Ramón Del Valle-Inclán (1866-1936), nascido em Galícia, Espanha, foi um romancista, poeta, ator e dramaturgo espanhol que muito contribuiu, com sua obra, para o modernismo na literatura hispano-americana. Visitou o México duas vezes, o que lhe serviu de incentivo para escrever sua obra mais importante, Tirano Banderas, retratando a vida de um ditador mexicano, que comandou o país até sua queda, em 1910, quando se deu a Revolução Mexicana, que instaurou a classe média no poder e apregoou o mito do herói para manter-se no poder até os dias de hoje. Sabe-se que a revolução de 1910 no México foi a primeira revolução de cunho popular na América Latina. Figuras populares lendárias como Pancho Villa e Emiliano Zapata lutaram nela, de 1910 até 1940. Tirano Banderas se estrutura de forma clara em sete partes que, por sua vez, se dividem em livros. A quarta parte (a central), em sete. As outras seis em três, num total de 26 livros. Apresenta ainda um prólogo e um epílogo. A ação da narrativa se passa em três dias. Da figura de Tirano Banderas sabe-se muito pouco. Ela serva de pretexto para o autor expor uma visão amarga da realidade sociopolítica do país. O país imaginário de Tirano Banderas serve ao escritor para criticar não somente uma ditadura concreta, mas um sistema político que degrada e rebaixa a condição humana. Valle-Inclán sintetizou a complexidade social hispano-americana nas figuras do índio, do criollo (o descendente de europeu nascido em solo americano. Mais especificamente, o latino-americano nascido de sangue espanhol com sangue índio) e do imigrante, que chega a esse país imaginário com intuito de enriquecimento. El generalito Banderas é o índio que pode alguma vez ser presidente, mas que vai se desumanizando aos poucos. Tirano Banderas se passa em uma república imaginária, Santa Fe de Tierra Firme, submetida à ditadura de um general, Santos Banderas, um homem obcecado pela paixão da autoridade, escondido sob o reflexo de uma justiça rudimentar e uma crueldade absurda, ingredientes que levam à degradação sumária do ser humano. Ao lado da personagem central, move-se uma pequena corte de aduladores servis, os medíocres estúpidos que aumentam a dimensão nociva do caudilho. Em oposição a essa casta, há as figuras de Don Roque Cepeda, de Filomeno Cuevas, Zacarias El Cruzado e do Coronelito Gándara, que organizam a oposição ao ditador. A narrativa faz uso da caricatura e do grotesco, como uma forma de deformar a realidade com o objetivo de denunciá-la ou criticá-la.
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Valle-Inclán. Tirano Banderas. Madrid, Austral,2006, 252 pp. R$ 30,80 A edição em português encontra-se em sebos, pela Ed. Nova Fronteira ou pelo Círculo do Livro.
Escritos variados
Crônicas dominicais sobre livros
domingo, 27 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
A obscena senhora Hilda Hilst
Essa é escritora que você não pode deixar de ler antes de morrer. Pelo amor de Deus! Hilda Hilst (1930-2004) tem vasta obra entre poesia,prosa e teatro. Era bruxa. Viveu sua velhice solitária na Casa do Sol, sua chácara em Campinas, cercada de cães. Durante sua vida sempre foi preocupada com a sobrevivência da alma. Costumava deixar gravadores ligados pela chácara e afirmava ter captado vozes, fragmentos de frases de espíritos. Quase ninguém acreditava nela. Caio Fernando Abreu, escritor místico, era seu amigo e conviveu com ela um tempo na Casa do Sol. Pouco antes de sua morte, conheceu Zeca Baleiro, que musicou poemas seus, gravados no cd Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio com vozes de Bethânia, Ângela Ro Ro, Zélia Duncan, entre outras. Era admirada por Vinícius de Moraes, Lygia Fagundes Telles e Carlos Drummond de Andrade. Mulher de comportamento avançado, já na juventude, na década de 50 morava sozinha em São Paulo, onde costumava receber pessoas influentes da inteligência paulistana em suas festas. Em determinada fase de sua vida, passou a escrever “textos pornográficos”, sob alegação de que pouca gente, até então, lia suas obras. Trata-se de textos em prosa e poesia eróticas de excelente qualidade, como sempre. Pertencem a essa fase: O caderno rosa de Lory Lambi, Contos d’escárnio, Cartas de um sedutor e Bufólicas. A editora Globo vem relançando toda sua obra, para agrado de público e crítica, algumas já esgotadas.
Se você não leu nenhuma prosa dela, comece por A obscena senhora D. Com cerca de 90 páginas, a narrativa conta a história de uma senhora de sessenta anos que escolhe morar no vão da escada, depois que seu marido morreu. Dali, ela conversa com ele, com alguns moradores da vila onde mora. Também conversa com Deus, a quem chama de “Porco-menino”, “menino-louco”, “menino-precioso”. Em seus diálogos, a mulher quer encontrar respostas. A conversa dela com o marido é sempre o desencontro entre o desejo de ambos. A narradora-personagem acaba, no final das contas, narrando seu desamparo frente à espera de um Deus que a teria abandonado.
Tu não te moves de ti, escrito antes de A obscena senhora D, apresenta uma escritura mais complexa, desenvolvida em três novelas, Tadeu (da razão), Matamoros (da fantasia) e Axelrod (da proporção). Elas compõem entre si uma unidade, relacionada ao tema, onde os personagens se confundem, derramando-se um sobre o outro. O desejo de Tadeu se materializa como personagem na história de Matamoros, para depois, num processo lento de descontrole, perder-se em Axelrod. A autora cria em seus personagens um diálogo de interrogação, quase inquisitorial, chegando sempre a uma espécie de limite.
Se você preferir a poesia de Hilda Hilst, busque na internet que há poemas lindíssimos dela. Em setembro a Folha de São Paulo lançará, da autora, Exercícios, uma reunião de poemas esparsos e alguns inéditos, por R$ 16,90.
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Hilda Hilst. A obscena senhora D. SP, Globo, 2001, 112 pp. R$ 15,00 (nos sebos)
___________ Tu não te moves de ti. SP, Globo, 2004, 184 pp. R$ 20,00 (nos sebos)
Se você não leu nenhuma prosa dela, comece por A obscena senhora D. Com cerca de 90 páginas, a narrativa conta a história de uma senhora de sessenta anos que escolhe morar no vão da escada, depois que seu marido morreu. Dali, ela conversa com ele, com alguns moradores da vila onde mora. Também conversa com Deus, a quem chama de “Porco-menino”, “menino-louco”, “menino-precioso”. Em seus diálogos, a mulher quer encontrar respostas. A conversa dela com o marido é sempre o desencontro entre o desejo de ambos. A narradora-personagem acaba, no final das contas, narrando seu desamparo frente à espera de um Deus que a teria abandonado.
Tu não te moves de ti, escrito antes de A obscena senhora D, apresenta uma escritura mais complexa, desenvolvida em três novelas, Tadeu (da razão), Matamoros (da fantasia) e Axelrod (da proporção). Elas compõem entre si uma unidade, relacionada ao tema, onde os personagens se confundem, derramando-se um sobre o outro. O desejo de Tadeu se materializa como personagem na história de Matamoros, para depois, num processo lento de descontrole, perder-se em Axelrod. A autora cria em seus personagens um diálogo de interrogação, quase inquisitorial, chegando sempre a uma espécie de limite.
Se você preferir a poesia de Hilda Hilst, busque na internet que há poemas lindíssimos dela. Em setembro a Folha de São Paulo lançará, da autora, Exercícios, uma reunião de poemas esparsos e alguns inéditos, por R$ 16,90.
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Hilda Hilst. A obscena senhora D. SP, Globo, 2001, 112 pp. R$ 15,00 (nos sebos)
___________ Tu não te moves de ti. SP, Globo, 2004, 184 pp. R$ 20,00 (nos sebos)
domingo, 13 de maio de 2012
O livro de areia
O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) respirava livros. Depois de cego, tomou emprestado os olhos e as mãos de Maria Kodama, sua secretária, para ler e escrever suas histórias. A relação de Borges com Kodama foi vital para o escritor. A presença dela em sua vida dava-se de forma integral. Colaborou diretamente para alguns livros dele. Acabaram casando-se pouco antes da morte do escritor, para desgosto da família de Borges. Hoje, ela preside a Fundación Internacional Jorge Luis Borges, com sede en Buenos Aires.
O libro de areia, escrito em 1975, está composto de treze contos e um epílogo. No primeiro, O outro, um velho, em Genebra, senta-se num banco de uma praça deserta. Alguém vem e senta-se no mesmo banco e assobia uma canção que o velho pensa conhecer. Dirige-se à pessoa a seu lado, um jovem, e lhe pergunta se mora em rua tal, número qual. O jovem responde que sim. Pergunta-lhe também se seu nome é Jorge Luís Borges. Ele diz sim. O velho lhe diz, então, que também se chama Jorge Luís Borges. Faz referências a vários fatos da vida do jovem Borges, para provar-lhe que o conhecia bem. Começa, então, a contar ao novo Borges a vida que ele vai viver. Assim vai se desenrolando o conto. Borges trata, aí, do duplo, muito frequente em sua escritura.
No segundo relato, Ulrica, o personagem-narrador, um escritor colombiano, em um congresso na cidade inglesa de York, apaixona-se por uma mulher norueguesa bela, de pele clara e longos cabelos longos. O narrador, provavelmente, a relacionou a uma Valquíria, personagem mitológica do folclore nórdico. Os dois são apresentados, fazem um passeio pelo bosque e o escritor apaixona-se por ela, dando-lhe um beijo na boca. Ela diz a ele que terão um momento de amor definitivo num lugar próximo dali. Como ela tem dificuldade em dizer seu nome espanhol, pede para chamá-lo de Sigurd. Então ele diz que vai chamá-la de Brynhild. Esses dois personagens fazem parte de uma história de amor trágica da lenda das Valquírias. Os dois dirigem-se ao local do idílio, despem-se e o amor flui. Foi a primeira e última vez que possuiu a imagem de Ulrica. Outro dado interessante, na história de Borges, é que Ulrica é a heroína de diversas histórias de diversos autores. Borges traça, aí, a mescla da oralidade com a escritura.
Bom, os outros contos do livro são igualmentle fascinantes. Não vou comentá-los para que não perca, leitor, a graça da leitura. Nesses dias frios de outono, sirva uma taça de tannat ou malbec para refrescar as ideias, pegue O livro de areia e entregue-se à leitura de seus contos maravilhosos. Esqueça-se da vida e viva as vidas do livro. Depois interfira nesse mundo com sua realidade. A obra foi lançada em 15 de abril pela Folha de São Paulo, dentro de seu projeto de Literatura Ibero-americana, lançando um livro semanalmente. Você ainda pode encontrar o exemplar nas bancas, se preferir esse tipo de edição, por ser mais acessível. A qualidade de edição é boa.
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Jorges Luís Borges. O livro de areia. SP, Cia. das Letras, 2001, 101 pp. R$ 35,00
A edição da Folha, nas bancas, custa R$ 17,90
O libro de areia, escrito em 1975, está composto de treze contos e um epílogo. No primeiro, O outro, um velho, em Genebra, senta-se num banco de uma praça deserta. Alguém vem e senta-se no mesmo banco e assobia uma canção que o velho pensa conhecer. Dirige-se à pessoa a seu lado, um jovem, e lhe pergunta se mora em rua tal, número qual. O jovem responde que sim. Pergunta-lhe também se seu nome é Jorge Luís Borges. Ele diz sim. O velho lhe diz, então, que também se chama Jorge Luís Borges. Faz referências a vários fatos da vida do jovem Borges, para provar-lhe que o conhecia bem. Começa, então, a contar ao novo Borges a vida que ele vai viver. Assim vai se desenrolando o conto. Borges trata, aí, do duplo, muito frequente em sua escritura.
No segundo relato, Ulrica, o personagem-narrador, um escritor colombiano, em um congresso na cidade inglesa de York, apaixona-se por uma mulher norueguesa bela, de pele clara e longos cabelos longos. O narrador, provavelmente, a relacionou a uma Valquíria, personagem mitológica do folclore nórdico. Os dois são apresentados, fazem um passeio pelo bosque e o escritor apaixona-se por ela, dando-lhe um beijo na boca. Ela diz a ele que terão um momento de amor definitivo num lugar próximo dali. Como ela tem dificuldade em dizer seu nome espanhol, pede para chamá-lo de Sigurd. Então ele diz que vai chamá-la de Brynhild. Esses dois personagens fazem parte de uma história de amor trágica da lenda das Valquírias. Os dois dirigem-se ao local do idílio, despem-se e o amor flui. Foi a primeira e última vez que possuiu a imagem de Ulrica. Outro dado interessante, na história de Borges, é que Ulrica é a heroína de diversas histórias de diversos autores. Borges traça, aí, a mescla da oralidade com a escritura.
Bom, os outros contos do livro são igualmentle fascinantes. Não vou comentá-los para que não perca, leitor, a graça da leitura. Nesses dias frios de outono, sirva uma taça de tannat ou malbec para refrescar as ideias, pegue O livro de areia e entregue-se à leitura de seus contos maravilhosos. Esqueça-se da vida e viva as vidas do livro. Depois interfira nesse mundo com sua realidade. A obra foi lançada em 15 de abril pela Folha de São Paulo, dentro de seu projeto de Literatura Ibero-americana, lançando um livro semanalmente. Você ainda pode encontrar o exemplar nas bancas, se preferir esse tipo de edição, por ser mais acessível. A qualidade de edição é boa.
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Jorges Luís Borges. O livro de areia. SP, Cia. das Letras, 2001, 101 pp. R$ 35,00
A edição da Folha, nas bancas, custa R$ 17,90
domingo, 6 de maio de 2012
Por que você lê best-sellers?
( ) porque você abre o sítio de qualquer livraria na internet e os
best- sellers estão anunciados em destaque na página inicial.
( ) porque quando entra em uma livraria fabulosa, como a Cultura, o que
está exposto em suas gôndolas são esses livros comerciais com forte apelo promocional. Você lê a contracapa, a resenha é convincente. Policial. Você volta para a capa e há uma foto com um ou mais artistas que encenaram o filme baseado no livro. Você viu o filme, gostou,comprou o livro.
( ) porque esses livros já foram testados em seus países de origem,
tiveram grande sucesso comercial. As editoras nacionais gostam de investir nesse tipo de obra, pelo alto recurso financeiro.
( ) porque você folheou uma Veja ou Isto É no consultório de seu médico e
na seção de cultura esses livros estavam mencionados e resenhados.Você foi incentivado à leitura.
( ) São best-sellers "O poderoso Chefão", "Harry Potter", "O melhor de
mim", "A menina que roubava livros", "O caçador de pipas", as sagas de
bruxas da Idade Média, toda a obra de Samanta Schweblin, toda a saga do Ripley, "O código Da Vinci", a obra de Paulo Coelho (por que ele você não lê?).
( ) por nenhuma das assertivas acima. Suas razões são outras. É válido.
Os livros que se tornam best-sellers são previamente planejados para venderem muito no mercado editorial. Não vejo problema nisso. É uma literatura que não apresenta grandes voos existenciais, é uma literatura prazerosa, de passatempo. Bate no joelho de sua perna. Não vai além disso. O best-seller pode servir de porta de entrada para se aprofundar o gosto por uma literatura sofisticada. Mas esse leitor, por si só, talvez não consiga chegar lá. Seria preciso que houvesse uma divulgação mais exposta dessa literatura melhor elaborada, melhor traduzida, mais densa. Mas, quem edita livros precisa ganhar dinheiro. Literatura sofisticada não vende. Então, o leitor mais atento precisa do auxílio para buscar na internet um livro que lhe interesse e o encomende, provavelmente na loja você não o encontrará.
A Folha de São Paulo está buscando fazer autores de literatura ibero-americana best-sellers, com uma diferença: vendendo livros bons e baratos, em bancas de jornais. Acho louvável a iniciativa. Boa literatura. À venda ali, na sua mão. Adquiri o livro do português António Lobo Antunes (1942), contemporâneo de José Saramago, com quem, em vida, teve suas rusgas. Antunes disse que Saramago havia jogado um livro seu no chão. Depois, um disse que nunca havia lido um livro sequer do outro. Frescuras... Assim como Saramago, exige que suas obras sejam editadas no Brasil no original. Como sabemos, Portugal escreve diferente do Brasil (mesmo com o novo acordo de unificação dos dois idiomas).
Memória de elefante mostra as divagações “paranoicas” de um psiquiatra profundamente deprimido, recém-separado da mulher e das duas filhas, numa Lisboa pós-Revolução do Cravos (1974) e pós-independência de Angola (1975). O livro foi escrito em 1979. O relato se passa em um dia e uma noite, mostrando um homem mergulhado em dúvidas existenciais. Esse homem consegue se lembrar de tudo relacionado à sua vida pessoal e coletiva. Daí a memória de elefante do título. O autor, Lobo Antunes, é psiquiatra na vida real, trabalhou em um hospital angolano durante a guerra naquele país. Por isso, e por outras, a obra é considerada autobiográfica. Apesar de suas poucas páginas, o livro é denso, exige atenção na leitura, pelo grande número de informações e pela forma rebuscada que o autor utiliza para desenvolver sua narrativa. Nada impossível, entretanto, a um leitor inteligente e antenado ao mundo globalizado que o rodeia. Vale a pena a leitura.
António Lobo Antunes. Memória de elefante. SP, Folha de São Paulo, 2012, 162 pp. R$ 16,80
best- sellers estão anunciados em destaque na página inicial.
( ) porque quando entra em uma livraria fabulosa, como a Cultura, o que
está exposto em suas gôndolas são esses livros comerciais com forte apelo promocional. Você lê a contracapa, a resenha é convincente. Policial. Você volta para a capa e há uma foto com um ou mais artistas que encenaram o filme baseado no livro. Você viu o filme, gostou,comprou o livro.
( ) porque esses livros já foram testados em seus países de origem,
tiveram grande sucesso comercial. As editoras nacionais gostam de investir nesse tipo de obra, pelo alto recurso financeiro.
( ) porque você folheou uma Veja ou Isto É no consultório de seu médico e
na seção de cultura esses livros estavam mencionados e resenhados.Você foi incentivado à leitura.
( ) São best-sellers "O poderoso Chefão", "Harry Potter", "O melhor de
mim", "A menina que roubava livros", "O caçador de pipas", as sagas de
bruxas da Idade Média, toda a obra de Samanta Schweblin, toda a saga do Ripley, "O código Da Vinci", a obra de Paulo Coelho (por que ele você não lê?).
( ) por nenhuma das assertivas acima. Suas razões são outras. É válido.
Os livros que se tornam best-sellers são previamente planejados para venderem muito no mercado editorial. Não vejo problema nisso. É uma literatura que não apresenta grandes voos existenciais, é uma literatura prazerosa, de passatempo. Bate no joelho de sua perna. Não vai além disso. O best-seller pode servir de porta de entrada para se aprofundar o gosto por uma literatura sofisticada. Mas esse leitor, por si só, talvez não consiga chegar lá. Seria preciso que houvesse uma divulgação mais exposta dessa literatura melhor elaborada, melhor traduzida, mais densa. Mas, quem edita livros precisa ganhar dinheiro. Literatura sofisticada não vende. Então, o leitor mais atento precisa do auxílio para buscar na internet um livro que lhe interesse e o encomende, provavelmente na loja você não o encontrará.
A Folha de São Paulo está buscando fazer autores de literatura ibero-americana best-sellers, com uma diferença: vendendo livros bons e baratos, em bancas de jornais. Acho louvável a iniciativa. Boa literatura. À venda ali, na sua mão. Adquiri o livro do português António Lobo Antunes (1942), contemporâneo de José Saramago, com quem, em vida, teve suas rusgas. Antunes disse que Saramago havia jogado um livro seu no chão. Depois, um disse que nunca havia lido um livro sequer do outro. Frescuras... Assim como Saramago, exige que suas obras sejam editadas no Brasil no original. Como sabemos, Portugal escreve diferente do Brasil (mesmo com o novo acordo de unificação dos dois idiomas).
Memória de elefante mostra as divagações “paranoicas” de um psiquiatra profundamente deprimido, recém-separado da mulher e das duas filhas, numa Lisboa pós-Revolução do Cravos (1974) e pós-independência de Angola (1975). O livro foi escrito em 1979. O relato se passa em um dia e uma noite, mostrando um homem mergulhado em dúvidas existenciais. Esse homem consegue se lembrar de tudo relacionado à sua vida pessoal e coletiva. Daí a memória de elefante do título. O autor, Lobo Antunes, é psiquiatra na vida real, trabalhou em um hospital angolano durante a guerra naquele país. Por isso, e por outras, a obra é considerada autobiográfica. Apesar de suas poucas páginas, o livro é denso, exige atenção na leitura, pelo grande número de informações e pela forma rebuscada que o autor utiliza para desenvolver sua narrativa. Nada impossível, entretanto, a um leitor inteligente e antenado ao mundo globalizado que o rodeia. Vale a pena a leitura.
António Lobo Antunes. Memória de elefante. SP, Folha de São Paulo, 2012, 162 pp. R$ 16,80
domingo, 29 de abril de 2012
On the road - pé na estrada
Jack kerouac (1922-1969), assim como Allen Guinsberg e William S. Burroughs, pertenciam à turma conhecida como geração beat, surgida na década de cinquenta (com raízes na década anterior), que estendeu o tapete para o movimento hippie da década de sessenta. Os artistas dessa geração levavam vida nômade, às vezes formavam comunidades. Faziam uso indiscriminado de drogas e álcool e acabaram morrendo cedo. Jack Kerouac foi um deles. Essa turma lancou as bases do que se conhece como contracultura, um movimento de mobilização e contestação social. Walter Salles, cineasta especialista em road movies (Terra estrangeira, Central do Brasil e Diários de Motocicleta) estará lançando On the road, de Kerouac, nos cinemas a partir de junho deste ano. Daí o enteresse pelo romance.
Sal Paradise e Dean Moriarty têm uma amizade muito bem consolidada. Resolvem, juntos, pegar a famosa Rota 66, cortando os Estados Unidos de costa a costa, mostrando o lado sombrio do sonho americano. A maior parte da viagem é feita na base da carona. Mas há roubo de carros e longas caminhadas a pé. No meio do caminho encontram outsiders, gente alijada do sistema que busca seguir adiante sem saber, muitas vezes, aonde ir. Sal Paradise consegue sobreviver com a ajuda financeira de uma tia e da publicação de alguns trabalhos. Dean Moriarty, ao contrário, segue rumo à autodestruição, acabando como mendigo. Durante o trajeto, ouvem muito Charlie Parker, Thelonius Monk e Gillespie. Encontram mulheres que abandonam e voltam a encontrar nessa vida itinerante.
On the road foi lançado em 1957. A edição brasileira da LPM, com tradução de Eduardo Bueno é primorosa. Na foto, Kerouac, à direita, com o amigo Neal, seu parceiro de estrada na vida real.
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Jack Kerouac. On the road (pé na estrada)Porto Alegre, LPM, 2011 384 pp. R$ 16,00
Sal Paradise e Dean Moriarty têm uma amizade muito bem consolidada. Resolvem, juntos, pegar a famosa Rota 66, cortando os Estados Unidos de costa a costa, mostrando o lado sombrio do sonho americano. A maior parte da viagem é feita na base da carona. Mas há roubo de carros e longas caminhadas a pé. No meio do caminho encontram outsiders, gente alijada do sistema que busca seguir adiante sem saber, muitas vezes, aonde ir. Sal Paradise consegue sobreviver com a ajuda financeira de uma tia e da publicação de alguns trabalhos. Dean Moriarty, ao contrário, segue rumo à autodestruição, acabando como mendigo. Durante o trajeto, ouvem muito Charlie Parker, Thelonius Monk e Gillespie. Encontram mulheres que abandonam e voltam a encontrar nessa vida itinerante.
On the road foi lançado em 1957. A edição brasileira da LPM, com tradução de Eduardo Bueno é primorosa. Na foto, Kerouac, à direita, com o amigo Neal, seu parceiro de estrada na vida real.
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Jack Kerouac. On the road (pé na estrada)Porto Alegre, LPM, 2011 384 pp. R$ 16,00
Marcadores:
contracultura,
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romance de estrada
domingo, 22 de abril de 2012
Tia Júlia e o Escrivinhador
O escritor iniciante Mário Vargas, o Varguitas, toma-se de amores por sua tia Júlia, boliviana, divorciada e mais velha que ele. Sua paixão é correspondida, mas encontra resistência especialmente na família, por parte do pai, que tenta impedi-lo de casar-se, de todas as formas possíveis. Varguitas tem 18 anos e, pela lei peruana, não pode contrair núpcias sem a autorização paterna. Ele e a tia, com ajuda de amigos e de uma prima, tentam realizar o casório de todas as formas, incluindo alguns subornos. Quando finalmente conseguem oficializar a união, seu pai o ameaça, prometendo acusar a tia como corruptora de menor. No final, o amor vence e as coisas se resolvem. Romance com fortes traços autobiográficos, seja porque o narrador tem o mesmo nome do autor e acabe ganhando notoriedade como escritor fora do Peru, como Vargas Llosa, seja porque o escritor casou-se na vida real os 19 anos, com Julia Urquidi, irmã da mulher de seu tio materno, passando a ter vários empregos para sobreviver, até ganhar uma bolsa para a Espanha e solidificar sua carreira intelectual e política.
Os capítulos são entremeados com a história de Mario e Julia e as histórias de periódicos de Pedro Camacho, escritor que nunca abdicou de textos de gosto popular, pois eram lidos na rádio local. Os periódicos apresentam um humor salpicado por por estereótipos do gênero, como os infortúnios, os senhores de cinquenta anos "na flor da vida", o incesto , amor não correspondido e impossível, a religião. Esse é um grande mérito do autor, fornecer vozes narrativas diferentes para essas duas partes.
O final do livro, em paralelo com a degradação mental de Pedro Camacho, beira o absurdo e ridículo, misturando personagens de séries anteriores, ou repetindo os nomes das diferentes personagens, criando histórias verdadeiramente hilariantes e absurdas.
A história de Julia também é interessante, parece-me quase autobiográfica, e bastante próximo em seus propósitos para um drama de rádio de Pedro Camacho. Nele, o autor aproveita a oportunidade para falar sobre as classes burguesas e superior de Lima nos anos cinquenta, e seus costumes.
A ironia e a graciosidade da prosa nos leva com facilidade através da história, embora seja um livro longo que, em algumas partes, se mostra repetitivo.
A Folha de São Paulo está lançando neste domingo a Tia Júlia e o escrivinhador, cuja tradução não me foi possível, ainda, avaliar. ======================================
Tia Júlia e o Escrivinhador. Alfaguara Brasil, 2009, 360 pp, E$ 50,00
Tia Júlia e o Escrivinhador. Ponto de Leitura, 2010. 464 pp, R$ 24,00
La tía Júlia y el escribidor. 2ª ed., Buenos Aires, Alfaguara, 2010, 474 pp, R$ 66,740
Os capítulos são entremeados com a história de Mario e Julia e as histórias de periódicos de Pedro Camacho, escritor que nunca abdicou de textos de gosto popular, pois eram lidos na rádio local. Os periódicos apresentam um humor salpicado por por estereótipos do gênero, como os infortúnios, os senhores de cinquenta anos "na flor da vida", o incesto , amor não correspondido e impossível, a religião. Esse é um grande mérito do autor, fornecer vozes narrativas diferentes para essas duas partes.
O final do livro, em paralelo com a degradação mental de Pedro Camacho, beira o absurdo e ridículo, misturando personagens de séries anteriores, ou repetindo os nomes das diferentes personagens, criando histórias verdadeiramente hilariantes e absurdas.
A história de Julia também é interessante, parece-me quase autobiográfica, e bastante próximo em seus propósitos para um drama de rádio de Pedro Camacho. Nele, o autor aproveita a oportunidade para falar sobre as classes burguesas e superior de Lima nos anos cinquenta, e seus costumes.
A ironia e a graciosidade da prosa nos leva com facilidade através da história, embora seja um livro longo que, em algumas partes, se mostra repetitivo.
A Folha de São Paulo está lançando neste domingo a Tia Júlia e o escrivinhador, cuja tradução não me foi possível, ainda, avaliar. ======================================
Tia Júlia e o Escrivinhador. Alfaguara Brasil, 2009, 360 pp, E$ 50,00
Tia Júlia e o Escrivinhador. Ponto de Leitura, 2010. 464 pp, R$ 24,00
La tía Júlia y el escribidor. 2ª ed., Buenos Aires, Alfaguara, 2010, 474 pp, R$ 66,740
domingo, 15 de abril de 2012
Batismo de fogo
A cidade e os cachorros é mais um romance com traços autobiográficos de Vargas Llosa, publicado em 1963. Ao completar 14 anos, o escritor ingressara, por vontade paterna, no Colégio Militar Leôncio Prado, como aluno interno, ali permanecendo por dois anos. Essa experiência será o tema de La ciudad y los perros, publicado no Brasil como Batismo de Fogo e, posteriormente, como A cidade e os cachorros. A maior parte da ação ocorre dentro do colégio. Alguns alunos mais antigos formam um grupo, O Círculo, com o objetivo de introduzir secretamente cigarros, bebidas alcoólicas e outras coisas não permitidas pela escola militar. Esse grupo é poderoso no controle do que acontece dentro da instituição. Os novos alunos, quando chegam, recebem “o batismo” e abusados com brutalidade. São chamados de cães e submetidos a agir como cães, durante as brincadeiras. Costumam subjugar e tirar tudo dos mais fracos. Uma de suas vítimas é Ricardo Arana, o Escravo. Outro aluno, alter ego do escritor, é chamado de Poeta, por escrever cartas de amor eróticas para as namoradas dos demais colegas. Seu comportamento e dignidade moral salvam-no muitas vezes de ser humilhado.
Durante o exame de química, o tenente Gamboa descobre que as respostas da prova haviam sido roubadas e exige que delatem o responsável pelo roubo. Confina alguns estudantes para obrigá-los a falar. O aluno Cava é denunciado. Jaguar, o líder autoritário do Círculo, jura descobrir o delator e as suspeitas recaem sobre o Escravo, o bode expiatório do grupo. Numa das manobras dos alunos, sob o comando do tenente Gamboa, o Escravo é assassinado. O Poeta acaba acusando Jaguar como o mandante do crime.
O livro é uma denúncia da brutalidade e da falsa virilidade que se pretende incutir na juventude, sob o pretexto de forjar heróis. Entretanto, isso acaba resultando no extermínio de qualquer resquício de sensibilidade. Conforme diz Kean, na peça teatral homônima de Jean Paul Sartre, “representamos o papel de herói, porque somos covardes; o de santo, porque somos maus. E o de assassino, porque sempre existe alguém que gostaríamos de matar. Representamos, em suma, porque desde o momento em que se nasce não se faz outra coisa senão mentir.”
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A cidade e os cachorros. Alfaguara Brasil, 2007, 373 pp, R$ 60,00
La ciudad y los perros. Punto de Lectura, 2008, 446 pp, R$ 68,40
Existe uma edição esgotada em português, pela Ed. Nova Fronteira, sob o título de Batismo de Fogo, com tradução de Milton Persson, que pode ser encontrada em sebos.
Durante o exame de química, o tenente Gamboa descobre que as respostas da prova haviam sido roubadas e exige que delatem o responsável pelo roubo. Confina alguns estudantes para obrigá-los a falar. O aluno Cava é denunciado. Jaguar, o líder autoritário do Círculo, jura descobrir o delator e as suspeitas recaem sobre o Escravo, o bode expiatório do grupo. Numa das manobras dos alunos, sob o comando do tenente Gamboa, o Escravo é assassinado. O Poeta acaba acusando Jaguar como o mandante do crime.
O livro é uma denúncia da brutalidade e da falsa virilidade que se pretende incutir na juventude, sob o pretexto de forjar heróis. Entretanto, isso acaba resultando no extermínio de qualquer resquício de sensibilidade. Conforme diz Kean, na peça teatral homônima de Jean Paul Sartre, “representamos o papel de herói, porque somos covardes; o de santo, porque somos maus. E o de assassino, porque sempre existe alguém que gostaríamos de matar. Representamos, em suma, porque desde o momento em que se nasce não se faz outra coisa senão mentir.”
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A cidade e os cachorros. Alfaguara Brasil, 2007, 373 pp, R$ 60,00
La ciudad y los perros. Punto de Lectura, 2008, 446 pp, R$ 68,40
Existe uma edição esgotada em português, pela Ed. Nova Fronteira, sob o título de Batismo de Fogo, com tradução de Milton Persson, que pode ser encontrada em sebos.
domingo, 8 de abril de 2012
Cláudio Manuel da Costa
Se você gosta de ler biografias, é bastante provável que vá gostar de Cláudio Manuel da Costa, da historiadora Laura de Mello e Souza, escrito em linguagem simples, sem o ranço acadêmico dos historicistas. A autora pesquisou exaustivamente em arquivos brasileiros e portugueses, para elucidar dados obscuros da vida do poeta, revelando um homem dividido profundamente entre o reino português e sua colônia ultramarina, entre a liberdade e os valores do Antigo Regime, entre os ideais do neoclassicismo e os conflitos maneiristas. Os escritores neoclássicos, quase todos, estavam preocupados em construir uma literatura como prova de que os brasileiros eram tão capazes quanto os europeus. Para Antonio Candido, pai da historiadora, os escritores do período neoclássicos, do qual pertence Cláudio Manuel da Costa, iniciaram a literatura brasileira. A tese de Cândido, da literatura como sistema, aponta que, durante o neoclassicismo, o escritor estava amadurecido com seu oficio de escrever para um público que lesse sua obra. O público leitor começa a se delinear, no Brasil, a partir da formação dos núcleos urbanos, pouco antes da vinda da Família Real, solidificando-se depois disso, com a criação de mais escolas e bibliotecas. Mesmo os que viveram mais no Reino do que na Colônia, faziam questão de se considerarem brasileiros. Incentivado a estudar em Lisboa, Cláudio Manuel da Costa bem que gostaria de ter permanecido mais tempo por lá, mas a morte do pai o obrigou a retornar às Minas Gerais para gerir os negócios da família. Dos poetas mineiros, talvez seja o mais profundamente preso às emoções e valores da terra, embora o formalismo estilístico do período a que pertenceu pudesse sugerir uma afetação portuguesa em sua poesia. Cláudio Manuel da Costa foi membro destacado da elite colonial. Foi proprietário de terras e de escravos. Permaneceu solteiro a vida toda, embora tivesse um relacionamento por toda sua vida com uma escrava. Tratou de alforriá-la, assim que nasceu seu primeiro filho. Durante a Inconfidência, vacilou diante dos interrogatórios e entregou a todos os correligionários que tramavam contra o regime português. Por causa disso, talvez, tenha cometido o suicídio na prisão, fato que permanece nebuloso até os dias de hoje: suicídio ou assassinato?
Laura de Mello e Souza (1953) é filha do crítico literário Antônio Cândido e da filósofa Gilda de Mello e Souza. Entre suas obras destacam-se O diabo e a terra de Santa Cruz, sobre a feitiçaria no período colonial, e Inferno Atlântico, uma análise interessante sobre o choque que as duas culturas (portugueses e indígenas) sofreram, a partir do descobrimento do Brasil.
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Laura de Mello e Souza. Cláudio Manuel da Costa. SP, Cia. Das Letras, 2011, 248pp R$ 39,50
Laura de Mello e Souza (1953) é filha do crítico literário Antônio Cândido e da filósofa Gilda de Mello e Souza. Entre suas obras destacam-se O diabo e a terra de Santa Cruz, sobre a feitiçaria no período colonial, e Inferno Atlântico, uma análise interessante sobre o choque que as duas culturas (portugueses e indígenas) sofreram, a partir do descobrimento do Brasil.
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Laura de Mello e Souza. Cláudio Manuel da Costa. SP, Cia. Das Letras, 2011, 248pp R$ 39,50
domingo, 1 de abril de 2012
Ninguém nada nunca
No calor insuportável do verão nos pampas, sob a pressão implícita do regime militar, os moradores da região de Santa Fé são assombrados por uma série de misteriosos assassinatos de cavalos. E a iminência desses crimes sanguinários, inexplicáveis e sem solução, uma verdadeira carnificina, vai produzindo uma tensão muda que faz da banalidade do cotidiano desses personagens uma experiência de nervos à flor da pele.
(texto da capa)
O enredo de Ninguém Nada Nunca se resume à tensão de uma espera, de um acontecimento sempre iminente. Esse é também o clima nervoso da história: a tensão de uma espera por um acontecimento que está velado por trás da morte trágica dos cavalos.Uma cidade pequena junto a um rio, calor pleno de fevereiro, aparentemente nada acontece, a não ser cavalos mortos de forma violenta por alguém que não se deixa conhecer. Gato e Elisa, moradores da margem do rio, bebem litros e litros de limonada ou vinho branco com bastante gelo. Quase não há diálogos entre eles, assim como não há quase diálogos em toda a história. Esse é um dos méritos da narrativa. Juan José Saer descreve ações de personagens em contato com a natureza.
A imaginação se esconde no vazio do pampa argentino, não há descrições psicológicas de interesse. A partir do momento em que tudo é físico, a descrição do plano geral é o detalhe intimista. Tudo é puxado para dentro da paisagem e da geografia movediça, vazia, onde a correnteza do rio e a gota de suor escorrendo pelo corpo são descritas no mesmo nível, numa narrativa física, que ressalta a unidade de todas as coisas, uma espécie de cosmos, de totalidade representada pela paisagem.
Juan José Saer (1937), nasceu em Santa Fé, Argentina. É filho de imigrante sírio Auto-exilou-se na França, a partir de 1968. saer começou a publicar em 1960. É autor de obras como A pesquisa, O enteado e A ocasião.
A obra em português está esgotada, mas encontra-se facilmente nos sebos.
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juan José Saer. Ninguém Nada Nunca. SP, Cia. das Letras, 1997, 232 pp
(texto da capa)
O enredo de Ninguém Nada Nunca se resume à tensão de uma espera, de um acontecimento sempre iminente. Esse é também o clima nervoso da história: a tensão de uma espera por um acontecimento que está velado por trás da morte trágica dos cavalos.Uma cidade pequena junto a um rio, calor pleno de fevereiro, aparentemente nada acontece, a não ser cavalos mortos de forma violenta por alguém que não se deixa conhecer. Gato e Elisa, moradores da margem do rio, bebem litros e litros de limonada ou vinho branco com bastante gelo. Quase não há diálogos entre eles, assim como não há quase diálogos em toda a história. Esse é um dos méritos da narrativa. Juan José Saer descreve ações de personagens em contato com a natureza.
A imaginação se esconde no vazio do pampa argentino, não há descrições psicológicas de interesse. A partir do momento em que tudo é físico, a descrição do plano geral é o detalhe intimista. Tudo é puxado para dentro da paisagem e da geografia movediça, vazia, onde a correnteza do rio e a gota de suor escorrendo pelo corpo são descritas no mesmo nível, numa narrativa física, que ressalta a unidade de todas as coisas, uma espécie de cosmos, de totalidade representada pela paisagem.
Juan José Saer (1937), nasceu em Santa Fé, Argentina. É filho de imigrante sírio Auto-exilou-se na França, a partir de 1968. saer começou a publicar em 1960. É autor de obras como A pesquisa, O enteado e A ocasião.
A obra em português está esgotada, mas encontra-se facilmente nos sebos.
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juan José Saer. Ninguém Nada Nunca. SP, Cia. das Letras, 1997, 232 pp
domingo, 25 de março de 2012
Morte em Veneza
Morte em Veneza, do alemão Thomas Mann (1875-1955) é uma novela primorosa, com pouco mais de 100 páginas, que se lê de um fôlego só. Início do século XX. Um escritor renomado, no envelhecer da vida, decide partir em férias para o norte da Itália, com o intuito de se recuperar de um esgotamento nervoso e de uma crise pessoal e criativa, estabelecendo-se em uma das praias de Veneza. Figura solitária (sempre fora uma criança frágil e enferma, o que lhe impediu um contato social maior), um dia, no hotel, seus olhos se fixam na figura de um adolescente de uma beleza andrógina que lhe chama a atenção. O escritor é tomado de uma paixão platônica arrebatadora. Todo seu pensamento, a partir dali, estará voltado a encontrar e admirar o jovem rapaz. Tenta algumas aproximações, mas não consegue falar-lhe pessoalmente. Esse passa a ser o seu conflito, não conseguir exprimir sua admiração, seja pela grande diferença de idade entre eles, seja por que sua afetividade reprimida, seja porque a morte lhe bata à porta no momento em que a peste começa a fazer vítimas em Veneza e ele é uma delas. Num final belo e triste, o velho artista vai morrendo, enquanto a imagem do belo menino traça uma coreografia no espaço, quando se despede de Veneza para voltar a sua terra natal.
A paixão do escritor pelo menino não apresenta conotação sexual, necessariamente, mas eleição do jovem como um ideal de beleza. Ele segue o jovem como à procura de um ideal estético. Vislumbra a beleza perfeita, mas é impossível agarrá-la, conferir-lhe a forma definitiva. Ele não poderá conservar aquele ideal de graça de forma perfeita junto a si, nada que criasse atingiria aquela visão estética. O escritor tenta rejuvenescer de um modo artificial, tornando-se uma caricatura da figura respeitável de equilíbrio e força que fora um dia. Já não pertence mais a esse mundo.
Luchino Visconti conseguiu transpor a obra literária para o cinema de forma magnífica. A única mudança evidente é a profissão de Aschenbach, que no livro é escritor e no filme, músico. Isso não altera o sentido da obra. A escolha de Dirk Bogarde para viver o papel do artista atormentado foi perfeita. Todo o conflito existencial do músico é interpretado de forma convincente, com o uso de pouquíssimos diálogos. As imagens do filme passam com fidelidade o clima proposto pela narrativa literária.
Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura de 1929, é autor também de Os Buddenbrooks, A montanha mágica (sua obra-prima) e Doutor Fausto.
Se você quiser ter o prazer duplo de ler a novela e assistir ao filme, a Espaço Video tem a película em dvd.
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Thomas Mann. Morte em Veneza. RJ, Nova Fronteira, 2010, 116 pp 18,00
A paixão do escritor pelo menino não apresenta conotação sexual, necessariamente, mas eleição do jovem como um ideal de beleza. Ele segue o jovem como à procura de um ideal estético. Vislumbra a beleza perfeita, mas é impossível agarrá-la, conferir-lhe a forma definitiva. Ele não poderá conservar aquele ideal de graça de forma perfeita junto a si, nada que criasse atingiria aquela visão estética. O escritor tenta rejuvenescer de um modo artificial, tornando-se uma caricatura da figura respeitável de equilíbrio e força que fora um dia. Já não pertence mais a esse mundo.
Luchino Visconti conseguiu transpor a obra literária para o cinema de forma magnífica. A única mudança evidente é a profissão de Aschenbach, que no livro é escritor e no filme, músico. Isso não altera o sentido da obra. A escolha de Dirk Bogarde para viver o papel do artista atormentado foi perfeita. Todo o conflito existencial do músico é interpretado de forma convincente, com o uso de pouquíssimos diálogos. As imagens do filme passam com fidelidade o clima proposto pela narrativa literária.
Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura de 1929, é autor também de Os Buddenbrooks, A montanha mágica (sua obra-prima) e Doutor Fausto.
Se você quiser ter o prazer duplo de ler a novela e assistir ao filme, a Espaço Video tem a película em dvd.
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Thomas Mann. Morte em Veneza. RJ, Nova Fronteira, 2010, 116 pp 18,00
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domingo, 18 de março de 2012
O Mundo
Juan José Millás (1946), nasceu em Valência, Espanha, mudando-se para Madrid ainda criança. Escritor e jornalista, publica seus artigos no jornal El País. Seu último romance traduzido para o português, O mundo, ganhou o Prêmio Planeta de 2007. O narrador da trama narra os anos de infância vividos em sua Valencia natal e mudança posterior a Madrid, onde foram morar em um bairro pobre, devido às carências econômicas de seus pais. A visão que a personagem quando criança tem da rua através de sua janela, é a metáfora do mundo que ele quer viver e investigar. Sua amizade com El Vitamina, amigo doente, é fundamental nessa descoberta. Depois, descobre o prazer pela leitura, com as novelas de Readers Digest. Na fase adulta, tem um relacionamento não correspondido que o marca para sempre. A seguir, passa a falar das novelas que escreve, da morte dos pais e do traslados de suas cinzas para Valência. A crítica espanhola comenta a possibilidade da obra ser autobiográfica, dado que a história, contada em primeira pessoa por Juanjo, mesmo apelido do autor, é bastante parecida com a vida do escritor, desde sua infância em Valência, passando por Madrid até a idade adulta, quando se torna escritor.
O mundo apresenta uma visão doce e solitária de uma criança que quer se sentir importante e amada, por parte de um adulto que sente dor de seu passado. É uma rememoração também de feitos de sua juventude, que se convertem em aventuras sentimentais do cotidiano. Pode-se, igualmente, fazer a analogia de um monólogo de um paciente frente a um analista que escuta em silêncio. Esse exercício de autoficção é uma mistura de invenção e memória. Um texto híbrido que compreende fatos reais e inventados. Neste caso, o verossímil e o coerente se respeitam plenamente nesta novela e, portanto, o mundo descrito em O mundo é crível e a voz narrativa bastante convincente e verdadeira.
"Os olhos do menino Juanjo que descobrem o mundo se confundem com o do escritor maduro, que carrega consigo para a vida adulta as reminiscências de uma infância em que o universo era construído entre a rua e a casa, os amigos e os parentes. Um convite delicado e prazeroso para construir e viver seu próprio mundo."
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Juan José Millás. O mundo, 2009, Planeta Literário, 216pp R$45,00
O mundo apresenta uma visão doce e solitária de uma criança que quer se sentir importante e amada, por parte de um adulto que sente dor de seu passado. É uma rememoração também de feitos de sua juventude, que se convertem em aventuras sentimentais do cotidiano. Pode-se, igualmente, fazer a analogia de um monólogo de um paciente frente a um analista que escuta em silêncio. Esse exercício de autoficção é uma mistura de invenção e memória. Um texto híbrido que compreende fatos reais e inventados. Neste caso, o verossímil e o coerente se respeitam plenamente nesta novela e, portanto, o mundo descrito em O mundo é crível e a voz narrativa bastante convincente e verdadeira.
"Os olhos do menino Juanjo que descobrem o mundo se confundem com o do escritor maduro, que carrega consigo para a vida adulta as reminiscências de uma infância em que o universo era construído entre a rua e a casa, os amigos e os parentes. Um convite delicado e prazeroso para construir e viver seu próprio mundo."
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Juan José Millás. O mundo, 2009, Planeta Literário, 216pp R$45,00
domingo, 11 de março de 2012
Passageiro do fim do dia
Passageiro do fim do dia versa sobre a periferia pobre da cidade grande, tocando na violência e injustiça sistemática. Sua proposta é mostrar as relações sociais que justificam as desigualdades e as dificuldades para se perceber essas desigualdades. Trata-se de um romance social, sem os ranços naturalistas de que os pobres são pobres porque são vítimas do sistema. Fim de uma sexta-feira, como de hábito, Pedro vai passar o fim de semana com a namorada, que vive com o pai e uma tia num bairro planejado, a 40 km do centro, cujos lotes foram distribuídos à população carente. Ele embarca num ônibus no centro da cidade e pratica o exercício pessoal de “Não ver, não entender e até não sentir”. Entretanto, tudo acontecerá durante o percurso que se inicia e que se prolongará durante horas, retardado por uma comoção imprecisa no destino da viagem. De radinho no ouvido, lendo seu livro a intervalos, observando distraído o que se passa dentro do ônibus e fora nas ruas, Pedro insensivelmente costura as ideias: o amor pela namorada, a lembrança de um acidente doloroso de que guarda sequela no corpo, a mãe, os estudos universitários interrompidos, seu pequeno sebo no centro da cidade, coisas que a namorada lhe contou sobre o bairro onde vive, sobre a pobreza da família, sobre os planos que alimenta para o futuro, sobre a exploração no trabalho. Os acontecimentos atuais, escassos mas cheios de tensão, somando-se às divagações de Pedro: será que o ônibus chegará a seu destino? Ao longo de um engarrafamento que parece não ter mais fim, os bairros e as ruas se sucedem enquanto o sol se põe.
Rubens Figueiredo (1955), além de escritor é professor de português na rede estadual de ensino e tradutor de obras russas importantes, como Guerra e Paz, de Tolstói. Com Passageiro do fim do dia, ganhou o Prêmio Brasil Telecom de Literatura e o Prêmio São Paulo de Literatura, como o livro do ano em 2011.
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Rubens Figueiredo. Passageiro do fim do dia. SP, Cia. das Letras, 2010 200 pp R$ 42,00
Rubens Figueiredo (1955), além de escritor é professor de português na rede estadual de ensino e tradutor de obras russas importantes, como Guerra e Paz, de Tolstói. Com Passageiro do fim do dia, ganhou o Prêmio Brasil Telecom de Literatura e o Prêmio São Paulo de Literatura, como o livro do ano em 2011.
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Rubens Figueiredo. Passageiro do fim do dia. SP, Cia. das Letras, 2010 200 pp R$ 42,00
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