domingo, 19 de outubro de 2014

A desumanização

A Desumanização, de Valter Hugo Mãe se passa na Islândia. Desumanização no caso aqui, refere-se a espiritualidade. A pequena Halla nos conta que é irmã gêmea de Sigridur,  uma morta. Sendo igual a ela, não discernia se  estava morta e a outra viva. Sabia que aceitar a morte da irmã era uma forma de egoísmo. Mas isso ela só elaborou mais tarde, ao longo da vida dura que levou ao lado de uma mãe nervosa e culpada pela morte da filha. E de um pai afetivo, mas que se distanciava aos poucos. Tinha como amigo Einar, um ser débil, que se uniu a ela depois que a engravidou e cujo filho perdeu. Para Halla, a vigília dos dias não permitia que a raiva acabasse. Não saberia aceitar a morte da irmã. Sentia muita revolta. Sempre à espera de um sinal. Ficava esperando que um dia pudesse conversar com a irmã desaparecida, igual às verdadeiras histórias de fantasmas, pois as duas eram parte de um mesmo todo. A irmã certamente iria lhe falar com palavras bem concretas acerca da tristeza ou da felicidade que deviam nutrir.

Quando enterraram sua irmã gêmea, disseram a ela que a haviam plantado, mas nasceria outra vez, igual a uma semente. E adormeceu achando que sua irmã podia brotar numa árvore de músculos, com ramos de ossos a deitar flores de unhas. Achou que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser e caos.  A morte das crianças era assim, disse-lhe a mãe. Quando Halla visitava o lugar onde Sigridur fora enterrada, sabia que ela e sua irmã comungavam das emoções. Diferiam em poucas coisas. Tinham, até, honra, uma cumplicidade para afinar as condutas e as expectativas. Caíam-lhe os dentes de leite ao mesmo tempo. Halla já muito explicara acerca da impressão da terra sobre ela, a água, o ruído das ovelhas pastando. Mas não se decidia acerca do que seria sua irmã sentindo. Onde estava, se estaria apenas ali a uns palmos do chão, se estaria longe a se sentir bem ou se andaria aflita, matando e morrendo cada vez mais e carregada de ódio. Halla sentia nada. Sobretudo medo e nada. Halla era gêmea da morte. Crianças espelho. Tudo em seu redor se dividiu por metade com a morte.

Valter Hugo Mãe disse em uma entrevista que não quer tratar o leitor como estúpido. Por isso mesmo, A Desumanização é um romance que se utiliza de todas as possibilidade do discurso. Sobre por que da história se passar na Islândia, disse que o lugar é fundamental para conferir a imagem, aquilo que vemos através das palavras. Buscou um espaço que fosse fisicamente uma proposta visual desafiante para as palavras. Sua motivação interna tinha que ver com a procura da questão da solidão. Uma reflexão extremada da solidão. Um lugar perdido no norte do planeta, frio, isolado, pouquíssima gente, isso suscita uma espiritualização da existência, a ponto de fazer com que o criador ou a natureza sejam efetivamente a companhia, porque o ser humano ali não se companha. Uma menina perde sua irmã gêmea, desacompanhada, busca uma compensação nas palavas e na natureza da Islândia para essa solidão. Se Deus existir é uma menina e o planeta é uma menina e as coisas que se multiplicam e advêm da fertilidade são femininas.

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Valter Hugo Mãe. A Desumanização. SP, Cosac Naify, 2014, 224 pp. R$ 25,00


domingo, 12 de outubro de 2014

Gente independente

Quem me mostrou o escritor islandês Halldór Laxness foi Valter Hugo Mãe em seu romance Desumanização (próxima postagem).Halldór parece nos dizer em seu longo, belo e poético romance Gente independente, que um homem não é independente a menos que tenha coragem de resistir sozinho. Nunca  devemos desistir enquanto estamos vivos, mesmo que roubem tudo da gente. Quando não há mais nada,   sempre se pode dizer que o ar que respiramos é nosso, ou pelo menos a gente pode dizer que o toma de empréstimo. Quem fica sozinho é o mais forte. O homem nasce sozinho. O homem morre sozinho. A capacidade de resistir sozinho não é a perfeição da vida, o objetivo? Lendo o livro, o leitor poderá entender por que Bjartur pensa dessa forma.

Bjartur da Casa Estival conseguira comprar uma propriedade na zona rural da Islândia, desvalorizada pelo fato de os habitantes do lugar acreditarem que havia espíritos perigosos nos penhascos próximos ao local. Bjartur não acreditava em espíritos que pudessem interferir em seu destino.  Era dono de uma propriedade. No prazo de doze anos pagaria o último centavo pela propriedade, um total de trinta anos. Era um rei em seu próprio reino. Sua mulher era sua cônjuge legal, embora não fosse virgem quando casaram. Ásta Sólilja,  suposta filha de um relacionamento anterior da mulher o transformará de forma definitiva ao final da narrativa.

Leia esse belo trecho que relata uma conversa do neto de Bjartur com a avó, sobre a morte:

Desde o momento em que ele dera a primeira piscadela sonolenta até o instante em que as pálpebras pesadas finalmente se abriam, não eram meramente horas que se seguiam a horas; não, século após século pela vastidão incomensurável da manhã, mundo após mundo, como nas visões de um cego, a realidade seguia-se à realidade e não era mais realidade - a luz tornava-se mais brilhante. Tão distante está o dia do inverno em sua própria manhã. Mesmo sua manhã está distante de si mesma. O primeiro frágil vislumbre no horizonte e a claridade plena na janela na hora do café são como dois começos diferentes, dois pontos de partida. E, uma vez que na aurora até sua manhã está distante, o que ser seu anoitecer? Manhã, meio-dia e tarde estão tão distantes quanto os países que sonhamos ver quando crescermos; o anoitecer tão remoto e irreal quanto a morte sobre a qual o caçula ficou ontem sabendo, a morte que leva as criancinhas de suas mães e faz o ministro enterrá-las no jardim do intendente, a morte da qual ninguém volta, como nas histórias da avó, a morte que chamará você também, quando ficar tão velho que se torne criança novamente.
- Então são apenas os bebês que morrem? - perguntou ele.
Por que perguntara?
Foi porque ontem seu pai havia atravessado as fazendas com o bebê que tinha morrido. Ele carregara-o numa caixa nas costas para ser enterrado pelo ministro e pelo intendente. O ministro cavaria um buraco no pátio da capela do intendente e cantaria uma canção.
- Algum dia serei bebê de novo? - perguntou o menino de sete anos.
E sua mãe, que lhe havia cantado extraordidinárias canções e lhe falado tudo sobre os países estrangeiros, respondeu debilmente do leito em que estava acamada.
- Quando uma pessoa fica muito velha, torna-se novamente um bebezinho.
- E morre? - perguntou o menino.
Foi uma corda em seu peito que se rompeu, uma dessas delicadas cordas da infância que se rompem antes que a pessoa tenha tempo de perceber que são capazes de soar; e essas cordas não soam mais; doravante são apenas uma lembrança de dias incríveis.
- Todos nós morremos.
Mais tarde nesse dia, ele tocara no assunto novamente, dessa vez com a avó:
- Eu sei de alguém que  nunca morrerá - disse ele.
É verdade, meu bichinho? - perguntou ela, perscrutando-o de cima do nariz com a cabeça inclinada para o lado, como era seu costume quando estava olhando para alguém. - E quem seria este?
Meu pai - respondeu o menino, decidido. No entanto, ele não tinha certeza absoluta de que não estaria cometendo um erro, porque continuou olhando para a avó com olhos interrogativos.
- Ah, ele morrerá, claro que morrerá - rosnou a velha, impiedosa, quase exultante, e soltou um sonoro suspiro pelo nariz.
Essa resposta apenas despertou a teimosia do menino, que perguntou:
- Vovó, a colher de pau vai morrer um dia?
- Agora chega - explodiu a velha, como se achasse que ele estivesse zombando dela. 
- Mas, vovó, e a panela preta? Ela vai morrer um dia?
- Tolice, criança - replicou ela. - Como pode uma coisa morrer quando já está morta?
- Mas a colher e a panela não estão mortas - disse o garotinho. - Eu sei que elas não estão mortas. Quando acordo de manhã, sempre as escuto conversando.
Que bobagem fizera: havia revelado um segredo que só ele conhecia, pois só ele descobrira, durante a que talvez tenha sido uma das mais notáveis todas as vastidões matinais do tempo, que as caçarolas e panelas e outros utensílios de cozinha mudavam de forma e se transformavam e homens e mulheres. De manhã cedo, quando ficava deitado e acordado, muito antes dos outros, ouvia-os conversando entre si com a compostura séria e o vocabulário solene e exclusivo dos utensílios de cozinha. Tampouco foi apenas por acaso que ele se referira primeiro à colher de pau, pois a colher de pau, afinal de contas, é uma espécie de aristocrata entre os utensílios,; raramente é usada, e quase sempre para a sopa de carne, passa a maior parte do tempo pendurada na parede em imaculada limpeza e ócio decorativo. Entretanto, assim que é trazido para baixo o papel que desempenha na panela é o mais notável. O menino, portanto, considerava a colher de pau com particular respeito e achava que não havia ninguém à qual ele pudesse compará-la senão com a esposa do intendente. A panela preta, que quase estava cheia até à borda e às vezes tinha uma crosta queimada no fundo e muita fuligem embaixo, a panela preta não era ninguém mais que o intendente de Mýri, cuja boca sempre estava cheia de tabaco. Era fácil ver que às vezes ele fervia e devia haver um fogo em seu interior, e que ele tinha uma esposa de intendente para mexê-lo para que ele não transbordasse em ocasiões especiais. o  esmo acontecia com as outras coisas da cozinha: no escuro, transformavam-se em homens e mulheres.

Halldór Laxness (1902/1998) ganhou o Nobel de Literatura de 1955

A edição do livro esgotada, mas você poderá encontrar o livro em algumas livrarias que ainda o têm em estoque. Vá ao buscapé


          paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Halldór Laxness. Gente independente. Rio, Globo, 2004, 680 pp, R$ 50,00








domingo, 5 de outubro de 2014

A sagração dos ossos


Ivan Junqueira morreu agora, em 03 de julho.  A sagração dos ossos, livro de poemas lançado em 1994, que lhe deu o Prêmio Jabuti, resgata a lembrança dos mortos, da vida que foi , portanto não é mais. A infância para o poeta é uma canoa que naufraga e a bordo não traz senão fantasmas.





Espelho

O duro espelho me reflete:
olhos míopes que pouco enxergam,
lábios que muita vez se cerram,
rugas que me entalham a testa,

as pernas magras, talvez lerdas,
as mãos ossudas e irrequietas,
a barba cujo fio enfeza,
os pés que percorreram léguas.

E tudo mais que dele emerge,
de muito pouco ou nenhum préstimo,
pois logo no aço o tempo - névoa -
dissolve os traços mais perpétuos.

Mas algo de mim, certa inépcia
para entender o que me cerca,
ali se furta ao olho pérfido
de quem se crê o seu intérprete.

E não só: sequer uma réplica
da luz que em mim sucumbe à treva
no álgido espelho reverbera
ou deixa um risco de seu périplo.

Algo de mim: renirsism répteis,
algum antigo e inútil verso,
a alma de um rei que, sem remédio,
se consumia na quimera

de submeter servos e glebas,
mas que findou seus dias déspotas
em meio às moscas da taverna
e ao pouco pó de algumas vértebras.

Todo esse lodo e essa miséria...
E deles sequer um reflexo,
como se o espelho, mais que o inferno,
lhes recusasse alívio ou crédito.

Olho-me ali, e nem o espectro
de quem sou (ou fui) se revela;
vejo-lhe apenas a epiderme,
mas não o fundo, que é secreto.


Poeta de qualidade aprimorada, mas pouquíssimo lido, também adquiriu fama de excelente tradutor, especialmente da obra de T. S. Eliot, Dilan Thomas e Baudelaire (As Flores do mal teve inúmeros comentários honrosos graças à tradução de Junqueira). No programa de televisão em homenagem ao poeta, na data de sua morte (Globonews), o poeta falava que ser poeta é uma destinação. Tentou fugir da poesia, por que o poeta tem destino difícil, sofre muito, há que se pensar que não haverá recompensa financeira, já que poesia não vende. Mas ele não conseguiu e tornou-se um poeta maior muito pouco lido, como toda poesia é.

Seu primeiro ímpeto para traduzir poesia se deu quando leu pela primeira vez Os quatro quartetos, de T. S. Eliot, no original. Eliot lhe dizia tudo que o poeta Junqueira gostaria de dizer em poesia. Então, começou a traduzi-lo para seu bel prazer, para se aproximar mais da poesia do escritor anglo-americano. Aconteceu que Antônio Houaiss leu a tradução e se apaixonou. E o livro foi publicado em português. A partir daí cresceu o respeito da crítica sobre o trabalho de tradução do poeta brasileiro. Traduziu também Baudelaire (As flores do mal ganhou prêmio de melhor tradução), Dilan Thomas e Margueritte Yourcenar. 

O poeta falou também que todo tradutor deve levar em conta que se pode traduzir o que o poeta quis dizer, mas nunca o que ele disse. Num certo sentido a poesia seria intraduzível. Mesmo assim, deve acreditar que possa traduzi-la. Em relação ao processo criativo, não se poderia confundir propriamente intuição com inconsciente. Não são campos opostos, são terrenos tangenciais. Há uma participação muito grande do inconsciente na intuição. Só que a intuição não é um processo de transe mediúnico, dentro do processo de intuição. Há todo um processo de escolha intelectual, de percepção intelectual, podendo ser mais ou menos refinada, dependendo da formação intelectual do poeta.

Ivan Junqueira foi membro da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a João Cabral de Melo Neto, de quem teria sido influenciado. Além de poeta, foi ensaísta brilhante. Ao morrer, deixou no prelo dois livros que serão editados em breve. 

Como toda obra literária de qualidade, sua poesia encontra-se praticamente esgotada, uma das exceções é O outro lado, Ed. Record. Você pode encontrá-la nos sebos virtuais por preços bem acessível. Recomendo-lhes A sagração dos ossos, Ed. Civilização Brasileira e Poemas reunidos, Ed. Record. Certamente sua obra deva ser relançada em breve.
O enterro dos ossos

Não pude enterrar meus mortos:
Baixaram todos à cova
Em lentos esquifes sórdidos,
Sem alças de prata ou cobre.

Nenhum bálsamo ou corola
Em seus esquálidos corpos:
Somente uma névoa inglória
Lhes vestia os duros ossos

Foram-se assim, nus e pobres,
Sem deixar feudo ou espólio,
Ou mesmo uma ínfimajóia
Que lhes trouxesse à memória

O frágil brilho de outrora,
Quando lhes coube essa sobra
Que Deus larga pouco importa
Nas mãos de quem caia a esmola.

Passo a passo vida afora,
Sempre os vi em meio às górgonas
Da loucura cujo pólen
Lhes cegou a alma e os olhos.

Não pude enterrar meus mortos.
Sequer aos lábios estóicos
Lhes fiz chegar uma hóstia
Que os curasse dos remorsos.

Quer esquecê-los. Não posso:
Andam sempre à minha roda,
Sussurram, gemem, imploram
E erguem-se às bordas da aurora

Em busca de quem os chore
Ou de algo que lhes transforme
O lodo com que se cobrem
Em ravina luminosa
O poeta
O poeta está morto.
Cerrem-lhe as pálpebras,
o olhar absorto,
a boca cheia de tropos
e metáforas barrocas.
Sepultem aquele broto
que em sua garganta rouca
endureceu com o caroço
e a voz outrora doce
lhe afogou em fundo poço.
Deixem-lhe o corpo exposto
para que vejam o que pôde
fazer a morte e sua foice
com aquele que fora
corola, diamante, voo.
O poeta está morto.
Pouco importa agora o sopro
que lhe deu vida e alvoroço,
como tampouco o áspero corvo
que a alma lhe pôs em fogo.
Restam-lhe os versos, poucos,
e as sílabas já sem fôlego
às quais se agarrou com força
porque as ouvia como agouro
de um fugaz e último coro.
O poeta está morto.
Que nos sangrem, garras de osso,
as suas marcas do zorro.


          paulinhopoa2003@yahoo.com.br 
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Ivan Junqueira. A sagração dos ossos. Rio, Civ. Brasileira, 1994. 120 pp.

domingo, 28 de setembro de 2014

Beleza e tristeza

Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata (1899-1972), é um comovente romance de complexidade e sutileza. Oki Toshio, um escritor de meia-idade, faz uma viagem nostálgica a Kyoto para ouvir os sinos dos templos soarem na noite do Ano Novo. É movido também pelo desejo de reencontrar Otoko, que fora sua amante 24 anos antes e que agora é uma pintora de renome. Otoko vive num monastério com sua pupila Keiko, jovem de temperamento amoral e apaixonado. À medida que a vida dos três se entrelaçam irremediavelmente, Keiko torna-se a principal agente de destruição deste vasto e inquietante drama de vingança.
De todos os livros de Oki, aquele que permanecera mais tempo em voga e que ainda hoje gozava de grande prestígio do público era o romance onde relatava seu amor por Otoko, quando ela tinha 16 anos. Ao ser publicado, esse livro certamente prejudicou Otoko, chamando a atenção sobre ela, o que, sem dúvida, constituiu um obstáculo para um eventual casamento. Ainda assim, por que, depois de mais de vinte anos, a personagem baseada em Otoko continuava a seduzir tantos leitores? Sem dúvida seria mais correto dizer que era Okoko, tal como ela aparecia no romance de Oki, que seduzia os leitores, e não a adolescente que lhe serviu de modelo. O romance não era a verdadeira história de Okoko, mas simplesmente alguma coisa que Oki havia escrito. Mas, qual era a verdadeira Otoko, aquela que Oki havia descrito ou aquela que a própria Otoko poderia ter criado ao narrar ela mesma sua história? Sem  esse caso de amor o livro não teria existido. E era, sem dúvida, por causa de Otoko que esse romance continuava a ser lido, vinte anos depois de escrito. Se não tivesse conhecido Otoko, Oki jamais teria vivido esse amor. Ele não saberia dizer se o fato de ter encontrado a jovem e tê-la amado, quando tinha 31 anos, fora um infortúnio ou uma felicidade, mas o certo é que esse encontro lhe proporcionara, como escritor, um início promissor. Entretanto, qual a relação, por exemplo, entre a Otoko de seu romance e a verdadeira Otoko? Era difícil dizer.

No romance, observações psicológicas e um questionamento profundo sobre o sentido da arte e da literatura, assim como evocações poéticas surpreendentes dos jardins e monastérios do Japão, fazem de Beleza e Tristeza uma meditação sutil sobre temas caros a Kawabata: solidão e morte, amor e erotismo.

Beleza e Tristeza é o último romance de Yasunari Kawabata, Prêmio Nobel de 1968. Um surto depressivo o levou a tirar a própria vida em 1972. Foi contemporâneo de Mishima.

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Yasunari Kawabata. Beleza e tristeza. 3ª ed., SP, Globo, 2008, 292 pp, R$ 36,00

domingo, 21 de setembro de 2014

Boca do Inferno

A cearense Ana Miranda (1951) surgiu no cenário cultural como atriz de cinema. Se você tem mais de 50 anos e bebeu da fonte dos movimentos culturais de 1968, deve tê-la visto nos filmes Como era gostoso meu francês, Mãos vazias, A faca e o rio etc. É irmã de Marlui Miranda, cantora e ativista da causa indígena, que também foi marcante nesse período e continua ativa como cantora. Ana surgiu no meio literário como poeta. Sua incursão pelo romance deu-se em 1989, com Boca do Inferno, de que falaremos a seguir. Sua originalidade como romancista consiste no fato de se apropriar de figuras conhecidas da historiografia brasileira e construir uma narrativa bem elaborada, sem o ranço de romance histórico.


A ação de Boca do Inferno se passa na Bahia dos 1600. A Companhia de Jesus fortificava-se em igrejas, missões de catequese dos indígenas e colégios para evangelizar as novas gerações, de norte a sul do Brasil. Na Bahia, eram senhores de quase tudo,. Naquele tempo Gregório de Matos acreditava-se dono de uma grande vocação religiosa. Por isso quis ser um deles. Porém, cansou-se dela e passou a procurar algo diferente. Partiu para Portugal. Lá, passou muitas horas à margem do Tejo olhando as frotas, as pessoas na rua, aprendendo a lidar com as mulheres. Leu muitos livros até entrar na Universidade de Coimbra. A poesia trovadoresca portuguesa aguçou-lhe o estilo do escárnio e maldizer. Formou-se em Direito e voltou ao Brasil, atuando como desembargador, função que passou a odiar em seguida. Como conhecesse bem os pecados e a hipocrisia do clero, sentia-se desconfortável entre os louvores da fé a mesquinhez das atitudes humanas. Passou a frequentar embriagado lugares sórdidos da Bahia. O dom da poesia se manifesta nessa fase e passa a compor seus versos de escárnio e maldizer ao lado de outros versos religiosos e amorosos, frutos de diversas relações afetivas mal resolvidas.


Mas Boca do Inferno não é a biografia romanceada de Gregório de Matos. No romance de Ana Miranda, o poeta envolve-se em uma trama da qual participam o padre Antônio Vieira, cujo irmão está metido num complô para eliminar o governador da Bahia, acusado de corrupção. O assassinato do alcaide-mor, por parte desse grupo desencadeia uma perseguição do poder estabelecido contra os conspiradores, para prender e julgar os culpados. Essa perseguição conduz o leitor pelos meandros da política, dos conchavos pelas vielas tortuosas de uma cidade, cuja topografia de altos e baixos atolados de imundície, espelha de modo exemplar a vida colonial brasileira. Vieira é preso, Gregório de Matos é investigado, até o reino português interfere politicamente, para conduzir a história a seu final.

Boca do Inferno deu o Prêmio Jabuti de revelação. Ana Miranda escreveu ainda Dias e Dias, envolvendo a figura do poeta Gonçalves Dias; A última quimera, com o poeta Augusto dos Anjos como tema central; Desmundo, trata da história de órfãs que vinham de Portugal para o Brasil para casarem-se com os colonos; Amrik revive a saga de imigrantes árabes recém chegados em São Paulo no final do século XIX, e muitos romances mais. Em 2014 publica  Semíramis, que tematiza o escritor José de Alencar.
Ana Miranda escreve muito bem. Vale a pena conferir.
                        
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Ana Miranda. Boca do Inferno. 5ª ed, SP, Cia. das Letras, 1990, 336 pp, R$ 31,00

domingo, 14 de setembro de 2014

Dois rios

Há um grão de loucura em Marie-Ange que me atraiu de forma arrebatadora. No princípio, não conseguia identificá-lo com exatidão, apenas sabia que ele existia e me tirava de onde eu permanecera nos últimos anos. Seu corpo pequeno, sua pele alva, seu cabelo não seriam propriamente belos não fosse esse grão de loucura. Foram seus detalhes pouco usuais, seus pequenos defeitos que me encheram de vontade de me aproximar e descobrir de onde vêm. Eu tinha apenas os indícios: a boca que entorna com o cigarro, o despudor ao falar, o jeito desengonçado de andar, o corpo solto.
Da areia, vi-a entregar-se ao mar como se a existência começasse no momento mesmo em que ela entrava na água, como se a vida pulsasse ali e o instigante valesse mais do que toda uma história. A sua liberdade escancarada me comoveu.

Dois rios, dois irmãos gêmeos, duas ilhas - Ilha Grande na vila de Dois Rios, onde se situa o presídio que abrigava presos políticos; Nonza, na Córsega, onde vivem os pais de Marie-Ange.
Na década de 70, em plena ditadura no Brasil, o pai de Joana ia toda semana visitar seu irmão, preso por questões políticas, e numa dessas visitas conheceu sua mãe, filha de um policial. Ela, de classe média baixa, católica, educada para casar e ter filhos. Ele, rico, ateu, criado para se dar bem na vida. Nenhum dos dois conseguiu cumprir nem descumprir seus destinos, eles apenas se esqueceram de ser felizes.

Foi Marie-Ange quem tirou Joana (a protagonista da primeira parte de Dois Rios) de uma casa repleta de histórias tristes, de dor e culpa, onde viu sua mãe perambular dia e noite, tomando cuidado para não pisar no rejunte que une os tacos de madeira do piso, conferindo se o garfo e a faca estavam na distância exata do prato, trocando de sabonete a cada vez que lavava as mãos. Onde também  viu sua mãe escutar por horas a fio "Ne me quitte pas", a música que seu pai costumava cantar para ela e que depois de sua morte a fazia chorar. Sua mãe cultivava essas lágrimas fugindo para um universo  onde acabou vivendo seus dias. A morte do pai tornou a vida de Joana e seu irmão frágil e vaporosa. O elo entre os dois se rompera de forma tão abrupta, que agora Joana passa a duvidar da sua memória.

Antônio, irmão de Joana, é o protagonista da segunda parte do romance de Tatiana Levy.  Aos 22 anos, Antônio  terminou a universidade e foi fotografar pelo mundo. A vida lhe parecia estreita no apartamento em que morava em Copacabana  e deixou a irmã com a mãe e a culpa.A reconciliação parecia cada vez mais improvável. Antônio, que conhecera Marie-Ange no Brasil, quando estava com a irmã, acaba se apaixonando pela francesa, indo morar com ela numa aldeia da Córsega, tendo essa relação marcado profundamente a vida dele também.


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Tatiana Salem Levy. Dois rios. 2ª ed.,  Rio, Record, 2013, 224, pp, R$ 37,00

domingo, 7 de setembro de 2014

O mesmo mar

O mesmo mar. Podemos concluir tudo assim: um homem no quarto. O filho não está aqui. Sua nora está com ele por enquanto. Vai. Vem. Enquanto isso tem um caso com um rapaz irrequieto, deita com ela quando os negócios permitem, rapaz esperto, vai e vem. À noite, um homem à mesa. Tudo é silêncio. O filho não está. Sobre o aparador guardanapos, toalhinhas rendadas, entre elas duas fotos. Pela janela o mar. Móveis escuros. Esta noite ele deve checar um balanço, o que fecha, o que não fecha. Uma viúva com penteado à la garconne esteve aqui esta noite, por puro acaso, Às vezes ela dá uma passada, tomar um chá. O inverno passa, o mar permanece. E a luz, ela vai e vem. Uma vez de um jeito e outra vez de outro. Esta noite ele deve calcular no monitor quais foram seus lucros e quais suas perdas, o que conseguiu juntar. Coluna a coluna. Não é assim com a angústia: ela é incalculável.

Esta passagem de O mesmo mar, de Amós Óz, ilustra uma visão parcial desse romance, cujo enredo se revela numa sequência de seções curtas, num tom casual e ameno das conversas do dia-a-dia, às vezes como parábola bíblica, fábula, sonho ou poema.
O viúvo sexagenário Albert Danon vive só. Seu filho, Rico, após a morte da mãe, partiu para o Tibet em busca de paz interior, deixando a relação comTida, a namorada, em aberto. O tempo passa, Dita aparece na casa de Albert pedindo abrigo, seu projeto de cinema não deu certo, o produtor fugira com o dinheiro para o projeto. Está sem apartamento e sem dinheiro. Albert lhe oferece o quarto do filho como abrigo. A presença da jovem no quarto ao lado passa a atormentá-lo. Fantasia e realidade se confundem nesse romance de solidão e reencontro consigo mesmo.

Amós Óz nasceu em 1939 em Jerusalém. Autor de inúmeros romances e ensaios, tem se dedicado, ultimamente, à militância em favor da paz entre árabes e israelenses.
Tradução do hebraico por Milton Lando
     
                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Amós Óz. O mesmo mar. SP, Companhia de Bolso, 2014, 272pp, R$ 24,50

domingo, 31 de agosto de 2014

As parceiras

 As parceiras, de Lya Luft, é a visão feminina sobre uma família marcada pela morte, pela loucura, por um mundo decadente que a envolve e a desagrega.Anelise relata sua adolescência no meio de mulheres, numa casa de praia onde há um sótão em que viveu sua avó louca. A presença de sua avó, presa por vontade própria em um sótão, que passa a representar  um mundo de infância, marca sua vida para sempre.  O medo que povoava a infância de Anelise tornou-se naqueles anos do casarão um pavor profundo. Do medo, a rebeldia.  Não queria aquela vida, nem aquelas ideias, nem aquela religião. Tudo lhe era um castigo.

Um dia Anelise sentiu vontade de visitar o sótão do casarão, para tentar recompor a vida que sua avó Catarina levara ali. Surgem as perguntas: quando teria começado a arrumar o sótão feito um quarto de menina? Por que teria se refugiado ali? O que pensaria sozinha anos e anos a fio? Com quem falava sempre, para quem eram aquelas famosas cartas, as misteriosas? Quem seriam seus fantasmas?
Ninguém sabia ao certo o que se passara entre as paredes do sótão. Pouco antes de morrer a avó começara com uma nova mania: escrever. Compunha longas cartas desconexas e garatujadas, em letra gótica, em alemão, língua que Catarina preferia sempre. Pareciam ora dirigidas a um homem, ora a uma mulher, talvez escrevesse também as respostas, tudo misturado.

Durante esse tempo de curiosidade e busca, Anelise conheceu Otávio, um cara muito especial, que se refugiava na música,tocando piano. Achava tudo diferente nele, amava-lhe tudo, os olhos, a pele, o cheiro, a boca, o cabelo, as mãos de pianista. Foi Otávio quem lhe deu o primeiro beijo na boca, a fez partilhar de uma primeira , incompleta e assustada experiência de sexo, ajudou-a  a enxergar outra vida além dos paredões sombrios daquela casa. Também a ajudou quando seu casamento desmoronou depois de anos perfeitos.Tudo o que ela experimentava naquele tempo a fez entender mais intensamente que o mundo não se resumia a uma casa grande e escura, com medos no sótão. Havia uma floresta de experiências que esperava por ela: havia a liberdade.

Escrita em forma de diário, na primeira pessoa, durante uma semana, as palavras revelavam a Anelise toda sua existência, através desse mergulho no passado, para enfrentá-lo com a coragem e a verdade.

As Parceiras  é o primeiro romance de Lya Luft, lançado no mercado editorial. Faz parte das leituras obrigatórias do Vestibular da UFRGS de 2015.

                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Lya Luft. As parceiras. Rio, Record, 2003, 128 pp, R$ 28,00

domingo, 24 de agosto de 2014

Miserere

Miserere, o livro recém-lançado de Adélia Prado, é um diálogo com a divindade. O problema religioso sempre aparece em sua obra, mas não é a fé que a faz fazer poesia. Escrever versos faz parte da sua condição humana, é ela inteira que produz poesia. Aos 40 anos sentiu que precisava trabalhar a palavra: era poeta. Seus poemas são trabalhados com rigor, com o sentido de não trair o que está sentindo, pois detesta enfeites.
Seus versos revelam um sofrimento pessoal que todo mundo tem,  é condição de consciência, assim como a finitude da vida, sua precariedade, a velhice, a doença, a morte, os desconfortos físicos, morais e filosóficos. É preciso dizer um sim para aquela situação. O que alimenta sua poesia é o próprio susto e o próprio espanto que tem da vida. É poeta do cotidiano,  das paixões humanas, da perplexidade de existir. Existir é muito esquisito, ela costuma dizer. O que é, de onde veio, para onde vai são a base do questionamento da existência humana.
Adélia Prado, como sempre tem sido, conversa de forma aberta e afetiva com o leitor. Não acredito que exista alguém, mesmo ateu, que não goste de seus poemas. Sua poesia ecoa em todos os cantos.É linda! 

Deguste:

Branca de Neve

Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
'Nem todo alemão conhece Mozart.'

Um óbvio, pois nem é preciso, 
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma da sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
"Geração perversa, raça de víboras"
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro 'tino escolhitivo'.
Pra quem me pede dou lista de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.


                                 paulinhopoa2003@hotmail.com
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Adélia Prado. Miserere. Rio, Record, 2013, 96 pp, R$ 25,00

domingo, 17 de agosto de 2014

A costa dos murmúrios

A fotografia seguinte representa uma árvore alta, sem folhas, como se realmente queimada, e um grande galho donde pende o negro, pelo pescoço, baloiçando sem camisa. A seguinte tem a mesma árvore, o mesmo galho, o mesmo negro, mas agora nem tem nem calças nem camisa. O negro baloiça no galho da árvore, rodeado por soldados. Helena segura a fotografia. "Disse o Jaime que as calças dele escorregaram e que ejaculou para cima do capim, em frente dos soldados portugueses! O Jaime diz que nunca mais acontece - agora vão amarrar sempre as calças de quem for enforcado, para se pouparem a cenas dessas!" - disse ela. "Passe" - disse, com um olho na porta outro na janela. Passou outro pacote (...) que dizia Víbora Venenosa. Eram imagens de incêndios, aldeias em chamas, sem qualquer referência. O fotógrafo deveria gostar dos rolos de fumo. As seguintes tinham referência, localização, e número de palhotas destruídas - destruídas trinta, oitenta e três... Também traziam coordenadas. Agora no meio das palhotas incendiadas havia soldados correndo. Adiante, novo pacote. Estávamos sentadas num sofá de pano onde Helena ia empilhando e desempilhando. Helena mostrou-me com precaução o pacote que dizia spoilt como os outros e Víbora Venenosa III. Mais rostos, mais cabeças de soldados escondidos entre sarças, mais incêndios, e logo a imagem dum homem caído de bruços, depois dois telhados, e sobre um dos telhados de palha, um soldado com a cabeça dum negro espetada num pau.  Viam-se vários corpos sem cabeça à beira duma chitala, um bando de galinhas avoejava sobre eles na mesma fotografia. Helena passou. Helena tomou a seguinte e mostrou o soldado em pé, sobre o caniço. Via-se nitidamente o pau, a cabeça espetada, mas o soldado que a agitava não era um soldado, era o noivo. Helena de Tróia disse - "Vê aqui o seu noivo?" Ela queria que Evita visse. Era claro como a manhã que despontava que Helena de Tróia me havia trazido até àquela divisão da casa para que eu visse sobretudo o noivo.

Essa é uma das muitas cenas inquietantes em que se vê portugueses em meio às atrocidades da guerra em Moçambique. É a fase final da guerra, quando a nação africana prepara sua independência. A costa dos murmúrios, de Lidia Jorge, apresenta em sua estrutura duas narrativas. A primeira, Os Gafanhotos, é uma narrativa curta que termina com um FIM.  Trata-se da comemoração do casamento do alferes português Luis Alex (o da foto com a cabeça do negro) e sua noiva, Evita, durante uma trégua nos combates. Um cortejo de convidados dança e se diverte num clima eufórico no terraço do hotel Stella Maris, enquanto um fotógrafo registra as cenas da festa. Enquanto isso acontece no hotel, uma aglomeração de cadáveres de negros aparece na praia, recolhidos em caminhões de lixo.  Também acontece uma praga de gafanhotos e a morte do noivo de Evita. A segunda, que ocupa as demais páginas do romance retomam e desvendam uma série de imagens da primeira página, contada por vários personagens, sendo Evita uma delas. A morte misteriosa do noivo revela uma relação de adultério.

Se o leitor conseguir deixar de lado o estilo encaixado, com a colocação dos pronomes rigorosamente respeitados, vai se deixar envolver pela prosa criativa e inquietante de Lídia Jorge, que vem crescendo na literatura portuguesa e universal. Outro romance dela, A Noite das mulheres cantoras será comentada adiante, quando abordarmos a lista de livros recomendados pelo vestibular da UFRGS.
A obra em papel encontra-se esgotada. Pode ser encontrada em sebos por um preço médio de 40 reais um exemplar em bom estado de conservação.

                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Lídia Jorge. A costa dos murmúrios. Rio, Record, 2004. 290 pp, 

domingo, 10 de agosto de 2014

Uma história da leitura

A leitura começa com os olhos. Quando vemos um texto lembramo-nos melhor dele do que quando apenas o ouvimos.  Até aqui está óbvio para qualquer leitor: as letras são apreendidas pela visão. Mas por meio de qual alquimia essas letras se tornam palavras inteligíveis? O que acontece dentro de nós quando nos defrontamos com um texto? De que forma as coisas vistas, as "substâncias" que chegam através dos olhos ao nosso laboratório interno, as cores e formas dos objetos e das letras se tornam legíveis? O que é, na verdade, o ato que chamamos de ler? Uma história da leitura é o relato da nossa história da leitura. Descobrimos com Alberto Manguel que ler nos propicia desvendar mistérios e ficarmos pasmos diante de outros mais. É um livro de ensaios, que o prestigiado escritor argentino que ajudava Borges em seu processo de leitura e foi por ele influenciado, nos delicia com uma prosa muito bem amarrada.

Os leitores de livros ampliam ou concentram uma função comum a todos nós. Ler as letras de uma página é apenas um de seus muitos disfarces. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais; o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa, de modo a protegê-la das forças malignas; o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta; o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora; a dançarina lendo as notações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco; o tecelão lendo o desenho intrincado de um tapete sendo tecido; o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página; os pais lendo no rosto do bebê sinais de alegria, medo, admiração; o adivinho chinês lendo as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante lendo cegamente o corpo amado à noite, sob os lençóis; o psiquiatra ajudando os pacientes a ler seus sonhos perturbadores; o pescador havaiano lendo as correntes do oceano ao mergulhar a mão na água; o agricultor lendo o tempo no céu - todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos. Algumas dessas leituras são coloridas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para aquele propósito específico por outros seres humanos - a notação musical ou os sinais de trânsito, por exemplo - ou pelos deuses, - o casco da tartaruga, o céu à noite. Outras pertencem ao acaso. E, contudo, em cada caso é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo. Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial. 

Alberto Manguel  descobriu pela primeira vez que podia ler, aos quatro anos de idade. Tinha visto uma infinidade de vezes as letras que sabia (porque tinham lhe dito) serem os nomes das figuras colocadas sob elas. O menino desenhado em grossas linhas pretas, vestido com calção vermelho e camisa verde (o mesmo tecido vermelho e verde de todas as outras imagens do livro, cachorros, gatos, árvores, mães altas e magras), era também, de algum modo, percebia, as formas pretas e rígidas embaixo dele, como se o corpo do menino tivesse sido desmembrado em três figuras distintas: um braço e o torso, b; a cabeça isolada, perfeitamente redonda, o; e as pernas bambas e caídas, y. Desenhou os olhos e um sorriso no rosto redondo e preencheu o vazio do círculo do torso. Mas havia mais: sabia que essas formas não apenas espelhavam o menino acima delas, mas também podiam lhe dizer exatamente o que o menino estava fazendo com os braços e as pernas abertas. O menino corre, diziam as formas. Ele não estava pulando, como poderia ter pensado, nem fingindo estar congelado no lugar, ou jogando um jogo cujas regras e objetivos lhe eram desconhecidos. O menino corre. Depois que aprendeu a ler suas letras, leu de tudo: livros, mas também notícias, anúncios, os tipos  pequenos no verso da passagem do bonde, letras jogadas no lixo, jornais velhos apanhados sob o banco do parque, grafites, a contracapa das revistas de outros passageiros no ônibus. Quando ficou sabendo que Cervantes, em seu apego à leitura, lia até os pedaços de papel rasgado na rua, entendeu exatamente que impulso o levava a isso. Essa adoração do livro (em pergaminho, em papel ou tela) é um dos alicerces de uma sociedade letrada. O Islã leva a noção ainda mais longe: o Corão não é apenas uma das criações de Deus, mas um de seus atributos, tal como a onipresença ou a compaixão.A experiência veio a ele primeiramente por meio dos livros. Mais tarde, quando se deparava com algum acontecimento, circunstância ou tipo semelhante àquele sobre o qual havia lido, isso lhe causava o sentimento um tanto surpreendente mas desapontador de déja vu, porque imaginava que aquilo que estava acontecendo agora já havia lhe acontecido em palavras, já havia sido nomeado.


O livro irá agradar aos que possuem uma bagagem considerável de boa literatura. Mas poderá surpreender aos curiosos que também gostam de ler.

                                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Alberto Manguel. Uma história da leitura. SP, Cia. das Letras, 1997, 408 pp, R$ 60,00

domingo, 3 de agosto de 2014

De gados e homens

A escritora fluminense Ana Paula Maia (1977) não gosta de se alongar muito em uma história. Há um tempo para escrever um livro, ela disse em uma entrevista ao jornal Rascunho. Gosta das coisas acontecendos. A cada capítulo deve ter alguma coisa acontecendo. Acha meio chato quando o personagem está com uma dúvida e fica cinco capítulos com essa dúvida. Ela disse que acha Proust uma coisa chatérrima.

O problema, entretanto, é quando o leitor vê coisas acontecendo a todo momento e quando termina o livro se pergunta: tá, mas e daí?

O enredo do curto romance De gados e homens gira em torno de um abatedouro de carne bovina, onde homens rudes agem de forma quase desumana. Edgar Wilson está apoiado no batente da porta do escritório do seu patrão, que conclui um telefonema aos berros, já que desde cedo aprendeu a berrar, quando solto no pasto, ainda bem menino, disputava com o bezerro a teta da vaca. O escritório não passa de um cômodo espremido ao lado do setor de bucharia do matadouro. O patrão lhe pede que vá até a fábrica de hambúrguer fazer uma cobrança. Edgar Wilson alerta que há gado a ser abatido, mas o patrão passa a tarefa para o Zeca.
Edgar Wilson acena com a cabeça e apanha a ordem de cobrança. Segue por um corredor fétido e mal iluminado e ao virar à direita entra no boxe de atordoamento, local em que trabalha muitas horas por dia. A fila de bois e vacas é sempre longa. Um funcionário abre a portinhola e o boi que já passou pela inspeção e pelo banho entra devagar, desconfiado, olhando ao redor. Edgar apanha a marreta. O boi caminha até bem perto dele. Edgar olha nos olhos do animal e acaricia a sua fronte. O boi bate uma das patas, abana o rabo e bufa. Edgar cicia e o animal abranda seus movimentos. Há algo nesse cicio que deixa o gado sonolento, intimamente ligado a Edgar Wilson, e dessa forma estabelecem confiança mútua. Com o polegar lambuzado de cal, faz o sinal da cruz entre os olhos do ruminante e se afasta dois passos para trás. Suspende a marreta e acerta a fronte com precisão, provocando um desmaio causado por uma hemorragia cerebral. O boi caído no chão sofre de breves espasmos até se aquietar. Não haverá sofrimento, ele acredita. Agora o bicho descansa sereno, inconsciente, enquanto é levado para a etapa seguinte por outro funcionário, que o suspenderá de cabeça para baixo e o degolará.
 Vai até o setor de triparia e chama por Zeca, que imediatamente acata sua ordem. É com o coração pesaroso que Edgar vê, minutos depois, o rapaz, sorridente, seguir até o boxe de atordoamento ao sair da sala de Milo. Zeca é um garoto de dezoito anos, perturbado. Gosta de ver o animal sofrer. Gosta de matar. Se prepara para a tarefa quando Edgar entra no boxe e o adverte: não deixa o bicho sofrer. Zeca apanha a marreta, faz sinal para que o funcionário deixe o boi entrar. Quando o animal fica frente a frente com ele, a marretada propositalmente não é certeira, e o boi, gemendo, caído no chão, se debate em espasmos agonizantes. Zeca suspende a marreta e arrebenta a cabeça do animal com duas pancadas seguidas, fazendo o sangue respingar em seu rosto.
Edgar Wilson não responde à afronta de Zeca. Vira de costas e caminha até o banheiro, onde troca de roupa. Veste uma calça jeans e uma camisa quadriculada de botões. Após apanhar as chaves, segue até a caminhonete e lamenta o rádio quebrado do carro. Ao retornar, já e fim de tarde, estaciona a caminhonete do pátio do matadouro, entra no escritório e entrega o cheque ao Milo. No boxe de atordoamento repara na quantidade excessiva de sangue e em pedaços de crânio esfacelado. Entra no banheiro do alojamento. Espera que reste apenas o Zeca no banho. Com a marreta, sua ferramenta de trabalho, acerta precisamente a fronte do rapaz, que cai no chão em espasmos violentos e geme baixinho. Nenhuma gota de sangue foi derramada. Seu trabalho é limpo. No fundo do rio, com restos de sangue e vísceras de gado, é onde deixa o corpo de Zeca.
Cumprido seu dever, ele vai para a cozinha do alojamento e frita os hambúrgueres. Com os colegas comem toda a caixa, admirados. Assim, redondo e temperado, nem parece ter sido um boi. Não se pode vislumbrar o horror desmedido que há por trás de algo tão saboroso e delicado.
 Ao terminar o primeiro capítulo do livro achei que ia ser arrebatado por uma narrativa tensa, instigante. A orelha do livro diz isso e diz que cativará o leitor pelo terror, pela agonia, e pelo espanto. Mas a violência imposta no início do romance se esvai em um enredo que parece beirar um real maravilhoso descosturado, com o rio morto cuja água fica salgada, vacas libanesas misturadas a vacas israelenses, também as vacas que se suicidam. O assassinato do Zeca, relatado acima, fica por isso mesmo.. Li matérias em jornais literários enaltecendo a prosa de Ana Paula Maia neste romance, mas tudo parece, agora, resenha de amigos. Eu esperava mais.

                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Ana Paula Maia. De gados e homens. Rio, Record, 2013, 128 pp, R$ 30,00