domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Flecha de Deus

Os nativos da Nigéria, até o momento da colonização inglesa, contavam histórias para ensinar a eles que não importa quão forte ou grande seja um homem, jamais deve desafiar o seu chi, o deus de cada pessoa, que é só dela, responsável por sua identidade e destino.

A partir do momento da entrada do homem branco em suas terras, os povos de Okperi  e Umuaro passaram a ser grandes inimigos. Uma grande guerra selvagem se desatou entre eles, por um pedaço de terra. A inimizade se agravara porque Okperi aceitava missionários e gente do governo, ao passo que Umuaro permanecia atrasada.

Para muitas nações coloniais, a administração nativa significava o governo pelo homem branco. Não era assim que os britânicos pensavam em relação à Nigéria. Eles acreditavam em um governo indireto, baseado em instituições nativas, moldando o modo de pensar do negro africano de acordo com seus interesses.  Os colonizadores escolhiam o chefe nativo a comandar uma comunidade e forneciam a ele suportes da cultura ocidental para poderem governar. Isso quer dizer que esses chefes eram "comprados" com dinheiro, prestígio e bem-estar, para executar a forma de administrar do branco.

Ezeulu, sacerdote de Umuaro, conseguiu compreender o jogo do homem branco: desmanchar seus costumes. Os brancos, sabendo da existência de Ezeulu e de sua influência entre os nativos, mandam chamá-lo para torná-lo um chefe entre os seus, mas Ezeulu não aceita, pois quer proteger sua aldeia. Entretanto, está num dilema, pois proteger seu povo significa isolá-lo do progresso oriundo da colonização.  Com isso, passa a enfrentar ameaças que o colonizador lhe traz, como também dos próprios habitantes de Umuaro, que passam  a duvidar até mesmo de seus rituais e crenças mais antigas.

Chinua Achebe nasceu em Ogidi, Nigéria, em 1930. É um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Atuou na diplomacia durante os conflitos entre o governo da Nigéria e o povo ibo, no final da década de 1960. Ganhou o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt, na Alemanha, em 2002. Em 2007, recebeu o Man Booker International, um dos mais importantes prêmios das literaturas de língua inglesa.

Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva
    
                                           pauinhopoa2003@yahoo.com.br
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Chinua Achebe. A flecha de Deus.  SP, Cia. das Letras, 2011, 342 pp, R$35,00

domingo, 25 de janeiro de 2015

Omeros

Omeros é um poema épico do escritor caribenho Derek Walcott, ganhador de um Nobel de Literatura, publicado pela primeira vez em 1990. A obra se baseia em mitos universais, para retratar a condição humana de homens simples,  os pescadores de Santa Lúcia,  num meio hostil, lutando pela identidade e pela integração de todas as raças. O poema faz referência aos principais personagens de Homero na Ilíada, numa visão moderna do mito . Santa Lúcia faz parte das Pequenas Antilhas, tendo ao norte Martinica, departamento francês de ultramar, e ao sul Saint Vicent e Granadas.  Santa Lúcia representa a Ítaca de Ulisses; os reinos de Calipso, Circe e Nausícaa, a terra natal de Homero. Restos de um cemitério francês na ilha caribenha são os restos de Troia. O mar das Antilhas é o mar da Grécia, o mar, a analogia mais significativa, o pano de fundo majestoso de Omeros,  dominando o poema, com seus balanços, seus cheiros, seus fragores, suas fúrias.

Três linhas narrativas principais se cruzam ao longo do livro: a rivalidade homérica de Achille e Hector sobre seu amor por Helen;  a história entrelaçada do major Plunkett e sua esposa Maud, que vivem na ilha e deve reconciliar-se com a história da colonização britânica de Santa Lucia; a narrativa autobiográfica do próprio Walcott, como o próprio autor do poema (contradizendo a voz impessoal das epopeias), para falar de sua busca particular de identidade, como mulato, como antilhano, como homem e como poeta de uma língua que foi dos dominadores ingleses antes de ser sua. A figura de Homero é identificada a Sete Mares, preto velho cego, que depois de passar a maior parte da vida navegando pelo mundo, identifica-se com o mar.  Sentado com seu cão à sombra da farmácia (o lugar da cura), conhece os males da humanidade e prevê o seu destino; é o bardo e o profeta, igualando-se aos contadores de história presentes nos povos da África e aos xamãs (aqueles que enxergam no escuro) dos indígenas.

Achille, Helen e Hector (que substitui Paris), formam o triângulo amoroso que movimenta a ação dramática do poema. A deslumbrante Helen é a criada negra de olhos amendoados,  disputada por Achille e Hector. Na realidade, são ambos simples pescadores negros que lutam entre si, se odeiam, mas preservam a dignidade na admiração secreta que um tem pelo outro. Achille é o mais forte dos dois. E é também o único que se preocupa com o problema de sua identidade, que deseja voltar às origens e reencontrar seu pai. Achille é um Aquiles mais simpático, que não atormenta seus amigos com seus ressentimentos e não se mancha com sangue de Heitor. Outra diferença importante é que no poema de Walcott o companheiro do herói não é Prátoclo, mas Filoctete (o Filoctetes de Homero foi um herói grego que foi abandonado numa ilha depois de ser mordido por uma cobra, deixando-o com uma ferida incurável que causava um cheiro horroroso que afastava todos que tentavam se aproximar dele. Entretanto, sem Filoctetes a guerra não seria ganha e os guerreiros tiveram que trazê-lo de volta para lutar com a ferida e tudo). O negro Filoctete também tem um ferimento fétido causado por uma âncora, mas  vive na presença de toda a comunidade.

Derek Walott nasceu em 1930 na cidade de Castries, capital de Santa Lúcia. Filho de um casal de professores, é descendente de ingleses e de negros. Depois de sua formação universitária na Jamaica, ganhou uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos. Suas obras mais significativas situam-se nas áreas de poesia e do teatro.  Apesar de  sua qualidade poética reconhecida nas literaturas de língua inglesa e de ter ganho o Nobel, infelizmente é muito pouco conhecido no Brasil.  A tradução integral para o português de Omeros, feita pelo conceituado tradutor e crítico literário Paulo Vizioli é um trabalho pioneiro.

O exemplar novo varia de 28 a 57 reais. Pesquise.
    
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Derek Walcott. Omeros. 2ª ed SP, Cia. das Letras,  2011, 440 pp.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Sábado

Henry Perowne é um neurocirurgião conceituado, especializado em operar tumores de cérebro com rara habilidade. Vive confortavelmente em  Londres, é feliz no casamento, tendo uma mulher advogada, uma filha poeta e um filho músico de blues. A vida para ele é quase milimetricamente traçada, tudo corre costumeiramente, sem maiores transtornos.

No sábado  de 15 de fevereiro de 2003, pela manhã, sai para jogar sua partida costumeira com um colega do hospital, para depois, à tarde visitar a mãe em uma clínica, vítima de Alzeimer, para depois retornar à casa para preparar um jantar para o sogro que vem visitar a família. No caminho, é parado no trânsito, devido a uma manifestação contra a invasão do Iraque pelos norte-americanos, em decorrência do atentado de 11 de setembro, pouco tempo atrás. Quando tenta escapar do tumulto através de uma manobra irregular, é atingido por um carro ocupado por três jovens de atitude suspeita. Todos descem dos carros, o jovem que estava à direção propõe uma indenização em dinheiro vivo e Henry recusa. O jovem torna-se violento e o agride. Percebendo que o jovem apresenta sintomas de descontrole muscular, usa de seus conhecimentos profissionais para minar os planos do agressor, dando-lhe o diagnóstico de que o rapaz apresenta suspeita da síndrome de Huntington (informe-se). Essa atitude, que mais tarde Henry classifica de antiprofissional, desconcerta o rapaz, que desiste do caso e vai embora, deixando Henry seguir seu caminho. Esse acontecimento interfere no pensamento de Henry várias vezes durante o dia, embora tente manter sua vida normal, apesar do incidente. À noite, durante o jantar, a casa é invadida pelo jovem perturbado, armado de uma faca. O fato trará consequências graves para o médico e sua família.

A interferência de alguém na vida de um personagem, causando-lhe danos é recorrente na obra de  Ian McEwan.  Em Reparação, uma menina constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou. Em Amor sem fim, um homem prepara um piquenique no campo para festejar a volta de sua mulher de uma viagem, quando um incidente com um balão põe em risco a vida de uma criança.  Um dos homens que o ajuda passa a alimentar por ele uma paixão tão instantânea quanto obsessiva, que chegará aos limites da perseguição e da loucura (leia matéria no blog).

A narrativa de Sábado contém um suspense que prende e incomoda o leitor até o final. O exemplar novo em edição de bolso custa em média R$ 26,00.

Tradução de Rubens Figueiredo.

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Ian McEwan. Sábado. SP, Cia. das Letras, 2013, 304 pp.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Assim na terra

Na voz de Luiz Sérgio Metz, a natureza ganha vida em Assim na terra: a água dos pequenos córregos, terra batida, erosão,tufos de macegas, barro, rastro de roda, pegadas de homem descalço, a asa de um pássaro que se escondeu numa tulha, homens conduzindo um resto de tropa marcada a ferro, uma árvore seca, o emblema da caveira sobre dois ossos, as tábuas do assoalho rangendo sob os pés.
Um gaúcho solitário, do tipo campeiro, encontra, em suas andanças, um homem dormindo na mata. Beira os setenta, pela aparência do rosto. Veste bombacha escura e botas com o bico embarrado. O homem acorda e se apresenta, Gomercindo. Os dois saem a caminhar, encontram uma casa grande, ao lado um galpão. Uma vela se acende.  O galpão parece uma espécie de templo do tempo, com muita acústica e pouca mobília. Sólido, mas também muito simples, embora não fosse apenas simples nem de uma solidez comum, de pedra sobre outra que se enxertam, armado apenas de algum madeirame. Ali dentro daria para se guardar os sótãos da infância. Eles ficariam protegidos do rigor, acomodados até uns sobre os outros formando uma sub-edificação de subjetivos para visitação. Mas há uma escrivaninha, com nervuras nos cantos, com gavetas, um tampo claro no pavio amarelo, sem nada encima. As janelas estão todas fechadas e a vela sobre a escrivaninha é nova. Não há nenhuma medida de tempo, então. Gomercindo olha-o sem fixar os olhos, tudo está fora de alcance. O velho propõe-lhe que seja feito um tratado sobre o sul, "procurar os signos que estava no piso e nas janelas e nas portas e nas paredes: associações urbanas , ruas para dentro de barrocas, as linhas telefônicas, os gritos raspando dentro dos fios, os raseis de setembro, as unhas que se agarravam às pedras que se soltavam como grãos de espigas, brugalhaus". 

As palavras estavam além das tesouras de um mero galpão ou de suas telhas, ou de sua geometria.  Ele parecia querer terminar o livro que trouxera, mas ficava marcando uma página com a unha, num vaivém na margem direita.

Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo , RS, em 1952 e faleceu em 1996, devido a um câncer. Conhecido como "Jacaré", foi letrista do grupo nativista Tambo do Bando. Dele eu já havia lido o livro de contos O primeiro e o segundo homem, já comentado neste blog. Assim na terra descreve a atmosfera do pampa com lirismo e densidade, numa jornada a cavalo, sem destino .

O exemplar novo varia de 22 a 35 reais.
                       
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Luiz Sérgio Metz. Assim na terra. SP, Cosac Naify, 2013, 224 pp.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O senhor do lado esquerdo

O escritor carioca Alberto Mussa (1961) costuma afirmar que a história das cidades é a história de seus crimes. A cidade do Rio de Janeiro tem sido descoberta desde seus primórdios do século XIX através de seus crimes, nos romances que narra. O Senhor do lado esquerdo acontece no ano de 1913, apresentando ao leitor a  investigação do assassinato do secretário do presidente da república, mesclada com  crônicas diversas acerca da história e dos mitos da cidade do Rio de Janeiro na época.

O narrador nos que No dia 13 de junho de 1913, por volta das quatro horas da tarde,o secretário da presidência da república chegou à Casa das Trocas, aparentemente uma clínica ginecológica administrada por Miroslav Zmuda, espécie de  ginecologista ou obstetra, visto que fazia abortos, esterilizava, tratava enfermidades venéreas. Embora não tenha sido um erotólogo, na acepção clássica do termo, tinha especial interesse pela fisiologia do coito. E foi um dos primeiros cientistas ocidentais a estudar o fenômeno da atração sexual. E assim surgiu a Casa das Trocas - de que dona Brigiitte foi a principal mentora.

O secretário  foi recebido pela prostituta Fortunata. Minutos depois de terem entrado no quarto, Fortunata desceu para apanhar duas taças e uma garrafa de vinho tinto, na adega improvisada pelo doutor Zmuda, embaixo da grande escadaria, onde a lenda diz haver uma passagem secreta construída por dom Pedro I. Em torno das seis, Fortunata passou pelo salão oval superior, onde ficavam as colegas, demonstrando pressa e reagindo com rispidez incomum a uma gentileza, antes de sair, pela porta da frente. Estava num vestido de tafetá azul e levava nas orelhas o par de brincos de ouro, em forma de cavalo marinho.

Pouco antes das oito, após considerarem exagerado o tempo de permanência do secretário no quarto, dona Brigitte pediu que fossem acordar o cliente ilustre - que foi achado morto, fortemente preso à cama por amarras e ainda com fundas impressões de dedos no pescoço. O laudo confirmou a asfixia como causa mortis, não havendo indícios de latrocínio.

Eis o motivo condutor para a trama interessante de O homem do lado esquerdo, contado com humor e doses de ironia. É gostoso de ler.
                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Alberto Mussa. O senhor do lado esquerdo. 2ª ed, Rio, Record, 2013, 304 pp, R$ 35,00

domingo, 28 de dezembro de 2014

Flores azuis

Um homem separado vive em um apartamento alugado, onde recebe nos finais se semana a filha pequena.  Esse homem é daqueles sujeitos chatos, que acha tudo errado com ele, é indeciso, inseguro e, por consequência disso, deprimido. A ex-mulher continua a intrometer-se em sua vida. A filha parece não gostar dele, quase não conversam e ele não busca uma aproximação afetiva maior com a menina. De repente, esse homem começa a receber cartas escritas a caneta tinteiro, dentro de um envelope azul, cuja única informação da remetente (trata-se de uma mulher) é a letra k.  Nos dias de  hoje, em que o email e as redes sociais e os sms dominam as relações sociais, alguém ainda escreve cartas de amor a caneta tinteiro. Cada dia uma carta. Esse homem decide violar as cartas e passa a acompanhar a escrita dessa mulher, relatando uma separação por motivos que se confundem, às vezes, com os do homem em relação a seu relacionamento desfeito. As cartas são enviadas diariamente, por um período definido pela autora. No final, ela propõe a esse amante, que não sabemos aparentemente quem seja, embora possa ser o antigo morador, perdoá-lo e aceitá-lo de volta caso ele assim o quisesse.

A partir daí, ele busca obsessivamente encontrar esse homem para entregar-lhe as cartas, com a intenção, quem sabe, de ajudar a recompor a relação partida. Depois de uma série de tentativas, onde se vê obrigado a contatar a dona do apartamento, consegue localizar o antigo locatário, que desconhece quem possa ser essa mulher.

Carola Saavedra intercala as cartas com a crônica de vida desse homem solitário e mal amado e incompreendido de si mesmo. Algumas situações soam pouco verossímeis, como alguém escrever cartas a caneta tinteiro em pleno século XXI, assim como a mulher forjar o funcionário do correio a postar as cartas sem mencionar o remetente. Mas isso não pesa dentro da narrativa e nem  na intenção da romancista, de relacionar o drama de uma mulher abandonada que escreve cartas buscando a reconciliação e de um homem abandonado que lê essas cartas como se fossem suas e quer encontrar um amor para acabar com sua solidão.

O livro encontra-se esgotado, mas há livrarias que vendem o exemplar novo a preço médio de 32 reais.
    
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Carola Saavedra. Flores azuis. SP, Cia. das Letras, 2008, 166 pp

domingo, 21 de dezembro de 2014

A máquina de fazer espanhóis

valter hugo mãe disse em um programa de televisão que escolheu o nome mãe como uma coisa literária de completude. Sempre esteve convencido de que as mulheres, através da maternidade, experimentam o extremo da humanidade: não há nada que um ser humano possa fazer de mais milagroso do que a multiplicação, de desdobrar seu corpo em dois. os homens são a parte fraca da humanidade, pois há uma lacuna, um espaço vazio no homem, pois temos uma dimensão afetiva que não fica aproveitada, a menos que tenhamos filhos. a vida é uma coisa terrível, por isso se precisa de epifanias de felicidade que é uma coisa que se perde à medida que se conquista. a felicidade é podermos ser o que somos.

a máquina de fazer espanhóis é a renúncia da felicidade de sonhar, pela consciência da perda. o título refere-se a uma frustração portuguesa contínua, que durou 800 anos de soberania e fez com que os portugueses pensem de vez em quando: se fôssemos espanhóis teríamos uma dignidade de melhor qualidade. a máquina de fazer espanhóis é Portugal. vejamos um trecho emblemático:

antônio jorge da silva está diante do corpo da mulher morta que não lhe diria mais nada, por mais insistente que fosse o seu desespero, sua necessidade de respirar através dos seus olhos, sua necessidade vital de respirar através de seu sorriso. ele e sua mulher morta que se demitia de continuar a justificar-lhe a vida e que, abraçando-lhe como podia, entregava-lhe tudo de uma só vez. e ele, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.
com a morte, também o amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colocando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, ainda, sem saber de nada. quando, por fim, me levantei, estava a anos-luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver sos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar, à reveia de tudo quanto me pareceria menos cruel. e a natureza, se do meu coração não se esvaziou o amor pela laura, estaria numa aniquilação imediata para mim também, poupando-me à miséria de ver o sol que arde sem respeito por qualquer tragédia.

um problema com o ser-velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento,a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas a alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige. e quando eu fico bloqueado, tão irritado com isso sem dúvida, não é por estar imaturo e esperar vir a ser melhor, é por estar maduro de mais e ir como que apodrecendo, igual aos frutos. nós sabemos que erramos e sabemos que, na distração cada vez maior, na perda de reflexo e de agilidade mental, fazemos coisas sem saber e não as fazemos estupidez. fazemos por descoordenação entre o que está certo e o que nos parece certo e até sabemos que isso de certou ou errado é muito relativo. é tudo mais forte do que nós.

enquanto alguns velhos queriam acreditar que a saúde não lhes faltaria e que poderiam concretizar muitos projetos, antônio jorge da silva não concebia o que era chegar àquela idade e ter projetos. o seu projeto era esquecer tudo, era protestar contra a morte de laura convencendo-se de que, depois da morte de alguém que nos é essencial, ao menos a memória do amor deveria ser erradicada também.

a máquina de fazer espanhóis, assim como outros livros do autor é escrito todo ele em minúscula, como forma de colocar tudo no mesmo pé de igualdade. Ele abandonou esse recurso nos livros mais recentes.

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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valter hugo mãe. a máquina de fazer espanhóis. sp, cosac naify, 2013, 256 pp., R$ 39,00

domingo, 14 de dezembro de 2014

Hanói

David é filho de pai brasileiro da região de Governador Valadares (emigrado ilegalmente nos EUA) com uma mexicana. Aos 38 anos é diagnosticado de câncer no cérebro, tendo poucos meses de vida. Ao sair do consultório,  pensa no sentido da vida diante dos sintomas do câncer que o levará à morte daqui a pouco. Chega em casa em põe um disco de sua refinada coleção de jazz. Enquanto ouve a música põe-se a observar a coisas a seu redor.  Não tinha pensado em deixar o apartamento, mas em algum momento começou a parecer que seria a ordem natural das coisas. Livrar-se de tudo que havia ali dentro, esvaziá-lo como se esvaziam os bolsos de uma calça, e depois se livrar dele também, da vizinhança, das esquinas conhecidas. Começou, assim, a doar as coisas que tinha à vizinhança.

Quando David vai a uma mercearia asiática no bairro, puxa conversa com Alex,  jovem descendente de vietnamitas, caixa desse estabelecimento. Depois vai uma segunda vez, agora com a necessidade de aproximar-se dela. Pensa David: será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função na nossa  vida, algum papel a desempenhar? Não precisa ser algo grandioso. Podemos topar com alguém na esquina apenas para que esse alguém nos pergunte a direção da rua tal, qual a melhor opção para se fazer uma receita, será que não precisa de um eletrodoméstico que tenho em casa e quero me desfazer?

Alex é mãe solteira. Vive com dificuldade, como quase todo imigrante nos Estados Unidos. Os dois tornam-se íntimos. Quando Alex lhe diz que nunca conhecera o Vietnã, David começa a alimentar a ideia entre eles, de conhecerem Hanói. Também seria uma forma de autoanálise,  de confrontar sua própria identidade através da metáfora do deslocamento.

Até então, só conhecia Adriana Lisboa, através das traduções competentes de duas novelas de Stefan Zweig, Três novelas femininas, e de A estrada, de Cormac McCarthy. Hanói apresenta uma prosa elegante contada com delicadeza.
             
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Adriana Lisboa. Hanói. Rio, Objetiva, 2013, 236 pp, R$ 39,90

domingo, 7 de dezembro de 2014

O caminho de Ida

Ida era uma intelectual norte-americana engajada numa guerra sem cartel contra os defensores do desconstrucionismo de Derrida, atacando-os pela esquerda, na grande tradição dos historiadores marxistas. Não tinha um público amplo. Trabalhava para a elite e contra ela, odiava as pessoas que formavam seu círculo profissional. Também gostava de segredo, dos encontros clandestinos num hotel de beira de estrada. Um dia, é encontrada morta em um carro batido, com a mão direita queimada

Emilio Renzi (personagem de outros livros de Ricardo Piglia) estava nessa época - década de 1990 - nos Estados Unidos, a convite de Ida para dar uma palestra sobre o escritor naturalista W. H. Hudson,  escritor de língua inglesa nascido na Argentina e que se interessou pela vida e pelos aspectos físicos daquele país. Com a morte de Ida, Renzi interessa-se pelo caso. Investigando seu passado, descobre que tentara sem sucesso viajar a Cuba. Havia, também, participado de manifestações pela paz, pela descriminalização do aborto, pela igualdade racial, pelo acesso dos latinos à documentação legal, pelo fim do embargo a Cuba. Havia, ainda, participado dos grupos que se manifestaram contra a guerra no Iraque.

Renzi consegue chegar a Thomas Munk, suposto assassino de Ida. Percebeu que ele era considerado o exemplo mais bem acabado de um gênio pelos que o conheciam. Quando desorientado, parecia um tolo, falando confusamente, gaguejando como se estivesse perdido nas suas próprias divagações. Mas, quando estava em forma, era deslumbrante, luminoso, inflexível. Alguns analistas apontam que foi na Califórnia que Tom descobriu a filosofia antitecnológica e começou a sonhar em fugir para o mundo selvagem.
Munk acreditava que vivemos numa época de refluxo e derrota. Já não é mais possível construir grupos clandestinos, pequenas organizações terroristas fechadas, disciplinadas e eficazes. Essa época acabara. Estamos na época dos homens sozinhos, das conspirações pessoais, da ação solitária. Só podemos resistir escondendo nossos pensamentos invisíveis, nos confundindo com a multidão. Somos indivíduos dispersos, internados nas florestas, perdidos nas grandes cidades, sujeitos em fuga extraviados nas pradarias. Faz referência a Henry Hudson e a observação dos animais pampianos. A natureza seria o último refúgio da rebelião.

A conspiração é o motor dessa narrativa com um suspense ágil e revelador do mundo contemporâneo. Ricardo Piglia, como tem sido sempre, soube contar uma história interessante. Eu gostei.

Tradução de Sergio Molina
                              
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Ricardo Piglia. O caminho de Ida. SP, Companhia, 2014, 248 pp.

Preço: 17 a 37 reais o exemplar novo.


domingo, 30 de novembro de 2014

Será difícil ler Gregório de Matos?

Tenho frequentemente feito comentários sobre o conteúdo da leitura obrigatória da Ufrgs/2015.Chegou a vez de Gregório de Matos e Guerra. Lembro de uma jornalista comentando a experiência da filha durante o vestibular de 2014 na televisão, dizer que, apesar de ser leiga no assunto ser uma tortura obrigar os jovens adolescentes serem obrigados a estudar Gregório Matos. A jornalista havia lido alguns poemas marcados como leitura obrigatória e se decepcionou com a linguagem "quase ininteligível" do poeta.

Mas é justamente na escola que se deve estudar Gregório de Matos e buscar compreendê-lo de forma acessível. Estudei muito Gregório de Matos com meus alunos do ensino médio, lendo sua poesia. Num primeiro momento, ler sem paradas para marcar palavras difíceis, isso vem depois. Ler para discutir o poema. Ler em voz alta. Os estudantes são espertos e captam muita coisa, surpreendem. Pode-se depois situar Gregório de Matos dentro da cultura do Barroco brasileiro, cujas características estéticas evidenciam comparações abreviadas, antíteses, paradoxos. A questão da forma versus conteúdo. A linguagem poética do estilo barroco é rebuscada por refletir as contradições de um período formal estupendo, com o enaltecimento da forma, durante o Renascimento, para a obscuridade psicológica oriunda da crença autoritária do catolicismo que passou a dominar parte da França, mas especialmente Espanha e Portugal, se espraiando pelas colônias da América Latina. A poesia desbocada de Gregório de Matos é um caso a parte. Tudo o que foi escrito de escárnio e maldizer na Bahia de 1600 era atribuído a Gregório de Matos. Nem tudo era dele.

Vejamos essa poesia religiosa:

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
  
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Temos aí uma característica conceitista: o poeta faz uso de argumentos inteligentes usando como sua defesa a verdade expressa na bíblia. O poeta pecador reconhece a ofensa a Deus, devido à vaidade, mas pede o perdão de Deus com a certeza de que Deus, bondoso, certamente irá perdoá-lo.

Outra, com traços evidentes de ironia:

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, 
de vossa alta clemência me despido; 
porque quanto mais tenho delinquido, 
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado, 
a abrandar-vos sobeja um só gemido: 
que a mesma culpa, que vos há ofendido, 
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma orelha perdida e já cobrada, 
glória tal e prazer tão repentino 
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, 
cobrai-a; e não queirais, pastor divino, 
perder na vossa ovelha a vossa glória.

Exemplo de sua poesia filosófica: a inconstância dos bens do mundo, a instabilidade das coisas do mundo:

Nasce o sol e não dura mais que um dia. (antítese vida/morte)
Depois da luz, se segue a noite escura, (ant. claro/escuro)
Em tristes sombras morre a formosura, (ant.feio/belo)
Em contínuas tristezas a alegria. (ant. tristeza/alegria)

Porém, se acaba o sol, porque nascia? (dúvida)
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se trasfigura?
Como o gosto da pena assim se fia? (sofrimento)

Mas no sol e na luz falta a firmeza;
Na formosura, não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza. (ant. tristeza/alegria)

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza:
A firmeza somente na inconstância.

A poesia satírica, onde Gregório de Matos é mais reconhecido:

A Cidade da Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado,
Pobre te vê a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh! se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
que fora de algodão o teu capote!

Essa também:

 A cada canto um grande conselheiro,
 Que nos quer governar cabana, e vinha,
 Não sabem governar sua cozinha,
 E podem governar o mundo inteiro.

 Em cada porta um freqüentado olheiro,
 Que a vida do vizinho, e da vizinha
 Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
 Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

 Muitos Mulatos desavergonhados,
 Trazidos pelos pés os homens nobres,
 Posta nas palmas toda a picardia.

 Estupendas usuras nos mercados,
 Todos, os que não furtam, muito pobres,
 E eis aqui a cidade da Bahia.

Poesia amorosa, com traços de amargor:

Ardor em firme coração nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que em um peito abrasas escondido, 
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! Que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.


Esse soneto, muito trabalhado nos compêndios de literatura, difere do lado deprimido do poeta para lançar um tom meio satírico ao poema:

Anjo no nome, Angélica na cara(*),
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

(*) Não se usava, no português antigo, rosto, mas cara.

Então, é tão difícil assim ler Gregório de Matos? Em todos os países a literatura é estudada, mesmo a dita literatura clássica, com respeito, como forma de preservar os valores culturais de um país. Por aqui, percebo que a moderna didática (tenho ranço da didática modernosa) busca incentivar a leitura no aluno, a partir do que ele gosta de ler, quando a função da escola é lhe apresentar outros valores ao lado do que ele gosta de ler.

Precisamos orientar a ler bons autores, sim.

Todos os poemas mencionados aqui pertencem à lista de poemas selecionados para leitura obrigatória da Ufrgs. Se o leitor se interessar, divulgo o site sobre os poemas de Gregórios de Matos selecionados para leitura obrigatória:


http://www.ufrgs.br/coperse/concurso-vestibular/vestibular-2015/leituras-obrigatorias

domingo, 23 de novembro de 2014

O homem que amava os cachorros

O romance do cubano Leonardo Padura conta a história do escritor Iván Cárdenas Maturell,  que na década de 1970  entra em contato com um  homem esquisito que passeava numa  praia de Havana com dois cães de raça russa. Os dois acabam se aproximando. Quando esse homem morre, deixa a Iván uns papeis contando  seu passado e um fato importante que marcou a história da Revolução Russa de 1917. Esse homem era  Ramón Mercander del Río, o homem que matou Trotsky a mando de Stálin. Vinte anos depois, Iván decide trabalhar nos papeis deixados por Ramón.  A partir de então, Iván questiona o próprio destino numa ilha submetida à União Soviética comandada por Stálin e os reflexos disso, após a extinção do URSS em 1991, mergulhando Cuba numa série crise econômica e social.

A geração de Iván era  dos crédulos, que deram o suor e a vida em prol de um socialismo utópico que agora compreendem como traiçoeiro. Aceitaram romanticamente  e justificaram tudo com os olhos postos no futuro. Não ficaram sabendo das repressões e dos genocídios de povos, etnias, partidos políticos inteiros, das perseguições mortais a inconformistas e religiosos, da fúria homicida dos campos de trabalho, do assassinato da legalidade e da credulidade antes, durante e depois dos processos de Moscou. Também não fizeram a menor ideia de quem tinha sido Trotsky ou por que o tinham mandado matar, ou das combinações infames da União Soviética com o nazismo e com o imperialismo, da prostituição dos ideais e das verdades, transformados em palavras de ordem do camarada Stalin, com sua rígida ortodoxia que usou (ele e seus seguidores) para condenar a menor dissidência a seus desmandos e megalomanias.

Agora, a muito custo, Iván podia compreender como e por que toda aquela perfeição havia desmoronado com um acesso mínimo à informação e uma ligeira mas decisiva perda do medo que dera consistência àquela estrutura. O  gigante tinha pés de barro e só se mantivera ereto graças ao terror e à mentira. As profecias de Trotsky acabaram por cumprir-se, e Iván (e os cubanos) sem saber ou não querendo saber de nada. Cada vez mais deprimido, Iván se mata, deixando o relato de sua história a um amigo escritor ciente dos fatos, que decide enterrar os papeis junto com o corpo de Iván, sem que fossem publicados. Ironicamente,  esses papeis constituem a história de O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura.

Tradução de Helena Pitta
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Leonardo Padura. O homem que amava os cachorros. SP, Boitempo, 2013, 592 pp, R$ 69,00

domingo, 16 de novembro de 2014

A artista do corpo

Há quem saiba amar as pessoas depois delas desaparecerem abruptamente. Talvez então possa compreender que sempre manteve uma distância sutil delas, sempre se poupou, só muito raramente expôs seu coração, sempre tecendo redes de dar e receber. Lauren Hartke é uma artista que mescla teatro e mímica e torna o corpo como estátua plástica e viva.

Don Delillo abre o A Artista do Corpo com um casal numa manhã em uma casa enorme à beira de uma praia. Os dois executam ações cotidianas com diálogos soltos, como se cada um se recusasse a sair de si mesmo. As palavras constituem um monólogo sem contexto. Então somos surpreendidos pela notícia de que o homem, um cineasta de origem italiana, havia se matado com um tiro na cabeça sem deixar explicações. Lauren então se fecha para o mundo, decidida a ficar naquela casa da praia até o final do contrato do aluguel a alguns meses.

De repente, um homem esquisito e desconhecido aparece. Ela decide cuidar dele, pois parece perturbado. Então percebe que ele tem atitudes e diálogos que lembram o marido morto. Ela passa a pedir desesperadamente que ele faça coisas como o morto, que diga palavras que ele disse. Ou diga qualquer coisa que lhe venha à cabeça, mas como se fosse ele. Falavam todas as manhãs e ela gravava o que diziam. Mas Lauren sentia que faltava ritmo. As palavras pareciam-lhe desajustadas. O homem não exibia reações faciais às coisas que ela dizia, e isso a confundia. Ela começou a compreender que aquelas conversas não tinham o sentido do tempo, e que todas as referências no nível do não-dito, as coisas que poderia haver entre esse homem e o marido morto não existiam. Então Lauren começa a aproximar-se fisicamente dele, para conhecê-lo melhor. Esse homem misterioso também desaparece da vida.

Tempos depois, uma amiga assiste a uma performance de Lauren,a artista do corpo. Conversando após a performance, a amiga pergunta sobre o marido e o choque do suicídio. Lauren responde que o trabalho saiu diretamente com o que aconteceu com o marido. Em seguida, faz uma coisa que deixa a amiga paralisada. Lauren troca de voz. É a voz dele, do homem nu que ela representara há pouco. Não é uma dublagem, é uma pessoa falando. Está falando com a amiga e o rosto não é bem dela. É capaz de acreditar que está com órgãos genitais masculinos, falsos, como na performance, claro. Lauren pede para ir ao banheiro e a amiga sente que o poder da performance está no corpo da amiga. Às vezes ela faz da feminilidade uma coisa tão misteriosa e forte que engloba os dois sexos e toda uma variedade de estados sem nome. Sua arte na atual performance é obscura, lenta, difícil e às vezes torturante. Mas nunca tem a ver com a agonia grandiosa de imagens e cenários portentosos. Tem a ver com pessoas. A amiga talvez precisasse lhe dizer quem ela era.

Romance surpreendente. Comecei a ler e só parei na última linha do livro. E corri para comprar outros livros de Delillo, considerado pela crítica um dos maiores escritores norte-americanos da atualidade.
        
paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Don Delillo. A artista do corpo. SP, Cia. das Letras, 2001, 126 pp, R$ 34,00