extra, trabalhavam o dia todo com esfregões, escovas, martelos e tesouras de jardinagem, reparando os destroços da noite anterior.

Nick, o vizinho, é um espectador em busca de um astro. Vê Gatsby, que se interessa por Nick, que fica seu amigo e confidente. Sob os olhos de Nick ficamos conhecendo a história de Gatsby e de como se tornou O Grande Gatsby.
Quanto vale um homem sem o seu dinheiro? Para a sociedade norte-americana da década de 1920, nada. Gatsby, sujeito obscuro, que não se deixa inteiramente conhecer, já que é visto sob o ângulo de seu vizinho,  era de origem humilde e se apaixonara por uma moça rica de Nova Iorque. Ela casa com outro, Gatsby fica rico e decide investir novamente sobre essa mulher. Acaba morto de forma equivocada, tentando protegê-la. É quando Nick percebe que o mundo de pessoas que frequentava suas festas suntuosas, não estavam interessados em nada mais que a futilidade proporcionada pelo dinheiro.

O escritor norte-americano F. Scott Fidgerald (informe-se) fez parte do grupo de escritores norte-americanos que viveu em Paris nas primeiras décadas do século XX, quando os Estados Unidos vivia a grande depressão de 30.

Há duas versões cinematográficas que podem ser encontradas em locadoras, com interpretações diferentes do livro. A de 1974, com Robert Redford, apresenta uma leitura chapada das personagens, criticando a máscara social da sociedade de 1920. A Daisy de Mia Farroll é plana, caricatura da mulher fútil e histérica. A de 2013, com Di Caprio, tem um clima de show bizz (tem até tecnopop como trilha sonora), em que a sociedade hipócrita e oportunista da década de 20 do século passado passa a ser o personagem central. A Daisy de Carey Mulligan é esférica, não se deixa conhecer de todo. Primeiro, você deve ler o livro, que é muito melhor. Depois, escolha seus atores preferidos e veja o filme, que é outra linguagem. E depois, empreste o livro aos amigos e, feita as leituras, vão tomar uma cerveja para discutir o livro. É assim que se fazia na década de 80.
Tradução de Vanessa Barbara.
                                                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
======================
F. Scott Fitzgerald. O grande Gatsby. SP, Pinguin Companhia, 2011, 256 pp, R$ 26,50

domingo, 9 de março de 2014

A letra escarlate

"Na cidade puritana de Salém, na primeira metade do século XIX, seus habitantes esperavam um acontecimento grave. Quando a porta da cadeia foi aberta, surgiu na praça uma jovem, que avançou a céu aberto.  Segurava nos braços um bebê de cerca de três meses, Assim que a jovem — mãe dessa criança — se revelou por inteiro à multidão, pareceu ter sido seu primeiro instinto abraçar com mais força o bebê junto ao peito; não tanto por um impulso de afetividade materna, mas como se escondesse um símbolo, o qual vinha gravado ou costurado naquela altura do vestido. No momento seguinte, no entanto, percebendo que não fazia mais do que ocultar de maneira precária um emblema de sua vergonha com outro, ela tomou o bebê num dos braços e, com o rosto queimando, um sorriso arrogante e o olhar de quem não se deixaria humilhar, encarou a gente de sua cidade e os vizinhos que a rodeavam. No peitoral da túnica, em tecido vermelho fino e adornada por um elaborado bordado e fantásticos floreios em linha dourada, trazia a letra A. O emblema fora bordado com arte, exuberância e beleza decorativas, dando a  impressão de um toque final e preciso à roupa que ela usava; roupa que, por sua vez, exibia esplendor conforme ao gosto da época, mas muito além do que permitiriam as normas da colônia no que dizia respeito a ostentação e luxo. A jovem era alta, uma figura de perfeita elegância em todos os sentidos, tinha cabelo escuro e abundante,  e um rosto que causava aquela impressão bem feminina, para os padrões da época; caracterizava-se por certa postura e dignidade. Talvez houvesse nela algo delicadamente doloroso. Seu traje, que, na verdade, confeccionara para a ocasião na própria cadeia, modelando-o bem ao seu gosto, parecia expressar, com insolente e pitoresca peculiaridade, uma postura de espírito, a desesperada temeridade de seu estado de ânimo. Mas o detalhe que atraía todos os olhares e, como era de esperar, transfigurava sua portadora — a ponto de homens e mulheres para quem ela fora até ali uma presença familiar agora a olharem como se pela primeira vez — era aquela letra escarlate, tão magnificamente bordada e iluminada em seu peito. Funcionava como um feitiço, apartando-a das relações humanas ordinárias para encapsulá-la numa esfera própria. O lúgubre oficial de justiça fez um gesto com o bastão, para abrir caminho. Chegara a hora em que a virtuosa colônia de Massachusetts, onde a justiça se faz à luz do sol visse a jovem mulher exibir sua letra escarlate na praça pública, expondo, assim, sua vergonha."

O que acontecera é que essa mulher era casada com um homem tido como honrado, ainda que não tivesse aparecido ainda na cidade, pois a mulher tinha vindo antes dele para Salém. Como tivera um filho, certamente não seria do marido. Agora, em praça pública, querem que ela revele o nome do pai da criança. Mas ela se cala, como gesto de proteção.

Percebe-se no trecho narrado acima, que estamos diante de uma obra romântica: dignidade, beleza física, recato. O romance retrata o adultério na sociedade puritana do século XVIII. A letra escarlate, entretanto, é uma obra muito mais complexa. Os puritanos insistem numa sociedade absolutamente pública, porque acreditam necessitar de toda a energia de cada indivíduo na tarefa de estabelecer uma colônia duradoura. Segundo esse ponto de vista, a sociedade e a própria civilização seriam incompatíveis com a privacidade.  Para isso, os puritanos precisam manter cada aspecto da vida das pessoas sob controle.Tal objetivo é incompatível com a permissão de que os indivíduos tenham vida privada ou existência íntima.  Para os puritanos, o adultério é um pecado aos olhos de Deus e, consequentemente, considerado um crime. Mas a questão importante na história não é o pecado, mas a maneira como a crença de que é conduz os puritanos a certas ações que, por sua vez, afetam pessoas que mantêm opiniões diferentes sobre o adultério.  Embora Hester, a adúltera, sofra enormemente pela vergonha de sua desonra pública e pelo isolamento que seu castigo impõe, jamais consegue aceitar, no íntimo de seu coração, a interpretação puritana para seu ato. Mantém, assim, seu amor próprio e sobrevive à sua pena com dignidade e caráter cada vez mais fortalecido.

A tradução é de Christian Schwartz.

                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
======================
Nathaniel Hawthorne. A letra escarlate. SP, Penguin Companhia, 2010, 336 pp, R$ 29,00

domingo, 2 de março de 2014

O coronel Chabert

O coronel Chabert é uma novela curta de Balzac, que você vai ler de um fôlego só, pois é envolvente e criativa. Conta a história de um homem considerado morto perante a justiça,  que busca readquirir sua identidade e a fortuna que perdeu para a mulher, oficialmente viúva e casada com outro homem, com quem teve dois filhos. Chabert procura o advogado Derville para lhe contar sua história e como se tornou um morto-vivo esfarrapado e faminto. O advogado se interessa pela história de Chabert, adiantando-lhe pequena soma em dinheiro para que o defunto sobreviva, enquanto investiga os fatos. Essa investigação acaba revelando muitas surpresas, mas o básico é o uso do dinheiro como o único meio para subir na sociedade burguesa da época.

Chabert, o defunto, conta ao advogado que comandava um regimento de infantaria ligado ao imperador Napoleão Bonaparte, que tinha o maior apreço por Chabert. Numa batalha contra os russos, quando voltavam para junto do imperador, depois de dispersados os russos, Chabert e seus comandados toparam com um batalhão do exército inimigo. Deu-se a batalha e Chabert acabou ferido por uma espada na cabeça e dado como morto junto com outros tantos soldados franceses. Enterrado em uma vala comum com os outros mortos, Chabert recobra os sentidos pouco depois, mas seu atestado de óbito já havia sido feito conforme as regras estabelecidas pela jurisprudência militar.

Chabert se esconde na Alemanha, onde é resgatado por um casal de camponeses que tratam de seu ferimento e lhe dão roupas para vestir. Quando regressa a Paris é que descobre que é um morto-vivo, e todos passam a desacreditá-lo. Sua esposa, agora oficialmente viúva, herdou dele grande quantia em dinheiro e não lhe quer dar um tostão sequer.  Derville lhe diz que a esposa o havia procurado justamente para tentar negar a existência de Chabert. Muitas coisas mais acontecem, a partir daí.

O coronel Chabert tem tradução de Eduardo Brandão
                                                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br

===============================
Honoré de Balzac. O coronel Chabert. SP, Penguin/ Cia das Letras,  2012, 88 pp, R$  14,90

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Reprodução

Existem traços de um discurso neofascista rondando as redes sociais e a mídia de um modo geral. O político defensor dos agricultores rurais afirma em vídeo que quilombolas, índios, gueis e lésbicas "são tudo que não presta". Depois ele se retrata negando ser homofóbico, tem pessoas de suas relações que "são do meio" e a retratação está feita. A professora universitária do Pará chama um segurança negro de macaco. Depois se desculpa, afirmando que se referiu a macaco como brincadeira, macaquice. A jornalista do SBT que se diz cristã, do bem, compreende as pessoas que hostilizaram"o marginalzinho preso a um poste". Isso que estou dizendo é café pequeno diante do discurso neofascista. Muito discurso contraditório que você encontra nas postagens do Facebook, por exemplo, faz parte de uma classe média, a maioria com curso superior, que não se presta a fazer uma análise de conjuntura (viva o Betinho!), reproduzindo discursos alheios oriundos de uma preguiça para pensar politicamente sua opinião própria.

Na esfera internacional, tivemos recentemente  o caso de Marine Le Pen, candidata de extrema direita à presidência da França, pela Frente Nacional. Ela dizia defender um estado laico e, contraditoriamente, propagava a xenofobia e a homofobia, através de um discurso ambíguo carregado de clichês. Esse fato chamou a atenção do escritor Bernardo Carvalho. Ele percebeu que estamos hoje diante de um novo tipo de fascismo que não está exatamente onde o fascismo estaria,  o de Mussolini e Hitler. Há um novo fascismo no discurso competente carregado de narcisismo que perambula por espaços supostamente democráticos. Isso serviu de  mote para seu novo livro, Reprodução, um romance tragicômico, tendendo a um humor negro.  O primeiro romance político de Bernardo Carvalho.

Um cara que trabalha no mercado financeiro e perdeu o emprego e a mulher resolve estudar chinês por considerar que os chineses vão dominar o mundo. Ele está na fila do check-in para pegar o voo para Xangai, quando encontra a antiga professora de chinês com uma criança querendo embarcar no mesmo voo. Ele tenta manter contato com a mulher, mas ela é presa e desaparece. Ele também é confinado numa sala sem janelas do aeroporto, onde transcorre todo o romance.

O estudante de chinês, ao ser interrogado, diz ao delegado que lê as revistas semanais , jornais, blogs, artigos de cronistas, colunistas e articulistas. Acha que são gente preparada que fala com propriedade, porque sabe o que estão dizendo. Pensa que brasileiro é burro e ignorante. Não se consegue conversar com um brasileiro. O brasileiro nasce inocente, sem memória, sem educação, sem peso, sem luta, sem sangue.  Por isso estuda chinês, para quando a China invadir o Brasil e será um deles. O chinês é a língua do futuro, com ela as pessoas vão poder dizer o que quiser, sem consequência, sem responsabilidade e sem contradição. Na língua do futuro, o assassino vai clamar justiça, o racista vai exigir seus direitos, o fascista será o porta-voz da democracia, na língua do futuro. A língua do futuro dará ao homem o que ele quiser ouivir.

O livro é dividido em três monólogos (na verdade são diálogos em que só a fala do protagonista é reproduzida). Leitura interessante.

                                                                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
====================================
Bernardo Carvalho. Reprodução. SP, Companhia das Letras, 2013, 168 pp, R$ 37,

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Primavera num Espelho Partido

O pano de fundo do romance é o período da ditadura uruguaia imposta ao país de 1973 a 1985. A história gira em torno de Santiago, preso político, e Graciela, sua mulher. Graciela é forçada a pedir asilo na Argentina com a filha pequena, mais o pai de Santiago, para tentar refazer sua vida. Em cinco anos de prisão, comunicam-se apenas por cartas esporádicas. Santiago vive um tempo estático, onde nada de novo acontece. Passa e repassa as lembranças familiares como forma de se manter livre. A escolha dele, de lutar contra a opressão, e a dela, de sair do país, levam suas vidas a um rumo imprevisível. Graciela, ao contrário,  precisa seguir em frente, procurando recompor sua vida com a filha. Cai em uma rotina  de mudanças constantes, em que até o amor pelo marido será afetada, já que Graciela começa a nutrir sentimentos pelo melhor amigo de Santiago. O romance é contado em várias vozes, inclusive a de Mario Benedetti, que relata seu drama de exilado político em várias partes do mundo. Don Rafael, o pai de Santiago, é uma dessas vozes. Sua fala revela a preocupação de o filho enlouquecer na prisão. É nos torturadores que reside a loucura. São loucos por vocação e livre escolha, que é a forma mais ignóbil de loucura. Ganharam aulas de tortura dos norte-americanos para se diplomarem dementes. Mas isso não acontece. Ao receber uma carta do filho, sente que sua descida ao inferno não o incinerou. Está são. Pensa o pai que, mais do que se entregar a uma esperança, o que conta para o filho é se agarrar à sanidade. E seu filho continua sensato. Está dosando seus ódios com prudência e sagacidade, o que é decisivo. O pai sabe que é difícil ter bom senso quando se passou pela humilhação e pelo mutismo obstinado e pelo asco à morte e pelo alerta sem trégua e pelo pavor solitário e pelo martírio em cotas incômodas. Depois de tudo isso, agarrar-se à sensatez pode ser uma forma de delírio. Só isso pode explicar essa ferrenha lealdade ao equilíbrio. Isso explica o respeito a si mesmo, fidelidade aos demais e sobretudo muita tenacidade, muita obstinação e uma desmistificação progressiva da morte.
Primavera num espelho partido é uma história sobre as contradições humanas, a busca de sentido na vida. Benedetti compõe um mosaico de impressões e sentimentos, numa história marcante sobre a permanência do amor em tempos sombrios.

A tradução é de Eliana Aguiar
                                                                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==============================
Mario Benedetti. Primavera num espelho partido. Rio, Objetiva, 2009, 218 pp, R$ 42,90

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Taça de Ouro

Londres, início do século XX.  A senhora Assingham, casada com um militar aposentado, recebe em sua casa a visita do príncipe italiano Amerigo, vindo a Londres para casar-se com Maggie, jovem aristocrata e rica. Durante o encontro, a senhora Assingham recebe também a visita inesperada da srta. Charlotte, que voltava de Nova Iorque. O que a jovem estaria fazendo ali, a poucos dias do casamento do príncipe com Maggie, amiga de Charlotte? Naquele momento, o príncipe, que se preparava para partir, decide ficar. Para a senhora  Assingham,  ele não estaria ficando para fazer uma pergunta grosseira (quanto tempo ela pretendia ficar hospedada na casa da senhora Assingham?). Havia um ar de suspense no semblante do príncipe, reflexo do medo que tinha da jovem. Será que ela se jogaria em seus braços ou, pelo contrário, seria maravilhosa? Ela veria o que ele iria fazer - foi o que  o estranho minuto de silêncio disse a ela. Mas o que ele poderia fazer, além de deixar claro que faria qualquer coisa, tudo, por ela, do mais honradamente possível? Mesmo que ela se jogasse em seus braços, ele tornaria isso fácil, isto é, desconsiderar, ignorar, não lembrar, e também lamentar. Na verdade não foi isso o que aconteceu, apesar de não ter sido com um simples toque, mas através das gradações mais delicadas, que a tensão dele diminuiu. Charlotte era um produto raro, especial. Sua especificidade, sua solidão, sua carência de posses, isso é, sua carência de ramificações e outras vantagens, contribuíam para enriquecê-la de algum modo com uma neutralidade estranha, preciosa, para constituir para ela, tão distanciada e ao mesmo tempo tão consciente, uma espécie de pequeno capital social.
O príncipe acaba indo embora e a senhora Assingham providencia as acomodações para Charlotte em sua casa. Mas uma dúvida lhe persiste, por que a jovem viera antes e não depois do casamento de Maggie? Tarde da noite, expondo ao marido o incômodo que a perturbava, ficamos sabendo que Charlotte e Amerigo haviam sido amantes na Itália, mas o relacionamento não fora adiante, talvez porque a Charlotte interessasse um homem de posses e o príncipe estava praticamente falido. Temendo que alguma coisa pudesse comprometer o casamento de Maggie, a senhora Assingham arma uma estratégia para casar Charlotte com um nobre inglês, bastante amigo do príncipe Amerigo.

A taça de ouro, obra-prima de Henry James,  um dos principais introdutores do fluxo de consciência na narrativa, é marcado pela dúvida, pelas impressões, pelas ações decorrentes disso por parte de quem imagina a partir daquilo que vê. Num primeiro momento é o olhar da senhora Assingham sobre Maggie, o príncipe e Charlotte. No segundo momento é o olhar de Maggie sobre o marido e Charlotte. História longa e envolvente, é indicado para quem gosta de literatura acima dos joelhos. Vale a pena!

Tradução de Alves Calado
                                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
====================================
Henry James. A taça de ouro. Rio, Record/Best Bolso, 2009, 574 pp, R$ 25,00