domingo, 18 de dezembro de 2016

3. A Divina Comédia

O linguista alemão Harald Weinrich nos fala em seu livro Lete, arte e crítica do esquecimento (tradução de Lya Luft pela Civilização Brasileira) que "A morte é o mais poderoso agente do esquecimento. Mas não é onipotente. Pois os homens desde sempre ergueram trincheiras de recordação contra o esquecimento na morte, de modo que rastros que fazem concluir a existência de uma memória dos mortos são considerados por arqueólogos e estudiosos da história os mais seguros sinais de que existiu uma civilização humana. Os rituais de culto aos mortos, com seus pedidos, sacrifícios e ofertas nos túmulos, em muitos casos servem em primeiro lugar para assegurar aos mortos um certo bem-estar no Além. Mas os monumentos fúnebres fitam os vivos exortando-os a não esquecerem os seus mortos, e mesmo assim, às vezes a esquecê-los um pouco, porque "a vida continua".

Portanto, o tempo se liga antes com o esquecer do que com o lembrar. Mas quando os poetas abordam a memória dos mortos o esquecimento não pode mais realizar seu jogo costumeiro com a memória humana. Ter mostrado isso em perfeição clássica é privilégio de um dos maiores poetas da literatura mundial, Dante, que ergueu em torno da memória dos mortos - sempre ameaçada pelo esquecimento - a duradoura catedral da sua Divina Comédia. Dante Alighieri (1265-1321) escreveu essa obra em cem cantos de 14.233 versos no começo do século XIV, quando ele próprio fora banido da cidade natal e estava ameaçado de esquecimento no exílio.

A Divina comédia é o relato da salvação da alma de seu autor, Dante. Ele descreve uma jornada épica através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso que culmina numa série de visões que lhe revelam o sentido final da criação de Deus. O poeta romano Virgílio, autor da Eneida, é o guia de Dante pelos nove círculos do Inferno e pelos sete terraços do Purgatório, mas, quando os dois chegam ao Jardim do Éden, situado no topo da montanha do Purgatório, Virgílio vai embora e Dante se reencontra com Beatriz, a mulher morta que ele ainda adora, e é ela que o conduz através dos nove céus do Paraíso até o plano da Presença Absoluta de Deus, para além do espaço e do tempo. Lá, por fim, é concebida a Dante uma visão da Rosa do Justo, formada pelas almas daqueles que conquistaram a salvação.  De repente, Dante nota que Beatriz não está mais com ele; ele grita de consternação, mas então a vê no lugar designado para ela, em um dos círculos da rosa mística. Beatriz sorri para ele uma última vez, antes de virar-se para  contemplar em êxtase a fonte do amor eterno de Deus.

Beatriz é a personagem que desempenha um papel providencial no início e no desenrolar do poema de Dante. Graças à intersecção dela, Deus permite que Dante empreenda a jornada e é ela também que propicia a inspiração para a composição do poema que revelará o destino pessoal de Dante e oferecerá um sentido final para a existência do homem na terra. Quem era, então, Beatriz? Trata-sede Bice Portinari, que diz ter visto pela primeira vez quando tinha nove anos de idade e tê-la revisto só nove anos depois, quando se negou a reconhecê-lo. Essa rejeição fez com que Dante sublimasse seu amor por Beatriz,um processo que continuou mesmo depois que ela se casou com outro homem. Após sua morte, o amor de Dante tornou-se totalmente espiritual. (1)

A melhor tradução de A Divina Comédia, segundo os críticos, parece ser a de João Trentino Ziller, pela editora Unicamp/Ateliê, com desenhos de Botticelli.  Mas, a obra encontra-se esgotada. A tradução que eu li é de Ítalo Eugenio Mauro, em edição bilíngue,  em 3 volumes, da Editora 34.
Depois de conhecer universo de Dante, recomento a leitura de Nove cartas  sobre A Divina Comédia, de Marco Lucchesi, estudioso da obra do poeta italiano, pela Editora Casa da Palavra. Escrito em formato de cartas,  é um convite para uma viagem reveladora pelo universo poderoso da poesia e também da filosofia, história e religião,  a partir dA Divina Comédia.
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(1) Edwin Williamson in Borges, uma vida. Companhia das Letras. Trad. Pedro Maia Soares

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