domingo, 13 de janeiro de 2013

Cemitério de Pianos


A história de Cemitério de Pianos é narrada em três tempos diferentes por três homens da família Lázaro, cujos integrantes nascem, vivem, sonham, amam, casam, trabalham e morrem, enredados pela música tocada infinitamente por um piano desafinado.
Francisco Lázaro, um dos narradores da história, descobre, através de seu tio, o local onde seu pai, também chamado Francisco Lázaro, trabalhava: o cemitério de pianos, onde inúmeros instrumentos dessa natureza eram empilhados, alguns desmontados para uso de peças em outros pianos que eram consertados. Nesse momento de descoberta, o narrador encontra um sentido dentro si: a descoberta do pai. Sua mãe sempre evitava falar dessa parte da casa onde ficava a oficina. Dentro, a escuridão absoluta cobria todas as formas. Aos poucos, a peça começava a ser iluminada e o ar que vinha do cemitério de pianos entrava em seus pulmões e trazia o toque úmido do cheiro de um tempo que todos da família, até então, quiseram esquecer, mas que ainda existia. O tio mostrou-lhe um piano de cauda, de onde seriam retiradas as peças para o conserto do piano de um cliente. Desde então, ele aprende a parte mais importante do que seria necessário para aprender o ofício que fora de seu pai. Só que havia outros segredos do pai que seriam descobertos mais tarde, como a caixa de sapatos pesada, que escondia outra faceta dele que também não lhe havia sido revelada.
Inspirada na história real do maratonista português Francisco Lázaro, morto de insolação, durante a prova dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, os episódios e os personagens estão no âmbito da absoluta ficção, segundo o autor português José Luís Peixoto (1974). Nascido em Lisboa, Peixoto é um dos expoentes da recente prosa portuguesa, ao lado de Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe.

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 José Luís Peixoto. Cemitério de Pianos. Rio, Record, 2008, 304 pp, R$ 42,90 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sob o Sol de Satã


Numa vila da França, a jovem Germana aparece grávida. É filha de um moleiro e fabricante de farinha, que sabe tirar proveito das pequenas coisas e ama os grandes negócios e a vida farta. Com a gravidez, o pai decide acusar um velho e rico marquês que cortejara a filha, já comprometida com outro homem. Acontece que Germana, com 16 anos, sabia amar, alimentava em si, como um belo fruto amadurecido, a curiosidade do prazer e do risco, a confiança ousada das que jogam a sorte na intuição, afrontam os mundos desconhecidos. Cansada de passar a vida monótona, sempre costurando, esperava o momento de surgir e viver. Tinha bastante audácia para imaginar ou desejar, mas também sabia organizar as coisas, a escolha fixada com um bom senso heroico.  Germana sabia que não havia nascido para uma vida pacífica. Entretanto, um destino trágico a espera. Assim é a história de Mouchette, como também a do padre Donissan, com suas crises existenciais e de crença. A personagem Mouchette, famosa na literatura de Bernanos (ela aparece em A Nova História de Mouchette) toma conta da primeira parte da história. O foco se espraia sobre o dilema da fé no padre Donissan, que viu em Mouchette a reencarnação do demônio.
Durante a narrativa, Donissan ressuscita uma criança morta. Deus ou Demônio? Essa é a questão do livro do escritor católico francês Georges Bernanos (1888/1948). Bernanos acreditava piamente na presença do demônio a inquietar o espírito das pessoas. O livro pode parecer chato aos que não acreditam em seres superiores espiritualmente. Tem traços de romance gótico, com exaltação mística e sensacionalismo grosseiro. Teve tradução do renomado poeta alagoano  Jorge de Lima, que fez parte da corrente espiritualista da literatura brasileira do Modernismo. Cecília Meireles, Alceu Amoroso Lima (Tristão Athayde), Gustavo Corção, Murilo Mendes e nosso poeta Armindo Trevisan também trouxeram os dilemas da fé para sua obra. Trata-se de um romance de tese, com longos e cansativos diálogos filosóficos de caráter religioso. Requer paciência na leitura.

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Georges Bernanos. Sob o Sol de Satã. SP, É Realizações, 2010, 320 pp. R$ 53,00 

domingo, 30 de dezembro de 2012

Virgínia Woolf, a medida da vida

O professor vienense Herbert Marder (1934), é professor emérito de inglês em renomada universidade norte-americana. Sempre gostou de Virgínia Woolf (1882/1941). Já havia escrito um livro sobre a autora, antes de empreender-se na interessante biografia dessa escritora magnífica, um dos pilares do romance moderno universal.
O biógrafo abre o livro, perguntando: por que há quem escreva biografias e por que há quem as leia? Bem, pode ser por uma busca de identidade, por rememorar quem fez ou criou estórias que se mantiveram vivas para a humanidade. O biógrafo é quase um romancista. A diferença está no fato de a personagem ser filha da imaginação do romancista, ao passo que para o biógrafo, o biografado transcende a imaginação para ser humano. O bom biógrafo busca seguir os passos do biografado, combinando um estilo discreto à tentativa de transmitir verdades emocionais, bem como históricas, sobre a pessoa e os fatos. Herbert Marder passou-me a sensação de ter sido honesto na busca de traçar o perfil de Virgínia Woolf. Não se ateve a comentar relações bissexuais esparsas que a autora teve com algumas mulheres, nem expôs as crises psicológicas que a escritora teve, foram inúmeras, de forma sensacionalista. Sua decisão de escrever essa biografia, ele explica, surgiu de um fascínio seu pelo modo como as pessoas mudam sob grande tensão. Assim, descreveu as mudanças por que Virgínia passou na década de 1930, seus esforços para se opor à insanidade coletiva sem tornar as coisas piores. A escritora vivenciou os ataques de Hitler sobre a Inglaterra, no início da segunda guerra mundial. Virgínia, entretanto, recusava-se a imitar o inimigo, respondendo à violência com resistência passiva e uma veemente indiferença, que alguns críticos denunciaram como parte do caráter alienado da escritora à política, o que não foi verdade, conforme o leitor vai verificar se ler a biografia. O biógrafo mapeou a interseção da evolução pessoal da escritora com os eventos históricos. Nesse caminho, o autor descobriu mudanças numa personalidade que, de início, nutria antigos preconceitos que cedia, às vezes, mas se reformulou. Vivendo numa sociedade elitizada, soube simpatizar com a classe trabalhadora pobre e sem educação.
Marder procurou ouvir o que Virginia Woolf realmente disse, não o que se esperaria que ela dissesse. Confiar, também, no próprio testemunho da escritora e traçar os motivos de sua criação artística, o cerne de sua identidade definido por suas próprias palavras. O autor teve acesso ao diário de Virgínia Woolf e a algumas cartas trocadas com pessoas próximas a elas. Virginia escrevia cartas e anotações de diário numa velocidade espantosa. Esses escritos, sem padronização e sem censura lhe deram a vívida impressão da personalidade da autora.
Dona de uma escritura refinadíssima, onde predomina o fluxo de consciência, quando as ações externas parecem ter menos valor que o processo de pensamento integral de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de idéias, quase toda sua obra é constituída de obras-primas. As que mais se destacam, sob meu ponto de vista, são Orlando e Mrs. Dalloway. Virgínia Woolf esteve sempre perto dos limites psicológicos extremos. Tinha transtorno bipolar. Durante anos mantivera sua doença sob controle, mas sabendo que sempre poderia voltar. Quando estava bem, sua energia era notável, mas quando sucumbia às crises, tinha fortes dores de cabeça e surtos de melancolia. Em março de 1941, após um colapso nervoso, ela conseguiu sair de casa sem ser vista e entrou no rio próximo a sua propriedade, para morrer afogada.
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Herbert Marder. Virginia Woolf, a medida da vida. SP, Cosac Naify, 2011, 584 pp. R$ 77,00 

domingo, 23 de dezembro de 2012

O ano da morte de Ricardo Reis


Eu tentava gostar de José Saramago algumas vezes, mas implicava sempre com sua sintaxe meio endurecida. Sentia falta de poesia em sua prosa, dádiva da linguagem ficcional. Seu texto me ecoa sem emoção, com objetividade quase total. O evangelho segundo Jesus Cristo não me agradou, larguei após a leitura de uma dezena de páginas. Ensaio sobre a cegueira eu gostei, havia certo dinamismo na ação. Ensaio sobre a lucidez eu li todo. Mas não gostei. Vi na tevê uma entrevista com a patrona de uma das feiras do livro de Porto Alegre, Jane Tutikian, em que ela dizia não gostar dos livros de Saramago pós-Prêmio Nobel. Mas afirmava gostar de sua fase anterior, com livros como O ano da morte de Ricardo Reis, que decidi ler, para ver se me penitenciava do ranço ao autor.
Ricardo Reis é um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo o poeta, teria nascido no Porto em 1887, estudado em colégio jesuíta e formado em medicina. Monárquico, auto-exilou-se no Brasil desde 1917.  Solteiro, evitava se apaixonar para não ter de sofrer. Aceitava, ainda as limitações e a fatalidade da condição humana. Latinista, de formação clássica, Ricardo Reis escrevia odes, buscando a serenidade da alma, sem medo de enfrentar a morte, vivendo cada instante como se fosse único, fugindo à dor, posto  que a razão sobrepunha-se sempre à emoção. Apresenta, em sua linguagem poética culta e precisa, muitas alusões à mitologia, em geral rica de ideias, com um caráter moralista.
Fernando Pessoa não nos informa a data da morte de Ricardo Reis. Isso serviu de pretexto para Saramago criar seu romance, com a volta de Ricardo Reis à Lisboa, em 1935, ano em que Fernando Pessoa faleceu. Sua morte ocorre em 1936, quando os sonhos monárquicos estão já enterrados e Salazar toma o poder, mergulhando Portugal numa ditadura fascista por 48 anos, até sua extinção em 1978, com a Revolução dos Cravos. Em toda sua vida, o Ricardo Reis de Saramago nunca assistira a um comício político. A causa dessa cultivada ignorância estaria nas particularidades do seu temperamento, na educação que recebeu, nos gostos clássicos com que se identificou, num certo pudor, também. Mas o alarido nacional, a guerra civil portuguesa, acordam-lhe no espírito uma pequenina chama de curiosidade.
A pedra no caminho da leitura do romance consistiu na separação do Ricardo Reis de Fernando Pessoa para o Ricardo Reis de Saramago. Durante toda a narrativa, eu cobrava uma prosa poética que não existiu, o Reis de Saramago pouco fala de sua poesia. O personagem de Saramago é um cidadão que vale pela profissão de médico, não de poeta. Ricardo Reis de Saramago tem relações afetivas não assumidas por diferenças de classe social e de cultura com a criada Lidia, de quem vai ter um filho. Também se interessa por Marcenda, uma jovem burguesa com deficiência física em um dos braços, mas a relação não se concretiza. Ricardo Reis dialoga com o espírito de seu criador, Fernando Pessoa, com quem tem digressões político-filosóficas.

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José Saramago. O ano da morte de Ricardo Reis. SP, Cia. Das Letras, 2011, 474 pp. R$ 59,00

domingo, 16 de dezembro de 2012

Retrato de uma senhora

Isabel é uma jovem norte-americana que vai para a Inglaterra com uma tia, também americana, mas que mora em Londres com o marido, já velho e doente. Essa tia tem um filho jovem e belo, que lhe faz a corte, assim como Lorde Warterburg, que se apaixona por ela e acaba lhe pedindo em casamento. A jovem recusa o pedido, de forma inesperada. Um dia, o primo pede ao pai a inclua no testamento, fazendo-a rica. O tio de Isabel morre e ela herda grande fortuna em dinheiro e acaba, aparentemente, casando-se sem amor com um homem sem posses que a cortejara por interesse.
Esse é o ponto de partida do romance de Henri James (1843/1916), escrito em 1881 que busca emparelhar valores do novo mundo com o do velho continente. A escrita do autor norte-americano que adotou cidadania britânica possui um estilo limpo, clássico, em que as ações externas pouco acontecem, para que a vida interior das personagens criem um clima que envolve o leitor de forma integral. Quando lemos Henri James, enxergamos a literatura de Virgínia Woolf e um pouco substancial de James Joyce na penumbra. Não é para menos, seus romances antecedem os desses autores, o quais tiveram influência confessa do fluxo de consciência, que surge a partir da obra do autor de Retrato de uma senhora.
A primeira idéia de Retrato de uma senhora parece ser confrontar o destino da jovem Isabel, seja ele qual for. A partir de então, o autor começa a formar um plano para trazer a personagem como figura central da trama. O que faz uma moça de espírito livre perder sua liberdade? Será que Isabel estará empenhada em viver com as consequências de sua escolha com integridade, ou como uma espécie de teimosia?

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Henry James. Retrato de uma senhora. SP, Companhia de Bolso, 2007, 680 pp. R$ 35,00

domingo, 9 de dezembro de 2012

O velho e o mar

O velho e o mar, de Ernst Hemmingway (1899/1961), relata um velho pescador em alto mar, que vai torturando um peixe grande aos poucos, para provar sua utilidade como pescador e sua força como ser humano. Depois de morto o peixe, vêm os tubarões, sentindo a carne do peixe morto, para devorá-lo. O velho mata todos eles, e não eram dois nem três bichos. Consegue chegar em terra firme com a carcaça do peixe já completamente devorado pelos tubarões. A prova de que havia pego um peixe grande havia sido conseguida. O velho, cansado da árdua luta, vai para casa e acaba adoecendo. Olivro de Hemmingway foi escrito em 1952 e, segundo a crítica, é a obra-prima do escritor norte-americano. Teria sido, essa novela, o motivo do Prêmio Nobel a ele. Os adeptos do conceito de preservar a natureza e nela incluindo os animais podem desgostar da luta desse velho solitário, que mata tubarões a torto e a direito para tentar preservar um único peixe morto. Na época de Hemingway, não havia essa consciência ecológica, ainda. Levemos em conta, que matar animais fazia (ainda faz) parte da cultura dita civilizada, tais como safáris na África etc.
Fazendo a releitura da obra, percebi que o tema da narrativa é a derrota. O velho no mar busca uma atitude de valor ético para enfrentá-la. No final, a morte e o nada. O velho pescador é um ser deprimido pelas contingências de sua velhice. Ninguém acredita em suas histórias de homem que pesca peixes graúdos. Seus colegas pescadores lhe zombam o que chamam ser sua fantasia de contador de histórias sem pé nem cabeça. Há um menino, entretanto, que lhe admira e que aprendeu muito com o velho. É esse menino que o incentiva a vencer o desafio de sua vida, que é provar seu valor como ser humano. Se fosse otimista, o velho pescador não teria voltado, sabe-se lá, derrotado. Acontece que o escritor Hemmingway não dava muitas chances a seus personagens de serem felizes.
Hemmingway bebeu do nihilismo e da descrença no ser humano decorrentes das guerras que assolaram o mundo na primeira metade do século XX. O escritor lutou na Espanha contra Franco. Era bom vivant, viveu em Paris nos primórdios do século XX ao lado de escritores estrangeiros consagrados que escolheram a capital francesa para viver, como Gertrude Stein e Samuel Beckett. Também morou cerca de 20 anos em Cuba. O cenário de O velho e o mar se passa no mar do caribe e seu velho pescador é um cubano. Autodestrutivo, era chegado ao fumo e ao álcool. Com hipertensão, diabético e depressivo, matou-se com uma arma de caça em 02/07/1961.

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Ernst Hemingway. O velho e o mar. 73ª Ed., RJ, Bertrand Brasil, 2011, 128pp. R$ 31,00

domingo, 2 de dezembro de 2012

O apanhador no campo de centeio


Holden, 16 anos, é um jovem com crise depressiva intensa motivada pelo fato de que ele se recusa a crescer. Ele nos conta sua história de uma clínica de reabilitação, onde está internado para se recuperar da crise. Desse presente ele mergulha numa série de acontecimentos envolvendo relacionamento com colegas do colégio interno, de onde foi expulso, tentativas frustradas com garotas e o uso abusivo do cigarro e do álcool. Os fatos narrados não se afastam muito do presente. Holden tenta, obstinadamente, evitar o confronto com os pais, gasta todo o dinheiro que tem e resolve, já perdido e sem grana, partir para a zona rural dos Estados Unidos para trabalhar em uma fazenda que ele não sabe dinheiro qual seja e nem se dará certo. Seu amor por  Phoebe, a irmã pequena, acaba fazendo ele se redimir e o que vemos, no final, é a volta ao começo, quando ele se interna para se recuperar.
Escrito no início da década de 50, período em que a juventude americana já começava a se desestruturar, colocando o pé na estrada com álcool, drogas e rodk’ll n roll, o romance de Salinger apresenta-nos um jovem que ainda não consegue se desprender da família ( embora queira fugir dela), porque precisa dela, ainda, para sobreviver.
O norte-americo Jerome David Salinger (1915/2010) fez parte de uma corrente de romancistas que enveredaram pelo romance que desenvolve personagens patológicos, separando-se, assim, do naturalismo social do romance que se vinha fazendo então. O apanhador no campo de centeio reflete, assim, preocupações psicológicas e sexuais de um jovem separado do mundo político, industrial e comercial norte-americano, entregue às suas angústias e procurando de forma caótica  uma forma de salvação individualista.
Salinger teve um sucesso estrondoso com seu romance. Além dele publicou alguns contos que foram reunidos em livro. E nada mais. Decidiu isolar-se do mundo, assim como Raduan Nassar fizera no Brasil, após publicar duas novelas memoráveis. Ninguém entendeu o silêncio de Salinger, porque ele não falou com ninguém sobre essa misteriosa saída da cena literária.

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D. J. Salinger. O apanhador no campo de centeio. 17ª ed., Petrópolis, Editora do Autor, 1999, 208 pp.  R$ 59,90

domingo, 25 de novembro de 2012

1968, o ano que não terminou

Devido à Verdade Tropical, só agora li 1968, o ano que não terminou. Estava guardado na estante, assim como outros, na fila de espera. Gostei muito do livro. Especialmente, porque em 1968 eu era um adolescente meio à deriva, que acompanhava os fatos conturbados do período sem a maturidade e a fundamentação necessária para compreendê-lo claramente.
O jornalista Zuenir Ventura abre o livro relembrando a festa de réveillon de 68 na casa da historiadora Heloísa Buarque de Hollanda e seu marido, onde pessoas elegantes e já descoladas pela revolução dos costumes, notadamente os costumes femininos, dão o clima “libertário” da alta sociedade carioca. Mas o livro envereda, mesmo, é para o caminho da luta  contra a ditadura durante o governo Costa e Silva, com a politização dos estudantes secundaristas e universitários, fazendo passeatas e protestos. A trajetória do livro acaba com o AI5, em dezembro daquele ano, suprimindo as liberdades individuais, impondo a censura, e a perseguição seguida de tortura e banimento do país. Isso seria a justificativa para a frase do título: “o ano que não terminou”.
A geração de 68 talvez tenha sido a última geração literária do Brasil, pelo menos no sentido de que seu aprendizado intelectual e sua percepção estética foram forjados pela leitura. Foi criada lendo, mais do que vendo televisão. As moças e rapazes de então já começavam a preferir o cinema e o rock, mas as suas cabeças tinham sido feitas basicamente pelos livros, que lhes deu o gosto da palavra argumentativa. E do palavrão, que passou a fazer parte da fala cotidiana, tomando conta, inclusive, do teatro da época. Na verdade, a geração de 68 teve com a linguagem escrita uma cumplicidade que a televisão não permitiria depois. O boom editorial do ano indica um tipo de demanda que se detinha de maneira especial em livros de densas ideias e em refinadas obras de ficção: Marx, Mao, Guevara, Luckács, Gramsci, James Joyce, Hermann Hesse, Norman Mailer e Marcuse. A editora Civilização Brasileira era a queridinha da época.
O livro encontra-se esgotado, mas é encontrado com facilidade em sebos.

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Zuenir Ventura. 1968, o ano que não terminou. 3ª ed, SP, Planeta, 2008, 288 pp.

domingo, 18 de novembro de 2012

Verdade tropical

Em 1991, Caetano Veloso estava preparando o lançamento do seu disco Circuladô e um de seus produtores pediu-lhe que escrevesse um artigo sobre Carmem Miranda, para circular na imprensa norte-americana. Caetano acabou fazendo o ensaio. Por causa do que esse texto sugeria sobre o tropicalismo, um editor de Nova Iorque sugeriu que ali se insinuava um livro. Apesar de relutar, inicialmente, o cantor pensou que talvez fosse uma oportunidade de valorizar e situar a experiência da música popular brasileira em termos mundiais. Assim nasceu Verdade tropical, um texto memória onde são descritos sua formação musical e o desenvolvimento de seu trabalho como cantor e compositor. Caetano fala também sobre períodos decisivos de sua vida pessoal, como a infância e a adolescência em Santo Amaro da Purificação, seu primeiro casamento com Dedé, sua amizade com Chico Buarque e Gilberto Gil, sua prisão em 68 e o exílio em Londres. Mas o foco acaba iluminando mesmo a música brasileira, sobretudo o tropicalismo, e sua relação com outras manifestações musicais, como a bossa nova, a jovem guarda e os festivais da canção. O autor reflete também sobre questões que eclodiram nas décadas de 60 e 70, como as drogas, a sexualidade e a ditadura.
Existe um livro com escritos de Caetano Veloso, Alegria, alegria, coletânea de textos, entrevistas e depoimentos, organizada pelo poeta Waly Salomão, lá pelo ano de 1979. Há mais dois lançamentos pela Cia. das Letras: O mundo não é chato, reunindo escritos para jornais, revistas, contracapas de discos ou que surgiram como prefácios e conferências, além de alguns textos inéditos, e Letra só/sobre as letras, trazendo 180 letras de canções de Caetano Veloso, organizadas pelo poeta Eucanaã Ferraz. O livro apresenta, também , comentários inéditos do compositor a respeito de seus versos, além de fotos e ilustrações. Antropofagia, lançado pela Penguin Compahia, é um dos capítulos de Verdade Tropical, lançado separadamente, em que o cantor e compositor comenta o encontro do movimento tropicalista com a poesia modernista, especialmente de Oswald de Andrade.

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Caetano Veloso. Verdade tropical. SP, Companhia de Bolso, 2008, 520 pp. R$ 29,50

sábado, 10 de novembro de 2012

Alice no País das Maravilhas

Nicolau Sevcenko, o tradutor da belíssima edição de Alice no País das maravilhas pela Editora Cosac Nayfi , conta-nos que Lewis Carroll(1832/1898) não gostava da forma organizada como a sociedade britânica estava submetida durante a era vitoriana, período em que viveu o autor. Para ele, nada de rotinas mecânicas, da disciplina que fazia as crianças repetir hábitos que as transformavam, mais tarde, em seres mecanizados preocupados com o trabalho e atividades condicionantes. Carroll queria ver crianças barulhentas, arteiras. Por causa disso, criou em Alice no País das Maravilhas, uma menina que via a realidade de forma diferente. Ao perseguir um coelho num jardim, cai, através de um buraco, num mundo repleto de fantasias, onde os animais falam, há rainhas más e duquesas boas. Alice diminui e cresce de tamanho algumas vezes, para participar de forma integral nesse mundo subterrâneo mágico, que é o mundo de sua imaginação. Alice não deixa de ser uma menina rebelde, que enfrenta com indignação as criaturas presunçosas, mal-humoradas e autoritárias do País das Maravilhas. Carroll, assim, subverte o moralismo cultural e a moral puritana de sua época, que não tolerava desvios de comportamento. Para mudar esse cenário, o autor de Alice focou suas histórias no território encantado, imaginativo e lúcido das crianças, satirizando o mundo dos adultos, suas maneiras afetadas, sua seriedade aborrecida, seus preconceitos e sua arrogância autoritária e indolente.
Alice no País das Maravilhas é um livro maravilhoso e divertido. Acompanham a história as belíssimas ilustrações de Luiz Zerbini, que fazem suas criaturas criar aderência, a partir de cartas de baralho, tomando vida. É um livro para crianças especiais, aquelas cujos pais lhes propiciam o aconchego silencioso necessário para emocionar-se com a leitura de Alice. Alice é livro que os adultos devem ler e reler, pois trata-se de obra-prima.
O filme de Tim Burton misturou as personagens de Alice no País das Maravilhas com as de Alice através do espelho, colocando Alice como uma jovem de 19 anos que se recusa a casar-se sem amor. O filme não tem a magia que o livro proporciona.
Há outras traduções de Alice em outras editoras, com preços menores. Esse da Cosac Naify, entretanto, vale o preço. É obra de arte.
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Lewis Carroll. Alice no País das Maravilhas. SP, Cosac Naify, 2009, 168pp. R$ 49,00

sábado, 3 de novembro de 2012

Bili com limão verde na mão


Bili com limão verde na mão, de Décio Pignatari (1927), oferece a possibilidade de várias leituras. Tem ilustrações maravilhosas do premiado ilustrador Daniel Bueno e apresenta o primor estético que caracteriza o estilo concretista do poeta Décio Pignatari. O poema sugere através de palavras, muitas delas aparentemente soltas, imagens carregadas de sons e sensações. Belisa é Bili, Bélica, Bárbara, Bipolar, Biruta, Biônica, Biotônica, à Beça. No degrau mais alto da escada do alpendre, pernas abertas, mão no queixo, Bili, leve e levada abre a boca e diz: “por tudo aquilo que eu sei e que eu não sei, com quase treze anos, a minha vida não está legal”. E ela põe as pernas pra-que-te-quero, saindo de casa, passando pela cidade, cruzando por figuras pitorescas que as crianças de hoje talvez venham a conhecer só no mundo da imaginação (ainda que nós, adultos, a tenhamos vivenciado em nossa infância), dirige-se ao sítio do avô. Chegando, um limão verde cai do nada a seus pés. Este é o ponto de partida para a belíssima história do poeta Décio Pignatari, que mescla prosa poética e poesia, valorizando a palavra no espaço da folha do livro de forma variada e criativa.
Tenho acompanhado meio de perto a presença do livro na vida das crianças e percebo que essas têm liberdade para ler o que querem, do jeito que querem. O estilo individualista da sociedade contemporânea me parece que afastou os pais de participar com o diálogo formador na escolha dos livros de leitura infantil. Essa maravilha que é Bili com limão verde na mão dificilmente cairá nas mãos das crianças, se os pais não lhe facilitarem a oportunidade para que isso aconteça. Hoje o foco da criança na escolha da leitura está nas histórias de terror, muito em voga devido à influência dos videogames e do audiovisual que a mídia trata de fomentar na tevê e nos cinemas para atender ao público infantil . É bacana  a criança ter o poder de escolha do que quer ler, mas é importante a mediação dos pais para trabalhar naquela zona de inteligência entre o que a criança já sabe e o que ela ainda não conhece, mas tem condições de saber, através da aproximação de bom conteúdo de leitura que os pais, como educadores, podem e devem prover a seus filhos. É importante, aos que presenteiam livros infantis, buscar conhecer seus autores, a qualidade editorial da obra, o texto apresentado, para poder dialogar com a criança. Os pais devem, no meu ponto de vista, assumir a responsabilidade pela qualidade da leitura de seus filhos. Isso não traumatiza.
Décio Pignatari, Augusto de campos e Haroldo de campos iniciaram, a partir de 1952, a articulação da chamada poesia concretista, como reação à poesia rigorosamente formal e intelectualizada da geração de 45. Com isso, filiaram-se às experiências mais ousadas das vanguardas europeias do século XX. A poesia concretista desses autores tem como característica a valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica) que se fragmenta e recompõe na página; o espaço gráfico como agente estrutural do poema; a utilização de recursos tipográficos.
Veja esse poema de Décio Pignatari, onde a linguagem sintética está associada ao dinamismo da sociedade industrial, de que o poema faz uma crítica ácida:

beba coca cola
babe          cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
          C l o a c a

Bili com limão verde na mão tem edição luxuosa da Cosac Naify, especializada em livros de arte. Seu filho merece ganhá-lo. Mas acho que você vai gostar demais do livro, também. O meu, comprei para dá-lo de presente, mas fiquei com ele pra mim.

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Décio Pignatari. Bili com limão verde na mão. SP, Cosac Naify, 2008, 80 pp. R$ 49,90

domingo, 28 de outubro de 2012

Os embaixadores

Henry James (1843/1916) nasceu em Nova Iorque e morreu em Londres, tendo, inclusive, adquirido naturalidade inglesa. Foi um virtuose do estilo literário, usando-se de imagens poéticas e sintaxe primorosa. Escreveu inúmeros romances, além de peças de teatro. Entre os romances, destacam-se, em português, A taça de ouro, Retrato de uma Senhora e A volta do Parafuso. Seus prefácios aos principais romances, que foram reeditados em edição de luxo antes de sua morte, tornaram-se famosos, influenciando profundamente parte da crítica literária internacional.
Lewis Lambert Strether, o protagonista de Os Embaixadores, tem 55 anos. Perdeu a mulher e o filho há anos e sente, até o momento, a culpa pela morte deles. Está envolvido com a Sra. Newsome, viúva rica que financia a revista que ele edita. Essa senhora resolve enviá-lo a Paris, para encontrar o filho dela, Chad, que estaria se desencaminhando na cidade-luz, e trazê-lo de volta para Massachusetts. Se isso fosse feito, a sra. Newsome casar-se-ia com Strether. Ela escolhera Strether como embaixador, não só porque era velho amigo de confiança da família, mas também para testar a sua lealdade. Por outro lado, Strether, casando-se com a viúva, herdaria uma grande fortuna, garantindo seu status na classe alta de sua comunidade. Ao estabelecer-se temporariamente em Paris, entretanto, começa a perceber a vida pacata e entrincheirada em que vivia e começa a expandir seus horizontes. Constata, ainda, que Chad não está perdido como sua mãe supunha, ainda que esteja se relacionando com uma senhora mais velha e casada. Strether resolve, então, incentivar o jovem Chad a viver a vida em toda sua plenitude, gozando todas suas oportunidades. A delicada inteligência crítica de Strether é acompanhada por uma generosidade moral em favor dos outros, juntando-se a isso um senso obsessivo sobre seus conflitos pessoais. Em Paris, torna-se amigo da jovem Maria Gostrey, com quem tem diálogos profundos sobre as incertezas e a beleza da vida. No final do romance ele retorna à cidade de origem, mas sente que já não é o mesmo de antes. Há esperança.
Romance muito bem escrito e incessantemente retrabalhado por Henry James, foi considerado pelo próprio escritor como sua melhor obra. Nele se desenvolve uma técnica narrativa chamada de fluxo de consciência, em que o escritor apresenta o ponto de vista de Strether, através do exame profundo de seus processos mentais, diluindo as distinções entre consciente e inconsciente, realidade e desejo, as lembranças da personagem e a situação presentemente narrada, etc. Clarice Lispector, Dostoievski, Tolstoi, Beckett, Faulkner, Virgínia Woolf, além de Joyce, usavam e abusavam desse estilo tão característico do romance moderno.

                                                                                    paulinhopoa2003@yahoo.com.br

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Henry James. Os embaixadores. SP, Cosac Naify, 2010, 608 pp. R$ 110,00