domingo, 29 de março de 2015

O professor

Heliseu é um homem do século passado vivendo num Brasil contemporâneo. É um velho professor de Linguística, acorda de um sonho agitado no dia em que deve preparar um discurso de agradecimento na homenagem que receberá na universidade. No sonho, Heliseu era abraçado por um inimigo pegajoso que o agarrava de forma insistente buscando beijar seus lábios.

Esse sonho é o ponto de partida para o professor repassar sua história de vida. Nessa trajetória de revisitar sua memória, ficamos sabendo que Heliseu era especialista nos processos de construção e transformação da linguagem, mas não se comunicava com aqueles de quem era próximo. Passou a vida toda achando que levava uma vida normal com a mulher, até o dia em que ela se suicida, jogando-se da sacada do apartamento. Descobriu a  homossexualidade do filho, quando o surpreendeu com um amigo no quarto. Esse filho mais tarde muda-se para o Estados Unidos, casa-se com um americano e adotam um filho. Heliseu se dá conta de que nunca tivera uma conversa afetiva com o filho, abraçara-o uma única vez, no enterro da esposa. A velha empregada que o serve há muito tempo também lhe é estranha. Nesse dia em que se lembra da vida, pensa em convidá-la para tomarem café juntos, mas recua ante a possibilidade dela pensar algo de errado em relação ao gesto.

Heliseu foge da necessidade de reconhecer sua verdade, já que a verdade é o produto do medo da morte. Suas lembranças, mesmo as mais trágicas, passam-lhe pela mente como coisa corriqueira, negadas. É um covarde que aceita as derrotas como se as coisas fossem assim e pronto. 
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Cristóvão Tezza. O professor. 2ª ed, Rio, Record, 2014,  240 pp, 35,00

domingo, 22 de março de 2015

K. Relato de uma busca

Bernardo Kucinski (1937) esclarece o leitor em K. Relato de uma busca,  que "Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu". 

Um homem morou por tinta anos em uma casa e costumava receber de tempos em tempos  cartas de um banco com oferta de produtos financeiros  endereçadas a sua filha que nunca morou lá. De início, questionou como era possível enviar reiteradamente cartas a quem desaparecera há mais de três décadas. Sua filha tinha sido morta pelo regime militar e seu corpo nunca foi encontrado.  Por que teria ela dado esse endereço, se a casa havia sido comprada seis anos depois de seu desaparecimento? De fato, os fugitivos do exército que entravam para a clandestinidade não tinham lares fixos. Talvez ela tivesse dado aquele endereço ao banco como forma de se proteger.

Esse homem é K.,um imigrante judeu, professor emérito, escritor de livros em iídiche,língua que os judeus da Europa oriental falavam e  hoje é língua morta, substituída pelo hebraico após a criação do estado de Israel. Bernardo Kucinski descreve a agonia e a angústia desse um homem que vê a filha desaparecer subitamente, saber que casou no exílio como forma de se proteger ela e o marido em caso de fuga, sem que pudesse participar, bater em diversas delegacias e departamentos do exército e nunca ter uma resposta concreta de que a filha havia sido mesmo sequestrada, sem nunca saber se estaria viva ou morta.

Quem  acompanhou ou tem conhecimento do que foi o doloroso processo de perseguição aos presos políticos, vai reconhecer no livro personagens que remetem a figuras conhecidas do meio repressivo, a maior não nomeada, com exceção do delegado Fleury. Esses acontecimentos, entretanto, ganham fôlego maior pela força da ficção representada pelo personagem K.

O desaparecimento da irmã do escritor durante a ditadura militar serviu de mote para a construção dessa narrativa carregada se suspense, agonia e compaixão.
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Bernardo Kucinski. K. Relato de uma busca. SP, Cosac Naify, 2014, 192 pp, R$ 29,90

domingo, 15 de março de 2015

Confissões de uma máscara

  
Mishima narra em primeira pessoa a história de um jovem narcisista dividido entre a paixão platônica por rapazes e o amor frágil por uma jovem durante a idade adulta, até o final da segunda guerra mundial. Quando criança, o narrador morou com os pais na casa dos avós em condições precárias, pois o avô, comerciante promissor perdera quase tudo indo todos morar em uma casa alugada nos arredores de Tóquio, onde o menino nascera. O avô assume a educação do garoto, mesmo quando seus pais se mudam. Desde pequeno mostrou-se uma criança frágil de saúde. Um dia, quando vinha caminhando para casa de mão dada a alguém, viu um jovem carregando baldes de excrementos . Trazia um pano sujo enrolado em torno da testa. Seu rosto era bonito e corado. Era um limpador de fossas e vestia uma calça justa de algodão azul-marinho. Ainda que não pudesse perceber com clareza à época, pois tinha cinco anos, o menino havia recebido a revelação alegórica de uma força que se manifestava pela primeira vez na figura daquele limpador de fossas. O que lhe chamava, compreendeu mais tarde,  era o amor malevolente dos que se atraem por seus iguais: queria ser ele, queria ser  o outro. A imagem do jovem com sua calça justa azul-marinho movendo com perfeição seu corpo da cintura para baixo levou-o a adorar de forma inexplicável essa vestimenta, embora não entendesse bem por quê.  Mais tarde esses mesmos sentimentos passaram a se manifestar por jovens de outras profissões, onde o corpo do outro formava inconscientemente o desejo pelos iguais.

Na escola, teve alguns namorados platônicos, jovens que fugiam aos padrões normais de jovens estudiosos, mais velhos que ele. Mais tarde, quando jovem, vai  à casa de um desses "namorados" e conhece uma jovem adolescente frágil e delicada, que lhe impulsiona um outro tipo de atração, diferentemente da atração física: Monoko. A história dos dois vai até o final do romance, onde os dois não ficam juntos, pois o jovem não consegue definir claramente o que sente por ela. Paralelamente a isso, a presença da morte sempre lhe fez companhia também desde a infância. Durante a segunda guerra consegue insistentemente ingressar no serviço militar. Quando a guerra acaba o Japão imerge na miséria e a depressão passa a se manifestar nesse jovem sofredor e narcisista.

Conhecendo um pouco da vida de Mishima, percebe-se claramente traços autobiográficos no perfil do personagem atormentado de Confissões de uma máscara. Inconformado com o processo de ocidentalização do Japão após a segunda guerra, onde muitos de seus valores culturais foram subjugados à cultura ocidental, Mishima cria um movimento de contestação buscando preservar valores da cultura ancestral japonesa. Acabou cometendo suicídio durante um ritual previamente traçado como forma de protesto.

Tradução do japonês de Jaqueline Nabeta

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Yukio Mishima. Confissões de uma máscara. SP, Cia. das Letras, 2004, 200 pp. De 29 a 37 reais.

domingo, 8 de março de 2015

Divórcio em Buda


O escritor húngaro Sándor Márai (1900/1989) narra o Divórcio em Buda durante o período em que a Hungria já não pertencia mais ao Império Austro-Húngaro.  A capital Budapeste passara por transformações, perdera muito do poder econômico, a classe média passava por uma crise econômica, apesar de ainda existir uma burguesia mesclada com o que restara da antiga aristocracia austríaca. Kristóf Kömives, o personagem central, é um juiz austero que começava a emergir na sociedade húngara. Seu pai também havia sido um juiz famoso. Criado numa instituição católica depois da separação dos pais - a mãe abandonara o lar deixando os filhos com o marido, adquiriu uma personalidade conservadora calcada na moral e nos valores familiares.

Numa tarde (aí começa o romance), analisando os processos de divórcio, deteve-se em um deles, cujo casal em processo de separação ele já conhecia, apesar de, aparentemente, terem mantido durante anos um relacionamento superficial. Kristóf se atém a relembrar  quando os conhecera, primeiramente o marido, com quem havia estudado alguns anos no mesmo colégio e depois encontrava esporadicamente no meio social. Depois lembrou-se da esposa e da impressão que lhe causara durante esse tempo.

Saindo do escritório ele passa em casa para acompanhar a esposa em um dessas festas chatas de caráter burguês que não tinha apreço, mas comparecia por obrigação. Na volta ao lar, já tarde da noite, sabe pela empregada que há um homem no escritório que insistiu em esperar para falar com ele. Esse homem era o marido do referido divórcio. O diálogo entre os dois, revela uma situação inusitada: a mulher havia se matado há pouco e o juiz se vê envolvido nos fatos que lhe são narrados pelo homem desesperado.

Novela muito bem tramada, que prende o leitor até o fim da narrativa, Divórcio em Buda é um motivo excelente para o leitor que ainda não conhece a literatura de Sándor Márai, considerado um dos grandes do romance moderno ocidental.

Tradução de Ladislao  Szabo

                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Sándor Márai. Divórcio em Buda. SP, Companhia das Letras, 2003, 176 pp R$ 32,00

domingo, 1 de março de 2015

O simples coronel Madureira


Domingo... O seu jornal predileto continuava, aberta ou indiretamente, metendo o malho na situação - o preço dos transportes ameaçavam vertical subida, o preço dos gêneros de primeira necessidade não se estabilizavam ao menos, a carne desaparecia dos açougues, o pão das padarias e os remédios das farmácias, organizações estudantis eram fechadas e universidades interditadas, presos políticos eram seviciados, numerosos asilados permaneciam em embaixadas com dificuldades nos passaportes e nos inquéritos instalados cometiam-se os mais criminosos abusos.

O fato é que Madureira, que adorava tomar seu chimarrão todas as manhãs antes de cuidar de seu jardim e de passear com a mulher, recebera o convite do Alto Comando Revolucionário do Exército, para ocupar um cargo importante no Serviço Geral de Abastecimento de Lubrificantes. Com isso, Marques Rebelo nos revela uma deliciosa novela curta de 126 páginas que lemos com prazer. O que mais queria o coronel Madureira, que se aposentara do exército com uma vida boa, mas simples, era gozar a vida. Mas seu trabalho burocrático no tal órgão do exército expõe a ele um trabalho monótono, uma burocracia recheada de cargos nomeados por interesse, até que um dia ele recebe um ofício do Alto Comando, instruindo-o a denunciar todos os funcionários que manifestassem opiniões contrárias ao regime de governo imposto pelos militares.

Não deixa de causar surpresa o fato de O simples coronel Madureira ter sido publicado sem sofrer censura. A obra foi lançada em 1967, quando Costa e Silva assumira o governo, sucedendo Castelo Branco, a poucos dias do Ato Institucional, que restringiu os direitos civis e promoveu o golpe dentro do golpe.
               
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Marques Rebelo. O simples coronel Madureira. Rio, José Olympio, 2013, 126 pp R$ 24,00

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Orlando Furioso

Damas e paladins, armas e amores,
As cortesias e as façanhas canto
Do tempo em que o mar d'África os rigores
Dos mouros trouxe, e França esteve em                                        pranto;
Ira os movia e juvenis furores
De Agramante seu rei, disposto a tanto,
Que ousou vingar a morte de Troiano,
Em Carlos rei e imperador romano.

De Orlando, ao mesmo tempo, direi eu
O que nunca se disse, em prosa ou rima,
Que o amor o pôs em fúrias de sandeu
E lhe tirou de homem cordato a estima;
Isto, se a que igual fim quase me deu
E o pouco engenho me corrói qual lima,
Assentir em poupar-me em tal medida,
Que eu possa dar a obra prometida.

Orlando enlouquece de amor. O poema de Ludovico Ariosto foi escrito em 1516, na época do Renascimento, mas não é o retrato fiel do mundo suntuoso da Renascença: sua temática é medieval, seguindo a estética das histórias de cavalaria.  Ariosto seguiu a obra de Boiardo, Orlando Enamorado, publicado em 1486.

Orlando Furioso tem como protagonista o guerreiro cristão e sobrinho de Carlos Magno, Orlando, que chega à crise de loucura por amor da bela Angélica, princesa oriental. Com Orlando e Angélica, temos também o paladino Astolfo. Primo e companheiro de Orlando, Astolfo, depois de transformado em arbusto pela sedutora feiticeira Alcina, consegue voltar a ser quem era e salva Orlando da loucura, voando à lua para buscar-lhe o juízo. Num segundo momento surge  como protagonista, Rogério. Esse jovem guerreiro muçulmano fora criado pelo velho mago Atlante em um palácio posto no cume de montanhas altíssimas, onde o mágico saía voar em seu cavalo alado, Hipogrifo.  Rogério se enamora de uma cristã, a guerreira Bradamente, mas é também seduzido pela perigosa Alcina. Em torno dessas figuras, Ariosto vai criando muitas outras aventuras amorosas. Um terceiro núcleo se concentra nas batalhas entre cristão e muçulmanos.  Sobressaem aí  figuras como a do feroz capitão Rodomonte, que se voltará contra Rogério, e a dos amigos Cloridano e Medoro, este vencedor de Orlando na rivalidade amorosa por Angélica. Ariosto vai entretecendo vários fios, criando expectativas, deixando em suspenso uma aventura para passar a outra, no melhor estilo dos folhetins.

Orlando Furioso, assim como outras histórias famosas de cavalaria, serviram de inspiração a Cervantes, para criar o famoso cavaleiro Dom Quixote, na monumental obra homônima.

Introdução, tradução e notas de Pedro Garcez Guirardi, melhor tradução de 2003.
                                        
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Ludovico Ariosto. Orlando Furioso. 2ª ed, SP, Ateliê Editorial, 2004, 290 pp.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Três novelas femininas

Três novelas femininas, de Stephan Zweig apresentam uma trama muito bem amarrada, com um suspense crescente até o final. As protagonistas de cada uma das histórias cedem o direito de ser feliz, por causa do medo e covardia.  Na primeira novela, Medo, Irene, casada com um homem importante de Viena, ao sair da casa de um jovem pianista, seu amante, é abordada por uma mulher que se diz namorada do rapaz e lhe faz ameaças. Apavorada, Irene lhe oferece dinheiro e foge para casa. Dias depois, é abordada pela mesma mulher na rua, que lhe pede uma quantia considerada para manter-se calada.Depois, a mulher manda-lhe um bilhete pedindo mais dinheiro. Irene, acuada, cede. Por fim, a mulher invade sua casa e lhe toma um anel caríssimo. O marido lhe pergunta do anel e Irene inventa uma desculpa. Precisa de dinheiro para resgatar a joia, mas já não tem como consegui-lo. O final da história pega o leitor de surpresa.

Na segunda história, Carta de uma desconhecida, um escritor famoso recebe uma carta aparentemente anônima, de uma mulher que lhe narra acontecimentos envolvendo os dois desde a adolescência dela, sem que o escritor consiga lembrar-se de quem se trata, até o final da carta. A mulher decide lhe escrever, contando de sua paixão por ele desde jovem, dos encontros fortuitos durante a mocidade, até a aventura amorosa que originou-lhes o filho que ele desconhecia até então. A covardia dela reside no fato de nunca ter sido notada e nunca ter tomado uma atitude para lutar pelo amor do escritor. O final da história também é uma surpresa que deixará no leitor um tanto de pena e rejeição.

Na terceira, 24 horas na vida de uma mulher, acompanhamos o diálogo de uma viúva aristocrática de 67 anos com um jovem, após um acontecimento inusitado em um hotel de veraneio austríaco, um escândalo, envolvendo uma mulher casada que abandona o marido e os filhos no hotel para fugir com um jovem que conhecera naquele local. O fato causa sérias discussões entre os hóspedes acerca da postura moral da jovem adúltera, até que esse jovem, o narrador da história, decide não julgar a postura dos fugitivos sob o aspecto da condenação. Isso faz a viúva aproximar-se dele, criando confiança para contar um fato que envolveu 24 horas de sua vida e que trouxe a ela marcas profundas. Nesse caso, a senhora, que no relato tinha 44 anos, apaixona-se por um jovem viciado em jogo, depois de livrá-lo de provável suicídio. Ela toma uma atitude importante tarde demais, que no fim a leva a um desenlace decepcionante.

Stefan Zweig (1881-1942) era austríaco de origem judaica, oriundo de uma tradicional família aristocrática. Fugindo do nazismo, escolheu o Brasil para morar, instalando-se em Petrópolis. Abalado pelos desastres da guerra e pelo incômodo de sentir-se deslocado do lugar onde vivera, matou-se juntamente com a esposa.

Três novelas femininas foi organizado por Alberto Dines, especialista no autor, com traduções de Adriana Lisboa e Raquel Abi-Sâmara.

Pesquise no buscapé, pois as livraria oferecem o exemplar novo com variação grande de preços.

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Stefan Zweig. Três novelas femininas. Rio, Zahar, 2014, 176 pp. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Livro das mil e uma noites


Um dia, o rei da poderosa dinastia persa descobre que a mulher o trai com um escravo. Em crise, sai pelo mundo, querendo saber se existe alguém mais infeliz do que ele. Descobre que sim, e mais, ninguém pode conter as mulheres. Então retorna a seu reino decidido a tomar uma decisão drástica e violenta: casar-se a cada noite com uma mulher diferente, mandando matá-la na manhã seguinte. O vizir encarregado de matar as jovens tinha uma filha chamada Xaharazád (conforme se pronuncia), e outra mais nova chamada Dinarzad. Xaharazád tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Era, portanto, além de bela, inteligente, sábia e cultivada. Ela diz ao pai que estaria disposta a casar com o rei, para tentar salvar a vida de mais mulheres que se casassem com ele. O pai acaba concordando.  Xaharazád  montou  uma estratégia infalível por meio de histórias que contava sucessivamente, noite após noite, diante de um rei a princípio assustado, mas depois cada vez mais seduzido e encantado.  Toda noite ela o entretinha contando fábulas de terror e de piedade, de amor e ódio, de medo e de paixões desenfreadas, de atitudes generosas e de comportamentos cruéis, de delicadeza e brutalidade. Quando a noite findava, ela interrompia a história, fato que levava o rei a preservá-la e a indagá-la na noite seguinte sobre a continuação da história, até se completarem mil noites. O rei, nesse período, dormiu com a jovem,que então teve um filho dele, mostrou-lhe a criança e o inteirou de sua artimanha; assim, passou a considerá-la inteligente, tomou-se de simpatia por ela e lhe preservou a vida. Dinarzad  apoiava Saharazád em suas artimanhas.

Livro das mil e uma noites foi traduzido diretamente do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, divido  em dois volumes contendo o ramo sírios das fábulas, e dois volumes do ramo egípcio. O quarto volume do ramo egípcio contém as histórias de Aladim e de Ali Babá, as mais conhecidas de todas.

Até o momento eu li os dois volumes do ramo sírio. As histórias são, de certa forma, amarradas através de personagens que se sucedem, formando um todo coerente. São histórias para adultos, algumas de um amor apaixonado, outras bem picantes.  O volume I apresente uma série de histórias curtas, como O burro, o boi, o mercador e sua esposa  e O barbeiro de Bagdá e seus irmãos, subdivida em várias histórias envolvendo os mesmos personagens. O volume II contém histórias mais longas e igualmente belas, como a do jovem Nurudin Bakkar, que se paixona pela concubina do califa e as consequências desse amor profundo e duradouro que leva os dois a consequências trágicas. Há também a história de Nurudin Haqan, filho de um vizir muito bondoso que ganhara um valor vultoso em dinheiro para comprar uma concubina formosa e inteligente. O vizir encontra a jovem, mas seu filho a engana, tirando-lhe a virgindade. O vizir morre e o jovem Nurudin e a jovem se apaixonam. Nurudin muda radicalmente de vida, dividindo seus bens materiais e seu dinheiro para fazer o bem. Quando fica pobre, busca auxilio a quem havia ajudado e é tratado com desprezo. O final da história é surpreendente.
As mil e uma noites inspirou a escritora Nélida Piñon em belo romance Vozes do Deserto, já comentado neste blog.
    
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Livro das mil e uma noites, volume I: ramo sírio. 2ª ed, SP, Globo, 2005, 424 pp., R$ 55,00

Obs.: os preços de livros que divulgo são os de valor máximo.  Mas se você buscar o livro sugerido no Buscapé, por exemplo, vai encontrar um exemplar novo, às vezes, com preços bem mais acessíveis. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Flecha de Deus

Os nativos da Nigéria, até o momento da colonização inglesa, contavam histórias para ensinar a eles que não importa quão forte ou grande seja um homem, jamais deve desafiar o seu chi, o deus de cada pessoa, que é só dela, responsável por sua identidade e destino.

A partir do momento da entrada do homem branco em suas terras, os povos de Okperi  e Umuaro passaram a ser grandes inimigos. Uma grande guerra selvagem se desatou entre eles, por um pedaço de terra. A inimizade se agravara porque Okperi aceitava missionários e gente do governo, ao passo que Umuaro permanecia atrasada.

Para muitas nações coloniais, a administração nativa significava o governo pelo homem branco. Não era assim que os britânicos pensavam em relação à Nigéria. Eles acreditavam em um governo indireto, baseado em instituições nativas, moldando o modo de pensar do negro africano de acordo com seus interesses.  Os colonizadores escolhiam o chefe nativo a comandar uma comunidade e forneciam a ele suportes da cultura ocidental para poderem governar. Isso quer dizer que esses chefes eram "comprados" com dinheiro, prestígio e bem-estar, para executar a forma de administrar do branco.

Ezeulu, sacerdote de Umuaro, conseguiu compreender o jogo do homem branco: desmanchar seus costumes. Os brancos, sabendo da existência de Ezeulu e de sua influência entre os nativos, mandam chamá-lo para torná-lo um chefe entre os seus, mas Ezeulu não aceita, pois quer proteger sua aldeia. Entretanto, está num dilema, pois proteger seu povo significa isolá-lo do progresso oriundo da colonização.  Com isso, passa a enfrentar ameaças que o colonizador lhe traz, como também dos próprios habitantes de Umuaro, que passam  a duvidar até mesmo de seus rituais e crenças mais antigas.

Chinua Achebe nasceu em Ogidi, Nigéria, em 1930. É um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Atuou na diplomacia durante os conflitos entre o governo da Nigéria e o povo ibo, no final da década de 1960. Ganhou o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt, na Alemanha, em 2002. Em 2007, recebeu o Man Booker International, um dos mais importantes prêmios das literaturas de língua inglesa.

Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva
    
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Chinua Achebe. A flecha de Deus.  SP, Cia. das Letras, 2011, 342 pp, R$35,00

domingo, 25 de janeiro de 2015

Omeros

Omeros é um poema épico do escritor caribenho Derek Walcott, ganhador de um Nobel de Literatura, publicado pela primeira vez em 1990. A obra se baseia em mitos universais, para retratar a condição humana de homens simples,  os pescadores de Santa Lúcia,  num meio hostil, lutando pela identidade e pela integração de todas as raças. O poema faz referência aos principais personagens de Homero na Ilíada, numa visão moderna do mito . Santa Lúcia faz parte das Pequenas Antilhas, tendo ao norte Martinica, departamento francês de ultramar, e ao sul Saint Vicent e Granadas.  Santa Lúcia representa a Ítaca de Ulisses; os reinos de Calipso, Circe e Nausícaa, a terra natal de Homero. Restos de um cemitério francês na ilha caribenha são os restos de Troia. O mar das Antilhas é o mar da Grécia, o mar, a analogia mais significativa, o pano de fundo majestoso de Omeros,  dominando o poema, com seus balanços, seus cheiros, seus fragores, suas fúrias.

Três linhas narrativas principais se cruzam ao longo do livro: a rivalidade homérica de Achille e Hector sobre seu amor por Helen;  a história entrelaçada do major Plunkett e sua esposa Maud, que vivem na ilha e deve reconciliar-se com a história da colonização britânica de Santa Lucia; a narrativa autobiográfica do próprio Walcott, como o próprio autor do poema (contradizendo a voz impessoal das epopeias), para falar de sua busca particular de identidade, como mulato, como antilhano, como homem e como poeta de uma língua que foi dos dominadores ingleses antes de ser sua. A figura de Homero é identificada a Sete Mares, preto velho cego, que depois de passar a maior parte da vida navegando pelo mundo, identifica-se com o mar.  Sentado com seu cão à sombra da farmácia (o lugar da cura), conhece os males da humanidade e prevê o seu destino; é o bardo e o profeta, igualando-se aos contadores de história presentes nos povos da África e aos xamãs (aqueles que enxergam no escuro) dos indígenas.

Achille, Helen e Hector (que substitui Paris), formam o triângulo amoroso que movimenta a ação dramática do poema. A deslumbrante Helen é a criada negra de olhos amendoados,  disputada por Achille e Hector. Na realidade, são ambos simples pescadores negros que lutam entre si, se odeiam, mas preservam a dignidade na admiração secreta que um tem pelo outro. Achille é o mais forte dos dois. E é também o único que se preocupa com o problema de sua identidade, que deseja voltar às origens e reencontrar seu pai. Achille é um Aquiles mais simpático, que não atormenta seus amigos com seus ressentimentos e não se mancha com sangue de Heitor. Outra diferença importante é que no poema de Walcott o companheiro do herói não é Prátoclo, mas Filoctete (o Filoctetes de Homero foi um herói grego que foi abandonado numa ilha depois de ser mordido por uma cobra, deixando-o com uma ferida incurável que causava um cheiro horroroso que afastava todos que tentavam se aproximar dele. Entretanto, sem Filoctetes a guerra não seria ganha e os guerreiros tiveram que trazê-lo de volta para lutar com a ferida e tudo). O negro Filoctete também tem um ferimento fétido causado por uma âncora, mas  vive na presença de toda a comunidade.

Derek Walott nasceu em 1930 na cidade de Castries, capital de Santa Lúcia. Filho de um casal de professores, é descendente de ingleses e de negros. Depois de sua formação universitária na Jamaica, ganhou uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos. Suas obras mais significativas situam-se nas áreas de poesia e do teatro.  Apesar de  sua qualidade poética reconhecida nas literaturas de língua inglesa e de ter ganho o Nobel, infelizmente é muito pouco conhecido no Brasil.  A tradução integral para o português de Omeros, feita pelo conceituado tradutor e crítico literário Paulo Vizioli é um trabalho pioneiro.

O exemplar novo varia de 28 a 57 reais. Pesquise.
    
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Derek Walcott. Omeros. 2ª ed SP, Cia. das Letras,  2011, 440 pp.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Sábado

Henry Perowne é um neurocirurgião conceituado, especializado em operar tumores de cérebro com rara habilidade. Vive confortavelmente em  Londres, é feliz no casamento, tendo uma mulher advogada, uma filha poeta e um filho músico de blues. A vida para ele é quase milimetricamente traçada, tudo corre costumeiramente, sem maiores transtornos.

No sábado  de 15 de fevereiro de 2003, pela manhã, sai para jogar sua partida costumeira com um colega do hospital, para depois, à tarde visitar a mãe em uma clínica, vítima de Alzeimer, para depois retornar à casa para preparar um jantar para o sogro que vem visitar a família. No caminho, é parado no trânsito, devido a uma manifestação contra a invasão do Iraque pelos norte-americanos, em decorrência do atentado de 11 de setembro, pouco tempo atrás. Quando tenta escapar do tumulto através de uma manobra irregular, é atingido por um carro ocupado por três jovens de atitude suspeita. Todos descem dos carros, o jovem que estava à direção propõe uma indenização em dinheiro vivo e Henry recusa. O jovem torna-se violento e o agride. Percebendo que o jovem apresenta sintomas de descontrole muscular, usa de seus conhecimentos profissionais para minar os planos do agressor, dando-lhe o diagnóstico de que o rapaz apresenta suspeita da síndrome de Huntington (informe-se). Essa atitude, que mais tarde Henry classifica de antiprofissional, desconcerta o rapaz, que desiste do caso e vai embora, deixando Henry seguir seu caminho. Esse acontecimento interfere no pensamento de Henry várias vezes durante o dia, embora tente manter sua vida normal, apesar do incidente. À noite, durante o jantar, a casa é invadida pelo jovem perturbado, armado de uma faca. O fato trará consequências graves para o médico e sua família.

A interferência de alguém na vida de um personagem, causando-lhe danos é recorrente na obra de  Ian McEwan.  Em Reparação, uma menina constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou. Em Amor sem fim, um homem prepara um piquenique no campo para festejar a volta de sua mulher de uma viagem, quando um incidente com um balão põe em risco a vida de uma criança.  Um dos homens que o ajuda passa a alimentar por ele uma paixão tão instantânea quanto obsessiva, que chegará aos limites da perseguição e da loucura (leia matéria no blog).

A narrativa de Sábado contém um suspense que prende e incomoda o leitor até o final. O exemplar novo em edição de bolso custa em média R$ 26,00.

Tradução de Rubens Figueiredo.

            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Ian McEwan. Sábado. SP, Cia. das Letras, 2013, 304 pp.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Assim na terra

Na voz de Luiz Sérgio Metz, a natureza ganha vida em Assim na terra: a água dos pequenos córregos, terra batida, erosão,tufos de macegas, barro, rastro de roda, pegadas de homem descalço, a asa de um pássaro que se escondeu numa tulha, homens conduzindo um resto de tropa marcada a ferro, uma árvore seca, o emblema da caveira sobre dois ossos, as tábuas do assoalho rangendo sob os pés.
Um gaúcho solitário, do tipo campeiro, encontra, em suas andanças, um homem dormindo na mata. Beira os setenta, pela aparência do rosto. Veste bombacha escura e botas com o bico embarrado. O homem acorda e se apresenta, Gomercindo. Os dois saem a caminhar, encontram uma casa grande, ao lado um galpão. Uma vela se acende.  O galpão parece uma espécie de templo do tempo, com muita acústica e pouca mobília. Sólido, mas também muito simples, embora não fosse apenas simples nem de uma solidez comum, de pedra sobre outra que se enxertam, armado apenas de algum madeirame. Ali dentro daria para se guardar os sótãos da infância. Eles ficariam protegidos do rigor, acomodados até uns sobre os outros formando uma sub-edificação de subjetivos para visitação. Mas há uma escrivaninha, com nervuras nos cantos, com gavetas, um tampo claro no pavio amarelo, sem nada encima. As janelas estão todas fechadas e a vela sobre a escrivaninha é nova. Não há nenhuma medida de tempo, então. Gomercindo olha-o sem fixar os olhos, tudo está fora de alcance. O velho propõe-lhe que seja feito um tratado sobre o sul, "procurar os signos que estava no piso e nas janelas e nas portas e nas paredes: associações urbanas , ruas para dentro de barrocas, as linhas telefônicas, os gritos raspando dentro dos fios, os raseis de setembro, as unhas que se agarravam às pedras que se soltavam como grãos de espigas, brugalhaus". 

As palavras estavam além das tesouras de um mero galpão ou de suas telhas, ou de sua geometria.  Ele parecia querer terminar o livro que trouxera, mas ficava marcando uma página com a unha, num vaivém na margem direita.

Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo , RS, em 1952 e faleceu em 1996, devido a um câncer. Conhecido como "Jacaré", foi letrista do grupo nativista Tambo do Bando. Dele eu já havia lido o livro de contos O primeiro e o segundo homem, já comentado neste blog. Assim na terra descreve a atmosfera do pampa com lirismo e densidade, numa jornada a cavalo, sem destino .

O exemplar novo varia de 22 a 35 reais.
                       
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Luiz Sérgio Metz. Assim na terra. SP, Cosac Naify, 2013, 224 pp.