domingo, 7 de fevereiro de 2016

                                                          Caros leitores,

Retrato de um artista quando jovem, de James Joyce, deveria se postado hoje. Devido a um problema técnico no meu Word, a matéria será publicada no próximo domingo.

Joyce publicou quatro obras fundamentais: o livro de contos Dublinenses, o romance de formação Retrato de um artista quando jovem, Ulysses, que revolucionou o romance, com sua técnica original em narrar a vida de Leopold Bloom em 18 horas do dia ao/06/1904, usando o fluxo de consciência, e Finnegans Wake, onde o autor atinge o ápice do experimentalismo narrativo, criando, inclusive, uma língua nova, o dialeto joyceano.

Dublinenses e o Retrato são importantes, porque Joyce começa, nessas obras, a desenvolver o mito, que tomará lugar primordial no Ulysses e no Finnegans.


Até o próximo domingo.

domingo, 31 de janeiro de 2016

O idiota


  • O Idiota pertence ao ciclo mais criativo de Dostoiévski, quando ele produziu, além deste romance, mais quatro obras-primas: Crime e castigo, Os demônios, e as novelas O eterno marido e Um jogador. É um bom romanc para ser apreciado aos poucos.

O príncipe Michkín, de 26 anos, volta de Varsóvia,  onde fora para tratar-se de epilepsia, para São Petersburgo. Na cabine do trem onde viajava havia dois homens, que se surpreendem ao saber que Michkín era príncipe(*), visto que estava com a roupa surrada e apenas com uma trouxa pequena como bagagem. O discurso aparentemente ingênuo do príncipe provoca risadas, de início, mas depois acaba criando empatia nos demais.Um desses homens é Rogójin, jovem endinheirado que levava uma vida desregrada e que se torna amigo dele, no correr da narrativa. Nessa conversa, Michkín houve pela primeira vez o nome de Nastácia Filíppovna, que terá papel importante na longa história de Dostoiévski, interpondo-se entre Michkín e Rogójin. Bem, o príncipe lhes explica que a pessoa que custeava seu tratamento havia morrido e ele se via forçado a retornar, para procurar o general Iepántchin, cuja esposa era sua parenta distante, mas que lhe havia, aparentemente, negado ajuda. Michkín os procura, porque são os únicos conhecidos em São Petersburgo, cidade que havia abandonado há muito tempo.

O general, ao vê-lo daquele jeito, tem a mesma reação inicial de rejeitá-lo por considerá-lo um tolo, mas acaba se surpreendendo com o tom filosófico de sua conversa e do dom criativo com a caligrafia. O general acaba arranjando um emprego para ele e um mundo perverso acaba se revelando, em contraponto a sua filosofia de vida, que consistia em valorizar a existência humana como a coisa mais importante, rejeitando a violência.Michkín, contrapõe-se, assim, a uma sociedade que estava formando seu caráter burguês, substituindo, gradativamente, a estrutura feudal que predominava fortemente na Rússia do século XIX.

O texto apresenta uma intensidade dramática caracterizada por uma linguagem truncada que contempla fluxos de pensamentos e sentimentos irracionais, descrevendo sentimentos contraditórios e ambíguos, algumas vezes de forma aparentemente indefinida, confusa e irracional. Acontece que Dostoiévski já estava maduro como escritor de grandes romances, com pleno domínio dos fatos e das reações emotivas de cada personagem.

(*) Na Rússia czarista, já foi salientado aqui, que  o título de príncipe equivalia a uma comenda equivalente a duque ou conde, sem lastro de nobreza de sangue.
Tradução de Paulo Bezerra.

                                                paulinhopoa2003@hotmail.com
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Fiódor Dostoiévski. O idiota. 3 ª ed., SP, Editora 34, 2010, 688 pp.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A cartuxa de Parma

Stendhal era simpatizante de Napoleão Bonaparte. Serviu em seu exército durante a guerra, tendo participado da invasão napoleônica à Rússia, por volta de 1812. Apaixonado pela Itália, esteve várias vezes no país, especialmente na região de Milão. Algumas vezes teve de voltar à força para a França, mas sempre buscou uma maneira de retornar à Itália. A cartuxa de Parma, que os críticos consideram a segunda obra-prima de Stendhal, foi escrita em 53 dias, durante o período de trabalho em Civitavecchia.

Fabrice Del Longo, o  herói do romance, vem das categorias mais baixas da sociedade. Filho de um caso de sua mãe com um capitão francês, foi criado como filho pelo marquês Del Longo, mas nunca obteve afeto ou comiseração pela nova família. Lutou com o exército de Napoleão,mas não conseguiu ascender na carreira militar, com a queda o Imperador. Então, o que sobrou a ele foi seguir carreira como seminarista.

Ao contrário de Jean Sorel, de O vermelho e o negro, que acaba rejeitado pela corte, Fabrice cai nas graças da nobreza. Indo a Parma visitar a tia, Fabrice conhece o Conde Mosca, ministro da Guerra, da Polícia e das finanças do príncipe de Parma. O conde simpatiza com o jovem e decide ajudá-lo a ganhar algum destaque na corte.  Fabrice, entretanto, era leviano, mudava muito facilmente de amante. Envolve-se com uma atriz de teatro que era cortejada por um rapaz da trupe.  Uma noite, os dois se desentendem, Fabrice o mata num duelo e acaba preso. Começa, então, uma intensa batalha política do Conde e da duquesa sua tia, para evitar que o rapaz seja condenado à morte. Na prisão, ele conhece a jovem Clélia, que soltava pássaros próximo ao presídio onde se encontrava. Os dois acabam se apaixonando.

Tradução de Rosa Freire D'Aguiar    

                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Stendhal. A cartuxa de Parma.SP, Penquin Companhia, 2012, 616 pp, R$ 21,60  

domingo, 17 de janeiro de 2016

Memórias do subsolo

Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a “pregar peças” nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.

Escritor requintado, Dostoiévski desenvolve em Memórias do subsolo, uma história interessantíssima, através de um  narrador-personagem, que nos conta  aspectos de sua vida, onde investe contra tudo e contra todos, mas sobretudo contra a própria consciência de si mesmo, levada com toques de humor negro.

Na abertura da primeira parte,  O subsolo, um homem precisa passar por 40 anos de solidão e sofrimento interior, a idade de sua vida, para perceber que amar, para ele, consistia em tiranizar e dominar moralmente o outro. Não concebia o amor senão como uma luta em que o outro precisa ser subjugado. Ele se dá conta disso agora, quando está irremediavelmente só.

Ele nos conta, então suas memórias, que consiste na segunda parte da novela,  A propósito da neve molhada, onde ficamos sabendo de seu relacionamento com os demais estudantes no internato onde vivia. A humilhação a que se submetia para confrontar sua pretensa autoridade perante os demais e onde sempre acabava ofendido. Até que conhece Liza, uma prostituta, que houve sua dura confissão e apieda-se dele, porque o ama. E é quando ele a rejeita e a humilha, justamente por não conhecer, até então, o outro amor, a compaixão.

Traduzido diretamente do russo por Boris Schnaiderman.
              
                                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Fiódor Dostoiévski. Memórias do subsolo. 6ª ed., SP,Editora 34, 2009, 152 pp. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

Recordação da casa dos mortos

O narrador de Recordação da casa dos mortos encontra-se  numa região distante da Sibéria da segunda metade do século XIX, onde havia  cidadezinhas com no máximo dois mil habitantes, feitas de madeira rude espalhadas entre as estepes, as montanhas e florestas de difícil acesso.  Nelas habita um grupo pequeno de inspetores policiais, assistentes e outros servidores subalternos. Muitos dos que vivem ali são oriundos de Moscou e São Petersburgo e exercem um papel de nobreza local. Também há os que se apegaram à terra por questões práticas de sobrevivência. Numa dessas cidadezinhas, o narrador-personagem vem a conhecer Alexander Petrovich, um colono que fora um nobre proprietário rural, que estivera cumprindo pena de dez anos de trabalhos forçados num presídio de segunda classe, por ter assassinado a esposa. Embora fosse obrigado judicialmente a viver nos arredores, mora na própria cidade, com a finalidade de se dedicar a ensinar crianças, atividade com a qual ganha seu sustento. O narrador relata, assim, os fatos que Petrovich lhe conta em sua experiência na prisão. Dostoiévski nos mostra a vida de pessoas que, por detrás da máscara criminosa, transpiram vidas que merecem compaixão.

Havia na prisão assassinos por impulso e por profissão: membros de quadrilhas, ladrões, vigaristas. Mas cada um tinha sua história tão enevoada e desconcertante, como tentarmos enxergar através da embriaguez, lhe conta Petrovich. Fala do momento penoso em que ele e os demais presos eram trancafiados em seus alojamentos, depois de saírem do trabalho ao ar livre e dormir em um catre restrito a três tábuas. Os trabalhos forçados eram compulsórios, não havendo apelação, os prisioneiros dedicavam umas tantas horas à tarefa diária e depois retornavam ao presídio. Odiavam o trabalho. Mas, sem ele, um homem não suportaria a prisão.

O personagem de Dostoiévski retrata uma experiência que o próprio autor sentiu na pele, ao ser preso em 1848, quando participava de uma reunião de revolucionários para depor Nicolau I. Dostoiévski, que participava desses encontros tinha então 24 anos e estava interessado mais no ambiente intelectual que dominava as reuniões, do que discutir ideias socialistas. O grupo é preso e condenado à morte. Na hora em que estavam perfilados diante do pelotão de fuzilamento, vem a notícia de que a pena havia sido comutada para serviços forçados numa prisão da Sibéria. O fuzilamento era um encenação de Nicolau I para aterrorizar os condenados.

Ao final do romance há, em anexo, uma carta de Dostoiévski ao irmão solicitando ajuda financeira e  o envio de livros, pois após 4 anos de prisão, o autor russo teria de cumprir um tempo servindo ao exército na Sibéria e estava se preparando para ser o escritor fantástico, de obras-primas memoráveis.

Traduzido do russo por Nicolau S. Peticov
  
                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Fiódor Dostoiévski. Recordações da casa dos mortos. SP, Nova Alexandria, 2010, 324 pp.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Humilhados e ofendidos

O leitor que deseja se aventurar em Dostoiévski, para conhecer e se surpreender com sua valiosa literatura, pode começar com Humilhados e ofendidos, escrito em 1861, uma de suas obras iniciais. Sua literatura se caracteriza por um realismo romântico. Ao mesmo tempo em que revela as mazelas sociais, delineando seus vários caracteres humanos, privilegia os personagens que têm uma índole boa e sensível, sem traços de pieguice.

Humilhados e ofendidos conta a história de Vânia. Ele vem de uma família humilde que enfrenta dificuldades financeiras para sustentar o filho. Quando menino, passa, então, a ser educado por um proprietário de terras descendente de uma boa família, mas que com o tempo vai perdendo o poder econômico. Esse senhor é um humanista, pois se preocupa em ajudar os que necessitam de apoio. Assim, adota Vânia, que passa a conviver com a família, que tem uma menina, Natascha. O convívio das duas crianças é intenso, como dois irmãos.

Quando chega à adolescência, Vânia vai estudar em São Petersburgo, para se tornar escritor. É quando percebe que ama Natasha como mulher. Ela, entretanto, está apaixonada por Aliocha, filho do príncipe Valkovski. Na Rússia czarista, o derivativo príncipe era um título que o Czar dava a pessoas que se destacavam de alguma forma na sociedade. Não significa, portanto, descendência monárquica. O príncipe, pessoa fria e calculista, pensa que, quanto maior a magnanimidade  humana, mais nojenta ela é. Valkovski gosta de dinheiro e precisa dele. Assim, busca, de forma ardilosa, afastar Aliocha de Natasha, para casá-lo com uma jovem endinheirada. Aliocha, de caráter  frágil,  não tem força de vontade suficiente para enfrentar o pai. Por isso mesmo, fácil de ser manipulado. Para azar de Vânia, Natasha tem nele um confidente. E acaba revelando-lhe que ela e Aliocha pretendem fugir para viver juntos e assim forçar os pais, dela e de Aliocha, a aceitar o matrimônio. Mas não é o que acaba acontecendo.

Paralelamente, Vânia se aproxima de Nelli, uma menina pobre e doente, vindo a descobrir que é filha do príncipe que enganara sua mãe de forma vil. Nelli vai ter papel preponderante na história, especialmente para que possamos conhecer o caráter íntegro de Vânia. As personagens de Humilhados e ofendidos, e de quase toda a literatura de Dostoiévski, têm consciência de sua condição de agredidos e não aceitam a humilhação e a ofensa de forma passiva, lutando contra isso, para provar sua dignidade.

Dostoiévski preocupava-se com a enorme distância entre os camponeses e a classe alta ocidentalizada. Os quatro anos em que viveu preso na Sibéria devem ter contribuído para essa postura humanitária, quando conviveu em pé de igualdade com os presos camponeses, que lhe deram um conhecimento único da mentalidade do homem russo e mostrado o quanto eram quiméricas todas as expectativas revolucionárias dos intelectuais  radicais, com os quais o escritor convivia. Em 1849, Dostoiévski, de forma desavisada, participava de uma dessas reuniões, cujo objetivo era conspirar contra o Czar. Este descobriu o encontro, mandou prender a todos e condenou Dostoiévski à morte por fuzilamento. Na hora da execução, o Czar comutou-lhe a pena de morte para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Na verdade, o ato de execução havia sido uma farsa do Czar para assustar Dostoiévski. Esse fato traumatizou o escritor e influenciou profundamente sua obra.

Tradução direta do russo de Kkara Gourianova.

                                  paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Fiódor Dostoiévski. Humilhados e ofendidos. SP, Nova Alexandria, 2013, 320 pp, R$ 39,90

domingo, 27 de dezembro de 2015

Jacob von Gunten: um diário

O romance Jacob von Gunten: um diário, do escritor suíço-alemão Roberto Walser (1878/196), dá valor a coisas insignificantes, de forma alegórica. Publicado em 1909, o relato da trajetória do jovem de origem supostamente nobre que ingressa no Instituto Benjamenta para aprender a servir é, hoje, considerado uma das obras-primas da literatura ocidental.

Jakob von Gunten foi aconselhado, desde pequeno, a começar bem de baixo, já que nas alturas não vale a pena viver, já que nas alturas predomina a ideia de quem julga que já fez o bastante, e isso restringe. Seu irmão mais velho lhe que dizia que era um zero à esquerda, mas quando se é jovem, um zero à esquerda é o que se deve ser, porque nada é mais pernicioso do que tornar-se alguma coisa ainda cedo, muito cedo. Mas que Jacob nunca se sentisse um excluído, pois exclusão é coisa que não existe, talvez porque  não haja nada no mundo do que seja verdadeiramente digno de almejar. No entanto, ele deveria se empenhar, empenhar-se até com paixão. Jacob deveria ter esperança, e no entanto, não esperar coisa nenhuma.

Jacob foi enviado ao Instituto Benjamenta para aprender o ofício de servir os outros. Lá, percebeu que não se aprendia quase nada, os professores, quando não faltavam, não ensinavam nada, com exceção da esposa do diretor do instituto, figura com a qual Jacob pôde ter algum afeto.

Assim, Jakob começou a se dar conta de que era um pouco mais do que um zero à esquerda. Passou a valorizar em si que há mais vida oculta no gesto de abrir a porta do que numa pergunta, pois tudo o incitava a perguntar, comparar e recordar. Pensar lhe era necessário. Pensar é resistir, ainda que fosse mais refinado submeter-se ao invés de pensar.

Então, Jakob perguntou ao diretor se havia alguma perspectiva de ele conseguir um emprego para servir e sair dali. O diretor lhe respondeu que era melhor para ele permanecer ali mais um pouco, para adquirir um pouco mais de desleixo, uma certa preguiça mental, uma memória mais curta, já que a falta de virtudes desempenha papel bastante grande na existência humana.

Aos poucos, seus colegas vai indo embora, arrumando uma ocupação, mas Jacob acaba permanecendo, por insistência do diretor, até ficarem somente os três, Jacob, o diretor e sua esposa, que morre no final.

Walser, apesar de contar com um seleto grupo de admiradores, nunca conseguiu ter sucesso de público, e nem mesmo obter uma sobrevivência digna, a partir de seus livros. Vindo de família de poucos recursos, levou durante toda a vida duas obsessões: caminhar e escrever. Foi caminhando que ele morreu, na neve, numa noite de Natal, quando já estava havia mais de vinte e cinco anos internado num sanatório para doentes mentais, diagnosticado como portador do transtorno de Asperger (uma espécie de autismo), por ser desajeitado e ter uma linguagem atípica ou excêntrica, além de não se adequar convenientemente ao convívio social.

Inicialmente, sua prosa curta e aparentemente caótica, foi ofuscada pela prosa de Franz Kafka, que era admirador de Walser.

Tradução de Sergio Tellaroli

                                          paulinhopoa2003@hotmail.com
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Robert Walser. Jakob von Gunten: um diário. SP, Cia. das Letras, 2011, 152 pp.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Três histórias curtas de Kafka

Kafka produziu pouco como escritor, mas o que escreveu trouxe uma contribuição fundamental à literatura moderna. Criou um estilo que compreende situações inusitadas e fora do comum, distorcendo a realidade, que caracteriza sua literatura como expressionista. Foi visto como incompreensível, um psicopata, confundiram sua personalidade com a dos seus personagens. Kafka trata a metáfora como coisa real. Mas não é difícil. Por trás das situações absurdas, percebe-se um humor às vezes corrosivo, às vezes fino e sutil. Quem quiser se aventurar em sua literatura, comece por seus textos mais curtos. Aqui vão alguns exemplos:

O veredito, escrito em 1912, aborda uma situação absurda: Georg Bendemann, um jovem comerciante, tem um amigo distante que vive em São Petersburgo, onde vive, também,  do comércio. Os dois tinham o hábito de se comunicar seguidamente, até que os assuntos e as cartas foram escasseando, a ponto de Georg não receber mais cartas. Agora, decide escreve-lhe, para comunicar que está noivo.

Quando conta ao pai doente sobre a carta, o velho questiona o filho de forma inesperada e brusca, se esse amigo ao qual escreve realmente existe. Depois, num comportamento exacerbado, atira as cobertas da cama para o ar, e diz que esse amigo existe, sim, mas que escreveu a ele, contando situações constrangedoras do filho, por isso esse amigo já quase não lhe escrevia mais. Num êxtase de loucura, espezinha o filho, criticando-lhe o amor com a noiva, e o condena à morte por afogamento. Georg, sentindo-se expulso do quarto, sai de forma estabanada em direção à rua, num cenário desolador, num deslocamento do mundo real, até o final trágico.

***

Na colônia penal, redigido em 1914, narra de forma inusitada a visita de um observador estrangeiro à colônia penal onde será executado um prisioneiro que não sabe por que está preso e não sabe que está sendo condenado à morte.

O oficial que mostra o equipamento onde será executado o condenado, conta-lhe que a máquina é um aparelho singular, mas que apresenta alguns problemas técnicos devido ao descaso do novo comandante, que ao contrário do anterior, mostra-se conivente com o perdão, ao invés de executar as ordens como são prescritas desde sempre.

Ao questionar o motivo da execução, o oficial lhe conta que o condenado é um soldado da colônia, ordenança do capitão do presídio, destacado a ficar alerta durante seu sono. Uma noite, o capitão decidiu verificar se o ordenança cumpria seu dever e pegou-o dormindo, deitado em frente à porta. Imediatamente, pegou o chicote e vergastou o rosto do soldado. Este, em vez de se levantar e pedir perdão, agarrou o superior pelas pernas e disse-lhe: "Atire fora o chicote ou eu o engulo vivo!". O capitão dirigiu-se ao oficial, relatando o fato e este, de imediato, lavrou a sentença de morte do soldado. A visita continua, perguntas feitas, respostas dadas, até o momento em que um acontecimento inesperado traz à tona uma situação absurda.

Repleto de metáforas exageradas, a novela revela uma crítica mordaz às atitudes burocráticas presentes na sociedade tcheca.

***

Um Artista da Fome, um conto publicado em 1922, apresenta a vida de um talentoso jejuador”. Sua arte consistia em não comer, a comida dava-lhe náuseas. Se dependesse dele, deixaria de comer para sempre, mas seu empresário estabeleceu o prazo de 40 dias sem comer nada, exposto em uma jaula, acompanhado de seguranças para vigiá-lo e, assim, dar veracidade a sua experiência de completo jejum. Viajava por várias partes do mundo com seu espetáculo.

O ambiente em que o artista vivia era, basicamente, na jaula. Além das palhas, tinha um único objeto: um relógio. Através dele, o artista media sua capacidade de fidelidade à sua arte. No quadragésimo dia, abriram-lhe a jaula e serviram-lhe um banquete, mas ele sentiu-se ofendido,  era uma situação que desmerecia seu ofício, uma não compreensão de seu trabalho.
Independente de reconhecimento, o mestre da fome nunca deixou de jejuar. Com o tempo, o espetáculo da fome perdeu o interesse do público. Como sua plateia desaparecia, demitiu seu empresário e se empregou num circo. Porém, sua jaula foi colocada junto a dos animais, para ver se o público que admirava os bichos pudesse, quem sabe, olhar para ele. Em vão.
Certo dia, o inspetor do circo percebe que a jaula está vazia. Foram verificar, o homem estava debaixo das palhas. Já muito fraco e definhando, diz suas últimas palavras: Eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.

Após sua morte, sua prisão tornou-se o lar de bem alimentada pantera.


Todas as traduções são de Modesto Carone

paulinhopoa2003@hotmail.com
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Franz Kafka. O veredito/Na colônia penal. SP, Cia. das Letras, 1998, 88 pp.

__________ Um artista da fome/A construção. SP, Cia. das Letras, 1998, 116 pp.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Sobre meninos e lobos

1975. Sean, Jimmy e Dave brigam na rua de uma cidade americana. Sean é o que tem uma vida melhor, por isso seus pais permitem que brinque com os outros dois perto de casa, já que Dave, o mais pobre, mora num conjunto habitacional de condições precárias. Um carro com dois homens se aproxima dos meninos, o motorista se apresenta como policial e os convida para entrar no carro. Dois deles não aceitam o convite, mas o mais pobre, Dave, é levado embora. Quatro dias depois, Dave reaparece, sem demonstrar pistas concretas do que realmente aconteceu. Os homens são presos, um morre na hora e o outro se mata na prisão.

25 anos depois, os três estão casados. Sean é abandonado pela esposa, Dave continua morando no mesmo conjunto habitacional com a esposa e um filho, e Jimmy já foi preso como ladrão, mas busca se reabilitar. Ele tem uma filha de 19 anos, Katie,  que se prepara para fugir de casa com o namorado, quando é brutalmente assassinada num sábado à noite, quando saía de um bar, bêbada. Nessa mesma noite, quase na mesma hora, Dave chega em casa com a roupa suja de sangue e diz à mulher que sofreu um ataque de um homem e que talvez o tenha matado.

Sean, que é policial, começa as buscas para achar o corpo de Katie, que se encontra desaparecida. Muitas coisas acontecem, até que as suspeitas recaem sobre Dave. Está formada a trama de uma história policial acima de qualquer suspeita, Sobre meninos e lobos, de Dennis Lehane.

Sobre meninos e lobos é um ótimo romance policial, que amarra a atenção do leitor a cada capítulo, com situações novas e desafiadores. É daquelas histórias policiais que não subestimam a inteligência de quem lê.

Tradução de Luciano Vieira Machado.

                               paulinhopoa2003@hotmail.com.br
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Dennis Lehane. Sobre meninos e lobos. SP, Companhia das Letras, 2002, 486 pp.

domingo, 6 de dezembro de 2015

De profundis

De profundis compreende a carta que Oscar Wilde (1854/1900) escreveu na prisão para seu desafeto, Alfred Douglas, o Bosie, relatando a mágoa e a decepção com a  atitude do amante, de nunca tê-lo visitado, enquanto esteve preso. Wilde confessa-lhe que nos  quase dois anos na prisão, seu temperamento o fez passar por momentos de  desespero,  sofrimento, raiva, amargura,  rancor e uma angústia que o fazia soluçar, um sofrimento que não encontrava palavras para expressar-se, um arrependimento mudo, um pesar silencioso envolto na mais profunda solidão.

Graças a seu bom comportamento na prisão, Wilde conseguiu papel para escrever De profundis. A cada dia, o escritor ganhava uma folha de papel onde escrevia e que lhe era retirada no dia seguinte, quando ganhava outra folha nova. Assim, não pôde  revisar seu texto. Contudo, a obra consegue manter uma estrutura razoavelmente coerente. Quando saiu da prisão, entregaram-lhe o texto, que deixou a seu amigo fiel, Robert Ross, para que o guardasse. Parte do texto foi publicado em 1905, após a morte do escritor, depois de uma jogada astuta de Ross, que impediu Alfred Douglas de apossar-se da carta para fins comerciais.  A versão definitiva foi publicada em 1962, sob os cuidados de Vyvyan Holland, filho de Oscar Wilde.

Oscar Wilde foi obrigado a provar, também, da desgraça, da pobreza, do remorso, da humilhação e da consciência de que errara ao apaixonar-se por Douglas, alguém que ele sabia ser imprudentemente esnobe, que o abrigava a pagar todas suas extravagâncias. Recrimina a presença constante do jovem como absolutamente destrutiva, que chegou até mesmo a paralisar a sua capacidade de criar. Queixa-se da atitude indecorosa de Douglas, ao divulgar suas cartas íntimas à imprensa londrina, para angariar notoriedade. Fala de sua bancarrota, após o malfadado processo que moveu contra o pai de Douglas, por difamação, ficando na miséria.  Isso constitui motivo de grande amargura para Wilde, que não poderia sequer publicar um livro sem a permissão expressa do síndico da massa falida, ao qual devem ser submetidas todas as suas contas, nem assinar um contrato com um empresário teatral, nem produzir qualquer peça sem que o dinheiro recebido passasse para as mãos do pai de Douglas  e de alguns outros credores.  Menciona a situação constrangedora de se ver afastado da esposa e filhos, que tiveram de trocar o sobrenome para se livrarem do escândalo. Culpa Alfred Douglas de ser o principal incentivador do processo contra o pai, deixando-o, a seguir, sem o conforto necessário que o escritor tanto necessitava em sua vida de clausura. Ficamos, também sabendo da conversão de Wilde ao cristianismo.

A partir do momento em que sai da prisão e mesmo durante seu exílio parisiense, Wilde nunca mais deixou de ser jogado aos leões, vilipendiado e demonizado. Inclusive seus livros, entre os quais O retrato de Dorian Gray, foram retirados de circulação. E ainda que as representações das peças continuassem, por princípios comerciais, seu nome foi pura e simplesmente apagado dos cartazes  dos programas, o que, por consequência imediata, o privou de todos os direitos autorais e, por conseguinte, de sua renda.

Todo o rancor que Oscar Wilde havia desabafado em sua carta contra Alfred Douglas cai por terra, quando ele volta a procurar o amante novamente, alegando como causa disso sua imensa solidão e abandono: " Não se pode criticar quem foi abatido". Continua a gastar o pouco dinheiro que tem com noitadas extravagantes e bebedeiras. A ex esposa, que lhe havia concedido uma pensão para que Wilde se mantivesse em suas necessidades básicas, cancelou as remessas de dinheiro, enquanto ele estivesse com Douglas.

Wilde e Bosie viajam pela Itália e em Nápoles  Alfred o abandona de vez. O escritor volta a viver em Paris, em situação muito precária, ajudado por alguns amigos. Engorda exageradamente e passa quase todo o tempo bêbado. A figura de dândi irreverente na sociedade londrina transforma-se na de um quase maltrapilho.
Oscar Wilde foi traído pela ingenuidade de se considerar inatacável, devido a sua posição de sucesso e de dinheiro.A credibilidade de Oscar Wilde será reabilitada algum tempo depois de sua morte, quando seu nome volta a ser mencionado junto a suas obras de sucesso.

Quem quiser aprofundar seu conhecimento sobre a vida e o drama de Oscar Wilde pode consultar a biografia escrita sobre ele, por Daniel Schiffer. A obra peca pela insistência do biógrafo em rotular o artista como gay. Faltou um pouco mais de profundidade investigativa na qualidade e na importância de Oscar Wilde para a literatura e a arte. Mas vale a leitura.

O leitor deste blog pode aguardar para breve uma resenha de O retrato de Dorian Gray, obra síntese dos ideais da arte pela arte, muito defendida por Wilde, de priorizar a beleza na criação artística.Amai a arte por ela mesma, dizia Oscar Wilde.

                                paulinhopoa2003@hotmail.com
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Oscar Wilde. De profundis e outros escritos do cárcere. Poa, LPM, 2011, 176 pp. Tradução de Júlia Tertamenzy e Maria Ângela de Aguiar.
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Daniel Salvatore Schiffer. Oscar Wilde. Poa, LPM, 2010, 336 pp. Tradução de Juliana Canêdo.

domingo, 29 de novembro de 2015

Giovanni

Giovanni,  um jovem italiano, perdeu o filho de forma trágica e abandonou a família, para a viver em Paris, como forma de esquecer a perda que tivera. De origem humilde, conheceu Guillaume, pederasta, que lhe dá emprego de garçom em seu estabelecimento, frequentado por homossexuais. Lá, conhece David, um americano que se mudou para Paris, em busca de um sentido na vida. É David quem nos conta a história de Giovanni.

Enquanto morava na América, David já tivera uma experiência homossexual com um vizinho, mas em Paris tinha uma noiva, também americana, com quem pretendia casar-se. Era sustentado pelo pai, viúvo, que o queria de volta ao lar. Quando conheceu Giovanni, a noiva de David viajava pela Espanha. Os dois se atraem, passam a dividir o quarto de Giovanni, até que o jovem se apaixona por David, mas a noiva volta a Paris, para seu alívio e os dois rompem. Giovanni perde o emprego, passa a viver de michê nas ruas de Paris, até que Guillaume é assassinado e a culpa cai sobre Giovanni.

David, o personagem de James Baldwin, vive em uma época (década de 1950) em que a homossexualidade era vista como uma perversão, o amor entre iguais, via de regra, era visto como uma amizade centrada no sexo. O termo pederasta ilustra bem essa questão. Se a paixão aflorava, era combatida por uma homofobia expressa pelo próprio homossexual, que não aceitava esse "estranho amor". É o que acontece com David. Ele pensa que tipo de vida  poderia ter naquele quarto imundo,que vida dois homens poderiam ter juntos, afinal? Todo aquele amor que Giovanni lhe falava, não seria apenas o desejo dele se sentir mais forte? Dele sair a trabalhar para trazer o dinheiro para casa e desejar que David ficasse em casa lavando os pratos, fazendo a comida e limpando este cubículo miserável e que se deitasse em sua companhia à noite, sendo sua menina? Quando sente que  Giovanni o ama, o abandona e busca a saída no casamento com a americana, que acaba não acontecendo, passando David a viver em completa solidão.

James Baldwin (1924/1987), homossexual assumido, lutou fortemente contra a opressão às minorias, na década de 1960, dizendo aos brancos o que os negros americanos pensavam e sentiam. 

Há outro romance na literatura inglesa, com temática parecida, Maurice, de E. M. Forster. Menos o final, que não é triste para Maurice, que decide assumir sua orientação sexual e buscar a felicidade, ao contrário do amante, que se casa. O romance de Forster se passa na Inglaterra da era pós-vitoriana, onde a homossexualidade também era considerada uma doença e crime passível de prisão.

A obra encontra-se esgotada, mas há livrarias que ainda possuem exemplares à venda. E há os sebos.

Tradução de Affonso Blacheyre

                     paulinhopoa2003@hotmail.com
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James Baldwin. Giovanni. Osasco, Novo Século, 2008, 232 pp.

domingo, 22 de novembro de 2015

A autobiografia de Alice B. Toklas: Gertrude Stein

Gertrude Stein resolveu emprestar a voz de narradora e sua amiga Alice Toklas, para escrever sua autobiografia que compreende 25 anos de vida em comum da duas, a partir de 1907, ano em que Gertrude conheceu Alice em Paris. Gertrude e  Alice, sua secretária e companheira de vida afetiva, receberam em sua residência no 27, Rue de Fleurus, em Paris, no início do século XX até o final da primeira guerra mundial, a nata da intelectualidade francesa e internacional: escritores, pintores, músicos, críticos de arte e jornalistas. Manteve amizades, às vezes permanentes, outras nem tanto, com artistas como Braque, Matisse, Picasso, Apollinaire, Max Jacob, Eric Satie, Ezra Pound, Jean Cocteau, Juan Gris, Paul Robeson, Ernest Hemmingway e por aí afora. A casa de Gertrude e Alice tornara-se, assim, o centro das atividades culturais na capital francesa. Pouco a pouco as pessoas começaram a ir à Rue de Fleurus para ver os matisses e cézannes. O pintor Matisse levava gente, todo mundo levava alguém, e chegavam a qualquer hora. Quando isso começou a ser um incômodo a elas, começaram as reuniões nas noites de sábado.

Gertrude Stein trocou os Estados Unidos por Paris em 1903, junto com o irmão. A família já havia morado em Viena anos antes, mas regressara aos Estados Unidos. Os dois eram obcecados por pintura e começaram a colecionar quadros de pintores, na época, ainda não tão famosos, como Matisse e Braque, assim como Pablo Picasso e Juan Gris. Gertrude Stein já era conhecida como poeta e escritora. Ela e Alice conheceram-se na capital francesa em 1907, quando Alice decidira viver em Paris. Dois anos depois já viviam juntas, numa relação profissional e afetiva que se estabeleceu até a morte de Gertrude, em 1946.

Foi também nessa época efervescente que Gertrude Stein adquiriu o hábito de escrever à noite. Só depois das onze da noite ela podia ter certeza de que ninguém ia bater na porta do estúdio. Era influenciada pelo ruído das ruas e pelo movimento dos automóveis. Sempre possuída pela paixão intelectual da exatidão ao descrever a realidade interna e externa,  produziu uma simplificação por essa concentração, e como resultado a destruição da emoção associativa na poesia e na prosa. Ela sabia que o resultado emocional de beleza, música ou decoração nunca devem ser a causa  de emoção nem devem ser o material de poesia e prosa. Nem deve a própria emoção ser a causa da poesia ou prosa. Estas devem consistir numa exata reprodução de uma realidade seja externa, seja interna.

Quem quiser conhecer e ouvir alguma coisa da poesia de Gertrude Stein, pode ouvir a faixa Portrait of Gertrude, no cd Fábrica do Poema, de Adriana Calcanhotto. Gertrude recita trecho do poema  Portrait of Picasso, escrito em 1923. O encarte do cd contém a tradução do poema feita por Susana de Moraes. Existem outras gravações de Gertrude Stein declamando seus poemas no site: 

https://www.youtube.com/watch?v=FJEIAGULmPQ

Como gostosa sobremesa, existe um livro  do jornalista Sérgio Augusto, onde traça a história de como tudo começou na década de 1920 e traça, também,  um guia de viagem interessantíssimo de Paris, nas pegadas de Hemingway, Ftzgerald & cia .

A tradução da autobiografia é de José Rubens Siqueira
   
                                                          paulinhopoa2003@hotmail.com
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Gertrude Stein. A autobiografia de Alice B. Toklas: Gertrude Stein. SP, Cosac Naify, 2009, 288 pp.

Sérgio Augusto. E foram todos para Paris. Rio, Casa da Palavra, 2011, 128 pp.