domingo, 1 de julho de 2012

Uma viagem à Índia

Gonçalo M. Tavares, nascido em Angola em 1970, é um dos escritores mais produtivos da literatura portuguesa. Ganhador de inúmeros prêmios literários importantes, escreve compulsivamente, tendo já publicado cerca de 30 livros, entre ficção, teatro e poesia desde 2001, quando publicou seu primeiro livro. Seu romance Jerusalém está na lista da edição europeia dos 1001 livros que você deve ler antes de morrer. Seus quatro romances que compõem O Reino (Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica) serão lidos e depois comentados neste blog.
A epopeia Uma viagem à Índia circula por outra epopeia, Os Lusíadas. N’Os Lusíadas, Camões narrou os feitos de Vasco da Gama em sua viagem à India, para descobrir novos mundos e ampliar a comunicação entre outros povos. E também toma emprestado um personagem, Bloom, herói do romance Ulysses, de James Joyce, que por sua vez é uma epopeia moderna centrada em A Odisseia, de Homero. Bloom, em Ulysses, é o herói que vive mil peripécias fora de casa, em Dublin, durante um dia. Para que você não se assuste com as referências, é bom explicar que o livro de que falamos não é complicado. Ele segue, de forma não ortodoxa, a estrutura dos Lusiadas, estruturando a narrativa em dez Cantos, cada canto em média com 110 estrofes, em verso livre. O autor nos apresenta o personagem central Bloom , vindo de uma tragédia familiar. Sua amada, por razões não explicadas, havia sido assasinada pelo pai que ele tanto amava. Ele mata o pai, como gesto de vingança. A partir de então, decide fazer uma viagem à India, em busca de si mesmo. Bloom já havia conhecido os ingredientes absolutos da ação no mundo, a mistura estúpida da morte com o amor. Faltava-lhe, então, conhecer o que existe dentro do corpo e faz coisas. Por ser epopeia contemporânea, nosso herói troca o navio pelo avião. Viaja a Londres, onde não é bem recebido. De lá vai a Paris, onde conhece um francês que se torna seu amigo. Então, chega à Índia, onde encontra a pobreza, muita gente na rua, homens velhos que julgava eternos pelas riquezas de historias que contavam urinam em plena rua, em cima de lixo que os cachorros vasculham para encontrar comida. Respeito e nojo existem no mesmo homem. Durante sua viagem à Índia, Bloom se dá conta de que o passado ocupa pouco espaço em sua mala. O presente é que ocupa quase todo o espaço que o rodeia. Quem é Bloom, ele se questiona. Não sabe. Bloom se dá conta de que, quando se foge, quando se tem medo, a ética é nada.
A angústia de Bloom, é que ele quer sempre avançar, para esquecer o passado. Memória e esquecimento confirmam a intenção de sua aventura. O esquecimento se repete à medida que a viagem prossegue. Não olhar para trás é a condição para se seguir em frente. Viajar, então, significa mudar de ares e perder de vista o presente que incomoda. Uma viagem à Índia reflexiona, em termos mais amplos, o vazio em que se encontra o mundo contemporâneo, onde os valores do amor e da poesia sucumbem ao temor coletivo e ao capitalismo, onde o dinheiro impera em todas as relações. Gonçalo M. Tavares construiu um romance dos grandes da literatura. O livro foi publicado no Brasil pela Editora Leya, portuguesa, uma de algumas editoras que passam a publicar obras portuguesas no Brasil no português de Portugal.
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Gonçalo. M. Tavares. Uma viagem à Índia. SP, Leya, 2010, 480 pp. R$ 44,90

Um comentário:

  1. Interessante. Lembrei de "O fio da navalha", do S.Maugham. Bj

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