domingo, 24 de maio de 2015

A neve estava suja

O personagem central de A neve estava suja é uma incógnita, quanto mais queremos saber sobre ele (e esse é o trunfo da história) mais ele se torna escorregadio. Frank Friedmaier vive na pensão de Lotte, sua mãe. O lugar é um prostíbulo que atende, em sua maioria, soldados do exército alemão que invadiu Paris. Frank não tem  perspectivas, levando uma vida ociosa, transando com as garotas da pensão ou frequentando um bar em frente, onde tem um amigo, Fred Kromer, criminoso de carteirinha. Tem uma jovem, ainda virgem que o ama, mas que ele prepara para entregar a Kromer, para ser deflorada. Quando começa a história, ficamos sabendo que Frank já matou um homem, oficial do exército, e ficou com seu revólver. Frank mata sem um objetivo específico, só para saber como se sente depois. kromer põe o jovem em contato com o contrabando de relógios. Frank é preso pelos nazistas portando grande quantidade dinheiro e passa a ser interrogado. O que chama atenção é que Frank não expressa o menor desejo de salvar sua vida. Enfrenta os interrogatórios com coragem. Para de se alimentar e entra numa letargia que lhe parece ser fatal. Sua mãe o visita na prisão para lhe dizer que  fechará a pensão e o abandonará.


Georges Simenon ficou famoso com as histórias do detetive Maigret, mas escreveu outros romances de cunho psicológico mais elaborados, como A neve estava suja, considerado sua obra prima, escrito em 1948, quando a segunda guerra recém acabara. 

Tradução de Eduardo Brandão

                      paulinhopoa2003@hotmail.com
===========================

Georges Simenon. A neve estava suja. SP, Cia. das Letras, 2014, 230 pp. Preço de 27 a 34 reais o exemplar novo.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Romeu e Julieta na aldeia


Dois lavradores, Marti (pai do menino Sali, de 7 anos) e Manz (pai da menina Vrenchen) fazem o serviço de lavragem. Próximo à hora do almoço as duas crianças trazem a comida ao pais e permanecem por ali, brincando, até o final da tarde, quando ocorre um fato que põe os dois lavradores em confronto para sempre.

Junto às terras de sua propriedade, havia outra terra de propriedade do avô do violinista negro (um cigano) que ia, aos poucos, sendo tomada pelos dois homens. Os ciganos, assim como outros imigrantes que entravam na Suíça eram considerados ilegais, desprovidos de certidão de nascimento ou de batismo no século XIX, época da narrativa. Nos cantões de Zurique, todos os que não possuíam certidão de nascimento emitido pela localidade, eram excluídos do direito de cidadania. Assim sendo, esses imigrantes, mesmo com propriedade de terra, como o avô do violinista, eram considerados desprovidos de bens. Voltando ao início, no final desse dia, Marti e Manz brigam por um triângulo de terra que um queria tomar para si, mas que o outro também queria. Os dois lavradores entram em disputas judiciais que os levam à miséria, tendo Manz sido obrigado a sair o campo e montar uma taberna na vila, que não deu bons frutos. Marti também passou a arrendar pequena propriedade de terra que antes era sua.

O tempo passa, e um dia Sali e Vrenchen se reencontram, já adolescentes, e se apaixonam. Mas há um elemento trágico na relação dos dois: pelo fato dos pais serem inimigos, não seria possível a eles a concretização desse amor. Os dois acabam fugindo, em busca de um lugar neutro para viver, mas sempre aparecia no caminho deles o tal violinista, que os convidava para viver junto à comunidade nômade excluída, que não ligava para normas morais rígidas, como a obrigatoriedade do casamento. Os dois recusam o convite e partem para um lugar onde possam dançar livremente, longe de olhares. Os dois encontram esse lugar, divertem-se quase a noite toda e decidem, então, firmar um pacto de morrerem juntos para conseguirem ser felizes numa outra vida. Na manhã seguinte os dois corpos são encontrados no rio.

O título da novela de Gottfried Keller (1819-1890) vem emprestado na tragédia de Shakespeare, Romeu e Julieta, mas o mote da narrativa do escritor suíço teve por base uma notícia de jornal publicada num jornal alemão, sobre dois jovens que haviam sido encontrados mortos afogados, com dois tiros no corpo.

Tradução de Marcus Vinicius Mazzari
                                 
                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
============================

Gottfried Keller. Romeu e Julieta na aldeia. SP, Ed. 34, 2013, 160 pp. R$ 38,00

domingo, 10 de maio de 2015

A Paixão

A Paixão, do escritor português Almeida Faria (1943), passa-se em uma sexta-feira santa num sítio de lavradores do Alentejo, envolvendo um casal, Francisco e Marina,  com os filhos André, João Carlos, Arminda, Jó  e Tiago, mais os servos da casa, Piedade, Estela e Moisés. Cada um deles com uma história forte de vida, com seus conflitos existenciais.  A primeira parte, A manhã, é um recorte da vida solitária de cada um de seus membros, durante as atividades que executam durante esse período. À tarde, ocorre um incêndio em um dos lugares da propriedade da família. O fogo funciona como o inferno das almas, a luta necessária para que haja a transformação, a ressurreição de uma nova vida, mais justa.  

André, o filho mais velho, representa o antigo, é reacionário, está sempre dormindo e sonhando, envolto em um calor sufocante.  João Carlos, o filho do meio, tem a função de ser o transformador na história narrada. Está sempre alerta, sempre voltado à ação, tem o ímpeto da transformação, é o responsável pela imolação do cordeiro que será servido no almoço da  sexta-feira santa. Funciona também como o homem que luta e é morto para que possa ser ressuscitado como o novo homem português que, historicamente vai acontecer com a Revolução dos Cravos em 1974. O romance foi escrito ainda na era Salazar, em 1966.

O romance represente um recorte sócio-histórico de Portugal na época da opressão salazarista, mas a obra é grandiosa em sua forma poética, como obra de ficção. As imagens presentes na narrativa são muito fortes, impressionantes. A paixão é desses romances que se vai ler várias vezes. É um ritual de vida.
 
                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=========================

Almeida Faria. A paixão. SP, Cosac Naify, 2014, 224 pp, R$ 44,90

domingo, 3 de maio de 2015

Felicidade e outros contos

Imagina um homem vaidoso, sedutor, grande músico, vivendo em uma nova realidade, um emergente social. Ao lado dele, uma mulher silenciosa que trabalha feito louca, para manter de pé um casamento de evidentes rachaduras. Essa mulher, aparentemente mera figurante, carrega um subtexto que alimenta um pensamento que pode ser bem diverso do universo do marido. Esse subtexto não é revelado ao leitor, não é realismo, mas deixa a impressão de que algo nebuloso, mais profundo, possa estar acontecendo na vida daquele casal, mas que não sabemos o que seja. A literatura dos contos de Katherine Mansfield tem a atmosfera impressionista, onde aparentemente nada acontece além de uma cena cotidiana, mas que acende uma interrogação, arma um nó na cabeça do leitor. Estou falando do conto Um dia de Reginald Peacock, que faz parte do livro Felicidade e outros contos, da autora. Esse Peacock, que quer dizer também pavão, tem um sentido conotativo na figura desse professor de música.

A escritora neozelandesa Katherine Mansfield viveu em Londres, onde expressou sua literatura. Autora de narrativas curtas, foi contemporânea de Virgínia Wolf e James Joyce. Virgínia Wolf era apaixonada por sua obra. Mansfield morreu jovem, aos 35 anos. Tinha um comportamento muito mais avançado que as mulheres de sua época, vivendo uma vida conturbada afetiva, sexual e socialmente.

A impressão de que alguma coisa no pensamento arranha a aparente tranquilidade de um cotidiano harmonioso está presente nos demais contos. Em Bliss, um casal dá uma festa em sua casa e tudo corre de forma cordial entre todos. A anfitriã está repleta de felicidade, até que percebe no marido uma atitude de rejeição a uma amiga que chega ao local. Todas as coisas correm bem, até que a anfitriã percebe uma atitude suspeita nele ao ajudar essa amiga a vestir o casaco para ir embora.

Em Psicologia, um escritor de romance psicológicos reencontra a ex-mulher. Acompanhados de um chá com bolo, num clima alegre e delicado, eles haviam se soltado e tudo estava como de hábito. Mas ela pensa se não estariam indo rápido demais, apressados demais em suas falas, prontos demais para interromper um ao outro. Algo mais do uma imitação maravilhosamente boa de outras ocasiões? Então o sorriso que os dois haviam dado um ao outro desmontou-os e se olharam como dois bonecos careteiros saltitando no vazio.

Tradução de Julieta Cupertino  

                paulinhopoa2003@yahoo.com.br
========================

Katherine Mansfield. Felicidade e outros contos. 3ª ed., Rio, Revan, 2008, 142 pp. R$ 25,00

domingo, 26 de abril de 2015

Sujeito oculto

Trata-se de um sujeito oculto. Um estranho matador. Nada sabemos dos motivos que o levam a exercer o ofício, tampouco somos informados do que fizeram suas vítimas para merecer a execução. O que lhe provoca mais temor a si mesmo é sua face. Tenta imaginar seu rosto no espelho e não há registro na memória além da névoa. Por isso não gosta de registrar rostos na memória. O espelho embaciado após o banho com água quente é perfeito para refletir rostos, ele o envolve na agradável névoa que faz ignorar cara e nome.

Vive no anonimato, quase sempre encerrado em seu apartamento olhando as pessoas que passam na rua, enquanto escuta seu rádio. Gosta tanto de ouvir rádio, que fica chateado quando é chamado para um trabalho na hora de seu programa predileto, onde o narrador lê notícias melancólicas. Ouve sempre no volume baixo, pois sente ser perigoso dividir o som com vizinhos curiosos, com medo de que possam descobrir alguma coisa a respeito dele. Outra vez, teve a certeza de que o locutor falava dele, quando comentava fusos horários, ao mencionar que "três acontecimentos ocorreram em locais diferentes e em horas diferentes e em dias diferentes, mas exatamente no mesmo instante". É que os três assassinatos que ele cometeu correram em três lugares diferentes.

A prosa aparentemente caótica de Karam revelam ao leitor o absurdo da existência. Essa mesma temática encontrei em Encrenca, primeiro livro que li dele (está aqui no blog). Depois de Sujeito oculto, vou querer os outros livros do autor.
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==========================
Manoel Carlos Karam. Sujeito oculto. SP, Barcarolla, 2004, 144 pp. R$ 31,00



domingo, 19 de abril de 2015

As aventuras do bom soldado Sveijk

As aventuras do bom soldado Sveijk conta as peripécias de um soldado tido como um pateta,dizendo bobagens inacreditáveis,  mas que sempre tinham um fundo de verdade. A impressão que se tem é que Svejk, que sempre leva a pior em tudo, tinha uma inteligência dotada de um humor fino que tira sarro principalmente dos militares das altas patentes. Além disso, tinha um par de olhos bondosos e inocentes. Os olhos bondosos e inocentes de Svejk irradiavam mansidão e candura, combinando com um perfeito equilíbrio anímico, como se nada tivesse acontecido, e, se alguma coisa tivesse acontecido, então tudo também estaria em ordem, não teria acontecido absolutamente nada. É impossível, assim, não perdoá-lo.
Sveik na sua juventude vivia em delegacias, até ser considerado louco, mas é expulso do manicômio.  Alista-se no exército, designado como ordenança do capelão militar, um velho  bêbado e atrapalhado. Até missa Svejk celebrou, e ministrando extrema-unção.  Esse capelão acabou "vendendo" Svejk ao tenente Lukas, durante um jogo, e passa a ser ordenança de Lukas até o final da narrativa, com algumas idas e voltas.

Na segunda parte do enredo, começam as ações em função do deslocamento para a guerra. Depois de um tempo na Sérvia, passam pela Hungria, até o dia em que o soldado Svejk encontra um soldado russo foragido tomando banho, que foge pelado ao vê-lo. De forma insana, Svejk veste a farda do russo para se mirar no espelho da água, quando é preso pelo exército russo e enviado à prisão como o soldado foragido.

É uma narrativa picaresca. Guardadas as devidas proporções, lembra o nosso Sargento de Milícias, que contrariamente a Svejk era inteligente e esperto (a historia de Leonardo Pataca é bem mais interessante).

Trata-se de um romance longo, quase setecentas páginas, é uma sequência de relatos, meio parecido com Gargântua e Pantagruel. Hasek morreu antes de concluir a trajetória de Sveik. É engraçado e delicioso, mas pede para ser lido aos poucos, para não cansar. É lançamento recente da Editora Objetiva, com a tradução redondinha de Luís Carlos Cabral.

O escritor checo Jaroslav Hasek (1883/1923) teve uma existência curta, decorrente do álcool. Aos 32 anos alistou-se no Exército Austro-Húngaro para combater na Primeira Guerra Mundial, mas acabou passando para o lado dos russos.

                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=============================
Jaroslav Hasek. As aventuras do bom soldado Svejk. Rio, Objetiva, 2014, 688 pp. R$ 70,00 (a Submarino está vendendo a 38,00)


domingo, 12 de abril de 2015

O Tambor

Oskar, a personagem de O Tambor, vive num mundo totalitarista, onde a primeira coisa que se aprende na vida é obedecer. Oskar, no entanto, foi um menino que, aos três anos de idade, já tinha sua personalidade formada e recusava-se a crescer, vivendo sempre na companhia inseparável de seu tambor.

A história começa com Oskar adulto, em um hospício, lembrando de seu passado. Nasceu no início do século XX em Danzig, cidade polonesa que, na época, pertencia ao império austro-húngaro. Ainda bebê, ganhou um tambor de presente, do qual não se desligava nunca. Aos três anos de idade, caiu da escada e esse acontecimento resultou no fato de que, a partir de então, Oscar se recusara a crescer. Essa época coincide com os preparativos para a Primeira Guerra Mundial. Outra característica esquisita de Oskar, é que quando se enfurecia, emitia um grito estridente capaz de quebrar vidros e vidraças. Não conseguiu ficar muito tempo na escola, pois não se desligava de fazer barulho com seu tambor e de gritar durante a aula. Cedo, descobriu que sua mãe era amante do primo dela e que esse tio era seu verdadeiro pai.  

Quando o nazismo ganha corpo, seu pai (não o tio) toma-se de amores pelo nazismo e passa a atuar no exército alemão.O tempo passa, Oskar torna-se adolescente, mas continua com a altura de uma criança. Apaixona-se pelo mundo do circo e chega a trabalhar  em uma trupe de anões que fazia espetáculos a serviço do III Reich, já no final da Segunda Guerra Mundial.  Mais tarde sua mãe, grávida, passa a comer compulsivamente grande quantidade de enguias e morre. Pouco depois seu tio morre durante um bombardeio. O judeu dono da loja que lhe conseguia os tambores para, passa a ser perseguido pelo nazismo e foge. Para compensar a solidão e a de seu pai, surge Maria, jovem adolescente que passa a cuidar dele e da casa. Oskar apaixona-se por ela, mas Maria passa a viver maritalmente com seu pai e engravida. Oskar acredita que aquele filho seja seu.

Um dia, o suposto filho de Oskar atinge-o com uma pedra. A partir de então, começa a crescer. A Alemanha passa a ser dividida pela cortina de ferro. Já está com trinta anos, quando é solto do hospício onde se encontrava.
Günter Grass foi vítima do totalitarismo do governo autoritário alemão na juventude. Executou ordens e lutou como soldado alemão na segunda guerra mundial. Foi rechaçado pela crítica depois da guerra acabada. O que quase nunca se disse sobre esse fato, é que Günter Grass incentivou o povo alemão a assumir sua culpa no processo doloroso de recuperação da Alemanha como nação moderna.

A obra encontra-se esgotada, mas você encontra um exemplar novo em estoque na Saraiva por 55 reais. O exemplar usado em bom estado custa em média 25 reais a edição econômica a mesma da Saraiva)

Tradução de Lúcio Alves e Rachel Valença
         
                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===========================

Günter Grass. O Tambor. Rio, Nova Fronteira, 2006, 704 pp

domingo, 5 de abril de 2015

O filho de mil homens

Crisóstomos é um homem solitário de 42 anos, só com metade de tudo. Falhara nos amores, muito complicados. Pensava que havia gente a exercer o amor como um crime. Mas as coisas não precisam ser assim. A solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.

Sonha em ter um filho, constituir uma família baseada em laços de amor e amizade mais do que em laços consanguíneos. Conhece um adolescente órfão, Camilo, filho de uma anã que morreu afirmando que Camilo era filho de quinze homens da aldeia onde morava. Os dois vão morar juntos. Camilo pede a Crisóstomos que procure uma mulher para casar, pois quer ter uma mãe.

Crisóstomos encontra Isaura, uma mulher desiludida,um traste que a família procurou casar a qualquer custo e acabou casando-a com Antonino, homossexual delicado que a procura para buscar esconder-se das torturas que as pessoas da vila, especialmente os homens, exerciam sobre ele.

As coisas não dão certo. Antonino foge no dia do casamento. Isaura fica desconsolada. Consegue anular o casamento. Mas perde o gosto pela vida. Uma vez, quando vai junto ao porto para chorar seu infortúnio, encontra Crisóstomos. Os laços vão se firmando, forma-se um núcleo familiar que se une inicialmente pelo sofrimento e solidão, mas que se vai constituindo em amor e respeito ao próximo. Antonino é trazido para junto dessa família especial e começa a ter sua identidade respeitada, acabando por encontrar um amigo igual a ele em seu desejo.Afinal, segundo Valter Hugo Mãe, Somos o resultado de muita gente.

Mais um belo romance recheado de delicadezas no trato com o sentimento humano e a dignidade de viver.
                       
                                            paulinhopoa2003@yahoo.com.br
=================

Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. SP, Cosac Naify, 2012, 256 pp. R$ 39,00

domingo, 29 de março de 2015

O professor

Heliseu é um homem do século passado vivendo num Brasil contemporâneo. É um velho professor de Linguística, acorda de um sonho agitado no dia em que deve preparar um discurso de agradecimento na homenagem que receberá na universidade. No sonho, Heliseu era abraçado por um inimigo pegajoso que o agarrava de forma insistente buscando beijar seus lábios.

Esse sonho é o ponto de partida para o professor repassar sua história de vida. Nessa trajetória de revisitar sua memória, ficamos sabendo que Heliseu era especialista nos processos de construção e transformação da linguagem, mas não se comunicava com aqueles de quem era próximo. Passou a vida toda achando que levava uma vida normal com a mulher, até o dia em que ela se suicida, jogando-se da sacada do apartamento. Descobriu a  homossexualidade do filho, quando o surpreendeu com um amigo no quarto. Esse filho mais tarde muda-se para o Estados Unidos, casa-se com um americano e adotam um filho. Heliseu se dá conta de que nunca tivera uma conversa afetiva com o filho, abraçara-o uma única vez, no enterro da esposa. A velha empregada que o serve há muito tempo também lhe é estranha. Nesse dia em que se lembra da vida, pensa em convidá-la para tomarem café juntos, mas recua ante a possibilidade dela pensar algo de errado em relação ao gesto.

Heliseu foge da necessidade de reconhecer sua verdade, já que a verdade é o produto do medo da morte. Suas lembranças, mesmo as mais trágicas, passam-lhe pela mente como coisa corriqueira, negadas. É um covarde que aceita as derrotas como se as coisas fossem assim e pronto. 
               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===============
Cristóvão Tezza. O professor. 2ª ed, Rio, Record, 2014,  240 pp, 35,00

domingo, 22 de março de 2015

K. Relato de uma busca

Bernardo Kucinski (1937) esclarece o leitor em K. Relato de uma busca,  que "Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu". 

Um homem morou por tinta anos em uma casa e costumava receber de tempos em tempos  cartas de um banco com oferta de produtos financeiros  endereçadas a sua filha que nunca morou lá. De início, questionou como era possível enviar reiteradamente cartas a quem desaparecera há mais de três décadas. Sua filha tinha sido morta pelo regime militar e seu corpo nunca foi encontrado.  Por que teria ela dado esse endereço, se a casa havia sido comprada seis anos depois de seu desaparecimento? De fato, os fugitivos do exército que entravam para a clandestinidade não tinham lares fixos. Talvez ela tivesse dado aquele endereço ao banco como forma de se proteger.

Esse homem é K.,um imigrante judeu, professor emérito, escritor de livros em iídiche,língua que os judeus da Europa oriental falavam e  hoje é língua morta, substituída pelo hebraico após a criação do estado de Israel. Bernardo Kucinski descreve a agonia e a angústia desse um homem que vê a filha desaparecer subitamente, saber que casou no exílio como forma de se proteger ela e o marido em caso de fuga, sem que pudesse participar, bater em diversas delegacias e departamentos do exército e nunca ter uma resposta concreta de que a filha havia sido mesmo sequestrada, sem nunca saber se estaria viva ou morta.

Quem  acompanhou ou tem conhecimento do que foi o doloroso processo de perseguição aos presos políticos, vai reconhecer no livro personagens que remetem a figuras conhecidas do meio repressivo, a maior não nomeada, com exceção do delegado Fleury. Esses acontecimentos, entretanto, ganham fôlego maior pela força da ficção representada pelo personagem K.

O desaparecimento da irmã do escritor durante a ditadura militar serviu de mote para a construção dessa narrativa carregada se suspense, agonia e compaixão.
                                                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
==========================

Bernardo Kucinski. K. Relato de uma busca. SP, Cosac Naify, 2014, 192 pp, R$ 29,90

domingo, 15 de março de 2015

Confissões de uma máscara

  
Mishima narra em primeira pessoa a história de um jovem narcisista dividido entre a paixão platônica por rapazes e o amor frágil por uma jovem durante a idade adulta, até o final da segunda guerra mundial. Quando criança, o narrador morou com os pais na casa dos avós em condições precárias, pois o avô, comerciante promissor perdera quase tudo indo todos morar em uma casa alugada nos arredores de Tóquio, onde o menino nascera. O avô assume a educação do garoto, mesmo quando seus pais se mudam. Desde pequeno mostrou-se uma criança frágil de saúde. Um dia, quando vinha caminhando para casa de mão dada a alguém, viu um jovem carregando baldes de excrementos . Trazia um pano sujo enrolado em torno da testa. Seu rosto era bonito e corado. Era um limpador de fossas e vestia uma calça justa de algodão azul-marinho. Ainda que não pudesse perceber com clareza à época, pois tinha cinco anos, o menino havia recebido a revelação alegórica de uma força que se manifestava pela primeira vez na figura daquele limpador de fossas. O que lhe chamava, compreendeu mais tarde,  era o amor malevolente dos que se atraem por seus iguais: queria ser ele, queria ser  o outro. A imagem do jovem com sua calça justa azul-marinho movendo com perfeição seu corpo da cintura para baixo levou-o a adorar de forma inexplicável essa vestimenta, embora não entendesse bem por quê.  Mais tarde esses mesmos sentimentos passaram a se manifestar por jovens de outras profissões, onde o corpo do outro formava inconscientemente o desejo pelos iguais.

Na escola, teve alguns namorados platônicos, jovens que fugiam aos padrões normais de jovens estudiosos, mais velhos que ele. Mais tarde, quando jovem, vai  à casa de um desses "namorados" e conhece uma jovem adolescente frágil e delicada, que lhe impulsiona um outro tipo de atração, diferentemente da atração física: Monoko. A história dos dois vai até o final do romance, onde os dois não ficam juntos, pois o jovem não consegue definir claramente o que sente por ela. Paralelamente a isso, a presença da morte sempre lhe fez companhia também desde a infância. Durante a segunda guerra consegue insistentemente ingressar no serviço militar. Quando a guerra acaba o Japão imerge na miséria e a depressão passa a se manifestar nesse jovem sofredor e narcisista.

Conhecendo um pouco da vida de Mishima, percebe-se claramente traços autobiográficos no perfil do personagem atormentado de Confissões de uma máscara. Inconformado com o processo de ocidentalização do Japão após a segunda guerra, onde muitos de seus valores culturais foram subjugados à cultura ocidental, Mishima cria um movimento de contestação buscando preservar valores da cultura ancestral japonesa. Acabou cometendo suicídio durante um ritual previamente traçado como forma de protesto.

Tradução do japonês de Jaqueline Nabeta

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===========================

Yukio Mishima. Confissões de uma máscara. SP, Cia. das Letras, 2004, 200 pp. De 29 a 37 reais.

domingo, 8 de março de 2015

Divórcio em Buda


O escritor húngaro Sándor Márai (1900/1989) narra o Divórcio em Buda durante o período em que a Hungria já não pertencia mais ao Império Austro-Húngaro.  A capital Budapeste passara por transformações, perdera muito do poder econômico, a classe média passava por uma crise econômica, apesar de ainda existir uma burguesia mesclada com o que restara da antiga aristocracia austríaca. Kristóf Kömives, o personagem central, é um juiz austero que começava a emergir na sociedade húngara. Seu pai também havia sido um juiz famoso. Criado numa instituição católica depois da separação dos pais - a mãe abandonara o lar deixando os filhos com o marido, adquiriu uma personalidade conservadora calcada na moral e nos valores familiares.

Numa tarde (aí começa o romance), analisando os processos de divórcio, deteve-se em um deles, cujo casal em processo de separação ele já conhecia, apesar de, aparentemente, terem mantido durante anos um relacionamento superficial. Kristóf se atém a relembrar  quando os conhecera, primeiramente o marido, com quem havia estudado alguns anos no mesmo colégio e depois encontrava esporadicamente no meio social. Depois lembrou-se da esposa e da impressão que lhe causara durante esse tempo.

Saindo do escritório ele passa em casa para acompanhar a esposa em um dessas festas chatas de caráter burguês que não tinha apreço, mas comparecia por obrigação. Na volta ao lar, já tarde da noite, sabe pela empregada que há um homem no escritório que insistiu em esperar para falar com ele. Esse homem era o marido do referido divórcio. O diálogo entre os dois, revela uma situação inusitada: a mulher havia se matado há pouco e o juiz se vê envolvido nos fatos que lhe são narrados pelo homem desesperado.

Novela muito bem tramada, que prende o leitor até o fim da narrativa, Divórcio em Buda é um motivo excelente para o leitor que ainda não conhece a literatura de Sándor Márai, considerado um dos grandes do romance moderno ocidental.

Tradução de Ladislao  Szabo

                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
===========================

Sándor Márai. Divórcio em Buda. SP, Companhia das Letras, 2003, 176 pp R$ 32,00