domingo, 19 de abril de 2015

As aventuras do bom soldado Sveijk

As aventuras do bom soldado Sveijk conta as peripécias de um soldado tido como um pateta,dizendo bobagens inacreditáveis,  mas que sempre tinham um fundo de verdade. A impressão que se tem é que Svejk, que sempre leva a pior em tudo, tinha uma inteligência dotada de um humor fino que tira sarro principalmente dos militares das altas patentes. Além disso, tinha um par de olhos bondosos e inocentes. Os olhos bondosos e inocentes de Svejk irradiavam mansidão e candura, combinando com um perfeito equilíbrio anímico, como se nada tivesse acontecido, e, se alguma coisa tivesse acontecido, então tudo também estaria em ordem, não teria acontecido absolutamente nada. É impossível, assim, não perdoá-lo.
Sveik na sua juventude vivia em delegacias, até ser considerado louco, mas é expulso do manicômio.  Alista-se no exército, designado como ordenança do capelão militar, um velho  bêbado e atrapalhado. Até missa Svejk celebrou, e ministrando extrema-unção.  Esse capelão acabou "vendendo" Svejk ao tenente Lukas, durante um jogo, e passa a ser ordenança de Lukas até o final da narrativa, com algumas idas e voltas.

Na segunda parte do enredo, começam as ações em função do deslocamento para a guerra. Depois de um tempo na Sérvia, passam pela Hungria, até o dia em que o soldado Svejk encontra um soldado russo foragido tomando banho, que foge pelado ao vê-lo. De forma insana, Svejk veste a farda do russo para se mirar no espelho da água, quando é preso pelo exército russo e enviado à prisão como o soldado foragido.

É uma narrativa picaresca. Guardadas as devidas proporções, lembra o nosso Sargento de Milícias, que contrariamente a Svejk era inteligente e esperto (a historia de Leonardo Pataca é bem mais interessante).

Trata-se de um romance longo, quase setecentas páginas, é uma sequência de relatos, meio parecido com Gargântua e Pantagruel. Hasek morreu antes de concluir a trajetória de Sveik. É engraçado e delicioso, mas pede para ser lido aos poucos, para não cansar. É lançamento recente da Editora Objetiva, com a tradução redondinha de Luís Carlos Cabral.

O escritor checo Jaroslav Hasek (1883/1923) teve uma existência curta, decorrente do álcool. Aos 32 anos alistou-se no Exército Austro-Húngaro para combater na Primeira Guerra Mundial, mas acabou passando para o lado dos russos.

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Jaroslav Hasek. As aventuras do bom soldado Svejk. Rio, Objetiva, 2014, 688 pp. R$ 70,00 (a Submarino está vendendo a 38,00)


domingo, 12 de abril de 2015

O Tambor

Oskar, a personagem de O Tambor, vive num mundo totalitarista, onde a primeira coisa que se aprende na vida é obedecer. Oskar, no entanto, foi um menino que, aos três anos de idade, já tinha sua personalidade formada e recusava-se a crescer, vivendo sempre na companhia inseparável de seu tambor.

A história começa com Oskar adulto, em um hospício, lembrando de seu passado. Nasceu no início do século XX em Danzig, cidade polonesa que, na época, pertencia ao império austro-húngaro. Ainda bebê, ganhou um tambor de presente, do qual não se desligava nunca. Aos três anos de idade, caiu da escada e esse acontecimento resultou no fato de que, a partir de então, Oscar se recusara a crescer. Essa época coincide com os preparativos para a Primeira Guerra Mundial. Outra característica esquisita de Oskar, é que quando se enfurecia, emitia um grito estridente capaz de quebrar vidros e vidraças. Não conseguiu ficar muito tempo na escola, pois não se desligava de fazer barulho com seu tambor e de gritar durante a aula. Cedo, descobriu que sua mãe era amante do primo dela e que esse tio era seu verdadeiro pai.  

Quando o nazismo ganha corpo, seu pai (não o tio) toma-se de amores pelo nazismo e passa a atuar no exército alemão.O tempo passa, Oskar torna-se adolescente, mas continua com a altura de uma criança. Apaixona-se pelo mundo do circo e chega a trabalhar  em uma trupe de anões que fazia espetáculos a serviço do III Reich, já no final da Segunda Guerra Mundial.  Mais tarde sua mãe, grávida, passa a comer compulsivamente grande quantidade de enguias e morre. Pouco depois seu tio morre durante um bombardeio. O judeu dono da loja que lhe conseguia os tambores para, passa a ser perseguido pelo nazismo e foge. Para compensar a solidão e a de seu pai, surge Maria, jovem adolescente que passa a cuidar dele e da casa. Oskar apaixona-se por ela, mas Maria passa a viver maritalmente com seu pai e engravida. Oskar acredita que aquele filho seja seu.

Um dia, o suposto filho de Oskar atinge-o com uma pedra. A partir de então, começa a crescer. A Alemanha passa a ser dividida pela cortina de ferro. Já está com trinta anos, quando é solto do hospício onde se encontrava.
Günter Grass foi vítima do totalitarismo do governo autoritário alemão na juventude. Executou ordens e lutou como soldado alemão na segunda guerra mundial. Foi rechaçado pela crítica depois da guerra acabada. O que quase nunca se disse sobre esse fato, é que Günter Grass incentivou o povo alemão a assumir sua culpa no processo doloroso de recuperação da Alemanha como nação moderna.

A obra encontra-se esgotada, mas você encontra um exemplar novo em estoque na Saraiva por 55 reais. O exemplar usado em bom estado custa em média 25 reais a edição econômica a mesma da Saraiva)

Tradução de Lúcio Alves e Rachel Valença
         
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Günter Grass. O Tambor. Rio, Nova Fronteira, 2006, 704 pp

domingo, 5 de abril de 2015

O filho de mil homens

Crisóstomos é um homem solitário de 42 anos, só com metade de tudo. Falhara nos amores, muito complicados. Pensava que havia gente a exercer o amor como um crime. Mas as coisas não precisam ser assim. A solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.

Sonha em ter um filho, constituir uma família baseada em laços de amor e amizade mais do que em laços consanguíneos. Conhece um adolescente órfão, Camilo, filho de uma anã que morreu afirmando que Camilo era filho de quinze homens da aldeia onde morava. Os dois vão morar juntos. Camilo pede a Crisóstomos que procure uma mulher para casar, pois quer ter uma mãe.

Crisóstomos encontra Isaura, uma mulher desiludida,um traste que a família procurou casar a qualquer custo e acabou casando-a com Antonino, homossexual delicado que a procura para buscar esconder-se das torturas que as pessoas da vila, especialmente os homens, exerciam sobre ele.

As coisas não dão certo. Antonino foge no dia do casamento. Isaura fica desconsolada. Consegue anular o casamento. Mas perde o gosto pela vida. Uma vez, quando vai junto ao porto para chorar seu infortúnio, encontra Crisóstomos. Os laços vão se firmando, forma-se um núcleo familiar que se une inicialmente pelo sofrimento e solidão, mas que se vai constituindo em amor e respeito ao próximo. Antonino é trazido para junto dessa família especial e começa a ter sua identidade respeitada, acabando por encontrar um amigo igual a ele em seu desejo.Afinal, segundo Valter Hugo Mãe, Somos o resultado de muita gente.

Mais um belo romance recheado de delicadezas no trato com o sentimento humano e a dignidade de viver.
                       
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Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. SP, Cosac Naify, 2012, 256 pp. R$ 39,00

domingo, 29 de março de 2015

O professor

Heliseu é um homem do século passado vivendo num Brasil contemporâneo. É um velho professor de Linguística, acorda de um sonho agitado no dia em que deve preparar um discurso de agradecimento na homenagem que receberá na universidade. No sonho, Heliseu era abraçado por um inimigo pegajoso que o agarrava de forma insistente buscando beijar seus lábios.

Esse sonho é o ponto de partida para o professor repassar sua história de vida. Nessa trajetória de revisitar sua memória, ficamos sabendo que Heliseu era especialista nos processos de construção e transformação da linguagem, mas não se comunicava com aqueles de quem era próximo. Passou a vida toda achando que levava uma vida normal com a mulher, até o dia em que ela se suicida, jogando-se da sacada do apartamento. Descobriu a  homossexualidade do filho, quando o surpreendeu com um amigo no quarto. Esse filho mais tarde muda-se para o Estados Unidos, casa-se com um americano e adotam um filho. Heliseu se dá conta de que nunca tivera uma conversa afetiva com o filho, abraçara-o uma única vez, no enterro da esposa. A velha empregada que o serve há muito tempo também lhe é estranha. Nesse dia em que se lembra da vida, pensa em convidá-la para tomarem café juntos, mas recua ante a possibilidade dela pensar algo de errado em relação ao gesto.

Heliseu foge da necessidade de reconhecer sua verdade, já que a verdade é o produto do medo da morte. Suas lembranças, mesmo as mais trágicas, passam-lhe pela mente como coisa corriqueira, negadas. É um covarde que aceita as derrotas como se as coisas fossem assim e pronto. 
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Cristóvão Tezza. O professor. 2ª ed, Rio, Record, 2014,  240 pp, 35,00

domingo, 22 de março de 2015

K. Relato de uma busca

Bernardo Kucinski (1937) esclarece o leitor em K. Relato de uma busca,  que "Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu". 

Um homem morou por tinta anos em uma casa e costumava receber de tempos em tempos  cartas de um banco com oferta de produtos financeiros  endereçadas a sua filha que nunca morou lá. De início, questionou como era possível enviar reiteradamente cartas a quem desaparecera há mais de três décadas. Sua filha tinha sido morta pelo regime militar e seu corpo nunca foi encontrado.  Por que teria ela dado esse endereço, se a casa havia sido comprada seis anos depois de seu desaparecimento? De fato, os fugitivos do exército que entravam para a clandestinidade não tinham lares fixos. Talvez ela tivesse dado aquele endereço ao banco como forma de se proteger.

Esse homem é K.,um imigrante judeu, professor emérito, escritor de livros em iídiche,língua que os judeus da Europa oriental falavam e  hoje é língua morta, substituída pelo hebraico após a criação do estado de Israel. Bernardo Kucinski descreve a agonia e a angústia desse um homem que vê a filha desaparecer subitamente, saber que casou no exílio como forma de se proteger ela e o marido em caso de fuga, sem que pudesse participar, bater em diversas delegacias e departamentos do exército e nunca ter uma resposta concreta de que a filha havia sido mesmo sequestrada, sem nunca saber se estaria viva ou morta.

Quem  acompanhou ou tem conhecimento do que foi o doloroso processo de perseguição aos presos políticos, vai reconhecer no livro personagens que remetem a figuras conhecidas do meio repressivo, a maior não nomeada, com exceção do delegado Fleury. Esses acontecimentos, entretanto, ganham fôlego maior pela força da ficção representada pelo personagem K.

O desaparecimento da irmã do escritor durante a ditadura militar serviu de mote para a construção dessa narrativa carregada se suspense, agonia e compaixão.
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Bernardo Kucinski. K. Relato de uma busca. SP, Cosac Naify, 2014, 192 pp, R$ 29,90

domingo, 15 de março de 2015

Confissões de uma máscara

  
Mishima narra em primeira pessoa a história de um jovem narcisista dividido entre a paixão platônica por rapazes e o amor frágil por uma jovem durante a idade adulta, até o final da segunda guerra mundial. Quando criança, o narrador morou com os pais na casa dos avós em condições precárias, pois o avô, comerciante promissor perdera quase tudo indo todos morar em uma casa alugada nos arredores de Tóquio, onde o menino nascera. O avô assume a educação do garoto, mesmo quando seus pais se mudam. Desde pequeno mostrou-se uma criança frágil de saúde. Um dia, quando vinha caminhando para casa de mão dada a alguém, viu um jovem carregando baldes de excrementos . Trazia um pano sujo enrolado em torno da testa. Seu rosto era bonito e corado. Era um limpador de fossas e vestia uma calça justa de algodão azul-marinho. Ainda que não pudesse perceber com clareza à época, pois tinha cinco anos, o menino havia recebido a revelação alegórica de uma força que se manifestava pela primeira vez na figura daquele limpador de fossas. O que lhe chamava, compreendeu mais tarde,  era o amor malevolente dos que se atraem por seus iguais: queria ser ele, queria ser  o outro. A imagem do jovem com sua calça justa azul-marinho movendo com perfeição seu corpo da cintura para baixo levou-o a adorar de forma inexplicável essa vestimenta, embora não entendesse bem por quê.  Mais tarde esses mesmos sentimentos passaram a se manifestar por jovens de outras profissões, onde o corpo do outro formava inconscientemente o desejo pelos iguais.

Na escola, teve alguns namorados platônicos, jovens que fugiam aos padrões normais de jovens estudiosos, mais velhos que ele. Mais tarde, quando jovem, vai  à casa de um desses "namorados" e conhece uma jovem adolescente frágil e delicada, que lhe impulsiona um outro tipo de atração, diferentemente da atração física: Monoko. A história dos dois vai até o final do romance, onde os dois não ficam juntos, pois o jovem não consegue definir claramente o que sente por ela. Paralelamente a isso, a presença da morte sempre lhe fez companhia também desde a infância. Durante a segunda guerra consegue insistentemente ingressar no serviço militar. Quando a guerra acaba o Japão imerge na miséria e a depressão passa a se manifestar nesse jovem sofredor e narcisista.

Conhecendo um pouco da vida de Mishima, percebe-se claramente traços autobiográficos no perfil do personagem atormentado de Confissões de uma máscara. Inconformado com o processo de ocidentalização do Japão após a segunda guerra, onde muitos de seus valores culturais foram subjugados à cultura ocidental, Mishima cria um movimento de contestação buscando preservar valores da cultura ancestral japonesa. Acabou cometendo suicídio durante um ritual previamente traçado como forma de protesto.

Tradução do japonês de Jaqueline Nabeta

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Yukio Mishima. Confissões de uma máscara. SP, Cia. das Letras, 2004, 200 pp. De 29 a 37 reais.

domingo, 8 de março de 2015

Divórcio em Buda


O escritor húngaro Sándor Márai (1900/1989) narra o Divórcio em Buda durante o período em que a Hungria já não pertencia mais ao Império Austro-Húngaro.  A capital Budapeste passara por transformações, perdera muito do poder econômico, a classe média passava por uma crise econômica, apesar de ainda existir uma burguesia mesclada com o que restara da antiga aristocracia austríaca. Kristóf Kömives, o personagem central, é um juiz austero que começava a emergir na sociedade húngara. Seu pai também havia sido um juiz famoso. Criado numa instituição católica depois da separação dos pais - a mãe abandonara o lar deixando os filhos com o marido, adquiriu uma personalidade conservadora calcada na moral e nos valores familiares.

Numa tarde (aí começa o romance), analisando os processos de divórcio, deteve-se em um deles, cujo casal em processo de separação ele já conhecia, apesar de, aparentemente, terem mantido durante anos um relacionamento superficial. Kristóf se atém a relembrar  quando os conhecera, primeiramente o marido, com quem havia estudado alguns anos no mesmo colégio e depois encontrava esporadicamente no meio social. Depois lembrou-se da esposa e da impressão que lhe causara durante esse tempo.

Saindo do escritório ele passa em casa para acompanhar a esposa em um dessas festas chatas de caráter burguês que não tinha apreço, mas comparecia por obrigação. Na volta ao lar, já tarde da noite, sabe pela empregada que há um homem no escritório que insistiu em esperar para falar com ele. Esse homem era o marido do referido divórcio. O diálogo entre os dois, revela uma situação inusitada: a mulher havia se matado há pouco e o juiz se vê envolvido nos fatos que lhe são narrados pelo homem desesperado.

Novela muito bem tramada, que prende o leitor até o fim da narrativa, Divórcio em Buda é um motivo excelente para o leitor que ainda não conhece a literatura de Sándor Márai, considerado um dos grandes do romance moderno ocidental.

Tradução de Ladislao  Szabo

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Sándor Márai. Divórcio em Buda. SP, Companhia das Letras, 2003, 176 pp R$ 32,00

domingo, 1 de março de 2015

O simples coronel Madureira


Domingo... O seu jornal predileto continuava, aberta ou indiretamente, metendo o malho na situação - o preço dos transportes ameaçavam vertical subida, o preço dos gêneros de primeira necessidade não se estabilizavam ao menos, a carne desaparecia dos açougues, o pão das padarias e os remédios das farmácias, organizações estudantis eram fechadas e universidades interditadas, presos políticos eram seviciados, numerosos asilados permaneciam em embaixadas com dificuldades nos passaportes e nos inquéritos instalados cometiam-se os mais criminosos abusos.

O fato é que Madureira, que adorava tomar seu chimarrão todas as manhãs antes de cuidar de seu jardim e de passear com a mulher, recebera o convite do Alto Comando Revolucionário do Exército, para ocupar um cargo importante no Serviço Geral de Abastecimento de Lubrificantes. Com isso, Marques Rebelo nos revela uma deliciosa novela curta de 126 páginas que lemos com prazer. O que mais queria o coronel Madureira, que se aposentara do exército com uma vida boa, mas simples, era gozar a vida. Mas seu trabalho burocrático no tal órgão do exército expõe a ele um trabalho monótono, uma burocracia recheada de cargos nomeados por interesse, até que um dia ele recebe um ofício do Alto Comando, instruindo-o a denunciar todos os funcionários que manifestassem opiniões contrárias ao regime de governo imposto pelos militares.

Não deixa de causar surpresa o fato de O simples coronel Madureira ter sido publicado sem sofrer censura. A obra foi lançada em 1967, quando Costa e Silva assumira o governo, sucedendo Castelo Branco, a poucos dias do Ato Institucional, que restringiu os direitos civis e promoveu o golpe dentro do golpe.
               
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Marques Rebelo. O simples coronel Madureira. Rio, José Olympio, 2013, 126 pp R$ 24,00

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Orlando Furioso

Damas e paladins, armas e amores,
As cortesias e as façanhas canto
Do tempo em que o mar d'África os rigores
Dos mouros trouxe, e França esteve em                                        pranto;
Ira os movia e juvenis furores
De Agramante seu rei, disposto a tanto,
Que ousou vingar a morte de Troiano,
Em Carlos rei e imperador romano.

De Orlando, ao mesmo tempo, direi eu
O que nunca se disse, em prosa ou rima,
Que o amor o pôs em fúrias de sandeu
E lhe tirou de homem cordato a estima;
Isto, se a que igual fim quase me deu
E o pouco engenho me corrói qual lima,
Assentir em poupar-me em tal medida,
Que eu possa dar a obra prometida.

Orlando enlouquece de amor. O poema de Ludovico Ariosto foi escrito em 1516, na época do Renascimento, mas não é o retrato fiel do mundo suntuoso da Renascença: sua temática é medieval, seguindo a estética das histórias de cavalaria.  Ariosto seguiu a obra de Boiardo, Orlando Enamorado, publicado em 1486.

Orlando Furioso tem como protagonista o guerreiro cristão e sobrinho de Carlos Magno, Orlando, que chega à crise de loucura por amor da bela Angélica, princesa oriental. Com Orlando e Angélica, temos também o paladino Astolfo. Primo e companheiro de Orlando, Astolfo, depois de transformado em arbusto pela sedutora feiticeira Alcina, consegue voltar a ser quem era e salva Orlando da loucura, voando à lua para buscar-lhe o juízo. Num segundo momento surge  como protagonista, Rogério. Esse jovem guerreiro muçulmano fora criado pelo velho mago Atlante em um palácio posto no cume de montanhas altíssimas, onde o mágico saía voar em seu cavalo alado, Hipogrifo.  Rogério se enamora de uma cristã, a guerreira Bradamente, mas é também seduzido pela perigosa Alcina. Em torno dessas figuras, Ariosto vai criando muitas outras aventuras amorosas. Um terceiro núcleo se concentra nas batalhas entre cristão e muçulmanos.  Sobressaem aí  figuras como a do feroz capitão Rodomonte, que se voltará contra Rogério, e a dos amigos Cloridano e Medoro, este vencedor de Orlando na rivalidade amorosa por Angélica. Ariosto vai entretecendo vários fios, criando expectativas, deixando em suspenso uma aventura para passar a outra, no melhor estilo dos folhetins.

Orlando Furioso, assim como outras histórias famosas de cavalaria, serviram de inspiração a Cervantes, para criar o famoso cavaleiro Dom Quixote, na monumental obra homônima.

Introdução, tradução e notas de Pedro Garcez Guirardi, melhor tradução de 2003.
                                        
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Ludovico Ariosto. Orlando Furioso. 2ª ed, SP, Ateliê Editorial, 2004, 290 pp.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Três novelas femininas

Três novelas femininas, de Stephan Zweig apresentam uma trama muito bem amarrada, com um suspense crescente até o final. As protagonistas de cada uma das histórias cedem o direito de ser feliz, por causa do medo e covardia.  Na primeira novela, Medo, Irene, casada com um homem importante de Viena, ao sair da casa de um jovem pianista, seu amante, é abordada por uma mulher que se diz namorada do rapaz e lhe faz ameaças. Apavorada, Irene lhe oferece dinheiro e foge para casa. Dias depois, é abordada pela mesma mulher na rua, que lhe pede uma quantia considerada para manter-se calada.Depois, a mulher manda-lhe um bilhete pedindo mais dinheiro. Irene, acuada, cede. Por fim, a mulher invade sua casa e lhe toma um anel caríssimo. O marido lhe pergunta do anel e Irene inventa uma desculpa. Precisa de dinheiro para resgatar a joia, mas já não tem como consegui-lo. O final da história pega o leitor de surpresa.

Na segunda história, Carta de uma desconhecida, um escritor famoso recebe uma carta aparentemente anônima, de uma mulher que lhe narra acontecimentos envolvendo os dois desde a adolescência dela, sem que o escritor consiga lembrar-se de quem se trata, até o final da carta. A mulher decide lhe escrever, contando de sua paixão por ele desde jovem, dos encontros fortuitos durante a mocidade, até a aventura amorosa que originou-lhes o filho que ele desconhecia até então. A covardia dela reside no fato de nunca ter sido notada e nunca ter tomado uma atitude para lutar pelo amor do escritor. O final da história também é uma surpresa que deixará no leitor um tanto de pena e rejeição.

Na terceira, 24 horas na vida de uma mulher, acompanhamos o diálogo de uma viúva aristocrática de 67 anos com um jovem, após um acontecimento inusitado em um hotel de veraneio austríaco, um escândalo, envolvendo uma mulher casada que abandona o marido e os filhos no hotel para fugir com um jovem que conhecera naquele local. O fato causa sérias discussões entre os hóspedes acerca da postura moral da jovem adúltera, até que esse jovem, o narrador da história, decide não julgar a postura dos fugitivos sob o aspecto da condenação. Isso faz a viúva aproximar-se dele, criando confiança para contar um fato que envolveu 24 horas de sua vida e que trouxe a ela marcas profundas. Nesse caso, a senhora, que no relato tinha 44 anos, apaixona-se por um jovem viciado em jogo, depois de livrá-lo de provável suicídio. Ela toma uma atitude importante tarde demais, que no fim a leva a um desenlace decepcionante.

Stefan Zweig (1881-1942) era austríaco de origem judaica, oriundo de uma tradicional família aristocrática. Fugindo do nazismo, escolheu o Brasil para morar, instalando-se em Petrópolis. Abalado pelos desastres da guerra e pelo incômodo de sentir-se deslocado do lugar onde vivera, matou-se juntamente com a esposa.

Três novelas femininas foi organizado por Alberto Dines, especialista no autor, com traduções de Adriana Lisboa e Raquel Abi-Sâmara.

Pesquise no buscapé, pois as livraria oferecem o exemplar novo com variação grande de preços.

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Stefan Zweig. Três novelas femininas. Rio, Zahar, 2014, 176 pp. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Livro das mil e uma noites


Um dia, o rei da poderosa dinastia persa descobre que a mulher o trai com um escravo. Em crise, sai pelo mundo, querendo saber se existe alguém mais infeliz do que ele. Descobre que sim, e mais, ninguém pode conter as mulheres. Então retorna a seu reino decidido a tomar uma decisão drástica e violenta: casar-se a cada noite com uma mulher diferente, mandando matá-la na manhã seguinte. O vizir encarregado de matar as jovens tinha uma filha chamada Xaharazád (conforme se pronuncia), e outra mais nova chamada Dinarzad. Xaharazád tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Era, portanto, além de bela, inteligente, sábia e cultivada. Ela diz ao pai que estaria disposta a casar com o rei, para tentar salvar a vida de mais mulheres que se casassem com ele. O pai acaba concordando.  Xaharazád  montou  uma estratégia infalível por meio de histórias que contava sucessivamente, noite após noite, diante de um rei a princípio assustado, mas depois cada vez mais seduzido e encantado.  Toda noite ela o entretinha contando fábulas de terror e de piedade, de amor e ódio, de medo e de paixões desenfreadas, de atitudes generosas e de comportamentos cruéis, de delicadeza e brutalidade. Quando a noite findava, ela interrompia a história, fato que levava o rei a preservá-la e a indagá-la na noite seguinte sobre a continuação da história, até se completarem mil noites. O rei, nesse período, dormiu com a jovem,que então teve um filho dele, mostrou-lhe a criança e o inteirou de sua artimanha; assim, passou a considerá-la inteligente, tomou-se de simpatia por ela e lhe preservou a vida. Dinarzad  apoiava Saharazád em suas artimanhas.

Livro das mil e uma noites foi traduzido diretamente do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, divido  em dois volumes contendo o ramo sírios das fábulas, e dois volumes do ramo egípcio. O quarto volume do ramo egípcio contém as histórias de Aladim e de Ali Babá, as mais conhecidas de todas.

Até o momento eu li os dois volumes do ramo sírio. As histórias são, de certa forma, amarradas através de personagens que se sucedem, formando um todo coerente. São histórias para adultos, algumas de um amor apaixonado, outras bem picantes.  O volume I apresente uma série de histórias curtas, como O burro, o boi, o mercador e sua esposa  e O barbeiro de Bagdá e seus irmãos, subdivida em várias histórias envolvendo os mesmos personagens. O volume II contém histórias mais longas e igualmente belas, como a do jovem Nurudin Bakkar, que se paixona pela concubina do califa e as consequências desse amor profundo e duradouro que leva os dois a consequências trágicas. Há também a história de Nurudin Haqan, filho de um vizir muito bondoso que ganhara um valor vultoso em dinheiro para comprar uma concubina formosa e inteligente. O vizir encontra a jovem, mas seu filho a engana, tirando-lhe a virgindade. O vizir morre e o jovem Nurudin e a jovem se apaixonam. Nurudin muda radicalmente de vida, dividindo seus bens materiais e seu dinheiro para fazer o bem. Quando fica pobre, busca auxilio a quem havia ajudado e é tratado com desprezo. O final da história é surpreendente.
As mil e uma noites inspirou a escritora Nélida Piñon em belo romance Vozes do Deserto, já comentado neste blog.
    
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Livro das mil e uma noites, volume I: ramo sírio. 2ª ed, SP, Globo, 2005, 424 pp., R$ 55,00

Obs.: os preços de livros que divulgo são os de valor máximo.  Mas se você buscar o livro sugerido no Buscapé, por exemplo, vai encontrar um exemplar novo, às vezes, com preços bem mais acessíveis. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Flecha de Deus

Os nativos da Nigéria, até o momento da colonização inglesa, contavam histórias para ensinar a eles que não importa quão forte ou grande seja um homem, jamais deve desafiar o seu chi, o deus de cada pessoa, que é só dela, responsável por sua identidade e destino.

A partir do momento da entrada do homem branco em suas terras, os povos de Okperi  e Umuaro passaram a ser grandes inimigos. Uma grande guerra selvagem se desatou entre eles, por um pedaço de terra. A inimizade se agravara porque Okperi aceitava missionários e gente do governo, ao passo que Umuaro permanecia atrasada.

Para muitas nações coloniais, a administração nativa significava o governo pelo homem branco. Não era assim que os britânicos pensavam em relação à Nigéria. Eles acreditavam em um governo indireto, baseado em instituições nativas, moldando o modo de pensar do negro africano de acordo com seus interesses.  Os colonizadores escolhiam o chefe nativo a comandar uma comunidade e forneciam a ele suportes da cultura ocidental para poderem governar. Isso quer dizer que esses chefes eram "comprados" com dinheiro, prestígio e bem-estar, para executar a forma de administrar do branco.

Ezeulu, sacerdote de Umuaro, conseguiu compreender o jogo do homem branco: desmanchar seus costumes. Os brancos, sabendo da existência de Ezeulu e de sua influência entre os nativos, mandam chamá-lo para torná-lo um chefe entre os seus, mas Ezeulu não aceita, pois quer proteger sua aldeia. Entretanto, está num dilema, pois proteger seu povo significa isolá-lo do progresso oriundo da colonização.  Com isso, passa a enfrentar ameaças que o colonizador lhe traz, como também dos próprios habitantes de Umuaro, que passam  a duvidar até mesmo de seus rituais e crenças mais antigas.

Chinua Achebe nasceu em Ogidi, Nigéria, em 1930. É um dos mais respeitados escritores africanos da atualidade. Atuou na diplomacia durante os conflitos entre o governo da Nigéria e o povo ibo, no final da década de 1960. Ganhou o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt, na Alemanha, em 2002. Em 2007, recebeu o Man Booker International, um dos mais importantes prêmios das literaturas de língua inglesa.

Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva
    
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Chinua Achebe. A flecha de Deus.  SP, Cia. das Letras, 2011, 342 pp, R$35,00