domingo, 28 de junho de 2015

Relatório ao Greco

Nunca tinha encarado meu pai com ternura; o medo que ele provocava em mim era tão grande que todo o resto, amor, respeito, intimidade, desaparecia. Suas palavras eram pesadas, e seus silêncios ainda mais pesados; raramente falava e, quando abria a boca, suas palavras eram medidas, bem pesadas, não deixava espaço para refutação; tinha sempre razão e, ao que parece, isso o tornou invencível. Eu pensava frequentemente: "Ah, se ele não tivesse razão, eu faria das tripas coração e o refutaria" mas ele nunca deu ocasião para isso, e isso era algo imperdoável. Era um carvalho de tronco duro, com folhas espessas e frutos amargos, sem nenhuma flor; ele engolia toda a força a seu redor e toda e qualquer árvore que estivesse à sua volta, murchava; eu murchava da mesma forma à sua sombra e não queria viver sob sua respiração; quando eu era jovem, dentro de mim, explodiam rebeliões delirantes, estava pronto a me lançar em aventuras perigosas; mas, pensava em meu pai, e meu coração se acovardava; eis porque, ao invés de me tornar um grande combatente em ação, por medo de meu pai, obriguei-me a escrever aquilo que queria fazer; meu sangue converteu-se em tinta. (p.446/7)

O temperamento do pai de Kazantzákis reflete o ambiente de  Megalo Kastro (atual Heraklion, capital de Creta), que o autor descreve como um lugar governado por uma lei severa em que ninguém levantava a cabeça, pois estava acima deles; a cidade toda era uma fortaleza, cada coração, também, uma fortaleza submetidos ao poder dos turcos, na passagem para o século XX. Ficavam trancafiados dentro de casa, vendo os turcos passar amedrontando a população, ouvindo vozes e gemidos dos feridos. Nesse clima de terror, Kazantzákis menino via a imagem do pai de pé, atrás da porta, com fuzil armado, pronto a matar a família, caso a casa fosse invadida, para que não caíssem nas mãos deles.

Em sua juventude, sob a influência de filósofos importantes,inclusive Nietzsche, passou a questionar a participação do homem na evolução do mundo. Havia chegado o momento do homem aceitar dentro do seu coração todas as batalhas e todas as esperanças e colocar ordem no caos sem esperar nada de Deus; de manter ereta a sua liberdade pessoal para se apresentar de pé quando chegasse o momento; de transformar a insanidade que rodeava sua juventude, os gritos covardes numa única palavra certa. Kazantzákis encontrara sua identidade como escritor.

Fala do amigo Yóryis Zorbás, que ele eternizou como Aléxis Zorbás em seu romance famoso que o alimentou espiritualmente pela vida toda. Zorbás tinha tudo que um escritor precisava para se salvar: a visão que abarcava tudo que alimenta a vida, de forma rápida; a criatividade, a ingenuidade de ver tudo pela primeira; a coragem de rir de seu próprio espírito.

Vale muito a pena a leitura de Relatório ao Greco.

Tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão

           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Níkos Kazantzákis. Relatório ao grego. Rio, Cassará, 2014, 488 pp. Valor: de 80 a 100 reais o exemplar novo.

domingo, 21 de junho de 2015

Stoner

William Stoner, filho de agricultores humildes, vai estudar na Faculdade de Ciências Agrárias, da Universidade de Columbia, Missouri, a pedido do pai. Torna-se calouro no ano de 1910. Mas, através das aulas de inglês, entra em contato com a literatura e toma-se de paixão, especialmente, pela poesia medieval inglesa. Muda de curso. Incentivado por esse professor, faz doutorado e ingressa na Universidade, como professor assistente, função que vai exercer durante toda a vida acadêmica. Casa-se, vive uma vida comum, atravessando os conflitos de duas guerras mundiais, até morrer em 1956, sem deixar nada de significativo em termos de produção de conhecimento. Só que as coisas não terão uma aparência assim banal nas entrelinhas de Stoner, romance lançado em 1965 e recém-publicado pela nova editora, Rádio Londres.

Ainda jovem, Stoner casa-se com Edith, uma jovem esquisita e silenciosa, tanto quanto ele. Os dois casam virgem. Logo, Edith passará a desenvolver um ódio gradativo ao marido, passando a desenvolver um comportamento meio esquizofrênico. Nasce-lhes a filha, Grace, que a mãe trata de separar do pai, para agredi-lo. Depois expulsa o marido do quarto, depois desmancha-lhe o escritório de estudo e o expulsa para uma peça inadequada no fundo da casa. Stoner acaba, praticamente, expulso de casa. Na faculdade, aproxima-se de uma aluna, Katherine Driscoll, que havia conhecido em um malfadado seminário, em que bate de frente com a incompetência e arrogância de um aluno despreparado, mas que estava sendo incentivado a ser aprovado "na marra", pelo chefe de departamento, Hollis Lomax, que infernizará sua vida, quando Stoner se nega a aprovar o tal aluno. Com isso,  nunca será promovido na universidade.

O que torna a história de Stoner uma obra-prima, é o brilhantismo de John Williams (1922/1994), através de uma carpintaria literária requintada, onde sobra lirismo e sensibilidade, ao narrar os desmazelos de Stoner de forma a incentivar o leitor a seguir a leitura quase sem parar.Cria, no leitor, uma expectativa de que Stoner venha a reagir a cada ataque da esposa ou de Lomax. O problema é que a todas as adversidades, ele responde: Isso não tem importância!

Há um momento, que considero o ponto alto do livro, em que Stoner e a aluna Katherine se apaixonam e passam a viver um amor intenso e os dois passam a ignorar, ainda que de forma discreta, a opinião das pessoas, mesmo as do campus onde trabalham. Se em casa sua mulher, surpreendentemente parece não se importar com isso, na universidade as coisas se complicam.  Lomax exige que o romance acabe, como isso não acontece, decide expulsar a aluna para atingir Stoner diretamente. Como Stoner não se dispõe a fazer uma mudança radical em sua vida, Katherine decide se demitir e se mudar de Columbia. Então começa a derrocada final de Stoner, ele envelhece precocemente, torna-se um tanto ranzinza, passa a desenvolver a surdez parcial de um dos ouvidos. No final da vida acadêmica, é incentivado a se aposentar. Ele reage, mas meses depois volta atrás. Temos, portanto, a vida de um homem que passa o tempo todo a buscar a imagem de si mesmo e parece não encontrá-la.

Tradução de Marcos Maffei.
            
                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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John Williams. Stoner. 2ª ed, Rio, Rádio Londres, 2015, 320 pp, R$ 33,00


domingo, 14 de junho de 2015

Vida e proezas de Aléxis Zorbás

A obra de Nikos Kazantzákis já foi editado com o título de Zorba, o grego, parodiando o título do filme baseado no livro, lançado em 1964, pelo cineasta grego Michael Cacoyannis. Vida e proezas de Aléxis Zorbás, publicado pela Grua Livros, tem tradução diretamente do grego de Marisa Ribeiro Donatiello e Silvia Ricardino. As tradutoras esclarecem no posfácio que Kazantzákis baseou-se em uma figura real para construir seu personagem, Yóryis Zorbás, que ele conheceu quando explorou uma mina na região do Peloponeso e com quem manteve uma amizade duradoura até a morte de Zorbás.

O narrador-personagem, um escritor cretense (não se consegue dissociar o personagem do autor), vai buscar na memória, devido à saudade, a figura de Aléxis Zorbás, para demonstrar a importância que este teve em sua vida. Os dois se conheceram, quando o escritor pegara um barco para se dirigir a Creta, onde pretendia passar uns dias junto à natureza, para aliviar sua angústia existencial. Durante o trajeto, entram em contato e Zorbás se oferece para ser seu empregado, enquanto estivessem lá. Juntos decidem explorar uma mina. No contato com as pessoas da aldeia onde se hospedam, o escritor conhece uma viúva deslumbrante, que se interessa por ele, enviando-lhe presentes. Mas o assassinato cruel da viúva pela comunidade, motivado por questões de vingança moral, impede que os dois possam engatar um provável romance.

Zorbás, macedônio, era um homem primitivo que passava por cima de questões como razão, moral e honradez, atingindo a essência das coisas de forma original. A melhor forma de comunicação que ele via, entre as pessoas, era a dança e a música. Vivia sempre acompanhado de seu instrumento de corda, o santir. De aspecto rude, mas sedutor e inteligente, dizia não acreditar em nada. Se acreditasse no ser humano, teria de acreditar em Deus e no diabo. O ser humano soava-lhe como um animal, quando se lhe faz o bem, arranca-lhe os olhos. Era curto e grosso, dizia que a velhice não amansa o homem, ao contrário, quanto mais envelhecia, ficava mais selvagem.

O escritor aprendeu com Zorbás que a felicidade pode ser simples e frugal, só é preciso um coração simples e leve para se sentir que tudo isso é felicidade. O ar livre, o mar, o pão  de trigo e um copo de vinho, a bater conversa com Zorbás, que com sua filosofia aparentemente simples da vida, escondia a profundidade da existência humana e do sentido da liberdade.

          paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Nikos Kazantzákis. Vida e proezas de Aléxis Zorbás. 3ª ed, SP, Grua, 2011, 352 p, De 46 a 53 reais. Comprei o exemplar novo na Estante Virtual por 30 reais.

domingo, 7 de junho de 2015

A vida privada das árvores

No começo, a história de Verónica e Julián não foi uma história de amor. Na verdade, eles se conheceram mais por motivos comerciais. Ele vivia, na época, os estertores de um prolongado namoro com Karla, uma mulher distante e sombria que por um triz não virou sua inimiga. Não havia para eles grandes motivos de comemoração, mas mesmo assim Julián ligou, por indicação de um colega de trabalho, para Verónica, a doceira, e encomendou um bolo três leites, que acabou alegrando bastante o aniversário de Karla. Quando Julián foi buscar o bolo no apartamento de Verónica, o mesmo onde vivem agora, viu uma mulher morena e magra, de cabelos longos e lisos, olhos escuros, uma mulher por assim dizer, chilena, de gestos nervosos, séria e alegre ao mesmo tempo; uma mulher bonita, que tinha uma filha e talvez tivesse também um marido. Enquanto esperava, na sala, que Verónica terminasse de embalar o bolo, Julián conseguiu entrever o rosto branco de uma menina bem pequena. Depois houve um breve diálogo entre Daniela e sua mãe, um diálogo áspero e cordial, cotidiano, talvez uma queda de braço sobre escovar os dentes. (pp.14/15)

Verónica é uma jovem que cursa o segundo ano de licenciatura em Artes. Engravidou em segredo sem avisar a ninguém, nem mesmo a Fernando, seu companheiro. Foi quando descobriu que o mundo em que vivia não era aquele ao qual queria fazer parte. Nasce Daniela, a relação com Fernando se esvai. Depois Verónica conhece Julián, professor de literatura em uma universidade de Santiago do Chile. Não se decidiu a fazer uma especialização, devido à necessidade de trabalhar. É também escritor, acabou de terminar um livro. E cuida de um bonsai. Quando começa a história dessas três personagens, Julián distrai a enteada com A vida privada das árvores, uma série de histórias que inventa para fazê-la dormir, já que Verónica não chega em casa, de sua aula de desenho. A espera se alonga, a menina fica cada vez mais desperta com o suceder das histórias, e os pensamentos vão preenchendo o vazio da espera, revelando detalhes da vida de Julián e de Verónica, dando-nos a impressão que há uma distância irreparável na vida de duas pessoas que se gostam.

Alejandro Zambra cria uma narrativa em que a presença de Verónica acontece na memória, já que o motivo que conduz a história é a espera de uma mulher que não está. O autor, através da ausência inexplicável de Verónica, cria um vazio existencial em Julián motivado pela incerteza de amar uma mulher que não conseguiu entender.  Quem é Verónica, por que não aparece, do que estará fugindo? É uma narrativa curta, interessante, de um jovem escritor chileno que está abrindo seu espaço no mercado editorial.

Tradução de Josely Viana Baptista
                           
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br 
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Alejandro Zambra. A vida privada das árvores. SP, Cosac Naify, 2013, 96 pp, R$ 27,00   

domingo, 31 de maio de 2015

Submissão

Na história de Michel Houellebecq (1956), passada em 2022,a França parece viver um período de alternância democrática em que ora um partido de centro-esquerda é eleito por alguns mandatos, substituído por outro de centro-direita, caracterizando um regime que nada mais é que a composição de duas gangues rivais dividindo politicamente o poder. Juntam-se a isso, os muçulmanos, com ações violentas visando provocar, sabe-se lá, uma guerra civil.

Um pouco antes disso, a extrema direita começa a progredir, ressuscitando ideologias fascistas e nazistas, com o incentivo à xenofobia numa França povoada por inúmeros imigrantes advindos de suas ex-colônias africanas. Em 2017, entretanto, o mundo assiste, estarrecido, à reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais direcionado à direita. Um mês depois dessa reeleição, o político muçulmano Mohammed Ben Abbes cria a Fraternidade Muçulmana, que assume uma postura moderada em relação às questões políticas do momento, até que, em 2022, elege Ben Abbes, dotado de uma verdadeira genialidade política, conseguindo controlar os extremistas e promover a união entre os muçulmanos.

Fançois, o personagem solitário de Submissão, é um tipo sombrio, angustiado, depressivo, sem muito gosto pela vida, observando com indiferença o que se passa a sua volta, com a falência da Europa, o declínio de um modelo econômico, a crise do Ocidente e a submissão absoluta da mulher ao homem, do homem a Deus, como vê o Islã ao qual o personagem acaba aderindo.Vive portanto, em uma crise existencial representativa de toda França mergulhada em violência e xenofobia.

Houellebecq é um cronista de seu tempo. Seus personagens circulam em um mundo real, em meio a personagens políticos conhecidos da história da França. François não tem interesse por política, mas a política se interessa por ele. Por isso, os acontecimentos históricos terão um impacto importante em sua vida (conversão ao Islã). O Ocidente vive num individualismo absoluto, onde o que é coletivo perde seu valor. A Fraternidade Muçulmana vem a recuperar esse sistema que o liberalismo econômico havia posto abaixo.A sensação de algo coletivo que é oferecido pela religião.

Submissão foi lançado no momento em que ocorrera o assassinato de jornalistas do Charlie Hebdo, em represália às sátiras que o jornal publicava do profeta Maomé. Submissão, entretanto, é um livro que possui certa empatia com a habilidade política do muçulmano Abbes. Mesmo assim, não escapou de críticas tanto da direita, como da esquerda francesas, levando o autor a se resguardar por questões de segurança.

Vale a pena ler o livro.

Tradução de Rosa Freire d'Aguiar

                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Michel Houellebecq. Submissão. Rio, Objetiva, 2015, 256 pp, Preço: de 20 a 40 reais, novo.



domingo, 24 de maio de 2015

A neve estava suja

O personagem central de A neve estava suja é uma incógnita, quanto mais queremos saber sobre ele (e esse é o trunfo da história) mais ele se torna escorregadio. Frank Friedmaier vive na pensão de Lotte, sua mãe. O lugar é um prostíbulo que atende, em sua maioria, soldados do exército alemão que invadiu Paris. Frank não tem  perspectivas, levando uma vida ociosa, transando com as garotas da pensão ou frequentando um bar em frente, onde tem um amigo, Fred Kromer, criminoso de carteirinha. Tem uma jovem, ainda virgem que o ama, mas que ele prepara para entregar a Kromer, para ser deflorada. Quando começa a história, ficamos sabendo que Frank já matou um homem, oficial do exército, e ficou com seu revólver. Frank mata sem um objetivo específico, só para saber como se sente depois. kromer põe o jovem em contato com o contrabando de relógios. Frank é preso pelos nazistas portando grande quantidade dinheiro e passa a ser interrogado. O que chama atenção é que Frank não expressa o menor desejo de salvar sua vida. Enfrenta os interrogatórios com coragem. Para de se alimentar e entra numa letargia que lhe parece ser fatal. Sua mãe o visita na prisão para lhe dizer que  fechará a pensão e o abandonará.


Georges Simenon ficou famoso com as histórias do detetive Maigret, mas escreveu outros romances de cunho psicológico mais elaborados, como A neve estava suja, considerado sua obra prima, escrito em 1948, quando a segunda guerra recém acabara. 

Tradução de Eduardo Brandão

                      paulinhopoa2003@hotmail.com
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Georges Simenon. A neve estava suja. SP, Cia. das Letras, 2014, 230 pp. Preço de 27 a 34 reais o exemplar novo.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Romeu e Julieta na aldeia


Dois lavradores, Marti (pai do menino Sali, de 7 anos) e Manz (pai da menina Vrenchen) fazem o serviço de lavragem. Próximo à hora do almoço as duas crianças trazem a comida ao pais e permanecem por ali, brincando, até o final da tarde, quando ocorre um fato que põe os dois lavradores em confronto para sempre.

Junto às terras de sua propriedade, havia outra terra de propriedade do avô do violinista negro (um cigano) que ia, aos poucos, sendo tomada pelos dois homens. Os ciganos, assim como outros imigrantes que entravam na Suíça eram considerados ilegais, desprovidos de certidão de nascimento ou de batismo no século XIX, época da narrativa. Nos cantões de Zurique, todos os que não possuíam certidão de nascimento emitido pela localidade, eram excluídos do direito de cidadania. Assim sendo, esses imigrantes, mesmo com propriedade de terra, como o avô do violinista, eram considerados desprovidos de bens. Voltando ao início, no final desse dia, Marti e Manz brigam por um triângulo de terra que um queria tomar para si, mas que o outro também queria. Os dois lavradores entram em disputas judiciais que os levam à miséria, tendo Manz sido obrigado a sair o campo e montar uma taberna na vila, que não deu bons frutos. Marti também passou a arrendar pequena propriedade de terra que antes era sua.

O tempo passa, e um dia Sali e Vrenchen se reencontram, já adolescentes, e se apaixonam. Mas há um elemento trágico na relação dos dois: pelo fato dos pais serem inimigos, não seria possível a eles a concretização desse amor. Os dois acabam fugindo, em busca de um lugar neutro para viver, mas sempre aparecia no caminho deles o tal violinista, que os convidava para viver junto à comunidade nômade excluída, que não ligava para normas morais rígidas, como a obrigatoriedade do casamento. Os dois recusam o convite e partem para um lugar onde possam dançar livremente, longe de olhares. Os dois encontram esse lugar, divertem-se quase a noite toda e decidem, então, firmar um pacto de morrerem juntos para conseguirem ser felizes numa outra vida. Na manhã seguinte os dois corpos são encontrados no rio.

O título da novela de Gottfried Keller (1819-1890) vem emprestado na tragédia de Shakespeare, Romeu e Julieta, mas o mote da narrativa do escritor suíço teve por base uma notícia de jornal publicada num jornal alemão, sobre dois jovens que haviam sido encontrados mortos afogados, com dois tiros no corpo.

Tradução de Marcus Vinicius Mazzari
                                 
                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Gottfried Keller. Romeu e Julieta na aldeia. SP, Ed. 34, 2013, 160 pp. R$ 38,00

domingo, 10 de maio de 2015

A Paixão

A Paixão, do escritor português Almeida Faria (1943), passa-se em uma sexta-feira santa num sítio de lavradores do Alentejo, envolvendo um casal, Francisco e Marina,  com os filhos André, João Carlos, Arminda, Jó  e Tiago, mais os servos da casa, Piedade, Estela e Moisés. Cada um deles com uma história forte de vida, com seus conflitos existenciais.  A primeira parte, A manhã, é um recorte da vida solitária de cada um de seus membros, durante as atividades que executam durante esse período. À tarde, ocorre um incêndio em um dos lugares da propriedade da família. O fogo funciona como o inferno das almas, a luta necessária para que haja a transformação, a ressurreição de uma nova vida, mais justa.  

André, o filho mais velho, representa o antigo, é reacionário, está sempre dormindo e sonhando, envolto em um calor sufocante.  João Carlos, o filho do meio, tem a função de ser o transformador na história narrada. Está sempre alerta, sempre voltado à ação, tem o ímpeto da transformação, é o responsável pela imolação do cordeiro que será servido no almoço da  sexta-feira santa. Funciona também como o homem que luta e é morto para que possa ser ressuscitado como o novo homem português que, historicamente vai acontecer com a Revolução dos Cravos em 1974. O romance foi escrito ainda na era Salazar, em 1966.

O romance represente um recorte sócio-histórico de Portugal na época da opressão salazarista, mas a obra é grandiosa em sua forma poética, como obra de ficção. As imagens presentes na narrativa são muito fortes, impressionantes. A paixão é desses romances que se vai ler várias vezes. É um ritual de vida.
 
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Almeida Faria. A paixão. SP, Cosac Naify, 2014, 224 pp, R$ 44,90

domingo, 3 de maio de 2015

Felicidade e outros contos

Imagina um homem vaidoso, sedutor, grande músico, vivendo em uma nova realidade, um emergente social. Ao lado dele, uma mulher silenciosa que trabalha feito louca, para manter de pé um casamento de evidentes rachaduras. Essa mulher, aparentemente mera figurante, carrega um subtexto que alimenta um pensamento que pode ser bem diverso do universo do marido. Esse subtexto não é revelado ao leitor, não é realismo, mas deixa a impressão de que algo nebuloso, mais profundo, possa estar acontecendo na vida daquele casal, mas que não sabemos o que seja. A literatura dos contos de Katherine Mansfield tem a atmosfera impressionista, onde aparentemente nada acontece além de uma cena cotidiana, mas que acende uma interrogação, arma um nó na cabeça do leitor. Estou falando do conto Um dia de Reginald Peacock, que faz parte do livro Felicidade e outros contos, da autora. Esse Peacock, que quer dizer também pavão, tem um sentido conotativo na figura desse professor de música.

A escritora neozelandesa Katherine Mansfield viveu em Londres, onde expressou sua literatura. Autora de narrativas curtas, foi contemporânea de Virgínia Wolf e James Joyce. Virgínia Wolf era apaixonada por sua obra. Mansfield morreu jovem, aos 35 anos. Tinha um comportamento muito mais avançado que as mulheres de sua época, vivendo uma vida conturbada afetiva, sexual e socialmente.

A impressão de que alguma coisa no pensamento arranha a aparente tranquilidade de um cotidiano harmonioso está presente nos demais contos. Em Bliss, um casal dá uma festa em sua casa e tudo corre de forma cordial entre todos. A anfitriã está repleta de felicidade, até que percebe no marido uma atitude de rejeição a uma amiga que chega ao local. Todas as coisas correm bem, até que a anfitriã percebe uma atitude suspeita nele ao ajudar essa amiga a vestir o casaco para ir embora.

Em Psicologia, um escritor de romance psicológicos reencontra a ex-mulher. Acompanhados de um chá com bolo, num clima alegre e delicado, eles haviam se soltado e tudo estava como de hábito. Mas ela pensa se não estariam indo rápido demais, apressados demais em suas falas, prontos demais para interromper um ao outro. Algo mais do uma imitação maravilhosamente boa de outras ocasiões? Então o sorriso que os dois haviam dado um ao outro desmontou-os e se olharam como dois bonecos careteiros saltitando no vazio.

Tradução de Julieta Cupertino  

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Katherine Mansfield. Felicidade e outros contos. 3ª ed., Rio, Revan, 2008, 142 pp. R$ 25,00

domingo, 26 de abril de 2015

Sujeito oculto

Trata-se de um sujeito oculto. Um estranho matador. Nada sabemos dos motivos que o levam a exercer o ofício, tampouco somos informados do que fizeram suas vítimas para merecer a execução. O que lhe provoca mais temor a si mesmo é sua face. Tenta imaginar seu rosto no espelho e não há registro na memória além da névoa. Por isso não gosta de registrar rostos na memória. O espelho embaciado após o banho com água quente é perfeito para refletir rostos, ele o envolve na agradável névoa que faz ignorar cara e nome.

Vive no anonimato, quase sempre encerrado em seu apartamento olhando as pessoas que passam na rua, enquanto escuta seu rádio. Gosta tanto de ouvir rádio, que fica chateado quando é chamado para um trabalho na hora de seu programa predileto, onde o narrador lê notícias melancólicas. Ouve sempre no volume baixo, pois sente ser perigoso dividir o som com vizinhos curiosos, com medo de que possam descobrir alguma coisa a respeito dele. Outra vez, teve a certeza de que o locutor falava dele, quando comentava fusos horários, ao mencionar que "três acontecimentos ocorreram em locais diferentes e em horas diferentes e em dias diferentes, mas exatamente no mesmo instante". É que os três assassinatos que ele cometeu correram em três lugares diferentes.

A prosa aparentemente caótica de Karam revelam ao leitor o absurdo da existência. Essa mesma temática encontrei em Encrenca, primeiro livro que li dele (está aqui no blog). Depois de Sujeito oculto, vou querer os outros livros do autor.
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Manoel Carlos Karam. Sujeito oculto. SP, Barcarolla, 2004, 144 pp. R$ 31,00



domingo, 19 de abril de 2015

As aventuras do bom soldado Sveijk

As aventuras do bom soldado Sveijk conta as peripécias de um soldado tido como um pateta,dizendo bobagens inacreditáveis,  mas que sempre tinham um fundo de verdade. A impressão que se tem é que Svejk, que sempre leva a pior em tudo, tinha uma inteligência dotada de um humor fino que tira sarro principalmente dos militares das altas patentes. Além disso, tinha um par de olhos bondosos e inocentes. Os olhos bondosos e inocentes de Svejk irradiavam mansidão e candura, combinando com um perfeito equilíbrio anímico, como se nada tivesse acontecido, e, se alguma coisa tivesse acontecido, então tudo também estaria em ordem, não teria acontecido absolutamente nada. É impossível, assim, não perdoá-lo.
Sveik na sua juventude vivia em delegacias, até ser considerado louco, mas é expulso do manicômio.  Alista-se no exército, designado como ordenança do capelão militar, um velho  bêbado e atrapalhado. Até missa Svejk celebrou, e ministrando extrema-unção.  Esse capelão acabou "vendendo" Svejk ao tenente Lukas, durante um jogo, e passa a ser ordenança de Lukas até o final da narrativa, com algumas idas e voltas.

Na segunda parte do enredo, começam as ações em função do deslocamento para a guerra. Depois de um tempo na Sérvia, passam pela Hungria, até o dia em que o soldado Svejk encontra um soldado russo foragido tomando banho, que foge pelado ao vê-lo. De forma insana, Svejk veste a farda do russo para se mirar no espelho da água, quando é preso pelo exército russo e enviado à prisão como o soldado foragido.

É uma narrativa picaresca. Guardadas as devidas proporções, lembra o nosso Sargento de Milícias, que contrariamente a Svejk era inteligente e esperto (a historia de Leonardo Pataca é bem mais interessante).

Trata-se de um romance longo, quase setecentas páginas, é uma sequência de relatos, meio parecido com Gargântua e Pantagruel. Hasek morreu antes de concluir a trajetória de Sveik. É engraçado e delicioso, mas pede para ser lido aos poucos, para não cansar. É lançamento recente da Editora Objetiva, com a tradução redondinha de Luís Carlos Cabral.

O escritor checo Jaroslav Hasek (1883/1923) teve uma existência curta, decorrente do álcool. Aos 32 anos alistou-se no Exército Austro-Húngaro para combater na Primeira Guerra Mundial, mas acabou passando para o lado dos russos.

                                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Jaroslav Hasek. As aventuras do bom soldado Svejk. Rio, Objetiva, 2014, 688 pp. R$ 70,00 (a Submarino está vendendo a 38,00)


domingo, 12 de abril de 2015

O Tambor

Oskar, a personagem de O Tambor, vive num mundo totalitarista, onde a primeira coisa que se aprende na vida é obedecer. Oskar, no entanto, foi um menino que, aos três anos de idade, já tinha sua personalidade formada e recusava-se a crescer, vivendo sempre na companhia inseparável de seu tambor.

A história começa com Oskar adulto, em um hospício, lembrando de seu passado. Nasceu no início do século XX em Danzig, cidade polonesa que, na época, pertencia ao império austro-húngaro. Ainda bebê, ganhou um tambor de presente, do qual não se desligava nunca. Aos três anos de idade, caiu da escada e esse acontecimento resultou no fato de que, a partir de então, Oscar se recusara a crescer. Essa época coincide com os preparativos para a Primeira Guerra Mundial. Outra característica esquisita de Oskar, é que quando se enfurecia, emitia um grito estridente capaz de quebrar vidros e vidraças. Não conseguiu ficar muito tempo na escola, pois não se desligava de fazer barulho com seu tambor e de gritar durante a aula. Cedo, descobriu que sua mãe era amante do primo dela e que esse tio era seu verdadeiro pai.  

Quando o nazismo ganha corpo, seu pai (não o tio) toma-se de amores pelo nazismo e passa a atuar no exército alemão.O tempo passa, Oskar torna-se adolescente, mas continua com a altura de uma criança. Apaixona-se pelo mundo do circo e chega a trabalhar  em uma trupe de anões que fazia espetáculos a serviço do III Reich, já no final da Segunda Guerra Mundial.  Mais tarde sua mãe, grávida, passa a comer compulsivamente grande quantidade de enguias e morre. Pouco depois seu tio morre durante um bombardeio. O judeu dono da loja que lhe conseguia os tambores para, passa a ser perseguido pelo nazismo e foge. Para compensar a solidão e a de seu pai, surge Maria, jovem adolescente que passa a cuidar dele e da casa. Oskar apaixona-se por ela, mas Maria passa a viver maritalmente com seu pai e engravida. Oskar acredita que aquele filho seja seu.

Um dia, o suposto filho de Oskar atinge-o com uma pedra. A partir de então, começa a crescer. A Alemanha passa a ser dividida pela cortina de ferro. Já está com trinta anos, quando é solto do hospício onde se encontrava.
Günter Grass foi vítima do totalitarismo do governo autoritário alemão na juventude. Executou ordens e lutou como soldado alemão na segunda guerra mundial. Foi rechaçado pela crítica depois da guerra acabada. O que quase nunca se disse sobre esse fato, é que Günter Grass incentivou o povo alemão a assumir sua culpa no processo doloroso de recuperação da Alemanha como nação moderna.

A obra encontra-se esgotada, mas você encontra um exemplar novo em estoque na Saraiva por 55 reais. O exemplar usado em bom estado custa em média 25 reais a edição econômica a mesma da Saraiva)

Tradução de Lúcio Alves e Rachel Valença
         
                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Günter Grass. O Tambor. Rio, Nova Fronteira, 2006, 704 pp