domingo, 26 de julho de 2015

Elis Regina, nada será como antes

Quem é fã de Elis Regina sabe que ela não foi nenhum docinho de coco. Dona de uma instabilidade emocional  quase bipolar,  arranjou inimigos, mas era querida por muitos, mesmo assim. Isso quer dizer que ela sabia, também, ser amiga e leal a quem amava. Nada será como antes, de Júlio Maria,  esmiúça as fofocas que a imprensa dizia sobre ela, buscando colocar o foco em algumas verdades. Assim, ficamos sabendo de  coisas que fizeram Elis bater de frente com os ídolos da MPB que ameaçavam, achava Elis,  ofuscar o brilho da cantora.  Beth Carvalho ficou de mal com César Mariano e Elis, porque Elis, sabendo que  Beth estava gravando "Folhas secas" (havia pedido conselhos de arranjo a César Mariano),  gravou e lançou a música antes da sambista. Elis humilhou a cantora Claudia, num show comandado por Elis na televisão. Impediu Nana Caymmi de cantar em seu programa. Falou mal de Nara Leão.Depois o embate com o pessoal da jovem guarda, do tropicalismo. A vida pessoal de Elis também é exposta através das crises amorosas de seus casamentos, recheadas de brigas e traições.

Elis Regina, Nada será como antes começa com Elis caída no chão do quarto, inconsciente,  acudida pelo namorado Samuel Mac Dowell, a empregada e uma amiga, sendo levada a seguir para o hospital já em coma. A partir do segundo capítulo, volta no tempo e relata os passos de Ellis desde quando era crooner em programas de rádio em Porto Alegre, chegando no Rio em 1964, ganhando projeção nos festivais da canção, tendo programas de sucesso, como o Fino da Bossa, com Jair Rodrigues, forjando rapidamente seu estilo de melhor cantora do Brasil. Cada seção do livro tem com o lançamento de um disco ou de um show. E termina novamente no quarto de Elis, caída no chão do quarto, devido a dose excessiva de cocaína e cinzano.

Senti falta de um enfoque mais consistente na qualidade do trabalho de Elis e no que ela representou e representa para a geração de músicos que foi e é influenciada por ela. Isso até aparece, mas de forma pálida. O que predomina é o que o público, em sua maioria quer saber, os "podres" de Elis. Mas  sua leitura é válida, na medida em que coloca o foco, ainda que, às vezes distorcido, sobre a vida dessa cantora maravilhosa, que merece uma biografia melhor elaborada, calcada em sua qualidade artística. Eu já havia lido um livro sobre Elis Regina, lançado em 1985, pela jornalista Regina Echeverria, amiga da cantora, Furacão Elis. A jornalista compacta os fatos em volta da cantora, dá menos vazão às baixarias  e abre espaço para relatar o pronunciamento de algumas figuras importantes que fizeram parte do círculo de Elis. Ronaldo Bôscoli, seu primeiro marido, dá seu depoimento no livro. O livro de Júlio Maria teve a vantagem da passagem do tempo, com a perda da cantora já elaborada nos corações e mentes.
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Lançamento de 2015, 424 pp. Editora Master Books. Pesquise os preços, porque há boas ofertas de venda. O preço de tabela é de 49,90 reais.

domingo, 19 de julho de 2015

Longa jornada noite adentro

O dramaturgo norte-americano Eugene O'Neil (1888/1953) teve uma vida particular que ninguém gostaria de ter. Depressivo, alcoólatra, tuberculoso e neurótico, teve um filho do primeiro casamento que só veio a conhecer 11 anos depois.  Nascido num hotel, teve uma vida de criança errante, já que seu pai, um irlandês emigrado aos Estados Unidos, era ator de teatro e fazia constantes turnês pelo país com seu teatro de repertório. Quando não estava com eles, estava em um internato. Carente de uma infância feliz, concluiu seus estudos secundários sem grande brilho e tentou fazer a universidade, mas acabou expulso por ter jogado uma garrafa na janela  do reitor Woodrow Wilson,mais tarde o presidente dos Estados Unidos.
Passou a trabalhar, então, em serviços burocráticos. Casou-se pela primeira vez aos 19 anos, viajou para Honduras à procura de ouro. Voltou aos Estados Unidos e mais tarde empreendeu viagens marítimas, visitando vários lugares do mundo, inclusive a Argentina, onde chegou a viver por alguns anos em miséria completa.

Aos 23 anos sua vida começou a mudar para melhor, quando passou a trabalhar no teatro com o pai. Porém, aos 24 anos tentou o suicídio e foi internado em um sanatório. Lá, iniciou a leitura de grandes dramaturgos universais e acompanhou os autores de sua época.
Passou a escrever peças de um ato e teve a atenção voltada pela importância de sua obra quando pôs em prática seu projeto de adaptar as tragédias clássicas gregas à vida norte-americana de sua época, com a trilogia Mourning becomes Electra, com as peças  A volta para casa, O caçado e Os assombrados. Chamou a atenção do Nobel, que lhe outorgou o prêmio em 1936. Sua peça mais importante, entretanto, é Longa jornada noite adentro (1941), baseada em sua vida e na de sua família. A orientação do autor era de que a peça só pudesse ser montada 50 anos após sua morte.A viúva de O'Neil, entretanto, autorizou sua montagens poucos anos após sua morte, considerando que o autor e todos os familiares retratados no texto já estavam mortos.
Ao fazer uma súmula do que era a família dele, acaba trazendo uma contribuição importantíssima ao drama realista moderno, abrindo espaço para a subjetividade e a dimensão psicológica. Não é uma peça com progressão dramática, mas um corte vertical que aprofunda um mundo focado na afetividade,

A peça se passa na casa de veraneio da família, em agosto de 1912, entre as 8h30 da manhã até a meia-noite. O relacionamento dos personagens nessa concentração de espaço e tempo faz aflorar uma série de questões não resolvidas de mágoas, culpas e ressentimentos, de um relação aos demais. O pai, avarento e sovina, abriu mão do sonho de ator shakespeareano, partindo para montagens comerciais para poder manter o sustento da família. Mais tarde, abandona a profissão e passa a investir em propriedades, às vezes de forma desastrada. A mãe abriu mão de sua carreira de pianista para acompanhar o marido em suas turnês teatrais. Durante um desses afastamentos, o filho que havia ficado aos cuidados da avó morre de sarampo, causando-lhe um trauma do qual não consegue se recuperar (na peça, esse filho tem o nome Eugene). Também torna-se dependente de heroína devido a uma prescrição médica, quando teve Edmund. O filho mais velho é um fracassado financeiramente, enveredando pela bebida, acusado pelos pais de induzir o irmão mais novo, Edmund (alter ego de O'Neil), de quem era ídolo, para as noitadas e a bebida. Edmund está numa condição de saúde precária que não é mencionada na peça, até o final, quando ficamos sabendo que é tuberculoso.

Nas rubricas do texto, o autor trabalha primorosamente cada detalhe do espaço cênico e da caracterização dos personagens.
Longa jornada noite adentro é um prato cheio para qualquer atriz que se aventure a interpretar Mary, a mãe. Atrizes de talento fizeram isso e se deram bem. Cacilda Becker atuou na montagem de 1958, com direção de Ziembinski. Mais tarde, sua irmã, Cleide Yáconis também. Vanessa Redgrave, no teatro inglês. No cinema, tivemos Catherine Hepburn numa atuação meio estereotipada, mas que não desmereceu sua brilhante performance.

Bem, ninguém lê teatro. Por isso encontrar bons textos teatrais para leitura não é tarefa muito fácil. Eu consegui ler o texto baixado na internet, que não menciona dados importantes como a editora e o tradutor. Tem uma edição em livro de 2004, traduzido por Helena Pessoa, pela Editora Peixoto Neto. Custa 29,90 reais. Esse texto já havia sido lançado pela Editora Agir lá pela década de 1960. A Abril Cultural, em sua coleção Teatro Vivo, também lançou a peça. O texto é fácil de ser encontrado em sebos por preços bem acessíveis.

No Brasil, O'Neil teve fundamental importância para Abdias Nascimento, um dos principais representante da militância contra a discriminação racial. Quando assistiu à montagem de O imperador negro, de O'Neil, no Peru, em que o personagem protagonista é negro (mas foi representado por um branco com o rosto pintado), sentiu vontade de montar a peça no Brasil com atores negros. Conseguiu de O'Neil a liberação dos direitos autorais e a montagem deu origem ao Teatro Experimental do Negro, que exerceu suas atividades com sucesso, de 1941 a 1961, quando encerrou suas atividades, devido à forte pressão da censura sobre o grupo.


domingo, 12 de julho de 2015

O amante

Uma velha escritora  está no saguão de um lugar público,  em Paris, quando se aproxima um homem que diz conhecê-la  há tempo e que a acha mais bonita agora, com aquele rosto"devastado",  marcado pela solidão, pela bebida e pelo cigarro, do que quando era jovem.  Isso desencadeia nela uma série de imagens alimentadas pela memória, que a levam até à adolescência, quando morava em Saigon, durante a colonização francesa na Indochina, na última década da primeira metade do século XX. Decide, então, revelar um acontecimento desse período, quando teve  o encontro amoroso  com um chinês que lhe marcou profundamente a vida.  

Naquela época, com quinze anos, morava num pensionato em Saigon. Teve dois irmãos, o mais velho viciado em heroína e o mais moço morto cedo, assim como seu pai, já  falecido. Sua mãe tentava manter o padrão de vida, mas acabou indo à falência, devido a transações financeiras desastradas. O ônibus que a levava cotidianamente à escola atravessava o rio Mekong numa balsa. Numa dessas viagens, observa que na embarcação há uma grande limusine preta com um motorista ao volante. No banco traseiro está um homem elegante que a observa. Ele sai da limusine e aproxima-se. É um chinês recém vindo de Paris, onde concluiu seus estudos, pertencente a uma minoria chinesa que comanda todos os imóveis populares da colônia. Ele se oferece para levá-la de limusine até a escola. A carona torna-se cotidiana. Os dois tornam-se amantes, passando a frequentar um lugar neutro, para fugir dos comentários da população local. Essa fuga também representa a defesa de um homem infeliz,  condenado, pela tradição familiar, a fazer um casamento arranjado com uma jovem chinesa.  O rompimento dos dois acaba sendo definitivo. Ela e a mãe retornam a Paris. 

Trata-se de um romance curto (mas denso), numa prosa poética envolvente, que se lê corrido até seu final. A esse relato do encontro na balsa, a autora intercala as impressões dessa adolescente no contato com as pessoas, especialmente a mãe, com quem teve desavenças.

Marguerite Duras (1914/1996) viveu com a família em Saigon mais ou menos da década de quarenta do século passado. Mas não parece estarmos diante de uma autobiografia romanceada.  A narrativa, muito bem elaborada, nos faz mergulhar de cara na mentira da ficção.

A tradução é de Denise Bottmann, pela editora Cosac Naify.


A obra encontra-se esgotada, mas pode ser encontrada em sebos virtuais.  Como eu queria ler a edição da Cosac, comprei o livro digital por 10,95. Edição de 2013, 112 pp.

domingo, 5 de julho de 2015

Pais e filhos

Pais e filhos, do escritor russo Ivan Turguêniev (1818/1883),  reflete o conflito de gerações, mudanças de pensamento (e as crises de sentimento), turbulências sociais e políticas na Rússia da segunda metade do século XIX. O fim da servidão havia sido recém decretado pelo czar da época, surgem organizações políticas secretas, com ações violentas (inclusive assassinatos), que se reuniam com o fim de combater o modo de vida burguês centrado, ainda, nos ideais românticos. Dostoiévski, contemporâneo de Turguêniev, usa como base o assassinato de um desses integrantes pelo próprio grupo, para movimentar sua monumental obra Os Demônios.

Em Pais e Filhos, Nikolai Kirsánov, é um fidalgo rico, dono de terras. É viúvo e mantém em casa uma jovem criada que tem uma filha que todos sabem ser dele. Agregado à casa, mora Pável, irmão de Nikolai, solteirão, detentor de certa moral rígida  que o impede de aceitar o relacionamento do irmão com a criada. Quando começa a história, Nikolai espera o regresso de seu filho Arkádi, que terminara a universidade. O jovem traz consigo um amigo, Bazárov, para passar uns dias com ele na fazenda. Bazárov é filho de um médico do exército que tem uma pequena propriedade na província. De cara, Bazárov passa a ter um comportamento irreverente em relação aos costumes da família, isolando-se a maior parte das vezes, causando certa admiração, mas também preocupações à família de Arkádi. Um dia, o tio de Arkádi, pergunta-lhe sobre Bazárov:

"
- É um nihilista.
- Como?- perguntou Nikolai Petróvitch, enquanto Pável Petróvitch se punha imóvel, a faca erguida no ar com um pouco de manteiga na ponta da lâmina.
- Ele é um nihilista - repetiu Arkádi.
- Nihilista - disse Nikolai Petróvitch - Vem do latim nihil, nada, até onde posso julgar; portanto essa palavra designa uma pessoa que... que não admite nada?
- Digamos: que não respeita nada - emendou Pável Petróvitch e novamente se pôs a passar manteiga no pão.
- Aquele que considera tudo de um ponto de vista crítico - observou Arkádi.
- E não é a mesma coisa? indagou Pável Petróvitch.
- Não, não é a mesma coisa. O nihilista é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com base na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito.
- E o que há de bom nisso? - interrompeu Pável Petróvitch.
- Depende, titio. Para uns é bom, mas para outros é péssimo.
- Está muito bem. Mas, pelo que vejo, isso nada tem a ver conosco. Somos gente do tempo antigo, acreditamos que, sem princípios - Pável Petróvitch pronunciava essa palavra com suavidade, ao estilo francês, ao passo que Arkádi, ao contrário, a pronunciava com o "i" duro russo, acentuando a primeira sílaba -, sem princípios aceitos, como você diz, com base na fé não se pode dar nem um passo, nem mesmo respirar. Vous avez changé tout cela (os enhores mudaram tudo), que Deus lhes dê saúde e o posto de general, mas, quanto a nós, nos contentaremos em admirar as futuras realizações dos senhores, os... como os chamou?
- Nihilistas - pronunciou com clareza. (p.36)
    "

Turguêniev cunhou pela primeira vez o termo nihilista, que se popularizou em seguida, para designar os grupos de intelectuais que combatiam o tradicionalismo arraigado na sociedade burguesa russa, combatendo, inclusive, a autoridade e a ideia de Deus. Seus membros, em sua maioria, eram advindos de uma classe média sem antecedentes agrários: filhos de médicos, militares e comerciantes, que começavam a contestar os valores vigentes,  considerados por eles  antiquados e injustos. Bazárov rejeita todo tipo de sentimentalismo, comporta-se mal diante das pessoas, impede toda possibilidade de aproximação que possa levar à amizade ou união amorosa. Com isso, isola-se do meio social e vive uma solidão terrível, sem valorização da vida. Para ser fiel a suas ideias, rejeita o amor de uma jovem burguesa que ele também ama, mesmo sabendo que isso o fará sofrer.

Nietzsche intitulou-se o último nihilista. Não se sabe, entretanto, se o termo teve influência direta do contexto de Pais e Filhos, já que o filósofo alemão nunca citou Turguêniev em sua obra.

Exímio criador de tipos, especialmente de homens simples, capturou muito bem o espírito da época em que foi escrito. A literatura de Turguêniev influenciou sobremaneira a literatura ocidental.

Traduzido diretamente do russo por Rubens Figueiredo, numa edição impecável (como sempre) da Cosac Naify. Preço médio de 50 reais, o exemplar novo. Pesquise as promoções.

3ª edição, 2015, 352 pp.


domingo, 28 de junho de 2015

Relatório ao Greco

Nunca tinha encarado meu pai com ternura; o medo que ele provocava em mim era tão grande que todo o resto, amor, respeito, intimidade, desaparecia. Suas palavras eram pesadas, e seus silêncios ainda mais pesados; raramente falava e, quando abria a boca, suas palavras eram medidas, bem pesadas, não deixava espaço para refutação; tinha sempre razão e, ao que parece, isso o tornou invencível. Eu pensava frequentemente: "Ah, se ele não tivesse razão, eu faria das tripas coração e o refutaria" mas ele nunca deu ocasião para isso, e isso era algo imperdoável. Era um carvalho de tronco duro, com folhas espessas e frutos amargos, sem nenhuma flor; ele engolia toda a força a seu redor e toda e qualquer árvore que estivesse à sua volta, murchava; eu murchava da mesma forma à sua sombra e não queria viver sob sua respiração; quando eu era jovem, dentro de mim, explodiam rebeliões delirantes, estava pronto a me lançar em aventuras perigosas; mas, pensava em meu pai, e meu coração se acovardava; eis porque, ao invés de me tornar um grande combatente em ação, por medo de meu pai, obriguei-me a escrever aquilo que queria fazer; meu sangue converteu-se em tinta. (p.446/7)

O temperamento do pai de Kazantzákis reflete o ambiente de  Megalo Kastro (atual Heraklion, capital de Creta), que o autor descreve como um lugar governado por uma lei severa em que ninguém levantava a cabeça, pois estava acima deles; a cidade toda era uma fortaleza, cada coração, também, uma fortaleza submetidos ao poder dos turcos, na passagem para o século XX. Ficavam trancafiados dentro de casa, vendo os turcos passar amedrontando a população, ouvindo vozes e gemidos dos feridos. Nesse clima de terror, Kazantzákis menino via a imagem do pai de pé, atrás da porta, com fuzil armado, pronto a matar a família, caso a casa fosse invadida, para que não caíssem nas mãos deles.

Em sua juventude, sob a influência de filósofos importantes,inclusive Nietzsche, passou a questionar a participação do homem na evolução do mundo. Havia chegado o momento do homem aceitar dentro do seu coração todas as batalhas e todas as esperanças e colocar ordem no caos sem esperar nada de Deus; de manter ereta a sua liberdade pessoal para se apresentar de pé quando chegasse o momento; de transformar a insanidade que rodeava sua juventude, os gritos covardes numa única palavra certa. Kazantzákis encontrara sua identidade como escritor.

Fala do amigo Yóryis Zorbás, que ele eternizou como Aléxis Zorbás em seu romance famoso que o alimentou espiritualmente pela vida toda. Zorbás tinha tudo que um escritor precisava para se salvar: a visão que abarcava tudo que alimenta a vida, de forma rápida; a criatividade, a ingenuidade de ver tudo pela primeira; a coragem de rir de seu próprio espírito.

Vale muito a pena a leitura de Relatório ao Greco.

Tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão

           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Níkos Kazantzákis. Relatório ao grego. Rio, Cassará, 2014, 488 pp. Valor: de 80 a 100 reais o exemplar novo.

domingo, 21 de junho de 2015

Stoner

William Stoner, filho de agricultores humildes, vai estudar na Faculdade de Ciências Agrárias, da Universidade de Columbia, Missouri, a pedido do pai. Torna-se calouro no ano de 1910. Mas, através das aulas de inglês, entra em contato com a literatura e toma-se de paixão, especialmente, pela poesia medieval inglesa. Muda de curso. Incentivado por esse professor, faz doutorado e ingressa na Universidade, como professor assistente, função que vai exercer durante toda a vida acadêmica. Casa-se, vive uma vida comum, atravessando os conflitos de duas guerras mundiais, até morrer em 1956, sem deixar nada de significativo em termos de produção de conhecimento. Só que as coisas não terão uma aparência assim banal nas entrelinhas de Stoner, romance lançado em 1965 e recém-publicado pela nova editora, Rádio Londres.

Ainda jovem, Stoner casa-se com Edith, uma jovem esquisita e silenciosa, tanto quanto ele. Os dois casam virgem. Logo, Edith passará a desenvolver um ódio gradativo ao marido, passando a desenvolver um comportamento meio esquizofrênico. Nasce-lhes a filha, Grace, que a mãe trata de separar do pai, para agredi-lo. Depois expulsa o marido do quarto, depois desmancha-lhe o escritório de estudo e o expulsa para uma peça inadequada no fundo da casa. Stoner acaba, praticamente, expulso de casa. Na faculdade, aproxima-se de uma aluna, Katherine Driscoll, que havia conhecido em um malfadado seminário, em que bate de frente com a incompetência e arrogância de um aluno despreparado, mas que estava sendo incentivado a ser aprovado "na marra", pelo chefe de departamento, Hollis Lomax, que infernizará sua vida, quando Stoner se nega a aprovar o tal aluno. Com isso,  nunca será promovido na universidade.

O que torna a história de Stoner uma obra-prima, é o brilhantismo de John Williams (1922/1994), através de uma carpintaria literária requintada, onde sobra lirismo e sensibilidade, ao narrar os desmazelos de Stoner de forma a incentivar o leitor a seguir a leitura quase sem parar.Cria, no leitor, uma expectativa de que Stoner venha a reagir a cada ataque da esposa ou de Lomax. O problema é que a todas as adversidades, ele responde: Isso não tem importância!

Há um momento, que considero o ponto alto do livro, em que Stoner e a aluna Katherine se apaixonam e passam a viver um amor intenso e os dois passam a ignorar, ainda que de forma discreta, a opinião das pessoas, mesmo as do campus onde trabalham. Se em casa sua mulher, surpreendentemente parece não se importar com isso, na universidade as coisas se complicam.  Lomax exige que o romance acabe, como isso não acontece, decide expulsar a aluna para atingir Stoner diretamente. Como Stoner não se dispõe a fazer uma mudança radical em sua vida, Katherine decide se demitir e se mudar de Columbia. Então começa a derrocada final de Stoner, ele envelhece precocemente, torna-se um tanto ranzinza, passa a desenvolver a surdez parcial de um dos ouvidos. No final da vida acadêmica, é incentivado a se aposentar. Ele reage, mas meses depois volta atrás. Temos, portanto, a vida de um homem que passa o tempo todo a buscar a imagem de si mesmo e parece não encontrá-la.

Tradução de Marcos Maffei.
            
                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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John Williams. Stoner. 2ª ed, Rio, Rádio Londres, 2015, 320 pp, R$ 33,00


domingo, 14 de junho de 2015

Vida e proezas de Aléxis Zorbás

A obra de Nikos Kazantzákis já foi editado com o título de Zorba, o grego, parodiando o título do filme baseado no livro, lançado em 1964, pelo cineasta grego Michael Cacoyannis. Vida e proezas de Aléxis Zorbás, publicado pela Grua Livros, tem tradução diretamente do grego de Marisa Ribeiro Donatiello e Silvia Ricardino. As tradutoras esclarecem no posfácio que Kazantzákis baseou-se em uma figura real para construir seu personagem, Yóryis Zorbás, que ele conheceu quando explorou uma mina na região do Peloponeso e com quem manteve uma amizade duradoura até a morte de Zorbás.

O narrador-personagem, um escritor cretense (não se consegue dissociar o personagem do autor), vai buscar na memória, devido à saudade, a figura de Aléxis Zorbás, para demonstrar a importância que este teve em sua vida. Os dois se conheceram, quando o escritor pegara um barco para se dirigir a Creta, onde pretendia passar uns dias junto à natureza, para aliviar sua angústia existencial. Durante o trajeto, entram em contato e Zorbás se oferece para ser seu empregado, enquanto estivessem lá. Juntos decidem explorar uma mina. No contato com as pessoas da aldeia onde se hospedam, o escritor conhece uma viúva deslumbrante, que se interessa por ele, enviando-lhe presentes. Mas o assassinato cruel da viúva pela comunidade, motivado por questões de vingança moral, impede que os dois possam engatar um provável romance.

Zorbás, macedônio, era um homem primitivo que passava por cima de questões como razão, moral e honradez, atingindo a essência das coisas de forma original. A melhor forma de comunicação que ele via, entre as pessoas, era a dança e a música. Vivia sempre acompanhado de seu instrumento de corda, o santir. De aspecto rude, mas sedutor e inteligente, dizia não acreditar em nada. Se acreditasse no ser humano, teria de acreditar em Deus e no diabo. O ser humano soava-lhe como um animal, quando se lhe faz o bem, arranca-lhe os olhos. Era curto e grosso, dizia que a velhice não amansa o homem, ao contrário, quanto mais envelhecia, ficava mais selvagem.

O escritor aprendeu com Zorbás que a felicidade pode ser simples e frugal, só é preciso um coração simples e leve para se sentir que tudo isso é felicidade. O ar livre, o mar, o pão  de trigo e um copo de vinho, a bater conversa com Zorbás, que com sua filosofia aparentemente simples da vida, escondia a profundidade da existência humana e do sentido da liberdade.

          paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Nikos Kazantzákis. Vida e proezas de Aléxis Zorbás. 3ª ed, SP, Grua, 2011, 352 p, De 46 a 53 reais. Comprei o exemplar novo na Estante Virtual por 30 reais.

domingo, 7 de junho de 2015

A vida privada das árvores

No começo, a história de Verónica e Julián não foi uma história de amor. Na verdade, eles se conheceram mais por motivos comerciais. Ele vivia, na época, os estertores de um prolongado namoro com Karla, uma mulher distante e sombria que por um triz não virou sua inimiga. Não havia para eles grandes motivos de comemoração, mas mesmo assim Julián ligou, por indicação de um colega de trabalho, para Verónica, a doceira, e encomendou um bolo três leites, que acabou alegrando bastante o aniversário de Karla. Quando Julián foi buscar o bolo no apartamento de Verónica, o mesmo onde vivem agora, viu uma mulher morena e magra, de cabelos longos e lisos, olhos escuros, uma mulher por assim dizer, chilena, de gestos nervosos, séria e alegre ao mesmo tempo; uma mulher bonita, que tinha uma filha e talvez tivesse também um marido. Enquanto esperava, na sala, que Verónica terminasse de embalar o bolo, Julián conseguiu entrever o rosto branco de uma menina bem pequena. Depois houve um breve diálogo entre Daniela e sua mãe, um diálogo áspero e cordial, cotidiano, talvez uma queda de braço sobre escovar os dentes. (pp.14/15)

Verónica é uma jovem que cursa o segundo ano de licenciatura em Artes. Engravidou em segredo sem avisar a ninguém, nem mesmo a Fernando, seu companheiro. Foi quando descobriu que o mundo em que vivia não era aquele ao qual queria fazer parte. Nasce Daniela, a relação com Fernando se esvai. Depois Verónica conhece Julián, professor de literatura em uma universidade de Santiago do Chile. Não se decidiu a fazer uma especialização, devido à necessidade de trabalhar. É também escritor, acabou de terminar um livro. E cuida de um bonsai. Quando começa a história dessas três personagens, Julián distrai a enteada com A vida privada das árvores, uma série de histórias que inventa para fazê-la dormir, já que Verónica não chega em casa, de sua aula de desenho. A espera se alonga, a menina fica cada vez mais desperta com o suceder das histórias, e os pensamentos vão preenchendo o vazio da espera, revelando detalhes da vida de Julián e de Verónica, dando-nos a impressão que há uma distância irreparável na vida de duas pessoas que se gostam.

Alejandro Zambra cria uma narrativa em que a presença de Verónica acontece na memória, já que o motivo que conduz a história é a espera de uma mulher que não está. O autor, através da ausência inexplicável de Verónica, cria um vazio existencial em Julián motivado pela incerteza de amar uma mulher que não conseguiu entender.  Quem é Verónica, por que não aparece, do que estará fugindo? É uma narrativa curta, interessante, de um jovem escritor chileno que está abrindo seu espaço no mercado editorial.

Tradução de Josely Viana Baptista
                           
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br 
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Alejandro Zambra. A vida privada das árvores. SP, Cosac Naify, 2013, 96 pp, R$ 27,00   

domingo, 31 de maio de 2015

Submissão

Na história de Michel Houellebecq (1956), passada em 2022,a França parece viver um período de alternância democrática em que ora um partido de centro-esquerda é eleito por alguns mandatos, substituído por outro de centro-direita, caracterizando um regime que nada mais é que a composição de duas gangues rivais dividindo politicamente o poder. Juntam-se a isso, os muçulmanos, com ações violentas visando provocar, sabe-se lá, uma guerra civil.

Um pouco antes disso, a extrema direita começa a progredir, ressuscitando ideologias fascistas e nazistas, com o incentivo à xenofobia numa França povoada por inúmeros imigrantes advindos de suas ex-colônias africanas. Em 2017, entretanto, o mundo assiste, estarrecido, à reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais direcionado à direita. Um mês depois dessa reeleição, o político muçulmano Mohammed Ben Abbes cria a Fraternidade Muçulmana, que assume uma postura moderada em relação às questões políticas do momento, até que, em 2022, elege Ben Abbes, dotado de uma verdadeira genialidade política, conseguindo controlar os extremistas e promover a união entre os muçulmanos.

Fançois, o personagem solitário de Submissão, é um tipo sombrio, angustiado, depressivo, sem muito gosto pela vida, observando com indiferença o que se passa a sua volta, com a falência da Europa, o declínio de um modelo econômico, a crise do Ocidente e a submissão absoluta da mulher ao homem, do homem a Deus, como vê o Islã ao qual o personagem acaba aderindo.Vive portanto, em uma crise existencial representativa de toda França mergulhada em violência e xenofobia.

Houellebecq é um cronista de seu tempo. Seus personagens circulam em um mundo real, em meio a personagens políticos conhecidos da história da França. François não tem interesse por política, mas a política se interessa por ele. Por isso, os acontecimentos históricos terão um impacto importante em sua vida (conversão ao Islã). O Ocidente vive num individualismo absoluto, onde o que é coletivo perde seu valor. A Fraternidade Muçulmana vem a recuperar esse sistema que o liberalismo econômico havia posto abaixo.A sensação de algo coletivo que é oferecido pela religião.

Submissão foi lançado no momento em que ocorrera o assassinato de jornalistas do Charlie Hebdo, em represália às sátiras que o jornal publicava do profeta Maomé. Submissão, entretanto, é um livro que possui certa empatia com a habilidade política do muçulmano Abbes. Mesmo assim, não escapou de críticas tanto da direita, como da esquerda francesas, levando o autor a se resguardar por questões de segurança.

Vale a pena ler o livro.

Tradução de Rosa Freire d'Aguiar

                 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Michel Houellebecq. Submissão. Rio, Objetiva, 2015, 256 pp, Preço: de 20 a 40 reais, novo.



domingo, 24 de maio de 2015

A neve estava suja

O personagem central de A neve estava suja é uma incógnita, quanto mais queremos saber sobre ele (e esse é o trunfo da história) mais ele se torna escorregadio. Frank Friedmaier vive na pensão de Lotte, sua mãe. O lugar é um prostíbulo que atende, em sua maioria, soldados do exército alemão que invadiu Paris. Frank não tem  perspectivas, levando uma vida ociosa, transando com as garotas da pensão ou frequentando um bar em frente, onde tem um amigo, Fred Kromer, criminoso de carteirinha. Tem uma jovem, ainda virgem que o ama, mas que ele prepara para entregar a Kromer, para ser deflorada. Quando começa a história, ficamos sabendo que Frank já matou um homem, oficial do exército, e ficou com seu revólver. Frank mata sem um objetivo específico, só para saber como se sente depois. kromer põe o jovem em contato com o contrabando de relógios. Frank é preso pelos nazistas portando grande quantidade dinheiro e passa a ser interrogado. O que chama atenção é que Frank não expressa o menor desejo de salvar sua vida. Enfrenta os interrogatórios com coragem. Para de se alimentar e entra numa letargia que lhe parece ser fatal. Sua mãe o visita na prisão para lhe dizer que  fechará a pensão e o abandonará.


Georges Simenon ficou famoso com as histórias do detetive Maigret, mas escreveu outros romances de cunho psicológico mais elaborados, como A neve estava suja, considerado sua obra prima, escrito em 1948, quando a segunda guerra recém acabara. 

Tradução de Eduardo Brandão

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Georges Simenon. A neve estava suja. SP, Cia. das Letras, 2014, 230 pp. Preço de 27 a 34 reais o exemplar novo.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Romeu e Julieta na aldeia


Dois lavradores, Marti (pai do menino Sali, de 7 anos) e Manz (pai da menina Vrenchen) fazem o serviço de lavragem. Próximo à hora do almoço as duas crianças trazem a comida ao pais e permanecem por ali, brincando, até o final da tarde, quando ocorre um fato que põe os dois lavradores em confronto para sempre.

Junto às terras de sua propriedade, havia outra terra de propriedade do avô do violinista negro (um cigano) que ia, aos poucos, sendo tomada pelos dois homens. Os ciganos, assim como outros imigrantes que entravam na Suíça eram considerados ilegais, desprovidos de certidão de nascimento ou de batismo no século XIX, época da narrativa. Nos cantões de Zurique, todos os que não possuíam certidão de nascimento emitido pela localidade, eram excluídos do direito de cidadania. Assim sendo, esses imigrantes, mesmo com propriedade de terra, como o avô do violinista, eram considerados desprovidos de bens. Voltando ao início, no final desse dia, Marti e Manz brigam por um triângulo de terra que um queria tomar para si, mas que o outro também queria. Os dois lavradores entram em disputas judiciais que os levam à miséria, tendo Manz sido obrigado a sair o campo e montar uma taberna na vila, que não deu bons frutos. Marti também passou a arrendar pequena propriedade de terra que antes era sua.

O tempo passa, e um dia Sali e Vrenchen se reencontram, já adolescentes, e se apaixonam. Mas há um elemento trágico na relação dos dois: pelo fato dos pais serem inimigos, não seria possível a eles a concretização desse amor. Os dois acabam fugindo, em busca de um lugar neutro para viver, mas sempre aparecia no caminho deles o tal violinista, que os convidava para viver junto à comunidade nômade excluída, que não ligava para normas morais rígidas, como a obrigatoriedade do casamento. Os dois recusam o convite e partem para um lugar onde possam dançar livremente, longe de olhares. Os dois encontram esse lugar, divertem-se quase a noite toda e decidem, então, firmar um pacto de morrerem juntos para conseguirem ser felizes numa outra vida. Na manhã seguinte os dois corpos são encontrados no rio.

O título da novela de Gottfried Keller (1819-1890) vem emprestado na tragédia de Shakespeare, Romeu e Julieta, mas o mote da narrativa do escritor suíço teve por base uma notícia de jornal publicada num jornal alemão, sobre dois jovens que haviam sido encontrados mortos afogados, com dois tiros no corpo.

Tradução de Marcus Vinicius Mazzari
                                 
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Gottfried Keller. Romeu e Julieta na aldeia. SP, Ed. 34, 2013, 160 pp. R$ 38,00

domingo, 10 de maio de 2015

A Paixão

A Paixão, do escritor português Almeida Faria (1943), passa-se em uma sexta-feira santa num sítio de lavradores do Alentejo, envolvendo um casal, Francisco e Marina,  com os filhos André, João Carlos, Arminda, Jó  e Tiago, mais os servos da casa, Piedade, Estela e Moisés. Cada um deles com uma história forte de vida, com seus conflitos existenciais.  A primeira parte, A manhã, é um recorte da vida solitária de cada um de seus membros, durante as atividades que executam durante esse período. À tarde, ocorre um incêndio em um dos lugares da propriedade da família. O fogo funciona como o inferno das almas, a luta necessária para que haja a transformação, a ressurreição de uma nova vida, mais justa.  

André, o filho mais velho, representa o antigo, é reacionário, está sempre dormindo e sonhando, envolto em um calor sufocante.  João Carlos, o filho do meio, tem a função de ser o transformador na história narrada. Está sempre alerta, sempre voltado à ação, tem o ímpeto da transformação, é o responsável pela imolação do cordeiro que será servido no almoço da  sexta-feira santa. Funciona também como o homem que luta e é morto para que possa ser ressuscitado como o novo homem português que, historicamente vai acontecer com a Revolução dos Cravos em 1974. O romance foi escrito ainda na era Salazar, em 1966.

O romance represente um recorte sócio-histórico de Portugal na época da opressão salazarista, mas a obra é grandiosa em sua forma poética, como obra de ficção. As imagens presentes na narrativa são muito fortes, impressionantes. A paixão é desses romances que se vai ler várias vezes. É um ritual de vida.
 
                       paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Almeida Faria. A paixão. SP, Cosac Naify, 2014, 224 pp, R$ 44,90