domingo, 23 de novembro de 2014

O homem que amava os cachorros

O romance do cubano Leonardo Padura conta a história do escritor Iván Cárdenas Maturell,  que na década de 1970  entra em contato com um  homem esquisito que passeava numa  praia de Havana com dois cães de raça russa. Os dois acabam se aproximando. Quando esse homem morre, deixa a Iván uns papeis contando  seu passado e um fato importante que marcou a história da Revolução Russa de 1917. Esse homem era  Ramón Mercander del Río, o homem que matou Trotsky a mando de Stálin. Vinte anos depois, Iván decide trabalhar nos papeis deixados por Ramón.  A partir de então, Iván questiona o próprio destino numa ilha submetida à União Soviética comandada por Stálin e os reflexos disso, após a extinção do URSS em 1991, mergulhando Cuba numa série crise econômica e social.

A geração de Iván era  dos crédulos, que deram o suor e a vida em prol de um socialismo utópico que agora compreendem como traiçoeiro. Aceitaram romanticamente  e justificaram tudo com os olhos postos no futuro. Não ficaram sabendo das repressões e dos genocídios de povos, etnias, partidos políticos inteiros, das perseguições mortais a inconformistas e religiosos, da fúria homicida dos campos de trabalho, do assassinato da legalidade e da credulidade antes, durante e depois dos processos de Moscou. Também não fizeram a menor ideia de quem tinha sido Trotsky ou por que o tinham mandado matar, ou das combinações infames da União Soviética com o nazismo e com o imperialismo, da prostituição dos ideais e das verdades, transformados em palavras de ordem do camarada Stalin, com sua rígida ortodoxia que usou (ele e seus seguidores) para condenar a menor dissidência a seus desmandos e megalomanias.

Agora, a muito custo, Iván podia compreender como e por que toda aquela perfeição havia desmoronado com um acesso mínimo à informação e uma ligeira mas decisiva perda do medo que dera consistência àquela estrutura. O  gigante tinha pés de barro e só se mantivera ereto graças ao terror e à mentira. As profecias de Trotsky acabaram por cumprir-se, e Iván (e os cubanos) sem saber ou não querendo saber de nada. Cada vez mais deprimido, Iván se mata, deixando o relato de sua história a um amigo escritor ciente dos fatos, que decide enterrar os papeis junto com o corpo de Iván, sem que fossem publicados. Ironicamente,  esses papeis constituem a história de O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura.

Tradução de Helena Pitta
                      paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Leonardo Padura. O homem que amava os cachorros. SP, Boitempo, 2013, 592 pp, R$ 69,00

2 comentários:

  1. Parece um bom livro. Vou adiciona-lo na minha lista.
    Encontrei seu blog por causa do livro do Don Delillo.
    Estou te seguindo.
    Espero sua visita.
    Beijos.

    http://dancadasbolhas.blogspot.com.br/

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    1. Seja bem-vinda, Samira. Vou te visitar, sim. Abraço

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