domingo, 26 de fevereiro de 2017

41. O Aleph

Borges parece ser mais difícil do que é. Tem vários níveis de leitura. Sua escrita parece estar fora do mundo real. Ele mesmo, em algumas entrevistas, considerava-se um homem do século XIX. Gostava de cultivar uma imagem distante de sua realidade, cultivando  geografias imaginárias, entidade fabulosa, animais imaginários, mundos ideais, labirintos, livros etc. Antes de ser escritor, era leitor. Viveu cercado de livros desde a infância. Mas Borges pode parecer bem mais acessível que parece.Nunca acredite no que ele diz, pois faz citações falsas, menciona escritores que não existem. É um escritor de textos alheios. O conjunto de contos O Aleph, juntamente com Ficções, trazem contribuição fundamental para a literatura universal.

O Aleph: neste conto, temos Borges lidando com o tema da universalidade, pois um episódio nos leva a este ponto onde se pode enxergar todo o universo. O personagem do conto passa a visitar anualmente a casa da falecida Beatriz Viterbo, no dia do aniversário dela, até ser informado de que a casa seria demolida. Ele fica, então, sabendo da existência de uma esfera mágica, um Aleph, um dos pontos do espaço que contém todos os outros pontos. Curiosamente, a esfera mágica que contém o Aleph está  no décimo nono degrau da estreita escada que leva ao porão que fica sob a sala de jantar da casa de Beatriz Viterbo. O protagonista  não faz nenhuma tentativa de evitar a demolição  da casa, pois percebe, sem dúvida, que depois da morte da amada, ele não tem nenhuma esperança de tornar verdadeiramente sua a visão do Aleph.

Os Teólogos: dois teólogos, Aureliano e João de Panonia, digladiam-se em suas discussões religiosas, o que Borges vai tratando com um humor que pouco aparece em outros contos; por exemplo, no trecho: “Discutiu com os homens de cuja sentença dependia a sua sorte e cometeu a grosseria máxima de fazê-lo com talento e com ironia” . A discussão leva um deles à fogueira, mas eles ainda se encontrarão na eternidade, culminando em um final inesperado.

O Imortal: relata a história de um general romano que sai à procura da imortalidade; fato que o autor aprofunda em suas reflexões filosóficas, como pode ser conferido neste trecho: “Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal”. No entanto, ao deparar-se com sua busca, toda a sua vida é alterada, não bem como ele imaginava.

O fato de ter visto um homem ser baleado num taberna em Santana do Livramento, serviu de mote para Borges criar em O morto a história de Benjamin Otálora, um jovem compadrito (descendente do gaucho rural)  dos subúrbios pobres de Buenos Aires, que mata um rival e foge para o Uruguai, onde entra para o bando de vaqueiros e contrabandistas liderado por um brasileiro chamado Azevedo Bandeira. Em um ano, aprende as habilidades de um gaucho. Estimulado por um sentimento novo de liberdade e poder, ele aspira superar Bandeira na liderança do bando. Para isso, faz amizade com um capanga de Bandeira, Suárez, e lhe diz de seu plano, recebendo uma promessa de ajuda em sua rebelião contra o velho chefe. Otálora desobedece então às ordens de Bandeira, dá aos homens contraordens e até dorme com a concubina do chefe, uma mulher com cabelos ruivos resplandecentes. Uma noite, no entanto, Bandeira desmascara o caso de Otálora com a ruiva e seu capanga e atira a sangue frio no usurpador.

O impulso misógino da história é inequívoco em Emma Zunz. Emma quer vingar seu pai, que se suicidou depois de ter sido acusado falsamente de desfalque. Maquina então um plano para matar o ex-sócio do pai, responsável por sua desgraça. Ela se prostitui com um marinheiro num bordel e depois mata a tiro o ex-sócio sob o falso pretexto de que tentou estuprá-la. Borges retrata uma mulher jovem presa num labirinto de contradições sexuais.

A Intrusa foi transposto para o cinema em 1979, dirigido por Carlos Hugo Christensen, com José de Abreu, Arlindo Barreto e Maria Zilda. Borges criticou a leitura equivocada do diretor, reduzindo a relação dos dois irmãos a um caso de homossexualidade, que não está presente no conto.  A história se passa no ano de mil oitocentos e tanto, no pampa argentino, onde os irmãos Nielsen, Eduardo e Cristián, viviam comungando a mais completa solidão. Eram tidos como perigosos malfeitores, chegados a farras e brigas violentas. Seus episódios amorosos davam-se em casas suspeitas. As coisas mudam, quando Cristián leva uma mulher para o rancho, como sua amante. A partir daí, a relação dos dois esfria. Eduardo torna-se gradativamente mais irritadiço. Até que um dia Cristián avisa ao irmão que ia para uma farra e deixava a mulher para ele usá-la como quisesse. Assim, a mulher passou a atender aos dois com uma submissão animal, mas não escondia alguma preferência a Eduardo. Um dia, puseram-se  os dois a conversar e decidiram vender Juliana a um prostíbulo. Assim, voltavam a renovar sua vida antiga de homens entre homens. Tempo depois, foi cada um para um lado resolver problemas particulares. Foi quando Cristián, dirigindo-se ao prostíbulo onde venderam Juliana, encontrou o irmão sentado na fila esperando sua vez. Decidiram que era melhor levá-la de volta à casa, "para não cansar os cavalos". Voltaram, assim, ao que já se disse, até o dia em que Cristián comunica ao irmão, que matara a mulher, para não lhes causar mais danos. Assim, abraçaram-se, quase chorando. Agora os unia outro vínculo: a mulher tristemente sacrificada e a obrigação de esquecê-la.

Tradução de Flávio José Cardozo
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Jorge Luís Borges. O Aleph. 3 ed., Porto Alegre, Editora Globo, 1978, 146 p.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

40. Ficções

O escritor argentino Jorge Luís Borges (1899/1986) cresceu entre duas línguas. Foi alfabetizado em inglês, por decisão do pai. O espanhol é ligado à linhagem materna. Tinha ascendência portuguesa por parte do bisavô paterno, que nascera em Portugal.  Ficou cego cedo, aos 58 anos. Mas continuou a produzir sempre, ditando seus textos a seus auxiliares, notadamente sua mãe e depois a esposa, Maria Kodama.
Borges foi primeiro poeta e ensaísta. Seu lado ficcional surgiu mais tarde. 

Viaja à Europa na adolescência, para tratamento da cegueira do pai, onde estuda, tem acesso e leitura em outras línguas, e retorna em 1922 à Argentina. Foi leitor voraz de enciclopédias. Isso faz ver a obra de Borges, estamos falando aqui dos contos, em duas vertentes: a mística, os arquétipos, os labirintos. De outro, o olhar para o pampa: o duplo, a violência, a solidão árida. O escritor sustentava que, por trás da sua escrita, há a leitura de um livro. Borges lia um livro e contava uma história do que lera. Isso é chave em sua literatura.

Ficções é um livro-chave para a literatura do século XX, que influencia toda a literatura que vem depois dele. Sua estética coloca a possibilidade de algo impensado.  É um relato autêntico que não propõe uma verdade fora do texto. Não é uma reprodução fiel do mundo. Mas o prazer da forma estética. Esses relatos oferecem ao leitor um prazer com a forma que assume o relato. O livro tem duas partes. A primeira, "O jardim dos caminhos que se bifurcam", contendo um prólogo, apresenta textos que foram, muitos deles, já editados em jornais e revistas. A segunda, também contendo um prólogo, "Artifícios", insiste na ideia de colocar em evidência o caráter experimental da estética do texto:

O jardim dos caminhos que se bifurcam: uma das mais importantes narrativas do autor no que se refere a falar de uma de suas metáforas preferidas: o labirinto. O protagonista do conto está sendo perseguido e foge para o lugar onde viveu seu descendente, um rei que disse que se ausentaria do mundo para construir um labirinto e escrever um livro. Contudo, o que o leitor não perde por esperar, é a relação dessa história com a do próprio protagonista.

A biblioteca de Babel: o autor fala do mundo como se este fosse uma biblioteca, tendo um dos mais impressionantes começos literários da história da literatura: “O universo (que outros chamam a  Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e  infinito, de galerias hexagonais, com vastos postos de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas".

Pierre Menard, autor do Quixote, a falsa resenha da obras de um escritor de ficção francês recentemente falecido, que se envolveu na tarefa complexa e fútil de reescrever Dom Quixote, de Cervantes. Não se trata de copiar o romance, mas de repetir o livro com o intuito de fazê-lo coincidir, palavra por palavra e linha por linha com o original. Trata-se da total aniquilação da personalidade. Se Menard tivesse conseguido reescrever o Dom Quixote, teria sacrificado sua individualidade artística à tarefa, ao mesmo tempo que teria roubado Cervantes de seu status de autor único do grande clássico; o sucesso de Menard equivaleria então à destruição da criação original, tornando a criação um conceito arbitrário, podendo, no futuro, qualquer obra ser escrita por qualquer autor.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius é uma paródia do idealismo filosófico do bispo Berkeley, na qual os membros de uma sociedade secreta dirigida por um milionário chamado Ezra Buckley inventam um planeta imaginário chamado Tlön, cujos habitantes carecem de qualquer senso nato da existência de uma realidade física externa a suas consciências. Numa série de brilhantes manobras cômicas, Borges esboça as consequências desse idealismo congênito para as línguas, as ciências, a matemática, a literatura e as religiões de Tlön. Nesse conto se reconhece várias estratégicas narrativas, uma delas, apagar os limites entre o verdadeiro e o imaginário. O leitor fica confuso se o que lê é invenção ou realidade. É a busca de um livro inexistente. Nesse livro, há um verbete que fala de Ukbar. Postula uma ideia de que o livro é um mundo e o mundo é o livro. O  mundo não é uma condição de possibilidades de um livro, mas o livro pode ser uma condição de possibilidade do mundo.

As ruínas circulares, o protagonista é um homem cinza que chega a um templo circular dedicado ao deus do fogo. O homem pede à divindade o poder de sonhar um filho e inseri-lo no mundo real. Seu desejo é concedido e ele sonhará um filho que todos tomarão como real, exceto o deus do fogo e o próprio sonhador, que saberão que sua criatura é, na verdade, um fantasma imune ao fogo. O homem cinza sente uma espécie de êxtase, uma vez que o propósito de sua vida parece ter se realizado. Pouco depois, porém, um incêndio destrói o templo, e o homem cinza descobre que não é afetado pelas chamas. Percebe, então, que ele, como seu filho é um fantasma: outra pessoa o está sonhando.
A loteria da Babilônia toma a ideia banal de que a vida é uma loteria e inventa uma situação em que é impossível dizer se as vidas dos babilônios são governadas pelo acaso ou pelos desígnios de uma companhia secreta.
Em A morte e a bússola, o detetive Erik Lönrot está investigando o homicídio de um judeu estudioso de Cabala. Um estranho conflito o impele a procurar o assassino por um processo de pura razão. Porém, Erik está, na verdade, sendo manipulado por seu arqui-inimigo, um criminoso judeu chamado Red Scharlach, que planeja secretamente atrair o detetive para a morte, aprisionando-o num labirinto de pistas enganosas.

O sul e O fim tratam do duplo, quando é preciso fazer uma escolha que contempla um deles. Em O Sul, o protagonista é Juan Dahlmann, um residente de Buenos Aires de origem mista germano-protestante e argentino-católica, que se sente profundamente argentino por ser neto de um herói da guerra da Independência. Embora as propriedades da família tenham se perdido há muito tempo e ele tenha um emprego público modesto na cidade, conseguiu salvar a sede de uma estância nos pampas ao sul de Buenos Aires. Na segunda parte da história, o encontramos tomando um trem para ir visitar a mansão, mas o trem para inesperadamente no meio do campo, e enquanto espera num armazém, recebe provocações de um grupo de peões. Sem saber como reagir, subitamente resolve enfrentar o desafio de um compadrito (equivalente ao nosso gaúcho a pé, banido do pampa) depois que um velho gaucho lhe joga uma adaga.

O fim descreve o final de Martín Fierro, relatando o duelo final entre o protagonista e El Moreno, o irmão de um gaucho negro que Fierro havia matado numa briga de bar na primeira parte do famoso poema. Dessa vez, porém, é Fierro que é morto, mas a morte do protagonista não oferece, no fim, uma resolução clara da ação: quando mata Fierro, o negro assume o destino de sua vítima e as identidades aparentemente contrárias de assassino e assassinado se dissolvem, abrindo a história para uma progressão potencialmente infinita. A ação é observada por um terceiro personagem, testemunha totalmente passiva, por causa de um derrame.

Tradução de Carlos Nejar
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Jorge Luís Borges. Ficções. Porto Alegre, Editora Globo, 1969, 158 pp.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

39. A náusea

Sartre (1905/1980)  sempre conservou, durante toda sua vida, a junção entre os temas filosóficos e condição humana, através da literatura. A Náusea, lançada em 1938,  é o romance que o levou à notoriedade. O título inicial era Melancolia, mas por sugestão do editor, Sartre optou por A Náusea. O romance é importante, na obra de Sartre, por ser a primeira a desenvolver o tema que aparecerá no restante de sua obra ficcional: o existencialismo. Está escrito em forma de diário, para dar verossimilhança ao personagem.

O personagem central é um historiador que viajou muito. Recolheu-se à cidade de Bouville para escrever o retrato de um marquês do século XVIII, Rollebon. Como nessa cidade havia arquivos importantes sobre o biografado, mudou-se para lá. Em sua convivência no local, vai aos poucos se desinteressando pela existência de Rollebon, por considerá-lo um personagem de si mesmo, alguém que não é ele mesmo, e abandona a função de historiador, que passa a considerar uma subordinação ao real, ao acontecido, e vai dar asas à liberdade através da ficção.
O encontro do historiador consigo mesmo é o encontro com a liberdade, e isso acontece de forma dramática, pois é o encontro com a contingência, isso é, nada na vida é premeditado. Ocorrem ao acaso. A existência é gratuita.

O livro é muito teatral, com cenas surrealistas, com personagens caricatos, simbólicos, como o Autodidata, que adquire cultura na biblioteca da cidade, lendo autores pela ordem alfabética, sem um objetivo pré-determinado. A moça do rendez-vous representa a caricatura do sexo, a banalização da vida amorosa e das relações humanas. Os casais que vão ao restaurante almoçar, namorar e comer, são falsos, constituem uma imagem projetada, estereótipo, uma tentativa de marcar uma essência humana e não viver a existência em seu decurso gratuito.

A namorada que ele encontra no final do livro, na esperança de retomar um amor perdido, diz respeito ao valor do instante. Ela tem uma característica de viver o instante em toda sua intensidade, mas perdeu isso com o tempo, idealizando-o.  Quando se separam, o personagem toma consciência de que cada um tem a sua história. E supera a náusea, a contingência de existir, ao ouvir uma música que ele considera perfeitamente acabada, como a vida deveria ser, mas não é. Vai escrever um livro de ficção, onde a liberdade apareça.

Sartre debruça-se em A Náusea, sobre a filosofia da existência, onde não existe uma essência humana à qual os exemplares estão determinados, existe o homem existente em sua contingência e sua gratuidade, ao contrário da figura idealizada que o pensamento burguês supunha.

O romance é anterior a O ser e o nada (se o homem existe, Deus é nada; se Deus existe, o homem é nada) e ao O que é literatura?, onde se propôs a responder em que medida a literatura deve ater-se à vida circundante e, a seu modo, refleti-la e procurar transformá-la. Mas contém, em essência, aspectos das duas obras filosófico literárias.

Tradução de Rita Braga
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Jean-Paul Sartre. A náusea. Rio, Nova Fronteira, 2006, 222 pp.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

38. O grande Gatsby

Quanto vale um homem sem o seu dinheiro? Para a sociedade norte-americana da década de 1920, nada. Gatsby, sujeito obscuro, que não se deixa inteiramente conhecer, já que é visto sob o ângulo de Nick, seu vizinho com quem manteve curta amizade, como um espectador sóbrio e isolado das próprias festas. Gatsby era de origem humilde e se apaixonara por uma moça rica de Nova Iorque. Ela casa com outro, Gatsby fica rico e decide investir novamente nessa mulher. Acaba morto de forma equivocada, tentando protegê-la. É quando Nick, o vizinho que nos conta sua história, percebe que o mundo de pessoas que frequentava suas festas suntuosas, não estavam interessados em nada mais que a futilidade proporcionada pelo dinheiro.

Nas noites de verão, a música irradiava da casa de seu vizinho Gatsby. Em seus jardins suntuosos, homens e mulheres iam e vinham feito mariposas entre sussurros , champanhe e estrelas. Nas tardes de maré alta, ele observava os convivas mergulhando no alto de sua balsa, ou tomando sol nas areias quentes de sua praia particular, enquanto barcos a motor cortavam as águas, puxando esquiadores aquáticos por entre cataratas de espuma. Nos fins de semana, seu rolls-royce virava um lotação, transportando convidados das nove da manhã até depois da meia-noite, enquanto sua caminhonete zunia feito um inseto amarelo e ligeiro no encalço de trens. E às segundas-feiras, oito empregados, incluindo um jardineiro extra, trabalhavam o dia todo com esfregões, escovas, martelos e tesouras de jardinagem, reparando os destroços da noite anterior.

Nick é um espectador em busca de um astro. Vê Gatsby como modelo bem sucedido. Os dois formam uma amizade que contempla diálogos em que Gatsby mostra sua insegurança legada de sua origem nebulosa.

Tradução de Vanessa Barbara.
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F. Scott Fitzgerald. O grande Gatsby. SP, Pinguin Companhia, 2011, 256 pp

domingo, 29 de janeiro de 2017

37. São Bernardo

Graciliano Ramos viveu entre 1892 e 1953. Durante esse período conviveu com duas guerras mundiais, duas revoluções socialistas, o nazismo de um lado e o stalinismo de outro. No Brasil, 1937, instaura-se em 1937o Estado Novo de Getúlio Vargas e um regime ditatorial que predomina até 1945.  Um ano antes do Estado Novo, Graciliano foi preso e conduzido à prisão de Ilha Grande, no Rio, durante um ano. Até sua morte, em 1953, nunca soube oficialmente por que havia sido detido. Era filiado ao Partido Comunista desde 1945.

Graciliano Ramos se distancia dos demais contadores de histórias da época, como Jorge Amado e Érico Veríssimo, por apresentar uma escritura sofrida, trabalhada à exaustão, onde cada palavra tem um peso, numa prosa extremamente elaborada. Sua obra principal  é condensada em um curto período: Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas Secas (1937). Os três últimos romances constituem suas obras-primas.

São Bernardo é contado em primeira pessoa, o narrador-personagem está situado no presente de sua solidão, rememorando os fatos do passado, entregando-se ao doloroso exercício de enfrentar a verdade sobre si mesmo Quando decide contar sua história, Paulo Honório já se encontra viúvo e sozinho. Está com cinquenta anos. A certidão de nascimento não confirma pai nem mãe. Fora criado pela velha Margarida, que vendia doces. Cedo, rolou pelo mundo, trabalhando como lavrador. Aos 18 anos esfaqueou um homem e foi preso. Quando saiu da prisão, decidiu que queria ganhar dinheiro.

De posse de um capital inicial, empenha-se na compra da fazenda São Bernardo. Aproveita-se da fraqueza do filho de seu antigo patrão e, de forma esperta, faz uso de todas as atitudes escusas possíveis. De posse da fazenda, passa a invadir partes de terras alheias para ampliar sua propriedade. Consolidada a posse, era preciso casar-se para ter um herdeiro. 

Numa das visitas que faz à cidade, conhece Madalena, jovem de 27 anos. Não era bem a mulher que procurava, mas decide investir em Madalena. A moça era professora primária e só tinha como família a tia Glória, que a criara desde pequena. Levada a pensar na proposta de Paulo Honório, Madalena, pensando na proteção e segurança que aquele senhor de terras lhe poderia garantir, aceita casar-se, levando a tia junto para morar na fazenda.

Os dois têm um filho, apesar da relação conflituosa entre os dois. Paulo Honório é seco, autoritário e possessivo, trata seus funcionários como bichos. Madalena é doce, compreensiva e altruísta. Toma o partido dos humilhados e ofendidos, exige melhores condições de vida e de salário para seus funcionários enfurecendo o marido. Letrada, Madalena passa a conversar com Padilha, o professor da região que morava na fazenda e com amigos que visitavam a fazenda. Inseguro, sem conseguir apossar-se da vontade da esposa, passa a ter ciúmes doentios que acabam por levar Madalena ao suicídio.

Paulo Honório é um homem agreste, egoísta e cruel,  que não consegue compreender a mulher, pois é incapaz de senti-la em sua integridade humana e em sua liberdade, e a considera apenas como mais uma coisa a ser possuída. A crise reside na incompatibilidade de conviver quando um indivíduo não reconhece nem aceita a diferença representada  no outro. Paulo Honório não admite a livre expressão da esposa, a competência dela o faz sentir-se inferiorizado, reagindo, assim, de modo impensado, por meio de um ciúme doentio que o leva a duvidar da fidelidade de Madalena.

Interpretado pelo que representa de crítica social, Paulo Honório representa a modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante  dos meios e se apossa do que tem pela frente.

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Graciliano Ramos. São Bernardo. 71ª ed., Rio, Record, 2001 224pp

domingo, 22 de janeiro de 2017

36. O homem sem qualidades

O homem sem qualidades é uma obra híbrida: contempla ensaísmo e narração. Seu processo de criação foi lento e exigente. Em 1906, Robert Musil (1880/1942)   já tinha anotações sobre a estrutura do livro, que é publicado em 1930, a primeira parte. Em seguida, por pressão dos escritores, edita a segunda parte. A terceira parte, inacabada, foi publicada após sua morte, em 1942, pela viúva do autor. A edição brasileira contém as três partes do livro.

A proposta do autor era contar como o homem normal nasce e se coloca diante da realidade empírica sem se deixar submeter a uma razão opressora. O ser que não tem qualidades próprias, que não sabe o que é, que só se conhece no cumprimento de tarefas. Diante disso, busca saber como pode adquirir o autoconhecimento diante da modernidade. Embora escrito entre a primeira e segunda guerras mundiais, não se trata de um livro histórico, nem um manifesto contra o nazismo. O que o escritor austríaco se propõe é narrar a utopia de Ulrich, de criar um mundo à parte.

Ulrich, o homem sem qualidades, é alguém que se propõe a  tirar férias da vida. Não tem uma profissão definida, não tem família e sente que vive num mundo de qualidades que são impostas a ele. A história começa em 1913 em dois mundos paralelos, o da reflexão do protagonista e o mundo dos eventos. No mundo dos eventos, existe uma trama paralela, a ação patriótica para comemoração do jubileu de coroação do imperador austríaco, em 1918. Aparecem as mais diferentes personalidades da aristocracia. Ulrich é secretário desse comitê, que não chega a lugar nenhum.

Em contrapartida, há a figura de Moosbrugger, um assassino que chama a atenção de todos pelo crime de matar sua mulher. A intenção da sociedade é eliminar esse elemento, através da condenação à morte. Mas o grupo liderado por Clarisse e Walter, amigos de Ulrich, é estudar uma terceira via para o destino do assassino.

Na segunda parte há também uma relação quase incestuosa entre Ulrich e a irmã Ágatha, que surge quando decide separar-se do marido, aplicando-lhe um golpe no testamento deixado pelo pai.  A aproximação de Ulrich com a irmã é uma forma de tentar dar uma continuidade dos acontecimentos que giram em torno de sua existência. Uma forma de recuperação.
Ulrich é um homem bastante à frente de seu tempo. Provara ter espírito forte e aguçado. Sempre sabe o que deve fazer, sabe olhar nos olhos de uma mulher, sabe refletir bastante sobre qualquer coisa a qualquer momento. Talentoso, isento de preconceitos, corajoso, resistente, destemido, prudente.

Essas qualidades, entretanto, ele não as tem. Elas fizeram dele aquilo que ele é, e determinaram seu caminho, mas não lhe pertencem. A uma coisa, Ulrich opõe outra. Para ele, nada é sólido. Tudo é mutável, parte de um todo que ele ainda não conhece integralmente. Assim, todas suas respostas são respostas parciais, cada um de seus sentimentos um ponto de vista. Para ele, não importa o que a coisa é, mas como é. O adjetivo  "homem sem qualidades" deve ser visto nesse sentido. Um caráter sem caráter nenhum.

Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth

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Robert Musil. O homem sem qualidades. Rio, Nova Fronteira, 1989, 872 pp.

domingo, 15 de janeiro de 2017

35. Duas obras primas de Faulkner

 O Som e a Fúria (1929) conta a história da decadente família Compson no cenário quase sempre presente nas obras do autor, o Condado de Yoknapatawpha, a partir de quatro narradores diferentes, três deles irmãos: Benjy, um idiota que não fala e cujo pensamento é expresso pelos sentidos, especialmente o olfato; Quentin, o irmão estudado, frequenta a Harvard e nutre um amor incestuoso pela irmã Caddy; Jason, o irmão ressentido que luta contra o tempo e a falência da família; e um narrador onisciente, presente na última parte do livro. “O Som e a Fúria” aborda temas como incesto, suicídio, doença metal, família, conflitos raciais, situação histórica do sul dos Estados Unidos.

Caddy é a menina dos olhos de cada narrador, relacionando-se com os três irmãos por diferentes graus: Benjy, o idiota, chora quando Caddy usa perfume, deturpando seu cheiro natural, ao mesmo tempo em que ela é a única a lhe dedicar atenção; já o amor incestuoso de Quentin pela irmã pode representar um amor eterno, imperecível, e acima da carne, mas deturpado pelo desejo físico; o desagradável irmão Jason tem uma inescrupulosa busca por dinheiro, extorquindo dinheiro de Caddy.  Jason  buscava sempre uma oportunidade de enriquecer sem precisar trabalhar.
O leitor talvez vá precisar de um pouco de calma para ler “O Som e a Fúria”, pois a narrativa, fazendo usa da técnica do fluxo de consciência,  pode levá-lo a nem sempre saber o que aconteceu. Mas nem por isso sua leitura será desagradável. O esforço de seguir adiante é extremamente recompensador. E também convidativo para uma segunda leitura, talvez até mais prazerosa. Isso não é pedir muito, já que essa pode ser a “história contada por um idiota” mais surpreendente que você tenha a oportunidade de ler.
Há um apêndice sobre a linhagem da família Compson até o seu final.

Tradução de Paulo Henriques Britto

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William Faulkner. O som e a fúria. SP, Cosac Naify, 2004. 336 pp.



Luz em agosto (1932) se passa no condado imaginário de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos. A narrativa começa numa estrada do Alabama, onde uma jovem grávida, Lena Grove, busca carona para chegar a Jefferson, à procura de Lucas Burch, o pai de seu filho. Contando com a generosidade de agricultores da região, Lena consegue chegar a Jefferson, e acaba sabendo que no moinho da cidade trabalha um homem que talvez possa ser Burch. Esse homem, na verdade, é Byron Bunch, que se propõe a ajudá-la a encontrar esse rapaz, que ele julga ser Joe Brown. Brown vive em uma cabana na propriedade de Joanna Burden, sobrevivente de uma família de abolicionistas, em companhia de Joe Christmas, que mantém um relacionamento com a tal mulher. Christmas, apesar de ter pele clara, ser órfão e desconhecer qualquer fato de sua descendência, acredita que tenha sangue de negro. Por isso viveu, até o momento da trama, fugindo de seu passado.

A época da narrativa ocorre no calor intenso de agosto,  no final do século XX, época da Lei Seca. Brown e Christmas aproveitam-se disso para contrabandear whisky para ganhar mais dinheiro. Numa noite, há um incêndio na propriedade de Joanna Burden (Luz em agosto), na cabana onde viviam Brown e Christmas. Descobrem, então, que a dona da casa havia sido assassinada e a culpa recai sobre Christmas que foge dali e é caçado impiedosamente até ser executado por um soldado do exército. Brown, preso na ocasião do incêndio, responsabiliza Christmas pelo assassinato e é mantido preso. A partir de então, Byron Bunch, que já estava apaixonado por Lena, arranja um encontro entre o preso e a jovem. Brown acaba desaparecendo de forma obscura.

Há outro personagem interessante na narrativa, Gail Hightower, ex ministro metodista, forçado a se demitir depois que descobriram que sua esposa mantinha um caso extraconjugal numa cidade vizinha, e cometera suicídio após o escândalo. Gail recusa-se a sair de Jefferson, vive uma vida miserável e mantém longos diálogos com Byron sobre a miséria da existência humana.

Faulkner mantém um suspense narrativo de primeira, prendendo a atenção durante todo o livro.

Tradução de Celso Mauro Paciornik
          
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William Faulkner. Luz em agosto. 2ª ed., SP, Cosac Naify, 2007, 448pp


domingo, 8 de janeiro de 2017

34. Macunaíma

No meio da mata virgem, às margens do Uraricoera, uma índia tupinambá pare um menino preto retinto e feio, chamado Macunaíma. Passou seis anos sem falar, e quando o incitavam a fazê-lo, dizia: "Ai, que preguiça!" Sempre foi muito ativo e a coisa que mais gostava de fazer era "brincar" com as índias no rio. Tinha dois irmãos mais velhos, Maanape e Jiguê, este tinha uma mulher, Sofará. Um dia, Macunaíma transforma-se num belo príncipe e brinca com a cunhada, causando a ira de Jiguê, que a manda embora, casando-se com Iriqui, que também brinca com Macunaíma. A Jiguê não resta outra alternativa, a não ser se conformar.

Um dia, a cutia lhe dá um banho de água de mandioca envenenada e Macunaíma se transforma em homem, mas a cabeça, que não havia sido molhada, permanece pequena. Quando sai à caça, certo dia, mata acidentalmente uma veada com a cria. O animal era a mãe do herói, transformada em veada por Anhangá. Todos choram a morte da mãe e decidem sair por este mundo afora. No caminho, Macunaíma possui Ci, a Mãe do Mato, rainha das amazonas. Ci acompanha Macunaíma na viagem, dá à luz um menino de cor encarnada e cabeça chata. O menino, ao chupar o seio da mãe, que havia sido mordido por uma cobra preta, morre. O menino é enterrado, Ci entrega a Macunaíma uma muiraquitã e vai para o céu , subindo por um cipó. Quando o herói visita o túmulo do filho, no dia seguinte, vê que sobre ele nascera uma planta, o guaraná.

Nas muitas andanças e peripécias de Macunaíma, este acaba perdendo a pedra muiracitã, que havia sido encontrada por um homem que o vendera a Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã. Macunaíma descobre o paradeiro da pedra e decide, com os irmãos, ir para São Paulo, onde morava o gigante, para tentar recuperar a pedra. No final da rapsódia, Pietro Pietra acaba caindo em caldeirão de macarronada, a pedra é recuperada e Macunaíma volta ao Uraricoera. No final, a tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaima subira aos céus transformado na estrela Ursa Maior. Só restara o papagaio no silêncio do Uraricoera, preservando do esquecimento o caso e as falas desaparecidas sobre o herói de nossa gente. O papagaio foi quem contou tudo ao homem, Mário de Andrade.

Macunaíma é a obra síntese do Modernismo brasileiro. Publicada em 1928, seis anos depois da Semana de Arte Moderno, é representativa da miscigenação das diversas culturas que formam o Brasil. De posse da muiraquitã, no final da história, os irmãos retornam ao lugar de origem, carregando na canoa objetos de diversas procedências, como um casal de galinhas Legorne, um revóver Smith Wesson e um relógio Pathek Philipe, símbolos da cultura estrangeira, indicadores dos valores capitalistas transportados ao lugar de origem, compondo o perfil do herói sem nenhum caráter. O termo sem caráter, aqui, longe de ter o significado de indivíduo de moral duvidosa, representa a síntese da alma brasileira forjada através de uma cultura transplantada e adaptada ao mundo moderno, com o advento do capitalismo que chegou ao Brasil no início do século XX, para o bem ou para o mal. O antropofagismo cultural surgido com a Semana de Arte Moderna significa que, para haver avanço cultural, é necessário assimilar tudo de novo que vem de fora, miscigenando-o à cultura já existente, em vez de negá-lo.

A edição que eu li é a sétima, da Martins Editora, de 1972. Há edições recentes da Civilização Brasileira e da Penguin Editora, por preço baixo.

      

                                                       paulinhopoa2003@hotmail.com

domingo, 1 de janeiro de 2017

32. Mrs. Dalloway

O romance de Virgínia Woolf, publicado em 1925, retrata um dia na vida de Clarissa Dalloway, preparando a festa de seu aniversário. O tempo cronológico compreende o período em que ela sai de casa para comprar flores para enfeitar a casa, até o final da festa, no final da noite. O que movimenta o romance, entretanto, é o tempo interior dela e dos personagens que ela encontra pela rua, alguns deles participarão da festa, e de personagens que surgem à memória dela e deles evocados pelas situações cotidianas de cada um.

Clarissa Dalloway, ao sair de casa, pela manhã, está inebriada pelo gosto da vida, tudo ao seu redor evocam-lhe sensações doces, desde o movimento dos carros, o aroma dos parques com o canto dos pássaros, as cores da cidade, o céu incentivador de coisas boas. Mesmo as situações embaraçosas, como o encontro com Peter Walsh, que a amou na juventude e foi desprezado de forma deselegante por ela. Isso a faz pensar sobre a escolha de Richard Dalloway, o marido; depois Septimus, que ela vê na rua em situação de abandono, perturbado mentalmente em decorrência da Primeira Guerra; a lembrança de Sally Seton, por quem foi atraída e pensa, agora, que talvez pudesse ter sido amor; a chegada em casa e a notícia dada pela criada, de que o marido fora almoçar com uma amiga que não a convidou; o diálogo com a filha Elizabeth, que esboça o desejo de não querer participar da festa, nada disso pode querer fazer de Clarissa uma pessoa infeliz. Será?

A festa de Clarissa nessa noite é um lento sucesso. Nela comparece a maior parte dos personagens que ela encontrou durante o dia, incluindo pessoas do seu passado. Ela ouve falar na festa sobre o suicídio de Septimus, que havia sido internado naquela tarde em um hospital psiquiátrico,  e gradualmente passa a admirar esse ato alheio, que vê como uma tentativa de preservar a pureza da sua felicidade.

O romance tem dois focos narrativos envolvendo dois personagens diferentes: Clarissa Dalloway e Septimus Smith. Em cada narrativa há um determinado tempo e lugar do passado aos quais os personagens principais recorrem com frequência nas suas mentes. Virgínia Woolf mostra o pensamento de Clarissa, no uso de um tempo verbal onde aparentemente as coisas que se movem em um mesmo plano, avance  tão  lentamente, que provoque no leitor a impressão de estar sendo absorvido para o interior deste texto. Esse tempo lhe invade a mente durante todo o dia em Londres,  apresentando-se como a ser disputada por vários pretendentes em sua juventude. Para Septimus,  esse presente prolongado apresenta-se como o tempo em que era soldado durante a Primeira Guerra Mundial, principalmente na forma de Evans, seu companheiro falecido.


Há uma edição recente de Mrs. Dalloway, com tradução de Mário Quintana, pela Civilização Brasileira. A Cosac Naify tem uma tradução de Cláudio Marcondes, que você encontra em ebook ou nos sebos, o livro físico. A Abril Cultural apresenta o romance, junto com Orlando, edição esgotada encontrável nos sebos. Também há a tradução de Tomaz Tadeu, pela editora Autêntica.

domingo, 25 de dezembro de 2016

31. Orlando

Virginia Woolf tem duas obras-primas da literatura universal: Orlando e Mrs. Dalloway, o que torna quase impossível sobrepor uma em relação a outra, por critérios de valores. Clarissa Dalloway mergulha num fluxo de consciência durante o dia em que prepara a festa de seu aniversário. Orlando, que não se utiliza da mesma técnica narrativa, narra a história do jovem inglês, nascido na Idade Moderna e que, durante a mudança que fez à Turquia, acorda mulher. Dotada da imortalidade, a vida de Orlando é narrada durante 350 anos, até 1928, ano da publicação do romance.

 Orlando era desajeitado e um pouco distraído. Uma vez, apaixonou-se por uma princesa moscovita e sua vida tornou-se mais dinâmica. Tinha cada vez menos cuidado de ocultar seus sentimentos. Mas um dia a princesa embarca, de volta à Rússia, e Orlando cai em profunda melancolia.

Aos trinta anos, já tinha passado por todas as experiências que a vida oferece e verificado a inutilidade de todas elas. Amor e ambição, mulheres e poetas eram igualmente vãos. A literatura, uma farsa. Numa noite, queimou quase todas as suas obras poéticas, guardando apenas O Carvalho, que era seu sonho de adolescente. O mundo com toda a sua variedade, a vida, com toda a sua complexidade, se reduziram a duas coisas só: os cães e a natureza.

Assim, persuadido de que sua casa e sua vida não lhe diziam mais nada, pediu ao Rei que o enviasse como embaixador extraordinário para Constantinopla.
Assim, os dias de Orlando na Turquia passava-se de forma rotineira, levantava-se cedo, envolvia-se num longo casaco turco, acendia um charuto e fincava os cotovelos no parapeito, mirando a cidade a seus pés, num aparente êxtase.

Sabe-se muito pouca coisa de Orlando em Constantinopla. Um acontecimento inesperado, entretanto, ocorreu em uma noite em que se despiu para dormir, ao som das trombetas, e quando acordou, transformara-se em mulher. A mudança de sexo, entretanto, não alterara sua identidade. Seu rosto permanecia praticamente o mesmo. Sua memória podia remontar através de todos os acontecimentos da vida passada, sem encontrar nenhum obstáculo. A mudança parecia ter-se produzido sem sofrimento, e completa, e de tal modo que o próprio Orlando parecia não estranhar. Muita gente, à vista disso, e sustentando que a mudança de sexo é contra a natureza, esforçou-se em provar, primeiro: que Orlando sempre tinha sido mulher; segundo: que Orlando foi homem até os trinta anos; nessa ocasião, tornou-se mulher, e assim ficou daí por diante.

Tornando-se mulher, Orlando adquire a imortalidade, atravessando 350 anos de vida, até o dia 28/03/1928, quando se encerra sua biografia.


Há uma tradução de Orlando pela Penguin?Companhia, com tradução de Jorio Dauster. Há outra edição pela Autêntica, com tradução de Tomaz Tadeu. A edição que eu li teve tradução de Cecília Meireles, pela Editora Abril/Civilização Brasileira, de 1972. Junto com o volume vem Mrs. Dalloway, com tradução de Mário Quintana.

domingo, 18 de dezembro de 2016

30. Ulysses


Ulysses é um romance com personagens simbólicos, realizando ações simbólicas realizadas, entretanto, num mundo real, Dublin do dia 16 de junho de 1904. Trabalhando intensamente o monólogo interior, o irlandês judeu Leopold Bloom vive uma odisseia moderna no decorrer desse único dia. Além dele, aparecem com destaque sua esposa, Molly Bloom e seu amigo Stephen Dedalus. Este representa a identidade oculta de Joyce, não só neste romance, mas em  Retrato de um artista quando jovem, em que narra a infância e juventude de Stephen Dedalus até sua ida à escola, como interno.

O romance de 1112 páginas retrata uma viagem ao mundo interior caótico de Leopold Blum, parodiando a Odisseia de Homero: Ulisses (Leopold), Telêmaco (Dedalus) e Penélope (Mary Bloom). Há outros personagens do romance de Joyce que fazem referências às personagens da obra de Homero.  Joyce faz uso da paródia, como uma técnica narrativa para desfigurar as obras-primas do passado, fazendo um ataque à própria literatura. Ulysses tem um tom jocoso, satírico.
Leopold Bloom, um homem comum, judeu mas batizado como católico, é casado há 16 anos com Molly, cantora de talento, linda e cobiçada. Os dois tiveram um filho morto  depois de 11 dias de nascido. Esse acontecimento afeta a vida dos dois para sempre.  Eles têm, ainda, uma filha de 15 anos que vive fora de casa, devido a atritos com a mãe.

No dia 16 de junho de 1904, Bloom sai cedo de casa para acompanhar o enterro de um conhecido. Ao voltar do enterro, vai ao centro da cidade até o jornal para os quais presta serviço  publicitário. Feito isso, poderia voltar para casa, mas ele não quer que isso aconteça, por enquanto. Daí começa, então, sua odisseia que dura 18 horas, em busca de pretextos para estar na rua até que tenha certeza de que, ao chegar em casa, sua mulher esteja dormindo. É que eles estão em crise e Bloom sabe que, durante a tarde, ela irá receber um amigo, Boylan, que ele pensar ser amante dela. A história ganha fôlego ao retratar, também, a vida de Stephen Dedalus  e de Molly, que apresenta no final do romance um longo monólogo interior. Além dessas três vozes, há inúmeras outras vozes que se fazem ouvir, tornando a narrativa interessante, mas ao mesmo tempo complexa.

O objetivo de Joyce, em Ulysses, talvez tenha sido o dar uma forma e um significado ao imenso panorama de futilidade e anarquia que é a vida contemporânea.  É uma ficção construída em cima de estruturas de um mito. Leopoldo Bloom é um cara que sabe sentir, mas que muitas vezes não tem capacidade de se expressar. Quando consegue a capacidade expressiva, desaprende a do sentir. Bloom sofre de uma solitária falta de articulação, numa verborragia aparentemente sem sentido algum. As poucas ideias ou sentimentos únicos e de sentidos múltiplos são facilmente deformados em clichês convencionais. Quando Bloom observa, por exemplo uma lingerie numa vitrine, ele diz: "Perfume de abraços o todo assaltou. Com carne faminta e obscuramente, por adorar ardia mudo."
 Joyce apresenta Bloom como o homem andrógino do futuro. Mas não antes de definir as necessidades do homem moderno na figura de Stephen Dedalus, um jovem em fuga do machismo presunçoso do mundo da Dublin de seu pai. A personalidade de Bloom reflete um espelho partido de muitas faces. E esse eu que Joyce celebrou em Leopld, um sujeito culto e versátil, que combina inúmeras vidas passadas em sua própria vida.

Ulysses apresenta uma mudança de técnica narrativa a cada um dos episódios, aparentemente autônomos. A obra contém um quadro que discrimina, para cada episódio, uma cor, uma técnica narrativa, um símbolo, etc, além de atribuir horários e sentido a cada trecho do livro. Joyce teria elaborado esse quadro para facilitar o acesso dos amigos ao livro e a seus detalhes.

Há três traduções da obra em português no mercado: o linguista Antônio Houaiss apresentou a primeira tradução brasileira em 1966. Foi esta edição que tentei ler, mas parei na metade por não estar preparado ainda para as inovações formais de Joyce. Em 2007 saiu a tradução da professora Bernardina Pinheiro, pela editora Objetiva, à qual ainda não tive contato.  Em 2012 saiu a de Caetano Galindo, pela Penguin/Cia. das Letras, considerada a melhor.  É esta que eu li toda e recomendo aos leitores. Aos que se interessam por literatura de qualidade, recomendo o livro do próprio tradutor, Galindo, Uma visita guiada ao Ulysses de James joyce, que busca auxiliar na aproximação do leitor com a obra.

Tradução de Caetano Galindo
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James Joyce. Ulysses. SP Penguin/Companhia, 2012, 1112 pp. 

29. O Processo

O processo, de Kafka, que começou a ser escrito em 1914, é um dos melhores romances do século XX.

Josef K.,  procurador de um grande banco, ao acordar certa manhã, estranhou a demora da dona da pensão que servia seu café todos os dias. De repente, batem à porta,  entra um homem que ele nunca havia visto antes, acompanhado de mais duas figuras esquisitas. Josef K. estava sendo detido sem ter feito mal nenhum, certamente vítima de uma calúnia. De início, pensou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto arquitetada por motivos desconhecidos, talvez porque ele completasse 30 anos de idade; ou talvez os guardas que invadiram sua casa fossem serviçais da esquina, daí talvez estivesse correndo algum perigo.
Busca argumentar com os guardas o erro que estavam cometendo, mas o inspetor lhe adverte que ele e os guardas, na verdade, não sabiam nada dele. Por isso não saberiam dizer absolutamente nada a respeito do processo, pois desconheciam seu conteúdo. Josef K.  questiona como poderá trabalhar se está detido e fica surpreso ao ver que, na sala encontravam-se mais três pessoas, colegas de trabalho que ele mal reconhecia, que o acompanhariam ao trabalho para que continuasse a ter sua vida normal, até ser chamado para a primeira audiência.

Ao comparecer à primeira audiência, Josef K. se dá conta, diante dos absurdos que lhe são ditos e da manifestação dos presentes que formam duas torcidas, uma a favor dele e outra contra, que tudo aquilo fazia parte de uma organização que mobilizava não só guardar corruptíveis, instrutores e juízes simplórios, mas sustentava uma magistratura de grau elevado e superior, com seu séquito inumerável e inevitável de contínuos, escriturários, militares e outros auxiliares, talvez até de carrascos que consistia em prender pessoas inocentes, movendo contra elas processos absurdos sem nenhum fundamento. Josef K. se insurge contra o juiz e se nega a participar daquela farsa, abandonando a sala.

A partir daí,  com cada um que conversa, obtém alguma informação difusa do processo e de pessoas que sabem alguma coisa dele, ou dos responsáveis pela ação. Como não é chamado para uma segunda audiência, decide ir novamente ao local no domingo seguinte, e percebe que ali reside um casal de funcionários que, toda vez que há alguma intimação, têm de retirar suas coisas do local.
Depois, recebe em casa a visita dos dois guardas que o haviam admoestado na visita da intimação, para serem açoitados por um espancador, na frente de Josef K., como castigo por terem se portado de maneira inaceitável naquela ocasião. Depois aparece um tio do interior que também soube do processo e veio visitá-lo, com preocupações. 

E assim quase todos sabem alguma coisa do incidente. Decide consultar um advogado, que lhe diz coisas absurdas e sem sentido, quanto a sua defesa.
Josef K. não conseguia mais deixar de pensar no processo. Já tinha refletido com frequência se não seria bom redigir um documento de defesa e apresentá-lo ao tribunal. Queria expor nele um breve relato de vida e, a propósito de cada acontecimento relevante, explicar os motivos pelos quais tinha agido daquela maneira, se esse comportamento devia ser censurado ou aprovado segundo o seu juízo atual, e que razões podia invocar em relação a este ou aquele. As vantagens dessa defesa por escrito, diante da mera defesa através do advogado, de resto não de todo irrepreensível, eram indubitáveis.

E assim ele vai se enredando em uma situação absurda que prende a atenção do leitor até o final, no intuito de buscar compreender de que é acusado, quem o acusa, numa obra magnífica, segura de mistério, angústia, premonições e suspense.
O processo apresenta uma contradição fundamental que sustenta a obra, o paradoxo de que, quanto mais fantástica a aventura vivida, mais natural se apresenta a narrativa, porque por mais estranhos que sejam os fatos que envolvem as personagens, elas os aceitam com naturalidade e sem espanto. Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender. É nessa contradição que reside o segredo de Kafka; nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.

Tradução de Modesto Carone.
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Franz Kafka. O processo. SP, Cia. das Letras, 1997, 334 pp. R$ 19,10