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domingo, 12 de março de 2017

43. O Continente - volume 1


                                                                                                

Continente compreende dois volumes iniciais da trilogia O Tempo e o Vento, do escritor gaúcho  Erico Veríssimo (1905/1975). O primeiro volume, que nos interessa aqui, narra o final da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893/1895) e as origens da família Terra Cambará até o momento do conflito. Os liberais apoiadores de Júlio de Castilhos venceram os federalistas de Gaspar Martins e Gumercindo Saraiva, mas em Santa Fé, o universo literário da narrativa épica de Erico Veríssimo, os federalistas só consideram acabada a guerra quando o neto de Bibiana, Licurgo Cambará, dono do sobrado, entregar suas armas. A trama é narrada em contraponto com o início e progressão da povoação do Rio Grande do Sul, na região das Missões, quando o território gaúcho era disputado entre portugueses e espanhóis.  

Quando começa O Continente, o ano é 1895 e a família Terra Cambará está acossada no casarão. Alice espera um filho e passa mal. Todos precisam de água que está no poço no centro da praça, vigiada por pistoleiros dos dois lados. Há um corte no tempo, e o leitor é situado nas Missões Guaraníticas de Santo Ângelo e arredores, então pertencentes à Espanha. Os personagens centrais são Padre Alonzo, que tem um segredo em sua vida pessoal e carrega consigo um punhal. Ele se encarrega da catequização do menino índio Pedro. O padre dá-lhe o punhal de prata, símbolo importante em toda a narrativa, pois atravessará o tempo nas mãos de determinados membros da família Terra Cambará.

Pedro Missioneiro nasce nas Missões Jesuíticas, filho de uma índia estuprada por algum bandeirante. Revela a capacidade de ter visões fantásticas desde a infância. Nessa época, 1745, os Sete Povos das Missões, pertencentes à coroa espanhola, vivem em crescente prosperidade. Com a guerra, Portugal devolve a Colônia do Sacramento à Espanha e recebe em troca o território das Missões, os povoados jesuíticos são destruídos e Pedro foge, sendo descoberto por Ana Terra, ferido, no açude da propriedade da família, paulistas vindos de Sorocaba para povoar o Continente de São Pedro.

A família Terra trata do índio, que se afeiçoa a todos. Um dia Pedro seduz Ana Terra no açude. Ana descobre, pouco depois, estar grávida. Pedro é morto pelos irmãos dela. Pedro Terra nasce. A família não aceita a criança. Num ataque dos castelhanos, todos são mortos, exceto Ana, o filho e a cunhada. Para salvar a vida do filho, ela insiste em ficar na casa, sendo estuprada barbaramente pelos bandidos. Os sobreviventes veem-se ao desabrigo. Ana decide, então, recomeçar de novo e parte com um grupo de colonizadores. Chegam às terras do coronel Amaral, que decide fundar o povoado de Santa Fé. A família Amaral vai se tornar inimiga dos Terra, até o final de O Continente.

Pedro Terra casa-se e tem dois filhos, Juvenal e Bibiana. Quando Bibiana já está moça, surge em Santa Fé o Capitão Rodrigo Cambará, personagem-símbolo do gaudério rio-grandense. Oriundo de Viamão e condecorado nas diversas guerras de que participou, Rodrigo Cambará chega à cidade sem muito propósito, até que põe os olhos em Bibiana e apaixona-se. A paixão é correspondida, mas o irmão e o pai não aprovam a aproximação dela com Rodrigo. Além do quê, Bento Amaral tem pretensões sobre Bibiana, mas a família Terra não o suporta. Há um duelo entre Bento Amaral e Rodrigo Cambará, Rodrigo vence, mas é traído, quase vindo a morrer. Quando se recupera, toma jeito e pede a mão de Bibiana em casamento e o enlace é consentido por Pedro Terra, com ressalvas. Rodrigo, em sociedade com o cunhado Juvenal, abre um armazém na cidade. Mas, com o tempo, se desinteressa pelo negócio, pois gosta de barulho, pelear pelo mundo. Bibiana sofre com as saídas frequentes do marido para outras freguesias. Os dois têm três filhos, Bolívar, Anita e Leonor. Numa dessas saídas para guerrear, Rodrigo acaba sendo morto.

Com a morte do marido, Bibiana vai viver com os filhos na casa do pai, que perde a propriedade para um tal de Aguinaldo Silva, homem enriquecido através de empréstimos a juros. No lugar da casa, Aguinaldo ergue o Casarão, onde se situa o mote central de "O sobrado". Aguinaldo tem uma neta, Luzia, por quem Bolívar se apaixona e os dois acabam casando. Bibiana tem sérios embates com a nora, até que arquiteta um plano para que a família Terra Cambará recupere o Casarão, o que acaba acontecendo.
Durante o confinamento no Sobrado, Alice Terra, casada com o primo Licurgo, está esperando o terceiro filho. Eles já tinham Toríbio e Rodrigo Cambará, que será o personagem principal da  segunda parte da trilogia, O Retrato. Este segundo Rodrigo é diametralmente oposto ao Capitão Rodrigo, por revelar uma personalidade de lisura contestável. Floriano, filho de Rodrigo neto, será o narrador-personagem da terceira parte da trilogia, O ArquipélagoO primeiro volume de O Continente termina com Alice Terra enlouquecendo, enquanto espera, com dificuldade,  para dar à luz.


O plano geral de O tempo e o vento é traçar toda a saga da formação rio-grandense, desde as origens remotas no século XVIII até o ano de 1946, finalizando a narrativa ao encontrarem-se, mais uma vez, o tempo da ficção e o momento presente em que o discurso é produzido.  A estrutura temporal, portanto tem o passado reconstruído como uma possibilidade de esclarecer o presente. Apesar disso, a obra de Erico Veríssimo não é um romance histórico e nem épico, já que a família Terra Cambará declina moral e economicamente, com o passar das gerações.

O Continente apresenta em contraponto o histórico com o social  com seu ritmo próprio e independência em relação ao conjunto do texto. Dentro dessa moldura, desenvolvem-se vários segmentos, com início, meio e fim, contendo, portanto, vida própria e autonomia do âmbito da totalidade da obra. Prova disso é o fato de Ana Terra e Um certo capitão Rodrigo terem sido lançados como romances independentes no mercado editorial.


http://educaterra.terra.com.br/literatura/livrodomes/livrodomes_ocontinente_11.htm

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Erico Veríssimo. O Continente vol. 1. Cia. das Letras, 2004, 416 pp


domingo, 11 de janeiro de 2015

Assim na terra

Na voz de Luiz Sérgio Metz, a natureza ganha vida em Assim na terra: a água dos pequenos córregos, terra batida, erosão,tufos de macegas, barro, rastro de roda, pegadas de homem descalço, a asa de um pássaro que se escondeu numa tulha, homens conduzindo um resto de tropa marcada a ferro, uma árvore seca, o emblema da caveira sobre dois ossos, as tábuas do assoalho rangendo sob os pés.
Um gaúcho solitário, do tipo campeiro, encontra, em suas andanças, um homem dormindo na mata. Beira os setenta, pela aparência do rosto. Veste bombacha escura e botas com o bico embarrado. O homem acorda e se apresenta, Gomercindo. Os dois saem a caminhar, encontram uma casa grande, ao lado um galpão. Uma vela se acende.  O galpão parece uma espécie de templo do tempo, com muita acústica e pouca mobília. Sólido, mas também muito simples, embora não fosse apenas simples nem de uma solidez comum, de pedra sobre outra que se enxertam, armado apenas de algum madeirame. Ali dentro daria para se guardar os sótãos da infância. Eles ficariam protegidos do rigor, acomodados até uns sobre os outros formando uma sub-edificação de subjetivos para visitação. Mas há uma escrivaninha, com nervuras nos cantos, com gavetas, um tampo claro no pavio amarelo, sem nada encima. As janelas estão todas fechadas e a vela sobre a escrivaninha é nova. Não há nenhuma medida de tempo, então. Gomercindo olha-o sem fixar os olhos, tudo está fora de alcance. O velho propõe-lhe que seja feito um tratado sobre o sul, "procurar os signos que estava no piso e nas janelas e nas portas e nas paredes: associações urbanas , ruas para dentro de barrocas, as linhas telefônicas, os gritos raspando dentro dos fios, os raseis de setembro, as unhas que se agarravam às pedras que se soltavam como grãos de espigas, brugalhaus". 

As palavras estavam além das tesouras de um mero galpão ou de suas telhas, ou de sua geometria.  Ele parecia querer terminar o livro que trouxera, mas ficava marcando uma página com a unha, num vaivém na margem direita.

Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo , RS, em 1952 e faleceu em 1996, devido a um câncer. Conhecido como "Jacaré", foi letrista do grupo nativista Tambo do Bando. Dele eu já havia lido o livro de contos O primeiro e o segundo homem, já comentado neste blog. Assim na terra descreve a atmosfera do pampa com lirismo e densidade, numa jornada a cavalo, sem destino .

O exemplar novo varia de 22 a 35 reais.
                       
 paulinhopoa2003@yahoo.com.br
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Luiz Sérgio Metz. Assim na terra. SP, Cosac Naify, 2013, 224 pp.

domingo, 26 de maio de 2013

Viagem aos mares do sul

Em Viagem aos mares do sul, José Carlos Queiroga nos apresenta a mesma Nova Hereford que  descrevera em Tratado ontológico acerca das bolas do boi, romance árido e por vezes cansativo, devido às muitas digressões e citações acerca do pampa e da formação da propriedade privada que levou ao movimento dos sem-terras dos dias de hoje. Viagem aos mares do sul  é romance curto. Suas 168 páginas podem ser lidas numa tarde, se você for leitor contumaz.
Nova Hereford é uma cidade imaginária que se supõe ser Alegrete, terra natal do escritor. Trata-se de uma cidade rural decadente dos exilados das faculdades de Porto Alegre. Os filhos dos proprietários de hoje em dia não se interessam mais em levar adiante os negócios agropecuários da família e fogem para a cidade grande. Em Nova Hereford, ao lado de alguns grandes estancieiros, existem as vilas pobres dos trabalhadores rurais desempregados. Os gaúchos depois do gaúcho a pé, conforme diz o crítico literário Marcelo Backes, ao analisar a obra de Queiroga. Lá, todo mundo se conhece. Sirley, nosso protagonista, é um guri bundudo e balofo, com jeito de abobado. Segundo o povo do lugar, um vagabundo que não se forma nunca!  O pai de Sirley é um homem grosso e machista. Tratou as mulheres com quem viveu como bichos. O filho teve o azar de herdar as características sensíveis da mãe e sofre com o silêncio que nunca se rompe na comunicação com o pai. Não queria seguir Agronomia em Porto Alegre, mas segue estudando como forma de buscar uma possível aproximação com o pai. Tem uma namorada na cidade, mas ela parece estar interessada em outro rapaz que mora ali. Um dia vai com a namorada e a mãe dela, entrosada em uma entidade filantrópica, visitar os bairros distantes, onde reina a miséria. Sirley chega a comover-se com isso, mas sua vida desinteressante não lhe permite formar opinião a respeito. É um perdido que não consegue vislumbrar uma saída para sua vida.
Viagem aos mares do sul foi publicada pela saudosa editora Mercado Aberto, faliu lá pela década de 90. A obra encontra-se esgotada, mas você consegue um exemplar novo no Balaio Digital por cerca de 10 reais. Vale a pena a leitura.

                                                                             paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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José Carlos Queiroga. Viagem aos mares do sul. Poa, Mercado Aberto, 1999, 168 pp.