domingo, 1 de março de 2015

O simples coronel Madureira


Domingo... O seu jornal predileto continuava, aberta ou indiretamente, metendo o malho na situação - o preço dos transportes ameaçavam vertical subida, o preço dos gêneros de primeira necessidade não se estabilizavam ao menos, a carne desaparecia dos açougues, o pão das padarias e os remédios das farmácias, organizações estudantis eram fechadas e universidades interditadas, presos políticos eram seviciados, numerosos asilados permaneciam em embaixadas com dificuldades nos passaportes e nos inquéritos instalados cometiam-se os mais criminosos abusos.

O fato é que Madureira, que adorava tomar seu chimarrão todas as manhãs antes de cuidar de seu jardim e de passear com a mulher, recebera o convite do Alto Comando Revolucionário do Exército, para ocupar um cargo importante no Serviço Geral de Abastecimento de Lubrificantes. Com isso, Marques Rebelo nos revela uma deliciosa novela curta de 126 páginas que lemos com prazer. O que mais queria o coronel Madureira, que se aposentara do exército com uma vida boa, mas simples, era gozar a vida. Mas seu trabalho burocrático no tal órgão do exército expõe a ele um trabalho monótono, uma burocracia recheada de cargos nomeados por interesse, até que um dia ele recebe um ofício do Alto Comando, instruindo-o a denunciar todos os funcionários que manifestassem opiniões contrárias ao regime de governo imposto pelos militares.

Não deixa de causar surpresa o fato de O simples coronel Madureira ter sido publicado sem sofrer censura. A obra foi lançada em 1967, quando Costa e Silva assumira o governo, sucedendo Castelo Branco, a poucos dias do Ato Institucional, que restringiu os direitos civis e promoveu o golpe dentro do golpe.
               
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Marques Rebelo. O simples coronel Madureira. Rio, José Olympio, 2013, 126 pp R$ 24,00

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Orlando Furioso

Damas e paladins, armas e amores,
As cortesias e as façanhas canto
Do tempo em que o mar d'África os rigores
Dos mouros trouxe, e França esteve em                                        pranto;
Ira os movia e juvenis furores
De Agramante seu rei, disposto a tanto,
Que ousou vingar a morte de Troiano,
Em Carlos rei e imperador romano.

De Orlando, ao mesmo tempo, direi eu
O que nunca se disse, em prosa ou rima,
Que o amor o pôs em fúrias de sandeu
E lhe tirou de homem cordato a estima;
Isto, se a que igual fim quase me deu
E o pouco engenho me corrói qual lima,
Assentir em poupar-me em tal medida,
Que eu possa dar a obra prometida.

Orlando enlouquece de amor. O poema de Ludovico Ariosto foi escrito em 1516, na época do Renascimento, mas não é o retrato fiel do mundo suntuoso da Renascença: sua temática é medieval, seguindo a estética das histórias de cavalaria.  Ariosto seguiu a obra de Boiardo, Orlando Enamorado, publicado em 1486.

Orlando Furioso tem como protagonista o guerreiro cristão e sobrinho de Carlos Magno, Orlando, que chega à crise de loucura por amor da bela Angélica, princesa oriental. Com Orlando e Angélica, temos também o paladino Astolfo. Primo e companheiro de Orlando, Astolfo, depois de transformado em arbusto pela sedutora feiticeira Alcina, consegue voltar a ser quem era e salva Orlando da loucura, voando à lua para buscar-lhe o juízo. Num segundo momento surge  como protagonista, Rogério. Esse jovem guerreiro muçulmano fora criado pelo velho mago Atlante em um palácio posto no cume de montanhas altíssimas, onde o mágico saía voar em seu cavalo alado, Hipogrifo.  Rogério se enamora de uma cristã, a guerreira Bradamente, mas é também seduzido pela perigosa Alcina. Em torno dessas figuras, Ariosto vai criando muitas outras aventuras amorosas. Um terceiro núcleo se concentra nas batalhas entre cristão e muçulmanos.  Sobressaem aí  figuras como a do feroz capitão Rodomonte, que se voltará contra Rogério, e a dos amigos Cloridano e Medoro, este vencedor de Orlando na rivalidade amorosa por Angélica. Ariosto vai entretecendo vários fios, criando expectativas, deixando em suspenso uma aventura para passar a outra, no melhor estilo dos folhetins.

Orlando Furioso, assim como outras histórias famosas de cavalaria, serviram de inspiração a Cervantes, para criar o famoso cavaleiro Dom Quixote, na monumental obra homônima.

Introdução, tradução e notas de Pedro Garcez Guirardi, melhor tradução de 2003.
                                        
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Ludovico Ariosto. Orlando Furioso. 2ª ed, SP, Ateliê Editorial, 2004, 290 pp.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Três novelas femininas

Três novelas femininas, de Stephan Zweig apresentam uma trama muito bem amarrada, com um suspense crescente até o final. As protagonistas de cada uma das histórias cedem o direito de ser feliz, por causa do medo e covardia.  Na primeira novela, Medo, Irene, casada com um homem importante de Viena, ao sair da casa de um jovem pianista, seu amante, é abordada por uma mulher que se diz namorada do rapaz e lhe faz ameaças. Apavorada, Irene lhe oferece dinheiro e foge para casa. Dias depois, é abordada pela mesma mulher na rua, que lhe pede uma quantia considerada para manter-se calada.Depois, a mulher manda-lhe um bilhete pedindo mais dinheiro. Irene, acuada, cede. Por fim, a mulher invade sua casa e lhe toma um anel caríssimo. O marido lhe pergunta do anel e Irene inventa uma desculpa. Precisa de dinheiro para resgatar a joia, mas já não tem como consegui-lo. O final da história pega o leitor de surpresa.

Na segunda história, Carta de uma desconhecida, um escritor famoso recebe uma carta aparentemente anônima, de uma mulher que lhe narra acontecimentos envolvendo os dois desde a adolescência dela, sem que o escritor consiga lembrar-se de quem se trata, até o final da carta. A mulher decide lhe escrever, contando de sua paixão por ele desde jovem, dos encontros fortuitos durante a mocidade, até a aventura amorosa que originou-lhes o filho que ele desconhecia até então. A covardia dela reside no fato de nunca ter sido notada e nunca ter tomado uma atitude para lutar pelo amor do escritor. O final da história também é uma surpresa que deixará no leitor um tanto de pena e rejeição.

Na terceira, 24 horas na vida de uma mulher, acompanhamos o diálogo de uma viúva aristocrática de 67 anos com um jovem, após um acontecimento inusitado em um hotel de veraneio austríaco, um escândalo, envolvendo uma mulher casada que abandona o marido e os filhos no hotel para fugir com um jovem que conhecera naquele local. O fato causa sérias discussões entre os hóspedes acerca da postura moral da jovem adúltera, até que esse jovem, o narrador da história, decide não julgar a postura dos fugitivos sob o aspecto da condenação. Isso faz a viúva aproximar-se dele, criando confiança para contar um fato que envolveu 24 horas de sua vida e que trouxe a ela marcas profundas. Nesse caso, a senhora, que no relato tinha 44 anos, apaixona-se por um jovem viciado em jogo, depois de livrá-lo de provável suicídio. Ela toma uma atitude importante tarde demais, que no fim a leva a um desenlace decepcionante.

Stefan Zweig (1881-1942) era austríaco de origem judaica, oriundo de uma tradicional família aristocrática. Fugindo do nazismo, escolheu o Brasil para morar, instalando-se em Petrópolis. Abalado pelos desastres da guerra e pelo incômodo de sentir-se deslocado do lugar onde vivera, matou-se juntamente com a esposa.

Três novelas femininas foi organizado por Alberto Dines, especialista no autor, com traduções de Adriana Lisboa e Raquel Abi-Sâmara.

Pesquise no buscapé, pois as livraria oferecem o exemplar novo com variação grande de preços.

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Stefan Zweig. Três novelas femininas. Rio, Zahar, 2014, 176 pp. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Livro das mil e uma noites


Um dia, o rei da poderosa dinastia persa descobre que a mulher o trai com um escravo. Em crise, sai pelo mundo, querendo saber se existe alguém mais infeliz do que ele. Descobre que sim, e mais, ninguém pode conter as mulheres. Então retorna a seu reino decidido a tomar uma decisão drástica e violenta: casar-se a cada noite com uma mulher diferente, mandando matá-la na manhã seguinte. O vizir encarregado de matar as jovens tinha uma filha chamada Xaharazád (conforme se pronuncia), e outra mais nova chamada Dinarzad. Xaharazád tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Era, portanto, além de bela, inteligente, sábia e cultivada. Ela diz ao pai que estaria disposta a casar com o rei, para tentar salvar a vida de mais mulheres que se casassem com ele. O pai acaba concordando.  Xaharazád  montou  uma estratégia infalível por meio de histórias que contava sucessivamente, noite após noite, diante de um rei a princípio assustado, mas depois cada vez mais seduzido e encantado.  Toda noite ela o entretinha contando fábulas de terror e de piedade, de amor e ódio, de medo e de paixões desenfreadas, de atitudes generosas e de comportamentos cruéis, de delicadeza e brutalidade. Quando a noite findava, ela interrompia a história, fato que levava o rei a preservá-la e a indagá-la na noite seguinte sobre a continuação da história, até se completarem mil noites. O rei, nesse período, dormiu com a jovem,que então teve um filho dele, mostrou-lhe a criança e o inteirou de sua artimanha; assim, passou a considerá-la inteligente, tomou-se de simpatia por ela e lhe preservou a vida. Dinarzad  apoiava Saharazád em suas artimanhas.

Livro das mil e uma noites foi traduzido diretamente do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, divido  em dois volumes contendo o ramo sírios das fábulas, e dois volumes do ramo egípcio. O quarto volume do ramo egípcio contém as histórias de Aladim e de Ali Babá, as mais conhecidas de todas.

Até o momento eu li os dois volumes do ramo sírio. As histórias são, de certa forma, amarradas através de personagens que se sucedem, formando um todo coerente. São histórias para adultos, algumas de um amor apaixonado, outras bem picantes.  O volume I apresente uma série de histórias curtas, como O burro, o boi, o mercador e sua esposa  e O barbeiro de Bagdá e seus irmãos, subdivida em várias histórias envolvendo os mesmos personagens. O volume II contém histórias mais longas e igualmente belas, como a do jovem Nurudin Bakkar, que se paixona pela concubina do califa e as consequências desse amor profundo e duradouro que leva os dois a consequências trágicas. Há também a história de Nurudin Haqan, filho de um vizir muito bondoso que ganhara um valor vultoso em dinheiro para comprar uma concubina formosa e inteligente. O vizir encontra a jovem, mas seu filho a engana, tirando-lhe a virgindade. O vizir morre e o jovem Nurudin e a jovem se apaixonam. Nurudin muda radicalmente de vida, dividindo seus bens materiais e seu dinheiro para fazer o bem. Quando fica pobre, busca auxilio a quem havia ajudado e é tratado com desprezo. O final da história é surpreendente.
As mil e uma noites inspirou a escritora Nélida Piñon em belo romance Vozes do Deserto, já comentado neste blog.
    
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Livro das mil e uma noites, volume I: ramo sírio. 2ª ed, SP, Globo, 2005, 424 pp., R$ 55,00

Obs.: os preços de livros que divulgo são os de valor máximo.  Mas se você buscar o livro sugerido no Buscapé, por exemplo, vai encontrar um exemplar novo, às vezes, com preços bem mais acessíveis. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Flecha de Deus

Os nativos da Nigéria, até o momento da colonização inglesa, contavam histórias para ensinar a eles que não importa quão forte ou grande seja um homem, jamais deve desafiar o seu chi, o deus de cada pessoa, que é só dela, responsável por sua identidade e destino.

A partir do momento da entrada do homem branco em suas terras, os povos de Okperi  e Umuaro passaram a ser grandes inimigos. Uma grande guerra selvagem se desatou entre eles, por um pedaço de terra. A inimizade se agravara porque Okperi aceitava missionários e gente do governo, ao passo que Umuaro permanecia atrasada.

Para muitas nações coloniais, a administração nativa significava o governo pelo homem branco. Não era assim que os britânicos pensavam em relação à Nigéria. Eles acreditavam em um governo indireto, baseado em instituições nativas, moldando o modo de pensar do negro africano de acordo com seus interesses.  Os colonizadores escolhiam o chefe nativo a comandar uma comunidade e forneciam a ele suportes da cultura ocidental para poderem governar. Isso quer dizer que esses chefes eram "comprados" com dinheiro, prestígio e bem-estar, para executar a forma de administrar do branco.

Ezeulu, sacerdote de Umuaro, conseguiu compreender o jogo do homem branco: desmanchar seus costumes. Os brancos, sabendo da existência de Ezeulu e de sua influência entre os nativos, mandam chamá-lo para torná-lo um chefe entre os seus, mas Ezeulu não aceita, pois quer proteger sua aldeia. Entretanto, está num dilema, pois proteger seu povo significa isolá-lo do progresso oriundo da colonização.  Com isso, passa a enfrentar ameaças que o colonizador lhe traz, como também dos próprios habitantes de Umuaro, que passam  a duvidar até mesmo de seus rituais e crenças mais antigas.

Chinua Achebe nasceu em Ogidi, Nigéria, em 1930. É um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Atuou na diplomacia durante os conflitos entre o governo da Nigéria e o povo ibo, no final da década de 1960. Ganhou o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt, na Alemanha, em 2002. Em 2007, recebeu o Man Booker International, um dos mais importantes prêmios das literaturas de língua inglesa.

Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva
    
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Chinua Achebe. A flecha de Deus.  SP, Cia. das Letras, 2011, 342 pp, R$35,00

domingo, 25 de janeiro de 2015

Omeros

Omeros é um poema épico do escritor caribenho Derek Walcott, ganhador de um Nobel de Literatura, publicado pela primeira vez em 1990. A obra se baseia em mitos universais, para retratar a condição humana de homens simples,  os pescadores de Santa Lúcia,  num meio hostil, lutando pela identidade e pela integração de todas as raças. O poema faz referência aos principais personagens de Homero na Ilíada, numa visão moderna do mito . Santa Lúcia faz parte das Pequenas Antilhas, tendo ao norte Martinica, departamento francês de ultramar, e ao sul Saint Vicent e Granadas.  Santa Lúcia representa a Ítaca de Ulisses; os reinos de Calipso, Circe e Nausícaa, a terra natal de Homero. Restos de um cemitério francês na ilha caribenha são os restos de Troia. O mar das Antilhas é o mar da Grécia, o mar, a analogia mais significativa, o pano de fundo majestoso de Omeros,  dominando o poema, com seus balanços, seus cheiros, seus fragores, suas fúrias.

Três linhas narrativas principais se cruzam ao longo do livro: a rivalidade homérica de Achille e Hector sobre seu amor por Helen;  a história entrelaçada do major Plunkett e sua esposa Maud, que vivem na ilha e deve reconciliar-se com a história da colonização britânica de Santa Lucia; a narrativa autobiográfica do próprio Walcott, como o próprio autor do poema (contradizendo a voz impessoal das epopeias), para falar de sua busca particular de identidade, como mulato, como antilhano, como homem e como poeta de uma língua que foi dos dominadores ingleses antes de ser sua. A figura de Homero é identificada a Sete Mares, preto velho cego, que depois de passar a maior parte da vida navegando pelo mundo, identifica-se com o mar.  Sentado com seu cão à sombra da farmácia (o lugar da cura), conhece os males da humanidade e prevê o seu destino; é o bardo e o profeta, igualando-se aos contadores de história presentes nos povos da África e aos xamãs (aqueles que enxergam no escuro) dos indígenas.

Achille, Helen e Hector (que substitui Paris), formam o triângulo amoroso que movimenta a ação dramática do poema. A deslumbrante Helen é a criada negra de olhos amendoados,  disputada por Achille e Hector. Na realidade, são ambos simples pescadores negros que lutam entre si, se odeiam, mas preservam a dignidade na admiração secreta que um tem pelo outro. Achille é o mais forte dos dois. E é também o único que se preocupa com o problema de sua identidade, que deseja voltar às origens e reencontrar seu pai. Achille é um Aquiles mais simpático, que não atormenta seus amigos com seus ressentimentos e não se mancha com sangue de Heitor. Outra diferença importante é que no poema de Walcott o companheiro do herói não é Prátoclo, mas Filoctete (o Filoctetes de Homero foi um herói grego que foi abandonado numa ilha depois de ser mordido por uma cobra, deixando-o com uma ferida incurável que causava um cheiro horroroso que afastava todos que tentavam se aproximar dele. Entretanto, sem Filoctetes a guerra não seria ganha e os guerreiros tiveram que trazê-lo de volta para lutar com a ferida e tudo). O negro Filoctete também tem um ferimento fétido causado por uma âncora, mas  vive na presença de toda a comunidade.

Derek Walott nasceu em 1930 na cidade de Castries, capital de Santa Lúcia. Filho de um casal de professores, é descendente de ingleses e de negros. Depois de sua formação universitária na Jamaica, ganhou uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos. Suas obras mais significativas situam-se nas áreas de poesia e do teatro.  Apesar de  sua qualidade poética reconhecida nas literaturas de língua inglesa e de ter ganho o Nobel, infelizmente é muito pouco conhecido no Brasil.  A tradução integral para o português de Omeros, feita pelo conceituado tradutor e crítico literário Paulo Vizioli é um trabalho pioneiro.

O exemplar novo varia de 28 a 57 reais. Pesquise.
    
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Derek Walcott. Omeros. 2ª ed SP, Cia. das Letras,  2011, 440 pp.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Sábado

Henry Perowne é um neurocirurgião conceituado, especializado em operar tumores de cérebro com rara habilidade. Vive confortavelmente em  Londres, é feliz no casamento, tendo uma mulher advogada, uma filha poeta e um filho músico de blues. A vida para ele é quase milimetricamente traçada, tudo corre costumeiramente, sem maiores transtornos.

No sábado  de 15 de fevereiro de 2003, pela manhã, sai para jogar sua partida costumeira com um colega do hospital, para depois, à tarde visitar a mãe em uma clínica, vítima de Alzeimer, para depois retornar à casa para preparar um jantar para o sogro que vem visitar a família. No caminho, é parado no trânsito, devido a uma manifestação contra a invasão do Iraque pelos norte-americanos, em decorrência do atentado de 11 de setembro, pouco tempo atrás. Quando tenta escapar do tumulto através de uma manobra irregular, é atingido por um carro ocupado por três jovens de atitude suspeita. Todos descem dos carros, o jovem que estava à direção propõe uma indenização em dinheiro vivo e Henry recusa. O jovem torna-se violento e o agride. Percebendo que o jovem apresenta sintomas de descontrole muscular, usa de seus conhecimentos profissionais para minar os planos do agressor, dando-lhe o diagnóstico de que o rapaz apresenta suspeita da síndrome de Huntington (informe-se). Essa atitude, que mais tarde Henry classifica de antiprofissional, desconcerta o rapaz, que desiste do caso e vai embora, deixando Henry seguir seu caminho. Esse acontecimento interfere no pensamento de Henry várias vezes durante o dia, embora tente manter sua vida normal, apesar do incidente. À noite, durante o jantar, a casa é invadida pelo jovem perturbado, armado de uma faca. O fato trará consequências graves para o médico e sua família.

A interferência de alguém na vida de um personagem, causando-lhe danos é recorrente na obra de  Ian McEwan.  Em Reparação, uma menina constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou. Em Amor sem fim, um homem prepara um piquenique no campo para festejar a volta de sua mulher de uma viagem, quando um incidente com um balão põe em risco a vida de uma criança.  Um dos homens que o ajuda passa a alimentar por ele uma paixão tão instantânea quanto obsessiva, que chegará aos limites da perseguição e da loucura (leia matéria no blog).

A narrativa de Sábado contém um suspense que prende e incomoda o leitor até o final. O exemplar novo em edição de bolso custa em média R$ 26,00.

Tradução de Rubens Figueiredo.

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Ian McEwan. Sábado. SP, Cia. das Letras, 2013, 304 pp.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Assim na terra

Na voz de Luiz Sérgio Metz, a natureza ganha vida em Assim na terra: a água dos pequenos córregos, terra batida, erosão,tufos de macegas, barro, rastro de roda, pegadas de homem descalço, a asa de um pássaro que se escondeu numa tulha, homens conduzindo um resto de tropa marcada a ferro, uma árvore seca, o emblema da caveira sobre dois ossos, as tábuas do assoalho rangendo sob os pés.
Um gaúcho solitário, do tipo campeiro, encontra, em suas andanças, um homem dormindo na mata. Beira os setenta, pela aparência do rosto. Veste bombacha escura e botas com o bico embarrado. O homem acorda e se apresenta, Gomercindo. Os dois saem a caminhar, encontram uma casa grande, ao lado um galpão. Uma vela se acende.  O galpão parece uma espécie de templo do tempo, com muita acústica e pouca mobília. Sólido, mas também muito simples, embora não fosse apenas simples nem de uma solidez comum, de pedra sobre outra que se enxertam, armado apenas de algum madeirame. Ali dentro daria para se guardar os sótãos da infância. Eles ficariam protegidos do rigor, acomodados até uns sobre os outros formando uma sub-edificação de subjetivos para visitação. Mas há uma escrivaninha, com nervuras nos cantos, com gavetas, um tampo claro no pavio amarelo, sem nada encima. As janelas estão todas fechadas e a vela sobre a escrivaninha é nova. Não há nenhuma medida de tempo, então. Gomercindo olha-o sem fixar os olhos, tudo está fora de alcance. O velho propõe-lhe que seja feito um tratado sobre o sul, "procurar os signos que estava no piso e nas janelas e nas portas e nas paredes: associações urbanas , ruas para dentro de barrocas, as linhas telefônicas, os gritos raspando dentro dos fios, os raseis de setembro, as unhas que se agarravam às pedras que se soltavam como grãos de espigas, brugalhaus". 

As palavras estavam além das tesouras de um mero galpão ou de suas telhas, ou de sua geometria.  Ele parecia querer terminar o livro que trouxera, mas ficava marcando uma página com a unha, num vaivém na margem direita.

Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo , RS, em 1952 e faleceu em 1996, devido a um câncer. Conhecido como "Jacaré", foi letrista do grupo nativista Tambo do Bando. Dele eu já havia lido o livro de contos O primeiro e o segundo homem, já comentado neste blog. Assim na terra descreve a atmosfera do pampa com lirismo e densidade, numa jornada a cavalo, sem destino .

O exemplar novo varia de 22 a 35 reais.
                       
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Luiz Sérgio Metz. Assim na terra. SP, Cosac Naify, 2013, 224 pp.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O senhor do lado esquerdo

O escritor carioca Alberto Mussa (1961) costuma afirmar que a história das cidades é a história de seus crimes. A cidade do Rio de Janeiro tem sido descoberta desde seus primórdios do século XIX através de seus crimes, nos romances que narra. O Senhor do lado esquerdo acontece no ano de 1913, apresentando ao leitor a  investigação do assassinato do secretário do presidente da república, mesclada com  crônicas diversas acerca da história e dos mitos da cidade do Rio de Janeiro na época.

O narrador nos que No dia 13 de junho de 1913, por volta das quatro horas da tarde,o secretário da presidência da república chegou à Casa das Trocas, aparentemente uma clínica ginecológica administrada por Miroslav Zmuda, espécie de  ginecologista ou obstetra, visto que fazia abortos, esterilizava, tratava enfermidades venéreas. Embora não tenha sido um erotólogo, na acepção clássica do termo, tinha especial interesse pela fisiologia do coito. E foi um dos primeiros cientistas ocidentais a estudar o fenômeno da atração sexual. E assim surgiu a Casa das Trocas - de que dona Brigiitte foi a principal mentora.

O secretário  foi recebido pela prostituta Fortunata. Minutos depois de terem entrado no quarto, Fortunata desceu para apanhar duas taças e uma garrafa de vinho tinto, na adega improvisada pelo doutor Zmuda, embaixo da grande escadaria, onde a lenda diz haver uma passagem secreta construída por dom Pedro I. Em torno das seis, Fortunata passou pelo salão oval superior, onde ficavam as colegas, demonstrando pressa e reagindo com rispidez incomum a uma gentileza, antes de sair, pela porta da frente. Estava num vestido de tafetá azul e levava nas orelhas o par de brincos de ouro, em forma de cavalo marinho.

Pouco antes das oito, após considerarem exagerado o tempo de permanência do secretário no quarto, dona Brigitte pediu que fossem acordar o cliente ilustre - que foi achado morto, fortemente preso à cama por amarras e ainda com fundas impressões de dedos no pescoço. O laudo confirmou a asfixia como causa mortis, não havendo indícios de latrocínio.

Eis o motivo condutor para a trama interessante de O homem do lado esquerdo, contado com humor e doses de ironia. É gostoso de ler.
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Alberto Mussa. O senhor do lado esquerdo. 2ª ed, Rio, Record, 2013, 304 pp, R$ 35,00

domingo, 28 de dezembro de 2014

Flores azuis

Um homem separado vive em um apartamento alugado, onde recebe nos finais se semana a filha pequena.  Esse homem é daqueles sujeitos chatos, que acha tudo errado com ele, é indeciso, inseguro e, por consequência disso, deprimido. A ex-mulher continua a intrometer-se em sua vida. A filha parece não gostar dele, quase não conversam e ele não busca uma aproximação afetiva maior com a menina. De repente, esse homem começa a receber cartas escritas a caneta tinteiro, dentro de um envelope azul, cuja única informação da remetente (trata-se de uma mulher) é a letra k.  Nos dias de  hoje, em que o email e as redes sociais e os sms dominam as relações sociais, alguém ainda escreve cartas de amor a caneta tinteiro. Cada dia uma carta. Esse homem decide violar as cartas e passa a acompanhar a escrita dessa mulher, relatando uma separação por motivos que se confundem, às vezes, com os do homem em relação a seu relacionamento desfeito. As cartas são enviadas diariamente, por um período definido pela autora. No final, ela propõe a esse amante, que não sabemos aparentemente quem seja, embora possa ser o antigo morador, perdoá-lo e aceitá-lo de volta caso ele assim o quisesse.

A partir daí, ele busca obsessivamente encontrar esse homem para entregar-lhe as cartas, com a intenção, quem sabe, de ajudar a recompor a relação partida. Depois de uma série de tentativas, onde se vê obrigado a contatar a dona do apartamento, consegue localizar o antigo locatário, que desconhece quem possa ser essa mulher.

Carola Saavedra intercala as cartas com a crônica de vida desse homem solitário e mal amado e incompreendido de si mesmo. Algumas situações soam pouco verossímeis, como alguém escrever cartas a caneta tinteiro em pleno século XXI, assim como a mulher forjar o funcionário do correio a postar as cartas sem mencionar o remetente. Mas isso não pesa dentro da narrativa e nem  na intenção da romancista, de relacionar o drama de uma mulher abandonada que escreve cartas buscando a reconciliação e de um homem abandonado que lê essas cartas como se fossem suas e quer encontrar um amor para acabar com sua solidão.

O livro encontra-se esgotado, mas há livrarias que vendem o exemplar novo a preço médio de 32 reais.
    
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Carola Saavedra. Flores azuis. SP, Cia. das Letras, 2008, 166 pp

domingo, 21 de dezembro de 2014

A máquina de fazer espanhóis

valter hugo mãe disse em um programa de televisão que escolheu o nome mãe como uma coisa literária de completude. Sempre esteve convencido de que as mulheres, através da maternidade, experimentam o extremo da humanidade: não há nada que um ser humano possa fazer de mais milagroso do que a multiplicação, de desdobrar seu corpo em dois. os homens são a parte fraca da humanidade, pois há uma lacuna, um espaço vazio no homem, pois temos uma dimensão afetiva que não fica aproveitada, a menos que tenhamos filhos. a vida é uma coisa terrível, por isso se precisa de epifanias de felicidade que é uma coisa que se perde à medida que se conquista. a felicidade é podermos ser o que somos.

a máquina de fazer espanhóis é a renúncia da felicidade de sonhar, pela consciência da perda. o título refere-se a uma frustração portuguesa contínua, que durou 800 anos de soberania e fez com que os portugueses pensem de vez em quando: se fôssemos espanhóis teríamos uma dignidade de melhor qualidade. a máquina de fazer espanhóis é Portugal. vejamos um trecho emblemático:

antônio jorge da silva está diante do corpo da mulher morta que não lhe diria mais nada, por mais insistente que fosse o seu desespero, sua necessidade de respirar através dos seus olhos, sua necessidade vital de respirar através de seu sorriso. ele e sua mulher morta que se demitia de continuar a justificar-lhe a vida e que, abraçando-lhe como podia, entregava-lhe tudo de uma só vez. e ele, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.
com a morte, também o amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colocando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, ainda, sem saber de nada. quando, por fim, me levantei, estava a anos-luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver sos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar, à reveia de tudo quanto me pareceria menos cruel. e a natureza, se do meu coração não se esvaziou o amor pela laura, estaria numa aniquilação imediata para mim também, poupando-me à miséria de ver o sol que arde sem respeito por qualquer tragédia.

um problema com o ser-velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento,a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas a alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige. e quando eu fico bloqueado, tão irritado com isso sem dúvida, não é por estar imaturo e esperar vir a ser melhor, é por estar maduro de mais e ir como que apodrecendo, igual aos frutos. nós sabemos que erramos e sabemos que, na distração cada vez maior, na perda de reflexo e de agilidade mental, fazemos coisas sem saber e não as fazemos estupidez. fazemos por descoordenação entre o que está certo e o que nos parece certo e até sabemos que isso de certou ou errado é muito relativo. é tudo mais forte do que nós.

enquanto alguns velhos queriam acreditar que a saúde não lhes faltaria e que poderiam concretizar muitos projetos, antônio jorge da silva não concebia o que era chegar àquela idade e ter projetos. o seu projeto era esquecer tudo, era protestar contra a morte de laura convencendo-se de que, depois da morte de alguém que nos é essencial, ao menos a memória do amor deveria ser erradicada também.

a máquina de fazer espanhóis, assim como outros livros do autor é escrito todo ele em minúscula, como forma de colocar tudo no mesmo pé de igualdade. Ele abandonou esse recurso nos livros mais recentes.

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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valter hugo mãe. a máquina de fazer espanhóis. sp, cosac naify, 2013, 256 pp., R$ 39,00

domingo, 14 de dezembro de 2014

Hanói

David é filho de pai brasileiro da região de Governador Valadares (emigrado ilegalmente nos EUA) com uma mexicana. Aos 38 anos é diagnosticado de câncer no cérebro, tendo poucos meses de vida. Ao sair do consultório,  pensa no sentido da vida diante dos sintomas do câncer que o levará à morte daqui a pouco. Chega em casa em põe um disco de sua refinada coleção de jazz. Enquanto ouve a música põe-se a observar a coisas a seu redor.  Não tinha pensado em deixar o apartamento, mas em algum momento começou a parecer que seria a ordem natural das coisas. Livrar-se de tudo que havia ali dentro, esvaziá-lo como se esvaziam os bolsos de uma calça, e depois se livrar dele também, da vizinhança, das esquinas conhecidas. Começou, assim, a doar as coisas que tinha à vizinhança.

Quando David vai a uma mercearia asiática no bairro, puxa conversa com Alex,  jovem descendente de vietnamitas, caixa desse estabelecimento. Depois vai uma segunda vez, agora com a necessidade de aproximar-se dela. Pensa David: será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função na nossa  vida, algum papel a desempenhar? Não precisa ser algo grandioso. Podemos topar com alguém na esquina apenas para que esse alguém nos pergunte a direção da rua tal, qual a melhor opção para se fazer uma receita, será que não precisa de um eletrodoméstico que tenho em casa e quero me desfazer?

Alex é mãe solteira. Vive com dificuldade, como quase todo imigrante nos Estados Unidos. Os dois tornam-se íntimos. Quando Alex lhe diz que nunca conhecera o Vietnã, David começa a alimentar a ideia entre eles, de conhecerem Hanói. Também seria uma forma de autoanálise,  de confrontar sua própria identidade através da metáfora do deslocamento.

Até então, só conhecia Adriana Lisboa, através das traduções competentes de duas novelas de Stefan Zweig, Três novelas femininas, e de A estrada, de Cormac McCarthy. Hanói apresenta uma prosa elegante contada com delicadeza.
             
  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Adriana Lisboa. Hanói. Rio, Objetiva, 2013, 236 pp, R$ 39,90