domingo, 14 de dezembro de 2014

Hanói

David é filho de pai brasileiro da região de Governador Valadares (emigrado ilegalmente nos EUA) com uma mexicana. Aos 38 anos é diagnosticado de câncer no cérebro, tendo poucos meses de vida. Ao sair do consultório,  pensa no sentido da vida diante dos sintomas do câncer que o levará à morte daqui a pouco. Chega em casa em põe um disco de sua refinada coleção de jazz. Enquanto ouve a música põe-se a observar a coisas a seu redor.  Não tinha pensado em deixar o apartamento, mas em algum momento começou a parecer que seria a ordem natural das coisas. Livrar-se de tudo que havia ali dentro, esvaziá-lo como se esvaziam os bolsos de uma calça, e depois se livrar dele também, da vizinhança, das esquinas conhecidas. Começou, assim, a doar as coisas que tinha à vizinhança.

Quando David vai a uma mercearia asiática no bairro, puxa conversa com Alex,  jovem descendente de vietnamitas, caixa desse estabelecimento. Depois vai uma segunda vez, agora com a necessidade de aproximar-se dela. Pensa David: será que todas as pessoas que conhecemos têm alguma função na nossa  vida, algum papel a desempenhar? Não precisa ser algo grandioso. Podemos topar com alguém na esquina apenas para que esse alguém nos pergunte a direção da rua tal, qual a melhor opção para se fazer uma receita, será que não precisa de um eletrodoméstico que tenho em casa e quero me desfazer?

Alex é mãe solteira. Vive com dificuldade, como quase todo imigrante nos Estados Unidos. Os dois tornam-se íntimos. Quando Alex lhe diz que nunca conhecera o Vietnã, David começa a alimentar a ideia entre eles, de conhecerem Hanói. Também seria uma forma de autoanálise,  de confrontar sua própria identidade através da metáfora do deslocamento.

Até então, só conhecia Adriana Lisboa, através das traduções competentes de duas novelas de Stefan Zweig, Três novelas femininas, e de A estrada, de Cormac McCarthy. Hanói apresenta uma prosa elegante contada com delicadeza.
             
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Adriana Lisboa. Hanói. Rio, Objetiva, 2013, 236 pp, R$ 39,90

domingo, 7 de dezembro de 2014

O caminho de Ida

Ida era uma intelectual norte-americana engajada numa guerra sem cartel contra os defensores do desconstrucionismo de Derrida, atacando-os pela esquerda, na grande tradição dos historiadores marxistas. Não tinha um público amplo. Trabalhava para a elite e contra ela, odiava as pessoas que formavam seu círculo profissional. Também gostava de segredo, dos encontros clandestinos num hotel de beira de estrada. Um dia, é encontrada morta em um carro batido, com a mão direita queimada

Emilio Renzi (personagem de outros livros de Ricardo Piglia) estava nessa época - década de 1990 - nos Estados Unidos, a convite de Ida para dar uma palestra sobre o escritor naturalista W. H. Hudson,  escritor de língua inglesa nascido na Argentina e que se interessou pela vida e pelos aspectos físicos daquele país. Com a morte de Ida, Renzi interessa-se pelo caso. Investigando seu passado, descobre que tentara sem sucesso viajar a Cuba. Havia, também, participado de manifestações pela paz, pela descriminalização do aborto, pela igualdade racial, pelo acesso dos latinos à documentação legal, pelo fim do embargo a Cuba. Havia, ainda, participado dos grupos que se manifestaram contra a guerra no Iraque.

Renzi consegue chegar a Thomas Munk, suposto assassino de Ida. Percebeu que ele era considerado o exemplo mais bem acabado de um gênio pelos que o conheciam. Quando desorientado, parecia um tolo, falando confusamente, gaguejando como se estivesse perdido nas suas próprias divagações. Mas, quando estava em forma, era deslumbrante, luminoso, inflexível. Alguns analistas apontam que foi na Califórnia que Tom descobriu a filosofia antitecnológica e começou a sonhar em fugir para o mundo selvagem.
Munk acreditava que vivemos numa época de refluxo e derrota. Já não é mais possível construir grupos clandestinos, pequenas organizações terroristas fechadas, disciplinadas e eficazes. Essa época acabara. Estamos na época dos homens sozinhos, das conspirações pessoais, da ação solitária. Só podemos resistir escondendo nossos pensamentos invisíveis, nos confundindo com a multidão. Somos indivíduos dispersos, internados nas florestas, perdidos nas grandes cidades, sujeitos em fuga extraviados nas pradarias. Faz referência a Henry Hudson e a observação dos animais pampianos. A natureza seria o último refúgio da rebelião.

A conspiração é o motor dessa narrativa com um suspense ágil e revelador do mundo contemporâneo. Ricardo Piglia, como tem sido sempre, soube contar uma história interessante. Eu gostei.

Tradução de Sergio Molina
                              
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Ricardo Piglia. O caminho de Ida. SP, Companhia, 2014, 248 pp.

Preço: 17 a 37 reais o exemplar novo.


domingo, 30 de novembro de 2014

Será difícil ler Gregório de Matos?

Tenho frequentemente feito comentários sobre o conteúdo da leitura obrigatória da Ufrgs/2015.Chegou a vez de Gregório de Matos e Guerra. Lembro de uma jornalista comentando a experiência da filha durante o vestibular de 2014 na televisão, dizer que, apesar de ser leiga no assunto ser uma tortura obrigar os jovens adolescentes serem obrigados a estudar Gregório Matos. A jornalista havia lido alguns poemas marcados como leitura obrigatória e se decepcionou com a linguagem "quase ininteligível" do poeta.

Mas é justamente na escola que se deve estudar Gregório de Matos e buscar compreendê-lo de forma acessível. Estudei muito Gregório de Matos com meus alunos do ensino médio, lendo sua poesia. Num primeiro momento, ler sem paradas para marcar palavras difíceis, isso vem depois. Ler para discutir o poema. Ler em voz alta. Os estudantes são espertos e captam muita coisa, surpreendem. Pode-se depois situar Gregório de Matos dentro da cultura do Barroco brasileiro, cujas características estéticas evidenciam comparações abreviadas, antíteses, paradoxos. A questão da forma versus conteúdo. A linguagem poética do estilo barroco é rebuscada por refletir as contradições de um período formal estupendo, com o enaltecimento da forma, durante o Renascimento, para a obscuridade psicológica oriunda da crença autoritária do catolicismo que passou a dominar parte da França, mas especialmente Espanha e Portugal, se espraiando pelas colônias da América Latina. A poesia desbocada de Gregório de Matos é um caso a parte. Tudo o que foi escrito de escárnio e maldizer na Bahia de 1600 era atribuído a Gregório de Matos. Nem tudo era dele.

Vejamos essa poesia religiosa:

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
  
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Temos aí uma característica conceitista: o poeta faz uso de argumentos inteligentes usando como sua defesa a verdade expressa na bíblia. O poeta pecador reconhece a ofensa a Deus, devido à vaidade, mas pede o perdão de Deus com a certeza de que Deus, bondoso, certamente irá perdoá-lo.

Outra, com traços evidentes de ironia:

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, 
de vossa alta clemência me despido; 
porque quanto mais tenho delinquido, 
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado, 
a abrandar-vos sobeja um só gemido: 
que a mesma culpa, que vos há ofendido, 
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma orelha perdida e já cobrada, 
glória tal e prazer tão repentino 
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, 
cobrai-a; e não queirais, pastor divino, 
perder na vossa ovelha a vossa glória.

Exemplo de sua poesia filosófica: a inconstância dos bens do mundo, a instabilidade das coisas do mundo:

Nasce o sol e não dura mais que um dia. (antítese vida/morte)
Depois da luz, se segue a noite escura, (ant. claro/escuro)
Em tristes sombras morre a formosura, (ant.feio/belo)
Em contínuas tristezas a alegria. (ant. tristeza/alegria)

Porém, se acaba o sol, porque nascia? (dúvida)
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se trasfigura?
Como o gosto da pena assim se fia? (sofrimento)

Mas no sol e na luz falta a firmeza;
Na formosura, não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza. (ant. tristeza/alegria)

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza:
A firmeza somente na inconstância.

A poesia satírica, onde Gregório de Matos é mais reconhecido:

A Cidade da Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado,
Pobre te vê a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh! se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
que fora de algodão o teu capote!

Essa também:

 A cada canto um grande conselheiro,
 Que nos quer governar cabana, e vinha,
 Não sabem governar sua cozinha,
 E podem governar o mundo inteiro.

 Em cada porta um freqüentado olheiro,
 Que a vida do vizinho, e da vizinha
 Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
 Para a levar à Praça, e ao Terreiro.

 Muitos Mulatos desavergonhados,
 Trazidos pelos pés os homens nobres,
 Posta nas palmas toda a picardia.

 Estupendas usuras nos mercados,
 Todos, os que não furtam, muito pobres,
 E eis aqui a cidade da Bahia.

Poesia amorosa, com traços de amargor:

Ardor em firme coração nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que em um peito abrasas escondido, 
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! Que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.


Esse soneto, muito trabalhado nos compêndios de literatura, difere do lado deprimido do poeta para lançar um tom meio satírico ao poema:

Anjo no nome, Angélica na cara(*),
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

(*) Não se usava, no português antigo, rosto, mas cara.

Então, é tão difícil assim ler Gregório de Matos? Em todos os países a literatura é estudada, mesmo a dita literatura clássica, com respeito, como forma de preservar os valores culturais de um país. Por aqui, percebo que a moderna didática (tenho ranço da didática modernosa) busca incentivar a leitura no aluno, a partir do que ele gosta de ler, quando a função da escola é lhe apresentar outros valores ao lado do que ele gosta de ler.

Precisamos orientar a ler bons autores, sim.

Todos os poemas mencionados aqui pertencem à lista de poemas selecionados para leitura obrigatória da Ufrgs. Se o leitor se interessar, divulgo o site sobre os poemas de Gregórios de Matos selecionados para leitura obrigatória:


http://www.ufrgs.br/coperse/concurso-vestibular/vestibular-2015/leituras-obrigatorias

domingo, 23 de novembro de 2014

O homem que amava os cachorros

O romance do cubano Leonardo Padura conta a história do escritor Iván Cárdenas Maturell,  que na década de 1970  entra em contato com um  homem esquisito que passeava numa  praia de Havana com dois cães de raça russa. Os dois acabam se aproximando. Quando esse homem morre, deixa a Iván uns papeis contando  seu passado e um fato importante que marcou a história da Revolução Russa de 1917. Esse homem era  Ramón Mercander del Río, o homem que matou Trotsky a mando de Stálin. Vinte anos depois, Iván decide trabalhar nos papeis deixados por Ramón.  A partir de então, Iván questiona o próprio destino numa ilha submetida à União Soviética comandada por Stálin e os reflexos disso, após a extinção do URSS em 1991, mergulhando Cuba numa série crise econômica e social.

A geração de Iván era  dos crédulos, que deram o suor e a vida em prol de um socialismo utópico que agora compreendem como traiçoeiro. Aceitaram romanticamente  e justificaram tudo com os olhos postos no futuro. Não ficaram sabendo das repressões e dos genocídios de povos, etnias, partidos políticos inteiros, das perseguições mortais a inconformistas e religiosos, da fúria homicida dos campos de trabalho, do assassinato da legalidade e da credulidade antes, durante e depois dos processos de Moscou. Também não fizeram a menor ideia de quem tinha sido Trotsky ou por que o tinham mandado matar, ou das combinações infames da União Soviética com o nazismo e com o imperialismo, da prostituição dos ideais e das verdades, transformados em palavras de ordem do camarada Stalin, com sua rígida ortodoxia que usou (ele e seus seguidores) para condenar a menor dissidência a seus desmandos e megalomanias.

Agora, a muito custo, Iván podia compreender como e por que toda aquela perfeição havia desmoronado com um acesso mínimo à informação e uma ligeira mas decisiva perda do medo que dera consistência àquela estrutura. O  gigante tinha pés de barro e só se mantivera ereto graças ao terror e à mentira. As profecias de Trotsky acabaram por cumprir-se, e Iván (e os cubanos) sem saber ou não querendo saber de nada. Cada vez mais deprimido, Iván se mata, deixando o relato de sua história a um amigo escritor ciente dos fatos, que decide enterrar os papeis junto com o corpo de Iván, sem que fossem publicados. Ironicamente,  esses papeis constituem a história de O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura.

Tradução de Helena Pitta
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Leonardo Padura. O homem que amava os cachorros. SP, Boitempo, 2013, 592 pp, R$ 69,00

domingo, 16 de novembro de 2014

A artista do corpo

Há quem saiba amar as pessoas depois delas desaparecerem abruptamente. Talvez então possa compreender que sempre manteve uma distância sutil delas, sempre se poupou, só muito raramente expôs seu coração, sempre tecendo redes de dar e receber. Lauren Hartke é uma artista que mescla teatro e mímica e torna o corpo como estátua plástica e viva.

Don Delillo abre o A Artista do Corpo com um casal numa manhã em uma casa enorme à beira de uma praia. Os dois executam ações cotidianas com diálogos soltos, como se cada um se recusasse a sair de si mesmo. As palavras constituem um monólogo sem contexto. Então somos surpreendidos pela notícia de que o homem, um cineasta de origem italiana, havia se matado com um tiro na cabeça sem deixar explicações. Lauren então se fecha para o mundo, decidida a ficar naquela casa da praia até o final do contrato do aluguel a alguns meses.

De repente, um homem esquisito e desconhecido aparece. Ela decide cuidar dele, pois parece perturbado. Então percebe que ele tem atitudes e diálogos que lembram o marido morto. Ela passa a pedir desesperadamente que ele faça coisas como o morto, que diga palavras que ele disse. Ou diga qualquer coisa que lhe venha à cabeça, mas como se fosse ele. Falavam todas as manhãs e ela gravava o que diziam. Mas Lauren sentia que faltava ritmo. As palavras pareciam-lhe desajustadas. O homem não exibia reações faciais às coisas que ela dizia, e isso a confundia. Ela começou a compreender que aquelas conversas não tinham o sentido do tempo, e que todas as referências no nível do não-dito, as coisas que poderia haver entre esse homem e o marido morto não existiam. Então Lauren começa a aproximar-se fisicamente dele, para conhecê-lo melhor. Esse homem misterioso também desaparece da vida.

Tempos depois, uma amiga assiste a uma performance de Lauren,a artista do corpo. Conversando após a performance, a amiga pergunta sobre o marido e o choque do suicídio. Lauren responde que o trabalho saiu diretamente com o que aconteceu com o marido. Em seguida, faz uma coisa que deixa a amiga paralisada. Lauren troca de voz. É a voz dele, do homem nu que ela representara há pouco. Não é uma dublagem, é uma pessoa falando. Está falando com a amiga e o rosto não é bem dela. É capaz de acreditar que está com órgãos genitais masculinos, falsos, como na performance, claro. Lauren pede para ir ao banheiro e a amiga sente que o poder da performance está no corpo da amiga. Às vezes ela faz da feminilidade uma coisa tão misteriosa e forte que engloba os dois sexos e toda uma variedade de estados sem nome. Sua arte na atual performance é obscura, lenta, difícil e às vezes torturante. Mas nunca tem a ver com a agonia grandiosa de imagens e cenários portentosos. Tem a ver com pessoas. A amiga talvez precisasse lhe dizer quem ela era.

Romance surpreendente. Comecei a ler e só parei na última linha do livro. E corri para comprar outros livros de Delillo, considerado pela crítica um dos maiores escritores norte-americanos da atualidade.
        
paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Don Delillo. A artista do corpo. SP, Cia. das Letras, 2001, 126 pp, R$ 34,00

domingo, 9 de novembro de 2014

Storynhas

Storynhas é o livro de Rita Lee com ilustrações de Laerte, para quem gosta ou é fã da cantora.  São pequenas narrativas desbocadas, cômicas, anárquicas, autobiográficas, críticas, fantásticas etc,  acompanhadas do traço criativo de Laerte. Entre as diversas postagens, acompanhamos a historinha de uma cantora decadente que sonhava em cantar em uma churrascaria. Também fala sobre a dupla mastectomia pela qual passou. Noutro, faz uma relação entre o conservadorismo do fim dos anos 1960 e o conservadorismo de hoje. Há  uma sequência de histórias que começa com “Decadenta” e termina com “Sing-out”, onde fala em tom críticode “Don Malufone”, “Lady Cafa” e “Dasloo”. 
Algumas storynhas:

Delirium Tremens
O Ministério da Saúde adverte:
Quer fumar? Fume, foda-se.
Quer beber? Beba, foda-se.
Quer cheirar? Cheire, foda-se.
Quer injetar? Injete, foda-se.
Quer crackear? Crackeie, foda-se.
Incluir q droga engorda,
o efeito é perfeito.
Eu lá sou mulher d ficar patrulhando
quem quer se foder sabendo q está se
fodendo?
Oh ñ! a polícia na minha porta.
"Não, seu guarda, engano seu, sou uma
pobre velha sofrida, fragilizada pela
vida. Nem sei o que é tuitres".

A leste do Éden
A árvore da felicidade vivia sorridente no jardim do Éden
quando notou uma serpente se enrolando em seu galho
como quem não quer nada.
“Bom dia dona serpente, pq está aqui
em vez d na árvore da sabedoria?”
O réptil visivelmente cansado.
“Não aguento mais ficar de tocaia
na macieira, é um saco.”
Uma semana se passou e,
como a serpente não aparecia,
Deus foi procurá-la.
Ao encontrar a peçonhenta
dormindo no galho da árvore
da felicidade, Deus dá um
esporro de tremer bordel.
“Vaca! Pq vc não está
na macieira p/ seduzir
Eva, como lhe mandei?”
A víbora prontamente:
“Não é justo, tu fica aí no papel
de bacana e eu de demônio?
tô fora, chama outro bicho”.
Deus então ordena q o elefante
cumpra a função, mas c/ o peso,
a macieira plóft. As escrituras
confundiram a tromba do
paquiderme c/ o corpo da serpente.
E Deus viu q isso era bom.

Sing-out
A CNN exibia ao vivo o assassinato d Lady Cafa.
A ex-cantora decadente e atual cantante ascendiente é
presa em flagrante.
Manchetes do planeta destacavam o crime
e exibiam fotos impressionantes d Lady Cafa despedaçada
e sua assassina ao lado sorrindo c/um facão
ensanguentado. Nos bastidores comentava-se q Don
Malufone lhe descolara um habeas corpus.
O q ninguém sabe é q DasLee está fugindo
d volta ao Brasil c/uma surpresa na bagagem.
Chega o dia do aguardado desfile da DasLoo.
Ela entra na passarela envergando um corset c/pedaços
do corpo ensanguentado d Lady Cafa. Autoridades
internacionais imediatamente
foram avisadas e partiram em sua captura.
Agora a ex-cantora decadente, ex-cantante ascendiente e
atual supermodel é fugitiva da lei.

                           paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Rita Lee. Storynhas. Ilustrações de Laerte. SP, Cia. das Letras, 2013, 96 pp. R$ 33,00



domingo, 2 de novembro de 2014

Dançar tango em Porto Alegre


Um homem solitário embarca num trem em Uruguaiana para procurar emprego em Porto Alegre. Em frente a ele, uma mulher estranha. Ela se irrita quando ele quase a queima com o cigarro. Passado o constrangimento puxam conversa. Em Santa Maria, encruzilhada de trens, acabam dormindo junto numa cabine. São cenas de um erotismo quase pornográfico, encenadas por dois seres humanos solitários e carentes em busca de um sentido para a vida. Quando a mulher sai para buscar alguma coisa de comer, esfriando o clima entre os dois, ele deita-se a pensar: Uma mulher desconhecida, uma viagem de trem, um leito, uma noite de prazer e ali estava eu feito um garoto de colégio repentinamente apaixonado. E não podia conceber o dia seguinte sem aquela mulher que, com suas maluquices, dera um sopro de vida aos meus dias sem saber de velho precoce. Não podia conceber que, no dia seguinte, fosse fazer as mesmas coisas que fizera até então. Disparate? Mas eu me perguntava se de fato não havia sentido, ou se não era mais humano, natural, que a vida acontecesse assim mesmo, loucamente. Sim, precisava pensar, ou por outra, por que pensar? Por que não me entregar à aventura de amar a quem me fazia tanto bem?

Não é fácil de se amar quando o amor é eleito para remediar. Ele, até então um homem difícil, com medo do desconhecido, demorando-se em sondagens e meditações antes de decidir alguma coisa, que para se aproximar das pessoas era necessário que houvesse o intuito de ajudá-las, agora estava desprotegido. Ele simpatizava muito com ela, algo importante havia acontecido nele. Até então era um homem soturno, mergulhado em lembranças juvenis e de mal com a vida, mas algo acontecera. E queria muito vê-la em Porto Alegre, talvez não em seguida, mais tarde, quando ela quisesse. Podiam combinar, quem sabe, para Dançar tango em Porto Alegre. Se ela aceitará ou não, o leitor saberá ao ler esse conto saboroso que dá título ao livro de contos de Carlos Faraco.

O gaúcho alegretense Sérgio Faraco (1940) é mestre do conto moderno, reconhecido internacionalmente. A obra está na lista de leituras obrigatórias para o Vestibular da Ufrgs de 2015.

                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Sérgio Faraco. Dançar tango em Porto Alegre. L&PM, 2014, 160 pp, R$ 21,90


domingo, 26 de outubro de 2014

O sorriso do lagarto

A Ilha de Itaparica continua presente em O sorriso do lagarto de João Ubaldo Ribeiro. Lá estão políticos corruptos, cientistas inescrupulosos, fazendeiros desonestos, um assassino profissional, um médico humanitário e um solteirão um tanto reservado que abdicou de sua vida de biólogo, para virar pescador e viver de uma peixaria na cidade. João Pedroso, esse pescador, é bastante chegado numa cachaça e em conversar com pescadores e moradores nos bares e calçadas da cidade.

Ana Clara, mulher bela, casada com Ângelo Marcos, o político corrupto, resolve agitar sua vida monótona de dondoca, arranjando um amante. Esse amante é João Pedroso. O que, a princípio, parece ser apenas um caso de amor passageiro, acaba tornando-se num caso complicado no decorrer da narrativa, com um final trágico. Aliado a isso, surge uma ameaça ao meio-ambiente com o surgimento de criaturas esquisitas, quase desumanas, questionando a evolução humana. Uma negra que incorpora uma cigana relatara ao Pajé, um pai de santo do local, que ao chegar em uma casa para pedir um pouco de água, encontrou três seres nunca vistos, três seres como crianças, mas que não eram gente. Indagando sobre essas crianças, a mulher informou-lhe que um era filho dela e os outros dois de uma vizinha. Por serem diferentes, escondiam as crianças dos olhares externos. Aí começa uma reviravolta, muito bem amarrada pelo autor, envolvendo a ética na ciência, através do controle pelos que detêm o poder.

O sorriso do lagarto está aquém dos excelentes Sargento Getúlio, Viva o povo brasileiro, A casa dos budas ditosos e o Albatroz azul, todos já resenhados neste blog. Algumas situações, como o surgimentos desses seres fantásticos, soando estranho ao corpo da narrativa. Fora isso, não decepciona, pois João Ubaldo Ribeiro é bamba ao contar uma história.

          paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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João Ubaldo Ribeiro. O sorriso do lagarto. 3ª ed, Rio, Objetiva, 2009, 344 pp, 63,90

domingo, 19 de outubro de 2014

A desumanização

A Desumanização, de Valter Hugo Mãe se passa na Islândia. Desumanização no caso aqui, refere-se a espiritualidade. A pequena Halla nos conta que é irmã gêmea de Sigridur,  uma morta. Sendo igual a ela, não discernia se  estava morta e a outra viva. Sabia que aceitar a morte da irmã era uma forma de egoísmo. Mas isso ela só elaborou mais tarde, ao longo da vida dura que levou ao lado de uma mãe nervosa e culpada pela morte da filha. E de um pai afetivo, mas que se distanciava aos poucos. Tinha como amigo Einar, um ser débil, que se uniu a ela depois que a engravidou e cujo filho perdeu. Para Halla, a vigília dos dias não permitia que a raiva acabasse. Não saberia aceitar a morte da irmã. Sentia muita revolta. Sempre à espera de um sinal. Ficava esperando que um dia pudesse conversar com a irmã desaparecida, igual às verdadeiras histórias de fantasmas, pois as duas eram parte de um mesmo todo. A irmã certamente iria lhe falar com palavras bem concretas acerca da tristeza ou da felicidade que deviam nutrir.

Quando enterraram sua irmã gêmea, disseram a ela que a haviam plantado, mas nasceria outra vez, igual a uma semente. E adormeceu achando que sua irmã podia brotar numa árvore de músculos, com ramos de ossos a deitar flores de unhas. Achou que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser e caos.  A morte das crianças era assim, disse-lhe a mãe. Quando Halla visitava o lugar onde Sigridur fora enterrada, sabia que ela e sua irmã comungavam das emoções. Diferiam em poucas coisas. Tinham, até, honra, uma cumplicidade para afinar as condutas e as expectativas. Caíam-lhe os dentes de leite ao mesmo tempo. Halla já muito explicara acerca da impressão da terra sobre ela, a água, o ruído das ovelhas pastando. Mas não se decidia acerca do que seria sua irmã sentindo. Onde estava, se estaria apenas ali a uns palmos do chão, se estaria longe a se sentir bem ou se andaria aflita, matando e morrendo cada vez mais e carregada de ódio. Halla sentia nada. Sobretudo medo e nada. Halla era gêmea da morte. Crianças espelho. Tudo em seu redor se dividiu por metade com a morte.

Valter Hugo Mãe disse em uma entrevista que não quer tratar o leitor como estúpido. Por isso mesmo, A Desumanização é um romance que se utiliza de todas as possibilidade do discurso. Sobre por que da história se passar na Islândia, disse que o lugar é fundamental para conferir a imagem, aquilo que vemos através das palavras. Buscou um espaço que fosse fisicamente uma proposta visual desafiante para as palavras. Sua motivação interna tinha que ver com a procura da questão da solidão. Uma reflexão extremada da solidão. Um lugar perdido no norte do planeta, frio, isolado, pouquíssima gente, isso suscita uma espiritualização da existência, a ponto de fazer com que o criador ou a natureza sejam efetivamente a companhia, porque o ser humano ali não se companha. Uma menina perde sua irmã gêmea, desacompanhada, busca uma compensação nas palavas e na natureza da Islândia para essa solidão. Se Deus existir é uma menina e o planeta é uma menina e as coisas que se multiplicam e advêm da fertilidade são femininas.

               paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Valter Hugo Mãe. A Desumanização. SP, Cosac Naify, 2014, 224 pp. R$ 25,00


domingo, 12 de outubro de 2014

Gente independente

Quem me mostrou o escritor islandês Halldór Laxness foi Valter Hugo Mãe em seu romance Desumanização (próxima postagem).Halldór parece nos dizer em seu longo, belo e poético romance Gente independente, que um homem não é independente a menos que tenha coragem de resistir sozinho. Nunca  devemos desistir enquanto estamos vivos, mesmo que roubem tudo da gente. Quando não há mais nada,   sempre se pode dizer que o ar que respiramos é nosso, ou pelo menos a gente pode dizer que o toma de empréstimo. Quem fica sozinho é o mais forte. O homem nasce sozinho. O homem morre sozinho. A capacidade de resistir sozinho não é a perfeição da vida, o objetivo? Lendo o livro, o leitor poderá entender por que Bjartur pensa dessa forma.

Bjartur da Casa Estival conseguira comprar uma propriedade na zona rural da Islândia, desvalorizada pelo fato de os habitantes do lugar acreditarem que havia espíritos perigosos nos penhascos próximos ao local. Bjartur não acreditava em espíritos que pudessem interferir em seu destino.  Era dono de uma propriedade. No prazo de doze anos pagaria o último centavo pela propriedade, um total de trinta anos. Era um rei em seu próprio reino. Sua mulher era sua cônjuge legal, embora não fosse virgem quando casaram. Ásta Sólilja,  suposta filha de um relacionamento anterior da mulher o transformará de forma definitiva ao final da narrativa.

Leia esse belo trecho que relata uma conversa do neto de Bjartur com a avó, sobre a morte:

Desde o momento em que ele dera a primeira piscadela sonolenta até o instante em que as pálpebras pesadas finalmente se abriam, não eram meramente horas que se seguiam a horas; não, século após século pela vastidão incomensurável da manhã, mundo após mundo, como nas visões de um cego, a realidade seguia-se à realidade e não era mais realidade - a luz tornava-se mais brilhante. Tão distante está o dia do inverno em sua própria manhã. Mesmo sua manhã está distante de si mesma. O primeiro frágil vislumbre no horizonte e a claridade plena na janela na hora do café são como dois começos diferentes, dois pontos de partida. E, uma vez que na aurora até sua manhã está distante, o que ser seu anoitecer? Manhã, meio-dia e tarde estão tão distantes quanto os países que sonhamos ver quando crescermos; o anoitecer tão remoto e irreal quanto a morte sobre a qual o caçula ficou ontem sabendo, a morte que leva as criancinhas de suas mães e faz o ministro enterrá-las no jardim do intendente, a morte da qual ninguém volta, como nas histórias da avó, a morte que chamará você também, quando ficar tão velho que se torne criança novamente.
- Então são apenas os bebês que morrem? - perguntou ele.
Por que perguntara?
Foi porque ontem seu pai havia atravessado as fazendas com o bebê que tinha morrido. Ele carregara-o numa caixa nas costas para ser enterrado pelo ministro e pelo intendente. O ministro cavaria um buraco no pátio da capela do intendente e cantaria uma canção.
- Algum dia serei bebê de novo? - perguntou o menino de sete anos.
E sua mãe, que lhe havia cantado extraordidinárias canções e lhe falado tudo sobre os países estrangeiros, respondeu debilmente do leito em que estava acamada.
- Quando uma pessoa fica muito velha, torna-se novamente um bebezinho.
- E morre? - perguntou o menino.
Foi uma corda em seu peito que se rompeu, uma dessas delicadas cordas da infância que se rompem antes que a pessoa tenha tempo de perceber que são capazes de soar; e essas cordas não soam mais; doravante são apenas uma lembrança de dias incríveis.
- Todos nós morremos.
Mais tarde nesse dia, ele tocara no assunto novamente, dessa vez com a avó:
- Eu sei de alguém que  nunca morrerá - disse ele.
É verdade, meu bichinho? - perguntou ela, perscrutando-o de cima do nariz com a cabeça inclinada para o lado, como era seu costume quando estava olhando para alguém. - E quem seria este?
Meu pai - respondeu o menino, decidido. No entanto, ele não tinha certeza absoluta de que não estaria cometendo um erro, porque continuou olhando para a avó com olhos interrogativos.
- Ah, ele morrerá, claro que morrerá - rosnou a velha, impiedosa, quase exultante, e soltou um sonoro suspiro pelo nariz.
Essa resposta apenas despertou a teimosia do menino, que perguntou:
- Vovó, a colher de pau vai morrer um dia?
- Agora chega - explodiu a velha, como se achasse que ele estivesse zombando dela. 
- Mas, vovó, e a panela preta? Ela vai morrer um dia?
- Tolice, criança - replicou ela. - Como pode uma coisa morrer quando já está morta?
- Mas a colher e a panela não estão mortas - disse o garotinho. - Eu sei que elas não estão mortas. Quando acordo de manhã, sempre as escuto conversando.
Que bobagem fizera: havia revelado um segredo que só ele conhecia, pois só ele descobrira, durante a que talvez tenha sido uma das mais notáveis todas as vastidões matinais do tempo, que as caçarolas e panelas e outros utensílios de cozinha mudavam de forma e se transformavam e homens e mulheres. De manhã cedo, quando ficava deitado e acordado, muito antes dos outros, ouvia-os conversando entre si com a compostura séria e o vocabulário solene e exclusivo dos utensílios de cozinha. Tampouco foi apenas por acaso que ele se referira primeiro à colher de pau, pois a colher de pau, afinal de contas, é uma espécie de aristocrata entre os utensílios,; raramente é usada, e quase sempre para a sopa de carne, passa a maior parte do tempo pendurada na parede em imaculada limpeza e ócio decorativo. Entretanto, assim que é trazido para baixo o papel que desempenha na panela é o mais notável. O menino, portanto, considerava a colher de pau com particular respeito e achava que não havia ninguém à qual ele pudesse compará-la senão com a esposa do intendente. A panela preta, que quase estava cheia até à borda e às vezes tinha uma crosta queimada no fundo e muita fuligem embaixo, a panela preta não era ninguém mais que o intendente de Mýri, cuja boca sempre estava cheia de tabaco. Era fácil ver que às vezes ele fervia e devia haver um fogo em seu interior, e que ele tinha uma esposa de intendente para mexê-lo para que ele não transbordasse em ocasiões especiais. o  esmo acontecia com as outras coisas da cozinha: no escuro, transformavam-se em homens e mulheres.

Halldór Laxness (1902/1998) ganhou o Nobel de Literatura de 1955

A edição do livro esgotada, mas você poderá encontrar o livro em algumas livrarias que ainda o têm em estoque. Vá ao buscapé


          paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Halldór Laxness. Gente independente. Rio, Globo, 2004, 680 pp, R$ 50,00








domingo, 5 de outubro de 2014

A sagração dos ossos


Ivan Junqueira morreu agora, em 03 de julho.  A sagração dos ossos, livro de poemas lançado em 1994, que lhe deu o Prêmio Jabuti, resgata a lembrança dos mortos, da vida que foi , portanto não é mais. A infância para o poeta é uma canoa que naufraga e a bordo não traz senão fantasmas.





Espelho

O duro espelho me reflete:
olhos míopes que pouco enxergam,
lábios que muita vez se cerram,
rugas que me entalham a testa,

as pernas magras, talvez lerdas,
as mãos ossudas e irrequietas,
a barba cujo fio enfeza,
os pés que percorreram léguas.

E tudo mais que dele emerge,
de muito pouco ou nenhum préstimo,
pois logo no aço o tempo - névoa -
dissolve os traços mais perpétuos.

Mas algo de mim, certa inépcia
para entender o que me cerca,
ali se furta ao olho pérfido
de quem se crê o seu intérprete.

E não só: sequer uma réplica
da luz que em mim sucumbe à treva
no álgido espelho reverbera
ou deixa um risco de seu périplo.

Algo de mim: renirsism répteis,
algum antigo e inútil verso,
a alma de um rei que, sem remédio,
se consumia na quimera

de submeter servos e glebas,
mas que findou seus dias déspotas
em meio às moscas da taverna
e ao pouco pó de algumas vértebras.

Todo esse lodo e essa miséria...
E deles sequer um reflexo,
como se o espelho, mais que o inferno,
lhes recusasse alívio ou crédito.

Olho-me ali, e nem o espectro
de quem sou (ou fui) se revela;
vejo-lhe apenas a epiderme,
mas não o fundo, que é secreto.


Poeta de qualidade aprimorada, mas pouquíssimo lido, também adquiriu fama de excelente tradutor, especialmente da obra de T. S. Eliot, Dilan Thomas e Baudelaire (As Flores do mal teve inúmeros comentários honrosos graças à tradução de Junqueira). No programa de televisão em homenagem ao poeta, na data de sua morte (Globonews), o poeta falava que ser poeta é uma destinação. Tentou fugir da poesia, por que o poeta tem destino difícil, sofre muito, há que se pensar que não haverá recompensa financeira, já que poesia não vende. Mas ele não conseguiu e tornou-se um poeta maior muito pouco lido, como toda poesia é.

Seu primeiro ímpeto para traduzir poesia se deu quando leu pela primeira vez Os quatro quartetos, de T. S. Eliot, no original. Eliot lhe dizia tudo que o poeta Junqueira gostaria de dizer em poesia. Então, começou a traduzi-lo para seu bel prazer, para se aproximar mais da poesia do escritor anglo-americano. Aconteceu que Antônio Houaiss leu a tradução e se apaixonou. E o livro foi publicado em português. A partir daí cresceu o respeito da crítica sobre o trabalho de tradução do poeta brasileiro. Traduziu também Baudelaire (As flores do mal ganhou prêmio de melhor tradução), Dilan Thomas e Margueritte Yourcenar. 

O poeta falou também que todo tradutor deve levar em conta que se pode traduzir o que o poeta quis dizer, mas nunca o que ele disse. Num certo sentido a poesia seria intraduzível. Mesmo assim, deve acreditar que possa traduzi-la. Em relação ao processo criativo, não se poderia confundir propriamente intuição com inconsciente. Não são campos opostos, são terrenos tangenciais. Há uma participação muito grande do inconsciente na intuição. Só que a intuição não é um processo de transe mediúnico, dentro do processo de intuição. Há todo um processo de escolha intelectual, de percepção intelectual, podendo ser mais ou menos refinada, dependendo da formação intelectual do poeta.

Ivan Junqueira foi membro da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a João Cabral de Melo Neto, de quem teria sido influenciado. Além de poeta, foi ensaísta brilhante. Ao morrer, deixou no prelo dois livros que serão editados em breve. 

Como toda obra literária de qualidade, sua poesia encontra-se praticamente esgotada, uma das exceções é O outro lado, Ed. Record. Você pode encontrá-la nos sebos virtuais por preços bem acessível. Recomendo-lhes A sagração dos ossos, Ed. Civilização Brasileira e Poemas reunidos, Ed. Record. Certamente sua obra deva ser relançada em breve.
O enterro dos ossos

Não pude enterrar meus mortos:
Baixaram todos à cova
Em lentos esquifes sórdidos,
Sem alças de prata ou cobre.

Nenhum bálsamo ou corola
Em seus esquálidos corpos:
Somente uma névoa inglória
Lhes vestia os duros ossos

Foram-se assim, nus e pobres,
Sem deixar feudo ou espólio,
Ou mesmo uma ínfimajóia
Que lhes trouxesse à memória

O frágil brilho de outrora,
Quando lhes coube essa sobra
Que Deus larga pouco importa
Nas mãos de quem caia a esmola.

Passo a passo vida afora,
Sempre os vi em meio às górgonas
Da loucura cujo pólen
Lhes cegou a alma e os olhos.

Não pude enterrar meus mortos.
Sequer aos lábios estóicos
Lhes fiz chegar uma hóstia
Que os curasse dos remorsos.

Quer esquecê-los. Não posso:
Andam sempre à minha roda,
Sussurram, gemem, imploram
E erguem-se às bordas da aurora

Em busca de quem os chore
Ou de algo que lhes transforme
O lodo com que se cobrem
Em ravina luminosa
O poeta
O poeta está morto.
Cerrem-lhe as pálpebras,
o olhar absorto,
a boca cheia de tropos
e metáforas barrocas.
Sepultem aquele broto
que em sua garganta rouca
endureceu com o caroço
e a voz outrora doce
lhe afogou em fundo poço.
Deixem-lhe o corpo exposto
para que vejam o que pôde
fazer a morte e sua foice
com aquele que fora
corola, diamante, voo.
O poeta está morto.
Pouco importa agora o sopro
que lhe deu vida e alvoroço,
como tampouco o áspero corvo
que a alma lhe pôs em fogo.
Restam-lhe os versos, poucos,
e as sílabas já sem fôlego
às quais se agarrou com força
porque as ouvia como agouro
de um fugaz e último coro.
O poeta está morto.
Que nos sangrem, garras de osso,
as suas marcas do zorro.


          paulinhopoa2003@yahoo.com.br 
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Ivan Junqueira. A sagração dos ossos. Rio, Civ. Brasileira, 1994. 120 pp.