domingo, 28 de agosto de 2016

14. Moby Dick

Ismael é um caçador de baleias. É ele quem nos conta a história de Moby Dick, o leviatã, o monstro assustador dos mares que todos os marinheiros têm sede de eliminar. Moby Dick, na verdade, é uma baleia branca que habita os mares próximos à Groenlândia. Ismael está pronto com os demais marinheiros para embarcar mais uma vez para a aventura de matar a baleia.

Ismael está numa pensão em New Bedford, importante porto baleeiro na época, para formar a tripulação do navio que empreenderá a viagem. Na pensão, tem como colega de quarto um aborígene, Quiqueg, que simboliza uma mistura de todos os ilhéus que têm a verdadeira fama de exímios arpoadores. Quiqueg é um sujeito aculturado, segue o Islã, o que por vezes nos faz pensar que pudesse ser um nativo malaio, mas Quiqueg não tem olhos puxados, está mais próximo de um nativo da Oceania. Ismael o define como uma criatura em estado de transição de lagarta a borboleta: era civilizado o bastante para ostentar seu exotismo. Veste-se de maneira única, original. Quanto a seu temperamento, é uma pessoa doce, corajosa e leal. Quiqueg entendia que a vida era a união de todos os seres da natureza com o ser superior, que integra tudo, sendo o ser humano não um ser superior, mas um participante da natureza com os demais seres. Os dois tornam-se amigos inseparáveis.

O capitão Acab, o protagonista da trama, tem quarenta anos de atividade baleeira, cercado de privações e perigos sobre um mar desapiedado. Há quarenta anos abandonou a terra pacífica para guerrear os horrores marinhos. Quando Acab pensa na vida que tem levado, na solidão desoladora que o acompanha, sente cansaço, angústia. Mas ele não pode esmorecer justo no momento em que se prepara para formar a tripulação de seu navio, o Pequod, para matar a baleia branca assassina que lhe arrancou uma das pernas.

Então, dá-se início à aventura pelo mar gelado e perigoso que esconde o "monstro branco". Um embate entre o homem e as forças da natureza. Herman Melville (1819/1891)conhecia a navegação de baleeiros por conta própria, pois trabalhou em alguns deles. Em uma de suas viagens, viveu algum tempo na Polinésia. O romance apresenta verdadeiras aulas sobre navegação e o ofício da caça da baleia.
Moby Dick foi fracasso de vendas, na época de seu lançamento. 

Acontece que a obra estava adiante de seu tempo. Não se trata apenas da história de um homem que busca matar a baleia que arrancara sua perna. Trata-se da obsessão de um homem por seu ato de vingança. Melville retrata em Acab as virtudes e falhas do espírito humano, assim como sua pulsão assassina. Quando finalmente ele se depara com a baleia, trava-se uma luta atroz e apenas Ismael sobrevive para fazer o relato da história. 

Cuidado com as traduções. Prefira a edição da Cosac Naify, com tradução de Irene Hirsch. O livro físico está esgotado, mas se encontra facilmente nos sebos virtuais. Tem uma tradução mais antiga, de Péricles Eugênio da Silva Ramos, lançado pela Editora Abril em 1980, em dois volumes, também confiável.

domingo, 21 de agosto de 2016

13. O vermelho e o negro

Na cidade de Verrières há uma fábrica barulhenta que produz por dia milhares de pregos. Mais adiante, próximo à prefeitura, há  uma casa de aspecto muito bonito e, através de uma grade de ferro contígua à casa, seus jardins magníficos. Ao fundo surgem as colinas de Borgonha, formando uma linha de horizonte que parece feita expressamente para o prazer dos olhos. A fábrica e a casa magnífica pertencem ao sr. de Rênal, um homem que se fez na vida cobrando pontualmente o que lhe devem e pagando o mais tarde possível o que deve aos outros. Foi com o dinheiro da fábrica que o sr. de Rênal construiu sua mansão. Envergonhado de ser um industrial vivendo do comércio de ferro, em 1815 decide ser o prefeito da cidade.

Essa cena inicial de O vermelho e o negro serve como ilustração da classe média francesa enriquecida fora da nobreza, ilustrando o período liberal da política francesa, após a queda de Napoleão. Essa evolução dos costumes, entretanto, não excluiu o sistema de castas que imperava na França desde sempre. É nessa sociedade em transformação, com toda sua hipocrisia dos costumes que vai atuar o herói do romance de Stendhal (1783/1842), Julien Sorel.
Julien era um jovem ambicioso, filho de um serralheiro que havia vendido muitas terras a preço de banana ao sr. de Rênal. Por ser filho de serralheiro, o caminho que lhe restava para seguir na vida era o de estudar para padre e ganhar a vida como preceptor de filhos endinheirados da sociedade local. O pai de Sorel era um sovina, cobrava do filho o que gastara durante seu sustento e acabou forçando-o sair de casa para seguir os estudos no seminário.

Pois bem, Sorel acaba contratado para ensinar aos filhos do prefeito o latim. A sra. de Rênal, mulher culta e discreta, acaba se envolvendo com o  jovem e os dois tornam-se amantes.
Uma carta anônima ameaça comprometer Julien e a sra. de Rênal. Um cônego seu protetor o aconselha a ir a Paris, para trabalhar como preceptor da família de La Mole, gente endinheirada que frequentava a corte parisiense. Sorel acaba sabendo que não há fortuna para um homem de sua condição, exceto por intermédio da nobreza. Ajudado pelo sr. de La Mole, que simpatiza com ele, passa a se vestir como um dândi e a dominar a arte de viver em Paris.
Não demora muito para Sorel e a srta. de La Mole se apaixonarem. Ter um amante de classe inferiorizada era coisa corriqueira para as mulheres da corte, desde que se mantivessem em sigilo aparente. O problema para Julian residiu no fato de tanto a sra. de Rênal quanto a senhorita de La Mole apaixonaram-se verdadeiramente por ele, enquanto ele era de caráter delicado, um romântico inveterado que ama com o coração mas não mede a realidade que cerca essa paixão.

Um dia, a senhora de Rênal aparece em Paris e põe a relação de Julien com a senhorita de La Mole em risco. Julien, num gesto impulsivo, tenta matar a senhora de Rênal em uma igreja e é preso. O final do romance é patético.

A Cosac Naify tem uma edição bem cuidada do romance, com tradução de Raquel Prado. Mas há outras traduções competentes sugeridas pela Cosac, como a de José Geraldo Vieira, pela Difel, e de Paulo Neves pela LPM (R$ 39,90). A edição nova da Cosac sai entre 54 e 89 reais.

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Stendhal. O vermelho e o negro. SP, Cosac, 2010, 576 pp. 

domingo, 14 de agosto de 2016

12. Fausto

O motivo condutor do drama trágico Fausto  é a aposta, feita em dois planos: no plano terreno, Fausto aposta com o demônio (Mefistófeles) que, se este lhe desse a felicidade plena, entregaria sua alma ao inferno. No plano espiritual, a aposta se dá entre Deus e o Diabo, para tentar salvar a alma de Fausto da danação. No final, Fausto perde para o demônio, que leva seu corpo para baixo da terra, mas Deus salva sua alma e o leva ao céu. A primeira parte do Fausto foi composta ainda sob a influência do Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto) alemão, onde a subjetividade e o sentimentalismo estavam em alta no Romantismo, de forma generalizada.

O Fausto de Goethe encontrava-se angustiado e isolado da sociedade em uma solidão voluntária, sentindo-se incapaz de transformar o mundo. Um dia, durante um passeio, é seguido por um cão negro que ele deixa entrar em sua casa. Mefisto havia se metamorfoseado nesse cão para tentar Fausto a aventurar-se pelo mundo dos prazeres terrenos, para curar sua crise existencial.  Mefisto propõe-lhe uma aposta:  Se a inquietação de Fausto, se a sua eterna aspiração aplacar-se algum dia e ele entregar-se a um leito de lazer, à indolência e à fruição hedonista, se vivenciar um momento de felicidade em que possa exclamar: "Oh, pára!, és tão formoso!", então Mefisto terá ganho a aposta.

Fausto aceita e Mefistófeles leva-o a interagir no mundo com todas as sua grandezas (e misérias: os pecados). Fausto passa a frequentar a vida boêmia e a beber, mas isso não o satisfaz. Mefisto lhe oferece a possibilidade do amor carnal na figura da jovem Margarida, Gretchen, moça simples. Mas ele se toma de amores por ela. Mefisto o distancia de Gretchen, que estava grávida de Fausto e tem um final trágico, pois foi tratada como prostituta por ter um filho solteira. Gretchen, num gesto de desespero, mata o filho, é presa e condenada à morte. Fausto vem a saber da morte da amada e do filho através do irmão da moça, com quem duela e o mata.

A segunda parte, o Fausto II, terminado mais de 20 anos depois, é de leitura bem mais extensa, e difícil, são mais de 1000 páginas, onde Mefisto leva Fausto a vivenciar toda a história da humanidade, partindo dos mitos gregos: Fausto contracena com Helena de Troia, com os filósofos gregos e demais figuras históricas. No final ele sucumbe, e morre, entregando sua alma ao demônio. As forças divinas, entretanto, interferem em seu destino, Mefisto é logrado e Fausto ganha o reino dos céus.

Historicamente, existiu na Alemanha, mais ou menos no final da Idade Média, um Doutor Fausto, médico, também mago e alquimista. Era considerado figura esquisita, vivia só na companhia de um cão preto. Como começava a enriquecer, criou-se a lenda de que havia feito um pacto com o demônio, em troca da felicidade material. E esse demônio estava transformado no seu cão preto.  Essa lenda passou à forma escrita, publicada em almanaques e foi traduzida para o inglês. O dramaturgo Marlowe, da geração de Shakespeare, interessou-se pelo tema e criou uma peça de teatro, "A trágica história do Doutor Fausto", publicada mais ou menos em 1592. Goethe (1749/1832), quando criança, adorava teatro de marionetes e assistiu à adaptação da peça de Marlowe e ficou impressionado com o tema. Em 1808 publicou sua obra monumental: Fausto I. Em 1832, quando morreu, veio a lume a segunda parte da tragédia: Fausto II.

Há uma edição bilíngue confiável e muito bem reputada da renomada tradutora Jenny Klabin Segall (esposa do pintor Lasar Segall), que dedicou boa parte de sua vida a traduzir os dois volumes de Fausto, pela Editora 34. Os dois volumes são em versos, buscando respeitar a edição original alemã, enriquecida com a apresentação, comentários e notas de Marcus Vinicius Mazzari. Fausto I tem ilustrações de Eugène Delacroix e Fausto II, de Max Beckmann.


Existem traduções em prosa do Fausto, mas é preciso ter cuidado com a procedência e qualidade dessas traduções. Eu sugiro ao leitor que opte pelo Fausto I da Editora 34, que não apresenta grandes dificuldade na leitura. Acho que o leitor não se arrependerá. Afinal, não dá para morrer sem ler o Fausto de Goethe, também. O preço dos dois volumes da Editora 34 giram em torno de 63 e 80 reais, respectivamente. 

domingo, 7 de agosto de 2016

11. As relações perigosas

As relações perigosas é romance epistolar (gênero romanesco que narra os acontecimentos através de cartas) do francês Choderlos de Laclos (1741/1803), que conta a trama diabólica da Marquesa de Merteuil, viúva rica e nada ética em suas relações sociais, para destruir o casamento da jovem adolescente Cecile Volanges com o Conde de Gercourt, destruindo a reputação da jovem. Para isso escreve ao Visconde de Valmont, que ganhava a vida servindo-se de amante de mulheres ricas e preferencialmente casadas da corte francesa. Começa então uma troca de cartas entre os dois, não só dos dois, mas de todos os personagens envolvidos direta e indiretamente na trama.
Ficamos sabendo de cara que Valmont tem ressentimentos em relação à Marquesa de Merteuil, de quem foi amante e apaixonado. Sentindo-se usado por ela, afastou-se de seu convívio, passando a viver no campo em casa de uma tia. Merteuil o chama, explica-lhe seu plano, que ele recusa inicialmente, mas acaba aceitando, no desenrolar da história. A verdade é que Valmont está buscando se envolver com a bela Madame de Tourvel, mulher casada, amiga de sua tia, com quem vive no campo. A relação entre os dois leva a tal senhora a um final trágico.

Acompanhamos, paralelamente, as cartas trocadas entre a adolescente Cecile e sua amiga de internato, Sophie Carnat, em que narra o desejo da mãe em casá-la com o conde, mais velho que ela. Ficamos sabendo, também, através dessa troca de cartas entre as duas, a aproximação de um professor de música, Danceny, com quem passa a ter um romance cortês secreto, arquitetado, claro, pela Marquesa de Merteuil.

Com o desenrolar da história, Valmont acaba se apaixonando verdadeiramente por Madame de Turvel, a amante, mas esta decide, contraditoriamente, afastar-se dele. A Marquesa de Merteuil aproxima-se de Cecile e torna-se sua confidente. Consegue levar a jovem a passar um tempo no interior, justamente no lugar onde se encontra Valmont e os dois acabam se encontrando e tornando-se íntimos.

Com o afastamento definitivo da amante, Valmont, cansado de se ver manipulado pela Marquesa de Merteuil, propõe a ela que sejam amantes ou inimigos. Como a Marquesa usava e vingava-se das pessoas por prazer, propõe a guerra. O final é devastador.

As relações perigosas, publicado em 1782, caiu no ostracismo, sendo proibido por um tempo, considerado obra pornográfica. Quem reabilitou a obra como um dos romances capitais da literatura universal foi o escritor André Gide (1869/1951). Existem duas traduções respeitadas no mercado editorial, a de Dorothee de Bruchard, pela Penguin Companhia e a de Carlos Drummond de Andrade, pela Biblioteca Azul. Existe uma tradução acima de qualquer suspeita, feita por Sérgio Milliet, que você pode encontrar nos sebos, da coleção Imortais da Literatura Universal, da editora Abril. Foi essa tradução que li e recomento.

Depois de ler As relações perigosas, loque o filme de mesmo nome, dirigida por Stephen Frears, em que Glenn Glose, John Malkovich e Michelle Pfeifer dão uma aula memorável de interpretação. Há outro filme baseado no romance, Valmont, dirigido por Milos Forman.                          
  
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Choderlos de Laclos. As relações perigosas. Editora Abril/Difel, 1971, 324 pp.

domingo, 31 de julho de 2016

10. Tom Jones

O juiz Alworthy é um solteirão puritano, de posses e índole bondosa, que uma dia se surpreende ao encontrar uma criança recém-nascida na porta de sua casa. A mãe da criança, mãe solteira desenganada pelo amante, é chamada e recebe um rigoroso sermão, mas tem a promessa de que a criança, um menino, será criado por ele com toda a dignidade possível a uma família abastada. Esse menino, Thomas, logo recebe a ira de um capitão que se havia casado por interesse com a irmã do fidalgo Alworthy, quando lhe nasce o filho. Logo uma trama é esboçada pelo capitão, para se descobrir o pai de Tom e impedir que ele venha a prejudicar financeiramente suas pretensões.

Enquanto isso, lá foi o bastardo educado, alimentado e vestido para o mundo todo como um cavalheiro; e lá emprenhou uma das criadas, fazendo com que ela o negasse sob juramento ao próprio fidalgo; mais tarde, quebrou o braço  de um padre, só porque este o censurou por andar metido com marafonas; e mais tarde, disparou uma pistola contra o sr. Blifil, pelas costas; e uma vez, quando o juiz Alworthy encontrava-se doente, arranjou um tambor, e pôs-se a tocá-lo pela casa toda para não o deixar dormir.

Tom Jones era um dos mais simpáticos donzéis do mundo. O rosto, além de ser o retrato da saúde, apresentava os mais aparentes indícios de doçura e afabilidade. Atributos tão característicos do seu semblante que, embora a vivacidade e a sensibilidade dos olhos, manifestas a qualquer observador atento, pudessem escapar ao reparo dos menos perspicazes, tão acentuada lhe transparecia a afabilidade na expressão, que era notada por quase todos os que o viam. Era, igualmente, ativo, cortês, alegre e bem-humorado, e possuía uma torrente de espíritos que imprimia vivacidade a qualquer conversação de que participasse.

Tom é apaixonado pela bela e rica Sofia, mas devido a sua origem moralmente inaceitável, sofre por saber que não pode casar-se com ela, ainda que ela também o ame. Muito atraente às mulheres e agradável com todos, Jones desperta a inveja de Blifil, sobrinho de Allworthy, que os tinha criado como irmãos. E por uma série de artimanhas de Blifil, Jones acaba sendo expulso de casa,tendo que seguir seu caminho sozinho, numa história de estrada, onde a cada paragem há uma aventura desse anti-herói com novos personagens.
O inglês Henry Fielding (1707/1757) cria um estilo literário original, interrompendo muitas vezes a narrativa, para divagar acerca de assuntos do livro, fazendo, também, referências literárias e filosóficas.Predomina em todo o romance, o humor satírico.

Tradução Octavio Mendes Cajado

A obra encontra-se esgotadas, mas podem ser garimpadas nos sebos virtuais.Atente para o fato de que foram feitas adaptações da obra para o público infanto-juvenil.

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Henry Fielding. Tom Jones. SP, Abril Cultural, Coleção Os imortais da literatura universal, 1971, 620 pp. 

domingo, 24 de julho de 2016

09. Robinson Crusoé

Aconteceu um dia, quando em torno do meio-dia me encaminhava para o meu barco, de eu ficar extraordinariamente surpreso com a marca de um pé descalço de homem na praia; claramente visível na areia: foi como se um raio me tivesse atingido, ou como se tivesse avistado uma aparição. Eu me pus à escuta, olhei a toda a volta, mas não ouvi e nem vi nada. Subi a um ponto mais elevado para enxergar mais longe, percorri toda a praia de ida e de volta, mas tudo sem resultado, e não vi outra pegada além daquela. Voltei até lá para verificar se encontrava alguma coisa e se não podia ser minha imaginação; mas não havia a menor possibilidade disso, pois era exatamente a marca de um pé descalço, com todos os dedos, o calcanhar e todas as partes de um pé. Como tinha chegado ali eu não sabia, nem tinha como imaginar. Mas depois de inúmeros pensamentos agitados, completamente confuso e quase fora de mim, cheguei de volta a minha fortificação sem sentir, como se diz, o chão debaixo dos meus pés, mas aterrorizado até o último grau, olhando para trás a cada dois ou três passos, confundindo cada arbusto ou árvore e imaginando que cada tronco a uma certa distância era um homem. E nem sei descrever de quantas formas a imaginação assustada me representava as coisas, quantas ideias insensatas brotavam a cada momento em minha fantasia, e quantos caprichos estranhos e incontáveis ocorreram no caminho aos meus pensamentos.

A cena descrita brilhantemente por Defoe mostra a tensão que envolve um homem solitário, já conhecedor da ilha, surpreso e temeroso de que seu isolamento tivesse chegado ao fim.  O vestígio de outro ser humano, que lhe poderia ser amigo ou inimigo, marca uma crise no desenrolar da história.
Ao contrário de As viagens de Gulliver, que mostra uma visão desacreditada da humanidade, Robinson Crusoé é o protótipo do colonizador inglês propulsor da expansão territorial e do progresso da civilização. Ele é um marujo inglês que conhece terras distantes, tendo inclusive morado no Brasil, onde teve fazenda, cultivando e traficando escravos. Certo dia, cansado de ficar no mesmo lugar, deixa suas posses brasileiras a cargo de sócios e empreende novas viagens marítimas. Um dia, naufraga e chega numa ilha aparentemente deserta, onde vive por quase trinta anos, tendo como servo e companheiro o índio Sexta-Feira, que foi salvo por Crusoé quando índios canibais que aportaram na ilha tinham-no trazido para comer.

Daniel Defoe cria, assim, o microcosmo do processo civilizatório numa ilha localizada no Oceano Pacífico, próximo à costa do Chile. Robinson Crusoé, para que possa sobreviver, vai construindo cultura, domesticando a natureza a seu redor, construindo casa, amansando animais e aprendendo a caçar os bichos certos para comer. Depois ensina a língua e hábitos ocidentais ao indígena seu escravo. Depois luta com forças externas à ilha para defender seu território. Cria uma colônia no local onde vivera e volta à Inglaterra para morrer feliz.
Os adeptos da ecologia vão se aborrecer com Robinson Crusoé, pela facilidade com que ele mata as cabras com filhotes para domesticá-los, ou quando mata aves para ensinar a Sexta-Feira como manejar uma arma. Crusoé também exerce sua superioridade de homem branco em relação às populações ágrafas. As coisas eram assim na Inglaterra de 1700. As expansões marítimas descobriam e tomavam posse das terras descobertas, subjugando e matando índios.

Natural de Londres, Daniel Defoe (1660/1731)  era exímio escritor. Aliás, foi um dos precursores da arte de escrever profissionalmente, ainda que vivesse quase na miséria. Escreveu de tudo, de tratados sobre criminologia, passando por ensaios científicos e também pela escrita literária. Além de Robinson Crusoé, é conhecido pelo romance Moll Flandres, precursora do romance burguês.

Robinson Crusoé também foi adaptado para o público infanto-juvenil,mas a obra original é literatura para os grandes.

Tradução de Sérgio Flaksman
  
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Daniel Defoe. Robinson Crusoé. SP, Penguin Companhia, 2011, 408 pp.

domingo, 17 de julho de 2016

8. As viagens de Gulliver

As viagens de Gulliver, do escritor dublinense Jonathan Swift (1667/1745)  é bastante conhecido através de inúmeras adaptações para o público infanto-juvenil. Entretanto, a obra é originalmente  para gente grande. Aliás, Swift não gostava de crianças, ainda que tenha se afeiçoado a uma sobrinha adolescente, de quem foi preceptor durante muito tempo. Era um misantropo. Talvez pelo fato de que era um crítico ferrenho ao comportamento hipócrita de seu tempo. Desacreditava no ser humano, por tudo de errado que faziam, segundo seu ponto de vista. Odiava a traição dos políticos, a falsidade da corte e do comportamento de certa parte do clero, que se voltava a favorecer os interesses dos nobres, descuidando-se dos pobres. Swift, entretanto, não era um homem "de esquerda", pois mantinha a hierarquia entre ele e seus criados.

Na primeira viagem, Gulliver sofre um naufrágio e aporta desacordado na ilha de Lilliput, no Oceano Índico,  país de gente minúscula (10 cm de altura). Portanto, é um gigante que inicialmente amedronta o reino. Quando acorda, está amarrado ao chão úmido da praia. Aos poucos, os habitantes do lugar vão se aproximando e fazendo contato, e ele acaba sendo solto. Devido a sua brandura, o Imperador ordena eruditos para lhe ensinar a língua local. Gulliver se oferece para servir o imperador em suas guerras contra o reino da ilha vizinha de Blefuscu. O navegante impede a invasão a Lilliput. Um dia, os aposentos da Imperatriz se incendeiam acidentalmente e o navegante se oferece para salvar o resto do palácio. Como a quantidade de água que lhe ofereciam era muito pouca, pois tudo era minúsculo no reino, Gulliver decide apagar o incêndio, urinando sobre as chamas. O fogo é apagado, mas a ira da imperatriz contra ele está criada. Pouco tempo depois, é informado pelos habitantes de Blefuscu de que há um plano para acusá-lo de alta traição. Depois de algumas dificuldades, Gulliver consegue retornar à terra natal. Lilliput e Blefuscu são sátiras da Inglaterra e França, com a simpatia de Swift pela França, que agiu corretamente com seu personagem na história, provando o quanto o autor antipatizava com seu país natal.

Na segunda viagem, ele sente na pele o que os liliputianos sentiram em relação a ele. Depois de naufragar, ele chega a Brobdingnag,  terra dos gigantes, sendo recolhido por um lavrador que o expõe nos mercados e praças públicas. A rainha interessa-se pela minúscula figura e o compra. Gulliver passa a ser uma espécie de bobo da corte às avessas, pois mantém longos colóquios com a nobreza. Constata a ignorância do rei em matéria de política e também em navegação, e passa a ensinar-lhe muitas coisas. Um dia o marujo pede à rainha que o deixe ver o mar. Um pajem o leva a um penhasco juntamente com sua pequena casa. O pajem se descuida e um vento faz a casa descer até o mar e Gulliver consegue, assim retornar à Inglaterra. Brobdingnag encontra-se geograficamente, no Oceano Pacífico, junto à América do Norte.

Na terceira viagem, é atacado e preso por piratas holandeses, descendo em Laputa, uma ilha que voa. Lá, Gulliver entra em contato com a filosofia e astronomia modernas. Depois chega a Balnibarbi, próximo ao Japão. Lá, mantém conversa com um senhor que havia sido ministro da corte e fora afastado por fazer críticas à falta de lisura do governo em seu ato de governar. Swift satiriza, aí, o saber, ao visitar a Academia, fonte de educação do Império que nada mais é, que a Inglaterra.  Depois de aportar em mais alguns lugares e chegar ao Japão, retorna à Inglaterra mais uma vez.

Na quarta e última viagem, Gulliver chega ao País dos Houyhnhnn, governado por cavalos, seres inteligentes e nobres. Lá, havia os yahoos,  seres embrutecidos e sem cultura, praticamente irracionais. Nessa parte, Swift mostra sua descrença no ser humano, desdenhando não só os costumes da Inglaterra, como também de toda a sociedade humana, num pessimismo absoluto.

A tradução que li é de uma edição da antiga Editora Globo, de 1961, feita pelo conceituado tradutor português Octavio Mendes Cajado. Atualmente a Penguin Cia. das Letras, lançou a obra com a tradução a cargo de Paulo Henriques Britto,um dos melhores tradutores brasileiros.




domingo, 10 de julho de 2016

7. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy

Há críticos respeitados que não consideram Tristam Shandy um romance, já que  não há uma trama que se desenvolva na narrativa do escritor inglês Laurence Sterne (1713/1768),  até seu desfecho. Há, sim, uma tentativa do narrator-personagem, ao contar a história da sua vida, que não chega a se concretizar. Isso acontece, porque Sterne rompe deliberadamente a continuidade da narrativa, com assuntos e situações de diversos tipos.

A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy  é um espelho da sociedade da época, com figuras humanas distorcidas pela sátira:ora magras, ora gordas;  Sterne não poupa os teólogos, freiras, doutores e magistrados.  Assim, personagens que seriam secundárias na história, protagonizam passagens hilariantes durante a longa narrativa dessa novela picaresca. Yorick, pároco, aparece como um bobo da corte, através de seus sermões escandalosos. O próprio narrador-protagonista é descrito como uma figura esquelética, com crises pulmonares.

O tempo presente aparece de forma curta, quando Tristam Shandy busca contar sua história de vida, interrompida quando ele tem sete anos de idade. O que predomina, a partir de então, é o tempo passado, cujo acontecimento histórico importante é a batalha de Namur, por volta de 1695, em que Toby, o tio de Tristam Shandy, adquire destaque, quando é ferido na virilha e forçado a voltar para casa, juntamente com o soldado Trim e Walter, pai do protagonista..

1718  é o ano de nascimento de Tristam Shandy. Este, quando nasce, tem o nariz achatado pelo fórceps do obstetra. Há inúmeras piadas e situações engraçadas, como a pergunta inoportuna da esposa ao marido, durante o ato sexual que gerou Tristam Shandy, querendo saber se o marido dera corda no relógio. A discussão entre católicos e protestantes, querendo saber se o nariz enorme de um forasteiro é verdadeiro ou falso. Os discursos entre Walter e o irmão Toby parecem conversa de surdos, em que um fala uma coisa e o outro responde com outro assunto. 

A obra é uma sátira aos livros de viagens, muito comum naquela época. Apesar de sua importante contribuição e influência à literatura universal, é um livro difícil de se ler, justamente por não ter uma estrutura de romance. Suas digressões e enxertos engraçados podem saturar e cansar o leitor desavisado.

Tradução e prefácio de José Paulo Paes

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Lawrence Sterne. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy. 2ª ed., SP, Cia. das Letras, 1998, 642 pp.

domingo, 3 de julho de 2016

Dom Quixote



Em Dom Quixote, Cervantes (15457/1616) faz o contraste entre a aparência e a realidade, na figura de Don Alonso Quijano,  um personagem maravilhoso por conter em si um paradoxo: é bom e ridículo. Leitor assíduo de livros de cavalaria , de repente começa a se imaginar um cavaleiro andante. Enlouquece, mas sem perder necessariamente a razão.Seus discursos são enlouquecidos, quando trata de cavalaria, e sensatos, quando se trata de outras coisas.  Na intenção de viver sua fantasia, trata de conseguir um cavalo, mais tarde um escudeiro e um amor impossível. E  passa a se chamar Dom Quixote de La Mancha.

A primeira saída de Quixote de sua aldeia, para viver suas aventuras, foi de forma solitária. Ao chegar a uma venda, dizendo-se cavaleiro, faz com que os frequentadores do lugar armem uma paródia das festa solenes dos livros de cavalaria, onde armam o herói  com toda pompa e fervor religioso. Quixote jura defender os fracos, a justiça e os crentes a Deus.  Assim, passa a ter sua espada e esporas para cavalgar seu cavalo Rocinante. A partir daí, o romance vai transcorrer centrado nesse equívoco. As pessoas que cruzarão com Quixote em sua jornada sabem tratar-se de um louco, mas interagem com ele, compondo inúmeras farsas muito engraçadas. 

A segunda saída do herói se dá do capítulo VI ao LII, fechando a primeira parte da narrativa. Dom Quixote se empenha em encontrar alguém a acompanhá-lo em sua nova jornada, servindo-lhe de ajudante. Acaba encontrando em Sancho Pança essa figura, um sujeito bom, ingênuo e parvo, o único que parece acreditar na veracidade de suas loucuras. Quixote lhe promete uma ilha para ser governador, caso saiam vencedores de suas batalhas.  A partir daí, aparecem a aventura dos moinhos de vento, que Quixote vê como terríveis gigantes a serem derrotados. Encontram-se depois com uns pastores de cabras que lhe contam a história de Grisóstomos, jovem rico que se toma de amores por Marcela, pastora órfã. Marcela recusa-se a casar com o jovem e este morre de infelicidade. Depois, há o encontro com um rebanho de ovelhas, que a imaginação de Dom Quixote converte em exércitos. 

De outra feita, num ato de caridade, liberta um cativo dos grilhões impostos por doze homens perigosos.  Quando chegam a Sierra Morena, acompanham a comovente história de Cardenio e Lucinda e Fernando e Dorotea. Essa história segue por vários capítulos da primeira parte da narrativa. Cardenio ama Lucinda e Fernando está comprometido dom Dorotea. Fernando decide abandonar Dorotea e ficar com Lucinda. Cardenio e Dorotea protagonizam sua desilusão amorosa coadjuvado por Quixote, Sancho e outros moradores do lugar. O relato dos dois faz Quixote pensar em ter sua amada, e decide escrever uma carta à figura idealizada de Dulcineia del Toboso. O cura, o barbeiro e Dorotea,  para apaziguar Quixote, lhe contam a história da princesa Micomicona, uma invenção para tentar levar Quixote de volta a sua cidade e fazê-lo recuperar a razão. Dorotea representa a princesa e trata de satisfazer todas a dúvidas de Quixote. Depois de muitas aventuras e histórias intercaladas, ele é levado de volta para sua cidade para que se cure     de sua loucura e volte a viver tranquilamente.

Cervantes, que até então se punha como um narrador erudito que recopilava dados de outros autores para formar sua história, passa a introduzir um narrador árabe chamado Cide Hamete Benengeli, que escrevera a História de Dom Quixote de La Mancha. Desde então, até o final da narrativa, Cervantes oferecerá a seus leitores a tradução desse suposto texto árabe, como forma de parodiar o estilo dos livros de cavalaria. Há outras paródias como a do Amadis de Gaula, a dos Dez livros de fortuna de amor, de A Araucana  e de Orlando Furioso, de Ariosto. No caso de Orlando, este enlouquece de amor, ao passo que Quixote enlouquece da leitura.


Na segunda parte, dom Quixote e Sancho saem da esfera da realidade a que pertenciam no livro primeiro, para vagar em carne e osso, saudados pelos leitores de sua história, por um mundo que, também ele, representa um grau mais alto de realidade em relação ao mundo impresso. Quixote tem um discurso humanista quando discorre sobre a educação, e sobre a poesia, todos repletos de razão, sentido de justiça, humanidade e nobreza formal. Quixote pode ser considerado louco, mas não é tolo. Tem a história que narra as bodas campestres da belíssima Quitéria com o rico Camacho. Só que havia um noivo preterido, o valente Basílio. Quitéria e Basílio amavam-se desde crianças. Mas o pai da noiva força a filha a casar-se com Camacho. A história começa como uma tragédia, mas termina de forma bem humorada, pois trata-se de uma pantomima arquitetada por Basílio, para tentar impedir o casamento da amada.

A aventura do leão também é outro dos grandes momentos da narrativa de Cervantes. Trata-se de uma comédia patética que termina com a admiração do escritor pela loucura heroica de seu protagonista. Quixote encontra uma carroça que leva feras africanas. Quixote desce de Rocinante empunhando o escudo e sua espada de araque, pronto para lutar com o leão. Exige que lhe abram a jaula para que o animal saia. O bicho olha para Quixote com cara de aborrecido, dá-lhe as costas e volta a se deitar na jaula. Quixote fica indignado com a atitude do animal, pede que o açoitem para que ele venha para a luta, mas o animal não lhe dá a mínima.O heroísmo de Quixote é anulado, não fosse ele pensar que a grandeza de seu coração já está suficientemente demonstrada. Nenhum guerreiro está obrigado a mais do que chamar o inimigo para o combate e esperá-lo em campo aberto. Se o outro refuga o combate, que a infâmia caia sobre ele! A partir de então, Quixote passa a ser outorgado com outro título, o fidalgo dos leões.

Um romance será grandioso, quando mais vida interior tiver. E há muito mais, no romance. Dom Quixote é apresentado, finalmente, à figura de Dulcineia del Toboso, figura idealizada por Sancho Pança para satisfazer as fantasias de seu amo. Ao vê-la, entretanto, Quixote percebe que aquela mulher feia e de maus modos não poderia ser sua amada Dulcineia, a menos que algum mago a tenha transformado daquela maneira para enganá-lo. Quixote agora passa a ver a realidade tal como ela é, buscando enganar-se de que poderes mágicos transformam alhos em bugalhos.

No final, Quixote recobre a sanidade, dorme profundamente, e ao despertar está curado, por misericórdia divina. Seu entendimento está livre do mundo nebuloso da cavalaria. Quixote reconhece a própria loucura e não quer mais ser chamado de Dom Quixote de La Mancha, mas Alonso Quijano, cidadão comum:

"Já tenho o juízo livre e claro, sem as sombras tenebrosas da ignorância que sobre ele puseram minha amarga e contínua leitura dos detestáveis livros de cavalaria. Já reconheço seus disparates e seus logros, e só me pesa que este desengano tenha chegado tão tarde, que sejam luz da alma. Eu me sinto às portas da morte, minha sobrinha, mas gostaria de encará-la de um modo que mostrasse que minha vida não foi tão ruim a ponto de me deixar com fama de louco, porque, apesar de eu tê-lo sido, não gostaria de confirmar essa verdade e minha morte. Vamos, minha amiga, chame meus bons amigos, o padre, o bacharel Sansão Carrasco e Mestre Nicolás, o barbeiro que quero me confessar e fazer meu testamento".

No testamento, Dom Quixote deixou as suas posses para a sobrinha Antónia Quixana. Se ela quiser-se casar, que case com homem que deteste livros de cavalaria. Se por infortúnio isso viesse a acontecer, a sobrinha perderia todos os bens deixados a ela naquele testamento.

Dom Quixote morre e assim acaba a história do cavaleiro da triste figura (ou triste semblante).

Tradução de Ernani Ssó
Imagens de Samuel Casal
  
                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Miguel de Cervantes. Dom Quixote - 2 volumes. SP, Penguin Companhia, 2012, 1328 pp. Preço médio de 80 reais, a caixa com os volumes novos.

domingo, 26 de junho de 2016

5. Os Lusíadas

Os Lusíadas designa os portugueses. Camões propõe-se em seu poema épico, a contar toda a história de Portugal, desde sua formação até a descoberta do caminho marítimo para as Índias, com Vasco da Gama como herói. Celebra-se, assim, a glória da epopeia portuguesa das grandes navegações, o esplendor de Portugal, a fama dos heróis lusitanos com o objetivo de propagar a fé cristã entre os infiéis e de aumentar o Império português.  O poema é composto de dez cantos.. A ação motivadora é a viagem de Vasco da Gama, numa rota marítima como as de Ulisses e Enéias. Na viagem de Vasco da Gama em sua descoberta do caminho marítimo para as Índias, temos uma sequência cronológica dos acontecimentos. Como unidade de ação, valeu-se de algumas táticas greco-romanas que lhe forneceram protótipos de uma intriga entre deuses apaixonados: o embate entre Vênus, protetora dos portugueses e Baco, inimigo deles, posto que Baco temia perder as glórias de ter sido ele o já conquistador do território a ser descoberto pelos lusos. 

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana*,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
*Taprobana = Ceilão/Sri Lanka

No canto I, Camões revela que vai tratar dos feitos gloriosos dos portugueses, pedindo inspiração às musas do Tejo e dedicando o poema a D. Sebastião, rei de Portugal. Há o concílio no  Olimpo para o pronunciamento dos deuses sobre a empreitada, posicionando-se Baco contra os portugueses (quer o deus que caiba a ele a glória de ter descoberto os territórios da Ásia) e Vênus pronuncia-se em favor dos portugueses. Essa briga entre os deuses é que vai alimentar a ação narrativa, com percalços e adversidades para o herói Vasco da Gama. No canto II, o rei de Mombaça (Quênia) convida a frota de Vasco da Gama para entrar no porto. É uma armadilha de Baco. Vênus salva os portugueses, pedindo a Júpiter que convença a população de Melinde (Quênia) a receber bem a esquadra de Vasco da Gama. Lá, Vasco da Gama é convidado a contar a história de Portugal e de seus feitos marítimos.
No canto III, Vasco da Gama conta da Europa e da origem de Portugal e de suas armas, da relação bélica com os mouros, destaca os reinados dos diversos reis de Portugal, incluindo D. Afonso IV e o episódio importante de Inês de Castro:

Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.

Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus formosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra ua fraca dama delicada?

Traziam-a os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava

D. Afonso IV, o Bravo, reinou em Portugal de 1325 a 1357. Foi o grande responsável pela expansão da marinha portuguesa. Seu filho, D. Pedro, toma-se de amores por Inês de Castro, jovem de Castela de origem plebeia. O rei não vê com bons olhos a relação dos dois e afasta o príncipe de Inês, forçando-o a casar com outra. A peixão do príncipe por Inês não morre e os dois continuam se correspondendo. Com a morte da mulher, D. Pedro traz Inês de Castro para a Corte e os dois têm quatro filhos. D. Alfonso decide, então, aproveitando-se da ausência do filho, matar Inês de Castro.

No canto IV, Vasco da Gama continua narrando a história portuguesa ao rei de Melinde, falando de D. João I, mestre de Avis, a batalha de Aljubarrota, a conquista de Ceuta, o reinado de D. Duarte, as conquistas da África, o sonho de D. Manuel sobre o rio Indo e Ganges, que levaram o rei a escolher Vasco da Gama para a viagem. Vasco da Gama narra ao rei o episódio do velho do Restelo, que crítica a sede de poder dos portugueses:

Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Camões inclui na narrativa uma voz que se manifesta em desacordo com o empreendimento português. A armada portuguesa num clima de festa está pronta para a partida, quando um velho "de aspecto venerando" ergue a voz mostrando seu descontentamento, atacando ponto por ponto os ideais do sonho português de conquistas. A fama, diz ele, nada mais é que vaidade, a aura popular que os poderosos querem provocar, com os grandes descobrimentos  é uma fraude para iludir o povo. A glória vã dos poderosos só lhes proporcionará danos, ocasionando perda de homens, enfraquecimento da nação, restará ao fim velhos, mulheres e órfãos desamparados.
A exaltação da exaltação dos feitos humanos, característica do Renascimento, é desafiada pelo conservadorismo, pelo castigo da ambição desmesurada de elevar-se a patamares divinos.

No canto V, Vasco narra a partida de Belém, a passagem pelo Equador, a visão deslumbrante no céu do Cruzeiro do Sul e da Ursa Maior, a primeira tempestade marítima, o desembarque em Santa Helena, o episódio famoso do surgimento do gigante Adamastor perto do Cabo das Tormentas, a chegada a Moçambique, Mombaça e Melinde.

 Porém já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando hüa noute, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Hüa nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
"Ó Potestade (disse) sublimada:
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?"

Não acabava, quando hüa figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

E disse: "Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho;

Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do húmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pola terra
Que inda hás-de sojugar com dura guerra.

Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem,
Com ventos e tormentas desmedidas!
E da primeira armada, que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei de improviso tal castigo,
Que seja mor o dano que o perigo!

O que parecia ser o prenúncio de uma tempestade passa a ser o prenúncio para o aparecimento do monstro, que causa medo e terror aos navegantes portugueses. Significa o impasse entre o velho e o novo. Dobrando o Cabo das Tormentas um mundo novo surgirá, mas isso lhes trará dificuldades imensas. Adamastor falando assim a Vasco da Gama, na verdade não está fazendo uma profecia, mas colocando em Vasco e na tripulação, fatos que poderiam acontecer em decorrência de acontecimentos passados. Afinal, Bartolomeu Dias, o descobridor do Cabo das Tormentas, acabou sucumbindo logo após tê-lo descoberto.

A ideia de se construir uma epopeia contando o feito dos heróis portugueses, a partir do descobrimento do caminho marítimo para as Índias já vinha sendo pensada por nobres e reis. E coube a Camões levá-la a cabo a tarefa.
Utilizei-me na elaboração deste texto da edição da Lpm, com os comentários valiosos de Tane Tutikian. Também serviram de base as anotações de classe dos professores Óscar Lopes e José Antônio Saraiva.
                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Luís de Camões. Os Lusíadas. Porto Alegre, RS, LP&M, 2009, 336 pp,