sábado, 26 de julho de 2014

Nossos ossos

Minha cama fica no centro do quarto e, em cima de mim, no escuro, um foco não me deixa pregar os olhos, é quente e intenso, como se uma plateia toda esperasse eu me levantar e fazer algo, rápido, essa tragédia não poderia ficar como está.
Eu sei que se eu vestir a roupa, colocar o blazer, usar as palavras certas, eu consigo o que eu quero, sim, saber notícias do menino assassinado, dar um jeito de avisar seus pais, arranjarei o endereço, aliviarei esse puxão de unha no peito, meu gato, Picasso, me alerta que eu me esqueci, mais uma vez, de tomar os remédios.
Eu ensaio, olha, é o seguinte, deu entrada no IML um rapaz bem moreno, assim, assado, eu gostaria de saber o que eu faço para levar o corpo do garoto embora, se for preciso eu pago, e apelo, desse jeito não, seria, no mínimo, escroto, pegaria mal qualquer insinuação de suborno.
Melhor falar a verdade, então, ele era meu namorado, um caso que eu tive, um rapaz inteligente, sabe, tipo um filho mais novo que eu resolvi tirar da rua, dessa vida prostituta, sem saída, sem alternativa, mas aí aconteceu o pior, essa merda de cidade, cada vez mais impossível, será que ele tinha inimigos, reflito e me calo, o que eu quero é que ele descanse em paz, por isso vim aqui ao IML, acredite, vim para salvá-lo.
Meu Cristo, ridículo é ficar aqui decorando o texto, desse jeito nada sairá do lugar, o melhor será eu me apressar, ir pessoalmente ao IML,tenho confiança de que muito ajudará essa minha postura digna, até romântica, esse meu ar professoral, essa minha cara de intelectual de branco europeu, mesmo não acreditando em Deus passei a acreditar, Ele há de me entender e perdoar.

Nossos ossos mostra o drama de Heleno, hoje dramaturgo famoso, vivendo em São Paulo. Partira de Recife em busca de Carlos, um ator por quem estivera apaixonado e que se mudara antes para a capital paulista. A história de amor não deu certo e Heleno caiu na vida, transando anonimamente com michês no Largo do Arouche e na Estação da Luz, contraindo HIV. Um dia sabe que um boy com quem tivera um caso esporádico fora assassinado brutalmente por dois motociclistas homofóbicos e estava no IML à espera de familiares que não sabiam do paradeiro do filho, que também partira de Pernambuco para tentar uma vida melhor em São Paulo.  Heleno decide encerrar desse jeito sua história em São Paulo, enfrentando dois mil e tantos quilômetros até o Recife, atravessando o Brasil em um carro funerário, levando, para seu último descanso o corpo desse garoto de programa com quem ele havia trepado uma história, digamos, de amizade. Essa viagem também  é a história de seu próprio corpo que  leva para morrer na terra onde viveu sua infância, buscando resgatar o conforto derradeiro junto à família.  É uma narrativa curta, comovente.

Marcelino Freire (1967) é pernambucano e vive em São Paulo. Contista, esse é seu primeiro romance.
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Marcelino Freire. Nossos ossos. Rio, Record, 2013, 128 pp, R$ 28,00

domingo, 20 de julho de 2014

Encrenca

Eu me lembrava do Invetral 2.500 sempre que contava para mim mesmo como havia sido a farra no hospital, relação hospital-remédio mais que uma relação com o rótulo vermelho do Invetral 2.500?, eu não sabia, o vidro de Invetral 2.500 eu havia deixado no carro, talvez fosse hora, decidi pagar a conta (do bar) e ir até o carro, naquele momento um sujeito de óculos de uma lente escura e uma clara aproximou-se do balcão, parou ao meu lado, fez um pedido e enquanto esperava ser servido virou-se para mim e perguntou: posso fazer uma pergunta?
Demorei para dizer alguma coisa porque fixei as minhas atenções nos óculos dele, a primeira impressão era que o sujeito não teria necessidade de usar óculos com uma lente escura e uma clara, a primeira impressão foi que ele chamaria a atenção mesmo sem óculos com lentes diferentes, talvez eu tenha imaginado o sujeito sem óculos com lentes diferentes, talvez eu tenha imaginado o sujeito sem óculos com um olho escuro e um claro, pode ter sido, pode não ter sido, passou algum tempo e o sujeito sentiu demora ou hesitação, e repetiu a pergunta: posso  fazer uma pergunta?
Depois que ele repetiu a pergunta, fiz uma pergunta para mim mesmo: por que alguém pergunta se pode fazer uma pergunta?, porque duas perguntas em vez de uma?, cogitei perguntar para ele se poderia fazer uma pergunta e perguntar sobre os óculos com lentes diferentes, novamente demora ou hesitação, o sujeito repetiu a pergunta: posso fazer uma pergunta?
Achei melhor responder logo porque minhas reflexões sobre perguntas estavam sendo interrompidas pelas perguntas dele e isto poderia acabar me irritando, eu me lembrava de que naquele momento emiti um sorriso porque considerei engraçado o que eu havia pensado, ele percebeu o sorriso, deve ter creditado o sorriso a uma tentativa minha de ser simpático, sorriu também e repetiu a pergunta: posso fazer uma pergunta?
Pode sim, pode, é claro que pode, é evidente, fui repetindo, e ele tendo recebido a resposta da primeira pergunta não fez o esperado, a segunda pergunta, em vez dela fez um comentário, uma introdução à segunda pergunta, a segunda pergunta tinha uma introdução, eu pensei, deveria ter imaginado, eu pensei, então ele fez a introdução à segunda pergunta: é uma velha mania.
Eu me lembrava de que a frase me pareceu mesmo como uma introdução à segunda pergunta, introdução como preparação para alguma coisa que poderia me surpreender?, ele acreditava que a segunda pergunta me surpreenderia?, a segunda pergunta me surpreenderia mais que os óculos dele?, então ele fez a segunda pergunta.
Que horas são?, ele disse.

Ao ler Encrenca, de Manoel Carlos Karam, achamos que compreendemos tudo, mas acabamos vendo que tudo acontece sem acontecer : as frases contêm uma expectativa que não se concretiza nunca. O absurdo aparece como se fosse uma coisa natural. Encrenca começa e termina no nada. O estranho é real, numa prosa bem humorada e aparentemente sem pé nem cabeça que poderá causar um desconforto no leitor desacostumado com a prosa engenhosamente elaborada, com um pé no absurdo. Mas não se trata de uma prosa difícil. Ela prende o leitor desde o início. É impossível passar por suas páginas sem dar algumas gargalhadas, devido ao humor refinado de Karam.

Manoel Carlos Karam (1947/2007) é quase desconhecido do público leitor. Era catarinense radicado em Curitiba. Há quem disse que a literatura de Karam faz um bem danado para as ideias.  Encrenca funciona como um drinque delicioso para atiçar a inteligência. Adorei!
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Manoel Carlos Karam. Encrenca.  SP, Ateliê /Imprensa Of. do Paraná, 2002, 160 pp., R$ 34,00

domingo, 13 de julho de 2014

O círculo trágico tebano

A tragédia de Édipo foi motivada pelo pai dele, Laio, que era filho de Labdaco, rei de Tebas. Era criança quando o pai morreu e o reino foi entregue a Lico que, mais tarde, foi morto por usurpadores do trono, fazendo com que  Laio fugisse para a Frígia, com medo de ser morto. Lá, tomou-se de amores pelo jovem Crisipo, filho do rei, raptando-o. O jovem, temendo a reação do pai, suicida-se. O rei, com a ajuda dos deuses, amaldiçoou Laio e todos seus descendentes. Mais tarde, Laio é chamado a Tebas para retomar o trono da cidade e casa-se com Jocasta.  Ele temia ter um filho homem, pois o oráculo lhe predisse que seria morto por seu filho. Mas, nasceu Édipo. O rei mandou que abandonassem o filho num monte. Alguns pastores o encontraram,  com os pés inchados. Por isso,  chamaram-no de Édipo (= de pés inchados) e levaram-no a Corinto, onde foi criado como filho dos reis.  Já adulto, Édipo ouviu de um cidadão coríntio insinuações sobre sua origem. Ele consultou o oráculo de Delfos, que lhe revelou que mataria o pai e casaria com a própria mãe. Pensando tratar-se dos pais que o criaram, abandonou Corinto. Durante sua trajetória errante, quase foi atropelado por uma carruagem em um desfiladeiro. Insultado, matou o desconhecido, Laio. Estava assim cumprida a primeira parte da profecia. Na entrada de Tebas, encontrou-se com a Esfinge, que lhe propôs um enigma. Se errasse, seria devorado pelo monstro. Mas Édipo decifrou o enigma e a Esfinge, desesperada, jogou-se no abismo. Como reconhecimento de sua proeza, Creonte, o rei de Tebas, lhe passou o trono e Édipo casou-se com a rainha viúva, Jocasta, sua mãe. É a segunda parte da profecia. Dessa relação incestuosa nasceram Etéocles, Polinice, Antígona e Ismena.  Depois de algum tempo de reinado feliz, abateu-se uma epidemia na cidade e Édipo dirigiu-se novamente ao oráculo, que lhe disse que a peste só seria dizimada quando o matador de Laio fosse expulso de Tebas. Aí começa o enredo de Édipo Rei, de Sófocles. Édipo empenha-se em encontrar o assassino. Consulta o adivinho Tirésias, que lhe faz sérias revelações e Édipo acaba descobrindo a verdade. Jocasta, envergonhada, enforca-se. Édipo fura os próprios olhos, é expulso de Tebas e passa a vagar errante, acompanhado de sua filha Antígona.
Sófocles deu continuidade ao ciclo trágico tebano que forma a trilogia que engloba, além de Édipo-Rei,  Édipo em Colono e Antígona.

Em Édipo em Colono a ação inicia, quando Édipo cego chega ao lugar onde findariam suas provações.  Pede a Teseu, rei de Atenas, que o acolha naquele lugar, em troca de impedir qualquer agressão que venha de Tebas. Ismena vem juntar-se ao pai e a Antígona. Etéocles, filho de Édipo, havia assumido o trono de Tebas e Creonte, irmão de Jocasta,  informado de que a terra onde fosse enterrado o corpo do infeliz cunhado seria abençoada pelos deuses, aparece em Colono para buscá-lo. Teseu se opõe à mudança e Creonte ameaça Atenas com uma guerra. Em seguida aparece Polinices, que preparava uma expedição contra Tebas, cujo trono era ocupado pelo irmão e contava com a ajuda do pai para a conquista. Diante da recusa de Édipo, que reitera a profecia de que os dois irmãos se matariam um ao outro, Polinices, mesmo assim, parte para o combate e pede a Antígona que, se voltasse a Tebas e ele tivesse morrido, lhe desse uma sepultura digna. Édipo morre em Colono, em local misterioso. Bem, os irmãos se matam um ao outro, Etéocles recebe pompas fúnebres, enquanto Polinices apodrecerá sem ser enterrado, segundo as ordens de Creonte.  A luta de Antígona para enterrar seu irmão é o mote da terceira peça da trilogia, Antígona. O tema da peça é o choque do direito natural, defendido pela heroína, com o direito impositivo de Creonte.

Eurípedes escreveu uma peça, abordando o mito de Édipo: As Fenícias passa-se em Tebas, quando Édipo ainda lá estava cego. Segundo a versão de Eurípedes, Jocasta está viva e sabe que seus dois filhos vão se enfrentar em combate e tenta demovê-los da decisão, o que não acontece.
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Sófocles.Trilogia tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. 9ª ed.,Zahar, 2001, 264 pp, R$ 54,90

domingo, 6 de julho de 2014

Medeia

Caro leitor, queres ganhar Terras do sem fim novinho? Escreve pra mim, manifestando o interesse. Esse é um de outros livros que pretendo brindar a meus leitores. Leitor compulsivo, acabo comprando exemplares duplicados.

Crisômalos ou tosão de ouro ou velocino de ouro eram denominações que os antigos gregos davam a um carneiro com pêlo de ouro que nadava, voava e corria melhor que qualquer outro animal. Transportou Frixo e Hele sua irmã para o Oriente, para fugir da madrasta que os queria sacrificar a Zeus. Frixo sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu a pele a Eetes, rei da Cólquida (hoje República da Georgia) . Enquanto isso, no reino de Iolcos, na Grécia, Pélias havia usurpado o trono de seu meio-irmão Eseu, pai de Jasão. Mais tarde, adulto, Jasão reclama o trono e Pélias lhe propõe trazer da Cólquida o velocino de ouro em troca do trono. Jasão e um grupo de grandes heróis a bordo do navio Argos partiram em busca do velocino de ouros. Eram os argonautas: Jasão, Teseu, Hércules, Orfeu, Castor e Pólux, entre outros. Após muitas peripécias perigosas, alguns deles chegam finalmente à Cólquida. O rei Eetes, que era pai de Medeia, impõe a Jasão uma série de tarefas dificílimas que consegue vencer, contando muito com a ajuda de Medeia, que era feiticeira.  Jasão consegue, finalmente, apossar-se da pele preciosa, inciando a viagem de volta, trazendo consigo Medeia, que se apaixonara por ele. Para que não fossem perseguidos, Medeia mata seu irmão. Ao chegarem a Iolcos, Medeia mata Pelias, para vingar o castigo que ele havia imposto a Jasão, com a busca do carneiro de ouro.  Medeia e Jasão são expulsos e fogem para Corinto. Os dois têm dois filhos. Depois de tempos,Jasão apaixona-se pela filha do rei Creonte, Creusa. Sentindo-se traída e abandonada, Medeia joga sua ira contra Jasão e a noiva. Aí começa a tragédia Medeia, de Eurípedes, quando ela transforma o amor por Jasão em ódio sobre-humano. Outra humilhação lhe é imposta por Creonte, a expulsão da feiticeira e de seus filhos de Corinto, com medo de seus poderes extraordinários. Medeia, humilhada e confiante em seus poderes mágicos decide se vingar de Jasão por todos os meios possíveis e em tudo o que puder feri-lo. Durante a peça, o abatimento pelo repúdio do marido vai se transformando em desejo terrível de vingança e extermínio: Medeia planeja e executa a morte da jovem noiva e dos filhos de Jasão, deixando-o abandonado e mergulhado em uma dor profunda. E ainda foge impune no carro de Apolo. Essa solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra de ficção ou drama é conhecida como deus ex machina. Este dispositivo é na verdade uma invenção grega. No teatro grego havia muitas peças que terminavam com um deus sendo, metaforicamente, baixado por um guindaste até o local da encenação. Esse deus então amarrava todas as pontas soltas da história.
A primeira encenação de Medeia teria sido em 431 a.C, mas continua sendo encenada até  hoje pelo mundo todo, graças à atualidade de seu argumento.  O texto apresenta uma intensidade dramática e o delineamento dos personagens através das falas impecáveis.  O momento da conciliação simulada que Medeia tem com Jasão, assim como o solilóquio em que se reflete sua indecisão quanto a matar ou não os filhos, fazem de Medeia um dos mais finos e profundos estudos que um autor fez da alma humana feminina, conforme nos diz Mario da Gama Kury, tradutor dedicado do teatro grego antigo.
Existe uma edição de Medeia traduzida por Trajano Vieira por 39 reais, livro novo. É possível garimpar nos sebos o Teatro de Eurípedes com as peças Hipólito, Medeia e As Troianas, com tradução de Mario da Gama Kury (é a que eu tenho) por um preço médio de 28 reais. Chico Buarque e Paulo Pontes adaptaram Media para o teatro, com Gota d'água, na  atuação impecável de Bibi Ferreira. A peça aconteceu no Teatro Leopoldina (depois Teatro da Ospa, na Av. Independência), lá por 1980. Alguém assistiu?
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Eurípedes. Teatro de Eurípedes: Hipólito, Medeia, As Troianas. Rio, 
Civilização Brasileira/Mec, 1977, 276 pp.


domingo, 29 de junho de 2014

O círculo trágico de Ésquilo

Durante a Guerra de Troia, os navios gregos comandados por Agamenon encontram-se presos no porto de Áulis, devido a uma calmaria provocada por Ártemis, deusa grega da caça, porque Agamenon teria dito que era melhor caçador que a deusa. Calcas, adivinho próximo a Agamenon, alerta-o de que Artemis o perdoaria, se ele sacrificasse Ifigênia, sua filha adolescente. Embora se recusasse inicialmente, pressionados por seus soldados mandou buscar a filha, sob pretexto de dá-la em casamento a Aquiles, o herói da Guerra de Troia. Ao chegar a Áulis, acompanhada da mãe, Clitemnestra, as duas descobrem que foram enganadas. Depois de séria discussão entre seus pais, é Ifigênia quem decide cumprir seu destino de ser imolada para salvar os gregos (outro tragediógrafo grego, Eurípides, serviu-se do sacrifício mítico de Agamenon para escrever Ifigênia em Áulis).

Clitemnestra, sentindo-se traída pelo marido e chorando a morte da filha, retorna a Micenas, prometendo vingança.Vamos nos deter, aqui, em Agamenon, a primeira peça da trilogia de Ésquilo. Esse herói volta para casa após destruir a cidade e os troianos, durante dez anos de luta. Clitemnestra, entretanto, já havia planejado o assassinato do marido juntamente com Egisto, primo de Agamenon, que também queria vingar-se dele por lhe ter usurpado o trono.  Para comemorar a volta do marido, Clitemnestra prepara-lhe o banho em que será assassinado. Electra, filha de Agamenon, temendo que seu irmão Orestes, ainda pequeno, fosse morto, envia-o para um reino distante onde é criado. Já na idade adulta, o deus Apolo aparece a Orestes, ordenando-lhe que vingue a morte do pai.  Orestes viaja a Micenas para visitar o túmulo, deixando lá um cacho de seus cabelos. Quando foi render homenagem ao morto, Electra encontrou a oferenda, reconhecendo a presença próxima do irmão.  Orestes entra no reino disfarçado de viajante, para comunicar a Clitemnestra a morte do filho.  Ele mata a mãe e Egisto, fugindo para Delfos, onde é purificado por Apolo. Esse é o argumento da segunda peça da trilogia, Coéforas.  

As Erínias ou As Fúrias passam a perseguir Orestes pelo assassinato da mãe.  Apolo, protegendo Orestes, manda-o a Atenas, para ser submetido a julgamento e ser absolvido de seus tormentos.  O julgamento de Orestes fica empatado, a deusa Atena o absolve com seu voto e Orestes sai de cena. Há versões que relatam ele ter ficado louco. As Fúrias, antagonistas de Atena, ameaçam com uma desgraça para a região. Atena, com a promessa de honrarias às Fúrias, contorna a situação e as Fúrias passam, de deusas do ódio para as deusas benévolas (Eumênides, a terceira peça da Oréstia).
                  
Lamentavelmente a trilogia de Ésquilo com a tradução competente de Mário da Gama Kury encontra-se esgotada e custa caro nos sebos. Existe a edição em e-book, se você curte ler pelo computador. A Editora Iluminuras publicou as peças separadamente, por um preço médio de 30 Reais. Nos sebos você pode encontrá-los por um preço médio de 18 Reais.

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Ésquilo. Oréstia: Agamenon/Coéforas/Eumênides. 3ª ed., Rio, Zahar, 1991, 196 pp.                            

domingo, 22 de junho de 2014

Odisseia





A Odisseia retrata o herói Ulisses (Odisseu) em suas viagens aventurosas na luta para voltar para casa, depois da guerra de Troia. De um lado, temos o Ulisses ausente e retido na ilha de uma ninfa apaixonada, Calipso, por sete anos. De outro, seu filho Telêmaco à espera dele no lar abandonado. Pai e filho, um de cada lado, se põem em movimento ao mesmo tempo, para no final se reunirem no regresso do herói. Sua saga de retorno leva dez anos, pois seu regresso é atrasado deliberadamente por alguns deuses para castigá-lo.

O poema começa dez anos depois da queda de Troia. Durante o saque da cidade, o comportamento desrespeitoso de alguns gregos aborreceu os deuses, em especial Atena, que tendo favorecido o lado grego durante toda a guerra, agora provoca tempestades terríveis para atrapalhar a volta do grupo. Embora ela ainda esteja bem intencionada com Ulisses, não lhe permitiu retornar a Ítaca, onde sua esposa fiel, Penélope, tenta há sete anos evitar uma multidão de pretendentes. Poseidon e Apolo procuraram punir Ulisses (que durante suas viagens cegou Polifemo, filho de Poseidon, e cujos companheiros mataram o gado do deus-sol para comer). Ele está agora numa ilha longínqua, prisioneiro da ninfa Calipso, que o escolheu para amante. Assim começa a Odisseia, contada em 24 cantos.

Ulisses representa o ideal herdado da sagacidade guerreira. Era conhecido como um herói ardiloso, ideou o cavalo de madeira que ajudou na destruição de Troia. A isso se junta a elevada estima das virtudes espirituais e sociais. Ulisses é o homem a quem nunca falta o conselho inteligente, para cada ocasião acha a palavra adequada. Sua honra é sua destreza, e sua inteligência demonstrada na luta pela vida e na volta ao lar sai sempre triunfante diante dos inimigos mais poderosos e dos perigos que o espreitam.

Ao contrário de Aquiles, o herói colérico e sanguinário da Ilíada, Ulisses é um herói mais humano, mais próximo de nós. Ulisses mente, mata, sobrevive, abraça as múltiplas experiências que vêm ao seu encontro, conhece o canto das Sereias e o leito de belas mulheres, desce ao mundo dos mortos e recebe, mais tarde, a oferta de nunca morrer. Mas, essencialmente, são as circunstâncias e não a sua própria natureza, que lhe conferem uma dimensão heroica. É a superação desesperada dos perigos, nas ameaças que lhe surgem na luta pela sobrevivência, que nos identificam com ele. Ulisses representa culturalmente a essência do homem ocidental. Sua figura foi e é fonte de inspiração de vários romances e poemas da humanidade. O escritor irlandês James Joyce escreveu o monumental romance Ulysses, inspirado no herói grego, narrando as aventuras do judeu Leopold Bloom durante um dia, precisando superar numerosos obstáculos e tentações até retornar a sua casa, onde sua mulher Molly o espera. Aguarde resenha para breve.
Também não dá pra morrer sem ler a Odisseia. Busque a bela e acessível tradução de Frederico Lourenço.
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Homero. Odisseia. SP, Penguin/Companhia, 2011, 584 pp, R$ 36,00 

domingo, 15 de junho de 2014

Ilíada

Um caso de adultério motivou a Guerra de Tróia. O troiano Páris visita o grego Menelau, apaixona-se por Helena, sua esposa, raptando-a. Mas o tema de Ilíada, longo poema narrativo de Homero, é a fúria de Aquiles. Após os gregos saquearem uma cidade aliada aos troianos, duas jovens belíssimas, Criseida e Briseida, são dadas a Agamênon e Aquiles, como escravas concubinas. Crises, o velho sacerdote, pai de Criseida, chega ao acampamento dos aqueus para resgatar a filha, em troca de incontáveis riquezas. Agamenon rejeita violentamente o resgate e Crises reza a Apolo, pedindo-lhe que castigue os aqueus (gregos). O exército é assolado por uma peste, fazendo com que os conselheiros de Agamenon se reúnam em assembléia, sugerindo-lhe que devolva Criseida ao pai. Aquiles defende essa proposta. Agamenon, apesar de ser o soberano máximo, sente uma inveja ressabiada de Aquiles, que é o herói em campo de batalha. Agamenon decide devolver Criseida. Porém, rouba Briseida de Aquiles. Surge então a ira de Aquiles, que se sente desonrado e abandona o campo de luta, ainda que não abandone o acampamento dos aqueus. A falta de Aquiles faz com que Agamenon mande Ulisses e Ájax à tenda de Aquiles com a incumbência de lhe prometer mundos e fundos se ele reconsiderar sua posição. Trata-se do Canto IX, o mais famoso canto da Ilíada, considerado estruturalmente perfeito. O esforço não dá certo. O herói divino deixa de acreditar na guerra, na glória, no heroísmo. Só um motivo pessoal e íntimo fará Aquiles mudar sua decisão e pegar em armas: a dor perante a morte de Pátroclo, seu amigo íntimo. 

A originalidade de Homero consiste em ele ter estruturado uma série de episódios do ciclo lendário das guerras troianas em torno da ira de Aquiles. Sua técnica narrativa traduz uma conduta caracteristicamente grega: os gregos concebem a realidade como um todo ordenado. A harmonia exige limites precisos. O ilimitado é o não-ordenado, o caos, estágio anterior à ordem. Desde Homero, os gregos nos colocam diante de fronteiras claras, diante de unidades abarcáveis. O homem homérico sabe de um mundo interior, sabe que acontecem coisas em si, mas esse mundo não lhe é claro, não o fascina, não se demora nele. Quando percebe dentro de si fenômenos que não compreende, os atribui a forças sobre-humanas. O homem homérico volta-se para fora, para o mundo luminoso, concreto, real. Ilíada é também a guerra dos deuses, que decidem quem ganha e quem vai perder. Os próprios heróis da Ilíada sabem muito pouco de seu destino.

A Ilíada surgiu, mais ou menos, no século VIII a.C., fruto da tradição oral. Em 1488 surgiu a primeira edição impressa da obra na Itália. Para contar a Ilíada, Homero opta por isolar um período de pouco mais de 50 dias, já na fase final da guerra (a guerra de Troia teria durado uns 10 anos). Simbolicamente, a narrativa concentra-se em 14 dias. Por outro lado, os cinquenta e cinco dias da ação global do poema e mais os 14 fatídicos dias da ação efetivamente narrada, não deixa de estar condicionados fatos de todo o passado da guerra que repercutem tragicamente no presente da narrativa.

Há várias teses buscando contestar a autoria da Ilíada. O Canto IX, estruturalmente o melhor elaborado, não faria parte da Ilíada de Homero, mas de outro escrito sobre o tema. Mas os argumentos dessa corrente, entretanto, não se sustentam. A Ilíada foi toda construída por um único poeta. Seja ele quem for, trata-se de Homero. Se o leitor se interessar por este assunto, há um livro esclarecedor de Donaldo Schüler, especialista em literatura grega: A Construção da Ilíada, uma análise de sua elaboração, Ed. LPM, onde se comprova a fragilidade argumentativa dos que contestam a autoria da Ilíada.

A Ilíada merece ser lida, apesar de pequeno esforço eventual, devido ao estilo do texto. O resultado será gratificante. Aconselho a evitarem algumas edições de bolso mal traduzidas que existem por aí. Aconselho a edição portuguesa com a excelente tradução do conceituado Frederico Lourenço. Para nossa sorte, o selo Penguin, da Companhia das Letras lançou essa tradução no Brasil, a preço bem acessível. Não dá pra morrer sem ler a Ilíada.
                                          paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Homero. Ilíada. SP, Penguin/Cia. das Letras, 2013, 720 pp, R$ 40,00

domingo, 8 de junho de 2014

Maíra

Darcy Ribeiro (1922/1997) usa de sua vasta experiência como etnólogo e antropólogo para escrever Maíra, seu primeiro romance, editado em 1978. Maíra, em linguagem tupi, é um divindade entre os indígenas.
Enquanto isso, no posto da Funai da região, alguns índios vivem dentro de seus costumes. Os padres  afirmam que a estratégia da Funai é congelar os índios em seus costumes, para assim protegê-los da degeneração.Já os arrebanhados pelos padres marcham para a civilização, sem romantismos rondonianos: vestidos, calçados, limpos.  Elias, indígena da tribo mairum é um desses índios aculturados que volta para sua aldeia de origem, depois de passar sua infância  e adolescência preso em um convento para ser padre. Para ele, sua aldeia nesses anos todos de desterro só existiu dentro dele, na lembrança. Em breve estará junto de seu velho tio, o chefe da tribo Anacã, bem no meio do círculo dos homens em posição cerimonial, para ser o novo aroe(*) . Isaías é ambíguo, não é índio nem cristão. Não é homem nem deixa de ser. Manteve contato com uma mulher branca que havia se decidido a viver entre os índios e foi encontrada morta da praia com o feto de dois filhos mortos entre suas pernas. Isso pode ser encarado como a simbologia de Maíra-Coraci, o sol e Micura-Iaci, a lua - irmãos que criaram o mundo da cultura mairum. A trama se divide em núcleos, envolvendo a vida e morte dessa mulher, o reduto dos índios da Funai, o mameluco que se comunicava com esses núcleos e que matava índios, e o conflito existencial de Elias, que luta com sua consciência dividida.

Darcy Ribeiro tem um olhar atento sobre o programa de aculturação indígena que teve o Brasil, a religiosa - que defendia a catequese católica como a única solução compatível com a formação do povo brasileiro, e a leiga - que defendia o propósito de que a assistência protetora ao índio era competência do Estado. Entretanto, nenhuma das duas correntes analisou a situação real dos índios, conhecendo e valorizando sua cultura. Maíra mostra o resultado trágico dessas invasões para trazer os índios à civilização. Está longe de ser obra didática. É ficção das boas.

(*) Provavelmente o que puxa o canto nas cerimônias. Não consegui uma definição precisa para o termo.

                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Darcy Ribeiro. Maíra. 17ª ed., Rio Record, 2007, 430 pp, R$ 40,00


domingo, 1 de junho de 2014

A Falência


Júlia Lopes de Almeida (1862/1934) é das grandes da literatura brasileira, apesar de quase desconhecida.  Graças à Editora Mulheres, criada em Santa Catarina em 1996 (http://www.editoramulheres.com.br/) com o objetivo de resgatar escritoras dos séculos passados,  a obra de Júlia Lopes de Almeida está vindo a público agora.  A editora lançou três romances de Júlia: A Falência, A Família  Medeiros, A Silveirinha e A Viúva Simões (esgotado). Filha de pais abastados,  seguiu o caminho da literatura sem oposição da família. Possuía espírito avançado para a época, tinha preocupações sociais como o fim da escravatura e a opressão feminina, que ela retrata tão bem em A FalênciaAjudou a fundar a Academia Brasileira de Letras, mas não pôde fazer parte dela, por ser mulher. Em seu lugar tomou posse seu marido, o escritor Filinto de Almeida, cuja obra não merece destaque. 
A trama de A Falência ocorre no final do século XIX, durante a República. Uma nova moral burguesa, novos comportamentos e ideais se impõem na sociedade do Rio de Janeiro. Francisco Teodoro é um comerciante português casado com Camila, com quem teve filhos. O comerciante é proprietário de armazéns, um palacete e muito dinheiro investido em banco.
Um dia Francisco Teodoro recebe a visita de um amigo, convidando-o a organizar no Rio um grande sindicato de café. Diz que outro grande comerciante estaria disposto a entrar com grande parte do capital. O negócio daria grande retorno financeiro aos sócios. O dinheiro de Francisco Teodoro fora adquirido com esforço. Por isso gostava de viver do bom e do melhor, para justificar seu orgulho com tanto trabalho. Fica indeciso, tem muito medo de perder dinheiro. O amigo o incentiva. Deixa-lhe o contrato para ler e pensar melhor. Passam-se dias e Teodoro aceita entrar na sociedade. Pouco tempo depois o preço do café começa a cair no mercado. O comerciante acaba sabendo, depois de um período de angústia e aflição, que tinha sido vítima de um golpe. Perdera tudo. Seus negócios começam a ruir e ele entra em falência. Acovardado, suicida-se, deixando a mulher e os filhos ao relento. A partir de então, a figura de Camila, a viúva, começa a ganhar corpo. Até então ela era parte do marido, nunca fizera nada, não entendia de nada relacionado a negócios. Vivia, enquanto rica, uma vida de futilidades e gastança. Tinha como amante o médico de família, fato que Teodoro nunca percebeu. Pobres, são obrigados a mudar-se para a casa humilde de Nina (agregada à família) que havia ganho de presente de Teodoro. Paro o relato por aqui, para não comprometer o interesse dos que pretendem ler o livro.
A edição que eu tenho e li é de 1978. Você consegue nos sebos virtuais por um preço de R$ 12,00. A edição nova, da Editora Mulheres custa R$ 30,00.

                                         Paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Júlia Lopes de Almeida. A Falência. SP, Hucitec, 1978, 242 pp.


domingo, 25 de maio de 2014

A doce canção de Caetana

Depois de 20 anos de ausência, Caetana, atriz de teatro mambembe, retorna a Trindade para cobrar uma dívida de Polidoro, fazendeiro e grande apaixonado pela atriz. Polidoro procura recriar na suíte do hotel da cidade o clima propício para que o passado seja recordado e, sabe-se lá, reparado. Ordena que coloquem no quarto a penteadeira onde ele a admirava escovando os cabelos longos e negros nas noites passadas de idílio amoroso.
Polidoro sonhava encontrar Caetana escondida atrás do biombo, fingindo constrangimento, talvez por medo de a idade houvesse dissolvido as ilusões alimentadas pelas intempéries da vida. Imaginava Caetana voltando, conservando os mesmos gestos grandiloquentes do palco e do picadeiro, em contraste com as falas banais de seu texto. Caetana, durante todo esse tempo, não admitia a tragédia e o fracasso em sua vida.
Polidoro exigiu que o trem desviasse a rota, passando por Trindade para deixar Caetana. Repassou as façanhas do dia: a ida à estação, o trem chegando, a confusão de todos querendo abraçar a passageira que descera do trem e que todos confundiram com Caetana, que não estava no trem, pois havia chegado pela estrada com sua troupe.
Caetana veio cobrar de Polidoro a produção de uma ópera que ela admirava na voz de Maria Callas. O cinema da cidade é reformado às pressas para a montagem. Ela quer provar a todos que ainda tem talento para representar tão ou melhor que Callas, num esforço para provar a todos que fora a grande atriz injustiçada. Esse esforço, porém, secara-lhe a garganta. O resultado disso você vai acompanhar na prosa deliciosa e sensível de Nélida Piñon em A doce canção de Caetana. A cidade de Trindade apresenta outros personagens interessantes que atuam em torno da estrela da história.
                                                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Nélida Piñon. A doce canção de Caetana. 2ª ed, Rio, Record, 2012, 398 pp, R$ 55,00

domingo, 18 de maio de 2014

Manoel de Barros, o poeta que queria ser lido pelas pedras

Manoel de Barros, poeta mato-grossense que revela a natureza e o homem pantaneiros através do verso, acredita que é necessário desver o mundo. Para isso, é preciso gostar das palavras quando elas perturbam o sentido  normal das ideias. Porque só os absurdos enriquecem a poesia. Para o menino criado no meio da mata, o conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar, de apalpar, de ouvir e de outros sentidos. As palavras se juntavam a ele para comunicar não através da sintaxe, mas por amor.  Ele queria o arpejo, o canto, o gorjeio das palavras. Hoje, adulto, confessa que também das percepções primárias nascem os arpejos e canções e gorjeios. A infância da palavra já vem com o primitivismo das origens, do absurdo divino das imagens: o menino que regava o rio para que os peixes pudessem sobreviver; passar a mão na bunda do vento; Bernardo armou sua barraca na beira de um sapo. A palavra não precisa significar, é só entoar.   O poeta não pode explicar as imagens, porque explicar afasta as falas da imaginação. O que Manoel de Barros quer fazer é brinquedo com as palavras. Fazer coisas inúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora. Poesia é coisa-nada. Se o nada desaparecer, a poesia acaba.

A Editora Leya acaba de lançar Manoel de Barros - poesia completa, com todos os livros publicados pelo autor, incluindo os livros de poesia infantil, mais um poema inédito de 2013.

O poeta que enaltece a 'vagabundagem profissional' e o estar à toa tem para si um sentido especial de ócio. Estar consigo, com sua imaginação, suas leituras e prazeres solitariamente, é o seu ócio. Para ele, a poesia esteve presente desde muito cedo no olhar do menino para as pessoas e coisas do seu entorno.
Ele já era um senhor de mais de 70 anos quando Millôr Fernandes descobriu seus poemas e escreveu uma crítica fazendo estardalhaço sobre certo poeta 'de verdade' que o Brasil precisava conhecer. 
  
Manoel, que nasceu em Cuiabá e foi menino para o Pantanal, viveu quase 40 anos no Rio de Janeiro. De lá, migrou uma vez mais para o Pantanal, para suceder ao pai na administração da fazenda de gado da família. Dez anos à frente da fazenda e o poeta quis mudar de novo. Foi com a mulher e os três filhos para Campo Grande, sua atual morada e onde escreveu quase todos os seus livros.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            Melho do que falar do processo criativo de Manoel de Barros, é ler seus poemas, dos quais selecionei alguns:

EU NÃO VOU PERTURBAR A PAZ

De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
Saberia de seus mistérios
Ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
Descobriria o sinistro
Ou doce alento de vida
Que move suas pernas e braços.

 Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto.


 INSTANTE ANUNCIADO

 Um chapéu velho!
Eu não via seu rosto, que um velho chapéu,
Esmaecido pelo sol, cobria.
Mas sei que não chorava
E nem tinha desejo de falar.
Porque sabia que alguma coisa vinha chegando
De manso, alguma coisa vinha chegando...
Eu não via seu rosto,
Seu rosto sombreado que um velho chapéu,
Esmaecido pelo sol, cobria.
Mas sei como ele amou aquele instante
Mas sei com que prazer ele esperou
Aquela que viria com os lábios úmidos para ele
A que havia de vir passar as mãos
Pelos seus joelhos feridos.


A ESPERA

Vejo sempre um homem ao lado das casas,
Olhando-as de frente como se elas fossem pessoas íntimas.
Vejo-o passando pelas casas comovido, afagando as mais pobres,
Satisfeito com a paz que lhe transmitem.
Vejo um homem caminhando pequeno na rua sem nome.
Vejo-o com o seu ocaso e o seu casaco de iodo às costas.
Vejo a erva depois crescer na pedra, e vejo, no coração,
O amor germinar como um rápido clarão na tempestade.
Esse homem não sabe como agradecer a penumbra que o esconde.
Vejo-o tocando com os seus dedos uns objetos esquecidos na tarde...
Vejo-o depois andar sobre a cidade errante como os cães vagabundos
E adormecer nas pedras junto ao mar.


MUNDO PEQUENO

I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
      maravilhosas.
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
      com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
      besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
                                                           Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os
      ocasos.   

DESEJAR SER

2.

Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava deter
uma perna mais curta (Só pra poder andar torto). Eu via o velho
farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto... toc
ploc toc ploc. Ele era um destaque.
Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar
para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc
toc ploc.
Eu seria um destaque. A própria sagração do eu.



RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA

I

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca
em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer
por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

ASCENSÃO

 Depois que iniciei minha ascensão para a infância,
Foi que vi como o adulto é sensato!
Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros?
Como não furar lona de circo para ver os palhaços?
Como não ascender ainda mais até na ausência da voz?
(Ausência da voz é infantia, como t, em latim.)
Como não ascender até a ausência da voz -
Lá onde a gente pode ver o próprio feito do verbo -
ainda sem movimento.
Por que não voltar a apalpar as primeiras formas da
pedra. A Escutar
os primeiros pios dos pássaros. A ver
As primeiras cores do amanhecer.
Como não voltar para onde a invenção está virgem?
Por que não ascender de volta para o tartamudo!


POEMAS RUPESTRES

5.

Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais -
como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejar de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
Só para causar distúrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele também
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.

                                               paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Manoel de Barros. Poesia completa. SP, Leya, 2013, 480 pp., R$ 54,90

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

domingo, 11 de maio de 2014

Viva o povo brasileiro

O narrador de Viva o povo  brasileiro nos explica que O comportamento das almas inopinadamente desencarnadas, sobretudo quando muito jovens, é objeto de grande controvérsia e mesmo de versões diametralmente contraditórias, resultando que, em todo o assunto, não há um só ponto pacífico. Em Amoreiras (praia da Ilha de Itaparica), por exemplo, afirma-se que a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias mais potentes,  dos polos esotéricos, das correntes alquímico-filosofais, das trações da lua e dos astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas - tudo isso faz com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e às vezes fazendo um sem-número de exigências. Dizia-se que era por causa dos tupinambás que lá moravam, que com mil artes e manhas de índios, amarravam as almas dos mortos até que eles pegassem os obséquios que morrem devendo, ou resolvessem qualquer pendência de que foram partes. Mas depois dos tupinambás vieram os portugueses, espanhóis, holandeses, até franceses, e os defuntos , mesmo não havendo mais índios para os amarrar, continuaram por lá, desafiando as ordens dos padres e feiticeiros mais respeitados para que se retirassem. Em seguida, chegaram os pretos de várias nações da África e, não importa de onde viessem e que, deuses trouxessem consigo, nenhum deles jamais pôde livrar-se de seus mortos, tanto assim que foram os que melhor aprenderam a conviver, com essa circunstância, não havendo, por exemplo, órfãos e viúvos entre eles. Os muitos deles que não conseguiram suportar viver na companhia de uma memória infinita e na presença de tudo o que já existiu mudaram-se para lugares bem longe de Amoreiras e jamais comem qualquer coisa vinda de lá.

A trama de Viva o povo brasileiro, grosso modo, é mais ou menos assim: um grande barão do Império vivia na Bahia, onde era senhor de todos os peixes que lá se pescava e possuía muita riqueza e muitos domínios vastos e grande número de escravos.  Isto se deu, porque esse barão foi considerado herói, na guerra da Independência, por isso mesmo nomeado barão, e  recompensado com  terras e presentes do rei  Imperador Dom Pedro.

Mas, esse barão era muito perverso. O heroísmo dele na guerra foi uma mentira. Sem ninguém ver, matou um cativo e com o sangue desse cativo se lambuzou e fez muitos curativos para dizer que tinha sido ferido na batalha. Apresentou-se como ferido, se escondeu uns tempos e depois apareceu de novo, ficando conhecido como o grande herói de guerra. Numa noite,  véspera de Santo Antônio, mandou buscar uma cativa de grande beleza e a deflorou, deu-lhe depois  uma surra e a expulsou dali. O barão teve a maldade castigada. Logo depois do abuso com a escrava, apareceu uma grande Irmandade numa casa de farinha que havia no sítio do barão, chefiada por um negro feiticeiro chamado Dandão e por um negro muito alto chamado Bodeão. Esses dois negros tinham uma canastra contendo muitos segredos do destino do povo, muitas defesas e muitas receitas de orações e feitiços. E, por meio dessas orações e feitiços, bem como a ajuda de outros como eles, conseguiram dar uma certa bebida ao barão, o qual foi estuporando aos poucos, até morrer uma das piores mortes que já se viu na Bahia.
Enquanto isso, a cativa, que ficara prenha do barão,  se tornou grande pescadora.  A menina nasceu, foi protegida e educada em boas escolas. Ficou moça bonita e inteligente. Certa vez ela e a mãe foram atacadas por um bando de homens que queriam estuprá-la. A mãe a defendeu e foi morta a pauladas. Esse acontecimento modificou a vida da moça para sempre.  Querendo justiça, entrou para a Irmandade, tornando-se a chefe do grupo, perdendo-se no mundo combatendo a injustiça na companhia de uma milícia, a Milícia do Povo, para mostrar a todos a tirania que sofria o povo pobre e negro por parte dos poderosos. Sabe-se que teve somente um grande amor por um alto oficial do Exército, herói da Guerra do Paraguai,  que nunca quis combater contra o povo. Ele propôs que se juntassem como marido e mulher, mas ela tinha um ideal maior, lutar pela igualdade e a injustiça.
Veio a República e o governo continuava a não se preocupar com o povo, os coronéis mandando e desmandando em tudo. Então, Maria da Fé, essa mulher guerreira, partiu para o sertão com seus milicianos, porque sabia que lá havia muita gente revoltada disposta a combater contra a tirania.  

Hoje não se sabe por onde anda Maria da Fé agora, mas se sabe que ela continua acreditando que um dia vai vencer, nem que não seja ela em pessoa, mas quem herde as ideias e a valentia dela, que serão muitos. Como nasceu na época da Independência, já deve estar velha e talvez nem velha seja, pois faz aniversário de quatro em quatro anos, tendo nascido no dia 29 de fevereiro.

A história abrange o período histórico de 1637 até 1972, mas o miolo da trama está centrado entre a Independência do Brasil e a proclamação da República. O romance de João Ubaldo Ribeiro é sobre os muitos espíritos encarnados e desencarnados por esse Brasil  onde muitos trabalhavam e poucos ganhavam. O povo que produzia,  construía,  vivia e criava, mas não tinha voz nem respeito,onde os poderosos encaravam sua terra apenas como algo a ser pilhado e aproveitado sem nada darem em troca, piratas de seu próprio país. Eram (e são) carpinteiros, marceneiros ferreiros, tanoeiros, sapateiros, alfaiates, pedreiros, lavradores, jardineiros, alambiqueiros, padeiros, barbeiros,pintores, armeiros, açougueiros, carroceiros, cuteleiros, vassoureiros, quitandeiros, vaqueiros, fateiros, muleiros, carregadores, caixeiros, sineiros, ourives, tecelões, paneleiros, mineiros, caçadores, boticários, quituteiros, maquinistas, tiradentes, curandeiros, cocheiros, mariscadores, peixeiros, lenhadores, magarefes, faxineiros, aguadeiros, taverneiros, amoladores, foguistas, mascates, alfarrabistas, oleiros, impressores, escreventes, acendedores, gravadores, coveiros, almocreves, aseiros, arreiros, tosadores,capadores, leiteiros, estalajadeiros,moleiros, músicos,saltimbancos, palhaços, cantadores, violeiros, repentistas, músicos,bailarinos, escultores, atores, escritores, entalhadores, douradores, mágicos, contadores de histórias, motoristas, cobradores, zeladores, hidráulicos, eletricistas,prostitutos, seguranças, moradores de rua, babalorixás, macumbeiros... Viva o povo brasileiro!
                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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João Ubaldo Ribeiro. Viva o povo brasileiro. Rio, Objetiva, 2008, 640 pp, R$ 69,90