domingo, 30 de agosto de 2015

David Copperfield

O escocês David Copperfield nasceu à meia-noite de uma sexta-feira. Seu pai havia morrido seis meses antes dele nascer e sua mãe tinha pouco mais de vinte anos. Uma tia, irmã do pai, se prontificou para ajudar a cunhada no processo de nascimento de David. Tinha certeza de que seria uma menina. Ao saber que quem nascia era um menino, desinteressou-se dos cuidados ao sobrinho e desapareceu. A criada Peggotty mantinha uma relação afetuosa com ele. Um dia ela o levou para passar um mês na casa do irmão, na praia. Lá, conheceu um senhor solteirão e bondoso que criara Ham, um pescador, e Emily, desde pequenos, quando seus pais morreram. Também acolhera uma velha viúva por compaixão. David passou momentos maravilhosos com Emily naquele ambiente à beira-mar. Quando David retornou ao lar, sua mãe havia se casado com um homem religioso e duro no tratar. Logo em seguida, a irmã desse homem passou a morar na casa como governanta e a vida para David e a mãe tornou-se insuportável. Subserviente ao marido, sua mãe não conseguia se sobrepor aos desmandos da cunhada. David passou a sofrer castigos rigorosos, por causa da dificuldade com os estudos. E aprendeu, assim, o que é o ódio. Mais tarde, o padrasto decidiu enviá-lo a Londres para o colégio interno e David sofreu de intensa solidão, por afastar-se das pessoas que amava.


David, em contrapartida, continuava a receber o carinho de Peggotty, que o visitava na escola, até a morte da mãe de David, quando o padrasto o retira da escola e o coloca para trabalhar, selecionando, lavando e enxaguando garrafas, num ambiente degradante, sem esperanças para ele, numa situação de abandono e desgraça. Mas David tinha convicções de que podia dar a volta por cima, estudar e ser alguém com a dignidade respeitada. Acaba fugindo, em busca da tia que o havia rejeitado no nascimento. Ela se apieda dele, organiza seu futuro e David consegue se formar em Direito e passa a almeja a Corte Civil como sua meta de futuro.

Nesse caminho de formação, David convive com personagens interessantíssimos, como Steerforth, colega de escola que se transforma em amigo, mas que se transforma no anjo mau, prejudicando irremediavelmente Emily; o sr. Peggotty, que não desiste de Emily, mesmo na desgraça dela; a tia de David, Betsy, dona de moral rígida, de coração muito grande; Heep, o humilde que busca até às últimas consequências prejudicar David. São mais de 1200 páginas, em formato pocket, num projeto gráfico que facilita a leitura que não se consegue abandonar, tal a maestria de Charles Dickens, em contar uma bela história. Vale muito a pena, a leitura de David Copperfield.

Tradução de José Rubens Siqueira

                          paulinhopoa2003@hotmail.com
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Charles Dickens. David Copperfield. SP, Cosac Naify, 2014, 1312 pp. Preços de 49 a 79 reais o exemplar novo.    

domingo, 23 de agosto de 2015

Uma dose de homoerotismo na poesia modernista (*)




Jorge de Lima, descrevendo a morte do pastor irmão gêmeo de Apolo (1)

Sodoma e Gomorra

Vinha boiando o corpo adolescente,
belo pastor e sonho perturbado.
Deus abaixou-lhe os cílios alongados
para que ele dormindo flutuasse.
Ressuscita-o, Senhor, essa medusa
de sangue juvenil em rosto impúbere,
desterrado da vida, flor perdida,
irmão gêmeo de Apolo trimagista.
Seca-lhe a espuma que lhe inunda o peito
e as convulsões mortais que o imolaram
às Sodomas ardidas em seu leito.
Anjo adoecido, alheio dançarino
que dançasse em Gomorras incendiadas,
estás cansado; deita-te, menino!
                                                     

Drummond, descrevendo o rapto de Ganimedes por Júpiter (2)

Rapto

Se uma águia fende os ares e arrebata
esse que é forma pura e que é suspiro
de terrenas delícias combinadas;
e se essa forma pura, degradando-se,
mais perfeita se eleva, pois atinge
a tortura do embate, no arremate
de uma exaustão suavíssima, tributo
com que se paga o vôo mais cortante; 
se, por amor de uma ave, ei-la recusa
o pasto natural aberto aos homens,
e pela via hermética e defesa
vai demandando o cândido alimento
que a alma faminta implora até o extremo;
se esses raptos terríveis se repetem
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérola dúbia das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
esquivo e refolhado, cinza em núpcias,
e tudo é triste sob o céu flamante
(que o pecado cristão, ora jungido
ao mistério pagão, mais o alanceia),
baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.


Mário de Andrade, Carnaval Carioca (3)

(...)
O indivíduo é caixeiro de armarinho na Gamboa.
 Cama de ferro curta por demais,
Espelho mentiroso de mascate
 E no cabide roupas lustrosas demais...
Dança uma joça repinicada
De gestos pinchando ridículos no ar.
 Corpo gordo que nem matrona
Rebolando embolado nas saias baianas,
Braço de fora, pelanca pulando no espaço
 E no decote cabeludo cascavéis sacoteando
 Desritmando a forçura dos músculos viris.
 Fantasiou-se de baiana,
A Baía é boa terra... Está feliz.

Entoa atoa a toada safada
 E no escuro da boca banguela
 O halo dos beiços de carmim.
Vibrações em redor.
Pinhos gargalhadas assobios
Mulatos remeleixos e buduns. Palmas. Pandeiros
 – Aí, baiana!
 Baiana do coração!

Serpentinas que saltam dos autos em monóculos curiosos,
Este cachorro espavorido
 Guarda-civil indiferente,
Fiscalizemos as piruetas...
Então só eu que vi? Risos. Tudo aplaude. Tudo canta:
 – Aí, baiana faceira,
Baiana do coração!
Ele tinha os beiços sonoros beijando se rindo
 Uma ruga esquecida uma ruga longínqua
Como esgar duma angústia indistinta ignorante...
Só eu pude gozá-la.
E talvez a cama de ferro curta por demais...
(...)

                   paulinhopoa2003@hotmail.com
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(1) Jorge de Lima. Invenção de Orfeu. SP, Cosac Naify, 2013,672 pp. R$ 46,16

(2) Carlos Drummond de Andrade. Claro enigma. SP, Cia. das  Letras,

2012, 136 pp. R$ 27,90

(3) Mário de Andrade. Clã do jabuti in Poesias completas V. 1, Rio,

Nova Fronteira, 2013, 616 pp. R$ 31,90  

(*) Poemas citados por Eduardo Jardim em sua biografia de Mário de Andrade, comentada aqui na semana passada.    

domingo, 16 de agosto de 2015

Eu sou trezentos


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, 
As sensações renascem de si mesmas sem repouso, 
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras! 
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras, 
E os suspiros que dou são violinos alheios; 
Eu piso a terra como quem descobre a furto 
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, 
Mas um dia afinal eu toparei comigo... 
Tenhamos paciência, andorinhas curtas, 
Só o esquecimento é que condensa, 
E então minha alma servirá de abrigo.

Mário de Andrade nasceu na Rua Aurora, no centro de São Paulo, em 1893. Ainda criança mudou-se para o Largo do Paissandu, onde passou uma infância melancólica, era muito tímido, apegado à mãe e afastado do pai. A tia, Maria de Lourdes, que morou com a família até o casamento, foi muito importante, afetivamente, em sua criação. Já adulto, com a morte do pai, mudou-se com a família para a Barra Funda, onde hoje está o Museu Mário de Andrade. Poeta,romancista, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta, pôs toda sua vida intelectual, de forma apaixonada, para valorizar uma identidade cultural brasileira, tomando a cultura em sua forma coletiva, popular. Preocupava-se, inclusive, com a valorização do falar brasileiro.

O biógrafo Eduardo Jardim nos conta em Eu sou trezentos, vida e obra de Mário de Andrade, sua participação na organização da Semana de 22, sua amizade com Anita Malfatti e a paixão não correspondido dela pelo poeta;o contato com o expressionismo que o levou a estudar alemão; a relação entre conteúdo e os aspectos formais na expressão poética, em que a beleza é uma consequência; sua visão da música clássica como uma expressão coletiva, em vez de uma erudição individualista (a modinha seria uma dessas expressões clássicas que se tornou popular no Brasil),argumentava que os músicos e intérpretes não davam atenção à nacionalidade do modo de cantar brasileiro e não reconheciam um princípio fonético de interpretação; seu argumento de que o intelectual brasileiro deve ter um papel importante na formação da nacionalidade, assegurando a transmissão da identidade nacional, resgatando-a do passando, atualizando-a no presente.

Sabe-se quase nada sobre a vida amorosa de Mário de Andrade. Sua relação com as mulheres pareceram ser mais de amizade fraternal. Quando Anita Malfatti escreveu-lhe uma carta, declarando-lhe seu amor, não a respondeu, causando sofrimento à pintora. O biógrafo toca no tabu que cerca a intimidade de Mário de Andrade: sua homossexualidade, sem o relevo sensacionalista dos que abordam o tema como se fosse o fato central da vida do biografado, ou como uma forma bizarra de experiência. Mário de Andrade abordou o tema em seu poema "Carnaval Carioca", de 1923. Também no conto Frederico Paciência, que faz parte do livro Contos Novos. Mário falou de sua homossexualidade em uma carta a Manuel Bandeira, amigo e confidente, que foi revelada somente agora, através da imprensa.

Tem muito mais: A escrava que não era Isaura, seu envolvimento com as revistas literárias da época,sua amizade com poetas, escritores e pensadores importantes, suas crônicas, Macunaíma, a obra síntese do Modernismo, Amar verbo intransitivo, os anos de sofrimento que passou no Rio de Janeiro, já próximo de sua morte, em 1945. E tem a abordagem importantíssima de Mario de Andrade poeta, ofuscado talvez pelo Mário intelectual. Mário de Andrade foi um grande poeta, e cada livro de poemas do biografado é abordado de forma bacana.
Entendidos em Literatura vão amar Eu sou trezentos.
                           
                             paulinhopoa2003@hotmail.com
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Eduardo Jardim. Eu sou trezentos: vida e obra de Mário de Andrade. Rio, Edições de Janeiro, 2015, 256 pp. Preços de 29,90 a 49,90. Junto com o preço, é preciso levar em conta se o valor do frete valerá a pena a compra de um exemplar mais barato.

domingo, 9 de agosto de 2015

O sonho dos heróis

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.
Adios muchachos. ya me voy y me resigno
Contra el destino nadie la talla
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más

Acuden a mi mente
Recuerdos de otros tiempos,
De los bellos momentos
Que antaño disfrute,
Cerquita de mi madre,
Santa viejita,
Y de mi noviecita
Que tanto idolatre

O trecho do tango de Gardel permeia o romance de Adolfo Bioy Casares (1914/1999)como plano de fundo musical e como escopo da história de O sonho dos heróis,  melhor romance argentino, segundo boa parte da crítica especializada. É um romance espetacular. Bioy Casares, colaborador de Borges em inúmeras obras, brilhou sozinho num conjunto de obras que abordam a chamada "literatura fantástica". No caso deste romance, o fantástico se dá através da natureza do sonho. Mais especificamente, de resgatar um sonho que remete a um segredo trágico (que o personagem Gauna só vai vivenciar no final do livro).

Será que, fingindo ser o que não somos, descobrimos quem somos de verdade? Emilio Gauna, trabalha numa oficina mecânica e costuma se reunir com amigos no Café Platense, no bairro onde reside há pouco tempo, em Buenos Aires. Ama Clara, filha do Bruxo, o homem que antes de morrer lhe manda um recado: "era preciso cuidar das lembranças, porque eram a vida de cada um". Adora apostar em corridas de cavalo. No carnaval de 1927, ele ganha uma boa grana no jogo e decide pagar as três noites de festa para seus amigos do bar que frequentava. Acontece que Gauna não consegue se recordar de algo importante que acontecera naqueles três dias. Três anos depois, no carnaval de 1930, ganha uma nova aposta, que lhe desperta a ideia de que o destino que rege sua vida, naquele golpe de sorte, significa que ele deve empregar o dinheiro como no ano de 1927, com as mesmas pessoas, onde lembranças esquivas lhe trarão de volta brigas de faca, festas terríveis, manifestações mágicas, histórias de amor e morte.

Tradução de José Geraldo Couto
                           paulinhopoa2003@hotmail.com
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Adolfo Bioy Casares. O sonho dos heróis. SP, Cosac Naify, 2008, 240 pp. O exemplar novo varia de 41,20 a 63 reais.      

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O leitor



Michael Berg, estudante alemão de 15 anos, passa mal na rua, sendo acudido por uma mulher, quase 20 anos mais velha, que o introduz ao pátio de sua casa para limpá-lo do vômito. Ele chora, ela o conforta nos braços e se dispõe a levá-lo até sua casa. Durante sete dias seguidos tinha tentado não pensar nela, mas nada o satisfazia ou o distraía, já que ainda não podia ir à escola e os livros e os poucos amigos o enfastiavam. Uma semana depois ele estava novamente em frente à porta da casa dela. Ela não estava. Esperou-a sentado no degrau da escada. Quando ela chega ele a ajuda a subir com as compras e com o carvão da lareira. Como ele ficara sujo, ela lhe prepara o banho. Foi o começo de um período de sexo e prazer ao lado Hannah  Schmitz. Os banhos eram sempre o preâmbulo para a intimidade dos dois, depois compartilhada com a leitura de livros que ela pedia que ele lesse para ela. Hannah nunca quis ler esses livros.

Um dia, ela desaparece de sua vida subitamente. O tempo passa. Michael forma-se em Direito, passando a frequentar os seminários que discutem os julgamentos que aconteciam na Alemanha, de pessoas que prestaram serviço a mando do nazismo nos campos de concentração.Estava-se na época da revisar o passado, assumir as culpas e julgar os culpados. Quando vai ao tribunal acompanhar o julgamento de algumas mulheres que serviram de guardas em campos de concentração, encontra Hannah entre as acusadas de matar mulheres judias que estavam sendo evacuadas de um campo de concentração, já no final da guerra. Bombas foram jogadas, incendiando a igreja onde estavam presas as mulheres, que não conseguiram escapar, devido à porta ter permanecido trancada pelo lado de fora. Duas mulheres, mãe e filha, conseguiram escapar e uma delas, mais tarde, escreveu um livro narrando os horrores passados. Quando o juiz perguntou às acusadas quem havia redigido o relatório explicando os motivos das mortes, Hannah assume a responsabilidade de tê-lo escrito, de forma súbita. Era mentira. Hannah era analfabeta, Michael acaba deduzindo, e isso causava-lhe uma vergonha imensa. Por isso atraiu a culpa para si, para não ser descoberta.

Hannah é condenada com uma pena mais severa que as demais. Michael busca aproximar-se dela, enviando-lhe fitas narrando romances de autores importantes da literatura universal. Hannah acaba se alfabetizando sozinha e começa a escrever bilhetes a Michael, contando-lhe as impressões do que ouvia nas fitas. A história avança até um final trágico inevitável. leitores.
O caso de Hannah nos remete ao livro da filósofa judia alemã, Hannah Arendt, Eichmann em Jesuralém , sobre a banalização do mal. Nos regimes totalitários durante a Segunda Guerra, da qual o nazismo foi a parte mais cruel e desumana, as atrocidades cometidas pelos que exerciam seu trabalho em prol do regime nazista, eram consideradas legais. Hannah executava ordens sem questioná-las. Seu analfabetismo é uma metáfora. Através das leituras, ela vai adquirindo conhecimento do mundo e sobre o que foram os campos de contração. E 
o livro nos leva a questionar: o ato de pensar poderia levar o ser humano a abster-se da prática do mal? Mais especificamente, por que Michael nunca visitou Hannah na prisão e nem lhe escreveu nenhuma carta, acompanhando as gravações? São incômodos necessários que esse romance brilhante proporciona aos leitores.

Tradução de Pedro Süssekind
                   paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Bernhard Schlink. O leitor. 12ª ed., Rio, Record, 2014, 240 pp. Preço médio de 23 reais. A obra está esgotada mas há exemplares em algumas livrarias. Use o Buscapé.         

domingo, 26 de julho de 2015

Elis Regina, nada será como antes

Quem é fã de Elis Regina sabe que ela não foi nenhum docinho de coco. Dona de uma instabilidade emocional  quase bipolar,  arranjou inimigos, mas era querida por muitos, mesmo assim. Isso quer dizer que ela sabia, também, ser amiga e leal a quem amava. Nada será como antes, de Júlio Maria,  esmiúça as fofocas que a imprensa dizia sobre ela, buscando colocar o foco em algumas verdades. Assim, ficamos sabendo de  coisas que fizeram Elis bater de frente com os ídolos da MPB que ameaçavam, achava Elis,  ofuscar o brilho da cantora.  Beth Carvalho ficou de mal com César Mariano e Elis, porque Elis, sabendo que  Beth estava gravando "Folhas secas" (havia pedido conselhos de arranjo a César Mariano),  gravou e lançou a música antes da sambista. Elis humilhou a cantora Claudia, num show comandado por Elis na televisão. Impediu Nana Caymmi de cantar em seu programa. Falou mal de Nara Leão.Depois o embate com o pessoal da jovem guarda, do tropicalismo. A vida pessoal de Elis também é exposta através das crises amorosas de seus casamentos, recheadas de brigas e traições.

Elis Regina, Nada será como antes começa com Elis caída no chão do quarto, inconsciente,  acudida pelo namorado Samuel Mac Dowell, a empregada e uma amiga, sendo levada a seguir para o hospital já em coma. A partir do segundo capítulo, volta no tempo e relata os passos de Ellis desde quando era crooner em programas de rádio em Porto Alegre, chegando no Rio em 1964, ganhando projeção nos festivais da canção, tendo programas de sucesso, como o Fino da Bossa, com Jair Rodrigues, forjando rapidamente seu estilo de melhor cantora do Brasil. Cada seção do livro tem com o lançamento de um disco ou de um show. E termina novamente no quarto de Elis, caída no chão do quarto, devido a dose excessiva de cocaína e cinzano.

Senti falta de um enfoque mais consistente na qualidade do trabalho de Elis e no que ela representou e representa para a geração de músicos que foi e é influenciada por ela. Isso até aparece, mas de forma pálida. O que predomina é o que o público, em sua maioria quer saber, os "podres" de Elis. Mas  sua leitura é válida, na medida em que coloca o foco, ainda que, às vezes distorcido, sobre a vida dessa cantora maravilhosa, que merece uma biografia melhor elaborada, calcada em sua qualidade artística. Eu já havia lido um livro sobre Elis Regina, lançado em 1985, pela jornalista Regina Echeverria, amiga da cantora, Furacão Elis. A jornalista compacta os fatos em volta da cantora, dá menos vazão às baixarias  e abre espaço para relatar o pronunciamento de algumas figuras importantes que fizeram parte do círculo de Elis. Ronaldo Bôscoli, seu primeiro marido, dá seu depoimento no livro. O livro de Júlio Maria teve a vantagem da passagem do tempo, com a perda da cantora já elaborada nos corações e mentes.
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Lançamento de 2015, 424 pp. Editora Master Books. Pesquise os preços, porque há boas ofertas de venda. O preço de tabela é de 49,90 reais.

domingo, 19 de julho de 2015

Longa jornada noite adentro

O dramaturgo norte-americano Eugene O'Neil (1888/1953) teve uma vida particular que ninguém gostaria de ter. Depressivo, alcoólatra, tuberculoso e neurótico, teve um filho do primeiro casamento que só veio a conhecer 11 anos depois.  Nascido num hotel, teve uma vida de criança errante, já que seu pai, um irlandês emigrado aos Estados Unidos, era ator de teatro e fazia constantes turnês pelo país com seu teatro de repertório. Quando não estava com eles, estava em um internato. Carente de uma infância feliz, concluiu seus estudos secundários sem grande brilho e tentou fazer a universidade, mas acabou expulso por ter jogado uma garrafa na janela  do reitor Woodrow Wilson,mais tarde o presidente dos Estados Unidos.
Passou a trabalhar, então, em serviços burocráticos. Casou-se pela primeira vez aos 19 anos, viajou para Honduras à procura de ouro. Voltou aos Estados Unidos e mais tarde empreendeu viagens marítimas, visitando vários lugares do mundo, inclusive a Argentina, onde chegou a viver por alguns anos em miséria completa.

Aos 23 anos sua vida começou a mudar para melhor, quando passou a trabalhar no teatro com o pai. Porém, aos 24 anos tentou o suicídio e foi internado em um sanatório. Lá, iniciou a leitura de grandes dramaturgos universais e acompanhou os autores de sua época.
Passou a escrever peças de um ato e teve a atenção voltada pela importância de sua obra quando pôs em prática seu projeto de adaptar as tragédias clássicas gregas à vida norte-americana de sua época, com a trilogia Mourning becomes Electra, com as peças  A volta para casa, O caçado e Os assombrados. Chamou a atenção do Nobel, que lhe outorgou o prêmio em 1936. Sua peça mais importante, entretanto, é Longa jornada noite adentro (1941), baseada em sua vida e na de sua família. A orientação do autor era de que a peça só pudesse ser montada 50 anos após sua morte.A viúva de O'Neil, entretanto, autorizou sua montagens poucos anos após sua morte, considerando que o autor e todos os familiares retratados no texto já estavam mortos.
Ao fazer uma súmula do que era a família dele, acaba trazendo uma contribuição importantíssima ao drama realista moderno, abrindo espaço para a subjetividade e a dimensão psicológica. Não é uma peça com progressão dramática, mas um corte vertical que aprofunda um mundo focado na afetividade,

A peça se passa na casa de veraneio da família, em agosto de 1912, entre as 8h30 da manhã até a meia-noite. O relacionamento dos personagens nessa concentração de espaço e tempo faz aflorar uma série de questões não resolvidas de mágoas, culpas e ressentimentos, de um relação aos demais. O pai, avarento e sovina, abriu mão do sonho de ator shakespeareano, partindo para montagens comerciais para poder manter o sustento da família. Mais tarde, abandona a profissão e passa a investir em propriedades, às vezes de forma desastrada. A mãe abriu mão de sua carreira de pianista para acompanhar o marido em suas turnês teatrais. Durante um desses afastamentos, o filho que havia ficado aos cuidados da avó morre de sarampo, causando-lhe um trauma do qual não consegue se recuperar (na peça, esse filho tem o nome Eugene). Também torna-se dependente de heroína devido a uma prescrição médica, quando teve Edmund. O filho mais velho é um fracassado financeiramente, enveredando pela bebida, acusado pelos pais de induzir o irmão mais novo, Edmund (alter ego de O'Neil), de quem era ídolo, para as noitadas e a bebida. Edmund está numa condição de saúde precária que não é mencionada na peça, até o final, quando ficamos sabendo que é tuberculoso.

Nas rubricas do texto, o autor trabalha primorosamente cada detalhe do espaço cênico e da caracterização dos personagens.
Longa jornada noite adentro é um prato cheio para qualquer atriz que se aventure a interpretar Mary, a mãe. Atrizes de talento fizeram isso e se deram bem. Cacilda Becker atuou na montagem de 1958, com direção de Ziembinski. Mais tarde, sua irmã, Cleide Yáconis também. Vanessa Redgrave, no teatro inglês. No cinema, tivemos Catherine Hepburn numa atuação meio estereotipada, mas que não desmereceu sua brilhante performance.

Bem, ninguém lê teatro. Por isso encontrar bons textos teatrais para leitura não é tarefa muito fácil. Eu consegui ler o texto baixado na internet, que não menciona dados importantes como a editora e o tradutor. Tem uma edição em livro de 2004, traduzido por Helena Pessoa, pela Editora Peixoto Neto. Custa 29,90 reais. Esse texto já havia sido lançado pela Editora Agir lá pela década de 1960. A Abril Cultural, em sua coleção Teatro Vivo, também lançou a peça. O texto é fácil de ser encontrado em sebos por preços bem acessíveis.

No Brasil, O'Neil teve fundamental importância para Abdias Nascimento, um dos principais representante da militância contra a discriminação racial. Quando assistiu à montagem de O imperador negro, de O'Neil, no Peru, em que o personagem protagonista é negro (mas foi representado por um branco com o rosto pintado), sentiu vontade de montar a peça no Brasil com atores negros. Conseguiu de O'Neil a liberação dos direitos autorais e a montagem deu origem ao Teatro Experimental do Negro, que exerceu suas atividades com sucesso, de 1941 a 1961, quando encerrou suas atividades, devido à forte pressão da censura sobre o grupo.


domingo, 12 de julho de 2015

O amante

Uma velha escritora  está no saguão de um lugar público,  em Paris, quando se aproxima um homem que diz conhecê-la  há tempo e que a acha mais bonita agora, com aquele rosto"devastado",  marcado pela solidão, pela bebida e pelo cigarro, do que quando era jovem.  Isso desencadeia nela uma série de imagens alimentadas pela memória, que a levam até à adolescência, quando morava em Saigon, durante a colonização francesa na Indochina, na última década da primeira metade do século XX. Decide, então, revelar um acontecimento desse período, quando teve  o encontro amoroso  com um chinês que lhe marcou profundamente a vida.  

Naquela época, com quinze anos, morava num pensionato em Saigon. Teve dois irmãos, o mais velho viciado em heroína e o mais moço morto cedo, assim como seu pai, já  falecido. Sua mãe tentava manter o padrão de vida, mas acabou indo à falência, devido a transações financeiras desastradas. O ônibus que a levava cotidianamente à escola atravessava o rio Mekong numa balsa. Numa dessas viagens, observa que na embarcação há uma grande limusine preta com um motorista ao volante. No banco traseiro está um homem elegante que a observa. Ele sai da limusine e aproxima-se. É um chinês recém vindo de Paris, onde concluiu seus estudos, pertencente a uma minoria chinesa que comanda todos os imóveis populares da colônia. Ele se oferece para levá-la de limusine até a escola. A carona torna-se cotidiana. Os dois tornam-se amantes, passando a frequentar um lugar neutro, para fugir dos comentários da população local. Essa fuga também representa a defesa de um homem infeliz,  condenado, pela tradição familiar, a fazer um casamento arranjado com uma jovem chinesa.  O rompimento dos dois acaba sendo definitivo. Ela e a mãe retornam a Paris. 

Trata-se de um romance curto (mas denso), numa prosa poética envolvente, que se lê corrido até seu final. A esse relato do encontro na balsa, a autora intercala as impressões dessa adolescente no contato com as pessoas, especialmente a mãe, com quem teve desavenças.

Marguerite Duras (1914/1996) viveu com a família em Saigon mais ou menos da década de quarenta do século passado. Mas não parece estarmos diante de uma autobiografia romanceada.  A narrativa, muito bem elaborada, nos faz mergulhar de cara na mentira da ficção.

A tradução é de Denise Bottmann, pela editora Cosac Naify.


A obra encontra-se esgotada, mas pode ser encontrada em sebos virtuais.  Como eu queria ler a edição da Cosac, comprei o livro digital por 10,95. Edição de 2013, 112 pp.

domingo, 5 de julho de 2015

Pais e filhos

Pais e filhos, do escritor russo Ivan Turguêniev (1818/1883),  reflete o conflito de gerações, mudanças de pensamento (e as crises de sentimento), turbulências sociais e políticas na Rússia da segunda metade do século XIX. O fim da servidão havia sido recém decretado pelo czar da época, surgem organizações políticas secretas, com ações violentas (inclusive assassinatos), que se reuniam com o fim de combater o modo de vida burguês centrado, ainda, nos ideais românticos. Dostoiévski, contemporâneo de Turguêniev, usa como base o assassinato de um desses integrantes pelo próprio grupo, para movimentar sua monumental obra Os Demônios.

Em Pais e Filhos, Nikolai Kirsánov, é um fidalgo rico, dono de terras. É viúvo e mantém em casa uma jovem criada que tem uma filha que todos sabem ser dele. Agregado à casa, mora Pável, irmão de Nikolai, solteirão, detentor de certa moral rígida  que o impede de aceitar o relacionamento do irmão com a criada. Quando começa a história, Nikolai espera o regresso de seu filho Arkádi, que terminara a universidade. O jovem traz consigo um amigo, Bazárov, para passar uns dias com ele na fazenda. Bazárov é filho de um médico do exército que tem uma pequena propriedade na província. De cara, Bazárov passa a ter um comportamento irreverente em relação aos costumes da família, isolando-se a maior parte das vezes, causando certa admiração, mas também preocupações à família de Arkádi. Um dia, o tio de Arkádi, pergunta-lhe sobre Bazárov:

"
- É um nihilista.
- Como?- perguntou Nikolai Petróvitch, enquanto Pável Petróvitch se punha imóvel, a faca erguida no ar com um pouco de manteiga na ponta da lâmina.
- Ele é um nihilista - repetiu Arkádi.
- Nihilista - disse Nikolai Petróvitch - Vem do latim nihil, nada, até onde posso julgar; portanto essa palavra designa uma pessoa que... que não admite nada?
- Digamos: que não respeita nada - emendou Pável Petróvitch e novamente se pôs a passar manteiga no pão.
- Aquele que considera tudo de um ponto de vista crítico - observou Arkádi.
- E não é a mesma coisa? indagou Pável Petróvitch.
- Não, não é a mesma coisa. O nihilista é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com base na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito.
- E o que há de bom nisso? - interrompeu Pável Petróvitch.
- Depende, titio. Para uns é bom, mas para outros é péssimo.
- Está muito bem. Mas, pelo que vejo, isso nada tem a ver conosco. Somos gente do tempo antigo, acreditamos que, sem princípios - Pável Petróvitch pronunciava essa palavra com suavidade, ao estilo francês, ao passo que Arkádi, ao contrário, a pronunciava com o "i" duro russo, acentuando a primeira sílaba -, sem princípios aceitos, como você diz, com base na fé não se pode dar nem um passo, nem mesmo respirar. Vous avez changé tout cela (os enhores mudaram tudo), que Deus lhes dê saúde e o posto de general, mas, quanto a nós, nos contentaremos em admirar as futuras realizações dos senhores, os... como os chamou?
- Nihilistas - pronunciou com clareza. (p.36)
    "

Turguêniev cunhou pela primeira vez o termo nihilista, que se popularizou em seguida, para designar os grupos de intelectuais que combatiam o tradicionalismo arraigado na sociedade burguesa russa, combatendo, inclusive, a autoridade e a ideia de Deus. Seus membros, em sua maioria, eram advindos de uma classe média sem antecedentes agrários: filhos de médicos, militares e comerciantes, que começavam a contestar os valores vigentes,  considerados por eles  antiquados e injustos. Bazárov rejeita todo tipo de sentimentalismo, comporta-se mal diante das pessoas, impede toda possibilidade de aproximação que possa levar à amizade ou união amorosa. Com isso, isola-se do meio social e vive uma solidão terrível, sem valorização da vida. Para ser fiel a suas ideias, rejeita o amor de uma jovem burguesa que ele também ama, mesmo sabendo que isso o fará sofrer.

Nietzsche intitulou-se o último nihilista. Não se sabe, entretanto, se o termo teve influência direta do contexto de Pais e Filhos, já que o filósofo alemão nunca citou Turguêniev em sua obra.

Exímio criador de tipos, especialmente de homens simples, capturou muito bem o espírito da época em que foi escrito. A literatura de Turguêniev influenciou sobremaneira a literatura ocidental.

Traduzido diretamente do russo por Rubens Figueiredo, numa edição impecável (como sempre) da Cosac Naify. Preço médio de 50 reais, o exemplar novo. Pesquise as promoções.

3ª edição, 2015, 352 pp.


domingo, 28 de junho de 2015

Relatório ao Greco

Nunca tinha encarado meu pai com ternura; o medo que ele provocava em mim era tão grande que todo o resto, amor, respeito, intimidade, desaparecia. Suas palavras eram pesadas, e seus silêncios ainda mais pesados; raramente falava e, quando abria a boca, suas palavras eram medidas, bem pesadas, não deixava espaço para refutação; tinha sempre razão e, ao que parece, isso o tornou invencível. Eu pensava frequentemente: "Ah, se ele não tivesse razão, eu faria das tripas coração e o refutaria" mas ele nunca deu ocasião para isso, e isso era algo imperdoável. Era um carvalho de tronco duro, com folhas espessas e frutos amargos, sem nenhuma flor; ele engolia toda a força a seu redor e toda e qualquer árvore que estivesse à sua volta, murchava; eu murchava da mesma forma à sua sombra e não queria viver sob sua respiração; quando eu era jovem, dentro de mim, explodiam rebeliões delirantes, estava pronto a me lançar em aventuras perigosas; mas, pensava em meu pai, e meu coração se acovardava; eis porque, ao invés de me tornar um grande combatente em ação, por medo de meu pai, obriguei-me a escrever aquilo que queria fazer; meu sangue converteu-se em tinta. (p.446/7)

O temperamento do pai de Kazantzákis reflete o ambiente de  Megalo Kastro (atual Heraklion, capital de Creta), que o autor descreve como um lugar governado por uma lei severa em que ninguém levantava a cabeça, pois estava acima deles; a cidade toda era uma fortaleza, cada coração, também, uma fortaleza submetidos ao poder dos turcos, na passagem para o século XX. Ficavam trancafiados dentro de casa, vendo os turcos passar amedrontando a população, ouvindo vozes e gemidos dos feridos. Nesse clima de terror, Kazantzákis menino via a imagem do pai de pé, atrás da porta, com fuzil armado, pronto a matar a família, caso a casa fosse invadida, para que não caíssem nas mãos deles.

Em sua juventude, sob a influência de filósofos importantes,inclusive Nietzsche, passou a questionar a participação do homem na evolução do mundo. Havia chegado o momento do homem aceitar dentro do seu coração todas as batalhas e todas as esperanças e colocar ordem no caos sem esperar nada de Deus; de manter ereta a sua liberdade pessoal para se apresentar de pé quando chegasse o momento; de transformar a insanidade que rodeava sua juventude, os gritos covardes numa única palavra certa. Kazantzákis encontrara sua identidade como escritor.

Fala do amigo Yóryis Zorbás, que ele eternizou como Aléxis Zorbás em seu romance famoso que o alimentou espiritualmente pela vida toda. Zorbás tinha tudo que um escritor precisava para se salvar: a visão que abarcava tudo que alimenta a vida, de forma rápida; a criatividade, a ingenuidade de ver tudo pela primeira; a coragem de rir de seu próprio espírito.

Vale muito a pena a leitura de Relatório ao Greco.

Tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão

           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Níkos Kazantzákis. Relatório ao grego. Rio, Cassará, 2014, 488 pp. Valor: de 80 a 100 reais o exemplar novo.

domingo, 21 de junho de 2015

Stoner

William Stoner, filho de agricultores humildes, vai estudar na Faculdade de Ciências Agrárias, da Universidade de Columbia, Missouri, a pedido do pai. Torna-se calouro no ano de 1910. Mas, através das aulas de inglês, entra em contato com a literatura e toma-se de paixão, especialmente, pela poesia medieval inglesa. Muda de curso. Incentivado por esse professor, faz doutorado e ingressa na Universidade, como professor assistente, função que vai exercer durante toda a vida acadêmica. Casa-se, vive uma vida comum, atravessando os conflitos de duas guerras mundiais, até morrer em 1956, sem deixar nada de significativo em termos de produção de conhecimento. Só que as coisas não terão uma aparência assim banal nas entrelinhas de Stoner, romance lançado em 1965 e recém-publicado pela nova editora, Rádio Londres.

Ainda jovem, Stoner casa-se com Edith, uma jovem esquisita e silenciosa, tanto quanto ele. Os dois casam virgem. Logo, Edith passará a desenvolver um ódio gradativo ao marido, passando a desenvolver um comportamento meio esquizofrênico. Nasce-lhes a filha, Grace, que a mãe trata de separar do pai, para agredi-lo. Depois expulsa o marido do quarto, depois desmancha-lhe o escritório de estudo e o expulsa para uma peça inadequada no fundo da casa. Stoner acaba, praticamente, expulso de casa. Na faculdade, aproxima-se de uma aluna, Katherine Driscoll, que havia conhecido em um malfadado seminário, em que bate de frente com a incompetência e arrogância de um aluno despreparado, mas que estava sendo incentivado a ser aprovado "na marra", pelo chefe de departamento, Hollis Lomax, que infernizará sua vida, quando Stoner se nega a aprovar o tal aluno. Com isso,  nunca será promovido na universidade.

O que torna a história de Stoner uma obra-prima, é o brilhantismo de John Williams (1922/1994), através de uma carpintaria literária requintada, onde sobra lirismo e sensibilidade, ao narrar os desmazelos de Stoner de forma a incentivar o leitor a seguir a leitura quase sem parar.Cria, no leitor, uma expectativa de que Stoner venha a reagir a cada ataque da esposa ou de Lomax. O problema é que a todas as adversidades, ele responde: Isso não tem importância!

Há um momento, que considero o ponto alto do livro, em que Stoner e a aluna Katherine se apaixonam e passam a viver um amor intenso e os dois passam a ignorar, ainda que de forma discreta, a opinião das pessoas, mesmo as do campus onde trabalham. Se em casa sua mulher, surpreendentemente parece não se importar com isso, na universidade as coisas se complicam.  Lomax exige que o romance acabe, como isso não acontece, decide expulsar a aluna para atingir Stoner diretamente. Como Stoner não se dispõe a fazer uma mudança radical em sua vida, Katherine decide se demitir e se mudar de Columbia. Então começa a derrocada final de Stoner, ele envelhece precocemente, torna-se um tanto ranzinza, passa a desenvolver a surdez parcial de um dos ouvidos. No final da vida acadêmica, é incentivado a se aposentar. Ele reage, mas meses depois volta atrás. Temos, portanto, a vida de um homem que passa o tempo todo a buscar a imagem de si mesmo e parece não encontrá-la.

Tradução de Marcos Maffei.
            
                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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John Williams. Stoner. 2ª ed, Rio, Rádio Londres, 2015, 320 pp, R$ 33,00


domingo, 14 de junho de 2015

Vida e proezas de Aléxis Zorbás

A obra de Nikos Kazantzákis já foi editado com o título de Zorba, o grego, parodiando o título do filme baseado no livro, lançado em 1964, pelo cineasta grego Michael Cacoyannis. Vida e proezas de Aléxis Zorbás, publicado pela Grua Livros, tem tradução diretamente do grego de Marisa Ribeiro Donatiello e Silvia Ricardino. As tradutoras esclarecem no posfácio que Kazantzákis baseou-se em uma figura real para construir seu personagem, Yóryis Zorbás, que ele conheceu quando explorou uma mina na região do Peloponeso e com quem manteve uma amizade duradoura até a morte de Zorbás.

O narrador-personagem, um escritor cretense (não se consegue dissociar o personagem do autor), vai buscar na memória, devido à saudade, a figura de Aléxis Zorbás, para demonstrar a importância que este teve em sua vida. Os dois se conheceram, quando o escritor pegara um barco para se dirigir a Creta, onde pretendia passar uns dias junto à natureza, para aliviar sua angústia existencial. Durante o trajeto, entram em contato e Zorbás se oferece para ser seu empregado, enquanto estivessem lá. Juntos decidem explorar uma mina. No contato com as pessoas da aldeia onde se hospedam, o escritor conhece uma viúva deslumbrante, que se interessa por ele, enviando-lhe presentes. Mas o assassinato cruel da viúva pela comunidade, motivado por questões de vingança moral, impede que os dois possam engatar um provável romance.

Zorbás, macedônio, era um homem primitivo que passava por cima de questões como razão, moral e honradez, atingindo a essência das coisas de forma original. A melhor forma de comunicação que ele via, entre as pessoas, era a dança e a música. Vivia sempre acompanhado de seu instrumento de corda, o santir. De aspecto rude, mas sedutor e inteligente, dizia não acreditar em nada. Se acreditasse no ser humano, teria de acreditar em Deus e no diabo. O ser humano soava-lhe como um animal, quando se lhe faz o bem, arranca-lhe os olhos. Era curto e grosso, dizia que a velhice não amansa o homem, ao contrário, quanto mais envelhecia, ficava mais selvagem.

O escritor aprendeu com Zorbás que a felicidade pode ser simples e frugal, só é preciso um coração simples e leve para se sentir que tudo isso é felicidade. O ar livre, o mar, o pão  de trigo e um copo de vinho, a bater conversa com Zorbás, que com sua filosofia aparentemente simples da vida, escondia a profundidade da existência humana e do sentido da liberdade.

          paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Nikos Kazantzákis. Vida e proezas de Aléxis Zorbás. 3ª ed, SP, Grua, 2011, 352 p, De 46 a 53 reais. Comprei o exemplar novo na Estante Virtual por 30 reais.