domingo, 25 de setembro de 2016

18. Eugênia Grandet

O Sr. Grandet era, em 1789, um mestre tanoeiro bastante próspero, sabendo ler, escrever e contar. Quando, no distrito de Saumus, a República pôs à venda os bens do clero, o tanoeiro, então com quarenta anos, acabara de desposar a filha de um rico negociante de tábuas. Munido de sua fortuna líquida e do dote, munido de 2000 luíses de ouro, Grandet compareceu ao distrito, onde, graças a 200 luíses duplos oferecidos pelo sogro ao feroz republicano que administrava a venda dos domínios nacionais, obteve, a troco de nada, legalmente, senão legitimamente, um dos mais belos vinhedos da região, uma velha abadia e algumas terras arrendadas.

Depois disso, foi nomeado membro da administração do distrito de Saumur, e sua influência pacífica fez-se sentir nos domínios político e comercial. Politicamente, ele protegeu os nobres e usou de todo o seu poder para impedir a venda dos bens dos emigrados; comercialmente, forneceu aos exércitos republicanos 1 ou 2 milhares de barris de vinho branco e se fez pagar em soberbos prados, pertencentes a uma comunidade de mulheres que haviam sido reservados como derradeiro dote.

Sob o Consulado, foi prefeito, administrou sabiamente, vindimou melhor ainda; sob o Império (de Napoleão), voltou a ser o Sr. Grandet. Napoleão não gostava dos republicanos e o substituiu. Mesmo assim, deixou as  honras municipais sem nenhum pesar. Mandara abrir, no interesse da cidade, excelentes estradas que conduziam às suas propriedades. Sua casa e seus bens,  vantajosamente cadastrados, pagavam impostos módicos. Com a classificação das suas diferentes quintas, suas vinhas, graças a cuidados constantes, haviam-se tornado a cabeça da região, termo técnico empregado para indicar os vinhedos que produzem a melhor qualidade de vinho. Teria podido solicitar a cruz da Legião de Honra.

Este acontecimento deu-se em 1806. O Sr. Grandet tinha então 57 anos e sua mulher andava pelos 36. Uma filha única, fruto de seus amores legítimos, tinha dez anos de idade.(*)

Como podemos ver, Balzac nos mostra a figura do Sr. Grandet de forma irônica, que se aproveitou da liberdade republicana para enriquecer, assim como hoje em dia fazem os políticos por aqui, de legislar em causa própria.

Ele era muito conceituado na província. Nunca devia nada a ninguém. Seu grande defeito era ser sovina até dar com o pau! Tanto que a mulher, a filha e Manon, a criada fiel, não imaginavam que ele pudesse ser tão rico, tal a penúria com que ele subjugava a família em seu cotidiano. Mãe e filha eram responsáveis por toda a roupa da casa, e empregavam tão conscienciosamente os seus dias nesse verdadeiro trabalho de operárias que, se Eugênia queria bordar algo para a mãe, era obrigada a perder horas de sono, enganando o pai para poder ter luz.

Só duas pessoas na cidade podiam supor, vagamente, o vulto de sua fortuna: o Sr. Cruchot, notário, encarregado das inversões usurárias do Sr. Grandet; outra, o Sr. de Grassins, o mais rico banqueiro de Saumur, de cujos lucros o vinhateiro participava segundo sua conveniência e secretamente. Esses dois senhores tinham, cada um deles, um filho que pretendiam casar com Eugênia Grandet, para herdar-lhe a imensa fortuna do sovina.

Quando Eugênia completa 23 anos, o pai faz um jantar de comemoração, onde comparecem as partes interessadas no dote. De repente, batem à porta e apresenta-se um jovem cavalheiro vindo de Paris, Carlos, sobrinho do Sr. Grandet e primo, portanto, de Eugênia. Junto com Carlos vem uma carta lacrada do pai do jovem, onde o irmão lhe revela que está arruinado, afogado em dívidas, e que cometerá o suicídio. Pede, assim, que contem ao filho o ocorrido e que  o amparem em sua pobreza.

Esse moço fino, de hábitos corteses, chama a atenção de Eugênia, que se apaixona por ele de forma ingênua e terna. Ao saber que está sem dinheiro, Carlos decide saldar o que pode com a venda de alguns bens móveis e planeja viajar às Índias, para tentar fazer riqueza. Como não tem um puto vintém, Eugênia lhe empresta uns medalhões de ouro que dão um bom dinheiro para ele fazer a viagem. O sonho de Eugênia é que ele enriqueça e volte para casarem.

Carlos desaparece momentaneamente, o pai descobre que a filha havia se desfeito de seu ouro e a castiga, prendendo-a a pão e água por um bom tempo. A mãe de Eugênia fica doente de desgosto e acaba morrendo, quando pai e filha já estavam reconciliados. O Sr.  Grandet morre de velho e Eugênia herda-lhe a herança. E Carlos ressurge em Paris, rico à custa de serviços escusos. O final do romance é triste, já que Eugênia sucumbe diante de uma sociedade gananciosa, por acreditar no valor dos sentimentos ternos e verdadeiros como essência da vida.

Eugênia Grandet é uma joia de romance, considerado pela crítica como a obra-prima de Balzac, juntamente com Pai Goriot (que mostra o reverso da fortuna na França pós-Revolução). Balzac usa de descrições de pessoas e de situações de forma primorosa, que envolve o leitor até o final do romance.

A edição que eu li tem tradução de Moacyr Werneck de Castro, pela Difel, relançado pelo selo da Abril Cultural, "Os imortais da literatura universal". Poderá ser encontrado em sebos. A LP&M tem se dedicado a boas traduções da obra de Balzac e tem Eugênia Grandet em seu catálogo. Tem a edição da Martin Claret, porém...
(*) adaptado
                              paulinhopoa21003@yahoo.com.br

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domingo, 18 de setembro de 2016

17. Os irmãos Karamázov

Os Irmãos Karamázov  conta a história de uma família e uma comunidade, e não propriamente de um indivíduo. Ele alterna as histórias de suas cinco figuras principais em partes sucessivas, às vezes com uma sobreposição de tempo de uma para outra, criando suspense sem a necessidade de uma intriga. Assim, todas as personagens estão conectadas com as vastas forças culturais e históricas e os conflitos morais e espirituais da época, 1870.

O autor aborda nesta obra-prima, a questão da falência da família russa, que sofria a perda da fé em Cristo e em Deus. Assim, o conflito entre fé e razão é colocado como ponto central do romance, apreendido em seu plano moral e filosófico mais altos.

O fazendeiro Fiódor Pávlovitch Karamázov negligencia totalmente os três filhos tidos de duas esposas. Dimitri, o filho mais velho que teve com a primeira esposa, herdou da mãe o temperamento forte. Sua expectativa, desde jovem, era herdar da mãe algum dinheiro, quando tivesse a idade para isso. O pai, porém, tinha enredado de tal modo os bens de Dimitri, que ele ficara sem nada.Ivan, o filho do meio, era de natureza reservada, introspectiva e era preocupado com as injustiças do mundo. Aliocha, de 20 anos, o terceiro filho, tinha índole religiosa, nutria um amor precoce ao ser humano. Para que sua alma pudesse se ver livre das trevas da maldade, refugiou-se num mosteiro como uma saída de sua alma para a luz. Smerdiákov, o pretenso filho bastardo, foi assistido pelo criado da casa de Fiódor, passando a tarefas domésticas.É descrito como uma pessoa mediana e sádica, destituída de qualquer sentimento natural de gratidão ou obrigação para com os outros. Desde pequeno zombava da religião. Racionalista, tinha diálogos primorosos com Ivan, torturado com seus raciocínios morais. Smerdiákov adquire importância maior, durante o julgamento de Dimitri.

O fio condutor da trama é sobre o ódio de Dimitri (já integrado ao exército russo) ao pai, quando se sentiu espoliado da herança a que tinha direito. Como tinha pavio curto e o  cérebro na ponta da língua, metia-se em constantes confusões, chegando a afirmar, perante pessoas, que se vingaria do pai. Tinha uma noiva, Cátia, mas era apaixonado por Grúchenka, uma jovem liberal sustentada por um homem mais velho. Dimitri a amava, mas vivia com suas rendas quase a zero. Embora Grúchenka tivesse recursos, Dimitri era orgulhoso, queria levá-la por conta própria e começar com ela uma nova vida. Ele tinha outro problema de consciência: havia se apossado do dinheiro da namorada Cátia, que o havia dado a ele para enviar a um parente necessitado.
O conflito se agrava, quando Fiódor decide entrar na briga para conquistar Grúchenka. Esse é o ponto central da narrativa, que leva a uma tragédia familiar, envolvendo os demais irmãos.  Há um roubo de dinheiro na casa de Fiódor e este é assassinado. As suspeitas, obviamente, recaem sobre Dimitri, que afirma ser inocente, mas é levado a julgamento.

Os dois longos capítulos em que a promotoria e a defesa traçam sua estratégia de condenação e absolvição de Dimitri é outro ponto alto no romance. Contêm  os extensos discursos dos advogados. Dostoiévski se utiliza deles para dar o clima adequado à ação da trama. Os dois advogados iluminam os problemas morais,  espirituais, sociais e políticos que envolvem a família Karamázov.

Todo o romance é um primor de construção narrativa. Último romance de Dostoiévski, em sua fase áurea de obras-primas, é considerado a obra síntese do autor russo.

Tradução de Paulo Bezerra.
                     paulinhopoa2003@hotmail.com
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Fiódor Dostoiévski. Os Irmãos Karamázov.SP, Editora 34, 2008, 1080 pp. em dois volumes. 

domingo, 11 de setembro de 2016

16. Crime e castigo

Crime e castigo inaugura a trilha de obras-primas de Dostoiévski, junto com, O Idiota e Os Demônios, além de duas  novelas primorosas, O Jogador e O Eterno Marido. Quando  se conhecem as condições em que ele viveu, parece incrível o fato de ele ter sido capaz de produzir, em tão pouco tempo, tantas obras-primas. Enfrentou a pobreza e contínuas mudanças de residência para fugir de credores (por causa do jogo) e de familiares gananciosos e foi viver obscuramente na Alemanha e na Suíça até 1871. Também sofreu repetidos ataques epiléticos. . Se nos romances anteriores já havia a preocupação com a dignidade do ser humano independentemente de sua condição social, agora encontramos um viés filosófico e psicológico envolvendo as ações de Raskólnikov, o protagonista.

Dostoiévski apresenta Raskólnikov como um rapaz muito pobre, apesar de extremamente orgulhoso, causando a impressão de que ocultava algo de si aos demais. Se esquivava de todos na universidade, menos de Razumíkhin, que se tornou seu amigo.  Sua mãe e irmã moravam no interior, também em situação de emergência. Mesmo assim, pede dinheiro à família para atenuar a miséria em que vivia, em São Petersburgo. A ideia de cometer um assassinato com fins utilitaristas (mais ou menos a ideia de que devemos considerar o bem-estar de todos e não o de uma única pessoa), já vinha rondando a mente do protagonista. A época em que transcorre a narrativa coincide com o movimento  pregado pelos jovens intelectuais russos, o nihilismo, cuja principal característica era uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. O grande mérito de Dostoiévski, ao criar o personagem, é que ele não é plano. Pelo contrário, é um personagem complexo que delira entre ideias racionais que forjam-lhe um conceito de moral, e os princípios cristãos de compaixão e igualdade.

Passeando num final de tarde pela zona do mercado de  ambulantes de gêneros diversos e frutas, notou uma senhora conversando com uma conhecida. Essa conhecida era Lisavieta Ivánovna,  a irmã caçula de uma velha  viúva usurária, com quem ele estivera na véspera, empenhando um relógio. Ao ouvir que essa irmã não estaria em casa na noite seguinte e que a velha estaria sozinha em casa, foi tomado de uma sensação estranha que foi originando o seguinte pensamento: se matasse e saqueasse a velha maldita, não sentiria remorso. Com o dinheiro da velha poderia  distribuir o dinheiro a pessoas necessitadas, ajudar algum mosteiro, salvar famílias da miséria, da desagregação, da morte, da depravação e das doenças venéreas. Ele rouba o machado do zelador do prédio onde aluga um quarto e segue até a casa da usurária. O que não contava, é com o fato de que a irmã da agiota, provavelmente grávida, estivesse em casa. Acaba matando as duas e foge com os bens.

Quando volta para seu quarto, recoloca o machado no quarto do zelador, esconde o produto do roubo num buraco no papel de parede e tenta tirar as manchas de sangue da roupa. Desgastado pela tensão nervosa e pela doença, cai num sono febril até que é despertado por uma intimação do posto de polícia local. Chega lá horrorizado, mas fica sabendo que a intimação diz respeito a uma dívida que tem com a dona da pensão onde mora. Sente-se salvo, mas desmaia de fraqueza, ao ouvir dois policiais mencionarem o assassinato. Pensando que sua atitude pudesse levantar suspeitas, quando se recupera, volta ligeiro ao quarto a fim de remover os bens roubados, escondendo-os debaixo de uma pedra junto ao mictório num parque. A seguir, perde a consciência por quatro dias. Quando desperta, vê que está sendo cuidado pelo amigo Razumílkin e mais o delegado.
A partir daí, é esmagado e oprimido pelas consequências morais e psíquicas de seu ato criminoso, ao mesmo tempo em que passa a revelar traços de caráter. Em vez de medo e angústia, mostra agora raiva e ódio contra todos os que estiveram cuidando de sua doença e decide fugir desse cuidado opressivo.

Escreve e publica, então, um artigo polêmico lançando a questão de que os indivíduos se subdividiam  em "ordinários" e "extraordinários". Os ordinários são predestinados a viver na obediência, para cuidar dos outros, sem o direito de infringir a lei. Já os extraordinários teriam o direito de cometer toda sorte de crimes e infringir a lei de todas as maneiras justamente por serem extraordinários.

O romance é um primor de suspense policial, onde D0stoiévski traça com maestria o caráter psicológico contraditório de Raskólnikov. O encontro dele com Sonia, jovem prostituta, quase no final da narrativa, é fundamental para o desfecho do livro.

Tradução de Paulo Bezerra.
  
                     paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Fiódor Dostoiévski. Crime a castigo. 6ª ed., SP, Editora 34, 2009, 568 pp.

domingo, 4 de setembro de 2016

15. Madame Bovary


Você imagina uma mulher da baixa classe média provinciana da França da metade do século XIX que faz um casamento errado, leva uma vida aquém de suas pretensões e não consegue mudar seu destino devido às imposições morais de uma sociedade marcada por costumes políticos e religiosos hipócritas. Quando essa mulher não aceita esse destino e entra em desespero, gera uma tragédia. Essa mulher é Ema Bovary, personagem central de Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821/1880), o grande estilista da prosa francesa de todos os tempos.

Carlos Bovary, marido de Ema, desde a adolescência mostrou-se um sujeito sem atitude, sem grande inteligência, sem muita determinação. Venceu os estudos na marra, formou-se médico com muito esforço por determinação da mãe. Casou-se com uma viúva mais velha que ele por causa de um dote, que se revelou uma fraude, pois essa mulher estava arruinada e nada dissera ao marido Carlos. Então ele toma-se de amores por Ema, uma jovem que se destacava das demais pela beleza e por certo mistério em seu jeito de ser. O pai de Ema concorda com o casamento pelo fato de Carlos ser médico. 

Porém, Ema se decepciona logo pelas atitudes molengas do marido, por sua falta de ambição, pela mediocridade no exercício da medicina. Forma-se um abismo na comunicação entre os dois, visto que Carlos não conseguia percebê-la como mulher. Os dois têm uma filha, mas nem isso ajuda no encontro dos dois. Aos poucos ela vai se rebelando em suas atitudes, gastando além de suas possibilidades, com isso adquirindo dívidas. Depois, arranja um amante. Ema leva essa relação às últimas consequências, até que o jovem desaparece momentaneamente de sua vida, temendo consequências desastrosas a sua moral. Ema se desespera de início, mas não se deixa vencer. Vai reformando a casa, adquirindo mais dívidas sem que o marido o saiba. E arruma um novo amante, que manipula de forma doentia.

De repente, bate-lhe à porta o oficial de justiça cobrando a dívida, já vultosa, comunicando a penhora de seus bens. Para evitar que Carlos saiba do ocorrido, ela busca ajuda de todas as maneiras possíveis, recorrendo inclusive aos ex amantes, mas tudo em vão. Vendo-se num beco sem saída, ela suborna o empregado da farmácia e consegue o veneno para se matar.
O final é trágico e patético.

Flaubert nos desenha o perfil psicológico de Ema sem descobrir a personagem. É através de seus atos e atitudes que vamos conhecendo uma personalidade sedutora e perigosa, angustiada e frustrada em seus sonhos de felicidade.Trata-se de uma mulher que não se satisfaz com pouco. A cena em que Flaubert descreve o encontro amoroso de Ema com seu primeiro amante em uma carruagem que transita pela cidade sem um destino definido apresenta um erotismo implícito, de forma que nada é dito sobre o corpo de Ema e do amante, mas no trajeto da carruagem pelas ruas.

Não entendo por que a obra de Flaubert não teve uma acolhida mais calorosa por parte das editoras e tradutores brasileiros. Tem uma tradução decente de Araújo Nabuco (a tradução é da década de 1940) pela Martins Editora e relançada pelo Círculo do Livro, da editora Abril em 1976. A Penguin Companhia lançou Madame Bovary recentemente, com tradução de Mário Laranjeira, indicado ao Jabuti de melhor tradução. Cuidado com as edições baratinhas das editoras de bolso tradicionais, Essas gostam de plagiar traduções já feitas.
                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Gustave Flaubert. Madame Bovary. SP, Círculo do Livro, 1976, 264 pp.

domingo, 28 de agosto de 2016

14. Moby Dick

Ismael é um caçador de baleias. É ele quem nos conta a história de Moby Dick, o leviatã, o monstro assustador dos mares que todos os marinheiros têm sede de eliminar. Moby Dick, na verdade, é uma baleia branca que habita os mares próximos à Groenlândia. Ismael está pronto com os demais marinheiros para embarcar mais uma vez para a aventura de matar a baleia.

Ismael está numa pensão em New Bedford, importante porto baleeiro na época, para formar a tripulação do navio que empreenderá a viagem. Na pensão, tem como colega de quarto um aborígene, Quiqueg, que simboliza uma mistura de todos os ilhéus que têm a verdadeira fama de exímios arpoadores. Quiqueg é um sujeito aculturado, segue o Islã, o que por vezes nos faz pensar que pudesse ser um nativo malaio, mas Quiqueg não tem olhos puxados, está mais próximo de um nativo da Oceania. Ismael o define como uma criatura em estado de transição de lagarta a borboleta: era civilizado o bastante para ostentar seu exotismo. Veste-se de maneira única, original. Quanto a seu temperamento, é uma pessoa doce, corajosa e leal. Quiqueg entendia que a vida era a união de todos os seres da natureza com o ser superior, que integra tudo, sendo o ser humano não um ser superior, mas um participante da natureza com os demais seres. Os dois tornam-se amigos inseparáveis.

O capitão Acab, o protagonista da trama, tem quarenta anos de atividade baleeira, cercado de privações e perigos sobre um mar desapiedado. Há quarenta anos abandonou a terra pacífica para guerrear os horrores marinhos. Quando Acab pensa na vida que tem levado, na solidão desoladora que o acompanha, sente cansaço, angústia. Mas ele não pode esmorecer justo no momento em que se prepara para formar a tripulação de seu navio, o Pequod, para matar a baleia branca assassina que lhe arrancou uma das pernas.

Então, dá-se início à aventura pelo mar gelado e perigoso que esconde o "monstro branco". Um embate entre o homem e as forças da natureza. Herman Melville (1819/1891)conhecia a navegação de baleeiros por conta própria, pois trabalhou em alguns deles. Em uma de suas viagens, viveu algum tempo na Polinésia. O romance apresenta verdadeiras aulas sobre navegação e o ofício da caça da baleia.
Moby Dick foi fracasso de vendas, na época de seu lançamento. 

Acontece que a obra estava adiante de seu tempo. Não se trata apenas da história de um homem que busca matar a baleia que arrancara sua perna. Trata-se da obsessão de um homem por seu ato de vingança. Melville retrata em Acab as virtudes e falhas do espírito humano, assim como sua pulsão assassina. Quando finalmente ele se depara com a baleia, trava-se uma luta atroz e apenas Ismael sobrevive para fazer o relato da história. 

Cuidado com as traduções. Prefira a edição da Cosac Naify, com tradução de Irene Hirsch. O livro físico está esgotado, mas se encontra facilmente nos sebos virtuais. Tem uma tradução mais antiga, de Péricles Eugênio da Silva Ramos, lançado pela Editora Abril em 1980, em dois volumes, também confiável.

domingo, 21 de agosto de 2016

13. O vermelho e o negro

Na cidade de Verrières há uma fábrica barulhenta que produz por dia milhares de pregos. Mais adiante, próximo à prefeitura, há  uma casa de aspecto muito bonito e, através de uma grade de ferro contígua à casa, seus jardins magníficos. Ao fundo surgem as colinas de Borgonha, formando uma linha de horizonte que parece feita expressamente para o prazer dos olhos. A fábrica e a casa magnífica pertencem ao sr. de Rênal, um homem que se fez na vida cobrando pontualmente o que lhe devem e pagando o mais tarde possível o que deve aos outros. Foi com o dinheiro da fábrica que o sr. de Rênal construiu sua mansão. Envergonhado de ser um industrial vivendo do comércio de ferro, em 1815 decide ser o prefeito da cidade.

Essa cena inicial de O vermelho e o negro serve como ilustração da classe média francesa enriquecida fora da nobreza, ilustrando o período liberal da política francesa, após a queda de Napoleão. Essa evolução dos costumes, entretanto, não excluiu o sistema de castas que imperava na França desde sempre. É nessa sociedade em transformação, com toda sua hipocrisia dos costumes que vai atuar o herói do romance de Stendhal (1783/1842), Julien Sorel.
Julien era um jovem ambicioso, filho de um serralheiro que havia vendido muitas terras a preço de banana ao sr. de Rênal. Por ser filho de serralheiro, o caminho que lhe restava para seguir na vida era o de estudar para padre e ganhar a vida como preceptor de filhos endinheirados da sociedade local. O pai de Sorel era um sovina, cobrava do filho o que gastara durante seu sustento e acabou forçando-o sair de casa para seguir os estudos no seminário.

Pois bem, Sorel acaba contratado para ensinar aos filhos do prefeito o latim. A sra. de Rênal, mulher culta e discreta, acaba se envolvendo com o  jovem e os dois tornam-se amantes.
Uma carta anônima ameaça comprometer Julien e a sra. de Rênal. Um cônego seu protetor o aconselha a ir a Paris, para trabalhar como preceptor da família de La Mole, gente endinheirada que frequentava a corte parisiense. Sorel acaba sabendo que não há fortuna para um homem de sua condição, exceto por intermédio da nobreza. Ajudado pelo sr. de La Mole, que simpatiza com ele, passa a se vestir como um dândi e a dominar a arte de viver em Paris.
Não demora muito para Sorel e a srta. de La Mole se apaixonarem. Ter um amante de classe inferiorizada era coisa corriqueira para as mulheres da corte, desde que se mantivessem em sigilo aparente. O problema para Julian residiu no fato de tanto a sra. de Rênal quanto a senhorita de La Mole apaixonaram-se verdadeiramente por ele, enquanto ele era de caráter delicado, um romântico inveterado que ama com o coração mas não mede a realidade que cerca essa paixão.

Um dia, a senhora de Rênal aparece em Paris e põe a relação de Julien com a senhorita de La Mole em risco. Julien, num gesto impulsivo, tenta matar a senhora de Rênal em uma igreja e é preso. O final do romance é patético.

A Cosac Naify tem uma edição bem cuidada do romance, com tradução de Raquel Prado. Mas há outras traduções competentes sugeridas pela Cosac, como a de José Geraldo Vieira, pela Difel, e de Paulo Neves pela LPM (R$ 39,90). A edição nova da Cosac sai entre 54 e 89 reais.

                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Stendhal. O vermelho e o negro. SP, Cosac, 2010, 576 pp. 

domingo, 14 de agosto de 2016

12. Fausto

O motivo condutor do drama trágico Fausto  é a aposta, feita em dois planos: no plano terreno, Fausto aposta com o demônio (Mefistófeles) que, se este lhe desse a felicidade plena, entregaria sua alma ao inferno. No plano espiritual, a aposta se dá entre Deus e o Diabo, para tentar salvar a alma de Fausto da danação. No final, Fausto perde para o demônio, que leva seu corpo para baixo da terra, mas Deus salva sua alma e o leva ao céu. A primeira parte do Fausto foi composta ainda sob a influência do Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto) alemão, onde a subjetividade e o sentimentalismo estavam em alta no Romantismo, de forma generalizada.

O Fausto de Goethe encontrava-se angustiado e isolado da sociedade em uma solidão voluntária, sentindo-se incapaz de transformar o mundo. Um dia, durante um passeio, é seguido por um cão negro que ele deixa entrar em sua casa. Mefisto havia se metamorfoseado nesse cão para tentar Fausto a aventurar-se pelo mundo dos prazeres terrenos, para curar sua crise existencial.  Mefisto propõe-lhe uma aposta:  Se a inquietação de Fausto, se a sua eterna aspiração aplacar-se algum dia e ele entregar-se a um leito de lazer, à indolência e à fruição hedonista, se vivenciar um momento de felicidade em que possa exclamar: "Oh, pára!, és tão formoso!", então Mefisto terá ganho a aposta.

Fausto aceita e Mefistófeles leva-o a interagir no mundo com todas as sua grandezas (e misérias: os pecados). Fausto passa a frequentar a vida boêmia e a beber, mas isso não o satisfaz. Mefisto lhe oferece a possibilidade do amor carnal na figura da jovem Margarida, Gretchen, moça simples. Mas ele se toma de amores por ela. Mefisto o distancia de Gretchen, que estava grávida de Fausto e tem um final trágico, pois foi tratada como prostituta por ter um filho solteira. Gretchen, num gesto de desespero, mata o filho, é presa e condenada à morte. Fausto vem a saber da morte da amada e do filho através do irmão da moça, com quem duela e o mata.

A segunda parte, o Fausto II, terminado mais de 20 anos depois, é de leitura bem mais extensa, e difícil, são mais de 1000 páginas, onde Mefisto leva Fausto a vivenciar toda a história da humanidade, partindo dos mitos gregos: Fausto contracena com Helena de Troia, com os filósofos gregos e demais figuras históricas. No final ele sucumbe, e morre, entregando sua alma ao demônio. As forças divinas, entretanto, interferem em seu destino, Mefisto é logrado e Fausto ganha o reino dos céus.

Historicamente, existiu na Alemanha, mais ou menos no final da Idade Média, um Doutor Fausto, médico, também mago e alquimista. Era considerado figura esquisita, vivia só na companhia de um cão preto. Como começava a enriquecer, criou-se a lenda de que havia feito um pacto com o demônio, em troca da felicidade material. E esse demônio estava transformado no seu cão preto.  Essa lenda passou à forma escrita, publicada em almanaques e foi traduzida para o inglês. O dramaturgo Marlowe, da geração de Shakespeare, interessou-se pelo tema e criou uma peça de teatro, "A trágica história do Doutor Fausto", publicada mais ou menos em 1592. Goethe (1749/1832), quando criança, adorava teatro de marionetes e assistiu à adaptação da peça de Marlowe e ficou impressionado com o tema. Em 1808 publicou sua obra monumental: Fausto I. Em 1832, quando morreu, veio a lume a segunda parte da tragédia: Fausto II.

Há uma edição bilíngue confiável e muito bem reputada da renomada tradutora Jenny Klabin Segall (esposa do pintor Lasar Segall), que dedicou boa parte de sua vida a traduzir os dois volumes de Fausto, pela Editora 34. Os dois volumes são em versos, buscando respeitar a edição original alemã, enriquecida com a apresentação, comentários e notas de Marcus Vinicius Mazzari. Fausto I tem ilustrações de Eugène Delacroix e Fausto II, de Max Beckmann.


Existem traduções em prosa do Fausto, mas é preciso ter cuidado com a procedência e qualidade dessas traduções. Eu sugiro ao leitor que opte pelo Fausto I da Editora 34, que não apresenta grandes dificuldade na leitura. Acho que o leitor não se arrependerá. Afinal, não dá para morrer sem ler o Fausto de Goethe, também. O preço dos dois volumes da Editora 34 giram em torno de 63 e 80 reais, respectivamente. 

domingo, 7 de agosto de 2016

11. As relações perigosas

As relações perigosas é romance epistolar (gênero romanesco que narra os acontecimentos através de cartas) do francês Choderlos de Laclos (1741/1803), que conta a trama diabólica da Marquesa de Merteuil, viúva rica e nada ética em suas relações sociais, para destruir o casamento da jovem adolescente Cecile Volanges com o Conde de Gercourt, destruindo a reputação da jovem. Para isso escreve ao Visconde de Valmont, que ganhava a vida servindo-se de amante de mulheres ricas e preferencialmente casadas da corte francesa. Começa então uma troca de cartas entre os dois, não só dos dois, mas de todos os personagens envolvidos direta e indiretamente na trama.
Ficamos sabendo de cara que Valmont tem ressentimentos em relação à Marquesa de Merteuil, de quem foi amante e apaixonado. Sentindo-se usado por ela, afastou-se de seu convívio, passando a viver no campo em casa de uma tia. Merteuil o chama, explica-lhe seu plano, que ele recusa inicialmente, mas acaba aceitando, no desenrolar da história. A verdade é que Valmont está buscando se envolver com a bela Madame de Tourvel, mulher casada, amiga de sua tia, com quem vive no campo. A relação entre os dois leva a tal senhora a um final trágico.

Acompanhamos, paralelamente, as cartas trocadas entre a adolescente Cecile e sua amiga de internato, Sophie Carnat, em que narra o desejo da mãe em casá-la com o conde, mais velho que ela. Ficamos sabendo, também, através dessa troca de cartas entre as duas, a aproximação de um professor de música, Danceny, com quem passa a ter um romance cortês secreto, arquitetado, claro, pela Marquesa de Merteuil.

Com o desenrolar da história, Valmont acaba se apaixonando verdadeiramente por Madame de Turvel, a amante, mas esta decide, contraditoriamente, afastar-se dele. A Marquesa de Merteuil aproxima-se de Cecile e torna-se sua confidente. Consegue levar a jovem a passar um tempo no interior, justamente no lugar onde se encontra Valmont e os dois acabam se encontrando e tornando-se íntimos.

Com o afastamento definitivo da amante, Valmont, cansado de se ver manipulado pela Marquesa de Merteuil, propõe a ela que sejam amantes ou inimigos. Como a Marquesa usava e vingava-se das pessoas por prazer, propõe a guerra. O final é devastador.

As relações perigosas, publicado em 1782, caiu no ostracismo, sendo proibido por um tempo, considerado obra pornográfica. Quem reabilitou a obra como um dos romances capitais da literatura universal foi o escritor André Gide (1869/1951). Existem duas traduções respeitadas no mercado editorial, a de Dorothee de Bruchard, pela Penguin Companhia e a de Carlos Drummond de Andrade, pela Biblioteca Azul. Existe uma tradução acima de qualquer suspeita, feita por Sérgio Milliet, que você pode encontrar nos sebos, da coleção Imortais da Literatura Universal, da editora Abril. Foi essa tradução que li e recomento.

Depois de ler As relações perigosas, loque o filme de mesmo nome, dirigida por Stephen Frears, em que Glenn Glose, John Malkovich e Michelle Pfeifer dão uma aula memorável de interpretação. Há outro filme baseado no romance, Valmont, dirigido por Milos Forman.                          
  
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Choderlos de Laclos. As relações perigosas. Editora Abril/Difel, 1971, 324 pp.

domingo, 31 de julho de 2016

10. Tom Jones

O juiz Alworthy é um solteirão puritano, de posses e índole bondosa, que uma dia se surpreende ao encontrar uma criança recém-nascida na porta de sua casa. A mãe da criança, mãe solteira desenganada pelo amante, é chamada e recebe um rigoroso sermão, mas tem a promessa de que a criança, um menino, será criado por ele com toda a dignidade possível a uma família abastada. Esse menino, Thomas, logo recebe a ira de um capitão que se havia casado por interesse com a irmã do fidalgo Alworthy, quando lhe nasce o filho. Logo uma trama é esboçada pelo capitão, para se descobrir o pai de Tom e impedir que ele venha a prejudicar financeiramente suas pretensões.

Enquanto isso, lá foi o bastardo educado, alimentado e vestido para o mundo todo como um cavalheiro; e lá emprenhou uma das criadas, fazendo com que ela o negasse sob juramento ao próprio fidalgo; mais tarde, quebrou o braço  de um padre, só porque este o censurou por andar metido com marafonas; e mais tarde, disparou uma pistola contra o sr. Blifil, pelas costas; e uma vez, quando o juiz Alworthy encontrava-se doente, arranjou um tambor, e pôs-se a tocá-lo pela casa toda para não o deixar dormir.

Tom Jones era um dos mais simpáticos donzéis do mundo. O rosto, além de ser o retrato da saúde, apresentava os mais aparentes indícios de doçura e afabilidade. Atributos tão característicos do seu semblante que, embora a vivacidade e a sensibilidade dos olhos, manifestas a qualquer observador atento, pudessem escapar ao reparo dos menos perspicazes, tão acentuada lhe transparecia a afabilidade na expressão, que era notada por quase todos os que o viam. Era, igualmente, ativo, cortês, alegre e bem-humorado, e possuía uma torrente de espíritos que imprimia vivacidade a qualquer conversação de que participasse.

Tom é apaixonado pela bela e rica Sofia, mas devido a sua origem moralmente inaceitável, sofre por saber que não pode casar-se com ela, ainda que ela também o ame. Muito atraente às mulheres e agradável com todos, Jones desperta a inveja de Blifil, sobrinho de Allworthy, que os tinha criado como irmãos. E por uma série de artimanhas de Blifil, Jones acaba sendo expulso de casa,tendo que seguir seu caminho sozinho, numa história de estrada, onde a cada paragem há uma aventura desse anti-herói com novos personagens.
O inglês Henry Fielding (1707/1757) cria um estilo literário original, interrompendo muitas vezes a narrativa, para divagar acerca de assuntos do livro, fazendo, também, referências literárias e filosóficas.Predomina em todo o romance, o humor satírico.

Tradução Octavio Mendes Cajado

A obra encontra-se esgotadas, mas podem ser garimpadas nos sebos virtuais.Atente para o fato de que foram feitas adaptações da obra para o público infanto-juvenil.

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Henry Fielding. Tom Jones. SP, Abril Cultural, Coleção Os imortais da literatura universal, 1971, 620 pp. 

domingo, 24 de julho de 2016

09. Robinson Crusoé

Aconteceu um dia, quando em torno do meio-dia me encaminhava para o meu barco, de eu ficar extraordinariamente surpreso com a marca de um pé descalço de homem na praia; claramente visível na areia: foi como se um raio me tivesse atingido, ou como se tivesse avistado uma aparição. Eu me pus à escuta, olhei a toda a volta, mas não ouvi e nem vi nada. Subi a um ponto mais elevado para enxergar mais longe, percorri toda a praia de ida e de volta, mas tudo sem resultado, e não vi outra pegada além daquela. Voltei até lá para verificar se encontrava alguma coisa e se não podia ser minha imaginação; mas não havia a menor possibilidade disso, pois era exatamente a marca de um pé descalço, com todos os dedos, o calcanhar e todas as partes de um pé. Como tinha chegado ali eu não sabia, nem tinha como imaginar. Mas depois de inúmeros pensamentos agitados, completamente confuso e quase fora de mim, cheguei de volta a minha fortificação sem sentir, como se diz, o chão debaixo dos meus pés, mas aterrorizado até o último grau, olhando para trás a cada dois ou três passos, confundindo cada arbusto ou árvore e imaginando que cada tronco a uma certa distância era um homem. E nem sei descrever de quantas formas a imaginação assustada me representava as coisas, quantas ideias insensatas brotavam a cada momento em minha fantasia, e quantos caprichos estranhos e incontáveis ocorreram no caminho aos meus pensamentos.

A cena descrita brilhantemente por Defoe mostra a tensão que envolve um homem solitário, já conhecedor da ilha, surpreso e temeroso de que seu isolamento tivesse chegado ao fim.  O vestígio de outro ser humano, que lhe poderia ser amigo ou inimigo, marca uma crise no desenrolar da história.
Ao contrário de As viagens de Gulliver, que mostra uma visão desacreditada da humanidade, Robinson Crusoé é o protótipo do colonizador inglês propulsor da expansão territorial e do progresso da civilização. Ele é um marujo inglês que conhece terras distantes, tendo inclusive morado no Brasil, onde teve fazenda, cultivando e traficando escravos. Certo dia, cansado de ficar no mesmo lugar, deixa suas posses brasileiras a cargo de sócios e empreende novas viagens marítimas. Um dia, naufraga e chega numa ilha aparentemente deserta, onde vive por quase trinta anos, tendo como servo e companheiro o índio Sexta-Feira, que foi salvo por Crusoé quando índios canibais que aportaram na ilha tinham-no trazido para comer.

Daniel Defoe cria, assim, o microcosmo do processo civilizatório numa ilha localizada no Oceano Pacífico, próximo à costa do Chile. Robinson Crusoé, para que possa sobreviver, vai construindo cultura, domesticando a natureza a seu redor, construindo casa, amansando animais e aprendendo a caçar os bichos certos para comer. Depois ensina a língua e hábitos ocidentais ao indígena seu escravo. Depois luta com forças externas à ilha para defender seu território. Cria uma colônia no local onde vivera e volta à Inglaterra para morrer feliz.
Os adeptos da ecologia vão se aborrecer com Robinson Crusoé, pela facilidade com que ele mata as cabras com filhotes para domesticá-los, ou quando mata aves para ensinar a Sexta-Feira como manejar uma arma. Crusoé também exerce sua superioridade de homem branco em relação às populações ágrafas. As coisas eram assim na Inglaterra de 1700. As expansões marítimas descobriam e tomavam posse das terras descobertas, subjugando e matando índios.

Natural de Londres, Daniel Defoe (1660/1731)  era exímio escritor. Aliás, foi um dos precursores da arte de escrever profissionalmente, ainda que vivesse quase na miséria. Escreveu de tudo, de tratados sobre criminologia, passando por ensaios científicos e também pela escrita literária. Além de Robinson Crusoé, é conhecido pelo romance Moll Flandres, precursora do romance burguês.

Robinson Crusoé também foi adaptado para o público infanto-juvenil,mas a obra original é literatura para os grandes.

Tradução de Sérgio Flaksman
  
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Daniel Defoe. Robinson Crusoé. SP, Penguin Companhia, 2011, 408 pp.

domingo, 17 de julho de 2016

8. As viagens de Gulliver

As viagens de Gulliver, do escritor dublinense Jonathan Swift (1667/1745)  é bastante conhecido através de inúmeras adaptações para o público infanto-juvenil. Entretanto, a obra é originalmente  para gente grande. Aliás, Swift não gostava de crianças, ainda que tenha se afeiçoado a uma sobrinha adolescente, de quem foi preceptor durante muito tempo. Era um misantropo. Talvez pelo fato de que era um crítico ferrenho ao comportamento hipócrita de seu tempo. Desacreditava no ser humano, por tudo de errado que faziam, segundo seu ponto de vista. Odiava a traição dos políticos, a falsidade da corte e do comportamento de certa parte do clero, que se voltava a favorecer os interesses dos nobres, descuidando-se dos pobres. Swift, entretanto, não era um homem "de esquerda", pois mantinha a hierarquia entre ele e seus criados.

Na primeira viagem, Gulliver sofre um naufrágio e aporta desacordado na ilha de Lilliput, no Oceano Índico,  país de gente minúscula (10 cm de altura). Portanto, é um gigante que inicialmente amedronta o reino. Quando acorda, está amarrado ao chão úmido da praia. Aos poucos, os habitantes do lugar vão se aproximando e fazendo contato, e ele acaba sendo solto. Devido a sua brandura, o Imperador ordena eruditos para lhe ensinar a língua local. Gulliver se oferece para servir o imperador em suas guerras contra o reino da ilha vizinha de Blefuscu. O navegante impede a invasão a Lilliput. Um dia, os aposentos da Imperatriz se incendeiam acidentalmente e o navegante se oferece para salvar o resto do palácio. Como a quantidade de água que lhe ofereciam era muito pouca, pois tudo era minúsculo no reino, Gulliver decide apagar o incêndio, urinando sobre as chamas. O fogo é apagado, mas a ira da imperatriz contra ele está criada. Pouco tempo depois, é informado pelos habitantes de Blefuscu de que há um plano para acusá-lo de alta traição. Depois de algumas dificuldades, Gulliver consegue retornar à terra natal. Lilliput e Blefuscu são sátiras da Inglaterra e França, com a simpatia de Swift pela França, que agiu corretamente com seu personagem na história, provando o quanto o autor antipatizava com seu país natal.

Na segunda viagem, ele sente na pele o que os liliputianos sentiram em relação a ele. Depois de naufragar, ele chega a Brobdingnag,  terra dos gigantes, sendo recolhido por um lavrador que o expõe nos mercados e praças públicas. A rainha interessa-se pela minúscula figura e o compra. Gulliver passa a ser uma espécie de bobo da corte às avessas, pois mantém longos colóquios com a nobreza. Constata a ignorância do rei em matéria de política e também em navegação, e passa a ensinar-lhe muitas coisas. Um dia o marujo pede à rainha que o deixe ver o mar. Um pajem o leva a um penhasco juntamente com sua pequena casa. O pajem se descuida e um vento faz a casa descer até o mar e Gulliver consegue, assim retornar à Inglaterra. Brobdingnag encontra-se geograficamente, no Oceano Pacífico, junto à América do Norte.

Na terceira viagem, é atacado e preso por piratas holandeses, descendo em Laputa, uma ilha que voa. Lá, Gulliver entra em contato com a filosofia e astronomia modernas. Depois chega a Balnibarbi, próximo ao Japão. Lá, mantém conversa com um senhor que havia sido ministro da corte e fora afastado por fazer críticas à falta de lisura do governo em seu ato de governar. Swift satiriza, aí, o saber, ao visitar a Academia, fonte de educação do Império que nada mais é, que a Inglaterra.  Depois de aportar em mais alguns lugares e chegar ao Japão, retorna à Inglaterra mais uma vez.

Na quarta e última viagem, Gulliver chega ao País dos Houyhnhnn, governado por cavalos, seres inteligentes e nobres. Lá, havia os yahoos,  seres embrutecidos e sem cultura, praticamente irracionais. Nessa parte, Swift mostra sua descrença no ser humano, desdenhando não só os costumes da Inglaterra, como também de toda a sociedade humana, num pessimismo absoluto.

A tradução que li é de uma edição da antiga Editora Globo, de 1961, feita pelo conceituado tradutor português Octavio Mendes Cajado. Atualmente a Penguin Cia. das Letras, lançou a obra com a tradução a cargo de Paulo Henriques Britto,um dos melhores tradutores brasileiros.




domingo, 10 de julho de 2016

7. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy

Há críticos respeitados que não consideram Tristam Shandy um romance, já que  não há uma trama que se desenvolva na narrativa do escritor inglês Laurence Sterne (1713/1768),  até seu desfecho. Há, sim, uma tentativa do narrator-personagem, ao contar a história da sua vida, que não chega a se concretizar. Isso acontece, porque Sterne rompe deliberadamente a continuidade da narrativa, com assuntos e situações de diversos tipos.

A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy  é um espelho da sociedade da época, com figuras humanas distorcidas pela sátira:ora magras, ora gordas;  Sterne não poupa os teólogos, freiras, doutores e magistrados.  Assim, personagens que seriam secundárias na história, protagonizam passagens hilariantes durante a longa narrativa dessa novela picaresca. Yorick, pároco, aparece como um bobo da corte, através de seus sermões escandalosos. O próprio narrador-protagonista é descrito como uma figura esquelética, com crises pulmonares.

O tempo presente aparece de forma curta, quando Tristam Shandy busca contar sua história de vida, interrompida quando ele tem sete anos de idade. O que predomina, a partir de então, é o tempo passado, cujo acontecimento histórico importante é a batalha de Namur, por volta de 1695, em que Toby, o tio de Tristam Shandy, adquire destaque, quando é ferido na virilha e forçado a voltar para casa, juntamente com o soldado Trim e Walter, pai do protagonista..

1718  é o ano de nascimento de Tristam Shandy. Este, quando nasce, tem o nariz achatado pelo fórceps do obstetra. Há inúmeras piadas e situações engraçadas, como a pergunta inoportuna da esposa ao marido, durante o ato sexual que gerou Tristam Shandy, querendo saber se o marido dera corda no relógio. A discussão entre católicos e protestantes, querendo saber se o nariz enorme de um forasteiro é verdadeiro ou falso. Os discursos entre Walter e o irmão Toby parecem conversa de surdos, em que um fala uma coisa e o outro responde com outro assunto. 

A obra é uma sátira aos livros de viagens, muito comum naquela época. Apesar de sua importante contribuição e influência à literatura universal, é um livro difícil de se ler, justamente por não ter uma estrutura de romance. Suas digressões e enxertos engraçados podem saturar e cansar o leitor desavisado.

Tradução e prefácio de José Paulo Paes

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Lawrence Sterne. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy. 2ª ed., SP, Cia. das Letras, 1998, 642 pp.