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domingo, 2 de novembro de 2014

Dançar tango em Porto Alegre


Um homem solitário embarca num trem em Uruguaiana para procurar emprego em Porto Alegre. Em frente a ele, uma mulher estranha. Ela se irrita quando ele quase a queima com o cigarro. Passado o constrangimento puxam conversa. Em Santa Maria, encruzilhada de trens, acabam dormindo junto numa cabine. São cenas de um erotismo quase pornográfico, encenadas por dois seres humanos solitários e carentes em busca de um sentido para a vida. Quando a mulher sai para buscar alguma coisa de comer, esfriando o clima entre os dois, ele deita-se a pensar: Uma mulher desconhecida, uma viagem de trem, um leito, uma noite de prazer e ali estava eu feito um garoto de colégio repentinamente apaixonado. E não podia conceber o dia seguinte sem aquela mulher que, com suas maluquices, dera um sopro de vida aos meus dias sem saber de velho precoce. Não podia conceber que, no dia seguinte, fosse fazer as mesmas coisas que fizera até então. Disparate? Mas eu me perguntava se de fato não havia sentido, ou se não era mais humano, natural, que a vida acontecesse assim mesmo, loucamente. Sim, precisava pensar, ou por outra, por que pensar? Por que não me entregar à aventura de amar a quem me fazia tanto bem?

Não é fácil de se amar quando o amor é eleito para remediar. Ele, até então um homem difícil, com medo do desconhecido, demorando-se em sondagens e meditações antes de decidir alguma coisa, que para se aproximar das pessoas era necessário que houvesse o intuito de ajudá-las, agora estava desprotegido. Ele simpatizava muito com ela, algo importante havia acontecido nele. Até então era um homem soturno, mergulhado em lembranças juvenis e de mal com a vida, mas algo acontecera. E queria muito vê-la em Porto Alegre, talvez não em seguida, mais tarde, quando ela quisesse. Podiam combinar, quem sabe, para Dançar tango em Porto Alegre. Se ela aceitará ou não, o leitor saberá ao ler esse conto saboroso que dá título ao livro de contos de Carlos Faraco.

O gaúcho alegretense Sérgio Faraco (1940) é mestre do conto moderno, reconhecido internacionalmente. A obra está na lista de leituras obrigatórias para o Vestibular da Ufrgs de 2015.

                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Sérgio Faraco. Dançar tango em Porto Alegre. L&PM, 2014, 160 pp, R$ 21,90


domingo, 31 de agosto de 2014

As parceiras

 As parceiras, de Lya Luft, é a visão feminina sobre uma família marcada pela morte, pela loucura, por um mundo decadente que a envolve e a desagrega.Anelise relata sua adolescência no meio de mulheres, numa casa de praia onde há um sótão em que viveu sua avó louca. A presença de sua avó, presa por vontade própria em um sótão, que passa a representar  um mundo de infância, marca sua vida para sempre.  O medo que povoava a infância de Anelise tornou-se naqueles anos do casarão um pavor profundo. Do medo, a rebeldia.  Não queria aquela vida, nem aquelas ideias, nem aquela religião. Tudo lhe era um castigo.

Um dia Anelise sentiu vontade de visitar o sótão do casarão, para tentar recompor a vida que sua avó Catarina levara ali. Surgem as perguntas: quando teria começado a arrumar o sótão feito um quarto de menina? Por que teria se refugiado ali? O que pensaria sozinha anos e anos a fio? Com quem falava sempre, para quem eram aquelas famosas cartas, as misteriosas? Quem seriam seus fantasmas?
Ninguém sabia ao certo o que se passara entre as paredes do sótão. Pouco antes de morrer a avó começara com uma nova mania: escrever. Compunha longas cartas desconexas e garatujadas, em letra gótica, em alemão, língua que Catarina preferia sempre. Pareciam ora dirigidas a um homem, ora a uma mulher, talvez escrevesse também as respostas, tudo misturado.

Durante esse tempo de curiosidade e busca, Anelise conheceu Otávio, um cara muito especial, que se refugiava na música,tocando piano. Achava tudo diferente nele, amava-lhe tudo, os olhos, a pele, o cheiro, a boca, o cabelo, as mãos de pianista. Foi Otávio quem lhe deu o primeiro beijo na boca, a fez partilhar de uma primeira , incompleta e assustada experiência de sexo, ajudou-a  a enxergar outra vida além dos paredões sombrios daquela casa. Também a ajudou quando seu casamento desmoronou depois de anos perfeitos.Tudo o que ela experimentava naquele tempo a fez entender mais intensamente que o mundo não se resumia a uma casa grande e escura, com medos no sótão. Havia uma floresta de experiências que esperava por ela: havia a liberdade.

Escrita em forma de diário, na primeira pessoa, durante uma semana, as palavras revelavam a Anelise toda sua existência, através desse mergulho no passado, para enfrentá-lo com a coragem e a verdade.

As Parceiras  é o primeiro romance de Lya Luft, lançado no mercado editorial. Faz parte das leituras obrigatórias do Vestibular da UFRGS de 2015.

                                         paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Lya Luft. As parceiras. Rio, Record, 2003, 128 pp, R$ 28,00

domingo, 9 de junho de 2013

Tratado ontológico acerca das bolas do boi

 Otacílio leva muito a sério as comemorações do 20 de Setembro. Sente-se honrado em protagonizar a festa, em manter a tradição. Muitos não vão por falta de dinheiro pras pilchas ou pras cordas, ou, pior, por falta de cavalo. Sem estarem completos, têm vergonha de desfilar; não estando completos, têm vergonha de pedir emprestado o que lhes falta. No afã de conseguir um cavalo, Otacílio pensa em tudo, até em roubar um, se for o caso. Esse é o mote para a estória do gaúcho depois do gaúcho a pé, contada pelo alegretense José Carlos Queiroga em Tratado ontológico acerca das bolas do boi.

Não há nada no mundo igual ao pampa. Otacílio jamais ultrapassou os limites da Serra do Caverá (fica no município de Rosário do Sul,RS). Para ele, a juventude passou mais rápido como enterro de pobre, de à cavalo, correndo ao costado do touro e soltando o laço nas aspas, maneando o animal com as duas mãos, fazendo-o virar cambota na cancha. Hoje, destituído de cavalo, é peão de lavoura. Mora num barraco com a mulher e a filha pequena no interior do município e trabalha numa lavoura de arroz. Na época do trabalho duro, consegue ver a família uma vez só, a cada quinze dias, na entressafra. Otacílio, sem cavalo no mundo, sente um vazio de boi de canga, carregando o mundo nas costas, mas fora do aconchego do mundo que sempre foi o seu e agora lhe tomam:trabalha no arroz feito um pato dentro d’água; em casa, a mulher em mágoa pela carestia de tudo. Otacílio é um homem simples, analfabeto (mas não pras coisas do campo, que isso ele entende muito bem!), tem vida simples, sonhos simples, crenças simples, elementares. Se lhe dizem que o fogo aquele que “nunca acaba” nunca apagou desde 1835, ele acredita, sem qualquer fagulha de dúvida, porque é simples.  
Assim como todo mundo, Otacílio já ouvira falar do Movimento Sepé Tiaraju, e sempre mal. É ajuntamento de bandido, que se acolhera pra roubar a terra dos outros; que vão invadindo, cortando cerca. Um  fazendeiro lhe disse que os que mandam no movimento vão para as vilas e arrebanham só a ralé, os borrachos, os bandidos, e os levam de arrasto com promessa de virarem proprietários, patrões, pras beiras das estradas, esperando a hora de dar o bote. Otacílio, entretanto, se interessa pouco por isso, o que ele quer é conseguir um cavalo para poder desfilar no dia 20 de Setembro.
Tratado ontológico acerca das bolas do boi é um romance em retalhos. O périplo de Otacílio pelo pampa sem cavalo e sem terra é recortado por explicações filosóficas e históricas sobre as transformações que sofreram o campo gaúcho com o surgimento do agrobusiness, contadas de forma divertida, mas com fundamentação científica. O livro de Queiroga faz uma análise do movimento dos sem-terra, por exemplo, sedimentada numa ontologia histórica, para exemplificar o que acontece quando se modifica a ideia de que no pampa, as coisas são e pronto, de que desde que o mundo é mundo, o gaúcho vive no lombo do cavalo, que é de onde tira seu parco sustento, cuidando de gado alheio. O pobre Otacílio luta contra os tempos modernos para manter a tradição, numa batalha perdida, num mundo sem cavalo. Tirar-lhe o bicho é como capá-lo a bordizo, a torquês retorcendo o corte por dentro.
Trata-se de um livro diferente. Com um pouco de paciência o leitor desfrutará de uma leitura inteligente e divertida. A obra encontra-se esgotada. Você a encontrará nos sebos virtuais por um preço médio de R$ 30,00.

                        paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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José Carlos Queiroga. Tratado ontológico acerca das bolas do boi. Passo Fundo, Méritos, 2004, 528 pp

 

 

domingo, 30 de setembro de 2012

A mulher que escreveu a bíblia

O gaúcho Moacyr Scliar (1937/2011), ao contrário de Michel Laub, cujo Diário da Queda comentamos já, foi um escritores de origem judaica que respeitou a tradição cultural de seu povo e fez disso o caldo principal de sua criação em mais de 70 livros em vários gêneros. De seus livros, gosto particularmente dos primeiros: Guerra no Bom Fim e O exército de um homem só, cuja temática, até então, era original. Com o passar do tempo, passou a se tornar repetitivo, ainda que sua prosa seja sempre agradável de se ler. A mulher que escreveu a bíblia, escrito em 1999, apresenta uma línguagem simples, com gírias ultrapassadas e uma trama ingênua que beira o simplório. Mas tem o mérito do humor, que o autor muito cultivou em sua obra.
A história começa no presente, quando um professor de História começa a ganhar notoriedade ao descobrir as extraordinárias possibilidades financeiras como terapeuta de vidas passadas. Seu método baseava-se no conhecimento que acumulara como professor de História. Seus pacientes voltavam ao passado. Enquanto tinham suas visões, o terapeuta ia explicando-lhes os lugares onde estavam, as personagens históricas presentes nas visões, quem eram os cortesãos de determinado rei. Em suma, fazia o papel de guia, conduzindo as pessoas pelos labirintos do tempo. Com a fama, teve de arrumar um lugar maior e mais confortável no centro da cidade. Um dia apareceu uma mulher que regredia no tempo até chegar ao palácio do rei Salomão. Lá, ela era uma de suas esposas e era apaixonada por ele. Só que essa paixão não era correspondida. O terapeuta descobriu, durante as sessões, que na verdade a paciente estava apaixonada por ele, o terapeuta. No começo tentou disfarçar, depois tornaram-se amantes, até que ela o abandonou por outro homem, deixando-lhe, de lembrança um relato: A mulher que escreveu a bíblia. A partir daí, começa a fábula propriamente dita, que se desenrola até o final do livro, tomando cerca de 150 páginas. Detalhe: a paciente do professor de História quanto à Mulher que escreveu a bíblia tinham duas característica comuns: ambas eram feias, mas sabiam ler e escrever.

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Moacyr Scliar. A mulher que escreveu a bíblia. SP, Cia. De Bolso, 2007, 168 pp. R$ 21,00
A Folha de São Paulo circulou nas bancas pelo preço de R$ 18,70